Anjo da tarde por Marcelino Rodriguez - Versão HTML

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MARCELINO RODRIGUEZ

Anjo da Tarde

Editora Luz do Milênio

Produção Liter & Art Brasil

ANJO DA TARDE

MARCELINO RODRIGUEZ

1ª edição

2008

Publicação: Editora Luz do Milênio

Produção: Liter & Art Brasil - Movimento Cultural de Literatura e Arte no Brasil Editoração Gráfica: Elida Kronig

Apresentação

O Anjo da Tarde

De alguns anos pra cá meu espírito por vezes debate-se sobre onde vou fincar

residência ou cidadania, não tanto pela dupla nacionalidade que tenho quanto pelas dificuldades de toda ordem que no Brasil um homem de cultura e alguma sensibilidade acha.

Há vinte e dois anos tenho ido de uma margem à outra; cheguei a ficar um

tempo na Argentina mas o destino trouxe-me ironicamente de volta, como se o país de minha mãe fosse minha Nínive, aquela pátria que o profeta Jonas não queria pregar de jeito nenhum.

Algumas vezes populares me sugeriram que eu fizesse algo com minha obra

em prol da população! Bem, o Brasil tem em seu maior problema uma alfabetização de fraca qualidade e um ridículo índice de leitura. Não existe a curto nem médio nem longo prazo futuro algum a um povo sem cultura e sem leitores. A televisão seria o veículo mais apropriado pra ajudar a população em grande escala. Eu tenho dentro dos meus muitos limites, feito como o personagem bíblico: falado pra meia dúzia. Mas poucos lêem; e mínimos entendem. Então esse Anjo da Tarde, escrito para distribuição gratuita na WEB

(e peço que quem gostar do livro repasse a seus amigos), é mais uma forma que tenho de repetir as mesmas coisas: sem coração, sem educação, sem leitura, sem formação espiritual (e não religiosa), estaremos vivendo uma singular era tecnológica ao mesmo tempo que humanamente temos uma espécie de Invasões Bárbaras, onde as pessoas se odeiam sem motivo; e quem não ama seu próximo, seus artistas, seu país e seu Deus, não apenas é analfabeto das letras como doente de espírito.

Que esse Anjo da Tarde possa resgatar alguma beleza no exílio desses tempos

singulares.

O Autor

Dedicatória

Este trabalho é dedicado

À Virgem Maria

Á Elida Kronig, á Hermanita Laura e ás amigas Luciana Correia e Cássia

Prefácio

Quando fui convidada para escrever o prefácio, a sensação foi de euforia,

seguida por um quase desespero, que logo transformou-se em preocupação.

Como uma escritora não-publicada poderia apresentar uma obra saída do

imaginário de um premiadíssimo autor internacional? Outra questão acalorava-me os pensamentos: como atingir o objetivo de apresentar o livro, sem desencaminhar-me pelo exagero que todo ídolo encantadoramente nos provoca?

Ao tomar conhecimento do conteúdo, as respostas vieram fáceis: alma e

coração, pois são com esses ingredientes que o autor deu vida a Anjo da Tarde.

Nostalgias, inquietações, amores, incertezas, decisões, buscas, críticas, espiritualidade e todas as formas de paixão, tão bem manipuladas por Marcelino, como peças de

malabares.

Nas próximas páginas o leitor será guiado para uma profunda viagem ao

interior do homem. Há um pouco de nós em cada linha. Este é um livro que serve muito bem aos públicos adolescente e adulto, feminino e masculino.

Começaremos percorrendo lugares ermos sentindo saudades dos dias de

ternura com o odor de café que emanará das vitrines, entre prédios de concreto e fumaça negra. O milagre revela docemente o despertar de uma mulher madura. A docilidade, por sinal, é uma presença constante.

A partir daí, estará o leitor totalmente tomado pelos antagonismos envolventes

de Anjo da Tarde. Reserva e entrega. Rancor e alegria. Orgulho e submissão. Imparcial e passional.

Deixo ao caro leitor a tarefa de descobrir por si, a constatação de minhas

palavras e ainda, desvendar o que não foi dito.

Elida Kronig

Índice

Apresentação

2

Prefácio

4

Um épico do Caju ao Recreio

6

Tango para Hermanita Laura

8

A timidez

10

Ainda ontem ela sorria

12

Segunda carta de Mel

14

Sentimento ilhado

15

Nerd na madrugada

16

A mulher imortal

17

A peregrina da paz

19

As Rosas de Shalom

20

A espiritualidade cristã

22

O soldado e os monges

23

O milagre

26

O marinheiro ensinando

28

Almoço galego

30

Bom dia, Espanha!

32

Madrugada à minha espera, meu refúgio, meu regresso

34

O fake solitário

36

Síndrome de Satã

38

O Livreiro de Kamelot e seu sistema amoroso

39

Invocação a São Miguel Arcanjo

41

Biografia

43

Entrevista concedida à Liter & Art Brasil

44

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Um épico do Caju ao Recreio

Crônica elogiada por Cristovam Buarque, político, educador e professor

universitário.

A cena não me sai da memória, como se eu tivesse participando de um filme épico, percorrendo lugares ermos, buscando um sinal que lembrasse-me a civilização.

Era como se eu tivesse nos países mais pobres da África ou da Ásia. Mais estava no Brasil, numa viagem de ônibus que vai do Caju ao Recreio dos Bandeirantes, via Avenida Brasil.

O trajeto abunda em outdoors, indústrias, comércios variados, favelas, muita

pobreza no ar, o que já deprime.

Mais um fato que chamou-me atenção sobremaneira é que até se chegar ao Barra

Shopping, em mais de hora de viagem, olhando pela janela do ônibus, tentando entender aquelas paisagens amorfas, não se avista uma livraria sequer.

Fiquei pensando na violência, nas relações genéricas de um país continental que

não cultua livros como gênero de primeira necessidade.

Como se relaciona a população sem leitura?

Como pensar um povo sem cultura?

Que futuro pode haver?

Descobri a pólvora nesse dia: falta cultura de livros no Brasil.

Ou seja, o livro precisa ser descoberto.

A população simplesmente não sabe que através do conhecimento livresco poderia

sanar parte de seus problemas. Não se relaciona livro com poder, curioso... Assim que a troca de informação passou a ser meramente decorativa, com 'bacharéis' sem literatura, daí a péssima qualidade do funcionalismo e das trocas sociais em geral, incluindo um comércio cego e imediatista, as religiões pitorescas, o desemprego grotesco, os

desperdícios e a vida vazia do 'faz de conta do vídeo', com indivíduos abaixo da crítica, doentes.

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Monteiro Lobato , descobridor do petróleo no país, dizia que um país se faz com

homens e livros.

Eu diria que os homens se fazem com livros ou valores, pois são essas qualidades que alçam a humanidade acima do reino animal.

Mais livros e se teria mais disciplina, menos violência, se gastaria menos em drogas e jogos, diminuiria a gravidez prolixa de pobres e adolescentes.

Livro ensinaria a lei da conseqüência e a descoberta do outro.

O livro é uma ponte entre o humano e o divino.

Ou será que se pode pensar a humanidade sem livros? Eu diria até que certos

homens são dispensáveis; livros, não.

Aqui está a pólvora do mal brasileiro: pensa-se ser possível chegar a algum lugar sem informação.

Onde fica esse lugar mesmo?

Aliás, o que é lugar?

Quem quiser descobrir um país, tem que começar pelos livros.

04.05.2005

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Tango para Hermanita Laura

(À Laura Venslavicius)

Enquanto com a ternura ferida,

Meus pensamentos solitários, sangüíneos

Iam da Galícia a Havana,

Passando pela Argentina

Nas noites frias dos computadores,

Exilado das mãos humana nos cyber-cafes,

Recebendo dos jornais as mais sombrias notícias

Da terra – tua asa portenha me encontrava

Por esses dias que fugiam

Um após outro, como pássaros emigrantes.

Fizeste comigo a alada crônica da amizade,

Esse poema de força infinita.

Com teus passos, desde então vens

Andando comigo, enquanto minha viagem prossegue

Nos gelos silenciosos das rodoviárias,

Nas minhas buscas de acertar o alvo

A cada dia errante peregrino

Persisto, deixando nos sonhos noturnos

O único descanso, no coração a esperança

Que um dia minhas palavras encontrarão

Eco no mundo, assim que andaremos

Límpidos e puros

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Numa imortal caminhada na Plaza de Maio,

Com a tarde serena de Buenos Aires

Ao odor de café que emanará das vitrines...

Um dia não mais haverá apenas chão, distância, medo.

Um dia como crianças, nos veremos.

E do sudeste do Brasil, te saúdo este tango profético!

E riremos juntos de Don Quixote, Don Juan e dos mitos melancólicos.

E retornarão os dias de ternura, rodeado de palomas.

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A timidez

06.2000

Publicado em "A Ilha"

Muito já se falou sobre a timidez, mas creio que erradamente e arrisco-me a dizer que muito poucos sabem o essencial do assunto. Vou dar meu testemunho de tímido

assumido e nem um pouco incomodado.

Em primeiro lugar, a timidez esconde tanto um pudor quanto um orgulho. Há coisas que envergonham ao tímido, que se for de boa safra, não suporta demonstrações

esfuziantes de sentimento às vistas dos outros nem de que exponham sua privacidade, assim como respeita a privacidade alheia. Para o tímido o amor é íntimo e fim de papo.

Ele, o tímido, tem o dom da delicadeza e um orgulho imenso de viver no seu território de calma nervosa. Não é fácil tocá-lo, porque ele se esconde dentro da pele. E exatamente nisso que está dentro da pele é que o tímido não quer que toquem, sacaram?

O tímido sente vergonha pelos outros.

Possui antes estratégia que agressividade.

Intuição que racionalidade.

O tímido fala manso e é desconfiado de que podem pensar mal dele, e tem medo de

acusar o erro dos outros.

Ele quer sempre exalar que perto dele tudo está tranqüilo e todos podem sossegar abaixo da sombra da sua simplicidade e acolhimento. O tímido é humilde porque sabe que é humano. Sabe das suas limitações, muito maiores que suas forças.

Ele tem verdadeiro pavor de incomodar ou de chamar atenção para o seu lado. E

muitas vezes quando fala, fala da boca pra fora, pois essencialmente ele só sai da sua pele para um lugar muito, mais muito aconchegante.

O tímido procura ver a causa e não o efeito.

Não compreende nada que não seja essencialmente sensível ou humano.

Sofre mais que os outros, porque não é indiferente e tem senso comunitário. O

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tímido fica envergonhado de seus próprios tesouros.

Jamais posaria nu.

Finge não ver o interesse predador nos olhos das pessoas.

No amor é cortês, discretamente galante e serviçal.

Tem pavor de badalações, aglomeração, exibicionismo.

O tímido sofre de um imperativo categórico que o faz praticar a mais antiga das

religiões: a de ser natural.

Como vêem, o tímido seleciona para não se perder no meio do barulho.

O seu silêncio não é omisso.

Ele age enquanto falam.

Suas segundas intenções são as primeiras.

O tímido, na sua santa humanidade, quer apenas uma coisa: que o deixem em paz.

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Ainda ontem ela sorria

Noite fria. Solidão. Meu Mel viajou.

O coração no exílio navega com Barbra Streisand.

Mar calmo, fundo e triste.

Pensar que ontem ela me acordou com um sorriso.

E que tão funda e feliz foi a impressão de vê-la pela manhã que virei o rosto com vergonha que ela visse a intensidade do meu amor.

Por que o amor nos mete medo?

Sim, eu vi o mundo inteiro naquele sorriso.

Queria dizer obrigado talvez.

Por que ela sorria? Terá achado graça de ver-me dormindo?

Agora tão longe e o mundo tão sem cor. Disse-me que precisa pensar.

E se pensar errado, ou pouco, ou muito? Vejo-a além do tempo.

Sinto a eternidade com ela. Pode o peito nos trair?

Pode uma ilusão ser tão exata? O abraço de Mel, seus cabelos longos no

travesseiro. Metáfora de Deus pra mim.

E agora jogo xadrez com a solidão. Deixou-me um presentinho.

Ela volta. Sim. Sei que volta...

Senão de nada vale meus sentidos, nem meus sentimentos, nem meus instintos.

Senão toda criação estaria errada e as estrelas despencariam do céu.

O sol ficaria negro.

Na verdade eu gostaria de dizer aqui o que não posso.

O que não cabe. Entre a linguagem e o amor existe um abismo.

Ou talvez seja tudo uma saudade...Canta Barbra.

Me ajuda sobreviver...Ainda ontem ela estava aqui e sorria...

Isso que bate ainda aqui será meu coração? Sim, o biológico.

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Mas o que há dentro dele vive em outro lugar. Só ela tem a chave.

Minha liberdade e minha prisão nas mãos de uma mulher.

Ninguém se pertence.

Somos todos, maravilhosamente, filhos do amor.

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Segunda carta de Mel

Querida, já fazem agora três dias que te foste de viagem. Estou aqui pela casa,

naquela bagunça que bem conheces e que tento arrumar sempre, e sempre pela metade me fica a arrumação... O sábado amanheceu nublado, meu desejo intenso, o espírito naquela estação heróica que fica entre a melancolia e o êxtase – tou tendo, como voce sabe, de fazer tudo sozinho... Ontem cheguei afobado pela noite a ai me aconteceu de cortar o indicador esquerdo. Nossa! como sangrou! Fiquei até com medo de morrer.

Procurei estancar o sangue com farinha na ausência de algo mais eficiente. Hoje está o dedo inchado e inflamado... Tou procurando por algumas leituras em dia... Mas ao menos pensei que se morresse já teria te declarado o meu amor absoluto e perfeito. Não, eu não a amo. Eu a venero e idolatro! Amar-te é meu Deus! Mas isso tudo com aquela calma trágica que bem conheces... sabes, agora em agosto vou ter uma agenda lotada, porque preciso otimizar a vida que quero partilhar contigo, as coisas da Hel o Kit... Uma coisa estranha que fico pensando é esse ente chamado amor que vive entre nós dois e faz com que nossos gestos coincidam numa metáfora perfeita. Meu Deus, confesso que nunca pensei em haver felicidade na terra, mas era que eu não me conhecia, Vc me descobriu, sim, eu era esse suave homem que te ama suspirando, que a deseja com intensidade mas sem pressa. Eu era esse abençoado, filho da eternidade! Tudo isso me revelastes.

Por isso sou pequeno e gigante em seus braços; por isso não posso temer nem ser

destruído; por isso vejo e sinto milagres. Por ti. Adorada, desculpa, Vc sabe que viajo... Se me perguntassem agora que penso em ti, onde estaria, não saberia dizer... Mas uma imagem feliz me vem a mente. Quero vê-la velhinha ao meu lado, perto da minha morte, olhando pra mim e sorrindo. Ai eu poderia partir mais uma vez e em paz.

Esse é nosso segredo. O “pra sempre”. Estou a sua espera.

Bob

29.07.2006

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Sentimento ilhado

Sentimento ilhado, morto, amordaçado, volta a incomodar.”

A voz de Fagner joga-me em funda melancolia, revolve coisas…

Bóias solitárias de coisas não vividas e não ditas, enganos irremediáveis.

Tudo no mar dentro da alma, tudo nas profundezas de mim…

Em vão pensar um gesto, não dá mais.

A gente passa a vida toda lutando pra ser claro, pra ser correto, pra buscar ser límpido e temos que de tudo passar e ouvir…

Aquele adeus que não se teve, aquela palavra que não se pode dizer e a própria

explicação que não conseguimos mais dar.

Horas há que cansamos e melhor fora que se deixássemos a canção falar sozinha e

chegar a noite com seu véu.

Mas a melodia desperta o desejo de quem sabe vir um milagre em que a própria dor transforme-se em comunicabilidade.

Porque sofremos de não sermos entendidos? Bem, alguém que já quis dizer mil

coisas e não pode, alguém que já quis se explicar e não conseguia mais, alguém que em algum momento sentiu na pele a dor da fragilidade humana quando há os choques de pensamentos, de sentimentos e de atitudes, não pode deixar de sangrar o coração ao ouvir sobre esses sentimentos ilhados que levamos dentro de nós e brotam as vezes do nada, numa manhã inadvertida, numa tarde melancólica ou na noite profunda.

“Sentimento ilhado, morto, amordaçado”.

Sim, eu sei o que é isso.

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Nerd na madrugada

Acho que to ficando esquisitão. Diz a astrologia que os virginianos são cheio de manias. Deve ser isso. Eu tenho algumas. Talvez eu seja um tipo excêntrico, sei lá. A Web me deixa neurótico. É muita informação, muitos contatos, comunidades.

Todo dia me apaixono nesse negócio. Dá até insônia. Ai fico aqui ouvindo Kid Abelha e pegando as fotos sensuais das minhas amigas cheio de fantasias. A Web pode ser o templo da luxúria. É um terrorismo de mulher boa. Quem me vê por ai nem imagina que sou um Bin Laden sexual com meu jeito de personagem de gibi em quadrinhos. Também ando falando imprecações e xingando nomes feios quando topo com um chato virtual.

Chego a sentir um ódio real e profundo. Eu poderia esganar até a morte um inimigo virtual, mas faço um voduzinho e fica tudo certo. Acho que já matei uma meia dúzia com esse sistema.

É terrível administrar 9.587 perfis e nomes. Pior ainda quando a cerveja acaba e o predador fica nervoso! Nunca pensei em mim como um animal devido a meu intelecto de alto nível e minha modéstia refinada. Mas a Web, cerveja e minhas safadezas denunciam minha posição biológica. Predador nato. Meus amores, desculpem esses devaneios tolos, mas sabem lá o que é estar acordado e sem sono as duas da manhã com tudo pra clicar e sem saber onde clicar? Afinal, qual a prioridade desse negócio?

Mas eu fico puto mesmo quando uma paquera não percebe que sou uma raridade.

Eu tenho um orgulho do tamanho do sol. Fico bolado quando não me amam. Deus me fez para as moças. Tenho certeza. Pena que elas se distraem e me deixam sozinho na web.

Ai lá vou eu roubar fotos de biquini.

A vida é mesmo uma merda! Eu sou Free, sempre free, sou free demais....

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A mulher imortal

Na bela noite de lua cheia, eu afogando-me na solidão e na virose que abateu-me

por dias, reencontro-a na comunidade do Orkut...

Ela nem sabe que meu último livro foi dedicado a ela.

Há cinco anos não nos vemos; desde que, batendo continência a deixei na

rodoviária, seu rosto melancólico na janela...

Linda e morena no seu sorriso iluminado, l á está ela no PC de chapéu de bruxa,

com aquela atmosfera única que um dia foi minha, sua sensualidade discreta.

Relembro conversas.

— Que parte do corpo mais gosta em você? - Eu perguntava.

—"Meu cérebro. È muito complexo."

Uma vez me perguntou:

— “Você se sente flutuando quando beija?”

— Sim.

— “Ah, bom. Pensei que era a única maluca...”

Ela indicou-me, fazendo mistério, o filme " Tempestade do Século".

E uma vez, como recordo! Ficamos oito horas abraçados no sofá...

Agora revejo-a.

Não sei se é a mesma garota engraçada, com o mesmo senso de parceria. Se sou

uma boa lembrança para ela.

Eu mudei. Sei mais das contas e do peso do mundo; estou tristemente mais sábio.

Mas percebo hoje, na torrente exata das lembranças imortais que continuo lá no

rodoviária, batendo continência à ela.

Sua volta era o combinado.

Descobri que o tempo passou, mas não ela...

Ficou como uma canção cantada por Sinatra, um filme nostálgico e profundo, uma

cena de primavera inesquecível; a namorada perfeita de tão humana que era...

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Não fomos nós que nos separamos, mas a fatalidade. Vontade de dizer: retorna.

De todas as mulheres, somente a lembrança dela é nobre e sem mácula.

Por isso essa bela lua cheia sobre minha cabeça, brilhando como uma eternidade na rua que ando solitário.

Vontade de dizer: vamos ao mercado, comprar macarrão com carne de porco,

macarrão com orégano e vinho tinto.

O tempo parou no tempo dela.

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A peregrina da paz

Texto publicado em Mar, Romântico Mar

É uma lenda e uma Tradição na literatura espiritualista, a figura de uma mulher

americana que denominava-se “peregrina da paz”, que caminhava pela América da

década de cinqüenta levando apenas seus pertences e pregando o pacifismo. Essa

romântica figura humana, que o mundo ao que parece conhece pouco, me inquieta. Como teria sido sua vida? Seria bonita? Uma erudita ou uma rústica? Teria feito alguns namorados pelo caminho? Alguma portas não teriam se abrido para ela? Teria vínculos mundanos? Seria um anjo? Como teria sido a vida e obra da peregrina da paz? Como falta-me dados para saber, só resta-me imaginar, que é o que fazemos quando pensamos sobre o que a realidade seria.

Vejo-a chegando com seus pertences na casa de um casal de ávidos comerciantes.

Chove. O chefe da casa, mal-humorado, responde que não tem dinheiro e fecha-lhe a porta na cara.

Ou então na residência de um drogado inveterado, que oferece-lhe um baseado e

pergunta se ela quer fazer amor. Com os olhos cheios de compaixão, vendo que ele é um caso perdido, ela prossegue.

Um político pensa em usar sua imagem para sua campanha contra a violência.

- Não, Senhor, não é isso que estou procurando – Peace Pilgrim responde.

Passa pela casa de um pastor que quer pregar-lhe em altos brados, um padre que

lhe quer quer explica os fundamentos da teologia de São Tomaz de Aquino, um monge budista que manda a peregrina meditar e não a ouve, e assim ela prossegue pelo mundo, dançando com os ciganos, amanhecendo o dia ao relento com um menino pobre,

vendedor de jornal, numa caminhada interminável.

Imagino ela batendo à minha porta. Vejo-a chegando, trazida pelo vento do norte, agora um senhora sexagenária, exausta pela longa viagem.

- Pois, não? – Digo-lhe, entreabrindo a porta.

Ela olha-me fundo nos olhos, mas não diz nada. Tira da mochila hippie porém larga e funda uma delicada rosa vermelha e oferece-me; vai embora.

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Ela viu nos meus olhos que já tenho paz, assim como enxergou no fundo da minha

alma uma ausência que a paz em si não supre; sua rosa vermelha foi apenas um gesto de solidariedade. Ela sabe o que me falta, e certamente não é paz, nem doutrina, nem entendimento.

Mas isso é um segredo entre eu, a peregrina e o vento do norte. E mais ninguém.

26/06/2002

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As Rosas de Shalom

Uma amiga diz que está mandado-me "As Rosas de Shalom". Digo-lhe que nunca recebi rosas e ela diz ficar emocionada. Verdade. Nunca recebi rosas. Fui eu que fiquei só na noite mais fria, sem ter recebido o mínimo investimento, abandonado por tão pouco, por tão menos, por tão nada. Fui eu que quando mais precisei, fiquei com a tristeza mais pura, tropeçando sem jeito na terra por ter acreditado em palavras vãs. Fui eu que fui ouvir Jackson Five somente pra lembrar que fui menino um dia e a maldade não me

atingia tanto. Fui eu que fiquei sem jeito. Fui eu quem carregou toda dor, toda desilusão pesando por dois mil anos. Fui eu, fui eu, fui eu. Eu que preocupei a meus amigos com a tristeza crescente. Eu que matei a primavera. De tudo, eu tive as lágrimas. Mas só eu possuo a chave, a glória dessa dor. Eu amei o difícil. Lutei pelo impossível. Lutei contra mim. Todo valor foi desprezado. Os sonhos despedaçados, choraram. E o vale de dores se abriu, infinito. E caminhei e caminho, dia e noite, sabendo quase tudo de tudo. Sempre soube que me chamava Daniel e que estava na cova dos leões.

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A espiritualidade cristã

Uma vez li uma coisa muito bonita e muito singela numa biografia do Roberto

Carlos. Ele dizia que "não acha certo as pessoas colocarem dúvidas com relação a Deus". Também me incomoda a superficialidade com que se tratam dessas coisas, principalmente as pessoas com "pendores intelectuais". Sentem-se superiores a Deus.

Perdôo ateísmo até os vinte e poucos anos, depois disso é bobagem. Não perco tempo com quem não percebeu a única coisa óbvia: Deus. Aliás, tem gente que pensa que a igreja se resume a missa aos domingos ou a um padre falando sermões. A Tradição Cristã tem várias práticas de espiritualidade a serem aplicadas no cotidiano e na transformação da Vida. A reza do terço, a contemplação dos mistérios, a meditação sobre as passagens da Bíblia, o jejum, tudo isso são práticas que acompanham a espiritualidade católica, vamos dizer assim. Ando pesquisando sobre a mística Cristã tem algum tempo: Santa Tereza Dávila, os Padres do Deserto, toda essa vertente da prática espiritual e não apenas da formalidade da Igreja. Acho que meu esforço ainda que mínimo deveria ser seguido. Trazer o Deus de amor, de silêncio e de caridade mais para nosso cotidiano. O

ser humano que não tem Deus como fato é um problema social de proporções

imprevisíveis. Ainda que no deserto, quero estar com Deus, ainda que a propaganda o dê como morto ou exótico. Um terço custa poucos centavos. Dá uma paz tremenda. Mas o maior pecado humano sempre foi a falta de imaginação.

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O soldado e os monges

Uma intensa melancolia levava J ao abrigo dos franciscanos, uma dor que ele sabia única. Toda formação da sua alma, na parte mais profunda, era Bíblica. A leitura do Novo Testamento na juventude pusera Jesus como ponto central da sua vida. Com Jesus ele aprendera a exercitar a solidariedade, a viver pensando também na vida futura, além de não fazer questão também de coisas menores. A literatura também o estragara. Era um homem nobre e pagara um preço caro por dar-se ao luxo de cultivar-se e viver entre incautos, gente bárbara que detesta cultos e cultura.

A frase de Nietzsche em Zaratustra o levava ao mosteiro: “Tivesse Cristo vivido mais alguns anos, teria mudado sua doutrina”. Essa era a verdade que sentia agora e doer-lhe a alma. Não concordava com o Deus que Cria. Tinha trinta e cinco anos e um desprezo silencioso pela humanidade. Nos últimos dois anos então, a despeito de suas boas intenções e qualidades, não achava nada. Nem amores, nem amigos, nem trabalhos. Não na proporção que o tornasse menos triste. Ainda por cima tinha a pobreza como uma carga, o que o tornava mais vulnerável e nu às gentes. Já tinha sofrido todo tipo de maldade de seus próprios parentes. Lembrava o olhar de desprezo da mãe ao olhar para ele. Que tinha feito? E a rispidez humana? Qual era a finalidade? E a falta de interesse e amor ao criador? A covardia? Olhava as pessoas jogadas no chão e perguntava-se: quem é o responsável? Odiava a brutalidade. Tremia a cada ato de deselegância. Da mais grosseira a mais sutil, sobre tudo a deselegância o incomodava. É feia a raça humana, concluía. Chegava a sentir laivos de desprezo por Deus, por criar tal massa de famintos.

Era um Deus mesmo que criava tudo?

Com esses pensamentos íntimos, bateu a grande porta do mosteiro. Um jovem

Franciscano veio atendê-lo.

"Pois não, Senhor”

“Procuro o Igor, o líder de vocês.”

“Ah, sim. Pode entrar. Aproveita que estamos comemorando o aniversário de um dos internos, Tomé.”

J entrou e viu os franciscanos completamente misturados ao pobres, mendigos,

aleijados. Ficou impressionado com o número de mutilados que viu: uns vinte. Todos

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homens. Um deles, arrastando a cadeira, veio perguntar-lhe se queria uma fatia de bolo.

Aquilo o comoveu um pouco. Ao mesmo tempo ficou chocado com tanta pobreza. Os

banheiros eram coletivos e abertos. Foi vendo com Igor outros internos. Havia em quase todos internos uma ferida, uma chaga aberta. Muitos fumavam. J pensou que estaria aprendendo ali, naquele lugar.

“Igor, se importa de conversar comigo um pouco?”

“Não, claro”.

“Bem. Ouvi falar do trabalho de vocês, achei bonito, nobre, mas ando com um

questionamento profundo, uma angústia grande em relação a minha fé.“

“Como assim?”

“Creio em Jesus. Mas não creio que o homem deva ser salvo. Os homens são ruins.

Não acho boa coisa salvar a humanidade. Acho inútil.”

Igor olhou J de modo estranho...

“Você não tem amor?”

“Tenho. Esse é o problema. Não me falta amor. E aqui estou, cheio de amor e sem

nada, nem ninguém. Não aproveitaram meu amor.“

“Como dizia Francisco: o amor não é amado.”

“Por que você faz esse trabalho?”

“Vocação, acho”

“Pois é. Teve um tempo que até pensei em ser padre, depois monge. Mas o mundo

desviou-me. Hoje creio ainda na mensagem, que Jesus é o Messias, mas não creio na salvação dos homens. Eu não os salvaria. Igor, posso te pedir uma coisa? “

“Sim”.

“Posso dormir aqui?”

Igor olhou em volta, pensou.

“Você não tem onde dormir?”

“Tenho. Mas não estou bem. Quero sentir essa experiência.“ J pensou na hesitação de Igor, que até um mosteiro tem sua porção de má-vontade. Será que ele vai mandar-me embora agora, alta noite?

“Lá em cima tem um saco de dormir sobrando. Boa noite.”

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J dirigiu-se à parte superior do mosteiro, enquanto via aos poucos as luzes de baixo

- onde ficava a maioria dos pobres e mutilados, se apagando. Ali estava ele, sem nada.

Pedindo asilo aos pobres. Pensou abandonado entre as cobertas se Deus não seria ou não queria apenas aquele abandono, aquela pureza, aquela entrega ao nada infinito.

Na manhã seguinte, J olhou do parapeito do segundo andar e viu os monges

vestidos de Francisco misturados com os pobres, compondo um cenário digno de idade média. Perguntou-se em que tempo se sentia. Ou estava. Dirigiu-se ao refeitório, onde os cinco jovens monges de não mais de dezoito anos distribuíam-se nas tarefas. Igor já havia saído.

Não era santo nem pobre o suficiente para ficar. Levou dois monges ao ponto,

pagou a passagem de um deles e vinha olhando o mundo dos homens pela janela.

“Que tipo de soldado sem causa sou?” – ia pensando, enquanto as paisagens

sucediam-se entre prédios de concreto e fumaça negra.

19.10.2005

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O milagre

Era recém-casada e começava a sentir o peso do cotidiano. Aquele dia igual, a casa silenciosa, o marido que molhava sua toalha ao tomar banho, tudo aquilo fazia com tivesse crises de angústia. A insatisfação era notória no seu rosto.

Passou assim a primeira semana, pensando em fugir, em anular o casamento.

Também a segunda semana, onde a casa pequena, os afazeres domésticos, o

apartamento de fundos, tudo a fazia ter sentimentos contraditórios com aquele que casara.

Tinha saudades do tempo que vivia só para si, na casa dos pais, com a mesa posta e a casa arrumada sem que tivesse que dispender maiores esforços.

Na terceira semana, porém, começou ver as mesmas cenas de modo diferente: a

janela, a mesa que arrumava religiosamente, a comida que fazia, o sono inocente do marido, os caminhos do bairro, tudo parecia determinado e escrito para ela, como um novo corpo.

Tomava banho com mais graça, pintava as unhas, ia no cabeleireiro, sentia ciúmes, cuidava de cada detalhe da casa com denodo. Lembrava com prazer trechos do que já fora vivido e, à noite, entregava-se com êxtase.

Aquele homem fora como um Deus na sua vida, mudando todos os seus planos,

inclusive as partes recônditas da sua alma.

Numa manhã, quando o marido dera uma saída, foi que percebeu, pela primeira vez

ao ver um pássaro na janela, que seus olhos haviam mudado. Nunca olhara um pássaro daquele jeito, como se ele fosse uma revelação metafísica.

Onde seria seu ninho?

Por que pousara na sua janela?

Sim, agora ela percebera o milagre que lhe acontecera. Não adiantava rebelar-se

com o criador.

E entendeu o provérbio bíblico pela primeira vez com toda intensidade: “macho e

fêmea vos criou”.

Rezou a Deus em silêncio, como só as mulheres sabem fazer, pedindo para que

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aquele homem nunca a abandonasse. Havia percebido ser inteira...

19/01/2003

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O marinheiro ensinando

O marinheiro aposentado dava ao enteado, com autoridade, lições de como matar

baratas e ratazanas, explicando detalhadamente o veneno que inventara e as vendas que fizera. Sempre com o brilho no olhar de felicidade, que nem a bengala provocada pelo derrame lhe tirara. Ele jamais admitiria qualquer tipo de derrota, nem morto.

— O principal da mistura é o ácido bórico. Pode-se também pôr um pouco de

cerveja que atrai as baratas pelo cheiro. Cebola e queijo ralado. Não fica um. No restaurante da praça não ficou um rato, mínimo que fosse. Quando eu ia lá o Português me servia até bacalhau com chopinho.

— O senhor que inventou? – perguntava o jovem melancólico, imaginando com

inveja como ele poderia estar feliz com atividade tão estranha, e sentindo-se pobre e inadequado de não saber como tirar daquilo uma razão metafísica.

— Eu tinha metade do macete, o resto eu criei. Mas não dou a fórmula a ninguém.

Rato e ratazana não é a mesma coisa; as ratazanas podem até subir pelas janelas, certo?

Os ratos não, se escondem.

O jovem pensava como pode alguém enveredar a mente por um negócio daqueles,

embora admitisse que ratos e baratas de fato deviam ser mortos; sequer entendia porque Deus os criara; assim como as cobras, sapos e outros bichos repugnantes. Achava a vida sórdida a maior parte das vezes.

O velho marinheiro parecia ficar gigantesco ao narrar sua habilidade para produzir veneno e vendê-lo sem nenhuma vergonha. A própria bengala que ele usava lhe parecia sublime, uma arma a mais no porte do padrasto, contando essas coisas num dia de

domingo.

Pensava se aquele surto de arrogância e felicidade era um blefe do padrasto. Se só ele carregava aquela insatisfação espiritual básica com a existência.

Sentia vontade de ser outro, ou de não ser. E ficou pensando, ao deixar a presença do velho, se alguém ao vê-lo caminhar admiraria nele o que quer que fosse e também sofreria algum tipo de impacto como aquele que o padrasto lhe fizera sentir no domingo nublado.

“Ninguém vive no mesmo mundo” – pensou, enquanto ligava o aparelho de

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televisão, talvez para esquecer o quanto sempre seria fraco diante do velho que o criara.

13/01/2003

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Almoço galego

Há quase vinte anos não via minha tia galega.

Decidi revê-la depois de um evento oficial importante da vida.

Fui acompanhando de uma mulher...

Quase vinte anos...

Ali passei dias da infância, entre pés de jambo, coelhos, pintos, o grande cão negro e o cheiro próspero e próprio da Espanha, com sua "ignorância e sua intolerância", como diz o Almodóvar, em "o matador" sobre os espanhóis. Lembro-me que tudo que minha tia dizia ou berrava era quase uma "ordem religiosa".

Minha tia praticamente já me esperava na varanda, com o eterno ar imponente. Mal viu-me e começou a falar mal de meu pai, que era um camponês mal-educado, enquanto ela foi uma moça educada na cidade. Eu, minha prima e a mulher escutávamos em

silêncio.

Discorreu assim por quase meia hora, dizendo também que meu outro tio galego

ganha duas aposentadorias na Espanha, se aproveitando do governo. Eu ouvia atento e sem interromper. Aquelas palavras eram sinceras, os impropérios das tias espanholas são sagrados!

Terminando de falar dos irmãos, perguntou-me, como quem havia me contado uma

história infantil:

— Você gosta de peixe?

— Gosto sim, Tia.

— Então vamos comer peixe.

A empregada providenciou o peixe, que em tudo parecia ter a medida da minha tia.

O peixe simples repartido praticamente em fartas partes iguais, a mesa posta para quatro, o singelo refrigerante, a janela aberta para o vasto quintal e eu reencontrando quase vinte anos depois, minha vida galega. Foi o melhor peixe que comi na vida. Os ossos do meu pai estão devidamente guardados no jazigo da família.

Talvez passe outros vinte anos sem ver minha tia ou sequer a veja mais, já que ela já conta seus setenta anos, mas o que importa não é o tempo, e sim a qualidade do

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encontro. Minha tia é uma autêntica tia espanhola, com tudo que vem implícito nisso.

Estranho amor, o nosso...

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Bom dia, Espanha!

Publicado no Livro Bom Dia, Espanha

Hoje acordei pensando em fazer um poema sobre como forçar-se, por uma

questão de sobrevivência, a ter esperanças. Caminhava pela rua Javier Dias, numa província qualquer da Argentina. As barbas por fazer, a pouca vontade de tomar banho, o dinheiro acabando em parte, outra parte na mão de terceiros sem responsabilidade.

Praticamente sem vínculos de afeto familiar, tornando-me aos poucos um

cético no que se diz amor entre os humanos, híbrido de dois passaportes, sofrendo a risada cínica das pessoas quando digo que sou escritor, com intenções blasfematórias contra Deus, que não me deu absolutamente nada que fosse duradouro ou valesse a

pena. Aqui onde estou e donde sai, ninguém que tenha lido Rimbaud ou se emocionado com a trágica vida de Van Gogh. Estou só, verdadeiramente.

E pensava fazer um poema "eu te forçarei, esperança".

Meu mundo não tem paralelas.

Às vezes dói o sentimento de inutilidade.

Tornei-me praticamente invisível de alma. Talvez esteja vivendo para os

séculos futuros, ou para nada. Talvez eu seja realmente muito pequeno, insignificante e não mereça mais do que tenho - sequer um canto para envergonhar-me sem que

ninguém me veja. Estou exposto. Se continua assim logo estarei pedindo as gentes: -

"posso viver"? .

Manhã cinzenta. Sem sol, sem vento, sem chuva.

Debruço-me sobre o correio eletrônico e vou lendo a tristeza das gentes de

todo o mundo sobre o atentado sobre os trens em Madri. Em algum momento, arrepio-me.

Eu sou Espanhol. É linda a Espanha e dói-me.

A Espanha é minha, mas por que está tão distante? Por que tudo está tão

distante?

A verdade é que estou confuso, chorei um pouco. Perdoem-me. Ainda sou

capaz de sentir e parece que neste cavalo eu vou sozinho (talvez por uma razão cínica)

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inventar a esperança. Morrer por isso. Melhor que por nada.

Bom Dia, Espanha! Resistiremos.

11.03.2004

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Madrugada à minha espera, meu refúgio, meu regresso

Um leitor me pergunta, entre outras coisas, porque divido meus pensamentos. Eu

poderia dar mil respostas prontas e óbvias. Mas não darei. Fez-me pensar no assunto, agora que já sei que vou ter mais uma deliciosa insônia pela frente. Terei tempo. Tenho visto o dia amanhecer muitas vezes. Tenho desligado o PC num minuto e ligado no outro.

Tenho sentido de perto o perigo da fronteira, ou das fronteiras. Como dizia Neruda: “Tudo em ti foi naufrágio”.

Meu caro! Deus é minha ferida. Ele vem à minha janela, entra pelo vento, acarinha-me mortalmente. O mar? Sabe, o mar me conta segredos, as flores me sorriem. Um

poema leva-me ao infinito. Posso dizer, sem exagerar, que tenho o universo na ponta dos dedos. Mas Deus dói, sobretudo se é estrangeiro. E Deus é estrangeiro nesse mundo.

Pergunte aos homens...

E assim ficamos os dois exilados.

Fora isso, tem a noite larga que não me deixa dormir, excesso de café ou de solidão talvez. Eu não queria dizer... talvez seja medo. Mas nem tudo posso contar... Eu vi o naufrágio...

Caí no mar e agora nado. Nado. Nado. Nado. Minhas crônicas são minha defesa,

minhas garrafinhas... as baladinhas românticas todas me comovem, e a responsabilidade pelo mundo do crucificado pesa-me nos ombros. Sei que perdi, sei que me perdi e sei que posso perder. A qualquer momento posso receber o golpe fatal.

Mas estarei valente. Isso eu devo a mim.

Além do mais a noite longa gosta de uma conversa, senão me deixaria dormir. Se

soubesses do silêncio... pensa num barco solitário, ele vai, vai, vai de mansinho nas águas com a lua por cima. Tudo em volta é de azul veludo. Tudo em volta é eterno. Eu sou esse barco. Eu sou aquela lágrima. A metáfora. O filme. O delírio. A marcha patriótica que nunca fui....

Sobretudo eu vi o amor abandonado.

Eu sou o amor que ficou. Entendes?

Escrevo para construir na destruição. O menino do Império do Sol, não esqueço dele tentando um acordo com os inimigos... Sabe, gosto dos anjos. Angel. Angeles de cabelos

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dourados me sussurram... olho ao lado, não é ninguém. Será impressão ou milagre?

Ela me sorriu muitas vezes e tudo estava explicado... não podia ser mentira... aquele livro que sonhei talvez nunca venha a escrever.... cheguei a pensar a capa...

Bem, meu caro! Na verdade escrevo para resistir. É uma guerra. Se eu ficar na

cama olhando o teto, ele cai. Percebe? Meu peito é violento. Acho que sou carente e gosto de chocolate quente. Já vi aquele filme Meu Primeiro Amor umas três vezes. Você conhece?

Sabe aquela coisa que sempre quiseste saber e quase, quase, quase? Escrevo por

isso, por esse quase, quase sempre. Eu sou esse quase. Ou um excesso de misericórdia.

Ou amor, simplesmente. No amplo e potentíssimo sentido da palavra.

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O fake solitário

J esperou em vão o telefonema noturno. Dormiram juntos, caminharam pela praia de mãos dadas pela manhã. Ela observando que as mãos dele eram tensas. Ele com mil

segredos de pressões que não poderia revelar. Um homem preso no seu próprio mistério.

Era certo que a amava. Não queria tanto, mas o coração desconhece as razões.

Morava sozinho, o destino em suspense por mil dúvidas, a vida imprensada por mil dívidas.

Estava apegado, no entanto.

Ela quinze anos mais nova, pensando talvez que comprometer-se poderia fazê-la

perder outros encantos da vida.

Ele querendo mais comprometimento, mas sem confiar plenamente. Sentia que ela

queria estar com o espírito livre.

Sentiu vergonha de seus sentimentos apegados.

Antigamente o amor era tudo para as moças, hoje não mais. Além do amor, tem a

realização profissional, curtições independentes, espaço próprio, etc. Um amor apenas não realiza mais uma mulher independente. O que realiza? Ninguém se realiza

completamente no mundo. Escolher um caminho é abandonar outros ao que parece. No entanto é um homem quase maduro, tem que ser forte. Por mais que balançasse em

solidão e insegurança pela noite. Talvez fosse atencioso demais e isso a incomodava.

Sabia que suas inseguranças vinham mais de fatores externos, sociais que dele próprio.

Sim, tem as mãos tensas. Não apenas as mãos, mas a alma. Tinha que conviver com a miopia alta, as lembranças tristes que ficam no inconsciente como fantasmas

adormecidos... Um homem escaldado e defensivo, J.

Um homem de conhecimentos especiais, mas melancólico. Sentia quase inútil sua

sabedoria diante da frieza do mundo.

Pensava seriamente em abandonar a pintura...

Riu por dentro quando pediram que escrevesse sua biografia. Impossível. Era um

dos últimos samurais, J, preparando para combates a qualquer momento. Acordou pela madrugada e viu que o dia vai amanhecendo lentamente.

Resolveu que é melhor não mandar email de Bom Dia.

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Sua atenção pode incomodar. Sentia-se ridículo com seus sentimentos muitas

vezes.

Tem que ser forte.

Lembrou-se que quando era menino costumava achar estranho a tristeza dos

homens. Não entendia.

Hoje entendia como ninguém.

No entanto é preciso prosseguir.

Pega a papelada do seu divórcio, põe na bolsa e decide resolver logo isso.

A ex esposa agora parecia uma coisa surrealista.

Nunca o conhecera. Lembrou-se de seu conselheiro dizendo:

"Nunca deixes de ser benévolo às pessoas."

Chegou a manhã. J se transforma no anjo alado da Net.

Só ele sabe o quanto aquele fake era ele próprio.

Não esperar nada de ninguém. Nem incomodar.

Só ele se preparara para viver servindo.

Ele a tem? Não sabe. Talvez ele apenas não seja uma felicidade em si para ela.

Apenas um evento exótico, mais uma novidade.

Assim, J percebe que não tem argumentos.

Só perplexidade e sentimentos.

O mundo não perdoa os anjos; os anjos não perdoam o mundo.

Triste metáfora.

J concluiu para si que será um fake até o juízo final. O vizinho o vê na janela, dá Bom Dia. J transforma-se lentamente, enquanto se despe a manhã no anjo e não pede nem espera mais nada, apenas ama em silêncio.

Cumpre sua sina de fake solitário.

07.08.2006

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Síndrome de Satã

Se observarmos as pessoas de um modo realista e analítico, veremos que o

enunciado do Evangelho de João de que "a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas que a luz" é de uma exatidão matemática.

O ser humano sem Deus é um predador como outro qualquer, mesmo disfarçado

nas melhores intenções civilizatórias! Ainda em João é dito que "Deus é caridade". E se assim não fosse, viveríamos sob a ditadura do duro coração humano que ainda sofre da síndrome de Satã, doença emocional caracterizada pelos sintomas de "Irreverência",

"Ingratidão", "Presunção", "Egoísmo", "Orgulho", "Impiedade", "Indiferença", "Ambição" e outros desconfortos mais ou menos sutis que o ser humano sem espírito cultivado cria.

Repare que falta de humildade é diante da grandeza de céus e terra e mares não

procurar saber nem agradecer a procedência nisso. Veja mesmo e observe que a miséria não é um fenômeno natural; aliás, se houvesse amor em escala um pouco maior nesse mundo, nem fome existiria. Cercados de luz, a humanidade em sua maior parte vive nas trevas como o pior dos cegos. No entanto, está lá no livro sagrado: e para todo aquele que crê nele Deus deu o poder de torná-los seu filho. Apenas para sintetizar e apontar um entendimento: por mais gracioso que pareça o homem, ele é um doente, sem Deus;

nesse mundo estamos todos para melhorar o espírito e rendermos graças ao criador.

Para aprender a amar. Que tal começarmos por Deus, que é o mais desprezado? Ou é melhor continuar a inércia de séculos de egolatria? A quem sua alma anda adorando, amando ou reverenciando? O ministério dos Anjos recomenda: não leve para casa, nem faça negócio com quem tem sintomas da Síndrome de Satã. O diabo e seus filhos são ladrões e salteadores por excelência. Eu li certa vez que, para quem não tem amor, a terra não é redonda nem quadrada: é chata!

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O livreiro de Kamelot e seu sistema amoroso

O pacato livreiro de Kamelot é um dos maiores cavalheiros das tradições medievais e um verdadeiro mestre das artes eróticas, mas devido a seus dons especiais ele só pode entregar esse tesouro a uma mulher que realmente mereça ou faça por merecer. O livreiro um tanto esmirrado e de óculos não aparenta nenhuma periculosidade, mas é um dos guardiões do Grande Espírito de Águia. Durante muitos anos, desconhecendo sua

singularidade valiosa e nada sabendo ainda da Matrix do feminino, ele relacionou-se com algumas mulheres mortais e teve ferido o coração. Então, depois de nove luas no

mosteiro de Kiap entre chás, torradas e meditações, o mestre Zen Rinpoche Turko

passou-lhe um sistema divino de lidar com mulheres, advertindo-o que as mulheres que ainda não se tornaram obedientes a um cavalheiro legítimo não deveriam ter chance com ele.

Deveria submeter todas desde então a um sistema rígido seletivo.

Não sabe cozinhar? Não serve. Linguagem vulgar? Não serve.

Não pratica nenhuma espiritualidade? Não se cultiva? Não serve.

Não lê nada? Não serve.

Não possui senso de humor ou bondade? Não serve.

Excessivamente ambiciosa? Não serve.

Sem senso de limites? Não serve. Promíscua? Não serve.

Rinpoche o advertiu que as mulheres são criaturas na sua maioria enganosas que

usam de ardis os mais diversos para fazer perder os cavalheiros menos desavisados. E

agora que ele, o livreiro, já sabia que era tão raro quanto um bilhete de loteria e ciente de sua linhagem, passou desde então a exercer um duro processo de seleção com as

companheiras do sexo feminino.

Encontrar-se ou ter conluio sexual com o livreiro de Kamelot pode ser algo que

dependa inclusive dos favores divinos.

O livreiro precisa seguir as Orientações do Grande Espírito de Águia e submeter as pretendentes ao rigor métrico do mérito.

Mandou gravar no pórtico de um de seus castelos:

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"mulher, se não tens amor verdadeiro no coração

não ouses tocar o nariz da eternidade"

Aqui somente as melhores e decentes.

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Invocação à São Miguel Arcanjo

Agora que vem a noite e estou só, meu anjo,

Que seria de mim se não fosse olhar por teus olhos e erguer-me por tuas asas?

Na terra triste dos homens, muitas vezes,

Vem o desalento de quem ama e traz sonhos celestes pra plantar. Proteja-me,

Arcanjo,

A travessia de trem, de avião e dos amores.

Proteja-me os bens e o corpo, para a Glória da Bondade. Sim, amigo, sem ti seria impossível esse divino fogo solitário na tarde que cai, na noite que chega, na mais funda madrugada e na manhã. Saber de ti me faz menos só e mais puro.

Trazes-me recordação que as trevas e a inveja merecem compaixão e desprezo;

que o altíssimo preza nos seus filhos a digna e brava postura de quem nasceu para servir ao amor, à luz e à alegria. Te digo que sou grato pois amigo por tua presença que transfigura a terra em céu e lava-me os pecados, e abençoa-me as boas paixões. E que sou apenas uma criança do universo com direito a brincar de pisca pisca com as estrelas.

Então, meu amigo, sob a lei da tua espada e o explendor de suas asas, conceda-me a graça de ser feliz em qualquer pedaço de crepúsculo, mesmo quando a fumaça negra das cidades humanas carentes de amor e generosidade me deixarem na solidão feroz de

qualquer exílio.

Porque sei que me amas. Porque sabe que me tens. Guarda-me. Proteja-me. Guia-

me.

Que eu aceite a vitória e a paz,

Que eu aceite a esperança de cada dia,

Que eu ande em humildade e amor, mas de cabeça erguida.

E que eu não esqueça nada. Nem os sonhos.

Nem as altas montanhas.

Nem as lágrimas que choramos solitários ao final dos filmes, ou as horas que

passamos juntos brincando com a velha caixinha de música de minha mãe e tu me

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olhavas de dentro do espelho.

Obrigado Arcanjo, amigo. Boa Noite.

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Biografia

Escritor hispano-brasileiro, autor de "O Observador de Pardais", 1996; "O

Espião de Jesus Cristo", 1999; "Juvenília", 2000; "A Ilha", 2001; "Café Brasil", 2001;

"Boneco de Deus", 2002; " Mar Romântico, Mar", 2002; " Bom Dia, Espanha!", 2005.

Prêmio Pérgula Literária Internacional, Medalha Ação Cultural e Troféu Dez Mais Taba Cultural Editora.

Em 2004 o autor viveu em Córdoba, Argentina, entre janeiro e março. Em maio

de 2005 sai Bom Dia, Espanha!, livro que relata essa experiência.

Links do autor

http://www.marcelinorodriguez.zip.net

http://bomdiaespanha-marcelinorodriguez.blogspot.com/

http://www.acuraespiritual.zip.net

Para adquirir o livro Bom dia, Espanha! , de Marcelino Rodriguez: Deposite R$ 15,00 no Banco do Brasil, agência 0265-8, conta 26452-0 e entre em

contato com o autor, avisando do depósito.

Contato com o autor:

marcelrodriguez@ig.com.br / livrariaonline11@gmail.com

Marcelino Rodriguez e Paulo Coelho. Jazzmania. 1991

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Entrevista concedida à Liter & Art Brasil

"A leitura é vital para o indivíduo e para os povos. Um povo sem leitura é um povo subjugado." - Marcelino Rodriguez

Marcelino Rodriguez – Traçando Perfil

Quem é...

Sou Marcelino Rodriguez. Tenho dupla cidadania e todos que temos essa condição,

acho que ás vezes nos sentimos perdidos em parte na identidade, com uma sensibilidade grande a nuances de humor e de cultura. Deve ser os genes. Quando vivi na Argentina , por exemplo, descobri que as palavras, por exemplo, Chica e Menina são a mesma coisa e não são a mesma coisa, pois os povos tem intensidade diferente.

Sou um cidadão perplexo com todas as coisas. Comecei a carreira como poeta, mas

como sou um homem pragmático, decidi tornar-me autor de outros generos. Poesia hoje pra mim é algo muito distante. A vida anda muito feroz. Mas sou um escritor, com todo comprometimento que essa condição traz, além de ser torcedor do América, minha paixão mais pura.

Livros Publicados?

Tenho 8 livros editados. "O Observador de Pardais", 1996. "O Espião de Jesus Cristo, 1999. "Juvenília", 2000, poesias. Desse ano em diante todos foram editados pela minha editora, Luz do Milenio. "A Ilha" e Café Brasil" 2001. "Mar Romantico Mar e Boneco de Deus", 2002. “Bom dia , Espanha!” 2005. Fora mais algumas participações em antologias diversas.

Posso dizer que já tenho uma base de obra. Trabalho bastante, graças a Deus.

Gosto de produzir.

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Próximo Livro?

Olha, tenho vários projetos, inclusive um livro espiritual, mas não sei se vou eu mesmo editá-lo ou se vou passar pra outra editora. Tou repensando meu trabalho. Sou escritor por vocação e editor por necessidade. Tou escrevendo uns 3 livros diferentes, mas ainda não decidi nada.

Prêmios Recebidos?

Recebi os 10 melhores da Taba que foi minha primeira editora, um prêmio do Jornal Ação Cultural e o mais importante, o Prêmio Pérgula Literária por ter ficado entre os 5

primeiros num concurso internacional.

Cite alguns momentos que foram marcantes, significativos e/ou emocionantes

na sua vida pública:

Bem, como sou um autor que ainda está entrando na grande mídia, creio que meu

momento mais emocionante foi os emails que recebi de boa parte do mundo pela crônica Bom Dia, Espanha! escrita no dia dos atentados em Madri. Eu estava vivendo na

Argentina, numa solidão difícil de conceber.

Um momento de tensão?

A falência da minha editora em 2003 e a impossibilidade de ficar no Brasil pela total falta de apoio.

O que faz que as pessoas do meio poético desconhecem?

Digamos que eu procure me dessensibilizar um tanto, para bem do meu bem estar

psíquico.

Tem algum hobby? Qual?

DVDS e folhar livros tomando um expresso, além de ver jogos do América, claro.

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O que mudaria no mundo, se pudesse?

Mudaria o coração das pessoas.

O que mudaria em você?

a Hipersensibilidade.

O que não mudaria?

Meu Caráter.

As coisas que não gosta, não faz de jeito nenhum?

Qualquer tipo de corrupção me enoja.

Algo que não gosta, faz por obrigação?

Procuro gostar do que tenho que fazer por obrigação. Mas passar roupa é meio

chatinho.

Estamos sempre aprendendo, qual foi seu último grande aprendizado?

Uma grande decepção afetiva me ensinou a ficar mais esperto e mais cético.

O papel das artes no contexto social?

Atualmente anda havendo uma defasagem nas "artes"; se produz em massa muita porcaria e se vende como arte.

Trabalhos que você admira (escritores, artistas, músicos...)?

Gosto do Trabalho do Nilton Bonder e do Paulo Coelho.

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A arte deve ser politizada?

Sim, em grande parte a arte deve ser conscientizadora.

Pelo lado das Artes, o que realizaria no Brasil - o que está faltando, o que

precisa ser feito?

Ensinar o brasileiro a ler, inclusive com metas de livros per capita.

A sua arte?

Sobreviver.

Amigo é...

Alguém que não muda de caráter e nem nos abandona na adversidade.

Qual a frase que resumiria a sua vida?

"Eu sou minha tenacidade".

Quer dar algum recado para os mais jovens e/ou iniciantes?

Eu diria que se for inevitável escrever, que escreva, mas arrume meios práticos de ganhar a vida.