VIP Membership

Apartamento do amor por L P Baçan - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
index-1_1.jpg

index-1_2.jpg

Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

CAPÍTULO 1

Rony Anderson desceu do carro e consultou o endereço. Não restava a menor dúvida, aquele era o prédio. Ele olhou ao seu redor.

A Park Avenue, naquele ponto, era pontilhada de prédios luxuosos de apartamento. Ele pendeu a cabeça para trás, acompanhando os andares.

Ao fim daquela massa de concreto, o negrume da noite. Lá em cima, dominando a cidade, estava o elegante apartamento de cobertura.

Rony tentou imaginar o tipo de garota que encontraria lá, mas não podia ter a menor idéia disso. Sabia apenas que deveria ser muito atraente para haver fascinado tanto Jean Paul John.

Roy detestava o que teria de fazer. Como se tratava de uma ordem, não havia como recusar. Jean Paul não admitia recusas.

Ele empurrou a enorme e pesada porta de vidro, caminhou lentamente na direção do elevador. Com suave zumbido e aquela sensação de vazio no estômago, sentiu-se elevar mais e mais.

— Quem é você? — indagou a loura incrivelmente jovem que abriu a porta.

— Jill Lyndon? — indagou ele.

— Sim, eu mesma.

— O Sr. Jean Paul me mandou...

A garota sorriu com ironia, afastando-se da porta para que ele entrasse. Roy aspirou uma nuvem delicada de perfume, capaz de transformar os sentidos do homem mais insensível.

Jill vestia um negligé vaporoso e branco, que lhe dava um aspecto graciosos e realçava o brilho de seus cabelos curtos e ligeiramente encaracolados.

— Então é um menino de recados de Jean Paul — ironizou ela, caminhando até o bar e apanhando o copo.

Roy se sentia terrivelmente embaraçado e, ao mesmo tempo, fascinado por aquela garota, capaz de entregar sua juventude a um velho como Jean Paul.

Sabia porque ela fazia aquilo. A resposta estava dentro da maleta que ele trazia nas mãos.

— Quer beber alguma coisa. Sirva-se — disse ela, indo se sentar languidamente no amplo sofá.

Roy deixou a maleta sobre a poltrona e foi até o bar. Achou que uma dose de uísque talvez pudesse lhe trazer de volta a calma.

Tomou um gole, antes de retornar à poltrona. Jill flexionou um dos joelhos propositadamente. O negligé escorregou lentamente, deixando à mostra carnes bronzeadas e firmes.

Era uma bela mulher e provocante garota. Roy podia entender a paixão desmedida de Jean Paul.

— Você a trouxe? — quis saber ela.

— Sim — respondeu ele, abrindo a maleta.

— Por que ele não trouxe isso pessoalmente?

— Jean Paul não faz nada que não possa pagar para que alguém faça — disse Roy, arrependendo-se em seguida.

Jill pareceu perceber o tom humilhado com que Roy se referia a Jean Paul. Ela sorriu com certa simpatia.

Roy deixou a maleta de lado e caminhou até junto da garota.

— Se assinar estes papéis, terá a escritura de posse do apartamento amanhã mesmo —

falou ele, estendendo a folha de papel.

Jill se levantou lentamente, olhando-o. Roy recuou um passo, mas não pôde evitar a perturbadora proximidade entre os dois.

A garota entendeu que o fascinava, Olhou-o fixamente. Roy não conseguia disfarçar a perturbação que o dominava, vindo daqueles olhos grandes e azuis.

— Tem uma caneta? — indagou ela, sem deixar de olhá-lo.

— Sim, aqui está.

— Onde devo assinar?

— Nesta linha, em todas as folhas — apontou ele.

Jill tomou-lhe a caneta da mão e ainda o encarou durante instantes. Em seguida caminhou até a mesa, onde assinou as folhas.

Roy ficou observando-a. Talvez aquela fosse a garota mais fascinante que jamais conhecera. O tipo que jamais olharia com interesse para um obscuro advogado.

— Quer dizer que o apartamento agora é meu — falou ela, devolvendo as folhas a ele.

— Sim, a partir do momento em que isso for registrado.

— Ótimo! — disse ela, com superioridade, apanhando seu copo e rumando para o bar, onde se serviu de uma outra dose.

Roy a acompanhou com os olhos. A garota acabava de se tornar proprietária de um apartamento de milhares de dólares, mas não parecia satisfeita com isso.

Havia qualquer coisa de triste amargurado nos olhos dela. Roy se lembrou, então, de que aquela era a garota do patrão.

Esse detalhe era o bastante para demovê-lo de qualquer tentativa de entender o comportamento da garota.

Guardou os papeis na maleta. Os trincos metálicos foram acionados. Ele se pôs em pé, disposto a sair. Jill acabava de entornar o último gole de seu copo.

Apanhou novamente a garrafa e, dessa vez, encheu-o. Roy achou que devia dizer alguma coisa. A garota parecia nervosa demais para alguém que acabava de ganhar um valioso presente.

— Não quer comemorar comigo? — indagou ela, voltando-se para ele.

— Sinto muito, mas preciso ir.

— Acaso é um daqueles policiais da tevê, constantemente em serviço?

Roy entendeu a insinuação, mas como deixar claro que ele era um simples empregado e ela, a garota do patrão? Não havia como fazer isso sem magoar a ambos.

— Por favor! — pediu ela, mudando o tom de voz. Detesto beber sozinha.

Roy sabia que estava se metendo numa enorme encrenca, mas o tom de voz suplicante da garota era terrivelmente humano e triste.

Ainda quis pedir a ela que entendesse, mas o apelo irresistível daqueles olhos grandes e azuis o tocou profundamente.

Ele depositou a maleta sobre a poltrona e tentou sorrir.

— Com gelo — indagou ela, apanhando uma garrafa de uísque.

— Por favor! — aceitou ele, caminhando até lá.

Ela lhe passou o copo. Ele tomou um gole. Olharam-se. O silêncio era comprometedor.

— Você deve ter um nome, não? — indagou ela.

— Claro, desculpe-me! Roy Anderson!

— Jill Lyndon! — respondeu ela, sorrindo.

Seu sorriso, no entanto, era forçado. Ela encarou Roy por instantes, depois foi se acomodar no sofá.

— Fale-me do mundo lá fora, Roy — pediu ela.

— Como? — retrucou ele, surpreso com o pedido, indo se sentar diante dela.

— O mundo lá fora, Roy. Sei que há um.

— Quer dizer que não sai nunca?

— Nunca. Jean Paul controla tudo que diz respeito a mim, sabia? O cabeleireiro vem aqui, a modista vem aqui, todos vêm aqui.

— É bem o estilo dele — disse Roy.

— Você sabia que há alguém lá embaixo agora controlando sua permanência aqui?

Roy não quis acreditar naquilo, mas Jill não tinha motivo nenhum para mentir ou assustá-lo.

— Isso me assusta, não quero causar nenhum problema, Jill.

Ela tomou o último gole do copo, deixando-o escorregar de seus dedos e cari sobre o tapete.

— Todos temos medo dele, Roy, não precisa fazer essa cara — sorriu ela, com ironia, levantando-se e indo até o aparelho de som.

A música era suave e envolvente. Jill fechou os olhos e apoiou o corpo contra a parede.

— Eu gostaria de poder desafiá-lo, humilhá-lo.

— Todos gostariam de fazer isso, Jill — disse ele, terminando seu uísque e voltando a apanhar a maleta. — Preciso ir agora.

— É um homem bom, Roy. Pena que tenha se deixado envolver — disse ela, abrindo os olhos e encarando-o.

Ele sustentou por algum tempo aquele olhar, antes de abaixar a cabeça. Seu dedos apertaram com força a alça da maleta.

Havia um pedido suplicante de ajuda nos olhos da garota. Algo que Roy desejou entender, mas não podia. Mesmo que pudesse fazer alguma coisa por ela, era brincar com fogo.

— Não precisa me acompanhar — disse ele, voltando-lhe as costas e caminhando para a porta.

As luzes principais da sala se apagaram. Roy tocou a maçaneta da porta, incapaz de controlar suas emoções.

— Roy! — chamou ela, com aquele tom de voz de quem desafia.

Ele ficou imóvel, sem se voltar. Atrás dele, Jill começava a se despir. O negligé farfalhou para o tapete. O sutiã caiu a seus pés. A calcinha ficou presa entre seus dedos.

Roy se voltou lentamente. A visão daquele corpo escultural e excitante aguçou seus sentidos ao extremo.

— E como vai ser depois? — indagou Roy, apesar de estar certo que valeria a pena.

— Eu sempre quis descobrir isso — respondeu ela, cruzando os braços sobre os seios.

Seus olhos azuis faiscavam. Seu lábios úmidos e entreabertos prometiam loucuras. Roy torceu os lábios num tique nervoso. Aquela proposta era por demais tentadora para que ele permanecesse impassível.

A luz de um abajur próximo dava ao rosto dela uma luminosidade própria e fascinante. Mil razões o convenciam a esquecer a provocação e ir embora; um milhão delas o faziam ficar.

— Por favor, Roy — suplicou ela.

Havia uma enorme ânsia de amar e ser amada naquela jovem. Roy não sabia das razões que a levavam àquilo. Ir embora era prudente e absurdo.

Ela caminhou na direção dele. Seu corpo sensual tinha a elasticidade de um felino à procura de presa. Roy se sentiu transtornado por suas emoções.

As mãos dela, suavemente, tocaram-lhe o rosto. Seus lábios mornos e entreabertos pousaram sobre os de Roy. A maleta caiu sobre o tapete. Os braços de Roy a enlaçaram com força.

— Sabe o risco que corremos? — indagou ele, numa pausa.

— Faça isso valer a pena, Roy — desafiou ela, beijando-o no rosto e no pescoço.

Suas mãos buscaram os botões da roupa dele. Roy se deixou desnudar, enquanto a beijava e acariciava com a mesma suavidade com que ela o despia.

Ela o tomou pelas mãos e o fez caminhar até o centro da sala. Sentou-se no sofá, puxando-o. Roy a abraçou com frenesi e desejo, fazendo seus corpos rolarem para o tapete.

Um beijo possessivo e sôfrego os empolgou. Suas línguas se tocaram com intimidade, buscando as delicias que podia oferecer ao outro.

As mãos apressadas de Roy escorregaram pelo corpo da garota, acariciando-o com desejo.

Jill vibrou emocionada, retribuindo na mesma medida.

Havia certa pressa nas mãos da garota. Sua mão delicada e macia buscou a base do ventre de Roy, acariciando-o, antes de escorregar para o ponto mais rijo e sensível.

Roy vibrou, emocionado, admirando as formas perfeitas daquele corpo ao seu lado. A luz do abajur jogava sombras e reflexos sobre aquela pele acetinada.

Transtornado, seus lábios ardentes espalharam beijos febris sobre o corpo da garota, alucinando-a e brindando-a com sensações que a convulsionavam.

Não havia razões para temores ou prudência. Parecia haver algo profundamente sensível unindo-os na mesma paixão.

Jill acariciava agora o vigor e a virilidade que sentia os seus dedos.

Era-lhe terrivelmente excitante sentir a juventude que havia nele, como se fosse algo a que não estivesse acostumada, apesar de desejá-lo ardentemente.

Os lábios de Roy retribuíram com ímpeto redobrado as caricias com que ela o brindava, espalhando beijos eletrizantes que ameaçava, levá-la à loucura.

Roy era experiente, sabia como despertar um corpo de mulher. Jill se assegurava disso nas ondas impetuosas de luxúria que brotavam de seu ventre e espalhavam-se pelo seu corpo, fazendo-a se contorcer.

Ela suspirava e gemia baixinho, extravasando as emoções desencontradas que a abalavam.

Excitado com isso, Roy se tornou mais audacioso em suas caricias, atirando-se àquele corpo perfumado e quente com delírio.

Seus lábios a fizeram gemer mais alto e retesar o corpo ao tocarem-na em seu ponto mais sensível. Sensações indescritíveis percorreram o ventre de Jill, alucinando-a.

Nunca uma garota vibrara tamanho desejo entre seus braços. Isso empolgava Roy e o fazia dar a ela tudo que sabia, proporcionando-lhe uma dose insuportável de prazer.

Quando a teve no auge da paixão, Roy a dominou com seu corpo. Sentiu-se deslizar pelas partes íntimas e sensíveis da garota.

Jill se agarrou a ele, abraçando-o com força. Roy a beijou com frenesi, enquanto se sentia totalmente dono daquele corpo trêmulo pelo desejo.

Ele moveu os quadris, a principio lentamente, medindo as reações de Jill. Mal podia sentir a respiração dela e todo seu corpo era um espasmo apenas alucinado.

Ele aumentou, então, o vigor das estocadas, fazendo-a se contorcer freneticamente. Levado pelo desejo insuportável dentro de si. Roy acelerou seus movimentos até que tudo fluísse numa sensação intensa e deliciosa.

* * *

Ela cobria o corpo com o negligé, enquanto Roy se vestia lentamente. Passada a empolgação e o delírio, voltaram à terrível realidade.

Jill sentava-se sobre o tapete, as costas apoiadas contra o sofá. Roy terminou de se vestir e apanhou a maleta.

— Possivelmente Jean Paul lhe exigirá satisfações — disse ela, com certo temor.

Roy se abaixou para apanhar a maleta, endireitou-se a seguir. Encarou-a sem saber o que dizer. Tinha plena certeza de que tudo não passara de uma louca aventura, com conseqüências que poderiam ser funestas para ambos.

— Valeu a pena? — quis saber ele.

Era a única coisa que poderia levar daquele acontecimento. Não havia a menor chance de se encontrarem novamente. Se isso acontecesse, cada um procuraria disfarçar.

— Sim, valeu — afirmou ela, abaixando a cabeça.

Roy se voltou para abrir a porta e sair. Antes de tocar a maçaneta da porta, recuou, voltando a olhá-la.

— Por que, Jill. Por que eu? Esta noite? Por quê?

— Você quer mesmo saber? — indagou ela, com amargura.

— Sim, preciso saber.

— Ele nunca me seduziu, Roy. Apenas me comprou e me usa para manter as aparências.

Jean Paul é um homem tremendamente orgulhoso. Sua imagem de garanhão é seu ponto sensível. Ele nunca me amou, sabia disso?

Os lábios de Roy se torceram naquele tique nervoso. Até nisso o dinheiro de Jean Paul surgia com a solução.

— Eu estava farta de me sentir uma prisioneira. Sou jovem, quero amar e ser amada, mas me vendi a ele. Eu me vendi, Roy, há coisa mais terrível que isso? — indagou ela.

— Todos nós nos vendemos, Jill, se isso a consola — falou ele, abrindo a porta e saindo.

CAPÍTULO 2

Roy entrou no carro, ainda aturdido com o que acontecera. Debruçou a cabeça para fora da janela e tentou ver o topo do edifício.

Não conseguia entender ainda como aquilo acontecera, daquele modo frio, impessoal, apressado, mas com um sabor tremendamente diferente.

Talvez o desafio, a vontade mútua de se libertarem, de algum modo, daquela influência que Jean Paul exercia sobre suas vidas.

Afastou-se dali. Dentro dele, como tenazes que oprimissem seu peito, crescia uma sensação assustadora de medo e remorso.

Temia Jean Paul, todos os temia. Um estalar de dedos e ele podia destruir qualquer um.

Roy sabia disso. Sempre soubera.

Desde que servia Jean Paul, tivera mostras de quão generoso e vingativo ele poderia ser.

Com alguém como Roy ele não teria a menor complacência.

Procurou não pensar nisso e tentar afastar de si aquele temos. Jean Paul não precisava saber, a menos que mantivesse realmente alguém vigiando Jill.

A garota falara sobre isso. Roy se sentiu mais assustado que antes. Como explicar sua demora naquele apartamento? Fora lá apenas para apanhar algumas assinaturas. Precisava pensar em algo.

Talvez Jill tivesse alguma idéia. Afinal, estavam ambos no mesmo barco. Percebeu-se nervoso e assustado. Havia ido muito longe, tinha de admitir isso.

Tinha um cargo na companhia de Jean Paul. Não era grande coisa, mas havia sempre uma chance de se promover. No momento, apenas trabalhos humilhantes, como aquele de menino de recados.

Roy detestava isso. Jean Paul às vezes se esquecia de que Roy era um advogado e exigia tarefas como aquela. O rapaz se sentia capaz de coisas maiores, de causas difíceis.

Precisava, no entanto ter paciência. Era a recomendação que os outros, há mais tempo na firma, lhe repetiam constantemente.

Não podia jogar isso fora por um momento de loucura. Reconhecia-se inocente. Fora seduzido. Como fugir a um corpo nu e tentador como o de Jill?

Sim, ela fora a causa daquela situação. Se não houvesse forçado, nada estaria acontecendo. Fora leviana e vulgar, oferecendo-se daquela forma.

O que mais podia alguém esperar de uma garota que vendia seu corpo e suas ilusões à megalomania de um velho milionário?

Freou o carro junto a uma cabine telefônica. Não foi difícil localizar o número. Discou para lá com a mão nervosa. Tinha o direito de exigir uma solução por parte dela.

Jill atendeu após algum tempo.

— Alô! — disse ela, apenas.

Aquela única palavra foi o bastante para que Roy perceber a voz embargada e os soluços.

Por que Jill chorava? Toda a revolta que encenara dentro de si contra a garota se desmanchou.

— Jill? — indagou ele, querendo apenas tempo para pensar.

— Roy?

— Sim. O que há? — gaguejou ele.

— Nada. Por que ligou? — indagou a garota, tentando se recompor.

— Bem... Eu estive pensando... Pode ser que alguém tenha controlado minha permanência aí no seu apartamento e...

— Sim, eu pensava nisso também... Acho que devíamos combinar uma boa desculpa. Caso contrário, Jean Paul será capaz de... Bem, não quero que nada aconteça a você. Eu fui a maior culpada — soluçou ela, mais forte.

— Jill, por favor! Não se sinta culpada — disse ele, impensadamente, desejando consolá-la.

— Se ele comentar alguma coisa, diga que me ajudou com os móveis... Eu vivo mudando as coisas de lugar. É meu passatempo, sabia?

— Sim — respondeu ele, tentando encontrar a mesma graça cheia de ironia que havia na voz dela.

Ficaram por instantes em silêncio. Roy se arrependia de haver pensado tudo aquilo sobre a garota. Jill era uma ótima pequena, vitima das circunstancias.

Podia ouvir os soluços, agora mais espaçados, como se a garota voltasse à calma. Torceu os lábios no seu tique nervoso, desejando encontrar a palavra certa que pudesse fazê-la se sentir bem.

— Preciso desligar agora — conseguiu ele dizer, apesar de estar certo de que poderia ficar ali a noite toda, ouvindo-a respirar.

— Está bem, mas não se esqueça. Estivemos arrumando os móveis — riu ela, ligeiramente.

— Sim — riu ele sem resposta.

— Roy Anderson — disse ela.

— Como?

— Nada, desculpe-me. Adeus, Roy!

— Boa noite, Jill — disse ele, esperando que ela desligasse.

Seu braço pendeu ligeiramente na direção do gancho do aparelho, sem que Jill desligasse.

Repentinamente, como se a idéia que lhe surgira na mente fosse digna de ser revelada, ele quase gritou:

— Jill!

— Sim, Roy — apressou-se ela em resposta.

— Bem... Achei que, talvez, quando você se sentir só, desejando ligar para mim...

— Eu farei isso, Roy — aceitou ela, com alegria na voz.

— Anote o número — pediu ele, dizendo-o.

— Está anotado.

Novamente aquele silêncio que Roy gostaria de quebrar, com a palavra certa.

— Boa noite, Roy!

— Boa noite, Jill!

Ele julgou que ficaria ali toda a noite, se não devolvesse logo o fone ao gancho. Voltou ao carro e rumou para seu apartamento.

A imagem de Jill estava dentro dele. Parecia conhecê-la melhor agora e isso a fazia ver de um modo diferente. Tudo que julgara antes fora em função do medo. Ele entendia aquele apelo desesperado que havia na garota e se sentia solidário a ela.

Tinham uma boa desculpa, um segredo só deles, algo que lhe daria uma sensação de superioridade diante de Jean Paul, apesar de tudo.

Quando ele surgisse com outro daqueles trabalhos humilhantes, Roy se sentiria de outra forma, pois sabia que aquele orgulho todo cobria apenas um corpo inútil de velho.

* * *

Na tarde seguinte, Roy estava em seu gabinete, uma pequena sala com secretária no andar do Departamento Jurídico. Sua porta era a última antes do almoxarifado. Roy sabia que teria de percorrer todo aquele corredor para ser alguém, algum dia.

Se nada acontecesse, ainda ocuparia a última porta no lado oposto daquele enorme corredor. Talvez até lá fosse um velho, mas a simples idéia de pensar que poderia já era alguma coisa importante.

A secretária lhe trouxe um recado. Jean Paul desejava vê-lo. Por momentos, Roy se sentiu assustado, reconhecendo-se incapaz daquela superioridade que julgava possuir.

Temia encarar o chefão e deixar a mentira transparecer em seus olhos. Depois pensou em Jill, revivendo os momentos de loucura.

Mais do que ele, ela precisava daquela mentira. Isso lhe deu forças para se dirigir ao escritório de Jean Paul e encará-lo, parado diante da mesa.

— Está tudo feito? — indagou Jean Paul, assinando diversos papéis.

— Faça isso, então.

— Naturalmente, senhor — disse Roy, virando-se para sair.

— Anderson! — chamou Jean Paul, naquele seu tom de voz rude e autoritário.

— Sim, senhor — respondeu o rapaz, voltando-se rapidamente.

Jean Paul deixou a caneta e os papéis para encarar Roy. Por momentos seus olhos pareciam querer penetrar nos pensamentos do rapaz e desvendar o que havia ali.

Roy sustentou o olhar, sentindo-se abalar. Tinha de reconhecer que não era tão forte como julgava. Sentiu que vacilaria, quando, para seu alivio, Jean Paul voltou a apanhar a caneta.

Uma hora e meia para colher algumas assinaturas — comentou Jean Paul, sem censura, mas com ironia.

— Como, senhor?

— Não sabia que tinha vocação para carregador, Anderson — falou Jean Paul, sem olhá-lo.

— Se soubesse disso antes, teria conseguido um emprego lá nas docas.

Roy engoliu em seco, fechando as mãos apertando-as com forças. Sentiu que suas faces ardiam violentamente. Respirou fundo e procurou se dominar.

Jean Paul interrompeu-se por instantes para encará-lo.

— Não gostou da piada, Anderson? — indagou o milionário, começando a rir ironicamente.

Roy tentou sorrir, mas seus lábios apenas tremeram nervosamente.

— Jill me agradeceu pelos seus trabalhos. Você foi muito prestativo, mas não é o tipo de trabalho que desejo que faça, Anderson.

— Sim, senhor.

Jean Paul assinou mais alguma folhas, antes de levantar os olhos novamente.

— Apanhe aqueles papéis de posse do maldito apartamento e leve para ela — ordenou Jean Paul.

— Levar para ela.

— Sim, agora mesmo se possível — disse o chefe, fazendo um movimento com as mãos na direção da porta.

Roy se voltou e caminhou para lá. quando estava saindo, no entanto, Jean Paul disse:

— Anderson!

Sua voz soou como um trovão pelos corredores e salas.

— Sim, Sr. John — respondeu Roy, recuando alguns passos.

— Desta vez não banque o faxineiro, está bem? — recomendou o milionário, com ironia e sarcasmo.

— Sim, senhor! — concordou Roy, fechando a porta suavemente.