Antologia por H.P. Lovecraft - Versão HTML

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Agradecemos, entre outros, aos sites

Sitelovecraft, Contos do Umbral e aos tradutores

Renato Suttana, Nicolau Saião, Denilson Carareto

e Mário Jorge Lailla Vargas, por disponibilizarem

material para a composição desta pequena

antologia.

Sumário

H

. P. LOVECRAFT (1890-1937)

.....................................................................

5

O

chamado de Cthulhu

................................................................. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .8

O

Caso de Charles Dexter Ward

.............................................................. . . . . . . . . . .44

D

agon

......................................................................................................... . . . . . . .189

N

as Montanhas da Loucura

..................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .197

O

Depoimento de Randolph Carter

......................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .322

O

Horror de Dunwich

............................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .329

O

Horror no Museu

....................................................................................... . . .380

U

m Sussurro nas Trevas

................................................................. . . . . . . . . . . . . . . . . .413

O

Festival

............................................................................................... . . . . . . . . . .492

A

Côr que Veio do Espaço

.................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .502

A

coisa na soleira da porta

........................................................................ . . . . . . .534

N

yarlathotep

............................................................................. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .564

A

Arvore

.................................................................................................. . . . . . . . . . .569

O

s Sonhos na Casa Assombrada

.............................................. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .575

A

Morte Alada

....................................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .618

O

que vem com a lua

...................................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . .646

O

s Outros Deuses

..................................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .649

A

Estampa da Casa Maldita

......................................................................... . . . .656

M

emória

..................................................................................................... . . . . . . .666

A

Transição de Juan Romero

...................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .668

V

ento Frio

.................................................................................................. . . . . . . .676

A

Música de Erich Zann

..................................................................... . . . . . . . . . . . . .686

O

Descendente

................................................................................. . . . . . . . . . . . . . . . . .695

A

procura de Iranon

.................................................................................. . . . . . . .699

O

Inominável

................................................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . .707

A

Tumba

................................................................................ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .716

O

Livro

............................................................................................. . . . . . . . . . . . . . . . . .728

O

Terrível Ancião

............................................................................ . . . . . . . . . . . . . . . . .732

O

diário de Alonzo Typer

......................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .736

A

Armadilha

.......................................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .758

O

Executor Elétrico

................................................................................... . . . . . . .781

O

Desafio do Além

........................................................................................ . . . .803

P

oesia e os Deuses

.................................................................................. . . . . . . . . . .822

O

s Fungos de Yuggoth

........................................................................ . . . . . . . . . . . . .830

F

echado na Catacumba

........................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .860

A

lgumas notas sobre algo não-existente

................................. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .872

N

otas Quanto a Escrever Ficção Fantástica

.................................................. .879

A

História do Necronomicon

...................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .884

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H. P. LOVECRAFT (1890-1937)

HOWARD PHILLIPS LOVECRAFT nasceu em 1890, em Providence,

Rhode Island, EUA; morreu em 1937, sem conseguir publicar nenhum de seus

livros, praticamente desconhecido e achando-se um fracasso total.

Hoje, é considerado um dos escritores mais originais do seu país, suas

obras conquistam aficionados pelo mundo todo, e em torno da sua memória

surgiu uma espécie de culto esotérico.

Tendo aberto novos campos de interesse no mundo da expressão

literária, chega a ser difícil catalogar sua literatura por gênero. Horror?

Ocultismo? Fantasia? Mitologia? Ficção científica? A obra de Lovecraft é um

pouco de tudo isso, e um tanto mais. Verdadeiro precursor do realismo

fantástico, teve entre seus admiradores gênios da estatura de Jorge Luis

Borges, que lhe dedicou um de seus contos.

"O maior escritor moderno da literatura insólita", foi como o classificou

categoricamente R. L. Russel.

H.P. Lovecraft foi um dos maiores escritores do gênero terror e

fantástico de todos os tempos. Ainda hoje, quase um século depois de sua

prematura morte, tem em figuras como Stephen King e Clive Barker seus

admiradores.

Teve uma vida simples do ponto de vista econômico, e de poucos

amigos.

Mas de uma correspondência espantosa, ao qual manifestava sua vida

social contida.

Ao longo destas correspondência e de seus escritos criou um conjunto

de histórias ao qual foi denominada "Mitos de Cthulhu", parte mais significativa

de sua obra.

Um conjunto de narrativas fantásticas sobre terror e ficção científica que

virou um grande mitologia.

Além de Lovecraft, muitos outros autores se juntaram a ele, nomes

como Robert E. Howard, Frank Belknap Long, Robert Block, Clark Ashton

Smith e outros; formando um círculo o "Círculo de Lovecraft".

Embora admirado por escritores famosos da época e outros amadores;

em vida não teve nenhum livro de capa dura publicado, apenas ensaios e

contos curtos em revistas populares da época como a "Wreid Tales" - que

posteriormente viria a ser muito reconhecida.

Apenas alguns anos depois de sua morte, August Derleth e Donald

Wandrei, amigos e admiradores de seu talento criaram uma editora, a "Arkham

House" que começou a popularizar o autor. Mas sua grande popularidade só

viria em meados da década de oitenta com RPG "Call of Cthulhu", baseado em

uma de suas obras.

H. P. Lovecraft é um exemplo extraordinário da literatura moderna.

Não pode ser considerado apenas um escritor de histórias de terror. Seus

livros e contos carregam uma carga fortíssima de fantasia e imaginação.

Suas principais influências são os gênios Edgar Al an Poe, Hoffmann e

Arthur Machen.

Em seus delírios literários, desfilam criaturas extraterrestres fantásticas,

cenários inacreditáveis, narrativas alucinantes e lendas de remontam de

tempos imemoriais. Lovercraft foi em vida, um homem realmente estranho.

Quase não tinha amigos e se comportava como um misantropo.

Foi um escritor compulsivo de cartas, com mais de 100 mil registradas

durante sua vida. Comparado ao talento imaginativo de Lewis Carrol e J.R.R.

Tolkein, Lovecraft morreu praticamente desconhecido do público e crítica.

Principais Obras:

"Um Sussurro nas Trevas",

"O Chamado de Cthulhu",

"Sombras Perdidas no Tempo",

"O Caso de Charles Dexter Ward",

"A Tumba", "Nas Montanhas da Loucura",

"À Procura de Kadath",

"A Maldição de Sarnath",

"Demônios de Randolph Carter" e

"História do Necronomicon".

O chamado de Cthulhu

(1926)

H. P. Lovecraft

É concebível que tais grandes poderes ou seres

tenham sobrevivido... sobrevivido de um passado

extremamente remoto, quando a consciência era

provavelmente manifestada em formas e contornos

surgidos muito antes do advento da espécie humana...

formas das quais somente a poesia e a lenda preservaram

uma tênue memória e chamaram-nas de deuses,

monstros, criaturas míticas das mais variadas espécies...

ALGERNON BLACKWOOD

I. O HORROR NA ARGILA

A coisa mais misericordiosa do mundo, creio eu, é a incapacidade da

mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. Vivemos numa plácida

ilha de ignorância em meio a negros mares de infinito, e não está escrito pela

Providência que devemos viajar longe. As ciências, cada uma progredindo em

sua própria direção, têm até agora nos causado pouco dano; mas um dia a

junção do conhecimento dissociado abrirá visões tão terríveis da realidade e de

nossa apavorante situação nela, que provavelmente ficaremos loucos por

causa dessa revelação ou fugiremos dessa luz mortal rumo à paz e à

segurança de uma nova Idade das Trevas.

Os teosofistas fizeram conjecturas sobre a apavorante imensidão do

ciclo cósmico, do qual nosso mundo e a raça humana constituem meros

incidentes transitórios. Eles aludiram a estranhas sobrevivências em termos

que congelariam o nosso sangue se não fossem mascarados por ameno

otimismo. Mas! não foi deles que veio o vislumbre das eras proibidas que me

arrepiam quando nelas penso e me enlouquecem quando com elas sonho; esse

vislumbre, como todos os pavorosos vislumbres da verdade, cintilou quando

juntei duas peças separadas no caso, uma velha notícia de jornal e as

anotações de um professor já falecido. Espero que ninguém mais venha a fazer

essa junção; com certeza, se eu viver, nunca fornecerei voluntariamente elo

algum de tão nefasta cadeia. Acho que o professor também pretendia guardar

segredo sobre a parte que ele conhecia, e que teria destruído suas anotações

se a morte súbita não o tivesse levado antes.

Meu conhecimento da coisa começou no inverno de 1926 a 1927 com a

morte do meu tio-avô, George Gamel Angel , professor emérito de línguas

semíticas da Universidade Brown, em Providence, Rhode Island. O professor

Angell gozava de grande renome como autoridade em inscrições antigas e a

ele recorriam com freqüência diretores de importantes museus, de modo que

seu falecimento, aos noventa e dois anos de idade, deve ser lembrado por

muitos. A nível local, esse interesse foi intensificado pela obscuridade da

causa mortes. O professor retornava do navio de Newport quando caiu de

repente, segundo testemunhas, após ter sido empurrado por um negro com

jeito de marinheiro, saído de um dos suspeitos e escuros pátios na encosta

íngreme que formava um atalho entre o cais e a casa do finado na rua Williams.

Os médicos foram incapazes de achar qualquer distúrbio visível, mas

concluíram, após perplexa discussão, que alguma obscura lesão cardíaca,

agravada pela subida brusca de tão íngreme colina por tão idoso homem, fora

responsável pelo óbito. Naquela época não vi motivo algum para discordar

desse diagnóstico, mas ultimamente sinto-me inclinado a questionar e mais do

que questionar.

Como herdeiro e executor do meu tio-avô, que morrera viúvo e sem

filhos, esperava-se que eu examinasse seus papéis cuidadosamente, e com

esse propósito levei todos os seus arquivos e caixas para minha residência

em Boston. Grande parte do material que organizei será publicado mais tarde

pela Sociedade Arqueológica Americana, mas havia uma caixa que eu achei

extremamente enigmática e que me senti um tanto avesso a mostrá-la a

outros olhos. Havia sido fechada com cadeado e não encontrei a chave até

que me ocorreu examinar o chaveiro pessoal que o professor levava sempre no

bolso. Consegui, de fato, abri-la, mas então pareceu-me que foi só para dar de

cara com outro segredo ainda maior e mais impermeável. Pois qual poderia ser

o significado do estranho baixo-relevo de argila e das esparsas anotações,

comentários e recortes que achei? Teria o meu tio, nos últimos anos de

vida, se tornado crédulo das mais superficiais imposturas? Resolvi que

procuraria o excêntrico escultor responsável por essa aparente perturbação da

paz de espírito de um velho.

O baixo-relevo era um tosco retângulo com menos de dois dedos de

espessura e uns doze a quinze centímetros de comprimento, obviamente de

origem moderna. O seu desenho, contudo, nada tinha de moderno na

atmosfera e no que sugeria; pois, embora os caprichos do cubismo e do

futurismo sejam muitos e desvairados, não reproduzem com freqüência aquela

regularidade críptica que se insinua na escrita pré-histórica. E a maior parte

daqueles desenhos com certeza parecia algum tipo de escrita, ainda que a

minha memória, bastante familiarizada com os papéis e coleções do meu tio,

não conseguisse identificá-la ou sequer suspeitar de suas afiliações mais

remotas.

Acima desses hieróglifos aparentes havia uma figura de evidente

intenção pictórica, embora sua execução impressionista impedisse uma idéia

muito clara de sua natureza. Parecia um tipo de monstro, ou de símbolo

representando um monstro, cuja forma só uma mente doentia poderia

conceber. Se eu disser que minha algo extravagante imaginação lhe atribuía

ao mesmo tempo os traços de um polvo, de um dragão e de uma caricatura

humana, não estarei sendo infiel ao espírito da coisa. Uma cabeça polpuda e

tentaculada encimava um corpo grotesco e escamoso dotado de asas

rudimentares; mas era o contorno geral do todo que chocava. Atrás da figura

havia uma vaga sugestão de cenário de arquitetura ciclópica.

Essa singularidade era acompanhada, além de uma pilha de recortes

de jornal, por escritos com a caligrafia mais recente do professor Angell, sem

qualquer pretensão a estilo literário. O que parecia ser o documento principal

tinha por título "CULTO DE CTHULHU" em letras de fôrma, para evitar a leitura

incorreta de palavra tão inaudita. Esse manuscrito estava dividido em duas

seções, a primeira das quais intitulada "1925 -Sonho e Interpretação do Sonho

de H. A. Wilcox, Rua Thomas, 7, Providence, R. L", e a segunda, "Narrativa do

Inspetor John R. Lagrasse, Rua Bienville, 121, Nova Orleans, La., na reunião

de 1908 da S. A. A. - Notas do Mesmo, & Relato do Prof. Webb". Todos os

demais manuscritos eram notas breves, sendo algumas delas relatos de sonhos

esquisitos de diferentes pessoas, citações de livros e revistas teosóficas

(principalmente de A Atlântlda e a Perdida Lemúria de W. Scott-Elliott) ou ainda

comentários sobre antiquíssimos e ainda remanescentes sociedades

secretas e cultos proibidos, com referências a trechos de compêndios de

mitologia e antropologia tais como O Ramo de Ouro, de James G. Frazer, e

Culto às Bruxas na Europa Ocidental, de Miss Murray. Os recortes referiam-se

basicamente a doenças mentais raras e surtos de alucinações coletivas na

primavera de 1925.

A primeira metade do manuscrito principal narrava uma estória muito

peculiar. Aparentemente no dia 1 ° de março de 1925, um moço magro,

moreno, de aspecto neurótico e excitado, visitou o professor Angell trazendo

consigo o singular baixo-relevo de argila, que estava então recente e úmido.

Seu cartão trazia o nome de Henry Anthony Wilcox e meu tio reconhecera-o

como o filho mais novo de uma excelente família que ele conhecia

superficialmente, e que estivera estudando escultura na Escola de Desenho de

Rhode Island e vivendo sozinho no edifício Fleur-de-Lys perto daquela

instituição. Wilcox era um jovem precoce de reconhecido talento porém

grande excentricidade, e desde a infância despertara atenção devido às

estórias esdrúxulas e aos sonhos bizarros que tinha o hábito de contar. Ele

chamava a si mesmo de "psiquicamente hipersensível", mas a gente

convencional da antiga cidade comercial considerava-o apenas "esquisitão".

Sem nunca se misturar muito com os seus, gradualmente afastara-se do

convívio social e só era conhecido de um pequeno grupo de estetas de outras

cidades. Mesmo o Clube de Arte de Providence, ansioso por preservar seu

conservadorismo, desistira de tê-lo entre seus membros.

Na ocasião da visita, continuava o manuscrito do professor, o

escultor pediu abruptamente a assistência do conhecimento arqueológico de

seu anfitrião para identificar os hieróglifos do baixo-relevo. Falava de um jeito

sonhador e afetado que denotava pose e alienação; e foi com certa rispidez

que meu tio respondeu-lhe, pois a notória frescura do tablete indicava relação

com tudo menos com arqueologia. A réplica do jovem Wilcox, que impressionou

meu tio o bastante para que este a recordasse e a registrasse textualmente, foi

feita num tom fantasticamente poético que deve ter caracterizado toda a sua

conversa e que desde então verifiquei ser bem próprio dele; ele disse:

"Realmente é novo, pois o fiz na noite passada durante um sonho que tive com

cidades estranhas; e sonhos são mais antigos do que a cismarenta Tiro, a

contemplativa Esfinge ou a Babilônia dos jardins suspensos."

Foi então que ele começou a narrativa desconexa que subitamente

despertou uma memória adormecida e conquistou o interesse febril do meu tio.

Um leve tremor de terra ocorrera na noite anterior, o mais intenso registrado

na Nova Inglaterra em anos, e afetara vivamente a imaginação de Wilcox.

Este, ao se recolher, tivera um sonho sem precedentes, com grandes cidades

ciclópicas de blocos titânicos e monólitos que alcançavam o céu, todos

gotejando lodo verde e impregnados de horror latente. Hieróglifos cobriam

as paredes e colunas, e de algum ponto indeterminado, abaixo, vinha uma

voz que não era uma voz, e sim uma sensação caótica que só a fantasia

poderia transmudar em som, mas que ele tentou traduzir num amontoado

quase impronunciável de letras: "Cthulhu fhtagn ".

Essa mixórdia verbal foi a chave para a lembrança que excitou e

perturbou o professor Angell. Ele interrogou o escultor com minúcia científica

e estudou com intensidade quase frenética o baixo-relevo no qual o rapaz se

encontrara trabalhando, enregelado e apenas com suas roupas de dormir,

quando acordou, atônito. Meu tio culpou sua velhice, Wilcox disse depois, por

sua demora em reconhecer tanto os hieróglifos quanto o desenho pictórico.

Muitas das perguntas dele pareceram altamente despropositadas ao visitante,

especialmente as que tentavam relacionar a figura com cultos ou sociedades

estranhas; e Wilcox não pôde compreender as repetidas promessas de

silêncio que recebeu em troca de sua confissão de ser membro de alguma

difundida irmandade mística ou pagã. Quando o professor Angell se

convenceu de que o escultor realmente desconhecia qualquer culto ou sistema

de ciência oculta, assediou seu visitante com pedidos de que viesse relatar-

lhe futuramente os sonhos que voltasse a ter. Isso deu frutos regulares, pois

após a primeira entrevista o manuscrito registra visitas diárias do rapaz,

durante as quais ele narrava fragmentos surpreendentes de sua imagística

noturna, centrada sempre num assustador panorama ciclópico de megalitos

escuros e gotej antes, com uma voz ou inteligência subterrânea clamando

monotonamente em enigmáticos impactos sensórios. Os dois sons mais

freqüentemente repetidos eram aqueles traduzidos pelas letras " Cthulhu " e

"R'lyeh ".

No dia 23 de março, continuava o manuscrito, Wilcox não apareceu; em

sua residência informaram que ele havia sido acometido por uma espécie

desconhecida de febre e levado para a casa de sua família na rua Waterman.

Havia gritado à noite, acordando vários outros artistas do prédio, e

manifestara desde então apenas alternações de inconsciência e delírio. Meu

tio telefonou imediatamente para a família, e a partir daí acompanhou o caso

de perto, indo muitas vezes ao consultório do Dr. Tobey, o médico

encarregado, na Rua Thayer. A mente febril do rapaz aparentemente

ocupava-se de coisas estranhíssimas, e o doutor de vez em quando

estremecia ao falar delas. Essas coisas não somente repetiam o que ele

sonhara antes, mas também incluíam uma coisa gigantesca "com milhas de

altura" que caminhava ou se movia. Em nenhum momento descrevera o objeto,

mas ocasionais palavras frenéticas, conforme repetidas pelo Dr. Tobey,

convenceram o professor de que devia tratar-se da inominável

monstruosidade que Wilcox procurara representar em sua escultura do sono.

Referências a esse objeto, acrescentou o doutor, eram invariavelmente

prelúdio à queda do rapaz na letargia. Sua temperatura, curiosamente, não

estava muito acima da normal; mas todo o seu estado parecia indicar antes

febre do que perturbação mental.

No dia 2 de abril, por volta das 3 da tarde, todos os sinais da

enfermidade de Wilcox desapareceram subitamente. Sentou-se empertigado

na cama, atônito por encontrar-se em casa e ignorando completamente o que

acontecera em sonho ou realidade desde a noite de 22 de março. Tendo

recebido alta do médico, voltou para o seu alojamento três dias depois; porém

não foi mais de nenhuma serventia para o professor Angell. Todos os

vestígios de sonhos bizarros haviam desaparecido com a convalescença, e

meu tio não registrou mais seus sonhos após uma semana de relatos inúteis

e irrelevantes de visões absolutamente normais.

Neste ponto terminava a primeira parte do manuscrito, mas referências a

algumas das anotações dispersas deram-me muito o que pensar, tanto, na

verdade, que somente o enraizado ceticismo que então constituía minha

filosofia pode explicar o fato de que eu continuava duvidando do artista. As

anotações em questão eram aquelas que descreviam os sonhos de várias

pessoas durante o mesmo período em que o jovem Wilcox tivera as suas

estranhas visões. Meu tio, ao que parece, havia rapidamente organizado um

esquema prodigiosamente amplo de investigação entre quase todos os amigos

que podia interrogar sem impertinência, pedindo-lhes relatos de seus sonhos

de todas as noites e datas de quaisquer visões incomuns a partir de certo dia.

A receptividade ao seu pedido parece ter variado; mas ele deve ter recebido,

no mínimo, mais respostas do que um homem normal poderia dar conta sem

uma secretária. Essa correspondência original não foi preservada, porém suas

anotações constituíam um resumo abrangente e realmente significativo dela. As

pessoas comuns da sociedade e do mundo dos negócios o tradicional "sal da

terra" da Nova Inglaterra - deram um resultado quase completamente negativo,

embora casos esparsos de impressões noturnas desagradáveis mas

indefinidas apareçam aqui e ali, sempre entre 23 de março e 2 de abril - o

período de delírio do jovem Wilcox. Os homens de ciência não foram afetados

em grau muito maior, apesar de quatro casos de descrição vaga sugerirem

vislumbres fugazes de paisagens estrambóticas, e de um caso mencionar certo

pavor de algo anormal.

Foi dos artistas e poetas que as respostas pertinentes vieram, e tenho

certeza de que o pânico teria se instaurado se eles tivessem podido comparar

as anotações. Como eu não tinha as cartas originais, meio que suspeitei que o

compilador houvesse feito perguntas tendenciosas ou organizado a

correspondência em concordância com o que ele havia latentemente resolvido

ver. Por essa razão continuei a achar que Wilcox, tendo tomado conhecimento

das informações que o meu tio possuía, estivera pregando uma peça no

veterano cientista. Essas respostas de estetas contavam uma história

perturbadora. Entre 28 de fevereiro e 2 de abril uma grande proporção deles

havia sonhado com coisas bizarras, sonhos cuja intensidade era

incomensuravelmente maior durante o período do delírio do escultor. Cerca de

um quarto das respostas falava de cenas e de sons que nada diferiam dos que

Wilcox descrevera, e alguns desses sonhadores confessaram um medo agudo

da coisa gigantesca e inominável visível no final. Um dos casos, que a

anotação descreve com particular ênfase, era seríssimo. O indivíduo em

questão, um arquiteto de grande renome, inclinado à teosofia e ao ocultismo,

foi acometido de loucura violenta na data da crise do jovem Wilcox, e expirou

vários meses mais tarde após gritar incessantemente que o salvassem das

garras de uma besta que escapara do inferno. Se o meu tio tivesse se referido

a esses casos por nome e não apenas por número, eu teria tentado obter

alguma corroboração e feito alguma investigação pessoal; do jeito que estava,

consegui localizar somente uns poucos missivistas. Todos estes, no entanto,

confirmaram as anotações plenamente. Muitas vezes tenho me perguntado se

todas as pessoas interrogadas pelo professor se sentiram tão perplexas

quanto aquele grupo. Sorte deles nunca terem recebido explicação nenhuma.

Os recortes de jornal, como já disse, mencionavam casos de pânico,

manias e excentricidades ocorridos durante o período em questão. O professor

Angel deve ter empregado um escritório especializado na coleta de recortes,

pois o número de artigos era tremendo, e as fontes espalhavam-se por todo o

planeta. Um recorte falava de um suicídio noturno em Londres, onde um

sonâmbulo pulara de uma janela após um grito lancinante. Outro consistia

numa carta desconexa ao editor de um jornal na América do Sul, em que um

fanático, baseado em visões que tivera, predizia um futuro calamitoso. Um

despacho da Califórnia descrevia uma colônia de teosofistas envergando em

massa túnicas brancas à espera de certo "glorioso advento" que nunca

chegava, ao passo que notícias da índia falavam reservadamente sobre graves

tumultos nativos por volta do fim de março. Orgias de vodu multiplicaram-se no

Haiti e postos avançados na África reportaram murmúrios agourentos. Oficiais

norte-americanos nas Filipinas encontraram hostilidade por parte de certas

tribos nessa época e policiais de Nova Iorque foram atacados por multidões de

levantinos histéricos na noite de 22 para 23 de março. O oeste da Irlanda

também foi infestado de rumores inacreditáveis e lendas, e um pintor

fantástico chamado Ardois-Bonnot exibiu um delirante quadro intitulado

Paísagem Onírica no salão de primavera de Paris de 1926.E tão numerosos

são os tumultos registrados em hospícios que só por milagre a fraternidade

médica deixou de notar estranhos paralelismos e tirar conclusões mistificadas.

Em suma, um surpreendente punhado de recortes, e é com assombro que

me lembro hoje do empedernido racionalismo com que os pus de lado. Mas

eu estava então convencido de que o jovem Wilcox tivera conhecimento dos

assuntos antigos mencionados pelo professor.

II. O RELATO DO INSPETOR LEGRASSE

Os assuntos antigos que haviam feito o sonho e o baixo-relevo do

escultor tão significativos para o meu tio constituíam o tema da segunda

metade do seu longo manuscrito. Parece que anteriormente o professor

Angell tinha visto uma vez os contornos infernais da inominada

monstruosidade, confundira-se diante dos hieróglifos desconhecidos e

escutara as agourentas sílabas que só podem ser grafadas como "Cthulhu";

e tudo isso interligado de forma tão espantosa e horrível, que não é de

admirar que tenha perseguido o jovem Wilcox com perguntas e exigências

de informações.

Essa prévia experiência ocorrera em 1908, dezessete anos antes,

quando a Sociedade Arqueológica Americana realizou seu encontro anual

em Saint Louis. O professor Angell, como convinha a alguém de sua

autoridade e realizações, tivera um papel proeminente em todas as

deliberações, e foi um dos primeiros a serem abordados por diversos leigos que

aproveitaram a oportunidade para fazer perguntas e pedir opinião de peritos

sobre certos problemas.

O principal desses leigos, que em breve se tornaria o foco de interesse

de toda a reunião, foi um homem de meia-idade e aparência convencional que

tinha viajado desde Nova Orleans para obter certa informação especial

impossível de obter de qualquer fonte local. Seu nome era John Raymond

Legrasse e sua profissão era a de inspetor de polícia. Trazia com ele a razão

de sua visita, uma grotesca, repulsiva e aparentemente antiquíssima

estatueta de pedra cuja origem não conseguia determinar.

Não se deve imaginar que o inspetor Legrasse tivesse o menor interesse

em arqueologia; ao contrário, seu desejo de esclarecimento era movido por

considerações puramente profissionais. A estatueta, ídolo, fetiche ou o que

quer que fosse, fora capturada alguns meses antes nas florestas pantanosas do

sul de Nova Orleans durante uma batida policial num suposto culto de vodu; e

tão singulares e medonhos eram os ritos ligados à peça, que a polícia de

imediato percebeu que dera de cara com um culto sinistro totalmente

desconhecido para eles e infinitamente mais diabólico que o mais negro dos

círculos africanos de vodu. Sobre a sua origem, além das estórias esdrúxulas e

inacreditáveis arrancadas aos membros capturados, absolutamente nada pôde

ser descoberto. Daí a ansiedade da polícia por qualquer conhecimento de

coisas antigas que pudesse ajudá-la a identificar o símbolo aterrador e, através

dele, descobrir a fonte daquele culto.

O inspetor Legrasse não estava de forma alguma preparado para a

sensação que a sua intervenção causou. Um simples olhar ao objeto fora

suficiente para lançar os homens de ciência ali reunidos num estado de tensa

excitação, e eles não perderam tempo em se amontoar ao redor dele para

encarar de perto a diminuta imagem cuja profunda estranheza e aparência de

antigüidade genuína e abismal indicavam panoramas arcaicos ainda por

revelar. Nenhuma escola conhecida de escultura animara aquele terrível

objeto, e no entanto séculos, até milênios pareciam gravados em sua baça e

esverdeada superfície de pedra não identificada.

A imagem, que foi finalmente passada devagar de mão em mão para

exame mais atento e cuidadoso, tinha entre quinze e dezoito centímetros de

altura e era de elaborado artesanato. Representava um monstro vagamente

antropóide, mas com uma cabeça semelhante à de um polvo e cujo rosto era

uma massa de tentáculos, de corpo escamoso com aspecto elástico,

prodigiosas garras nas patas dianteiras e traseiras, e asas longas e estreitas

atrás. Essa coisa, que parecia imbuída de assustadora e inatural malignidade,

tinha uma corpulência algo intumescida e estava agachada ameaçadoramente

sobre um bloco retangular ou pedestal coberto de caracteres indecifráveis. As

pontas das asas tocavam a beirada traseira do bloco, o assento ocupava o

centro e as compridas e recurvadas garras das patas traseiras dobradas sobre

si mesmas, agarravam a beirada dianteira e estendiam-se por um quarto da

altura do pedestal. A cabeça cefalópode estava inclinada para frente, de

modo que as extremidades dos tentáculos faciais varriam as costas das

maciças patas dianteiras que agarravam os joelhos dos membros traseiros. 0

aspecto geral era anormalmente vivido, e ainda mais sutilmente assustador

pelo fato de sua origem ser totalmente desconhecida. Embora sua vasta,

espantosa e incalculável antigüidade fosse inegável, a estatueta não

apresentava ligação com nenhum tipo de arte pertencente à mocidade da

civilização, ou, na verdade, a qualquer época.

O seu próprio material era um mistério, pois a pedra lisa e negro-

esverdeada com pintas douradas ou iridescentes e estrias não se assemelhava

a nada familiar à geologia ou à mineralogia. Os caracteres ao longo da base

eram igualmente intrigantes, e nenhum dos cientistas ali presentes, apesar de

representarem metade do conhecimento mundial nesse campo, teve a menor

noção sequer da mais remota filiação lingüística deles. Tal como o tema e o

material, esses caracteres pertenciam a alguma coisa horrivelmente distante e

alheia à humanidade como a conhecemos, algo que sugeria de forma

assustadora antigos e profanos ciclos de vida dos quais nosso mundo e nossas

concepções não fazem parte.

No entanto, enquanto os vários cientistas balançavam a cabeça e

admitiam-se derrotados perante o enigma trazido pelo inspetor, havia na

reunião um homem a quem pareceram estranhamente familiares aquelas

monstruosas forma e escrita, e que então falou com certa hesitação do pouco

que sabia a respeito. Ele era o falecido William Channing Webb, professor de

antropologia na Universidade de Princeton e explorador de considerável

renome.

O professor Webb participara, quarenta e oito anos antes, de uma

expedição à Groenlândia e à Islândia em busca de inscrições rúnicas, que não

conseguiu achar; e ao percorrer a costa oeste da Groenlândia havia encontrado

uma singular tribo de esquimós degenerados cuja religião, uma curiosa forma

de culto ao diabo, provocou-lhe calafrios com sua repelência e deliberada sede

de sangue. Tratava-se de um credo do qual os outros esquimós pouco sabiam,

e que só mencionavam com estremecimentos de horror, dizendo que vinha de

eras terrivelmente antigas, anteriores à criação do mundo. Além de ritos

inenarráveis e sacrifícios humanos, havia alguns esquisitos rituais hereditários

dirigidos a um supremo diabo ancião ou tornasuk, dos quais o professor

Webb fizera uma cuidadosa transcrição fonética com a ajuda de um idoso

angekok ou bruxo-sacerdote, grafando os sons em caracteres romanos o

melhor que pôde. Porém, o que mais interessava era o fetiche que esse culto

idolatrava e em torno do qual dançavam quando a aurora boreal lambia os

picos gelados. Segundo declarou o professor, tratava-se de um tosco baixo

relevo de pedra que compreendia uma figura medonha e algumas inscrições

crípticas; e, até onde podia afirmar, coincidia, nos aspectos essenciais, com a

coisa bestial que se tornara centro das atenções na reunião.

Essas informações, recebidas com assombro e emoção pelos presentes

à reunião, foram ainda mais emocionantes para o inspetor Legrasse, que

imediatamente começou a assediar o seu informante com perguntas. Tendo

anotado e transcrito um ritual oral entre os sectários brejeiros que seus

homens haviam prendido, pediu ao professor que procurasse lembrar o

melhor que pudesse das sílabas anotadas entre os esquimós diabolistas.

Seguiu-se então uma exaustiva comparação de detalhes e um momento de

boquiaberto silêncio, quando tanto o detetive quanto o cientista concordaram

na identidade virtual da frase comum aos dois ritos infernais tão distantes um

do outro como se pertencessem a mundos diferentes. O que, essencialmente,

tanto os bruxos esquimós quanto os sacerdotes brejeiros da Louisiana

entoavam aos seus ídolos era algo semelhante ao que vai abaixo, sendo as

divisões entre palavras supostas por analogia com as quebras tradicionais na

frase quando cantada em voz alta:

"Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'naglfhtagn."

Nesse ponto Legrasse levava vantagem sobre o professor Webb, pois

vários dos seus prisioneiros mestiços haviam-lhe repetido o que celebrantes

mais velhos haviam-lhes dito sobre o significado dessas palavras. Esse texto

dizia mais ou menos o seguinte:

"Na sua casa em R'lyeh, Cthulhu morto espera sonhando."

Então, em resposta às urgentes solicitações de todos, o inspetor

Legrasse narrou, tão detalhadamente quanto possível, sua experiência com os

idólatras dos pântanos, contando uma estória à qual pude ver que o meu tio

atribuía enorme importância. Fazia lembrar os sonhos mais desvairados dos

mitômanos e teosofistas, além de revelar um grau surpreendente de

imaginação cósmica, que nunca se esperaria entre aqueles marginais e

párias da sociedade.

No dia 1 ° de novembro de 1907 chegara à polícia de Nova Orleans

um chamado frenético da região de pântanos e lagoas ao sul. Os grileiros

de lá, na maioria descendentes primitivos, mas de boa índole, dos homens de

Lafitte, estavam tomados do mais absoluto pânico por causa de uma coisa

desconhecida que viera sobre eles à noite. Tratava-se de vodu, aparentemente,

mas de uma espécie de vodu muito mais terrível do que qualquer outra que já

tinham visto; e algumas de suas mulheres e crianças haviam desaparecido

desde que o malévolo tantã começara a bater incessantemente bem para

dentro das sombrias florestas, onde nenhum morador da região se aventurava.

Ouviam-se gritos insanos e berros apavorantes, cânticos que gelavam o

sangue e chamas demoníacas que bruxuleavam; e ninguém mais

suportava aquilo, acrescentou o assustado mensageiro.

Então um grupo de vinte policiais, em duas carruagens e um

automóvel, havia partido no Fim da tarde com o trêmulo grileiro como guia.

No fim da estrada transitável desceram e chapinharam por milhas em

silêncio, em meio aos terríveis bosques de ciprestes onde nunca raiava o dia.

Medonhas raízes e malignas barbas-de-velho dificultavam a caminhada, e

de vez em quando uma pilha de pedras úmidas ou fragmentos de uma

parede apodrecida intensificavam, com sua sugestão de povoação sórdida,

uma angústia que cada árvore mal formada e a profusão de fungos contribuía

para criar. Por fim, a aldeia dos grileiros, um ajuntamento miserável de cabanas,

ficou à vista, e moradores histéricos acorreram para refugiar-se em volta do

grupo de lanternas balouçantes. O som abafado dos tantãs já se ouvia ao

longe, bem longe; e um grito agudo como um guincho vinha em intervalos

desiguais quando o vento mudava de direção. Também um clarão

avermelhado parecia filtrar-se através da pálida vegetação rasteira, oriundo de

avenidas intermináveis de noite selvagem. Todos os assustados grileiros

recusaram-se terminantemente a dar um passo sequer rumo àquele culto ímpio,

de modo que o inspetor Legrasse e seus dezenove colegas embrenharam-se

sem guia nas arcadas negras de terror pelas quais nenhum deles jamais

passara antes.

A região em que agora se aventuravam os policiais era

tradicionalmente de má reputação, desconhecida e inexplorada pelos

brancos. Corriam lendas sobre um lago oculto nunca contemplado por mortais,

no qual vivia uma gigantesca e disforme criatura poliposa branca com olhos

luminosos; e os grileiros sussurravam que diabos com asas de morcego

voavam para fora de cavernas nas entranhas da terra à meia-noite para

adorar aquele ser. Diziam que ele estivera lá antes de D'Iberville, antes de La

Salle, antes dos índios e antes mesmo dos saudáveis animais e pássaros

das florestas. A criatura era o pesadelo encarnado e vê-la significava morrer.

Mas também fazia os homens sonharem, por isso sabiam que deviam manter-

se afastados. A atual orgia vodu ocorria, de fato, no limite daquela área

amaldiçoada, daí o próprio local do culto ter talvez aterrorizado os grileiros

mais do que os sons chocantes e os incidentes.

Só a poesia ou a loucura poderiam descrever fielmente os barulhos

ouvidos pelos homens de Legrasse ao avançarem pelos atoleiros negros rumo

ao clarão vermelho e aos tantãs abafados. Existem sons característicos de

homens e característicos de bestas, e é pavoroso escutar um quando a fonte

deveria produzir o outro. A fúria animal e a licenciosidade orgiástica ali eram

atiçadas a níveis demoníacos por uivos e êxtases guinchantes que

reverberavam por aqueles bosques cobertos de noite como tempestades

pestilenciais emanadas dos abismos do inferno. De vez em quando as

ululações menos organizadas cessavam, e do que parecia um coro bem

treinado de vozes roucas, elevava-se como uma ladainha aquela frase ou ritual

nefando:

"Ph'nglul' mglw'nafh Cthulhu R'lych wgah'naglfhtagn. "

Foi então que os homens, tendo alcançado um local onde as árvores

eram mais finas, de repente avistaram o próprio espetáculo. Quatro deles

cambalearam, um desfaleceu e dois emitiram um grito frenético que a louca

cacofonia da orgia afortunadamente encobriu. Legrasse jogou água do

pântano no rosto do homem desmaiado e todos ficaram trêmulos e quase

hipnotizados de horror.

Numa clareira natural do pântano havia uma ilha de relva com cerca de

meio hectare, sem árvores e toleravelmente seca. Nela saltava e se retorcia

uma indescritível horda de anormalidade humana, que só um Sime ou um

Angarola poderiam pintar. Sem roupa alguma, aquelas criaturas híbridas

zurravam, berravam e se contorciam ao redor de uma monstruosa fogueira

circular, no meio da qual erguia-se, revelado por ocasionais frestas na cortina

de chamas, um imponente monólito de granito com uns dois metros e meio de

altura; em cima dele, numa pequenez incongruente, jazia a nefasta estatueta.

De um amplo círculo de dez cadafalsos dispostos a intervalos regulares, com o

monólito cingido de chamas ao centro, pendiam de ponta-cabeça os corpos

atrozmente mutilados dos indefesos grileiros que haviam desaparecido. Era

dentro desse círculo que a roda de adoradores pulava e rugia da esquerda para

a direita numa bacanal sem fim entre o anel de cadáveres e o anel de fogo.

Pode ter sido só imaginação, como podem ter sido apenas ecos, que

induziram um dos homens, um excitável hispânico, a julgar ter ouvido

respostas antifonais ao ritual, vindas de um distante e penumbroso ponto no

fundo da floresta de antigas lendas e horrores. Mais tarde encontrei e

interroguei esse homem, Joseph D. Galvez, que mostrou ter uma imaginação

delirante; de fato, ele chegou ao extremo de sugerir ter escutado um leve rufiar

de grandes asas e vislumbrado olhos fulgurantes bem como um montanhoso

vulto branco além das árvores remotas mas eu suponho que ele andara

assimilando muita superstição local.

Na verdade, a pausa horrorizada dos homens foi de duração

relativamente curta. O dever vinha em primeiro lugar; e embora houvesse

quase cem celebrantes naquela horda, a polícia confiou em suas armas de

fogo e investiu resolutamente contra a nauseante turba. Por cinco minutos o

alarido e o caos resultantes foram indescritíveis. Golpes selvagens foram

vibrados, tiros foram disparados e fugas ocorreram, mas no final Legrasse

pôde contar uns quarenta e sete soturnos prisioneiros, os quais forçou a

vestirem-se depressa e formar uma fila entre duas fileiras de policiais. Cinco

dos adoradores jaziam mortos e dois gravemente feridos foram carregados em

padiolas improvisadas por seus camaradas. A imagem sobre o monólito foi,

é lógico, cuidadosamente removida e levada embora por Legrasse.

Interrogados na chefatura de polícia após uma jornada tensa e

extenuante, verificou-se que todos os prisioneiros eram de classe social

ínfima, mestiços e mentalmente perturbados. A maioria era de marinheiros, e

um magote de negros e mulatos, quase todos das índias Ocidentais ou

portugueses das ilhas de Cabo Verde, dava uma tintura de vodu ao culto

heterogêneo. Antes, porém, que muitas perguntas fossem feitas, ficou claro

que se tratava de algo muito mais profundo e antigo do que o fetichismo negro.

Degradadas e ignorantes que eram, aquelas criaturas atinham-se com

surpreendente consistência à idéia central de seu credo abominável.

Eles adoravam, segundo disseram, os Grandes Antigos, que viveram

muitas eras antes da existência do homem e que chegaram ao recém-criado

mundo vindos do céu. Esses Antigos haviam agora desaparecido no interior

da terra e sob o mar; porém, mesmo mortos, haviam transmitido seus segredos

em sonhos ao primeiro homem, que instaurou um culto que jamais morrera.

Era esse o culto que professavam, e os prisioneiros afirmaram que ele

sempre existira e sempre existiria, oculto em distantes locais desertos e

sombrios por todo o mundo, até o tempo em que o sumo sacerdote Cthulhu,

de sua escura morada na poderosa cidade de R'lyeh, sob as águas do mar,

se levantasse e pusesse de novo a terra sob seu domínio. Um dia ele

chamaria, quando as estrelas estivessem prontas, e o culto secreto estaria

sempre à espera para libertá-lo.

Até lá, nada mais seria dito. Havia um segredo que nem a tortura

poderia extrair. A humanidade não estava de forma alguma sozinha entre os

seres conscientes da terra, pois formas saíam das trevas para visitar os

poucos fiéis. Mas esses não eram os Grandes Antigos. Nenhum homem

jamais vira os Antigos. O ídolo esculpido representava o grande Cthulhu,

mas ninguém poderia dizer se os outros eram ou não exatamente como ele.

Ninguém era capaz hoje em dia de ler a antiga escrita, porém as coisas eram

transmitidas por tradição oral. O cântico ritual não era o segredo - este nunca

era falado em voz alta, apenas sussurrado. O cântico significava apenas isto:

"Na sua casa em R'lyeh, Cthulhu morto espera sonhando".

Apenas dois dos prisioneiros foram considerados sãos o bastante para

serem enforcados; os demais foram internados em diversas instituições. Todos

negaram participação nos assassinatos rituais e asseveraram que estes

haviam sido obra dos Asas Negras, que tinham vindo a eles oriundos do

seu imemorial ponto de encontro na floresta assombrada. Mas desses

misteriosos aliados nenhum relato coerente pôde ser obtido. A maior parte do

que a polícia conseguiu averiguar veio de um mestiço fabulosamente idoso

chamado Castro, que afirmava ter viajado a portos longínquos e falado com

líderes imortais do culto nas montanhas da China.

O velho Castro recordava-se de fragmentos de medonhas lendas que

empalideciam as especulações dos teosofistas e faziam homem e mundo

parecerem recentes e efêmeros. Houve épocas em que outros Seres

dominavam a terra, e Eles haviam erigido cidades colossais. De acordo com o

que os chineses imortais lhe haviam dito, vestígios desses Seres podiam ainda

ser encontrados nas rochas ciclópicas em ilhas do Pacífico. Todos Eles haviam

morrido muitas eras antes da chegada do homem, mas havia artes capazes de

fazê-los reviver quando as estrelas retornassem às posições certas no ciclo

da eternidade. Eles mesmos tinham vindo das estrelas e trazido consigo Suas

imagens.

Esses Grandes Antigos, prosseguiu Castro, não se compunham

inteiramente de carne e ossos. Tinham forma - não o provava aquela imagem

talhada nas estrelas? -, mas essa forma não era feita de matéria. Quando as

estrelas assumiam a configuração correta, Eles podiam transportar-se de um

mundo para outro pelo espaço sideral; mas quando as estrelas não eram

favoráveis, Eles não podiam viver. Contudo, embora já não vivessem, Eles

nunca verdadeiramente morriam. Jaziam todos em suas moradas de pedra na

grande cidade de R'lyeh, preservados pelos encantamentos do poderoso

Cthulhu para uma gloriosa ressurreição quando as estrelas e a terra

estivessem mais uma vez prontas para Eles. Chegado esse tempo, porém,

alguma força exterior precisaria liberar Seus corpos. Os encantamentos que

Os preservavam intactos também Os impediam de fazer o movimento inicial, e

tudo que podiam fazer era ficar despertos nas trevas e meditar, enquanto

milhões de anos se escoavam. Sabiam de tudo o que acontecia no universo,

pois comunicavam-se por telepatia. Mesmo naquele instante conversavam em

Suas tumbas. Quando, após infindáveis eras de caos o primeiro homem surgiu,

os Grandes Antigos falaram aos mais sensíveis dentre eles dando forma aos

seus sonhos, pois só assim Sua linguagem conseguia alcançar as mentes

carnosas dos mamíferos.

Em seguida, sussurrou Castro, aqueles primeiros homens formaram o

culto ao redor de pequenos ídolos que os Grandes lhes haviam mostrado,

ídolos trazidos de estrelas sombrias na noite dos tempos. Aquele culto jamais

morreria até que as estrelas ficassem propícias de novo, e então os

sacerdotes secretos tirariam o grande Cthulhu da Sua tumba para que Este

fizesse reviver os Seus súditos e retomasse o Seu domínio sobre a terra. O

tempo seria fácil de reconhecer, pois por essa época a humanidade já teria se

tornado como os Grandes Antigos: livres, selvagens, além do bem e do mal,

ignorando leis e preceitos morais, com todo mundo gritando, matando e

farreando em meio a feroz alegria. Então os Antigos, libertados, ensinar-lhes-

iam novas formas de berrar e matar e farrear com alegria desenfreada, e toda a

terra se inflamaria num holocausto de êxtase e liberdade. Até lá, cabia ao culto,

mediante ritos apropriados, manter viva a memória daqueles procedimentos

antediluvianos e prefigurar a profecia da volta d'Eles.

Em priscas eras homens eleitos haviam falado com os sepultados

Antigos em sonhos, mas então algo acontecera: a grande cidade de pedra de

R'lyeh, com seus monólitos e sepulcros, afundara sob as ondas, e as águas

profundas, repletas do único mistério primordial que nem o pensamento pode

atravessar, haviam interrompido o intercâmbio espectral. Mas a memória nunca

morreu, e os sumos sacerdotes diziam que a cidade emergiria de novo quando

as estrelas se alinhassem corretamente. Então vieram das profundezas da

terra os seus espíritos negros, bolorentos e trevosos, cheios de rumores

ancestrais colhidos em cavernas sob esquecidos leitos oceânicos. Mas deles

o velho Castro não ousou falar muito. Calou-se apressadamente, e não

houve persuasão ou sutileza capaz de extrair-lhe mais informações sobre o

assunto. Curiosamente, evitou também mencionar o tamanho dos Antigos. A

respeito do culto, afirmou crer que sua sede ficava nos desertos inacessíveis

da Arábia, onde Irem, a Cidade dos Pilares, sonha oculta e intacta. Não tinha

relação com os cultos de bruxaria europeus e, exceto por seus membros, era

virtualmente desconhecido. Nenhum livro jamais aludiu diretamente a ele,

embora os chineses imortais dissessem que havia duplos sentidos no

Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred, que os iniciados poderiam

interpretar como quisessem, especialmente o polêmico dístico:

Não está morto o que pode eternamente jazer, E com estranhas eras

pode até a morte morrer.

Legrasse, bastante impressionado e não pouco estupefato, havia

investigado em vão sobre as afiliações históricas do culto. Aparentemente

Castro dissera a verdade ao afirmar que era totalmente secreto. As

autoridades da Universidade de Tulane não puderam dar esclarecimento

algum tanto a respeito do culto quanto da imagem, e agora o detetive viera

consultar as maiores autoridades do país, sem nada obter além da estória da

Groenlândia contada pelo professor Webb.

O interesse febril despertado na reunião por Legrasse e sua narrativa,

corroborada pela estatueta, encontra eco na subseqüente correspondência

dos que estavam presentes, embora haja escassa menção ao incidente na

publicação formal da sociedade. Cautela é a preocupação máxima daqueles

que estão acostumados à charlatanice e impostura ocasionais. Legrasse

emprestou a imagem por algum tempo ao professor Webb, mas com a morte

deste, foi-lhe devolvida e com ele permanecia quando a vi, não faz muito

tempo. É uma coisa verdadeiramente medonha, e inequivocamente

aparentada à escultura sonhada e esculpida pelo jovem Wilcox.

Não me surpreendeu que a narrativa do escultor tivesse alvoroçado o

meu tio, pois que idéias poderiam ocorrer-lhe, após saber o que Legrasse

descobrira sobre o culto, ao ouvir um rapaz sensível dizer-lhe que sonhara

não somente a figura e os hieróglifos exatos da imagem encontrada no

pântano e do demoníaco baixo-relevo da Groenlândia, como também escutara

em seus sonhos pelo menos três das palavras precisas da fórmula emitida

tanto pelos diabolistas esquimós quanto pelos mestiços da Louisiana? Foi a

coisa mais natural que o professor Angel iniciasse uma investigação

aprofundada, ainda que eu privadamente suspeitasse que o jovem Wilcox

ouvira falar do culto de maneira indireta e tivesse inventado uma série de

sonhos para intensificar e manter o mistério, às custas do meu tio. As

narrativas de sonhos e os recortes coletados pelo professor eram, é claro,

forte corroboração; mas o meu racionalismo e a extravagância da coisa toda

levaram-me a adotar o que julguei ser a conclusão mais sensata. Assim, depois