Anita Blake 10 Narcissus Preso por Laurell K. Hamilton - Versão HTML

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Sinopse

Anita Blake sobreviveu a um ataque sobrenatural, diferente de todos que já tinha

enfrentado antes e fê-lo sem os dois homens de sua vida.

Agora, seis meses se passaram desde que Anita viu Jean-Claude ou Richard. Seis

meses de celibato. Seis meses de indecisão. Seis meses de perigo. Seu corpo carrega as

marcas de ambos, vampiros e lobisomens, e até o triunvirato ser consumado, os três

permanecem vulneráveis.

Mas quando alvos inocentes, que Anita jurou proteger, são sequestrados ela

precisará de toda a ajuda que ela puder ter. Em uma união de abalar a terra, Anita, Jean-

Claude, e Richard mesclam as marcas - e se fundem entre si. De repente, Anita pode

aproveitar os seus poderes. Ela pode sentir seu coração... ouvir seus pensamentos...

conhecer os seus anseios....

Nada pode salvar Anita de uma reviravolta do destino que atrai ela cada vez mais

à beira da humanidade - para finalmente se render à sede de sangue, a besta eo desejo

transformar seu corpo e consumir sua alma.

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Capítulo 1

Junho tinha chegado com o calor de sempre, mas uma frente fria anormal havia

se movido durante a noite e o rádio do carro estava cheio de noticias sobre a baixa

temperatura. Estava apenas nos 15 graus, nem era tão frio e eu estava sentada no meu

Jeep, com as janelas abaixadas, deixando o ar gelado passar por nós. Ronnie tinha feito

trinta anos hoje à noite. Nós estávamos falando sobre como ela se sentia sobre o grande

3-0 e mais coisas de garotas. Considerando que ela era uma detetive particular e eu

levantava mortos para viver, era uma conversa bastante normal. Sexo, homens, fazer 30

anos, vampiros, lobisomens. Você sabe, o de sempre.

Nós poderíamos ter entrado na minha casa, mas havia algo na intimidade de um

carro depois que escurecia que te fazia querer ficar mais tempo. Ou talvez fosse o cheiro

doce do ar de primavera entrando pela janela como uma carícia de algum amor semi-

lembrado.

— Ok, então ele é um lobisomem. Ninguém é perfeito. — Ronnie disse. —

Namore com ele, durma com ele, case com ele. Meu voto é para o Richard.

— Eu sei que você não gosta do Jean-Claude.

— Não gosto dele!— Suas mãos agarraram a maçaneta da porta do passageiro,

apertando até que eu pude ver a tensão em seus ombros. Eu acho que ela estava contando

até dez.

— Se eu tivesse a sua facilidade em matar, eu teria matado aquele filho da puta

dois anos atrás e sua vida seria extremamente menos complicada agora.

A última parte era um fato. Mas... — Eu não o quero morto, Ronnie.

— Ele é um vampiro, Anita. Ele está morto. — Ela se virou e me olhou no

escuro. Seu suave cabelo loiro havia ficado cinza, quase branco na luz fria das estrelas. As

sombras e reflexos de luz em seu rosto o deixavam como uma pintura moderna. Mas o

olhar em seu rosto era quase assustador. Havia uma determinação temível ali. Se esse

olhar estivesse em meu rosto, eu teria me avisado para não fazer nada idiota, como matar

Jean-Claude. Mas Ronnie não era uma atiradora. Ela tinha matado duas vezes, ambas

para salvar a minha vida.

Eu devia a ela. Mas ela não era uma pessoa que poderia caçar alguém a sangue

frio e matá-lo. Nem mesmo um vampiro. Eu sabia disso sobre ela, então eu não tive que

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dar nenhum aviso de precaução para ela. — Eu costumava pensar que sabia o que era

morto ou não, Ronnie. — Eu balancei minha cabeça. — A linha não é tão fácil de se

dividir.

— Ele te seduz. — Ela disse.

Eu olhei para longe de seu rosto bravo e encarei o embrulho de cisne em meu

colo. Deirdorfs & Hart, onde jantamos, eram criativos com suas sacolas de embrulho:

dobraduras animais.

Eu não podia discutir com Ronnie, e eu estava ficando cansada de tentar.

Finalmente eu disse, — Todo namorado seduz você, Ronnie, é assim que

funciona.

Ela bateu suas mãos tão fortes no painel que me chamou minha atenção e deveria

ter machucado ela.

— Droga, Anita. Não é o mesmo.

Eu estava começando a ficar brava, e eu não queria ficar brava, não com Ronnie.

Eu a tinha levado para jantar para fazer com que ela se sentisse melhor, não para brigar.

Louis Fane, seu namorado fixo, estava fora da cidade em uma conferencia e ela estava

mal com isso, e com fazer trinta anos. Então eu tentei fazer com que ela ficasse melhor, e

ela parecia determinada a me fazer ficar pior.

— Olha, eu não tenho visto nem o Jean-Claude nem o Richard por seis meses. Eu

não estou namorando nenhum deles, então podemos pular a leitura da ética dos

vampiros.

— Agora, isso é contraditório. — Ela disse.

— O que? — Eu perguntei.

— Ética dos vampiros. — Ela disse.

Eu franzi a testa para ela. — Isso não é justo, Ronnie.

— Você é uma executora de vampiros, Anita. Você é aquela que me ensinou que

eles não são apenas pessoas com presas. Eles são monstros.

Eu já tinha tido o suficiente. Eu abri a porta e comecei a sair do carro. Ronnie

segurou meu ombro. — Anita me desculpe. Eu sinto muito. Por favor, não fique brava.

Eu não me virei. Eu me sentei ali com meus pés do lado de fora, o ar gelado se

movendo sigilosamente no calor íntimo do carro.

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— Então esquece isso, Ronnie. Esquece mesmo.

Ela se inclinou e me deu um rápido abraço por trás. — Desculpe-me. Não é da

minha conta com quem você dorme.

Eu me inclinei contra o abraço por um momento. — Você está certa, não é. —

Então eu me afastei e saí do carro. Meu salto alto fazia barulho no chão da rua. Ronnie

quis que nos arrumássemos, então nos arrumamos. Era o aniversário dela. Foi antes do

jantar que eu percebi seu esquema diabólico. Ela me fez usar saltos e um pequeno e belo

vestido preto. A parte de cima era na verdade, surpresa, um colete justo. Ou seria um

corpete noturno? Seja o que fosse, ainda era uma saia muito curta e um top muito justo.

Ronnie tinha me ajudado a escolher a roupa algumas semanas atrás. Eu deveria ter

percebido que seu inocente “ah, vamos nos arrumar” era uma artimanha. Havia outros

vestidos que cobriam mais pele e eram mais compridos, mas nenhum deles camuflava o

coldre de cinto que estava na minha cintura. Eu na verdade levei o coldre conosco até a

ida ao shopping, apenas pra ter certeza. Ponto final.

A saia era folgada o suficiente e preta o suficiente para esconder o fato que eu

estava usando o coldre e a Firestar 9 mm. O tecido da parte de cima, o pouco que tinha,

era pesado o suficiente para que não fosse possível ver o cabo da arma por baixo da

roupa. Tudo que eu tinha que fazer era desabotoar o primeiro botão do top e a arma

estava logo ali, pronta para manuseio. Era o vestido mais amigável, modestamente

falando, que eu tinha. Fez-me querer que eles tivessem feito ele com cores diferentes,

então eu teria dois dele.

O plano de Ronnie era ir a um clube em seu aniversário. Um clube de dança.

Eca. Eu nunca ia a clubes. Eu não dançava. Mas eu fui com ela. Sim, ela me levou até a

pista, principalmente porque ela dançando sozinha estava chamando atenção demais de

homens indesejáveis. Pelo menos com nós duas dançando juntas, os metidos a Casanova

mantinham distância. Se bem que dizer que eu estava dançando é algo errôneo. Eu parei

ali e meio que me cambaleava. Ronnie dançava. Ela dançava como se fosse a última noite

na Terra e ela tivesse que usar todos seus músculos. Era espetacular, e um pouco

assustador. Havia algo quase desesperado naquilo, como se Ronnie sentisse a mão fria do

tempo se movendo nela cada vez mais rápido. Ou talvez fosse apenas eu projetando nela

minhas próprias inseguranças. Eu tinha feito 26 anos no começo do ano, e francamente,

do jeito que eu estava indo, provavelmente não teria que me preocupar em lidar com os

trinta. Morte cura todas as coisas incômodas. Bom, a maioria delas.

Teve um homem que se jogou para cima de mim em vez de Ronnie. Eu não

entendi por que. Ela era a loira alta de pernas compridas dançando como se estivesse

fazendo sexo com a música. Mas ele me ofereceu uma bebida. Eu não bebo. Ele tentou

uma dança lenta. Eu recusei. Eu finalmente tive que ser rude. Ronnie me disse para

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dançar com ele, pelo menos ele era humano. Eu disse a ela que sua cota de comentários

desnecessários de aniversário tinha acabado.

A última coisa em nome de Deus criador da Terra que eu precisava era de outro

homem na minha vida. Eu não tinha nem uma pista sobre o que fazer com os dois que eu

já tinha. O fato de que eles eram, respectivamente, um Vampiro Mestre e um Ulfric, rei

lobisomem, era parte do problema. Esse fato sozinho já te deixa saber o buraco profundo

que eu estava cavando. Ou eu já tinha cavado? É, eu já tinha cavado. Eu estava quase na

China e ainda estava jogando terra pelo ar.

Eu estava em celibato por seis meses. E, pelo que eu sabia, eles também. Todo

mundo estava esperando eu me decidir. Esperando eu escolher, ou fazer algo, qualquer

coisa. Eu estava sendo uma rocha por meio ano porque eu estava me mantenho longe

deles. Eu não tinha visto eles pessoalmente. Eu não retornei nenhum telefonema. Eu

tinha fugido para as colinas na primeira oportunidade.

Pra que medidas tão drásticas? Francamente porque quase todas as vezes que eu

os via, eu sentia minha castidade vacilar. Os dois tinham minha libido, mas eu estava

tentando decidir quem tinha meu coração. Eu ainda não sabia.

A única coisa que eu tinha decidido era que era hora de parar de fugir. Eu tinha

de ver os dois e descobrir o que íamos fazer. Eu decidi duas semanas atrás que eu tinha

que vê-los. Foi o dia que eu recomecei a tomar pílulas anticoncepcionais. Essa foi a

primeira coisa que eu pensei quando pensei em Richard e Jean-Claude e te diz algo sobre

o efeito que eles tinham em mim. Você tinha que estar tomando a pílula por pelo menos

um mês para ser seguro, ou quão seguro possível. Quatro semanas, cinco, pra ter certeza,

e eu ligaria para eles. Talvez.

Eu ouvi o salto de Ronnie correndo na rua. — Anita, Anita, espere, não fique

brava.

A coisa era que eu não estava brava com ela. Eu estava brava comigo. Brava por

depois de todos esses meses eu ainda não conseguir decidir entre dois homens.

Eu parei de andar e a esperei, confusa na minha pequena saia preta, o pequeno

embrulho de cisne na minha mão. A noite tinha ficado fria o suficiente para me fazer

desejar ter uma jaqueta. Quando Ronnie me alcançou eu comecei a andar novamente.

— Eu não estou brava, Ronnie, apenas cansada. Cansada de você, minha família,

Dolph, Zerbrowsky, de todo mundo ser tão malditamente julgador. — Meu salto batia na

calçada em um som alto e cortante. Jean-Claude uma vez disse que ele podia dizer se eu

estava brava apenas pelo som do meu salto batendo no chão.

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— Cuidado onde pisa. Você está usando saltos maiores que os meus. — Ronnie

media 1,72m de altura, o que quer dizer que com seus saltos ela media quase 1,82m.

Eu estava usando salto de cinco centímetros, o que me deixava com 1,65m. Eu

era muito melhor em corrida, quando corríamos juntas, do que ela.

O telefone estava tocando no momento que estava pegando as chaves e

equilibrando o embrulho. Ronnie pegou o embrulho e eu empurrei a porta com meu

ombro. Eu estava correndo com meus saltos antes de lembrar que estava de férias. O que

quer dizer que seja lá qual fosse a emergência as 02h05min da madrugada, não era

problema meu, não por mais duas semanas pelo menos. Mas hábitos antigos são difíceis

de corrigir, e eu estava do lado do telefone antes de me lembrar disso. Eu na verdade

deixei a secretária eletrônica pegar a mensagem enquanto eu estava parada ali, coração

batendo rápido. Eu estava planejando ignorar, mas... mas eu ainda fiquei ali pronta para

pegar o telefone, só no caso.

Música de batida alta e a voz de um homem. Eu não reconheci a musica, mas

reconheci a voz. — Anita, é o Gregory. Nathaniel está com problemas.

Gregory era um dos homens-leopardos que eu herdei quando matei o alfa deles,

o líder deles. Como eu era humana, eu não estava realmente com a vaga, mas até que

arranjassem um, mesmo eu era melhor do que nada. Metamorfos sem um dominante

para protegê-los eram comida de todo mundo, e se alguém chegasse e os massacrassem,

iria ser meio que minha culpa. Então eu agia como protetora deles, mas o trabalho era

mais complicado do que eu tinha pensado.

Nathaniel era o problema. Todos os outros estavam reconstruindo suas vidas

desde que o antigo líder tinha sido morto, mas não Nathaniel. Ele tinha tido uma vida

dura: abusado, estuprado, prostituído e montado. Montado significava que ele tinha sido

o escravo de alguém — de sexo e dor. Ele era um dos poucos verdadeiramente submissos

que eu tinha conhecido, se bem que, honestamente, minha lista de conhecidos era curta.

Eu xinguei suavemente e peguei o telefone. — Estou aqui, Gregory, o que foi

agora? — Mesmo para mim minha voz soava cansada e meio brava.

— Se eu tivesse pra quem mais ligar, Anita, eu ligaria, mas teve que ser você. —

Ele soava cansado e bravo também. Ótimo.

— Onde está Elizabeth? Ela deveria estar segurando as rédeas de Nathaniel hoje

a noite. — Eu finalmente tinha concordado que o Nathaniel podia começar a ir em

clubes de dominância e submissão, com a companhia de Elizabeth ou pelo menos um

outro leopardo. Hoje era para Gregory estar tomando conta dele, mas sem Elizabeth,

Gregory não era dominante o suficiente para manter Nathaniel seguro.

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Um submisso comum teria ficado seguro em um clube com alguém para dizer

simplesmente “não obrigada, nós dispensamos”. Mas Nathaniel era um daqueles raros

submissos que eram quase incapazes de falar não, e havia indícios de que sua ideia de dor

e sexo era bem extrema. O que queria dizer que ele poderia dizer sim para coisas muito,

muito ruins para ele. Metamorfos podem levar um bocado de dano e não ficar

machucados permanentemente, mas havia um limite. Uma pessoa saudável diria pare

quando tivesse sido demais ou ele sentisse que algo de ruim aconteceu, mas Nathaniel

não era saudável assim. Então ele tinha babás com ele para ter certeza que nada de mal

iria acontecer com ele. Mas era mais do que isso. Um bom dominante confiava em seu

submisso para dizer quando o dano está sendo demais. O dominante confiava no

submisso para saber sobre seu próprio corpo e ter autopreservação o suficiente para dizer

quando ele tinha passado do limite de seu corpo. Nathaniel não veio com

autopreservação, o que quer dizer que um dominante com as melhores intenções poderia

acabar machucando ele seriamente antes de perceber que o Nathaniel não iria se ajudar.

Eu na verdade tinha acompanhado Nathaniel algumas vezes. Como sua Nimir-ra

era meio que meu trabalho acompanhar meu possível... adotado. Eu tinha ido preparada

para ir a clubes que eram piores que o inferno e tinha sido agradavelmente surpreendida.

Eu tive mais problemas com propostas sexuais em um bar normal num sábado à noite.

Nos clubes todos eram muito cuidadosos em não se impor a você ou pressionar. Era uma

pequena comunidade, e se você ganhasse uma reputação por ser detestável, você poderia

acabar na lista negra com ninguém para se divertir. Eu descobri que as pessoas lá eram

educadas e uma vez que você deixasse claro que não queria brincar, ninguém te

incomodava, exceto turistas. Turistas eram posers, pessoas que não faziam parte

realmente daquilo, que gostavam de se vestir e frequentar clubes. Eles não conheciam as

regras e não se incomodavam em perguntar. Eles provavelmente pensaram que uma

mulher que ia a lugares assim faria qualquer coisa. Eu mostrei a eles que estavam

enganados.

Mas eu tive que parar de ir com Nathaniel. Os outros leopardos disseram que eu

mandava muitas vibrações dominantes, então nenhum dominante nunca iria se

aproximar de Nathaniel enquanto eu estava com ele. Se bem que tivemos propostas de

ménage a trois de todos os tipos. Eu me senti como se precisasse de uma placa de que

dizia, — Não, eu não quero participar de bondage a três com você, obrigada por

perguntar, de qualquer forma.

Elizabeth supostamente era uma dominante, mas não muito para levar Nathaniel

e impedir que ele conseguisse um... encontro.

— Elizabeth foi embora. — Gregory disse.

— Sem Nathaniel? — Eu fiz disso uma pergunta.

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— Sim.

— Bem, isso definitivamente esfria meu bacon. — Eu disse.

— O que? — Ele perguntou.

— Eu estou brava com Elizabeth.

— Tem mais. — Ele disse.

— Quanto mais pode ter, Gregory? Vocês todos me asseguraram que esses clubes

eram seguros. Um pouco de bondage, um pouco de tapa e beijo. Vocês todos me

convenceram que eu não podia manter Nathaniel longe disso para sempre. Você disse

que eles tinham jeitos de monitorar a área, então ninguém poderia ser machucado. Foi

isso que você e Zane e Cherry me disseram. Inferno, eu vi por mim mesma. Há

monitores de segurança pra todo lado, é mais seguro que alguns encontros que eu tive,

então o que possivelmente pode ter dado errado?

— Nós não poderíamos ter antecipado isso. — Ele disse.

— Apenas diga logo o que foi, Gregory, as preliminares estão ficando tediosas.

Houve um silencio por mais tempo que deveria, apenas a música alta no fundo.

— Gregory, você ainda está aí?

— Gregory está indisposto. — A voz de um homem disse.

— Quem é você?

— Eu sou Marco, se isso te ajuda, se bem que eu duvido disso. — Sua voz era

culta — americana e rabugenta.

— Novo na cidade, não é? — Eu perguntei.

— Algo assim. — Ele disse.

— Bem vindo a cidade. Tenha certeza de visitar o Arco enquanto está aqui, é

uma bela vista. Mas o que a sua recente chegada em St. Louis tem a ver comigo e com os

meus?

— Nós não percebemos que ele era seu bichinho no começo. Ele não era quem

estávamos caçando, mas agora que o temos, nós vamos mantê-lo conosco.

— Você não pode „manter‟ ele. — Eu disse.

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— Venha aqui e resgate ele de nós, se você puder. — Aquela estranha voz suave

fez a ameaça ser mais que efetiva. Não havia raiva, não era nada pessoal. Soava como

negócios e eu não tinha pista nenhuma sobre o que se tratava.

— Coloque Gregory na linha. — Eu disse.

— Eu acho que não. Ele está aproveitando um tempo pessoal com meus amigos

agora.

— Como eu vou saber que ele ainda está vivo? — Minha voz estava tão sem

emoção como a dele. Eu não estava sentindo nada agora; era recente demais, inesperado

demais, como chegar no meio de um filme.

— Ninguém está morto, ainda. — O homem disse.

— Como eu vou saber isso?

Ele ficou quieto por um segundo, então, — Com que tipo de pessoa você está

acostumada a lidar, que a primeira coisa que você pergunta é se eu o matei?

— Tem sido um ano difícil. Agora coloque Gregory no telefone, porque até eu

saber que ele está vivo, e ele me disser que os outros também estão, essa negociação está

suspensa.

— Como você sabe que íamos negociar? — Marco perguntou.

— Chame de pressentimento.

— Caramba, você é direta.

— Você não tem ideia sobre a quão direta eu posso ser, Marco. Coloque Gregory

na linha.

Houve um silencio cheio de música e mais música, mas nada de vozes. —

Gregory, Gregory, você está aí? Tem alguém aí? — Merda, eu pensei.

— Eu temo que seu gatinho não vá engatinhar para nós. Questão de orgulho, eu

acho.

— Coloque o telefone em seu ouvido e me deixe falar com ele.

— Como quiser.

Mais da música alta. Eu falei como se tivesse certeza que Gregory estava ouvindo.

— Gregory, eu preciso saber se está vivo. Eu preciso saber se o Nathaniel e todo o resto

estão vivos. Converse comigo, Gregory.

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Sua voz veio apertada, como se estivesse saindo por entre os dentes. — Sssssim.

— Sim, o que, eles estão vivos?

— Sssim.

— O que eles estão fazendo com você?

Ele gritou no telefone, e o som levantou os pelos da minha nuca e desceu pelos

meus braços. O som parou de repente. — Gregory, Gregory!— Eu estava gritando contra

a batida tecno da musica, mas ninguém respondia.

Marco voltou para a linha. — Eles estão todos vivos, se não bem. A quem eles

chamam de Nathaniel é um adorável jovem, todo aquele cabelo longo e ruivo e os olhos

violetas mais extraordinários. Tão lindo, seria uma pena arruinar toda essa beleza. Mas é

claro, esse aqui é adorável também, loiro de olhos azuis. Alguém me contou que os dois

trabalham como strippers. É verdade?

Eu não estava anestesiada mais, eu estava assustada, e com raiva, e ainda assim

não tinha nenhuma pista sobre o porquê disso estar acontecendo. Minha voz saiu quase

plana, quase calma. — Sim, é verdade. Você é novo na cidade, Marco, então não me

conhece. Mas confie em mim, você não quer fazer isso.

— Talvez não, mas meu alfa quer.

Ah, políticas metamorfas. Eu odiava política metaformas. — Por quê? Os

leopardos não são ameaça para ninguém.

— Nossas razões não são por que, nossas razões são fazer e morrer.

Um sequestrador literário, reconfortante. — O que você quer, Marco?

— Meu alfa quer que você venha aqui resgatar seus gatos, se conseguir.

— Que clube você está?

— Narcissus in Chains. — E ele desligou.

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Capítulo 2

— DROGA!

— O que aconteceu? — Ronnie perguntou. Eu quase tinha me esquecido dela.

Ela não pertencia a essa parte da minha vida, mas ali estava ela, encostada contra o

armário da cozinha, analisando o meu rosto, parecendo preocupada.

— Eu cuido disso.

Ela pegou meu braço. — Você me deu esse discurso de querer seus amigos de

volta, sobre não nos querer afastados. Você quis dizer isso, ou estava só falando?

Eu respirei profundamente. Eu contei a ela sobre o que a conversa tinha sido.

— E você não tem idéia do por que disso? — Ela perguntou.

— Não, não tenho.

— Isso é estranho. Normalmente coisas assim têm um começo, não surge do

nada.

Eu assenti. — Eu sei.

— Asterisco 69 disca de volta o número que te ligou, seja qual for.

— Que diferença isso vai fazer?

— Isso vai te deixar saber se eles estão realmente no clube ou é apenas uma

armadilha pra você.

— Você não é só um rostinho bonito, não é? — Eu disse.

Ela sorriu. — Eu sou uma detetive treinada. Nós sabemos sobre essas coisas. — O

humor não alcançou seus olhos, mas ela estava tentando.

Eu disquei e o telefone tocou pelo que parecia ser para sempre, então outra voz

masculina respondeu, — Sim?

— É do Narcissus in Chains?

— É, quem é?

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— Eu preciso falar com o Gregory.

— Não conheço nenhum Gregory. — Ele disse.

— Quem é? — Eu perguntei.

— Esse é um maldito telefone público, madame. Eu só atendi. — Então ele

desligou, também. Parecia ser minha noite para isso.

— Eles ligaram de um telefone público do clube. — Eu disse.

— Bem, pelo menos você sabe onde eles estão. — Ronnie disse.

— Você sabe onde esse clube fica? — Eu perguntei.

Ronnie balançou a cabeça. — Não faz bem meu tipo.

— Nem o meu.

Todos os que brincavam com submissão e dominância que eu conhecia

pessoalmente estavam no clube esperando ser salvos. Quem eu conhecia que poderia

saber onde este clube ficava, e algo sobre sua reputação? Eu não podia confiar sobre o

que os leopardos me disseram sobre ser um lugar seguro. Obviamente, eles estavam

enganados.

Um nome me surgiu em mente. O único que eu conhecia e pra quem poderia

ligar talvez soubesse algo sobre Narcissus in Chains, e sobre que tipo de encrenca eu

poderia ter quando entrasse lá. Jean-Claude. Já que eu estava lidando com políticas

metamorfas talvez fizesse sentido ligar para Richard, já que ele era um lobisomem e tudo

mais. Mas metamorfos eram muito exclusivos com seus clãs. Um tipo de animal

raramente cruzava limites para ajudar outro tipo. Frustrante, mas verdade. A exceção era

o trato entre lobisomens e homens-ratos, mas todo o resto era deixado para se

defenderem entre eles mesmos. Ah, se um pequeno grupo saísse da linha e atraísse

atenção demais indesejada, os lobos e ratos iriam disciplinar eles, mas tirando isso,

ninguém parecia querer interferir na vida do outro. Essa era uma das razões que me fazia

ser babá dos leopardos.

Além do mais, Richard não sabia mais sobre a cultura D e S do que eu, talvez

soubesse menos. Se você queria perguntas respondidas sobre coisas sexuais, Jean-Claude

definitivamente era o seu cara. Ele poderia não participar, mas ele parecia conhecer

quem fazia o que, com quem, e aonde. Ou eu esperava que sim. Se fosse apenas minha

vida em jogo, eu provavelmente não iria ligar para nenhum dos dois, mas se eu fosse

morta no processo disso, não teria ninguém para resgatar Nathaniel e os outros.

Inaceitável.

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Ronnie havia chutado seu salto alto. — Eu não trouxe minha arma, mas tenho

certeza que você tem uma reserva.

Eu balancei minha cabeça. — Você não vai.

A raiva fez seus olhos cinza ficarem da cor de tempestade. — O inferno que eu

não vou.

— Ronnie, eles são metamorfos e você é humana.

— Você também. — Ela disse.

— Por causa das marcas vampíricas de Jean-Claude eu sou um pouco mais que

isso. Eu posso levar danos que matariam você.

— Você não pode ir lá sozinha. — Ela disse. Seus braços estavam cruzados por

cima dos peitos, seu rosto estava cheio de linhas teimosas e nervosas.

— Eu não planejo ir sozinha.

— É porque não sou uma atiradora, não é?

— Você não mata facilmente, Ronnie, nenhuma vergonha nisso, mas eu não

posso te levar até uma gangue de metamorfos a menos que eu saiba que você irá atirar

para matar se for preciso. — Eu apertei seu braço.

Ela continuou rígida e nervosa por baixo do meu toque. — Mataria um pedaço de

mim te perder, Ronnie. Mataria um grande pedaço de mim saber que você morreu por

causa de merda minha. Você não pode hesitar com essas pessoas. Você não pode tratá-los

como se fossem humanos. Se você fizer isso, você morre.

Ela estava balançando a cabeça. — Chame a polícia.

Eu me afastei dela. — Não.

— Droga, Anita, droga!

— Ronnie, há regras aqui, e uma dessas regras é que você não pode levar os

negócios do bando ou matilha para a polícia. — A principal razão para essa regra era que

a polícia tendia a não gostar das lutas de dominância que acabavam com corpos

estendidos no chão, mas não tinha por que Ronnie saber isso.

— É uma regra estúpida. — Ela disse.

— Talvez, mais ainda é a forma que os negócios são com os metamorfos, não

importa qual tipo eles são.

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Ela sentou na pequena mesa de dois assentos. — Quem vai vigiar suas costas

então? Richard não mata facilmente tanto quanto eu.

Isso era só meia verdade, mas deixei pra lá. — Não, eu quero alguém comigo hoje

à noite que fará o que for preciso, sem hesitações.

Seus olhos estavam escuros com a raiva. — Jean-Claude. — Ela fez seu nome soar

como um xingamento.

Eu assenti.

— Tem certeza que ele não planejou isso para te levar de volta a vida dele, ah,

me desculpe, morte dele?

— Ele me conhece bem demais para ferrar meu pessoal. Ele sabe o que eu faria se

ele os machucasse.

Pensamentos fluíram pela sua raiva, deixando seus olhos e seu rosto mais suaves.

— Eu odeio ele, mas eu sei que você o ama. Você realmente o mataria? Você realmente

poderia encarar ele pelo cano da arma e apertar o gatilho?

Eu apenas olhei para ela e soube sem um espelho que meus olhos haviam ficado

distantes, frios. Era difícil para olhos castanhos serem frios, mas eu tenho conseguido por

esses dias.

Algo muito como medo passou por trás de seus olhos. Eu não sabia se ela estava

com medo por mim ou de mim. Eu preferia a primeira que a segunda. — Você poderia.

Jesus, Anita. Você conhece Jean-Claude há mais tempo que eu conheço Louie. Eu nunca

conseguia machucar Louie, não importa o que ele fizesse.

Eu encolhi os ombros. — Iria me destruir fazer isso, eu acho. Não é como se eu

fosse viver feliz depois disso, se eu sobrevivesse. Há chances muito grandes das marcas

vampíricas me levarem junto pro túmulo com ele.

— Outra boa razão para não matar ele. — Ela disse.

— Se ele estiver por trás dos gritos que Gregory deu no telefone, então ele

precisará de razões muito melhores do que amor ou luxuria ou minha possível morte

para continuar respirando.

— Eu não entendo isso, Anita. Eu não entendo mesmo.

— Eu sei. — Eu disse. E eu pensei comigo mesma que essa era uma das razões de

Ronnie e eu não termos nos visto tanto quanto antes. Eu tinha me cansado de me

explicar para ela. Não, me justificar para ela.

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— Você é minha amiga, minha melhor amiga, eu pensei. Mas eu não entendo

mais você.

— Ronnie, eu não posso lutar mano a mano com metamorfos e vampiros. Eu

perderia uma briga justa. O único motivo que eu sobrevivo, o único motivo que meus

leopardos sobrevivem, é porque outros metamorfos têm medo de mim. Eles têm medo

das minhas ameaças. Eu sou tão boa quanto minhas ameaças, Ronnie.

— E você vai até lá e vai matar eles.

— Eu não disse isso.

— Mas você vai.

— Eu vou tentar evitar isso. — Eu disse.

Ela levantou seus joelhos, passando seus braços em volta de suas longas pernas.

Ela tentou tirar uma pequena linha solta de sua meia, o buraco ficou claro contra sua

pele clara. Ela carregava uma extra em sua bolsa para esse tipo de emergência. Eu

carregava uma arma e não tinha levado nem mesmo uma bolsa.

— Se você for presa, me ligue e eu vou te soltar.

Eu balancei minha cabeça. — Se eu for pega acabando com três ou mais pessoas

em um local público, não haverá nenhuma fiança pra isso. A polícia provavelmente não

vai nem mesmo me interrogar pela madrugada.

— Como você pode ficar tão calma sobre isso? — Ela perguntou.

Eu estava começando a me lembrar por que Ronnie e eu começamos a nos

separar. Eu tive quase exatamente a mesma conversa com Richard quando um assassino

veio até a cidade para me matar. Eu dei a mesma resposta. — Ficar histérica não vai

ajudar em nada, Ronnie.

— Mas você não está brava com isso.

— Ah, eu estou brava. — Eu disse.

Ela balançou a cabeça. — Não, quero dizer, você não está ultrajada por isso estar

acontecendo. Você não parece estar surpresa, não como... — Ela encolheu os ombros. —

Não como deveria estar.

— Você quer dizer, não como você ficaria. — Eu levantei minha mão antes dela

responder. — Eu não tenho tempo pra debater questões morais, Ronnie. — Eu peguei o

telefone. — Eu vou ligar para Jean-Claude.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

— Eu continuo tentando te fazer largar o vampiro e casar com Richard, mas

talvez haja mais de uma razão para que você não consiga largá-lo.

Eu disquei o número do Circo dos Malditos de memória, e Ronnie apenas

continuou falando nas minhas costas. — Talvez você não queira desistir de um

namorado que é mais frio que você.

O telefone estava chamando. — Há lençóis limpos no quarto de visita, Ronnie.

Desculpe-me por não poder dividir conversas de garotas hoje à noite. — Eu continuei de

costas pra ela.

Eu ouvi ela se levantar e soube quando ela tinha saído. Eu continuei com as

minhas costas para a sala até que ela tinha ido embora. Não faria bem para nenhuma de

nós deixarmos ela me ver chorar.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

Capítulo 3

Jean-Claude não estava no Circo dos Malditos. A voz do outro lado da linha, no

Circo, não me reconheceu e não acreditou que eu era Anita Blake, o quase sempre

amorzinho de Jean-Claude. Então eu tive que ligar para seus outros negócios. Eu tentei a

Prazeres Malditos, seu clube de strip, mas ele não estava lá. Eu tentei o Dança Macabra,

seu novo investimento, mas eu estava começando a imaginar se Jean-Claude havia

simplesmente dito para todo mundo me dizer que ele não estava caso eu ligasse.

O pensamento me incomodou um bocado. Eu me preocupei se depois de tanto

tempo o Richard finalmente me diria para ir pro inferno, que ele já tinha tido o

suficiente das minhas indecisões. Nunca havia me ocorrido que Jean-Claude talvez não

me esperasse. Se eu estava tão insegura sobre como me sentia em relação a ele, porque

meu estômago apertava com o crescente sentimento de perda? O sentimento não tinha

nada a ver com os leopardos e seus problemas. Tinha tudo a ver comigo e com o fato de,

de repente, eu me sentir perdida.

Mas ele estava no Dança Macabra, e ele atendeu minha ligação. Eu tive um

segundo para meu estômago apertar e minha respiração sair, então ele estava na linha, e

eu estava lutando para manter meus escudos metafísicos no lugar.

Eu odiava metafísica. Biologia sobrenatural ainda era biologia, metafísica era

mágica, e eu ainda não estava confortável com isso. Por seis meses, quando não estava

trabalhando, eu estava meditando, estudando com uma psíquica muito inteligente

chamada Marianne, aprendendo sobre rituais mágicos, para então poder controlar

minhas habilidades dadas por Deus. E também para eu poder bloquear as marcas que me

prendiam ao Richard e Jean-Claude.

Uma aura é como sua proteção pessoal, sua energia pessoal. Quando ela está

saudável, ela se mantém lisa como uma pele, mas se você a furar, uma infecção pode

entrar. Minha aura tinha dois buracos nela, cada uma por causa de um homem. Eu

suspeitava que as auras deles tivessem buracos também. O que nos colocava todos em

risco. Eu bloqueei meus buracos. Então há apenas algumas semanas, me surgiu uma

criatura esquisita, um Quero-Ser-Deus, de uma nova categoria, desconhecida até por

mim. Ela tinha sido poderosa o suficiente para jogar meu trabalho todo fora, me

deixando aberta de novo. Apenas a intervenção de uma bruxa local havia me salvado de

ter minha aura comida. Eu não tinha mais seis meses para celibato, meditação e

paciência. Os buracos estavam ali, e o único jeito de preenchê-los era com Jean-Claude e

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

Richard. Foi isso que Marianne disse, e eu confiava nela do jeito que confiava em outras

pessoas.

A voz de Jean-Claude me acertou pelo telefone como um tapa aveludado. Minha

respiração ficou presa na garganta, e não pude fazer nada além de sentir sua voz fluir,

sentir a presença dele, como algo vivo em minha pele. Sua voz sempre foi uma das

melhores coisas em Jean-Claude, mas isso era ridículo. Era pelo telefone. Como eu

possivelmente poderia ver ele e manter meus escudos, sem contar minha compostura?

— Eu sei que você está aí, ma petite. Você me ligou meramente para ouvir o som

da minha voz?

Isso estava mais perto da verdade do que deveria. — Não, não. — Eu ainda não

conseguia organizar meus pensamentos. Eu era como uma atleta que esqueceu seu

treinamento. Eu apenas não conseguia levantar o mesmo tanto de peso, e havia um peso

no poder de Jean-Claude.

Quando eu ainda não disse nada, ele falou de novo. — Ma petite, a que devo essa

honra? Por qual motivo fui digno de receber seu telefonema? — Sua voz era

inexpressiva, mas eu sabia que havia algo por baixo. Sarcasmo talvez.

Eu acho que eu tinha que seguir em frente. Eu concentrei as forças e tentei soar

como um ser humano inteligente, nem sempre um dos meus melhores talentos. — Faz

seis meses...

— Estou ciente disso, ma petite.

Ele estava sendo condescendente. Eu odiava isso. Me fez ficar um pouco brava. A

raiva ajudou clarear a minha mente um pouco. — Se você parar de me interromper eu te

digo por que liguei.

— Meu coração está ansioso com toda essa expectativa.

Eu quis desligar. Ele estava sendo babaca, e parte de mim pensava que eu merecia

o tratamento, o que me fez ficar mais brava ainda. Eu sempre fico mal-humorada quando

acho que estou errada. Eu fui uma covarde por meses, e eu ainda estava sendo. Eu estava

com medo de ficar perto dele, com medo do que eu faria. Droga, Anita, se segure. —

Sarcasmo é meu departamento. — Eu disse.

— E qual é o meu departamento?

— Eu ia te pedir um favor. — Eu disse.

— Mesmo? — Ele disse isso como se não fosse atender meu pedido.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

— Por favor, Jean-Claude, eu estou pedindo ajuda. Eu não faço isso com

frequência.

— Isso certamente é verdade. O que eu poderia fazer por você, ma petite? Você

sabe que tudo que tem de fazer é pedir, e o que você quiser será seu. Não importa o quão

bravo eu possa estar com você.

Eu deixei essa passar, porque eu não sabia o que fazer com isso. — Você conhece

um clube chamado Narcissus in Chains?

Ele ficou quieto por um segundo ou dois. — Oui.

— Você pode me dar às direções e me encontrar lá?

— Você sabe que tipo de clube esse lugar é?

— Sim.

— Tem certeza?

— É um clube de bondage, eu sei.

— A menos que os últimos seis meses tenham te mudado consideravelmente, ma

petite, essa não é uma de suas preferências.

— Não, não é.

— Seus leopardos tem se comportado mal, novamente?

— Algo assim. — Eu disse a ele o que aconteceu.

— Eu não conheço esse Marco.

— Eu não achei que conhecesse.

— Mas você pensou que eu saberia onde esse clube fica?

— Eu estava esperando que sim.

— Eu te encontrarei lá com alguns dos meus. Ou você permitirá que apenas eu

vá ao seu resgate? — Ele soava entretido agora, o que era melhor que bravo, eu acho.

— Leve quem precisar.

— Você confia em meu julgamento?

— Nisso, sim.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

— Mas não em todas as coisas. — Ele disse suavemente.

— Eu não confio em ninguém em todas as coisas, Jean-Claude.

Ele suspirou. — Tão jovem para ser tão... descrente.

— Eu sou cínica, não descrente.

— E a diferença é qual, ma petite?

— Você é descrente.

Ele riu então, o som me acariciou como um roçar de mão. Fez coisas baixas em

meu corpo reagirem. — Ah, —ele disse, — isso explica todas as diferenças.

— Apenas me dê as direções, por favor. — Eu acrescentei o „por favor,‟ para

adiantar as coisas.

— Eles não vão machucar demais seus leopardos, eu acho. O clube está cheio de

metamorfos, e eles sentiriam o cheiro de muito sangue e cuidariam disso com as próprias

mãos. É uma das razões de Narcissus in Chains ser a „terra de ninguém‟, um lugar neutro

para todos de nossos grupos. Seus leopardos estavam certos, normalmente aquele é um

lugar seguro.

— Bem, Gregory não estava gritando porque se sentia seguro.

— Talvez não, mas eu conheço o dono do local. Narcissus ficará muito nervoso

se alguém se machucar demais em seu clube.

— Narcissus, eu não reconheço o nome. Bem, eu sei sobre as coisas de mitologia

grega, mas não reconheço como pessoa.

— Não esperava que conhecesse. Ele não sai de seu clube com frequência. Mas

eu ligarei para ele e ele patrulhará seus gatos para você. Ele não os resgatará, mas ele terá

certeza que nenhum dano a mais seja feito.

— Você confia em Narcissus para fazer isso?

— Oui.

Jean-Claude tinha suas falhas, mas se ele confiava em alguém, ele normalmente

estava certo. — Ok. E obrigada.

— Mais que de nada.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

Ele soltou o ar e disse quietamente. — Você teria ligado se não precisasse da

minha ajuda? Você teria ligado algum dia?

Eu estava morrendo de medo dessa pergunta, tanto vinda de Jean-Claude ou de

Richard. Mas eu finalmente tinha uma resposta. — Eu vou responder sua pergunta da

melhor forma possível, mas chame de palpite, talvez essa seja uma longa conversa. Eu

preciso saber que meu pessoal está seguro antes de começar a discutir nossa relação.

— Relação? É isso que nós temos? — Sua voz estava bem seca.

— Jean-Claude.

— Não, não, ma petite, eu ligarei para Narcissus agora e salvarei seus gatos, mas

apenas se você prometer que quando eu ligar de volta, nós terminaremos nossa conversa.

— Prometo.

— Sua palavra. — Ele disse.

— Sim.

— Muito bem, ma petite, até daqui a pouco. — Ele desligou.

Eu desliguei o telefone e fiquei ali parada. Era covardia querer ligar para alguém,

qualquer pessoa, para que o telefone ficasse ocupado para que não precisássemos ter

nossa pequena conversa? Sim, era covardia, mas era tentador. Eu odiava falar sobre

minha vida pessoal, principalmente para pessoas tão intimamente envolvidas nela. Eu

tive apenas tempo suficiente para tirar minha saia quando o telefone tocou. Eu pulei e

atendi com o pulso na minha garganta. Eu estava realmente com medo dessa conversa.

— Alô. — Eu disse.

— Narcissus cuidará da segurança de seus gatos. Agora, onde estávamos? — Ele

ficou quieto por uma batida de coração. — Ah, sim, você teria me ligado se não

precisasse da minha ajuda?

— A mulher com quem eu estava estudando...

— Marianne. — Ele disse.

— Sim, Marianne. Enfim, ela disse que eu não poderia continuar bloqueando os

buracos da minha alma. O único jeito de me manter segura contra essas merdas de coisas

sobrenaturais era preencher os buracos com o que eles deveriam ser preenchidos.

Silêncio do outro lado da linha. Silêncio por tempo o suficiente para eu dizer, —

Jean-Claude, você ainda está ai?

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

— Estou aqui.

— Você não parece feliz com isso.

— Você sabe o que está dizendo, Anita? — Sempre era um mau sinal quando ele

usava meu nome real.

— Eu acho que sim.

— Eu quero que isso fique bem claro entre nós, ma petite. Eu não quero você

vindo atrás de mim mais tarde, reclamando que não entendia o quão forte isso nos ataria.

Se você permitir que Richard e eu preenchamos de verdade as marcas em seu... corpo,

nós iremos dividir nossas áureas. Nossa energia. Nossa mágica.

— Nós já estamos fazendo isso, Jean-Claude.

— Em parte, ma petite, mas são por consequências das marcas. Isso será feito

com consentimento, será uma união esperada. Uma vez feita, eu não acho que pode ser

desfeita sem um grande dano para todos nós.

Foi minha vez de suspirar. — Quantos desafios vampíricos à sua autoridade você

teve enquanto eu estava meditando fora?

— Alguns. — Ele disse sua voz cuidadosa.

— Mais do que alguns, eu aposto, porque eles sentiram que suas defesas não

estavam completas. Você teve problema em afastá-los sem matá-los, não teve?

— Digamos que estou feliz por não ter acontecido nenhum desafio significativo

no ano.

— Você teria perdido sem Richard e eu atrás de você, e você não poderia usar

seus escudos sozinho, sem nós para tocar. Isso funcionou quando eu estava na cidade

com você. Tocando, estando um com o outro, nos ajudando a plugar um no poder do

outro. Isso ajuda com os problemas.

— Oui. — Ele disse, suavemente.

— Eu não sabia, Jean-Claude. Eu não tenho certeza se faria diferença eu saber,

mas eu não sabia. Deus, Richard deve estar desesperado — ele não mata tão fácil como

nós dois. Seu blefe é tudo que mantém os lobisomens longe de partirem ao meio uns aos

outros, e com dois buracos enormes em suas defesas mais intimas... — Eu me calei, mas

eu ainda me lembrava do horror puro que senti quando percebi o quanto nos deixei em

perigo.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

— Richard teve dificuldades, ma petite. Mas cada um de nós tinha apenas uma

rachadura em nossa defesa, uma que apenas você pode curar. Ele esteve unindo suas

energias com a minha. Como você disse, seu blefe era muito importante para ele.

— Eu não sabia disso, e sinto muito por isso. Tudo que estive pensando era sobre

o quão assustada eu estava sobre estar sendo inundada com os dois. Marianne me disse a

verdade quando ela pensou que estava pronta para ouvir.

— E você não está mais com medo de nós, ma petite? — Sua voz era cuidadosa

quando ele perguntou, como se ele estivesse carregando um copo cheio de um liquido

quente por uma escada estreita.

Eu balancei minha cabeça, percebendo que ele não podia ver, eu disse, — Eu não

estou corajosa. Eu estou bastante aterrorizada. Aterrorizada que se eu fizer isso, não terá

volta, que talvez eu esteja me enganando, me fazendo pensar que tenho uma escolha.

Talvez não haja escolha e tem sido assim por muito tempo. Mas seja lá como iremos

acabar eu não posso nos deixar ir com feridas metafísicas abertas. Muitos irão sentir

nossa fraqueza e irão explorá-la

— Como a criatura que você conheceu no Novo México. — Ele disse, sua voz

ainda cuidadosa como eu nunca tinha ouvido antes.

— É. — Eu disse.

— Você está dizendo que hoje a noite irá concordar em nos deixar juntar as

marcas, que iremos ao menos fechar essas, como você colocou, feridas?

— Se isso não colocar meus leopardos em perigo, sim. Nós precisamos fazer isso o

mais rápido possível. Eu odiaria tomar essa grande decisão e então ter um de nós morto

antes que chegássemos aos finalmente.

Eu o ouvi suspirar, como se uma grande tensão tivesse deixado-o. — Você não

sabe por quanto tempo tenho esperado por você entender tudo isso.

— Você poderia ter me dito.

— Você não teria acreditado em mim. Você teria pensando que era outro truque

para te trazer para mais perto de mim.

— Você está certo, eu não teria acreditado em você.

— Richard nos encontrará no clube também?

Eu fiquei quieta por uma batida de coração. — Não, eu não vou ligar para ele.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

— Por que não? Isso é mais uma questão metamorfa do que vampírica.

— Você sabe por que não.

— Você teme que ele fique apreensivo demais em te deixar fazer o que for

preciso para salvar seus leopardos.

— Sim.

— Talvez. — Jean-Claude disse.

— Você não me vai dizer que devo ligar para ele?

— Por que eu te falaria para convidar meu principal rival por sua afeição nesse

pequeno tete-a-tete? Isso seria uma coisa tola de se fazer. Eu sou muitas coisas, mas tolo

não é uma delas.

Isso certamente era verdade. — Ok me dê as direções e eu vou encontrar você e

seu pessoal no clube.

— Primeiro, ma petite, o que você está usando?

— Desculpe-me?

— Roupas, ma petite, quais roupas você está usando?

— Isso é uma brincadeira? Porque eu não tenho tempo...

— Não é uma pergunta vaga, ma petite. O mais cedo que você responder, mais

cedo poderemos ir.

Eu queria discutir, mas se Jean-Claude disse que ele tinha um ponto, então ele

provavelmente tinha. Eu disse a ele o que estava vestindo.

— Você me surpreende, ma petite. Com um pouco de esforço isso vai servir

muito bem.

— Qual esforço?

— Eu sugiro que você acrescente botas ao seu conjunto. As que eu dei ficariam

perfeitas.

— Eu não vou usar saltos agulha de 10 centímetros em lugar nenhum, Jean-

Claude. Eu quebraria meu tornozelo.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

— Eu planejei que você usasse essas botas somente comigo, ma petite. Eu estava

pensando na outra bota com saltos médios que eu trouxe quando você ficou tão brava

com as outras.

Ah. — Por que eu tenho que trocar de sapato?

— Porque, por mais flor delicada que você seja você tem os olhos de uma

policial, então seria melhor se você usasse botas de couro em vez de salto alto. É bom

lembrar que você estará movendo pelo clube o mais rápido e suavemente que for

possível. Ninguém a ajudará a achar seus leopardos se você for alguém de fora,

principalmente uma policial.

— Ninguém nunca me confundiu com uma policial.

— Não, mas eles estão começando a te confundir com algo que cheira a armas e

morte. Pareça ser inofensiva hoje à noite, ma petite, até que seja hora de ser perigosa.

— Eu pensei que esse seu amigo, esse Narcissus, iria nos escoltar lá dentro.

— Ele não é meu amigo, e eu te disse que o clube é um lugar neutro. Narcissus

cuidará para que nenhum grande dano aconteça com seus gatos, mas isso é tudo. Ele não

vai permitir que levemos armas para dentro do clube. Não há Ulfric, Mestre da Cidade,

dentro daquelas paredes. Você tem apenas a dominância que leva com você e seu corpo

para tomarem conta de você.

— Eu terei uma arma. — Eu disse.

— Mas uma arma não te levará até os quartos superiores.

— O que me levará?

— Confie em mim, eu darei um jeito.

Eu não gostei do jeito que aquilo soava. — Por que a maioria das vezes que te

peço ajuda, nunca é um caso o qual nós podemos apenas correr e eu sair atirando?

— E por que, ma petite, quando você não me chama quase sempre é um caso

onde você corre e atira em qualquer coisa que se mova?

— Ponto aceito. — Eu disse.

— Qual a sua prioridade para a noite? — Ele perguntou.

Eu sabia o que ele queria dizer. — Eu quero os leopardos a salvo.

— E se eles forem machucados.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

— Eu quero vingança.

— Mais do que a segurança deles?

— Não, segurança primeiro, vingança é luxúria.

— Bom. E se um, ou mais, morrerem?

— Eu não quero que nenhum de nós acabe na cadeia, mas eventualmente, se não

nessa noite, em outra note, eles vão morrer.

Eu ouvi a mim mesma dizer isso e soube que fui sincera.

— Não há clemência em você, ma petite.

— Você diz isso como se fosse uma coisa ruim.

— Não, foi meramente uma observação.

Eu parei ali, segurando o telefone, esperando ficar chocada com o que eu estava

propondo. Mas não fiquei. Eu disse, — Eu não quero matar ninguém se eu não precisar.

— Isso não é verdade, ma petite.

— Certo, se eles matarem meu pessoal, eu os quero mortos. Mas eu decidi no

Novo México que eu não queria ser uma sociopata, então eu estou tentando agir como se

não fosse. Então vamos tentar manter a contagem de corpos baixa ok?

— Como quiser. — Ele disse. E então acrescentou, — Você realmente acha que

pode mudar a natureza de quem você é meramente desejando isso?

— Você está perguntando se eu posso parar de ser uma sociopata, já que eu já me

transformei em uma?

Um momento de silêncio, então, — Eu acho que é isso que estou perguntando.

— Eu não sei, mas se eu não me segurar, Jean-Claude, não haverá volta.

— Eu ouço medo em sua voz, ma petite.

— Sim, você ouve.

— O que você teme?

— Eu tenho medo que se eu me entregar para você e Richard eu vou me perder.

Eu temo que se eu não me entregar para você e Richard eu vou perder um de vocês. Eu

tenho medo de nos fazer ser mortos porque estou pensando demais. Eu tenho medo de já

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ser uma sociopata e não haver mais volta. Ronnie disse que uma das razões de eu não

conseguir te largar e simplesmente sossegar com Richard é que eu não consigo desistir de

um namorado que é mais frio que eu.

— Desculpe, ma petite. — Eu não tinha exatamente certeza sobre o que ele

estava se desculpando, mas eu aceitei de qualquer forma.

— Desculpe também. Dê-me as direções do clube e eu te encontrarei lá. —

Ele me deu as direções e eu confirmei com ele. Nós desligamos. Nenhum de nós

disse tchau. Há um tempo atrás teríamos terminado a conversa com je t‟aime, eu te amo.

Faz algum tempo.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

Capítulo 4

O clube ficava acima do rio no lado Illinois, junto de outros tantos clubes

questionáveis. Os negócios de vampiros precisavam de uma cláusula para funcionar em

St. Louis, mas o resto dos clubes humanos — e metamorfos, ainda eram legalmente

contados como humanos — então tinham que ir a Illinois para evitarem maiores

problemas. Alguns desses maiores problemas não estavam no papel ainda, não eram leis

de verdade. Mas era estranho quantos problemas a burocracia podia achar quando eles

não queriam um clube em sua cidade justa. Se os vampiros não fossem tão chamativos

para turistas, os burocratas provavelmente teriam achado um jeito de se livrarem deles

também.

Eu finalmente achei uma vaga de estacionamento umas duas quadras do clube.

Isso significava que eu teria que andar em uma área da cidade que a maioria das

mulheres não gostaria de estar sozinhas no escuro. Mas claro, a maioria das mulheres não

andavam armadas. Uma arma não cura tudo, mas é um começo. Eu também tinha uma

faca em cada panturrilha, bem em cima, então o coldre ficava do lado dos meus joelhos.

Eu não estava realmente confortável desse jeito, mas eu não consegui pensar em nenhum

outro lugar para colocar as facas em que eu conseguisse pega-las facilmente. Havia uma

boa chance de eu ter machucados nos joelhos depois dessa noite. É a vida.

Eu também tinha uma faixa preta no Judô, e estava fazendo progresso no Kenpo,

um tipo de Karatê com menos movimentos poderosos e mais movimentos usados como

balanço. Eu estava o máximo possível preparada para a selvageria da cidade grande.

Mas claro, eu normalmente não ando por aí parecendo um alvo fácil. Minha saia

era tão curta que mesmo com botas que iam até a metade de minhas coxas, ainda sobrava

um belo espaço entre a saia e o topo das botas. Eu tinha colocado uma jaqueta para

dirigir, mas deixei-a no carro porque não queria ficar carregando ela por aí a noite toda.

Eu estive em clubes suficientes, e de todos os tipos, para saber que estaria quente lá

dentro.

Então o arrepio que corria pelas minhas costas e braços não era por medo, mas

pelo úmido e fresco ar. Eu me forcei a não esfregar meus braços enquanto andava, e

então pelo menos pareceria que eu não estava com frio ou desconfortável. Na verdade o

salto das botas tinha apenas 5 centímetros e eles eram confortáveis de se andar. Não tão

confortáveis como meus Nikes, mas então, o que seria mais confortável que eles? Mas

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

para sapatos, essas botas não eram nada ruins. Se eu pudesse ter deixado as facas em casa,

elas seriam perfeitas.

Havia outra pequena proteção a mais. Escudos metafísicos vinham em diferentes

formas. Você pode se proteger com quase tudo: metal, pedra, plantas, fogo, água, vento,

terra, etc... Todo mundo tem proteções diferentes porque essa era uma escolha muito

individual. Você tem que trabalhar pela sua própria escolha mental. Você pode ter dois

psíquicos usando pedra, mas suas proteções não seriam as mesmas. Algumas pessoas

simplesmente visualizam pedra, pensam nela, na essência, e isso é suficiente. Se algo

tentar atacá-los, eles estariam a salvo atrás do pensamento da pedra. Outro psíquico

talvez possa visualizar uma parede de pedra, como um muro em volta de uma casa velha,

e isso funcionaria do mesmo jeito. Para mim, minha proteção tinha que ser uma torre.

Todas as proteções eram como bolhas que te envolviam completamente, como círculos

de poder. Eu sempre entendi isso quando levantava os mortos, mas para me proteger eu

precisava visualizar isso na minha cabeça. Então eu imaginei uma torre de pedra,

completamente fechada, sem janelas, sem rachaduras, lisa e escura, com apenas o que eu

permitia ou não dentro. Falar sobre proteções sempre me fez me sentir como se eu

estivesse tendo uma pausa psicótica e dividindo minhas desilusões. Mas funcionava, e

quando eu não me protegia, coisas tentavam me machucar. Fazia apenas duas semanas

que Mariana tinha descoberto que eu não tinha entendido totalmente a coisa de

proteção. Eu pensei que era apenas sobre o quão poderosa sua aura é, e como você

poderia fortalecê-la. Ela me disse que a única razão que eu fui capaz de seguir assim por

tanto tempo, foi que eu era simplesmente muito poderosa.

Mas a proteção fica do lado de fora da aura, como uma parede em volta do

castelo, uma defesa extra. A defesa mais segura é uma aura saudável.

Esperançosamente, até o final da noite, eu terei uma dessas.

Eu virei a esquina e achei uma fila de pessoas que descia o quarteirão. Ótimo,

justo o que eu precisava. Eu não parei no fim da fila, eu continuei andando até a porta,

esperando pensar em algo para fazer com o segurança quando eu chegasse ali. Eu não

tinha tempo para esperar tudo aquilo. Eu estava quase na metade da fila quando uma

figura saiu da multidão e me chamou.

Levou-me um segundo para reconhecer Jason. Primeiro, ele tinha cortado seu

cabelo de bebê loiro, curto, estilo homem de negócios curto. Segundo, ele estava usando

uma camisa puramente prata e calças que pareciam ser feita do mesmo tecido. Apenas

uma linha fina de uma sólida prata em sua virilha. A roupa era tão chamativa que me

levou um momento para perceber o quão realmente fina a roupa era. O que eu realmente

estava vendo não era a prata, mas a pele de Jason no meio de um monte de glitter. A

roupa, que deixava muito pouco para a imaginação, terminava com suas botas cinza que

iam até a metade a coxa.

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Narcissus in Chains – Anita Blake 10

Eu tive que me fazer olhar em seu rosto, porque eu ainda estava balançando

minha cabeça por causa da sua roupa. Ela não parecia confortável, mas claro, Jason

raramente reclama sobre suas roupas. Ele era como o pequeno boneco homem-lobo de

Jean-Claude, assim como seu lanche matinal. Às vezes era um guarda e às vezes o garoto

leva-e-traz. Quem mais Jean-Claude tinha para deixar no frio quase pelado?

Os olhos de Jason pareciam maiores, mais azuis de alguma forma, sem todo

aquele cabelo para distrair. Seu rosto parecia mais velho com o cabelo curto, a estrutura

de seus ossos mais limpa, e eu percebi que Jason estava perigosamente perto da linha

entre fofo e lindo. Ele tinha dezenove anos quando nos conhecemos. Ele com vinte e

dois era melhor. Mas a roupa... não tinha nada a fazer a não ser sorrir ao olhá-la.

Ele estava sorrindo para mim também. Eu acho que estávamos os dois felizes de

ver um ao outro. Deixando Richard e Jean-Claude, eu deixei outras pessoas para trás

também. Jason era um membro do bando de Richard, e o lobinho de Jean-Claude.

— Você está parecendo um astronauta pornô. Se você estivesse usando roupas

normais, talvez você ganhasse um abraço. — Eu disse.

Seu sorriso aumentou ainda mais. — Eu acho que estou vestido assim por

punição. Jean-Claude me disse para te esperar e te levar para dentro. Minha mão já tem o

carimbo, então podemos ir direto.

— Um pouco frio demais para essas roupas, não?

— Por que você acha que eu estava no meio do povo? — Ele me ofereceu seu

braço. — Posso acompanhá-la, minha dama?

Eu segurei seu braço com minha mão esquerda. Jason colocou a sua mão livre em

cima da minha, fazendo um aperto duplo. Se essa era sua pior provocação de hoje à noite,

então ele tinha crescido realmente. A roupa prata era mais dura que parecia, arranhava

onde roçava no meu braço.

Quando Jason me guiou para subir as escadas, eu tive que olhar a parte de trás

dele. A roupa que cobria sua virilha era apenas uma linha comprida nas costas, deixando

nada além dessa linha de glittler em sua bunda. A blusa não era presa na calça, então

enquanto ele andava, eu via vislumbres de sua barriga. Na verdade a blusa era larga o

suficiente nos ombros que quando ele pegou meu braço a manga caiu de um lado,

revelando sua pele suave e pálida.

A música me atingiu na porta como um tapa gigante. Era quase como uma parede

que eu tinha que passar. Eu não tinha esperado que Narcissus in Chains fosse um clube

de dança. Mas exceto pelas roupas mais exóticas dos clientes e o couro extra, parecia

como um monte de outros clubes por aí. O lugar era grande, confuso, com cantos

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escuros, com pessoas demais em pequenos espaços, movendo seus corpos freneticamente

com a musica alta demais.

Minha mão apertou mais o braço de Jason, porque a verdade era que eu sempre

me sentia afogando em lugares assim. Pelo menos nos primeiros minutos. Era como se eu

passasse por uma câmara profunda entre o mundo de fora e o mundo de dentro e

precisasse de um momento para respirar fundo e me ajustar. Mas esses clubes não eram

feitos para te dar tempo. Eles apenas te bombardeavam com sobrecargas sensoriais e

supunham que você sobreviveria.

Falando em sobrecargas sensoriais, Jean-Claude estava parado perto da parede,

logo do lado da pista de dança. Seu longo cabelo escuro caia em suaves ondas em seus

ombros, quase em sua cintura. Eu não me lembrava de seu cabelo tão longo assim. Ele

estava com a cabeça virada para longe de mim, vendo as pessoas dançando, então eu não

podia realmente ver seu rosto, mas isso me deu tempo de ver o resto dele. Ele estava

vestindo uma camisa de vinil que parecia ter sido costurada nele. Deixava seus braços

nus, e eu percebi que eu nunca tinha o visto usando nada que deixava seus braços nus

antes. Sua pele parecia inacreditavelmente branca contra o vinil preto, quase como se

brilhasse com uma luz própria. Eu sabia que não brilhava, mas poderia. Jean-Claude

nunca era tão declasse para mostrar seu poder assim em lugares públicos.

Sua calça era do mesmo vinil brilhante, fazendo as longas linhas de seu corpo

parecer como se tivessem mergulhadas em líquido feito de couro. Botas de vinil vinham

até quase seus joelhos, brilhando como se tivessem sido recém polidas. Tudo nele

brilhava, o brilho escuro de suas roupas, a brancura de sua pele. Então abruptamente ele

virou como se tivesse sentido que eu estava olhando para ele.

Olhar todo seu rosto, mesmo do outro lado do salão, me fez segurar minha

respiração. Ele era lindo. Aquela beleza de parar a batida do coração que era masculina,

mas beirava a linha entre o que era masculino e feminino. Não exatamente andrógino,

mas perto disso.

Mas enquanto ele se movia em minha direção, o movimento era totalmente

masculino, gracioso como se ele escutasse uma música em sua cabeça e quietamente

dançasse com ela. Mas o andar, o movimento de seus ombros — mulheres não se

moviam desse jeito.

Jason deu um tapinha na minha mão.

Eu pulei, encarando ele.

Ele colocou sua boca perto o suficiente do meu ouvido para sussurrar — acima da

música, — Respire, Anita, lembre-se de respirar.

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Eu fiquei vermelha porque era desse jeito que Jean-Claude me afetava — Como

se eu tivesse quatorze anos e ele era a quedinha da minha vida. Jason apertou mais sua

mão na minha, como se eu fosse correr. Não era uma má ideia. Eu olhei de volta e vi que

Jean-Claude estava bem perto.

A primeira vez que vi o verde azulado do mar do Caribe, eu chorei, porque era

lindo demais. Jean-Claude me fazia me sentir assim, como se eu devesse chorar por causa

de sua beleza. Era como se te oferecessem um quadro original do da Vinci, não apenas

para colocar em sua parede e olhar, mas para realmente admirar tudo dele. Parecia

errado. Ainda assim, ali estava eu, segurando o braço de Jason, meu coração martelando

tanto que eu quase não podia ouvir a música. Eu estava assustada, mas não era um medo

do tipo briga-de-faca-no-escuro, era um medo do tipo coelho-preso-na-luz-do-farol. Eu

estava presa, como sempre com Jean-Claude, entre dois instintos disparados. Parte de

mim queria correr até ele, quebrar essa distância e segurar seu corpo em volta de mim. A

outra parte queria sair correndo gritando pela noite e rezar para que ele não me seguisse.

Ele parou na minha frente, mas não fez nenhum movimento para me tocar, para

acabar com aquela pequena distância. Ele parecia hesitante em me tocar, assim como eu.

Ele estava com medo de mim? Ou ele sentiu o meu medo e teve medo de me fazer ter

medo?

Nós ficamos parados ali simplesmente olhando um ao outro. Seus olhos ainda

eram daqueles azuis escuros, escuros, com um toque de negro enlaçando eles.

Jason beijou minha bochecha, suavemente, como você beija sua irmã. Ainda

assim me fez pular. — Eu estou sentindo que estou sobrando. Vocês dois sozinhos dão

conta do recado. — E então ele se afastou de mim, deixando Jean-Claude e eu olhando

um ao outro.

Eu não sei o que ele ia dizer, porque três homens se juntaram a nós antes que ele

pudesse decidir. O mais baixo deles media apenas 1,68, e ele estava usando mais

maquiagem em seu rosto triangular do que eu. A maquiagem estava bem feita, mas ele

não estava tentando parecer com uma mulher. Seu cabelo preto era bem curto, mesmo

você podendo dizer que seria cacheado se fosse longo. Ele estava usando uma roupa de