Antes Tarde do que Sempre por Bertoldo Gontijo - Versão HTML

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Título Antes Tarde do que Sempre

Autoria Bertoldo Gontijo, 2006

Edição Online

1.ª Edição - Agosto de 2007

Fotografia da capa Nicholas Homrich

Grafismo Rui Justiniano

Todos os direitos reservados

SINAPSES Editora

Urbanização Quinta das Lágrimas, lote 1, 1º Esq. Frente, 3000 Coimbra www.sinapses.net

sinapseseditora@gmail.com

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Antes Tarde do que Sempre

Bertoldo Gontijo

Capítulo 1

Como uma cena ruim de filme B europeu, naquele dia estava eu sentado num sofá de couro marrom, usando um jogging velho cinza em cujo peito estava estampada a frase “San Diego, California - Sunny Days”. Ironicamente, embora já fosse o início da manhã, o sol nascia sob nuvens, eu nunca fui pra Califórnia e só durmo tarde da noite.

Bem tarde. Já eram mais de quatro horas.

A minha insônia não aparece na hora de dormir, eu percebo que ela vai pintar muito antes. Ela vai se instalando ao longo do dia. Furtiva, espreitando e medindo meu humor, anotando minhas preocupações, observando todos os meus movimentos para usar tudo contra mim depois. Dessa vez por exemplo, eu pude senti-la contando todos os cigarros que eu havia queimado e os cafezinhos que eu havia tomado.

Lá estava eu, mais uma vez, sentindo a madrugada vazia, perdido.

Mesmo me sentindo um trapo, os pensamentos brotavam incontrolavelmente pro-curando explicações para coisas que nunca se deixarão explicar. Eu era mesmo, de qualquer maneira, como os frenéticos passarinhos neuróticos do jardim, que eu ouvia debruçado na janela do meu pequeno apartamento. Em seus mini-cérebros de amendoim, só tem espaço a rotina: acordar, comer, transar, dormir, acordar…

O ócio pelo qual passei virando essa noite, me permitiu dissecar a minha rotina. Eu vi as entranhas da minha vida. Não foi uma visão muito bonita: um cara hipócrita que acha que a corrida por status é ridícula, mas faz parte dela; um jogador medíocre, que sabe que suas chances de vitória são pequenas e que, apesar disso, no seu íntimo, acredita nela como única opção.

Tomando as rédeas do meu intelecto, comecei a pensar em sexo para espantar esses pensamentos deprimentes. Uma medida que nunca falhava. Foi então que começaram a surgir nos meus devaneios umas garotas que eu havia transado há tempo demais pra lembrar seus nomes, mas não o suficiente para esquecer suas bundas. Pessoas que eu não via há mais de quinze anos. Eram pensamentos tão inú-

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teis quanto agradáveis e que me fizeram lembrar que eu não havia vivido uma histó-

ria inteiramente banal até então. Aquela vida que só eu sabia por inteiro, uma vida que meus velhos nunca imaginaram nas suas melhores performances de “pais preocupados com o futuro do filho”, tinha sido bacana afinal.

Essa maldita falta de sono acabou sendo a minha salvação. Pelo menos, eu estava dando à minha cabeça de amendoim as asas tão desejadas.

Claro, eu sabia que logo seria um dia como todos os outros: previsível, monótono e, se eu tivesse bastante sorte, tranquilo. Mas concluí que seria bom aproveitar a viagem enquanto ela durasse.

Tentei me concentrar de novo, mas não consegui. Resolvi fazer um café forte, apesar da preguiça. Pensei que talvez, assim, meu cérebro pudesse me ajudar.

Caminhei até a cozinha, arrastando as meias no chão frio e, como sempre, meti o dedão do pé na quina do degrau. Abri a geladeira xingando a porra do degrau e fiquei olhando lá pra dentro sem ver nada, até esquecer o que estava fazendo ali, parado, segurando o dedo do pé, olhando fixamente um teco de queijo que sobrou de uma sessão de misto-quente. Voltei para a sala e coloquei um CD para rolar. “All Things Must Pass” – “Sunrise don’t last all morning…”, George Harrisson cantava. Um profeta, esse cara! A melodia deprê me deixou triste. E eu nem tinha um motivo bom para isso.

Nessa hora senti falta de ter um motivo, alguém por quem chorar.

Algumas canções têm o poder de mudar o estado de espírito das pessoas, ou mais que isso, mudar o dia, ou mais que isso, mudar o futuro. De repente, percebi que eu tinha sido influenciado por músicas a vida toda, mas nunca havia me dado conta disso.

Voltei até a cozinha – desta vez atento com a porra do degrau –, abri a geladeira (que é o local ideal para guardar café em pó, já dizia minha mãe) e peguei o pote de plástico quase vazio.

O telefone tocou, mas eu não atendi. Aquela hora, só podia ser engano.

Liguei a cafeteira e o cheiro da manhã invadiu a cozinha, invadiu meus pulmões, invadiu meu cérebro de amendoim, que virou paçoca1 depois que fumei a ponta de um baseado amanhecido. Aqueles perfumes tinham me acompanhado a vida inteira e, agora, estavam me dando linha para que eu continuasse a pescar lembranças no 1 Paçoca de amendoim: doce à base de amendoim, farinha de mandioca e açúcar, típico da comida do estado de São Paulo (Nota do Editor)

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mar do meu passado. Me deixei levar pelas ondas e pela música, e então, involunta-riamente os fragmentos da minha vida voltaram aos meus pensamentos e, por causa da trilha sonora adquiriram nuances diferentes, com cores separadas, como se tives-sem atravessado um prisma. Mostraram-se inteiros, concretos e finalmente claros. Eu entendi por que eu não dormia. Não era meu corpo nem minha mente que estavam exaustos, era a minha alma. O motivo de eu estar mais insone que um baladeiro no sábado à noite tinha se revelado: eu estava incomodado, insatisfeito, incompleto, infeliz.

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Capítulo 2

Ela era linda, seus cabelos negros e lisos que caiam sobre os ombros pequenos escondiam quase metade do seu sorriso. Júlia era capaz de fazer brotar saliva na boca de qualquer homem (ou mulher) que tivesse a sorte de vê-la de perto. Dona de um rosto adolescente de porcelana, sentada na cadeira da classe, olhando aten-tamente para o professor enquanto suas coxas deslizavam descuidadamente para fora da minissaia azul-marinho tipo colegial, era um colírio. Ela sempre me fez tremer de desejo.

Nossa sala de aula era pequena, uns trinta alunos divididos basicamente em quatro turmas: meninos otários, meninos maus, meninas espertas e meninas boazinhas. Eu fazia parte dos meninos otários e Júlia, das meninas boazinhas. Era perfeito.

Ela era minha namorada, embora ainda não soubesse disso. Ela era o motivo principal de eu aguentar a rotina escolar. Um copo d’agua gelada num deserto.

Fiquei assim, feliz, muito tempo, amando-a platonicamente, trocando olhares e às vezes até sorrisos tímidos.

Ela me apresentou a insônia. Eu passava madrugadas pensando em planos para me aproximar dela, roubar um beijo, sentir seu hálito de perto uma vez que fosse, mas a coragem me faltava na hora “H”, minha auto-confiança se desfazia como areia e escorria por entre meus dedos à medida que meus passos me levavam em direção a ela.

Isso foi muito bom, apesar da angústia que me causava. Era bom sentir aquele frio na barriga, aquela felicidade a cada olhar mais demorado.

Tudo muito romântico até que, inesperadamente, acabou. Num belo dia, ela provavelmente cansou de me ver tremer e começou a namorar o cara mais filho da puta da classe. Assim, mesmo. Sem mais nem menos. Eu nem tinha percebido que rolava um clima entre eles. Que imbecil!

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Definindo “um cara filho da puta” na minha cabeça: ele era um porque não respei-tava ninguém, porque só tinha notas ruins, porque era esperto demais pro meu gosto, porque tinha roubado a minha pseudo-namorada e mais ainda porque ele não dava a mínima pra isso, nem para os meus sentimentos. Enfim, porque ele era um cara normal mesmo.

Eu invejei esse cara nesse dia e, depois de algum tempo, a inveja iria se tornar admiração. Mas isso veio depois.

Paulo Júnior era um garoto de dezesseis anos, um ano mais velho e alguns centí-

metros mais baixo do que eu, que usava calça jeans Levi’s surrada, com um cinto de couro largo, camiseta com logotipos de carros hot rods e cabelos negros despentea-dos e longos à Rolling Stones. Usava também um tênis All Star velho pra caralho, branco, mas preto de tão sujo e, no melhor estilo punk, tinha uma atitude blasé de

“que-se-foda-o-mundo”.

Percebi com o tempo que não era só a Júlia que estava louca pra iniciar a vida sexual com ele, mas a maioria das meninas da classe. Percebi também, processan-do pensamentos idiotas em meus neurônios, que o destino tratava mal quem era bonzinho demais, certinho demais, sorrisos demais, magrelo demais. Saquei também que, além de ser desse tipo “muito demais”, eu também me fodia bastante porque tinha ainda como agravante o fato de nunca me dar bem em nenhum esporte que não envolvesse bolinhas de gude2.

Foi um choque para mim, concluir que eu era um otário, pois desde o tempo das fraldas eu aprendi que ser legal era, de alguma forma, ser o que eu era. E eu era o que todos queriam que eu fosse, eu achava que ser assim faria a calcinha da Júlia ficar molhada, até. Parecer responsável, respeitar os mais velhos, pentear o cabelo, vestir-se alinhado, lamber as botas dos professores arrogantes, tirar boas notas...

Ninguém me avisou que isso era ser o trouxa da turma, principalmente quando se estuda numa escola pública. Um lugar onde falar o português correto é ser fresco.

Onde estudar para as provas é ser um mané.

Eu, um garoto gente boa, tranquilo, um inocente-inútil adolescente, percebi já tarde que não teria a mínima chance no mundo de verdade. Ou pelo menos naquele mundo em que eu vivia, que era o que interessava.

Pensando em tudo isso, sentado na calçada da rua onde a maioria dos moleques 2 Berlindes (Nota do Editor)

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daquela idade, naquele bairro, passava o dia, fiquei puto comigo. Eu estava inconformado em ter perdido a Júlia assim tão fácil, tê-la entregado tão resignadamente. Me senti um bosta. Eu estava sentindo muita raiva. Ser um bosta. Que raiva.

O sol ainda estava baixo e, para mim, anunciando que aquele dia podia ser diferente por algum motivo desconhecido. Aquela sensação inocente de “o 1º dia do resto da minha vida”.

Eu estava notando que, se eu não tomasse uma atitude quanto ao que eu era, eu teria que amargar as consequências no futuro e isso não estava me deixando confortável. Passar o resto da minha vida perdendo namoradas para os outros não dá.

Estava mais do que na hora de virar a mesa.

Me enchi de coragem e decidi que eu não seria mais o Aldinho, aquele otário bonzinho. Ou, se fosse otário, ao menos o “bonzinho” teria que cair fora dos adjetivos a mim relacionados. Eu queria chorar de raiva, mas cerrei os dentes engoli seco.

Fiz uma prece em silêncio para que Deus (meus pais eram religiosos) me ajudas-se na cruzada contra essa coisa toda que me deixava por baixo. Imediatamente fui ouvido.

Na forma de um amigo, outro menino da espécie dos bonzinhos, o Douglas, veio a minha oportunidade. Quando ele pegou a minha bicicleta sem pedir, tornou-se a gota que faltava para transbordar o meu copo.

Levantei furioso e, um segundo antes de alcançá-lo, tive medo do que eu seria capaz de fazer.

Segurei meu amigo assustado pelo pescoço e acertei a sua grande cabeça com meu punho fechado uma vez, duas, três, mais, até que o sangue começou a escorrer dos nós dos meus dedos e da sua boca aberta. Ao mesmo tempo que eu me sentia monstruoso, não sentia arrependimento. A adrenalina estava percorrendo todas as minhas artérias, eu não sentia nada a não ser cólera.

– Essa bike é minha, seu filho da puta! Minha! Minha! Filho da puta!

Douglas cravou as suas unhas nos meus pulsos e tentava dizer algo que não lhe saia pela garganta. Achei que ele nunca mais fosse falar, na verdade. Isso me deu medo e por um segundo afrouxei a mão. Livrando-se de mim com um movimento rápi-do, ele correu. Nunca mais falei com ele depois desse dia.

Por ter pego a bicicleta alheia sem pedir, ele havia catalisado a mistura. Um simples fato rotineiro se tornou a nascente do sinuoso rio que seria a minha personalidade.

Voltei para minha casa andando, guiando a BMX ao meu lado, pois me faltavam 9

forças para pedalar. Meu coração parecia que ia sair pela boca.

Logo no portão da frente vi minha mãe segurando meus cadernos, amarrados com um elástico.

– Aldo, menino, você vai se atrasar! O que aconteceu com a sua mão?

– Nada, não, mãe. Só cai da bicicleta.

Era dia de educação física, atividade que ocorria na parte da manhã, antes da aula, e que eu detestava com todas as minhas forças.

– Esqueci que hoje tem aquela merda de aula!

– Menino! Olha a boca!

A caminho da escola, ainda ofegante, e embasbacado com o meu próprio espetá-

culo de fúria contra o Douglas, mais uma vez comecei a pensar, e pela primeira vez, friamente, aplicando um método quase matemático ao raciocínio.

– Acesso de fúria resultaria sempre em respeito? Ao menos deve assustar, porque, do contrário, Douglas, que era um tanto maior e um tanto mais velho, não teria corrido pra dentro de sua casa, apavorado. Será que é preciso tudo isso para conseguir algo tão simples quanto o respeito?

Eu não tinha sentido tanto prazer naquilo e pensei que aquela atitude talvez não desse resultados sexuais positivos e imediatos, o que era o meu principal objetivo.

Amigos em troca de garotas talvez não fosse uma boa barganha. Douglas não merecia aquela atitude porca, mas estava feito.

– Se Júlia ao menos tivesse presenciado a cena, talvez eu tivesse ganhado alguns pontos. Talvez. – Pensei.

Comecei a procurar, nas lacunas da minha depressão pós-porrada, algo que com-pletasse aquela violência gratuita, algo mais eficiente para mostrar minha rebeldia para a escola, minha insatisfação para os meus pais, meu pinto para alguma garota.

Chegando na entrada da escola vi Júlia conversando com umas amigas e, diferente do que eu costumava fazer, passei direto sem dizer oi. Eu a culpava sinceramente pela boca ensanguentada do Douglas.

Infelizmente, era dia de futebol e o professor, como sempre, pedia pra dois garotos escolherem o time, selecionando alternadamente um aluno por vez. Isso implica-va num ranking cruel: quanto mais tarde você era escolhido, pior você jogava na opinião dos colegas e isso ficava claro para a escola inteira. Um método bem eficiente para destruir a auto-estima de um adolescente. Eu, claro, era sempre o último a ser escolhido, sem variações. Mas eu nunca culpei os alunos por isso, apesar da humilhação, pois eu realmente era um desastre com a bola nos pés.

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Agora, o professor, por sua vez, devia ser uma besta humana para não perceber o que isso poderia significar socialmente e psicologicamente.

Dessa vez eu disse que não iria jogar e disse que o motivo era nenhum, apesar disso me custar um ponto negativo na minha nota mensal. Ignorando o falatório e a resistência do professor em me liberar, sai caminhando e me fazendo de surdo. Foi uma delícia ignorar uma autoridade.

Estava um clima animado no pátio da escola. Era uma sexta-feira. As garotas fala-vam em grupos nos cantos sobre os meninos que estavam jogando futebol. Me sentei na escadaria de concreto que ligava o prédio ao pátio externo. Minha mente ainda estava estranha. Eu tinha a incrível habilidade de passar horas sem pensar em nada, mas não um pensar em nada meditando: um pensar em nada vazio. E era o que eu estava tentando fazer quando vi Júnior subindo a escadaria. Ele havia sido expulso do jogo e, depois de um tempo, eu fiquei sabendo o motivo: alguns garotos, depois que eu sai de perto, fizeram um comentário idiota sobre eu e a Júlia. Não sei exatamente qual, mas foi o suficiente para ele quase quebrar a perna de um deles no primeiro lance do jogo.

Júnior nunca havia falado nada que prestasse comigo, mas nesse dia as coisas estavam estranhas e podia acontecer qualquer coisa. Ao vê-lo subindo em minha direção, gelei. Só podia ser encrenca.

A cabeça do bad boy estava eclipsando o sol, que estava laranja. Como um anjo mau com auréola de raios solares projetando sua sombra sobre mim, ele abriu a sua mochila e, numa atitude de caridade com o coitado que não joga futebol, esticou a mão oferecendo um disco de vinil em cuja capa estava a foto de uma mesa de escola primária esverdeada, meio amarelada, rabiscada e velha.

– Que porra é essa? – Pensei.

– Moleque, ouve isso bem alto. Acho que, se você não for uma florzinha, você pode gostar. Cuidado pra não riscar. Te mato.

– Isso pode ser uma piada para me desmoralizar – pensei. – Preciso dizer algo inteligente.

– Tá, valeu. Mas por que tá fazendo isso?

– Quer ou não quer?

– Quero, beleza.

– Então não embaça, pega essa merda logo, pô.

Aquilo estava acontecendo porque ele queria dar um jeito no seu sentimento de 11

culpa. Eu sabia e ele sabia disso. Acho que até ele tinha visto que eu estava abalado por causa da Júlia. E eu, em vez de meter a mão na cara dele, aceitei o presente de grego. Um coitado recebendo um agrado do manda-chuva. Putaquemepariu, como sou lerdo. Um segundo depois me arrependi, mas era tarde demais.

Já era quase hora de iniciarmos as aulas de classe. Aproveitei para chegar antes de todos na sala e, sentado no mesmo lugar de sempre, fiquei admirando aquele álbum de capa dupla por um bom tempo. Li interessado as letras em inglês que eu não entendia, imaginei os shows onde foram tiradas as fotos, descobri os detalhes da arte. O rótulo do vinil tinha um logotipo conhecido, eu já o tinha visto na TV, no dese-nho do Pernalonga. Warner Bros. Aquilo me interessou muito. Fiquei absurdamente curioso para saber que som sairia daquele vinil estranhamente lindo. O que uma empresa, que fazia o Pernalonga, poderia colocar num disco de rock?

Até então, meus únicos vinis eram os de histórias infantis abandonados há muito tempo.

No início do intervalo da aula de português, que parecia ter durado uma eternida-de, peguei meus cadernos e sai sem falar com ninguém. Eu não podia esperar mais para escutar o que continha naquele objeto do outro mundo.

O caminho da escola para casa nunca tinha sido tão longo, eu contava cada passo, minha cabeça parecia estar a quilômetros de distância dos meus pés.

De novo eu sentia que algo importante aconteceria. Como se a caixa de Pandora estivesse por ser aberta e eu seria o culpado. Eu estava adorando ser o culpado, para variar.

Começei a correr.

Abrindo a porta rapidamente, atravessei a sala sem responder o “olá” da minha mãe e arremessei meus cadernos na cama do meu quarto, que ela mantinha impecável. Montei rapidamente o som portátil Crown no qual meu pai ouvia Ray Coniff e eu, quando criança, meus vinis compactos coloridos. Era um estéreo daqueles que se transformam em uma maleta.

Fechei a porta e coloquei os fones de ouvido. A bolacha começou a rodar, aumentei o volume no talo e, introduzido pelo chiado mais delicioso do mundo, fui apresentado ao rock’n’roll pelo performer, vocalista e maluco Alice Cooper.

Aquela voz, aquele som, aquilo tudo era o próprio coisa-ruim abrindo as portas do inferno. Um inferno celestial.

“Well, we got no choice

All the girls and boys

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Makin’ all that noise

‘Cause they found new toy…

…School’s out for ever”.

Aquilo soava incrivelmente rebelde, nervoso, mau, alinhado com meu momento pós Vila Sésamo e, mesmo antes de entender a letra, que algum tempo depois pedi para a professora de inglês traduzir, aqueles acordes poderosos já faziam efeito em mim, já transmitiam a mensagem. Eu estava me sentindo instantaneamente catapul-tado a uma casta superior de ser humano. A casta dos que sabiam que aquilo existia e que aquilo podia trazer, em matéria de sensações transcendentais, religiosas, psicológicas e sexuais, o nirvana.

Meu cérebro derreteu de prazer enquanto eu gritava por dentro, mudo, com minha boca cheia de dentes.

– Ducaralho, ducaralho, ducaralho!

Fiquei ali, deitado, atravessando repetidamente aquele portal para outra dimensão, quando, como um raio, veio na minha cabeça uma lembrança: por ajuda do destino, incrivelmente, minha mãe tinha sido presenteada com uma guitarra há alguns anos.

Na época eu não dei muita importância ao instrumento, mas agora eu sabia que aquilo era o Santo Graal e estava ao alcance das minhas mãos.

Eu não tinha uma mãe guitarrista, não. Foi ironia do destino mesmo. Ela queria apenas tocar músicas religiosas na igreja. A igreja era grande, o violão não era amplificado, era aniversário dela, meu pai viu um anúncio no jornal e... minha mãe nunca chegou a ligar essa guitarra, na verdade.

Era uma porcaria de guitarra, sim, mas eu nem sabia disso e ela tinha sido adqui-rida com um amplificador. Era tudo que eu precisava. Tudo que eu queria, agora, era isso.

Procurei em baixo da cama dos meus pais, onde talvez eu encontrasse o objeto desejado. Tateei no escuro e encontrei uma alça que puxei, trazendo à luz um “case”

preto, curvilíneo. Abri desesperadamente rápido aquele estojo e, como se eu estivesse esperando a vida toda por aquele momento, empunhei o instrumento e me senti um super-herói.

Era uma linda guitarra ruim. Seu formato, como fui saber mais tarde, lembrava uma

“Fender Mustang”. Um corpo feminino, de onde se projetava um pescoço muito longo.

Era sensual, colorida com uma tradicional cor “sunburst”. Ajustava-se perfeitamente ao meu corpo e às minhas pretensões.

A sensação de segurar aquele instrumento foi quase sexo, pelo menos para 13

alguém tão virgem quanto uma criança.

Júnior e dona Carmem tinham-se unido, sem saber, para me induzir a ser um guitarrista. Talvez a coisa mais constante da minha vida.

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Capítulo 3

– Como vai ser meu dia hoje? Chapado.

Fumei um baseado para acordar. Tomei um banho demorado mandando a consciência ecológica pras picas. Fiz a barba embaixo do chuveiro sem culpa e coloquei a roupa básica de trabalho. Jeans, tênis e uma camiseta preta com um carrão hot-hod estampado nas costas.

Peguei uma das minhas guitarras, a Gibson presenteada pelo meu pai na adolescência, e toquei diversas vezes uma composição minha feita no dia anterior, até perceber que eu estava muito atrasado. Era uma sexta-feira e a quantidade de trabalho que me esperava no escritório não era modesta. Larguei tudo apressadamente e saí.

Ainda bem que minhas malas já estavam prontas. Eu estava ansioso para que o fim do dia chegasse e eu pudesse pegar a estrada para Paraty. Um luxo que às vezes eu me permitia.

Meu carro de verdade não era como o estampado na minha camiseta, mas também era “cool”. Um Maverick V8 preto, antigo mais bem cuidado. Precisava de uma revisão urgente, eu admito, mas, ainda assim, conservava aquele ar “rock’n’roll seventies” nas veias.

Acelerei fundo até encontrar o primeiro engarrafamento do dia a duzentos metros da porta da minha garagem, que durou até chegar na garagem do escritório, quase uma hora depois.

Como eu estava muito atrasado, eu sabia que o elevador demoraria uma eternida-de, isso acontecia sempre. Mesmo assim não pensei seriamente em subir os quatro lances da escadaria.

Valeu a pena esperar. Assim que as portas se abriram, eu notei, à entrada do edifício, uma loira deslumbrante e peituda, apressada. Segurei a porta enquanto ela entrava ao som do tradicional piiiiiiiiiiii.

Uma vez aconteceu uma coisa excitante comigo no elevador e, desde então, pas-15

sar alguns minutos fechado num deles com uma beldade tornou-se inspirador. E inspiração eu nunca rejeito. Deixei a porta abrir no meu andar, mas não desci.

Acompanhei a minha musa instantânea até o décimo terceiro, disse bom-dia e, então, eu estava pronto para descer até o andar certo e encarar a recepcionista feiosa da agência.

– Diiiia.

– Oi, Aldo! A Júlia deixou recado. Perguntou se o texto do site dela está pronto e pediu pra você ligar pra ela urgente.

– Tá.

Fui direto para a frente do computador verificar a agenda. Estava lotada: 1.Flyer promocional da clínica de estética íntima Premiére; 2.Anúncio para o canil de pugs;

3.Kit patrocínio do espetáculo “A vida sem rumo”

4.Site “de mentira” da Júlia.

Redator publicitário é uma profissão sem glamour. Sentar a bunda e despejar mentiras, basicamente. A página do Word estava à espera de atraentes palavras para con-sumistas ávidos por serem enganados. O dinheiro e a mentira sempre estavam presentes naquele tipo de trabalho. O humor só vinha no contracheque e como bônus, em pensamento. Nunca em letras impressas:

“Sua xoxota parece a cara de um Pug? Por isso sua vida está sem rumo. Venha para a nossa clínica e deixe-a como a da Júlia - um espetáculo!”

Incrivelmente eu tinha topado com a Júlia, por acaso, depois de quase 15 anos sem contato, em uma reunião de briefing para um site de e-commerce de móveis modernosos que ela queria fazer. Ela havia se tornado uma designer de sucesso nas rodas dos endinheirados colunáveis, mas ainda tinha um sonho: “Levar beleza e conforto para o povo”.

Acho que todo designer metido tem de dizer isso. Balela da grossa. O ítem mais barato era um cinzeiro que custava o preço do meu violão folk. Conforto por conforto, eu posso bater as cinzas no buraco do meu instrumento, porra.

Ela sempre foi uma garota de frases feitas. Isso não depõe contra ela, existem ótimas idéias enlatadas.

Provavelmente esse reencontro e o convívio inevitável por causa do trabalho foi o gatilho que disparou meu saudosismo.

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Claro, foi isso. Agora cala a boca e escreve.

Eu tinha orgulho da rapidez com que eu fazia aparecer frases na tela, mesmo que elas nem sempre, ou quase nunca, fossem geniais. “Estética Premiére - A primeira vez não precisa ser única...” Começei a espancar o teclado sem parar, por horas, até a vontade de fumar tomar conta de todos meus pensamentos.

Fui até o hall dos elevadores, a jaulinha dos coitados fumantes de merda, satisfa-zer a vontade fisiológica cancerígena.

Maldita hora que resolvi começar a fumar. Que burrada. A grande maioria dos cigarros que um fumante manda pra cabeça são apenas para aplacar a vontade de nicotina, um lance quase sem prazer. Mas às vezes o cigarro é uma ilha de prazer que faz valer a pena o risco. Esse que eu fumei foi um.

Olhando pela janela, vi, além do telhado no qual eu jogava as minhas bitucas, um cachorro sendo guiado por um mendigo barbudo. De longe, a cena era quase poéti-ca.

O que um cão não faria para ter um lar? O que um homem não dividiria para ter companhia?

Voltei para a mesa pensando naquilo. Minha vida estava mais ou menos como a dele, só que sem o cachorro. Eu vivia pedindo esmolas para as pessoas que me con-tratavam para escrever e, no momento, companhia era uma coisa que não fazia parte da minha rotina. Talvez fosse legal eu arrumar um cachorro, ou uma namorada.

Escreve, caralho!

Cara devidamente enfiada no monitor novamente, dedos a postos. O ramal tocou.

Olhei para o telefone como se tivesse estranhado o toque. Apesar de ser um pensamento um tanto esotérico, senti que a notícia não seria boa. Lembrei do telefone tocando de manhã em casa e, de novo, não atendi. A luz da caixa postal começou a piscar.

Espancamento de teclado a todo vapor, idéias fluindo nos gases tóxicos do cigarro recém-fumado, voltei a escrever textos vendidos. Uma beleza. Rendeu mais uma hora de trabalho, textos vazios e de luzinha de caixa postal piscando, pedindo que o recado fosse ouvido, suplicando para que aquela agonia terminasse.

Apertei o botão.

– You have one new message. Beeep.

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– Aldo, é a Júlia, cadê você? Cheguei em São Paulo. Queria saber se você pode me pegar no aeroporto. Me liga? Beeep.

Eu não podia acreditar naquilo... pegar no aeroporto?

*REPEAT*

– Aldo, é a Júlia, cadê você? Cheguei em São Paulo. Queria saber se você pode me pegar no aeroporto. Me liga? Beeep.

*REPEAT*

– Aldo, é a Júlia, cadê...

Aqueles olhares trocados na última reunião sobre o site de mentira queriam dizer algo, afinal? Ou era só ansiedade dela para começar logo a vender aqueles cinzeiros assinados de merda?O que ela queria?

– O que essa viada tava querendo? Me encher o saco? – Pensei, já fantasiando absurdos sexuais, enquanto procurava o número do celular dela na agenda do computador.

Olhei para o meu telefone e perguntei (para o telefone) o que ele iria aprontar comigo. Como ele não respondeu, eu tive de descobrir sozinho. Apertei as devidas teclas como se fossem a senha de um cofre dentro do qual eu encontraria o que o destino guardou para mim há muito tempo, pensando no dia de hoje.

– Alô.

– Oi, Júlia, você me deixou um re...

– Então, você vem me pegar aqui em Congonhas? Acabei de pegar as minhas malas.

– Olha, tô cheio de trabalho, não sei se dá. Podemos marcar uma reunião mais tarde... – Disse, querendo ir andando até ela de tanta ansiedade.

– Aldo, vem me pegar.

–Tá. Me espera no saguão principal.

Não era nada normal a Júlia me fazer um pedido daqueles. Mas fosse o que fosse, eu não podia desperdiçar a oportunidade de estar a sós com ela, tomar um café, falar sobre assuntos não profissionais. Ficar com ela, enfim.

O Maverick não era muito confiável, considerando a sua idade, e esse era um momento crítico. A Lei de Murphy era uma variável importante e sempre tinha que ser 18

considerada na minha vida.

– Ô carro filho da puta!! Pega, desgraçado!

Desisti. Bati a porta com tanta força que amassou mais um pouco a lataria e corri para fora pela porta da garagem e, sentindo-me como um moleque, fumei um cigarro inteiro enquanto, tossindo, eu esperava passar um táxi.

– Puta, já era hora!

– Pra onde?

– Aeroporto de Congonhas.

– Tá atrasado pra pegar um vôo? De sexta-feira o trânsito é ruim, você deve saber, né?

– É, mas foda-se. Tô atrasado uns 15 anos pra pegar esse avião mesmo.

– Heheheheh... você esqueceu de acender o cigarro ou tá tentando parar? Tá apagado na sua boca.

– Esqueci. Tem isqueiro?

A fumaça desceu quadrada de novo, enquanto a minha cabeça era apenas um branco, não um branco vazio, mas uma superpopulação de pensamentos caóticos sobrepostos que resultavam em conclusão alguma totalmente branca.

– Normalmente não deixo fumar no meu carro, mas no seu caso, seria muito cruel, heheheh.

– Seria. Vou encontrar uma garota que eu nunca encostei a mão, uma longa histó-

ria, e não sei o que vou dizer pra ela. Me ligou do nada e pediu pra eu pegá-la no aeroporto, pode? Porque estou te contando isso? Deixa pra lá. Que bosta, estou nervoso.

– Leva ela pro motel, cara.

– Ã?

– Doutor, já fui em motel até a pé. Quando a coisa bate, não tem jeito.

– Faz um favor?

– Ôpa, pode pedir.

– Coloca esse CD pra rolar ai no som do carro e me deixa pensar um pouco? Tô meio tenso.

– O senhor é quem manda.

– Desculpe. O humor tá bom, mas a cabeça tá cheia.

Era um CD que eu mantinha sempre à mão. Queria escutar “Torn in my pride”, do Black Crowes. A capa do CD “Amorica” é uma foto de uma garota bronzeada, linda, coberta apenas por um biquini mínimo estampado com a bandeira dos Estados 19

Unidos.

Ouvindo aquele som maravilhoso, uma sensação “se nada tenho, nada tenho a perder” tomou conta da minha ansiedade. Relaxei.

– Fico aqui, no desembarque internacional. Me espera, beleza?

– Você que manda, doutor. Tô curioso mesmo pra ver sua garota ahahahah.

– É o que me faltava. Motorista piadista. – Pensei.

Antes de entrar, parei na porta e tentei fazer tudo devagar, para não parecer um cãozinho abanando o rabo e finalmente atravessei a linha que me separava do meu futuro.

– Aldo, aqui!

– Oi, Júlia.

Ela estava parecendo uma pintura hiper-realista, mas minha adrenalina me fazia enxergá-la com a miopia de Monet.

Pensei em perguntar o porquê de tudo aquilo, o que ela queria, se esperava algo de mim, se tinha acontecido algum imprevisto, se ela era só folgada mesmo, mas fiquei quieto.

Júlia começou a explicar o que estava sentindo, a saudade que bateu do Brasil, de São Paulo, de mim, apesar de ter estado fora apenas uma semana. Falava como uma matraca.

Percebi que ela realmente queria me ver, eu notava no seu sorriso e no seu olhar, além do constrangimento, felicidade por estar comigo.

Paramos um de frente para o outro e me curvei para pegar as malas, quando parei e olhei dentro olhos negros dela, depois para sua boca e a beijei. Era como se ela sempre tivesse sido a minha namorada, exceto pelo sabor da sua saliva, delicioso, que eu não conhecia. Ela correspondeu timidamente, porém positivamente. Seu cora-

ção batia violento e suas mãos tremiam um pouco. Eu ainda me sentia estranhamente sereno.

Segurei a sua cabeça entre as minhas mãos e, ainda olhando a sua boca, disse:

– Queria que meu Maverick visse isso. Mas estou de táxi. Vamos?

Júlia abriu um sorriso e, fazendo da minha piada idiota uma frase perfeita, riu e respondeu:

– Ele vê outro dia. Vamos, estou exausta.

Estar no aeroporto era uma coisa totalmente improvável para aquele dia. Estar com o meu braço ao redor da cintura de Júlia enquanto caminhávamos era fora da realidade.

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– Podemos ir, motorista.

– Certo. Pra onde?

– De volta pro mesmo lugar, preciso falar sério com o meu carro. Vou viajar hoje.

– Disse, olhando para Júlia, como que pedindo para ela ir comigo, mas ela não disse nada e sorriu.

Eu estava com a sensação de que, se eu titubeasse, deixaria a Júlia escapar de novo, e desta vez para sempre. Eu não poderia viver com aquele beijo apenas nas minhas lembranças. Tudo que eu precisava para mudar minha vida era uma namorada, e se ela fosse a Júlia, eu seria um homem feliz.

Já no meu carro, inexplicavelmente funcionando perfeitamente, resolvi partir para o ataque e tentar a sorte:

– Júlia, sei que pode parecer uma loucura, mas eu vou pra Paraty hoje. Eu adora-ria se você fosse comigo.

– Aldo, você continua pirado, né? Acabei de chegar da Europa, a gente se beija e você já quer me levar pra cama. Ahahah. Menos, vai.

– O.k., mas a louca é você. Hoje é sexta-feira e, se você me chamou pra te encontrar aqui não foi à toa, imagino que não seja pra falarmos do seu site.

– Não. Eu queria ver você mesmo. Senti a sua falta nessa semana em Milão. Você iria adorar lá.

– O que eu iria adorar é estar com você. Esperei 15 anos pra te dar um beijo, não me faça esperar mais quinze por outro. A gente merece uma chance, você sabe disso.

Não vamos deixar esse momento escapar.

Ela ficou em silêncio por uns quinze minutos que pareceram três horas e falou, rindo:

– Ahahahah. Quer saber, você tem razão. Eu vou. Foda-se. Tô cansada de fazer tudo certinho. Ninguém sabe que eu voltei hoje mesmo. Só que vamos passar antes no meu apartamento pra eu trocar as malas e tomar uma ducha, tá?

– Tá, as minhas malas já estão no carro desde ontem.

Apesar de ser designer ela não tinha um bom gosto para decoração de interiores.

Era tudo tão geométrico, arrumadinho e branco naquele apartamento, que a impressão que dava era a de que eu estava uma câmara frigorífica para morar. Aconchego zero. Pensei que ali só poderia ser um lugar onde viveria uma pessoa infeliz. Sem cor, sem vida.

– Vamos?

Ela estava usando uma mini-saia preta e uma camiseta sem manga, também preta.

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Esta roupa, mais os fios de cabelo molhados que grudavam no seu rosto a cada movimento escreviam a frase “quero trepar” na sua testa. Ou melhor, escreviam a frase

“quero te comer” na minha testa.

Eu mal podia me concentrar no volante com a mão dela descansando sobre a minha perna enquanto cochilava.

O sol estava a pino e o calor só era amenizado pelo vento fresco que entrava pelas janelas. Meu Maverick V8 tinha “ar rock’n’roll”, mas não tinha ar-condicionado.

Eu quase perdi a direção porque estava aproveitando aquele momento vulnerável para mapear detalhadamente os contornos dos peitos dela e, evitando uma colisão iminente, parei o carro no acostamento de qualquer jeito perto de um trailer de pastel.

– Que foi? – Disse, abrindo os olhos assustada.

– Vamos comer alguma coisa?

– Boa idéia, estou morrendo de fome.

– Legal.

– Ih, pastel? Adeus dieta!

– Dieta? Você está perfeita!

– Não acho, mas mesmo que estivesse eu não poderia sair da linha.

– Por que, por mais bonita que uma mulher esteja, ela sempre está fazendo dieta?

Parece que vocês todas se olham sempre num espelho que distorce a imagem. Se tem cabelo curto inveja o comprido, se tem cabelo liso queria cacheado, se é loira quer ser morena...

– Ei! Não é assim também. Já pensei sobre isso, sabia? Na minha opinião acho que as mulheres desejam mudança e segurança, duas coisas muitas vezes incompa-tíveis. Uma cor nova no cabelo ou um corpo bem cuidado, por exemplo, pode trazer um pouco dos dois, mesmo que num grau menor de importância.

– Foi nisso que você pensou quando me ligou?

Pra mim a resposta dela significaria algo profundo. Eu poderia traduzir essa pergunta para: “Ligou pra mim porque precisava de mudança, porque quando você bus-car segurança a coisa vai degringolar?” Eu me sentia inferior frente àquela garota que estava habituada ao sucesso. Eu não dava segurança nem pra mim mesmo.

– Pensei no que?

– Mudança. – Fiquei com medo de pronunciar “segurança” e ela rir ou me achar idiota.

– Pode ser. Acho que sim.

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– Alguma decepção amorosa recente?

– Não...

Aquele “não” foi muito mais “sim” do que seria um “sim”.

– Não diria decepção. Talvez dúvida. Mas vamos mudar de assunto? Não tenho nada muito importante pra dizer a respeito.

– De queijo ou de carne?

– Queijo. Eu não como carne há muito tempo.

– Amigo, manda um de carne e um de queijo pra gente?

Segurei-a pela cintura e a beijei. Desta vez demoradamente, aproveitando cada segundo.

– Olha o pastel saindo!

– Opa, valeu.

– Porque você não come carne?

– Nada a ver com dieta ou com saúde. Tenho dó do bicho.

– Também tenho.

Enquanto comia aquele pastel oleoso duro de engolir e imaginando o boi no aba-tedouro, eu notava o esforço da Júlia para não deixar um fio queijo derretido sair do controle. Aqueles momentos eram impagáveis. Finalmente eu e ela. Eu me sentia vivo de novo.

Chegando em Parati sugeri pararmos em frente ao mar antes de irmos pra pousada.

Parei o carro embaixo de uma árvore. O sol se pondo fazia um tapete dourado na água. Parecia perfeito demais para ser verdade. Falamos pouco, nos beijamos muito.

A pousada era simples, porém muito aconchegante. Basicamente uma piscina rodeada de árvores e de mini-sobrados amarelos bebê com varanda.

Fomos logo para a nossa suíte no sobrado três. Diferente do que eu esperava, quando me vi no quarto sozinho com ela, eu estava tímido, meio sem assunto. Nada à vontade com a situação.

Fiquei tentando encontrar algo legal para dizer, um assunto interessante, alguma coisa que fizesse ela me achar inteligente. Não consegui. Achei que o melhor jeito de acabar com aquele clima seria agir sem pressa e deixar rolar.

– Tirei as roupas da minha mala enquanto ela deitou na cama de madeira escura e ligou a TV 15 polegadas presa à parede por um suporte de metal.

Tudo aquilo era muito conto-de-fadas. De repente senti que talvez eu estivesse sendo inocente demais. Aquilo começou a me incomodar.

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– O que tudo isso significa pra você, Júlia? Você imaginou que um dia tudo isso pudesse acontecer?

– Ah, Aldo. Você sabe. As pessoas sempre fantasiam aventuras com pessoas que conheceram na adolescência. E nossa história foi incompleta, né? Ficou uma curiosidade.

– Mas o destino fazer a gente se reencontrar não é muita ironia?

– Claro. Seria. Mas você ainda acha que foi coincidência?

– Ah! Não me diga que foi planejado.

– Até certo ponto não, mas depois sim. Eu encontrei o Júnior por acaso num bar na Vila Olímpia. Perguntei pra ele de você e ele me deu o telefone da agência. Eu estava precisando de um site mesmo. Juntei o útil ao agradável. Eu nunca tinha feito coisa parecida. Fiquei surpresa comigo mesmo por levar essa idéia a cabo.

Me deitei sobre ela e comecei a beijar suas pernas, a parte interna das suas coxas.

Ela riu. Beijei seus pés, que estavam suados. Ela riu. Eram risadas de cócegas mesmo, o rumo daquilo não estava me levando ao que eu queria. Eu estava forçan-do. Quem sabe mais tarde...

– Vou tomar um banho.

– Vai, vou descansar um pouco. A diferença de fuso horário e a viagem me deixaram um caco.

Tomando banho pensei sobre mim. Eu era péssimo em “aprouch” mesmo. Tinha medo de que tudo aquilo podia dar em nada por minha culpa. Por falta de competência. Imaginei ela indo embora pensando que tudo foi um erro. Que não tínhamos quí-

mica.

Olhei pro meu pinto e ele estava morto-da-silva. Parecia que estava me dizendo: –

Hoje, pode esquecer.

Entrei em pânico, pensei em ir até a farmácia comprar um Viagra. Sim, era isso!

Farmácia urgente! Eu digo que vou comprar filtro solar.

– Jú! Vou até a farm... Jú?

Ela estava dormindo profundamente.

Cheguei perto. Tirei as suas sandálias bem devagar, desabotoei sua saia, tirei a presilha que prendia seus longos cabelos negros. Desliguei a TV, beijei a sua barriga, deitei ao seu lado e fiquei sentindo a sua respiração, o seu cheiro e o seu calor até me embriagar. Peguei o livro “Pergunte ao Pó” de John Fante que eu tinha deixado na mala e fui ler na varanda, deitado numa rede, onde, depois de aproveitar cada segundo daquela sensação maravilhosa, adormeci.

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Capítulo 4

– E aí, meu, escutou o som? Você nunca comentou e nem devolveu meu disco.

Que rola?

– Escutei. Bem legal...

– Bem legal? Tá louco? Aquilo é rock’n’roll, não é bem legal, é ducaralho.

– Foi o que eu quis dizer, Júnior.

– Então diga, porra! Você parece uma menina falando.

– Vai tomar no cu. Ducaralho, foda, pirei. Puta som do inferno!

– Mmmm... melhorou.

– Eu tenho uma guitarra.

– Quê? Fala mais alto, meu.

– Eu tenho uma guitarra!

– Tá falando sério? – perguntou Júnior, como se eu estivesse dizendo algo mági-co.

– Era da minha mãe, mas peguei pra mim.

– Da sua mãe? Ahahahah, que engraçado! Você sabe tocar?

– Nas últimas semanas eu aprendi uns acordes... até aprendi um riff do Alice.

Silêncio

– Você sabe tocar um riff do Alice?

– Sei. – Disse. – Quem manda aqui agora? – Pensei.

– Beleza, então você vai me mostrar isso hoje. Beleza?

Nesse momento pensei em mandar o Júnior tomar no cu, mas concluí que seria uma boa e rara oportunidade de estar por cima.

– Tá, depois da aula a gente vai até em casa que eu mostro.

– Ahahahah... não tô acreditando. Tomara que não seja uma bobeira sua.

– Não é.

Voltei para a minha carteira, que não era no fundão, ao contrário da do Júnior, e 25

fiquei sentado ali, olhando para a professora de matemática, que tinha uma cara de pardal superdesenvolvido. Ela estava falando algo sobre equações de segundo grau, mas minha mente estava no riff de guitarra, no Alice, no Júnior. Na vontade que eu tinha de mostrar praquele ladrão de namorada filho da puta de cabelo ensebado que eu sabia fazer algo melhor que ele.

– Essas equações são mais complexas porque a variável... – Piava a professora.

Olhei ligeiramente para meu lado direito onde eu sabia que encontraria Júlia. Ela estava olhando para mim.

Júlia era do tipo certinha, roupas arrumadinhas, cheirosa, boas notas, o orgulho da classe. Além disso, também era uma garota um pouco fechada, misteriosa. Parecia que escondia alguns dos seus sentimentos. Sentimentos esses que eu podia apostar que nada tinham a ver comigo e menos ainda com Júnior. Não sei explicar exatamente por que eu achava isso, mas tem coisas que a gente sente e não duvida. Aprendi com o tempo a acreditar nos meus instintos. É uma coisa lógica, científica. Se um cachorro tem o poder de prever que seu dono está voltando para casa quando ele ainda está a quilômetros de distância, não me chocaria descobrir que os humanos têm, mesmo que com menos sensibilidade, esse mesmo poder estranho. Ou posso estar sendo uma besta também concluindo isso, mas o fato é que naquele mato, sim, tinha coelho.

Aqueles olhos negros pregados em mim daquela maneira era uma coisa rara depois que o filho da puta ensebado começou a namorá-la. Eu derreti como uma vela acesa, mas não sorri. Ela era a número dois da minha lista de “personas non gratas”, a culpada por eu ter perdido um amigo querido, e por isso não merecia sorrisos.

– Aquela putinha. – pensei.

A aula foi bruscamente encerrada sob o som do alarme uivando nos corredores.

Dei um pulo da cadeira. Era o toque que avisava o fim da última aula.

Pensando no compromisso que eu teria de honrar, comecei a guardar meus cadernos demoradamente. Queria ser o último a sair.

– Oi!

Outro susto. Aquela voz tinha o poder de me atrair instantaneamente.

– Oi, Júlia. – respondi, simulando descaso. – O Júnior já saiu.

– Eu sei, queria falar com você. Você anda meio estranho.

– Estranho? Por quê?

Você não fala mais comigo... é por causa do Júnior? Fiquei pensando... ele te proi-biu? Eu não admitiria que...

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Quem era aquela vagabunda?! Achava que alguém podia me proibir? E, ainda mais, achava que para eu não falar mais com ela tinha que ser por um motivo alheio à minha vontade?

– Não, ele até vai lá em casa hoje. Não se preocupe, está tudo bem. Tô tranquilo.

– Quê?! Vai na sua casa? Fazer o quê?

– Júlia, estou meio atrasado, você pode perguntar pra ele depois.

– Pôxa, me conta...

– Ele te explica depois. Afinal, ele é o seu namorado e não eu. Ele te deve explicação e não eu. Ele te come, e não eu.

Aquele momento era ímpar, eu me senti o máximo por ter dito aquilo, mesmo depois de vê-la sair apressadamente sem saber o que dizer, humilhada. Eu, o idiota da classe, pegando pesado. Quem diria!

Júlia saiu indignada e isso tinha me deixado orgulhoso, porque, apesar da grosseria, eu tinha toda a razão.

O meu próximo passo seria medir os resultados dessas minhas atitudes. Eu mal podia esperar. Nos últimos dias eu tinha transformado minha vida num laboratório no qual todos tinham se tornado meras cobaias. Dia após dia eu as retirava de suas gaiolas, para aplicar em seus corpos doses de agressividade, indiferença ou quaisquer atitudes que fossem importantes para amparar as minhas novas teorias sociais.

Sai da classe ansioso, mas andei bem devagar pelos corredores até a saída – pensar que eu estava fazendo Júnior esperar por mim era ótimo.

O corredor principal era um túnel sem janelas, de cujas paredes brotavam portas destruidas pelo tempo e pelos pés de vândalos aprendizes que não eram raros ali. O

chão era de concreto cinza, frio na forma, na cor e na temperatura. Eu me sentia bem ali, principalmente nesse raro momento em que eu podia saborear uma inconsequência minha sem a interferência de ninguém.

Pouco antes do portão de saída, vi que Júlia, ainda chorando, conversava com a Cris. Quando passei por elas, notei que Cris olhava para mim, com um olhar de raiva.

Parecia que ela queria me socar. Pelo menos isso era melhor do que a costumeira indiferença com que ela me tratava. Não imaginei que a Júlia fosse ficar tão magoada. Não era pra tanto. Bom sinal.