Anita por L P Baçan - Versão HTML

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1ª Edição Eletrônica

L P Baçan

Autor

Edição Eletrônica: L P Baçan

Dezembro de 2009

All rights reserved

Copyright © 2009 do Autor

Distribuição exclusiva através do

SCRIBD

Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

2

ANITA

— Cê tá gripada?

Anita pigarreou, engoliu o catarro e respondeu:

— Não, não é gripe, não. Cê fala por causa da minha voz?

— É, cê anda rouca.

— Acho que é aquela poeira o dia inteiro, lá na fábrica de barbante. O ventilador quebrado... a poeira do rami fica no ar... —

explicou, com uma falta de ar que provocou aflição na amiga.

— É duro mesmo, né?

— O quê? Fala mais alto que eu não escutei.

— Eu disse que é duro!

— E é mesmo. O dia inteiro naquela poeira... E aquele barulho das máquinas... A gente fica rouca e surda... Parece gripe mesmo, mas não é... É pior... Sufoca...

De dentro de seus dezesseis anos, naquele final de domingo, Anita pigarreou novamente, enchendo a boca de catarro. Disfarçou a dor no peito e segurou firme o braço da amiga, enquanto cuspia de lado. Estavam dando voltas no jardim da praça da matriz. Era bom.

Era gostoso, apesar de monótono. Fora o cinema, dar voltas no jardim aos domingos era a única diversão.

No sábado nem sempre dava, por causa dos turnos. Mês sim, mês não, fazia o turno da noite. Até as dez. Quando saía, já não havia tempo para mais nada, a não ser ir embora. O movimento na cidade, salvo quando tinha quermesse, acabava cedo.

3

Anita riu de novo e olhou por sobre o ombro, voltando ligeiramente a cabeça. Ele estava ali desde umas três voltas atrás.

Olhava e brincava com ela, fazendo rima.

— Anita, cê tá bonita!

Ela estremecia ao vê-lo, presa de um deslumbramento que não conseguia entender. Era o Laurindo Poeta, mulherengo, mas o homem mais bonito e inteligente que ela conhecia.

— Cê viu, Cléia? O Laurindo tá me olhando de novo.

— Não olha muito, boba! Ele vai achar que você tá se oferecendo. Vamos voltar e passar de novo. Bem devagarinho. Mas não olha. Deixa ele vim falar cocê.

Foram até o fim da alameda, fizeram a volta e retornaram. Às vezes, numa só noite, iam e voltavam pela alameda principal, em forma de ferradura, na praça da matriz, umas cem vezes. E as pernas nem doíam. Também, depois de quatro anos de fábrica, em pé oito horas por dia, correndo daqui para lá e de lá para cá, atendendo a máquina, era fácil!

— Olha lá, Anita. Ele levantou. Vem vindo. Vai cercar a gente.

Não olha, boba! O Laurindo tá vindo falar cocê.

* * *

Quando Anita soltou o fecho do sutiã, foi como se soltasse uma correia que lhe prendesse o peito com força. Ficou respirando fundo e rouco. Aquela dor lá dentro havia muito vinha incomodando. Mas quando achar tempo para o médico?

A sorte era que não precisava pagar. A firma fornecia o médico.

Mas podia também consertar os ventiladores. E trocar aquelas máquinas barulhentas por outras. Outras como aquelas que vira no 4

jornal do cinema. Pareciam nem fazer barulho. Só se podia dizer que funcionavam por causa das rocas que giravam invisíveis.

No começo do mês, quando pegasse o primeiro turno, iria se tratar. Rezava para que não fosse nada. Aquela dor a assustava às vezes, quando se sentia sufocar pelo catarro.

Vestiu a camisola que lhe escorregou até os pés delicadamente, suavemente como a flanela permitia. Bocejou. Tirou uma casquinha discreta do nariz, escondeu-a debaixo da gaveta da penteadeira e foi para a cama.

Pensava.

Ainda ontem a mãe havia dito que já estava na hora de Anita se casar. Que bobagem! Casar como? E com quem? Com o Laurindo, aquele mulherengo boa-vida que desmanchara casamento na véspera?

Pois sim! Mesmo que quisesse se casar, como iria fazer um enxoval, ganhando metade de um salário mínimo?

Era aprendiz de fiandeira, era o que dizia sua profissional e seu cartão-ponto. Só que havia muito tocava sozinha a máquina. Já aprendera tudo, mas no cartão amarelo, diferente dos azuis das serventes que ganhavam salário integral, continuava aparecendo a palavra Aprendiz. E só passaria para o cartão azul quando fizesse dezoito anos. Até lá, seria aprendiz por quatro anos.

Não que reclamasse. Nem todas trabalhavam na cidade e não era qualquer menina que ganhava seu próprio dinheiro. Havia uma fila enorme de moças esperando vaga.

Agora, casar como? Mas só se fosse com o Laurindo. Homem por homem, era ele quem lhe dava uma sensação de se sentir mulher, na flor de sua adolescência.

5

Amanhã, se não faltasse luz, teria um longo dia. Precisava dormir. Ouviu, no relógio da igreja bater onze horas. Mais um pouco e o domingo terminaria. Vida besta! Trabalhar, trabalhar e trabalhar, para ter um domingo tão curto. Não valia! Não era justo!

No sábado havia faltado luz. Foram descontadas porque não houve serviço. Algumas foram varrer o chão, mas não havia vassouras para todas. A luz era uma desgraça. Só prejudicava. Faltava força, não tinha serviço. Tinham de ficar lá, sentadas, sem fazer nada, perdendo de ganhar dinheiro. Porcaria!

Não ouviu o toque das onze e quinze. Adormeceu.

* * *

Bateu o ponto, guardou o cartão e cruzou o pátio. As máquinas, já funcionando, faziam levantar uma poeira amarela que dominava todo o enorme barracão. Os olhos arderam, mas logo isso passou. Em compensação, a dor, meia-hora depois, estava de volta, desta vez mais forte. As máquinas pareciam vibrar dentro de seu peito, acentuando o sofrimento.

Amanhã seria o primeiro dia do mês e mudança de turno. Teria de se levantar mais cedo, mas teria o sábado à noite livre. Pena que não pudesse estudar. Mês sim, mês não, trabalhava à noite. Estudar como?

Um carretel escapou. Ela correu atender. As rocas rodavam vertiginosamente. Se ao menos consertassem o ventilador... Será que um pouco de graxa não resolveria aquela barulheira toda?

Quando terminou o penoso expediente, saíram. O peito doía demais. Estrelinhas brilhantes piscavam diante de seus olhos. Tudo começou a ficar azul. Segurou firme o braço da amiga.

6

— Me acuda, Cléia, queu tou passando mal!

— Que que é, Anita do céu?

— Acho que não comi direito...

— Tontura?

— É... Tontura...

— Quer sentar um pouco?

— Não... Não precisa... Tá passando... Vamo indo...

Deixaram o pátio da fábrica e alcançaram o asfalto. Passara mdevagar diante do fórum. A dor era intensa, sufocante, pondo lágrimas nos cantos de seus olhos.

— Cléia, cê vai no médico comigo amanhã?

— Em qual cê vai?

— No doutor Ikara.

— Já tirou requisição.

— Não. Cê vai comigo?

— Vou, vou sim. A gente passa agora no escritório e pega a requisição.

O ar ficou azul de novo, mas Anita nada disse. Simplesmente não teve voz para isso.

* * *

— Você está com gripe?

— Não — pigarreou. — É do pó da fábrica.

— O que você está sentindo?

— Dói aqui, no peito...

— Senta ali, vamos examinar. Respira fundo.

— De manhão dói muito... Às vezes dá falta de ar...

— Faz tempo?

7

— Uns dois ou três meses...

— Muito catarro?

— Bastante.

— Vai precisar tirar uma chapa do pulmão para ver melhor.

Prevenir, sabe?

— Ah!

— Pede licença de um dia e vai em Cornélio. Vou dar a requisição e o atestado para entregar no escritório. Procura o dispensário em Cornélio. Se chegar cedo, até de tarde dá tempo de fazer tudo.

Saíram pouco depois. Anita, lá dentro, estava assustada. A cara do médico lhe dizia que era coisa séria. Cléia tentou animá-la.

— Eu já tive que tirar chapa do pulmão uma vez...

— Verdade?

— Não deu nada.

— Cê sabe onde que é que faz?

— Sei. Se ocê quiser, vou junto. Peço licença também.

— Ai que bom, Cléia! Vamo amanhã mesmo?

— A hora que cê quisé. Vamos aproveitar que tamo perto do escritório e ir lá acertar tudo.

— Mas me acuda primeiro! Tá tudo anuviando de novo...

* * *

Era sábado à noite, mas Anita não queria sair. Pigarreando ela foi até o portão. Desculpou-se com Cléia. Contra a luz, a amiga não lhe via os olhos vermelhos, mas entendia o sofrimento e o choro na voz embargada e rouca.

— O Laurindo vai perguntar...

8

— Fala que eu não tou bem...

— Pode falar a verdade?

— Não, Cléia, credo! Pra quê?

Cléia entendeu, mas não deixaria de dizer aopoeta, quando o visse. Anita voltou para casa com os braços cruzados diante do peito, segurando a dor e o choro.

— Não há de ser nada, filha! Isso hoje em dia se cura fácil!

— Mas eu tou com medo, pai...

— Tanta gente na fábrica já teve isso e ninguém morreu...

— Não fala assim, pai!

Estava sensível. Não podia tocar no assunto. Não podia se recordar da viagem a Cornélio Procópio, para fazer o exame. Todo o tempo Cléia insistia que não era nada, procurando distraí-la. Até conseguiu. Anita divertiu-se um pouco observando o olhar do motorista no espelho retrovisor interno. Mesmo quando ela mudava de lugar para fugir do sol, ele estava lá, de novo, no espelho. De seu posto privilegiado podia ver qualquer um dos passageiros, pois todas as vezes em que alguém puxava a corda da campainha, ele levantava os olhos para ver quem era. Na volta, seu olhar parecia escorregar pelo olhar de Anita.

Da rodoviária de Cornélio até o dispensário foram conversando.

Anita estava nervosa, mas falava menos que a amiga. Falar cansava e era dolorido. Apenas observava tudo ao seu redor.

— Que lugar para eles construir esse negócio, Cléia!

— Por quê?

— Por causa do cemitério... É tão perto...

9

— Se o sujeito estiver muito mal eles mandam ele para lá —

brincou Cléia, arrependendo-se em seguida.

Anita riu com esforço, sem achar graça. Após algumas horas, entre o exame e a espera do resultado, alguém chamou seu nome.

Aproximou-se do guichê.

— Anita Mendes Garcia?

— Eu mesmo...

— Mancha no pulmão!

10

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