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Ansejos de mulher por L P Baçan - Versão HTML

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Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

CAPÍTULO 1

Depois de tantas atribuições, nada melhor que aquele fim de semana para devolver-lhe as energias desgastadas ao longo dos dias.

Não deveria ser, no entanto, um fim-de-semana comum, como tantos outros. Nada de cinema, televisão ou teatro. Muito menos jantares ou passeios à beira da praia.

Don MacCoy queria algo especial, relaxante, repousante e emocionante ao mesmo tempo.

Algo capaz de distrair-lhe a mente, fazendo-o esquecer-se dos números e das estatísticas.

Ser um dos executivos-chave de uma poderosa organização tinha suas vantagens, mas, em contrapartida, exigia todo o talento e todo o esforço de um homem.

Don sempre fazia sua parte, mas aquelas duas semanas haviam sido desgastantes ao extremo, apesar de produtivas. Um homem comum teria direito a um mês de descanso depois daquilo.

Para Don MacCoy ou outro executivo qualquer, dois dias inteiros eram mais do que suficiente. Na semana seguinte tudo recomeçaria.

Estava em dúvida a respeito do programa, quando David Morgan, Relações-Públicas da empresa, entrou no escritório. Era sexta-feira e hora do almoço.

— Tudo bem por aqui, Don? — indagou David.

— Não podia ser melhor... — suspirou Don.

— Parabéns pela brilhante exposição à assembléia. Foi um trabalho de primeira. Você os conquistou logo nos primeiros minutos.

— Por favor, não me fale nisso, pelo menos nos próximos cinco anos — sorriu Don. — Quer tomar alguma coisa?

David consultou o relógio, antes de concordar com um aceno de cabeça.

— Uísque puro, não?

—Sim, como sempre.

Don foi até um motel e abriu, revelando um bem montado bar particular. Serviu dois copos e levou um deles até David. Em seguida, deitou-se no amplo sofá diante da escrivaninha.

David foi apoiar uma das pernas no canto da mesa, olhando o amigo.

— Você me parece cansado mesmo, Don.

— E estou.

— Que tal algo estimulante para relaxá-lo e revigorá-lo totalmente?

— Eu estava justamente pensando num programa assim para o meu fim-de-semana.

— Sei de algo capaz de operar milagres num homem cansado. Eu mesmo posso lhe afirmar isso.

— E em que consiste esse milagre?

— Massagens.

— Massagens?

— Sim, massagens.

— Ora, David, duas vezes por semana vou ao ginásio, tomo uma sauna e me submeto a uma sessão de massagem. Não será isso que fará de mim um novo homem neste fim-de-semana.

David sorriu como se as palavras do amigo nada mais revelassem senão uma ingenuidade a toda prova. Tomou um gole de uísque, procurando fazer suspense.

Don aproveitou para pensar onde almoçaria naquele dia. Não tinha compromissos nenhum com clientes e poderia escolher livremente.

— Quer mesmo saber? — indagou David, continuando seu jogo de suspense.

— Você acha que resolveria no meu caso?

— Resolve em qualquer caso.

— Deve ser rum tipo novo de massagem, não?

— Nada disso. Massagem comum.

— E onde está a diferença, então?

— Na massagista, meu amigo. Que mãos! Que mãos, Don! Quando elas escorregam sobre sua pele, mexendo com seus músculos, são como ferro de marcar eletrizando-o.

— Massagista? Homem ou mulher?

— Mulher, Don, ora bolas! E que mulher, meu amigo! Dessas irretocáveis, sem nada a acrescentar ou tirar, perfeita em todos os seus detalhes.

Don ergueu-se do sofá, encarando o amigo. O entusiasmo de David despertava a sua curiosidade.

— E onde posso encontrar essa maravilha descrita por você? — indagou ele, com certa incredulidade.

— Posso dar-lhe o telefone, mas... Puxa, como não pensei nisso antes — lamentou David, dando um tapinha na própria testa.

— Algum problema?

— Bem, não deixa de ser um problema, agora que cantei as maravilhas daquela garota.

— Agora você me deixou curioso.

— Esqueça, faça de contas que eu não disse nada, está bem? Onde pretende almoçar?

— Ainda não escolhi.

— Que tal o King’s Inn?

— Há tempos não vou lá.

— As mesas são servidas por garotas agora, sabia?

— Não, e não precisa me dizer mais nada. Precisamos fazer reserva?

— Lá, não. Tenho cadeira cativa... — riu David, terminando o seu uísque.

Pouco depois desciam até a garagem. David resolveu que fossem no carro dele. Enquanto ele dirigia, Don pensava a respeito da tal massagista.

De certa forma, David o deixava curioso a respeito dela. Seu entusiasmo em descrevê-la deixava transparecer sua opinião a respeito da mulher.

Pelo que Don pudera deduzir, tratava-se de uma bela e maravilhosa mulher. Resolveu insistir no assunto. Afinal, nada encontrara ainda para o seu fim-de-semana. Bem verdade que não poderia pensar em passar todo ele em companhia de uma massagista, mas não deixava de ser um bom começo.

— David, a respeito daquela massagista, qual é o problema.

— Horário, apenas isso. Sua agenda está repleta, pelo menos com uma semana adiantada.

Você seria de marcar o dia e a hora. Eu mesmo só voltarei a encontrá-la na próxima quarta-feira.

— Sendo assim, deve ser muito hábil.

— Como é que você não sabe disso ainda? Penso que quase todos os executivos da empresa já a conhecem e vêm tentando o mesmo que eu.

— O mesmo que você?

— Sim, o mesmo que eu.

— Não entendi.

— Agarrá-la, Don. Aquela mulher pode oferecer o paraíso e o inferno a um homem. Quando as mãos dela começam a correr pelo meu corpo, sinto calafrios e excitou-me terrivelmente. Sei que ela percebeu isso, mas foge a toda e qualquer aproximação mais intima.

— Diabos! — exclamou Don, interessado.

— E tem mais. As massagens dela têm um toque erótico proposital, só pode ser isso.

Tocam a gente no ponto mais sensível, empolgando, emocionando, despertando as sensações mais indescritíveis. Deixe-me ainda confessar-lhe algo. Um dia, numa dessas sessões de massagens, cheguei a ter um orgasmo, pode imaginar isso?

— Bem, essa mulher não existe, David.

— Existe e, caso você tenha um pouco de sorte, poderá vê-la.

— Vê-la? Onde?

— No King’s Inn. Ela sempre almoça lá, mas seu horário nunca é o mesmo.

— Tomara que eu tenha sorte, então. Uma garota dessas merece ser conhecida e comentada — concluiu Don, com um sorriso ainda incrédulo.

Afinal, David bem poderia estar exagerando os fatos. Massagistas existiam aos montes na cidade de Nova Iorque. Algumas, sob esse pretexto, ainda mais eram que prostitutas disfarçadas.

Essa, porém, pelo que dissera David, talvez fosse uma delas, mas com uma técnica e um requinte inéditos.

Apesar de tudo, seria interessante conhece-la. Talvez resolvesse entrar para a agenda dela e comprovar os fatos. Não deixava de ser estimulante, mas não resolveria seu problema para o fim-se-semana.

Ficar no apartamento ou telefonar para alguma conhecida nada mais seria que repetir.

Estava realmente esgotado e precisava de algo especial.

Sua imaginação, no entanto, não conseguia pensar em nada que se enquadrasse dentro daquilo que desejava.

Pouco depois estavam no restaurante. David era muito conhecido ali e, de fato, possuía uma reserva especial. Sua mesa estava ao seu dispor a qualquer momento do dia ou da noite e isso era reservado apenas aos clientes mais importantes.

— Está vendo a mesa ao lado com as flores? — indagou David, assim que se sentaram.

— Sim, muito perfumada e feminina, não acha?

— Advinhe a quem pertence essa reserva?

— Deixe-me ver... A rainha da Inglaterra... — riu Don.

— Fale sério.

— Depois de tudo que você me falou hoje, sou capaz de apostar que pertence à sua massagista.

— Acertou.

— Você deve estar caído por ela.

— Não, não é essa a questão. Creio que há, entre todos os clientes dela, uma guerra para descobrir quem será o primeiro a vencê-la. O que vai tomar? — acrescentou David, com a chegada do garçom.

Don fez sua escolha e pediu uísque. David fez o mesmo e, enquanto aguardavam, olhavam para aquela mesa vazia ainda.

Toda aquela conversa despertara a imaginação de Don. A presença de uma garota tornou-se indispensável para tornar seu fim-de-semana algo inesquecível.

O problema ainda continuava, no entanto. Não seria fácil escolher entre todas cujos telefones constavam de seu caderninho, de endereços.

Talvez a melhor pedida fosse uma garota nova, uma aventura descoberta especialmente para o fim-se-semana. Seria interessante isso.

Estava justamente observando as mulheres ali no salão, quando seus cílios se fixaram numa delas que acabava de entrar.

Era loura e alta. Um vestido acinturado era responsável pela tentação que parecia envolvê-

la. Sua beleza era indescritível, fascinante realmente.

Don tentou descrevê-la a si mesmo, mas ela estava além das palavras. Um rosto de linhas suaves e atrevidas ao mesmo tempo, como se ingenuidade e malícia ali convivessem nas mais sublime harmonia.

Quando ela caminhou por entre as mesas, seu porte de rainha chamou a atenção dos homens e despertou a inveja das mulheres.

Havia elasticidade e graça em seu andar. Talvez fosse uma bailarina, uma ginasta, uma trapezista de circo, qualquer coisa exótica e misteriosa.

Ao voltar-se para David para comentar com ele aquela figura, teve uma surpresa. Os olhos do amigo estavam parados, como se adorassem a mais sublime imagem capaz de enternecê-

lo e tentá-lo.

Não era necessário perguntar de quem se tratava. A resposta estava estampada no rosto de David.

— É ela? — indagou Don, apenas para confirmar.

— É! — respondeu David, extasiado.

A garota parou ao lado da outra mesa. Um garçom solicito afastou rapidamente a cadeira para que ela se sentasse. Ao se acomodar, os olhos dela realizaram um rápido reconhecimento ao seu redor.

Por uma fração de segundo seu olhar encontrou-se com o de Don, que não chegara à conclusão alguma a respeito do que estava vendo.

Recusava-se a acreditar que aquela mulher diante dele era apenas uma simples massagista, como tantas outras garotas.

Havia fascínio e mistério ao redor dela e Don pode entender o motivo do entusiasmo de David. Estar com aquela garota, sentir suas mãos percorrer a pele, excitar-se com uma proximidade perigosa, tudo isso era mais do que suficiente para impressionar um homem e cativá-lo inapelavelmente.

— Muito profissional... Uma verdadeira dama! — exclamou David.

— Como disse?

— Você viu como ela agiu? Eu e ela nos conhecemos bem, quase intimamente, mas ela não demonstrou nada disso. Agiu com a mais perfeita classe. É uma garota fascinante.

Don voltou a olhar a garota e, por momentos outra vez, seus olhares se cruzaram. Um calafrio subiu pela espinha de Don, fazendo-o estremecer.

O verde daqueles olhos lembrava o mar com seus mistérios e fascínio, com seus tesouros ocultos e seus perigos inimagináveis.

Olhando-a, era fácil entender porque os homens se metiam em aventuras loucas, desafiando oceanos ou montanhas, vasculhando o céu, buscando as estrelas.

A essência do perigo, o gosto pela aventura, a compensação na mais forte sensação, tudo isso era compreensível. A figura daquela mulher despertava fantasias, era estimulante e repousante, misturando as mais contraditórias sensações num só momento.

— O que achou dela, Don? — indagou David, o rosto numa expressão beata e extasiada.

— Fantástica! — exclamou Don.

— Agora apenas imagine aquela garota ao seu lado, uma blusa sem mangas e um short menor que seu pensamento. Aquelas mãos maravilhosas pressionando suas carnes, subindo e descendo, beliscando sua pele, fortificando seus músculos, enlouquecendo seus pensamentos...

— Entendo perfeitamente isso, mas diga-me uma coisa: ela está sempre só?

O rosto de David exibiu uma expressão indefinível, enquanto ele balançava a cabeça de um lado para outro.

— Hoje um, amanhã outro, quem sabe?

— Nada fixo?

— Nada.

— E o que ela faz nos fins-de-semana? — indagou ele, percebendo que aquela seria uma descoberta fantástica.

— É o que eu gostaria também de saber.

— Por que não me apresenta a ela?

— Apresentá-lo? Está brincando! Há um código de honra entre os clientes de Susy Campbell, meu amigo.

— Susy Campbell?

— Sim, esse é o nome dela. Como eu dizia, há um código de honra entre nós. Cada um espera seu momento, sua chance de tentar. Eu mesmo já a venho convidando há pelo menos dois meses, sem sucesso.

— Apenas para almoçar com ela?

— Não se trata apenas de almoçar com ela. É uma abertura, uma possibilidade, uma chance de se tornar intimo dela, fugindo àquele relacionamento estritamente profissional que ela impõe com uma classe insuperável.

— Caramba! Isso é muito complicado, não acha?

— Como vê, suas esperanças de fim-de-semana com ela são remotas.

— Eu não falei em fim-se-semana com Susy Campbell ainda...

— É preciso? — riu David.

Don desistiu de argumentar. De fato, a coisa mais importante naquele momento era observar aquela garota. Seus olhos se concentraram nas mãos dela.

Dedos longos, unhas bem aparadas e esmaltadas chegando ao cúmulo de combinar com o vestido. Apesar disso, suas mãos eram femininas, terrivelmente femininas.

— O que aconteceria se eu fosse até a mesa dela e me apresentasse? — indagou Don.

— Seria uma heresia, uma quebra nesse código de honra que, apesar de não estar estabelecido, existe entre os clientes dela.

— Bem, eu não sou cliente dela.

— Pior para você.

— Pois vou até lá.

— Ela nem olhará para você.

— Quero ver isso — arrematou Don, levantando-se.

CAPÍTULO 2

Ao se aproximar da mesa , Don sentiu aumentar a intensidade daqueles calafrios. A garota levantou os olhos para ele e, por instantes, ele teve a impressão de que seu corpo flutuava.

O verde daquele olhar reforçava aquela impressão inicial de mistério e perigo que cercava a figura fascinante da garota.

Don não sabia ainda o que diria a ela. De repente, percebeu-se sem fala, os lábios mudos, o coração aos saltos. Um perfume sutil e envolvente chegou até ele.

Os olhos da garota continuavam fixos nele e continham uma indagação que o rapaz sabia ter de responder.

— Posso fazer algo por você? — indagou ela, levemente divertida com o ar quase espantado de Don.

— Sim, talvez sim... — gaguejou ele. — Posso me sentar primeiro?

— Estou esperando alguém e...

— É só um minutos, por favor — insistiu ele.

Susy olhou-o indecisa. Por momentos, houve surpresa na expressão de seu rosto. Depois, o atrevimento do Don, quebrando uma espécie de regra, agradou-a.

Ela indicou uma cadeira com um leve aceno de mão. Don sentou-se e sorriu:

— Que acha de passarmos o fim-de-semana juntos? — indagou ele, arriscando a primeira coisa que lhe chegou à cabeça.

Por instantes Susy parecia chocada com o convite inesperado. Depois, entre incrédula e divertida, ela esboçou um principio de sorriso.

— Você deve ser maluco, não? Mal nos conhecemos, ainda...

— Não fomos apresentados? Oh, desculpe-me! Don MacCoy. Você é Susy Campbell e com isso resolvemos a parte social do encontro. Quanto a minha pergunta, qual é sua resposta?

— Fala sério realmente? — duvidou ela.

— E por que não?

Curiosidade, principalmente, passou pelos olhos da garota. Don era simpático e atrevido.

Além disso, sua maneira de agir era inédita para ela.

De certa forma, formara-se ao redor dela uma aura de inatingível. Os homens criavam regras de conduta quando em sua companhia, tudo isso sem consultá-la.

Desse modo, Susy não se sentia alguém com vida própria e aspirações que devessem ser levadas em conta. Considerava-se o prêmio de uma aposta, o motivo de um jogo.

Uma porção de coisas passou por sua cabeça, levando-a diante de uma espécie de desafio.

Don não podia imaginar o que se passava dentro dela, naquele momento.

Apenas a olhava interessado e em suspense, aguardando uma negativa ou uma afirmativa.

Não podia ter certeza de nada.

A situação era imprevisível. Arriscar-se com aquela hipótese, mas talvez estivesse certo.

Pelo que David lhe contara, os homens esvoaçavam ao redor de Susy Campbell como mariposas ao redor de uma lâmpada.

Suas intenções íntimas na certa forçavam um tipo de comportamento carregado em afetação, falsidade, promessas, sugestões veladas.

Diante disso, restara-lhe duas possibilidades. Ou Susy apreciava tudo isso e o recusaria ou estava cansada de subterfúgios e preferisse as coisas todas às claras.

O garçom veio servir uma taça de coquete;. Susy segurou-a e levou-a aos lábios. Por sobre o cristal, seus olhos se fixaram em Don.

Estavam carregados de mistérios, insondáveis, impenetráveis. Ela baixou a taça e seus lábios úmidos ofereciam as tentações de um fruto recém-colhido.

— O que você tem em mente para o seu fim-de-semana? — quis saber ela, pousando o copo sobre a mesa.

— O que você gostaria de fazer?

O rosto dela demonstrou uma leve surpresa. Don não podia entender isso, mas para Susy aquela atitude da parte dele tinha um significado todo especial.

Seus fins-de-semana eram imprevisíveis porque suas companhias geralmente faziam os programas, quase sempre sem a consultar.

Era um tanto monótono e nada excitante, após algum tempo. Susy olhou com mais atenção para o homem diante de si. Havia qualquer coisa de especial nele, talvez ternura, delicadeza, espirito de companheirismo, algo que ela há muito havia deixado de perceber nos homens.

Aquela ausência de egoísmo da parte dele cativou-a. Don simplesmente poderia ter sugerido algo, mas não o fizera e isso mudava tudo.

— Gosto de velejar — disse ela.

— Eu também.

— Preciso de solidão. Detesto multidões, locais públicos...

— Pensei numa ilhota nas proximidades de Catalina. Você vai gostar.

— E tem mais uma coisa, Don.

— Sim?

— Detesto ser forçada a fazer alguma coisa.

— Eu detesto forçar as coisas. Como vê, identificamo-nos completamente.

— Mas até que ponto você é sincero?

— De que tem medo?

— De apostas, principalmente — disse ela, olhando para David.

— Entendo o que quer dizer, mas terá de acreditar ou não em mim.

— Pede-me muito para alguém que só conheço há poucos instantes.

— Não estou pedindo nada que eu não poderia fazer.

Ela baixou os olhos, pensativa por instantes. Naquele instantes, um homem aproximou-se da mesa e parou, olhando Don com surpresa e ciúme.

Susy percebeu-o e sorriu.

— Joe, quero apresentar-lhe Don MacCoy, um amigo que acabei de conhecer.

Joe estendeu a mão e recebeu a de Don. Por momentos os dois homens se examinaram.

Nos olhos de Joe havia uma pergunta e uma exigência que Don entende perfeitamente.

Incomodou-o, no entanto, o fato de ver ressentimento na expressão do rosto de Joe, como se entre eles nunca pudesse haver aquela cordialidade.

Eram rivais de vida e morte, pelo menos era isso o que Joe dava a entender. Ele se sentou quase ao lado de Susy e olhou-a, debruçando-se um pouco sobre a mesa.

Seu movimento ocultou Don aos olhos de Susy e gerou um mal-estar inoportuno entre eles.

— Posso ter minha resposta agora? — indagou Don, com certo atrevimento, desconsiderando a presença de Joe, visivelmente interessado em ignorá-lo.

— Que acha de me deixar seu telefone? — indagou ela, olhando-o por sobre o ombro de Joe.

— Como queira — disse ele, apanhando uma caixa de fósforo com a marca do restaurante e anotando seu telefone no interior.

Deixou-a sobre a mesa e levantou-se. O olhos de Susy acompanharam-no.

— Estarei nesse número até as cinco. Se decidir, ligue-me — finalizou ele, voltando à mesa.

David o recebeu com um sorriso irônico e gozador. De certa forma, a chegada de Joe contribuíra para arruinar toda a preparação iniciada por Don.

— E então, conseguiu? — indagou David, com um sorriso nos lábios.

— Ainda não sei, mas saberei até o final da tarde.

— Está brincado!

— Pelo menos tenho uma esperança, isso já me basta? — contra-atacou Don, demonstrando que seu humor alterara-se com a chegada de Joe.

***

Durante a tarde toda, Don esteve de olho no telefone de sua mesa. A cada vez que sua secretária anunciava uma lição, seu peito parecia explodir de tensão.

Após algumas horas, começou a se sentir o mais perfeito idiota sobre a face da terra.

Estava claro que havia perdido aquela batalha e que, consequentemente, todo o seu fim-de-semana se transformara num desastre total.

Nada resolvera. Deixara tudo na dependência daquele telefonema de Susy. Talvez houvesse exagerado em sua estratégia.

Talvez ela fosse uma garota afetada, amante das bajulações, dos agrados, dos mimos, coisa que, em momento nenhum, Don lhe oferecera.

Fora direto demais, talvez um tanto seco e antipático. Fosse como fosse, estava tudo perdido mesmo. Tinha um enorme cansaço e um fim-de-semana sem perspectivas nenhuma de acontecimentos que pudessem devolver-lhe a forma.

Restava-lhe consultar seu caderno de endereços e iniciar uma longa série de chamadas telefônicas. Todas as garotas que conhecia eram dinâmicas, extrovertidas. Nenhuma delas, àquela altura, deixara de planejar sem fim-de-semana.

A esperança era encontrar apenas uma delas disponível. Ou então, arriscar-se a encontrar uma nova garota. Era a possibilidade mais interessante de que dispunha.

Poderia ir a uma discoteca ou a uma boate e tentar encontrar algo novo e estimulante.

Às cinco da tarde, o telefone estava mudo e Don entende que perdera aquela cartada.

Começou a arrumar suas coisas.

A secretária veio despedir-se. Don a dispensou, ficando sozinho no escritório. Lá fora, nos corredores, havia barulho e conversas. O pessoal fazia filas diante dos elevadores e todos pareciam excitados com a perspectiva do fim-de-semana.

Don vestiu seu paletó e foi até o móvel do bar, onde havia um espelho. Acertou o nó da gravata. O telefone tocou na sala da secretária.

Por momentos aquele ruído não teve significado nenhum. Dezenas de vezes o telefone tocava a ante-sala e Don aguardava o aviso da secretária.

Como o barulho da campainha insistisse, Don acordou para o fato. Havia dispensado a secretária. Foi, então, atender pessoalmente.

— Sua voz é muito mecânica ao telefone — observou uma voz feminina do outro lado.

— Susy?

— Sim.

— Pensei que não fosse ligar mais...

— Temi não encontrá-lo. Estive ocupada... Acho que sabe do meu trabalho.

— Sim, David falou-me a respeito.

— Antes de lhe dar minha resposta, gostaria que me respondesse algo com toda a sinceridade de que é capaz?

— Claro, o que é?

— O que pensa a meu respeito? Não tente mentir, não sou ingênua e tenho alguma experiência sobre os homens.

Havia um tom quase que amargo a voz da garota. Algo que despertou a ternura de Don. Ele não precisou pensar muito para responder. Apenas usou de sinceridade.

— Susy, para mim você é uma garota bonita, interessante e atraente. Misteriosa também, mas inteligente. Em resumo, uma agradável mistura que desperta a minha curiosidade e me faz desejar conhecê-la melhor.

— Nada a dizer sobre sexo? — indagou ela, surpreendendo-o.

— Eu seria um mentiroso se dissesse que não, mas você é uma garota fascinante e deve ter um espelho em casa, não? Por mais moderna que fosse estaria em condições de reconhecer que desperta a atenção dos homens.

— Você me surpreende, Don.

— Eu? Por quê?

— Devo-lhe confessar que já fiz essa pergunta a uma porção de gente. Você riria se lhe contasse as respostas que tenho recebido.

— Posso imaginar. Eu mesmo lhe prometeria o céu com todos os seus prazeres, a lua, qualquer coisa, mas acho-a inteligente demais para levar isso em consideração.

— Um ponto a seu favor e outra contra.

— Posso compreender o ponto a favor, mas não vejo motivos para um ponto contra —

observou ele, apoiando-se à escrivaninha e sorrindo como se a visse diante de si.

— Você não é romântico.

— Engana-se. Até agora nada me deu o direito de chegar sequer a imaginar isso, mas prometo-lhe que, caso tenha oportunidade, você se surpreenderá comigo.

Ela riu do outro lado e seu riso a revelava criança. Mais e mais cresceu dentro de Don o desejo de conhecê-la melhor, partilhar de seu momentos, desfrutar de sua intimidade.

Ainda não chegara a uma conclusão a respeito daquela garota. David a pintara como uma surpreendente mulher fatal. Don descobria, porém, a despeito daquela aura de mistério, uma feminilidade frágil e reprimida.

— E então, qual a sua resposta? — indagou ele, ficando sério e abrandando o tom de voz.

— Acha que amanhã o tempo estará bom para velejar?

— Posso assistir ao noticiário e tomar conhecimento das previsões.

Ela ficou em silêncio, como se estivesse pensando ainda a respeito da resposta. Aquele silêncio incomodou Don, afetando-o.

— Susy, você ainda está aí? — indagou ele, alarmado.

— Sim, estou — respondeu ela, de pronto.

— Como eu lhe disse hoje, na hora do almoço, não pretendo forçar nada, mas adoraria conhecê-la melhor, Susy — confessou ele.

Seu interesse a respeito dela crescia de momento a momento, sufocando-o, perturbando-o.

— Você me faz sentir diferente, Don, por isso tenho medo...

— Medo? — surpreendeu-se ele.

— Sim, medo. Eu não estava preparada para alguém como você. De um modo geral, os homens olham-me como algo inatingível. Cercam-me com tolices, são fúteis, tolos e cansativos. Talvez tivesse me habituado a eles, não sei...

— Por que não conversamos sobre isso pessoalmente?

— Ainda não sei se vamos nos ver pessoalmente outra vez — disse ela, revelando claramente sua confusão. — Eu acho que sei o que você provocou em mim.

— Eu também acho que sei. Você é mulher como todas as outras e está cansada de ser tratada como um objeto especial de adoração — disse ele, com certa crueldade, mas procurando ser sincero todo o tempo.

De repente, aquilo se revelou importante para ele, apenas pelo seu fim-de-semana à beira do desastre, mas, principalmente, porque a via como uma garota desorientada, apesar de tudo.

Talvez a desejasse, talvez quisesse ajudá-la, isso não era distinto dentro dele. Precisava ter oportunidade de descobrir, isso era importante no momento.

— Acertei? — indagou ele.

— Creio que sim. Suas palavras foram o primeiro elogio sincero que recebo nos últimos cinco anos — disse ela, rindo com certa amargura.

De algum modo, foi dolorido para Don constatar isso. Era inconcebível uma garota como tanto a oferecer se sentir tão triste e amargurada.

Sabia das ligações iniciadas nesse tipo de atenção estavam fadas ao melodrama, ao fracasso, mas percebia também o tipo especial de mulher com quem falava.

Não se tratava apenas de ajudá-la. Aproximar-se de Susy tornou-se uma incrível mescla das mais contraditórias intenções.

Ajudá-la, provar-lhe a sinceridade dos homens, usá-la, alegrá-la, tudo isso e muito mais se fundiu numa só intenção.

— Susy, dê-me seu endereço. Podemos continuar nossa conversa pessoalmente. Seria mais produtiva, não/

CAPÍTULO 3

Em seu apartamento, preparava-se para ir ao encontro de Susy, Don ainda não pudera definir o que despertava aquela pressa em revê-la.

Era algo sufocante, dentro dele, como um compromisso inadiável, um negocio urgente e importante, um assunto pendente e incomodo.

Não sabia se desejava conhecê-la melhor ou apenas estar com ela e descobrir um pouco mais a respeito daquele mistério e daquela aura de excitação com que ela envolvia os homens, pondo-os deslumbrados a seus pés.

Não chegaria aos extremos narrados por David. Para Don, Susy era apenas uma garota diferente, que precisava ser entendida.

Por certo a haviam feito se sentir uma deusa intocável e isso a aborrecia e incomodava.

Talvez desejasse mais proximidade com os homens, algo mais concreto.

A deusa possivelmente detestava seu própria pedestal e apenas desejava fazer parte do convívio humano e mortal dos homens.

Reconhecia, agora, que seu fim-de-semana estava salvo. Susy era o assunto mais estimulante capaz de recuperar as energias de um homem.

Deslindar seu mistério, acercar-se dela e procurar entendê-la séria a maneira mais interessante de passar aqueles dois dias livres.

Não sabia como seria sua noite. Susy apenas concordara, apesar de confusa, em fornecer-lhe o endereço e aguardá-lo às nove.

O que fariam naquela noite era o enigma mais imprevisível com que ele já depara. Assim, resolveu ir preparado para tudo.

Apanhou algum dinheiro e cartões de crédito. Talvez fossem a um restaurante, talvez ao teatro. Como Susy dissera detestar multidões, talvez nada daquilo surgisse, mas, mesmo assim, era bom estar preparado.

Verificou o papel onde anotara o endereço fornecido por ela naquela tarde. Era um pequeno prédio residencial, num bairro tranqüilo da cidade.

Não seria difícil localizá-lo. Susy morava no último andar. Don olhou-se mais uma vez no espelho. Não queria parecer elegante demais para ela nem, por outro lado, parecer descontraído em excesso.

Optou por uma roupa esportiva, mas bem talhada. Apanhou as chaves do carro e desceu para a garagem. Algum tempo mais tarde estava diante da porta do apartamento de Susy.

A campainha musicada ecoou alegremente no interior do apartamento. Passos furtivos aproximaram-se da porta. O trinco aberto. O rosto de Susy sorriu.

— Só um instante — pediu ela, voltando a fechar a porta para soltar a corrente de segurança.

Ao abrí-la os olhos de Don extasiaram-se diante da mais bela visão feminina de sua vida.

Um vestido solto, quase um camisolão de rendas, cobria o corpo da garota.

O branco do tecido realçava sua beleza, dando-lhe uma aparência angelical que contrastava com um pouco de demônio que havia em sua figura.

Don sorriu, apoiando o ombro no batente da porta e encarando-a.

— Manequim, modelo fotográfico, artista de cinema, eu diria que você poderia ser qualquer uma dessas coisas e me incluiria automaticamente como seu fã número um — sorriu ele e seu olhar era de aprovação e elogio.

— É galante demais para um homem que pode determinar seus momentos de romantismo, Don.

— É observadora demais para uma garota que deveria apenas estalar os dedos e...

Desculpe-me, acho que ia dizendo uma bobagem, não?

— Não se preocupe. Estou acostumada a isso — disse ela, com certa ironia. — Entre.

Don adiantou-se, fechando a porta atrás de si. A sala era mobiliada com gosto e beleza, revelando em todos os cantos um toque sutil de feminilidade.

Ela apontou uma poltrona. Don sentou-se. Ela caminhou até um móvel e abriu-o, revelando um pequeno bar.

— O que deseja tomar?

— Uísque puro, por favor!

Ela serviu dois copos e levou um para ele. Sentou-se na poltrona diante de Don e cruzou as pernas com elegância. Ela parecia mais solta, mais descontraída e mostrava-se receptiva e agradável.

— Eu... Fiquei muito contente em ter concordado com a minha visita — disse ele.

— Não costumo fazer isso, é bom que saiba.

Don tomou um gole de seu uísque, olhando-a com seriedade.

— Vamos fazer um trato? — sugeriu ele.

— Que tipo de trato?

— Não gosto quando você fala do modo como falou ainda há pouco: "não estou acostumada a isso, estou acostumado àquilo..." Esqueça tudo, por favor. Eu e você começamos tudo agora e, para ser diferente e bom, é preciso que nada interfira.

— O que você quer dizer com diferente e bom?

— Apenas diferente e bom. Acho que pode entender isso, não?

— É um homem direto, Don. Talvez seja sua maior virtude.

— Não se esqueça de minha sinceridade.

— É um executivo, não?

— Sim...

— Os executivos são sempre assim. Diretos e realistas. O romantismo não faz parte de suas vidas, apenas o ponto de vista material e prático tem valor, não é?

— Não necessariamente. É um julgamento comum e as regras têm exceções, lembra-se?

— Claro... Você me surpreende cada vez mais.

— E o que você quer dizer com surpreende, Susy?

— Revela-se diferente dos outros... Acho que violei o trato, não?

— Continue.

— É que espero um chavão, um padrão comum de atitude e você me vem com o contrário.

— Isso é bom ou ruim?

Ela pensou por instantes antes de responder.

— Acho que gosto disso, Don.

Ele sorriu, mais tranqüilo. Suas conclusões a respeito daquela garota mostravam-se acertadas. No fundo, Susy era uma solitária.

O fato de detestar multidões era muito significativo. Sempre tinha muita gente ao seu redor, mas nunca nenhuma pessoa em particular.

Alguém que permanecesse, que a entendesse, que a ajudasse a tornar seus dias mais agradáveis. Sua solidão era a pior de todas. A deusa detestava realmente seu pedestal.

— Já pensou no que podemos fazer esta noite? — indagou ele.

— Estou com fome e você?

— Também. Conheço um restaurante... — ia dizendo ele, mas interrompeu-se ao perceber certo ar de enfado no rosto da garota.

Como todos os outros, Don estava seguindo o caminho mais fácil. Pensou melhor a respeito de tudo que observara a respeito da garota.

Talvez um pouco de intimidade ajudasse demais. Talvez o que Susy quisesse fosse justamente esquecer sua solidão e se sentir acompanhada.

— Como eu dizia, conheço, um restaurante onde o cozinheiro é meu amigo e me ensinou algumas receitas fabulosas — corrigiu ele.

Susy levantou os olhos, encarando-o com surpresa e interesse.

— Sabe cozinhar?

— Alguma coisa.

— Que divertido! Você cozinharia para mim? Algo especial, diferente, intimo, pode me entender?

Ele sorriu, satisfeito por haver acertado mais uma vez. De certa forma, sentiu uma espécie de pena a respeito de Susy. Compreendia a sua solidão terrível e tinha tudo nas mãos para ajudá-la.

Não podia definir, no entanto, o motivo que o levava a isso. Talvez quisesse apenas a companhia dela para fazer daquele fim-de-semana tudo aquilo que planejara para ele.

Talvez dentro dele, em seu intimo, oculto, alguma coisa começasse a pulsar.

— O que tem sua despensa?

— Quer dar uma olhada? — convidou ela.

— E por que não?

Ela se levantou, mostrando-se feliz e excitada com a idéia. Levou-o até a cozinha. Don examinou a geladeira e o armário de mantimentos.

Havia mais do que o necessário para uma refeição deliciosa e intima. Concluiu que todos os detalhes seriam perfeitos ao localizar uma garrafa do melhor vinho da Califórnia.

— Acho que temos tudo. Você vai me ajudar, não é?

— Claro que sim — apressou-se ela, indo abrir uma gaveta e retirar dois aventais.

Jogou um na direção de Don. Ele apanhou-o e mediu-o diante do corpo. Susy sorriu alegremente, excitada, divertida. Don retirou o blaser que vestia, dobrou as mangas da camisa e amarrou o avental diante do corpo.

Susy o olhava incrédulo e sorridente. Havia amizade, gratidão, beleza e provocação em seu riso puro e alegre.

— Você é incrível, Don — disse ela.

— Você gosta que eu seja assim?

Por instante ela ficou séria, tentando penetrar no exato significado das palavras dele.

Depois, mordendo os lábios para não rir mais, ela concordou com um aceno de cabeça.

Don a viu irresistível. Sua alegria era contagiante, sua beleza era convidativa. Ele se aproximou lentamente da garota segurando-a pelos ombros.

Um impulso irresistível moveu-o. Ele inclinou a cabeça e beijou-a levemente nos lábios.

Susy estremeceu, mas não fugiu ao contato dos lábios dele.

Seu corpo encostou-se ao de Don e seus lábios femininos ofereceram-se, vencidos e cativados, aos lábios dele. O beijo prolongou-se, ganhando empolgação.

As mãos dele escorregaram para as costas da garota e ele apertou-a firme contra o peito. A fragilidade daquela garota era intrigante.

Ela parecia precisar daquele tipo de atenção. Don nada lhe prometera mas, em pouco tempo, conseguira dela mais atenção que todos os outros admiradores juntos.

Susy enlaçou-o pela cintura, segurando-o junto a si, como se, pela primeira vez na vida, se sentisse dona de alguém.

Essa emoção era nova e vibrante dentro dela, tornando-a impulsiva e desorientada ao mesmo tempo. Os lábios dele escorregaram pelo rosto de Susy, por instantes, permaneceram abraçados.

Ela suspirou, a cabeça apoiada contra o ombro dele.

— Eu precisava de algo assim — confessou ela, num tom de voz emocionado e grato.

— Ainda está com fome?

— Bastante.

— Então vamos começar — disse ele, segurando-a pelos ombros e afastando-a diante de si para olhá-la.

Os olhos de Susy revelavam uma alegria nova, um brilho intenso e emocionado, como alguém que, de repente, descobre um amigo que a compreende.

Dedicaram-se à tarefa de preparar o jantar. Don ditava as intruções. Susy, excitada e divertida, participava com alegria e vibração.

Riram muito os dois. Narizes cobertos de farinha, mãos se confundindo no ato de arrumar um prato, o fogão pregando peças e sustos, o forno aquecendo-se além dos limites.

A garrafa de vinho foi aberta antes do tempo e libertou descontração e alegria ainda maiores. Susy se revelava uma garota a agradável, muito simples em suas aspirações, mas tremendamente magoada com tudo.

Mais tarde, após o jantar, levaram o que sobrara da garrafa de vinho para a sala e sentaram-se juntos no mesmo sofá.

Don olhou a estante a sua frente. Levantou-se e foi até lá. Havia uma porção de livros técnicos.

— Deve ser uma massagista muito competente — comentou ele.

— Mas não me peça para massageá-lo agora, Don. Seria o fim de nossa grande amizade —

riu ela, fazendo uma careta. — No momento, acho que gostaria de inverter os papeis e ser massageada.

— Talvez eu possa ajudá-la nisso.

— Não me diga que também é massagista?

— Não, fui pugilista no Exército e acho que é quase a mesma coisa — brincou ele, fazendo-a rir ainda mais.

— Você é mesmo surpreendente — comentou ela.

— Vamos lá, deite-se e relaxe — pediu ele, aproximando-se dela.

— Fala mesmo sério?

— E por que não? Deite, vamos! — insistiu ele.

Ela o olhou com incredulidade, depois concordou com um sorriso. Seu corpo estendeu-se sobre o sofá, as costas voltadas para ele.

Don sentou-se na beira do estofado e olhou aquele corpo diante de seus olhos. Era tentador, excitante, perturbador. O perfume terrivelmente feminino da garota envolveu-o, entotecendo-o.

A perspectiva de massagear aquela pele macia e provocante provocou calafrios em Don.

— Estou esperando — disse ela, divertida e excitada também.

Seu vestido apresentava ainda algum obstáculo às ações de Don. Assim, com gentileza e carinho ele forçou as mangas pelo ombros da garota. Susy, surpreendentemente, ajudou-o naquela tarefa.

CAPÍTULO 4

Com movimentos preguiçosos de corpo ela facilitou a retirada do vestido. Primeiro as costas perfeitas e tentadoras. Em seguida a linha da cintura, a calcinha transparente que revelava as formas roliças e firmes das nádegas.

O lento descortinar ofereceu aos olhos de Don as coxas esculturais e, finalmente, todo aquele corpo perfeito e tentador.

Suas mãos estavam trêmulas, ao atirar para uma poltrona o vestido da garota. O perfume dela era agora mais forte, misturando-se ao odor de fêmea excitada e ardente.

Ela permaneceu deitada naquela posição os olhos dele, gulosamente, percorreram todas aquelas formas provocantes. Suas mãos, ainda trêmulas, tocaram a base do pescoço da garota, massageando-o lentamente.

— Desligue as luzes principais, Don — pediu ela, lânguida e sonolenta.

Ele se levantou, não escondendo sua excitação. Desligou as luzes principais da sala. Um abajur, ao canto, jogava sombras contra. A parede oposta.

Don voltou para o sofá, olhando aquele corpo estendido na penumbra. O desejo dentro dele era insustentável, mas a fragilidade de Susy, mais do que nunca, ficou acentuada.

— Cansada? — indagou ele, as mãos deslizando pelas costas macias.

— Muito.

— Quer que eu continue?

— Por favor! — quase suplicou ela.,

As mãos dele subiram pelas costas dela novamente, detendo-se momentaneamente à base da nuca. Depois, com lentidão calculada, subiram pelos cabelos da garota, uma caricia suave e repousante.

Os polegares, dele fixaram-se nas têmporas da garota e ele as massageou com vagar e suavidade. Como um prolongamento daquele gesto, os dedos dele escorregaram pelo rosto da garota, percorrendo as linhas suaves e belas dos olhos, do nariz e dos lábios.

Susy continuava na mesma posição e seus pensamentos se confundiam no desejo do sono.

As mãos quentes de Don despertavam emoções intrigantes.

Sensações deliciosas percorriam seu corpo feminino, ora arrepiando-o, ora fazendo-o estremecer ou simplesmente provocando calafrios que circulavam por sua espinha e se concentravam em seu ventre.

Susy não podia deixar de pensar a respeito daquilo que estava deixando acontecer. De repente, ter alguém junto dela, não apenas bajulando-a mas agradando-a como mulher, tornara-se a coisa mais importante para ela.

Don chegara de surpresa e nada lhe oferecera senão uma proposta de entendimento. Estar com ele era enfrentar o imprevisível e era tudo o que ela podia desejar naquela noite.

Por outro lado, tanta identidade de sentimentos era quase inacreditável. Isso intrigava Susy.

Don era perfeito demais e nisso estava todo o problema.

Um homem não podia agir daquela forma sem ter um objetivo em mente. Tratando-se de alguém como Don, essa forma de agir, chegava a ser paradoxal.

Era um homem prático, realista. Sua maneira de agir fazia-o ser direto em suas intenções.

Estar ali, ao lado dela, apenas acariciando-a daquela forma, não parecia ser o tipo de comportamento de que ele era capaz.

Havia qualquer coisa falsa naquilo e Susy não sabia se essas sensação de falsidade estava nela, no que aprendera sobre os homens ou se, de fato, estava nele.

Podia exagerar em seu julgamento e procurar fantasmas onde eles não existiam. Don podia estar sendo sincero e ela, em contrapartida, acostumada aos seus clientes-pretendentes, estava cega para ver com clareza a pureza das intenções do rapaz.

De qualquer forma, era quase que absurda aquela situação. Um homem não poderia ser nem um pouco egoísta para permitir que uma jovem semi-nua, diante dele, permanece intocada. Don, no entanto, apesar de todo o desejo que fazia arder seu corpo e latejar suas têmporas, procurava apenas cativar a confiança da garota.

Poderia tê-la ou, pelo menos, tentar, mas isso, naquelas circunstâncias, não lhe traria prazer algum. Havia alguma coisa dentro dele, em seu intimo, que ditava sua conduta.

Talvez a fragilidade de Susy despertasse também ternura dentro dele. Anjo e demônio se confundiam naquela mesma imagem de mulher, oferecendo pecado e redenção.

Dentro dele, Don sabia que apenas a redenção o conduziria ao pecado. Sublimar aqueles momentos era a melhor maneira de perverter outros.

Não a fazia, com uma intenção deliberada em ter aquela mulher. Antes, queria agradá-la e obter, sem forçar nada, aquilo que seu corpo e seus instintos pediam.

Ele a desejava, e amar aquele corpo o faria feliz naquela noite. Mas, para ele, naquela noite, era mais importante tocar o coração daquela garota e livrá-la de todo e qualquer conceito pré-fabricado.

Suas mãos friccionavam, agora, na linha da cintura das garota, escorregando para os flancos e chegando ao ventre. Don sentia arder em fogo as pontas de seus dedos em contato com aquela pele tentadora.

Estava excitado ao extremo. Inclinar-se ou simplesmente deitar-se sobre aquele corpo macio seria o máximo no momento. Abraçá-la contra si, sentir suas formas esfregando ao seu próprio corpo era a tentação que precisava ser vencida.

Evitar o simples pensamento de cobrir de beijos as costas dela, de mordiscar seus ombros, de avançar sua língua pelo pescoço de Susy e fazê-la penetrar nas orelhas da garota, alucinando-a, tudo isso era difícil, quase impossível, mas necessário.

— Susy! — chamou ele, na penumbra.

— Sim? — respondeu ela, como se tivesse demorado a ouvir o chamado dele.

— Você quer dormir?

— Você deixaria? — retrucou ela, quase com maldade e sarcasmo.

Don pensou por instante. Talvez estivesse julgado errado toda a situação. Talvez Susy desejasse um outro tipo de ação. Se assim fosse, ele estaria desempenhando o papel de um tolo ingênuo.

Olhou, por momentos, o corpo da garota. Os ombros retos e elegantes, agora relaxados. As costas macias e convidativas, a linha da cintura delgada alargando-se e arredondando-se nos quadris.

Nádegas roliças que despertavam idéias alucinantes. Coxas elásticas em repouso.

Respiração em ritmo lento ainda. Esse detalhe deu-lhe a certeza da resposta.

Se Susy fosse o que ele não imaginava, na certa estaria ofegante e sua respiração se aceleraria. Era um detalhe vulgar, mas significativo.

De certa forma, Don alegrou-se ao constatar que seus julgamentos a respeito da garota eram acertados.

— Eu até a levaria para a cama — respondeu ele, com ternura.

Ela ficou em silêncio por instantes, antes de suspirar longamente.

— Você é perfeito demais, Don — disse ela e sua voz revelava incredulidade ainda.

— Isso a incomoda?

— Sim, isso me incomoda e preocupa.

— Eu deveria ser diferente? Isso a agradaria?

— No fundo você deve ser como os outros e isso me faz sentir enganada.

— Como assim?

— Vejo-me obrigada a aceitar a idéia de que seu modo de agora é apenas uma nova técnica de conquista. Primeiro ganhar a confiança, depois avançar, não é?

— Não é uma técnica nova, se você já a conhece — observou ele, com ironia.

— Você entendeu o que eu quis dizer.

— Entendi apenas que não pode crer na minha sinceridade, não é isso mesmo?

— Gostaria...

— E o que devo fazer para que acredite nela?

— Acho que terei de descobrir isso sozinha, Don.

Ele se levantou e caminhou pela sala. Foi até o bar e se serviu de um pouco de uísque.

Voltou para junto de Susy. Olhou-a por momentos, depois foi se sentar numa poltrona diante do sofá.

Seus olhos passearam pela figura da garota, aprovando cada curva provocante, cada detalhe sugestivo. Seus olhos cruzou com o dela.

Por momentos fixaram-se um no outro como se um tentasse dizer ao outro todas as duvidas que tinha dentro de si.

— Não tem medo de meu julgamento a seu respeito? — indagou ela.

— E qual seria o seu julgamento?

— Bem, talvez eu o imaginasse um pouco mais possessivo, capaz de agir como qualquer um outro diante de uma garota despida. Isso não afeta sua masculinidade?

Don tomou um gole do uísque. Reteve o liquido em sua boca, sentindo-o queimar sua língua, à medida que se suavizava misturando-se à saliva.

Engoliu-o com uma ligeira careta e voltou a encarar a garota.

— Talvez seja parte de minha técnica. Primeiro cativá-la para depois avançar — falou ele, com ironia.

— Isso o faria igual aos outros, não?

— Talvez eu seja mesmo como os outros. Talvez agora eu a esteja desejando apaixonadamente.

— E você está?

— O que acha?

— Está. Então por que não age como os outros?

— Talvez eu seja um tolo, um romântico até...

— Não, você não é romântico...

— Eu disse que poderia surpreendê-la.

— E me surpreende, confesso.

Don tomou mais um gole de uísque, dessa vez engolindo-o imediatamente.

— Eu prometi não forçar nada, Susy. Lembra-se disso?

— Que garota em sã consciência acreditaria nisso, Don? — retrucou ela.

Aquele diálogo serviu para esfriar toda aquela atmosfera ardente que se criara entre eles.

Don tentou perceber se Susy brincava apenas com ele, divertindo-se com aquela maneira gentil e terna com que ele a tratava.

Era difícil assegurar-se de qualquer coisa naquele momento. Susy continuava a mesma garota misteriosa de antes. David não encontrava a melhor resposta para defini-la dentro de si.

Tentou apegar-se aquela imagem de fragilidade com que a vira, mas, naquele diálogo, muita coisa perdera a razão de ser.

Era ainda confuso entendê-la. O modo critico com que Susy o encarava punha tudo a perder. Don começou a achar que não fora uma boa idéia ter vindo ali.

Susy mostrava-se uma garota complicada, difícil de ser entendida. Um fim-de-semana com ela não seria a melhor maneira de relaxar e descansar.

Aquele relacionamento prometia exigir muito mais dele, mais, talvez, do que ele estivesse em condições de suportar. Novamente decidiu que deveria ser direto e sincero, mesmo que Susy não acreditasse nele.

— Vamos velejar amanhã? — indagou ele, mostrando-se disposto a esclarecer as coisas entre eles.

— Não. Perdi a vontade — respondeu ela, com certa maldade.

Don olhou-a intrigado. Susy perdia aquela aura de anjo e assumia postura de demônio, como se fosse divertido para ela brincar com ele.

Isso irritou-o. A idéia de ser usado por uma garota caprichosa e acostumada e mimos e bajulações era demais para ele.

Havia cometido um engano terrível indo até aquele apartamento. Deixara-se envolver por Susy, supondo-a uma garota frágil e carente de afeto.

No fundo, ela era apenas uma garota fria e cruel. Jogar com os sentimentos dos homens era sua diversão. Don resolveu não se sujeitar aquilo.

Antes de sair, no entanto, precisava dar a ela uma amostra de como deveria ter sido desde o principio. Levantou-se resoluto e foi até ela.

Segurou-a pelos ombros e abrigou-a a levantar o corpo. Susy tentou cobrir os seios com as mãos, assustada com a maneira quase brutal com que ele agia.

Sem se importar com o medo estampado no rosto da garota, Don apertou-a contra o peito e beijou-a violentamente. Um gosto adocicado de sangue tomou conta de sua boca.

Por momentos as mãos dela, apoiadas contra o peito dele, tentaram afastá-lo de si. Após alguns instantes daquele beijo excitado e brutal, Susy relaxou a pressão e cedeu lentamente.

Quando a teve vencida em seus braços, Don soltou-a sobre o sofá e levantou-se. Apanhou seu blaser, vestiu-o e saiu sem uma palavra.

***

Dirigia sem rumo pelas ruas de Nova Iorque. Em sua cabeça reinava uma confusão total.

Tentava entender o que houvera e só podia concluir que se deixara levar pelo feitiço de uma garota.

Sim, apenas isso explica. Susy era uma feiticeira do amor e sabia de suas forças sobrenaturais para subjugar os homens.