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Apartamento do amor por L P Baçan - Versão HTML

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CAPITULO 4

Antes de rumarem para o apartamento de Roy, passaram pela Park Avenue, onde o rapaz apanhou seu carro, estacionado ainda diante do prédio onde Jill morava.

Por momentos, antes de se afastar, ele ergueu os olhos na direção do topo do edifício.

Havia luzes, muitas luzes ainda no apartamento de cobertura.

Um sentimento opressivo, misto de tristeza e medo, bateu firme em seu peito ao se recordar da cena de entrada no apartamento, quando chegava à festa.

Aquele sorriso doce e vibrante nos lábios da garota, lentamente sendo substituído por uma expressão impessoal e triste, ainda o incomodava.

Deixara-se levar pelas bobagens todas que pensara. Julgara até que Jean Paul lhe reservara uma bela surpresa. Que nada!

Estava no mesmo ponto de sempre daquele enorme corredor e nada havia acontecido ainda. Era uma pena, realmente uma pena.

Se ao menos soubesse do que aconteceria naquela noite, teria mudado seu modo de agir com relação a Jill. De algum modo, sentia-se como se a tivesse traído.

Jill precisava de alguém, de um amigo, companheiro ou amante, mas de alguém que lhe desse, na compreensão de um relacionamento franco e honesto, meios de suportar sua condição de bonequinha de luxo.

Roy podia ter sido esse alguém, mas seu egoísmo, sua indecisão até, seu medo, tudo isso o afastara dela irremediavelmente.

A noção desse fato lhe trouxe uma outra sensação, a de que perdia algo importante, realmente. Era como se o delgado fio que o ligava a Jill, pelos motivos comuns a ambos, se houvesse partido a ele a visse se afastar.

Havia um gosto de promessa quebrada em seus lábios. Ele baixou a cabeça. A sua frente, no carro dela, Shirley buzinava, fazendo-lhe sinal para ir na frente.

Ela o seguiu, enquanto Roy dirigia sem muita pressa pelas ruas já sem movimento àquela hora da noite. Os fins de semana punham calma nas ruas de Nova Iorque.

Não fazia frio naquele inicio de primavera. Flores tímidas, folhas de um verde pálido e relva escura brotavam nas praças.

Roy se encolheu em seu assento como se um frio intenso enchesse seu corpo de calafrios.

Aquela sensação não tinha sentido nenhum.

Não era nada relacionado ao clima ou à noite. Estava dentro dele, incomodando-o, fazendo-o se sentir deprimido como o mais miserável dos homens.

A imagem de Jill, suave, frágil e só, vinha-lhe constantemente aos pensamentos, arrancando dúvidas, forçando perguntas e apontando na direção de uma decisão que, no momento, Roy não sabia se valeria a pena tentar.

Amar aquela mulher, num momento de inconseqüência, apenas se preocupando com o que pudesse dar e receber no jogo dos corpos nus e inquietos, era uma coisa; desafiada abertamente as oportunidades era uma loucura total.

Roy tinha conhecimento disso, mas não podia entender a si próprio por desejar, apesar de reluta nisso, mudar o rumo de tudo aquilo.

Não podia realmente se entender. Estava ali, rumando para o mais delicioso fim de noite e fascinantes mulheres da cidade o seguia, submissa e excitada.

Isso era o bastante para fazer qualquer homem comum se esquecer até das mais terríveis aflições. Roy, no entanto, se sentia agora sem o ânimo esperado para encarar aquela tentadora realidade.

Seus pensamentos estavam lá atrás, além do carro de Shirley, além das inúmeras esquinas em algum ponto da Park Avenue.

Mas o que podia fazer de efeito para mudar aquilo? Nada que não lhe custasse o pescoço e a carreira. Era um brinquedo perigoso aquele.

Parou o carro num sinal luminosos, Shirley emparelhou seu carro ao lado do dele e lhe jogou beijos, entreabrindo repetidas vezes os lábios carnudos e vermelhos.

Roy sorriu, retribuindo beijos as pontas dos próprios dedos e fez um gesto na direção da garota. Shirley sorriu, deliciada.

Roy julgou que merecia um prêmio de representação por aquele momento. No fundo era mesmo um covarde. Talvez essa fosse a única justificativa para tudo que era no momento.

Fosse de outra forma, bastaria um segundo de decisão e poder a mudar definitivamente o curso dos acontecimentos.

Jill, novamente Jill lhe vinha aos pensamentos, como que suplicando ajuda, pedindo uma porta de saída em sua prisão particular.

Levou o carro pela entrada da garagem, após sinalizar para Shirley, que o seguisse de perto. Estacionou no lugar de sempre.

— Pode deixar seu carro ao lado do meu, as duas vagas me pertencem — disse ele, inclinando-se na janela do carro da garota.

— Isso é ótimo — sorriu ela, com malícia e provocação no rosto bonito.

Enquanto ela estacionava o carro, Roy ficou parado observando. Shirley era uma bela garota realmente, tinha tudo para fazer a noite de um homem mais longa e melhor.

Depois, quando ela desceu, Roy pôde medir aquele corpo, adivinhando formas perfeitas e contornos proporcionais num conjunto extremamente feminino.

Sua saia farfalhava ligeiramente. Sua blusa de renda tinha detalhes maiores na linha dos seios. Era fácil perceber que Shirley era uma garota moderna.

Ela sorriu, enlaçando-o pela cintura. Seus movimentos de corpo eram naturais e femininos.

O calor de seu corpo contagiou o de Roy, enquanto caminhavam para o elevador.

Após algum tempo de espera, puderam subir. Shirley soubera preencher esse tempo, tomando logo a iniciativa. Havia uma sede enorme de amar e ser amada naquele corpo.

Na cabine fechada, os dois precisavam se preocupar apenas com as coisas comuns a um homem e uma mulher que se encontram, cheios de desejo.

Por momentos, Roy ainda pensou em Jill. Os braços de Shirley eram insinuantes como duas serpentes excitadas. Seus lábios eram mornos e terrivelmente perturbadores.

Aqueles beijos, numa seqüência calma a partir do pescoço e até a boca de Roy o deixaram entontecidos e empolgado. O roçar cadenciado dos quadris da garota provocava Roy em seu ponto mais sensível.

Como fugir àquela força avassaladora que brota no mais fundo do corpo e toma conta de cada fibra nervosa? As mãos de Roy a enlaçaram pela cintura e ele a beijou com avidez e luxuria, aceitando a provocação daqueles quadris, deixando que suas mãos buscassem em contato maior com aquela pele quente e acetinada.

Com uma das mãos ele a manteve firme contra si. A outra deslizou pela cintura da garota, contornou febrilmente o seu quadril e se espalmou, por sobre o tecido, na coxa escultural da garota.

Os dedos finos e femininos de Shirley brincavam com os cabelos de Roy e arranhavam, excitados, a sua nuca. Seus lábios eram um convite ao eterno contato à sucção e ao mordiscar que poderiam varar a noite sem que qualquer um dos dois se satisfizesse.

Ela se apertou mais contra ele, quando os dedos de Roy repuxaram-lhe a saia para tocarem a pele de sua coxa. Ela gemeu qualquer coisa, deliciada.

Roy a beijou por instantes no pescoço, nos ombros, na orelha, antes de voltar ao ponto inicial, àqueles lábios insaciáveis que provocavam e tiravam-lhe a razão.

Seus dedos escorregaram, contornando formas. Shirley se retraiu um pouco, quando um dos dedos forçou a barra da calcinha e deslizou sutilmente por carnes úmidas e quentes.

A porta do elevador se abriu repentinamente, sobressaltando-os.

— Já chegamos? — indagou ela, embaraçada e inquieta, as faces em fogo, o corpo em ebulição.

— Sim — afirmou ele, afirmou ele, relaxando a pressão que a mantinha junto a si.

Olharam-se por momentos, como se desejassem prolongar, por mais algum tempo aquelas caricias iniciais, naquele elevador.

— É logo ali — apontou ele, decidido.

Aquele corpo de mulher prendia agora suas atenções, fazendo-o se esquecer de tudo o mais. O importante, o urgente, o inadiável estava ali, naqueles lábios vermelhos e trêmulos, naqueles olhos ligeiramente úmidos e brilhantes.

Caminharam pelo corredor, Shirley se apoiou a ele. Roy a abraçou pelo ombro. Abriu a porta, acendeu as luzes. Shirley por momentos, percorreu a sala com os olhos.

— Tem um belo cantinho, Roy — disse ela entrando e fechando a porta atrás de si.

— Há coisas mais belas pode acreditar — sorriu ele, julgando que lhe devia um galanteio pela observação.

Shirley sorriu e baixou a cabeça por instantes, apoiada à porta. Depois caminhou resoluta na direção de Roy, aninhando-se entre seus braços.

— Quer tomar alguma coisa? — indagou ele, apenas por indagar.

As mãos de Shirley trabalhavam em sua gravata, desfazendo-lhe o nó. Em seguida, soltaram dois ou três botões, o bastante para abrir uma clareira por onde seus lábios pudessem penetrar.

— Não! — respondeu ela, finalmente, a voz num sussurro apaixonado.

Roy não disse nada. Afastou-a de si para olhá-la, antes de tomar-lhe uma das mãos e conduzi-la na direção de seu quarto.

Lentamente ambos caminharam na mesma direção, os rostos sérios, as faces em fogo, os corpos trêmulo de excitação. Ao lado da cama, Roy a estreitou em seus braços forte quanto podia.

Suas mãos deslizaram pelas costas da garota, em apalpadelas carinhosas de reconhecimento. Shirley colou seus lábios aos dele. Seu corpo estremeceu mais forte.

Roy sugou com avidez aqueles lábios, antes de soltar alguns botões da blusa da garota e puxá-la ligeiramente para trás, desnudando-lhe os ombros.

Como se não houvesse pressa no mundo, Roy beijou repetidamente os ombros da garota, depois seu pescoço torneado e tentador, da garota até a base da nuca.

Shirley se entregou a ele, deliciada. Roy percebia seus sentidos se confundirem no contato com seus lábios com a pele suave e perfumada da garota.

A impaciência a dominou. Seus braços enlaçaram Roy pelo pescoço e atraíram-no para um beijo agitado e intimo que o fez vibrar.

Shirley sentiu, então, algo promissor se elevar contra seu ventre. Ela moveu os quadris com provocação, fazendo o corpo de Roy estremecer com mais força.

Seus lábios se tornaram mais impacientes, percorrendo os ombros da garota, seus lábios, suas faces, detendo-se apenas para beijos rápidos, mas provocantes.

Suas mãos ganharam vida própria sobre aquele corpo feminino, buscando-lhe os pontos sensíveis de onde arrancavam suspiros e tremores.

Roy se entregava toda àquela paixão forçadamente, buscando apenas se concentrar naquele corpo que pedia amor e esquecer-se de tudo que confundia seus pensamentos.

Não podia haver lugar em sua vida para Jill, mesmo que houvesse uma chance. Esse desespero interior extravasou-se na ânsia de buscar o alheamento total dos momentos de amor.

Com movimentos possessivos ele apertou e massageou suavemente os seios de Shirley.

Suas mãos se revezaram em idas e vindas pelo corpo dela.

O caminho partia dos seios firmes e excitantes percorria o ventre e a intimidade da garota e se perdia na extensão acetinada de coxas alucinantes.

A empolgação roubou-lhe todos os pensamentos e Roy se sentiu grato por isso. Os botões finais da blusa de Shirley foram soltos.

Ela retribuiu, empurrando-lhe o paletó para trás, livrando-o da camisa, soltando-lhe o cinto e o fecho da calça. Suas roupas se amontoaram sobre o carpete do quarto, ao lado da cama.

Um perfume de carnes intimas em ritmo de sexo embriagou-os na mesma lascívia. Seus corpos já quase nus se roçavam com mais ímpeto e desejo.

Roy escorregou as mãos pelas nádegas da garota, buscando se introduzir por sob o elástico para, em movimento cadenciados, fazerem a calcinha da garota deslizar para suas pernas.

Alguns movimentos discretos e femininos e Shirley se viu livre daquela peça, retribuindo ao retirar a sunga do rapaz.

Seus corpos nus, por momentos, se afastaram, movidos pelo mesmo desejo de se medirem e se admirarem. Um novo abraço, dessa vez febril e impaciente, os derrubou sobre o leito, finalmente.

Roy retirou seus sapatos pelos calcanhares, jogando-os em alguma parte. Livrou-se das meias. Estavam totalmente nus e prontos.

Seus lábios, então, tocaram o corpo de Shirley com avidez, despertando nela um emaranhado de emoções vibrantes que a alucinavam.

As mãos dela, movidas pelo desejo de conhecer aquele corpo masculino, avançaram para ele sem pudor sentindo-lhe as formas e a virilidade.

Roy punha toda sua ansiedade e seu desespero interior a serviço da excitação. Era uma espécie de vingança contra tudo e contra si mesmo excitar aquele corpo ao extremo.

Shirley tremia junto dele, suspirando e gemendo baixinho no enlevo da paixão. O rapaz a brindou com a mais estonteante e delirante seqüência de caricias.

Íntima e habilmente ele despertou emoções que Shirley que se julgava alguém experiente em amor, jamais provara. Ela se sentia sem fôlego o corpo percorrido por espasmos contínuo, o ventre em fogo pelas sensações vibrantes que a assaltavam.

Perdia-se a noção da noite dentro daquele quarto e apenas o desafio de uma nova sensação tinha importância. A pele de Shirley estava literalmente eletrizada. Seus interior se fazia delírio e fogo.

A garota sentia que nada mais poderia fazer seu corpo vibrar, mas percebeu-se enganada, quando o corpo de Roy pesou sobre o dela.

A ansiedade se fez suspense, quando ele se fixou no ponto inicial daquelas carnes úmidas e palpitantes. Ao senti-lo pressionar lentamente o quadril, todo seu corpo explodiu numa reação em cadeia de prazer e luxúria.

Ela o apertou contra si, beijando-o desesperadamente nos lábios, introduzindo sua língua por entre seus dentes para a sucção daquela boca faminta.

Roy iniciou seus movimentos de macho. O corpo de Shirley se agitou e se contorceu na loucura de um êxtase que ultrapassava os limites de seu conhecimento.

Se houve um tempo em seguida, ele se perdeu na inconsciência do delírio total e pareceu não existir. Tudo se concentrou em sensações desencontradas e eletrizantes que agitaram seus corpos num mesmo espasmo.

O amor flui de um corpo para outro, no arrebatamento do clímax.

Saciados, mantiveram seus corpos unidos no abraço final que, pouco a pouco, foi se relaxando numa sensação gostosa e satisfeita.

Ela o beijou junto ao pescoço suave e lentamente, como num agradecimento.

— Eu senti que você era um homem diferente, Roy — segredou-lhe a garota.

— Por quê?

— Homens que conheço não amam assim. São apressados e egoístas. Não me lembro de nenhum como você, Roy.

Ele a apertou, enquanto pensava em loucuras como Jill.

CAPÍTULO 5

Roy acordou, naquela brilhante manhã de sábado pensando ainda em Jill. O corpo quente e enrodilhado de Shirley a seu lado o lembrava de que, mesmo tendo-a amado naquela noite, ela nada significava para ele.

Ele não podia entender sua própria contradição. Amara Jill, talvez com menos intensidade do que amara Shirley. Ligara-se à garota, no entanto, por alguma coisa que ultrapassava a razão.

Percebia com certa relutância, que, ao invés de esquecê-la lenta e gradualmente como seria de se esperar, mas a mais se apegava a ela, com uma força inconsciente mas constante.

Ao seu lado um corpo de mulher, espreguiçando-se languidamente. Shirley abriu os olhos preguiçosos para sorrir ligeiramente, antes de acariciá-lo no rosto e afundar-se novamente na maciez do travesseiro.

Roy apoiou sua costas à cabeceira da enorme cama de ferro batido, uma preciosidade que, por casualidade, conseguira comprar.

Esfregou os olhos com as palmas das mãos, depois ajeitou melhor o travesseiro para se apoiar ficou olhando para a porta aberta do quarto. Esquecera as luzes da sala acesas.

Não era cansaço aquela indecisão nos músculos. Talvez um desânimo passageiro, conseqüência do sono, que o sol lá fora não conseguia espantar.

Inclinou o corpo para olhar o amontoado de roupas ao lado da cama. Um perfume de amor e sexo deixou os lençóis e chegou até suas narinas.

Roy inclinou um pouco mais o corpo e conseguiu apanhar seu paletó. Retirou dele cigarros e o isqueiro. Puxou o cinzeiro para mais perto, sobre a mesa da cabeceira.

Shirley se agitou, passando o braço ao redor de sua cintura. Seu cotovelo repousou sobre o guerreiro adormecido. Shirley não dormia, mas mantinha os olhos fechados.

Seu braço começou a se mover suavemente. Seu cotovelo roçava a parte sensível de Roy, ameaçando despertá-la. Entretido em seus pensamentos, sua mão pousou sobre o braço da garota, imobilizando-o.

— Que maldade! — disse ela, erguendo o tronco e depositando sua cabeça sobre as pernas de Roy.

Para conseguir isso teve de se atravessar quase sobre a cama. Ela abriu os olhos e encarou Roy. Havia malícia e provocação nos olhos dela.

Roy soltou-lhe o braço. Shirley o retraiu, até que sua mão tocasse a masculinidade do rapaz. Ela a acariciou com a ponta do indicador.

O rapaz introduziu seus dedos pelos cabelos dela, acariciando-a. Shirley entendeu naquilo uma aprovação. Seus lábios se entreabriram lentamente para assoprar na direção do ponto mais sensível de Roy.

Aquele hálito quente, ao invés de excitá-lo, causou-lhe uma espécie de irritação, algo que estava dentro dele, de seus pensamentos que giravam, giravam e acabavam sempre no mesmo ponto: sua inutilidade diante de um sentimento impossível e ainda não atendido de todo.

Roy não sabia ao certo o que o fazia pensar em Jill com tanta insistência. Shirley soprou novamente, as caricias se tornando mais intensas na palma suave de sua mão.

O rapaz acariciou os cabelos dela com inquietação agora. Jill estava em seus pensamentos.

Ele pensava na decepção da garota ao sorrir animada e receber, em resposta um olhar medroso e fugido.

Roy não podia se perdoar por aquilo. Era como se a garota tivesse estendido a sua mão, pedindo apoio e ele tivesse ignorado isso por conveniência.

Tentou imaginar que pensamentos haviam passado pela cabeça da garota. Concluiu que deveria ter sido terrível aquilo para ele.

A mão de Shirley era hábil e quente. Seu hálito era incendiário. Ela moveu a cabeça para mais perto do ventre de Roy.

Por momentos ele a fitou sem entender. Quando o calor daqueles lábios tomara, conta de toda a sua sensibilidade, algo violento e explodiu dentro dele, fazendo seu corpo se convulsionar.

Deixar de pensar em Jill, naquele instante, era a mesma coisa que desprezar sua mão estendida, mas era impossível resistir à ação daqueles lábios vorazes, daquelas mãos que subiam pelo seu corpo em caricias e apalpadelas.

Dominado pelo desejo que Shirley despertara ele girou o corpo, buscando o ventre da garota com seus lábios. Houve um momento de pausa para uma acomodação de corpos e tudo se convulsionou em delírio.

Lábios provocaram sabores exóticos e alucinantes, suas línguas se moveram em movimentos de uma fala muda, mas incrivelmente significativa.

Sensações e emoções delirantes brotaram de suas partes sensíveis e intimas, dominando seus corpos com ímpeto avassalador.

* * *

O corpo de Shirley jazia ao lado do seu, ofegante. Ambos mantinham seus olhos fechados, enquanto deixavam apenas vibrar dentro deles as últimas gotas do prazer.

Saciada e feliz, Shirley se endireitou, sentando-se sobre as pernas, enquanto olhava o corpo de Roy. Ela recompôs os cabelos com as pontas dos dedos. Seu rosto aparentava a calma das mulheres felizes.

— Roy! — clamou ela.

Ele abriu os olhos lentamente, olhando-a. Seu corpo se recortava contra a cortina iluminada da janela.

— Sim?

— Sabe fazer café.

— Sei.

— Cozinhar?

Ele respondeu com um aceno de cabeça, confirmando.

— É um homem perfeito, então?

Roy sorriu sem vontade.

— Estou com fome, e você?

— Também.

— Que acha de ir para a cozinha, enquanto eu tomo um banho? — sugeriu ela.

— Por que não invertemos as posições?

— Porque eu não sei nem onde está uma torneira numa cozinha — riu ela, travessa.

— Está brincando, preguiçosa! — resmungou ele.

— Sério, não sei mesmo.

— O que sabe fazer, afinal de contas? — indagou ele, levantando o corpo para sentar-se.

— Sei tudo que uma mulher inteligente precisa saber, querido. cozinhar não é uma delas.

Ele abriu os olhos lentamente, olhando-a.

— Feminista?

— Não, apenas inteligente.

— Por que não agimos por etapa?

— Como?

— Primeiro tomamos um banho juntos e depois vamos para a cozinha. Eu a ensino a fazer o essencial.

— Combinado — aceitou ela, inclinando o corpo para beija-lo ligeiramente no canto dos lábios.

Levantaram-se e, abraçados, foram para o banheiro. Roy ligou a ducha. Entraram juntos sobre a água que caía com força morna e agradável.

Shirley apanhou uma esponja e espalhou espuma sobre o corpo de Roy. Seus movimentos eram de provocação. Sua sensualidade parecia estar em constante ebulição.

Olhando-a, Roy pôde perceber a gradual modificação que se operou no rosto dela, indo da calma satisfeita ao apetite novamente desperto.

Ele tomou-lhe a esponja das mãos e tornou o corpo da garota perfumando e escorregadio.

As mãos de Shirley, cobertas de espuma, buscaram a masculinidade do rapaz.

A fricção de suas mãos era suave e cheia de luxúria, enquanto o olhava nos olhos. Roy se sentiu agitar intimamente. Suas mãos deslizaram com facilidade pelo corpo dela, buscando-lhe a intimidade.

Momentos de caricias rápidas e eficientes aconteceram, antes que Roy a abraçasse e a trouxesse para debaixo da água.

Shirley jogou a cabeça para trás, os olhos fechados, lábios entreabertos. Roy a beijou com ardor, no pescoço, enquanto suas mãos insistiam nas caricias intimas, recebendo a justa retribuição das mãos dela.

Beijos voluptuosos se seguiram, enquanto as caricias ganharam intensidade maior. Estavam ambos apressados e cheios de paixão.

Shirley o enlaçou pelo pescoço. Roy firmou seus braços ao redor da cintura dela. Como num balé bem ensaiado, Shirley levantou o corpo, enlaçou suas pernas no corpo do rapaz.

A penetração aconteceu naturalmente, por foça da posição. Roy adiantou um passo, apoiando o corpo da garota contra a parede.

Ela se entregava toda, beijando-o com frenesi, introduzindo sua língua pelos lábios de Roy, misturando suas salivas, buscando a intimidade total.

ele iniciou seus movimentos de quadril, golpeando-a com força. Uma nova seqüência de sensações emocionantes foi arrancada de seu corpos, dessa vez mais demorada, longa, quase interminável, como de o prazer tivesse de ser arrancado em sua plenitude do fundo desesperado de seus corpos.

Roy a deixou de pé, o corpo ainda trêmulo pelas sensações do clima. Ele se apoiou à parede aposta, deixando o sopro escorregar lentamente.

O vapor da água produzia estranhos efeitos na mente de Roy. Aquele corpo além de jato de água que caía, tinha formas indistintas e um rosto indefinível.

Roy desejou imaginar que se tratava de Jill, desesperadamente de Jill, mas as coisas não eram tão fáceis. Shirley avançou um passo, deixando que água escorregasse pelo seu corpo, tornando-o prateado em alguns pontos.

Uma fonte deliciosa parecia brotar de seu seios, jorrando água. Uma outra descia como cascata pelo seu ventre e se atirava pelo despenhadeiro de sua sexualidade.

Roy desejou que fosse Jill ali, diante dele. Talvez para amá-la novamente, até que exaustão total fizesse de seu corpo uma inútil massa de músculo, carnes e ossos.

Mesmo assim, permaneceria viva e integra a vontade de continuar amando aquela garota, até a última gota do prazer, até o último êxtase.

Mas era Shirley quem ali estava e isso, agora, aborrecia Roy, fazendo-o se irritar consigo mesmo. Não bastava apenas imaginar.

Era preciso fazer algo de mais positivo e decidido do que apenas pensar. Era preciso pôr um laço de carrasco no pescoço e caminhar numa corda bamba.

E para que tudo aquilo? Para saber que tirou de Jean Paul mais do que a garota, ferindo aquele velho orgulho falso e comprado que o velho fazia questão de exibir?

Não era justo pensar daquela forma. Jill merecia outra coisa. Era uma boa garota, Roy tinha absoluta certeza disso. Era apenas vítima das circunstancias, assim como ele, de certo modo.

Eram duas vitimas com algo em comum: uma alta e perigosa dose de ódio contra seu salvador e carrasco. Duas vítimas sem forças para lutar contra a destruição.

Shirley se ajoelhou diante dele. Seus cabelos molhados escorrendo pelo seu rosto e pelos seus olhos.

Roy levantou uma das mãos para descobrir aquele rosto. Não adiantava supor nada. Jill não estaria ali, mesmo que ele o desejasse.

Era preciso fazer algo. Roy não sabia o que era preciso fazer mais sabia que algo tinha de ser feito, pelo menos para que pudesse entender aquela estranha ligação que o conduzia a Jill.

— Quer ser meu amante, Roy? — indagou Shirley, abrindo os olhos para encará-lo.

— E o que isso exigiria de mim?

— Tudo aquilo que saber ser e fazer.

— E o que isso significaria para mim?

— Pode trazer compensações.

— Que tipo de compensações.

— Meu pai e eu nunca nos entendemos. Um tem um medo terrível do outro. Às vezes ele me assusta, outras vezes eu o assusto . Ele me faz um desaforo, eu me vingo e vice-versa.

— E o que farei no meio dessa guerra familiar?

— Não precisa entrar nela, mas poderá se beneficiar com a existência dela.

— Ainda não entendi.

— Há um mês consegui de meu pai a demissão de um importante executivo, apenas porque ele se recusou a deixar sua garota e passar um fim-de-semana comigo.

— Não duvido que possa fazer isso.

— Onde você trabalha?

— Departamento Jurídico.

— Em que lado do corredor?

— No último posto do lado inferior.

— Aposto como deseja chegar ao outro lado, não?

— Quem não quer?

— Eu posso conseguir isso.

Roy a olhou de um modo impessoal. A proposta de Shirley tinha tudo para tentá-lo, mas isso não acontecia. Era irrelevante qualquer um dos lados daquele corredor.

O importante em sua vida não parecia estar mais naquele detalhe, mas sim num apartamento da Park Avenue.

— Não é preciso uma proposta como essa para se conseguir um amante, Shirley. Você tem tudo de que precisa: um rosto bonito, um corpo admirável e um modo de ser que fascina e encanta.

— Está desistindo da oferta?

Naquela altura, não era difícil decidir. Nada tinha a perder. Sonhar o impossível no vigésimo quinto apartamento de um prédio de luxo da Park Avenue era pura perda de tempo.

Teria de ter coragem, muita coragem para mudar as coisas do modo como gostaria que elas fossem. Essa coragem não era cômoda num prudente.

Ele concordou com Shirley, movendo a cabeça repetidamente.

— Ok, meu amante! Que tal aquelas lições de culinária agora? — propôs ela.

— Agora mesmo — disse ele, levantando-se e indo para debaixo da água.

Sentiu-a escorrer pelo corpo com força, como a carícia de mãos apressadas. Sentia-se como alguém que, de repente, deixasse sua alma escapar de seu corpo, restando apenas um casco vazio e inútil.

Shirley desligou a ducha. Estendeu uma toalha para Roy. Enxugaram-se em silêncio.

Olharam-se, cada qual perdido em seus pensamentos.

A garota saiu na frente, nua e perfumada, friccionando a toalha nos cabelos. Roy a seguiu, imitando seus gestos.

— Há algo confortável que eu possa vestir? — indagou ela.

— Uma das minhas camisas — disse ele, apontando na direção do armário.

Shirley foi até lá e fez sua escolha. A camisa era grande para seu corpo, cobrindo-o até algumas polegadas abaixo das nádegas.

Ela dobrou as mangas algumas vezes, depois abotoou-se. Roy terminou de se enxugar e foi vestir uma calça "jeans". Shirley descobriu um secador portátil e se sentou diante do espelho durante algum tempo.

Roy se penteou e ficou observando a garota, enquanto ela cuidava dos cabelos. Às vezes ela levantava os olhos e sorria para ele através do espelho.

Ele sorria em resposta, Shirley era também uma boa garota. Podia fazer um homem feliz, se o desejasse, mas Roy estava certo de que não seria nunca a mesma coisa.

Havia algo mais em Jill que Roy não conseguia definir, apesar de pensar muito a respeito, enquanto comparava as duas mulheres.

CAPÍTULO 6

Roy não esperava que Shirley cumprisse suas promessas tão depressa. Pouco depois do desjejum, ela se lembrou de algo importante, vestiu-se e deixou-o, depois de lhe pedir que não assumisse nenhum compromisso.

Sozinho, depois, em seu apartamento, Roy vagou de um aposento para outro, fumando distraidamente. Estava à procura de algo que não estava ali.

Sabia disso, mas era bom tentar imaginar que, ao abrir a próxima porta, a encontraria, natural e simples, com seu rosto meigo e seus incríveis olhos azuis.

Jill parecia estar ali, ao redor dele, saída de seus pensamentos como uma sombra que se escondia atrás da próxima porta, sempre da próxima porta.

Ela parou, finalmente diante de seu armário de bebidas. Ainda era cedo para começar, mas se sentiu tentado a beber até que tido perdesse a noção.

Tocaram a campainha. Roy foi atender. Era a velha Sra, Fuzebee, a arrumadeira. A mulher resmungou um cumprimento e foi entrando, um cigarro eternamente aceso entre os lábios.

— Parece que tivemos outra batalha campal por aqui — observou ela, ranzinza parada diante da porta do quarto.

Roy desejou poder mandá-la resmungar no inferno, mas ao invés disso sorriu sem vontade e foi para a saleta que lhe servia de escritório.

Fechou a porta, quando entrou. A arrumadeira tinha o hábito de resmungar, enquanto trabalhava. Roy não gostava dela, mas precisava tolerá-la.

Ele se sentou a sua escrivaninha. Havia uma revista masculina em alguma parte por ali, ele se lembrava de havê-la comprado.

Abrir sem pressa algumas gavetas. Sentia-se horrível. Nunca sua real posição, seu modo de ser, sua personalidade, enfim, lhe fora tão intolerável.

Alguém não podia ser daquele modo, simplesmente não podia. sorriu com ironia. ainda se imaginava atravessando aquele corredor. Era algo praticamente impossível para alguém como ele.

Um miserável comodista! Era sua noção a respeito de si próprio. Um comodista miserável que engolia desaforos e se admitia capacho.

Percebeu que estava sendo rude demais consigo mesmo. Um homem precisa ser prudente, às vezes, para vencer. Talvez sua covardia fosse uma prudência exagerada, nada além disso.

Estivera no Exercito, quase fora para o Vietnã. Na época aquilo não o assustava. Queria lutar, estava sedento e preparado para lutar.

Mas eram outros tempos, a vida não lhe ensinara ainda nada sobre si mesma. Muita coisa imaginada na juventude se transformara em tolices, olhadas agora após algum tempo.

O telefone tocou. Roy olhou sobressaltado para o aparelho, no canto da escrivaninha. A campainha insistia. Estendeu o braço.

— Roy? — indagou uma voz do outro lado da linha, fazendo-o estremecer.

Era Jill, não havia dúvidas. Roy, simplesmente, não sabia o que fazer em seguida. Tinha tanto a dizer aquela garota e, ao mesmo tempo, nada.

— Roy, é você? — insistiu ela. — Por favor, Roy!

— Sim, Jill, sou eu — respondeu ele, com a voz embargada.

— Eu liguei, Roy. Precisa ligar.

— Jill... Desculpe-me por ontem...

— Está tudo bem, Roy. eu não o entendi a principio. Depois que saiu com aquela maluca, pude pensar com mais calma em tudo.

— Ainda bem que entendi, Jill — disse ele, achando, que daquela forma era melhor.

— Foi terrível ontem à noite. desejei que você estivesse aqui, seria o meu apoio para suportar as grosserias de Jean Paul.

— Ele a maltratou? Por quê?

— Não, ele não me tocou, mas seria melhor se o fizesse. As historia terríveis que ele conta a meu respeito, apenas para impressionar os amigos... Eles me olhavam como lobos, Roy. Não fosse o medo que Jean Paul lhes inspira, garanto que muitos deles teriam feito propostas...

— Pare, por favor! — pediu ele, fechando os olhos com força e procurando não se deixar tocar por aquele tom de voz emocionado e suplicante.

— Roy...

— sim.

— Tire-me daqui, por favor! — suplicou ela.

Roy percebeu que ela chorava. Seu pedido parecia simples. Bastava uma pequena decisão e tudo estaria terminado. Roy iria lá, como um cavaleiro galante e a arrebataria de sua prisão particular.

Haveria alguns guardas. Roy lutaria contra eles. Aprendera técnicas de defesa pessoal no Exercito. Teoricamente, podia enfrentar três homens armados de baionetas.

Venceria os guardas facilmente. levaria Jill pela mão até o carro. Partiriam para algum lugar distante e viveriam infernizados pelo resto de suas vidas.

A realidade era cruel e difícil. Ele queria libertar Jill. Talvez sua própria libertação residisse naquele fato. Mas como se atrever a isso?

Não era um herói, não tinha vocação para ser herói. Era apenas um advogado principiante, desejando se firmar em sua profissão.

Tinha um ponto numa das mais importante firmas do pais. Ainda não era nada ali dentro, mas o tempo poderia trazer a compensação.

Além do mais, havia Shirley. Se ela cumprisse o prometido, talvez tudo se acelerasse. Jogar isso fora era uma loucura.

Em qualquer parte para onde pudesse fugir, sempre haveria uma forma da vingança de Jean Paul atingi-lo. Para que fazer tudo isso?

Por Jill, que lhe pedia suplicante? Por ele mesmo? O que desejava afinal? O que Jill poderia representar em sua vida senão a mais aventureira das loucuras?

— Roy, por favor! — suplicou ela. — Você me disse que...

Seu tom de voz pareceu dizer tudo que a garota desejava saber. Por alguns instantes Roy ainda ouviu seus soluços. Depois, apenas o ruído da ligação encerrada.

Depositou o fone no gancho, certo de que precisava agora daquele uísque.

* * *

Pouco mais tarde recebeu um outro telefonema. Era do secretário particular de Jean Paul, convidando Roy para um almoço informal em companhia do chefe.

Roy estremeceu, pedindo detalhes a respeito do assunto a ser tratado. O secretario apenas sabia dizer que era de caráter pessoal.

Quando desligou, Roy ficou apreensivo. Sua preocupação era saber se Jill a havia denunciado a Jean Paul. Era fácil para uma garota inventar mil desculpas e jogá-lo na maior encrenca de sua vida.

Depois lembrou-se de Shirley e de sua promessa. Não esperava que as coisas acontecessem tão rápidas. De uma ou de outra forma, seu encontro com Jean Paul era terrivelmente embaraçante.

Como encarar aquele homem poderoso, sendo o que era e sabendo o que sabia? Como tinha usado de algo que lhe pertencia e, por outro, o chantageava através da filha?

Era uma chantagem, Jean Paul poderia entender dessa forma. Roy estava forçando algo, apesar da idéia ser toda de Shirley. Quem acreditaria em sua inocência.

Viu-se perdido diante daquele homem poderoso, Jean Paul lhe dizia algumas verdades e o despedia, prometendo arruinar-lhe a vida.

Jean Paul podia fazer isso, Roy sabia perfeitamente. Ele saíra daquele restaurante arrasado, um perdedor sem chances nenhuma na vida.

Estava trêmulo nervoso, enquanto tentava acertar o nó da gravata. Já consultara o relógio um milhão de vezes. Aquele maldito nó, feito de olhos fechados dia após dia, era incompreensivelmente difícil.

O almoço era informal. ele desprezou o terno, mas precisava estar bem vestido. Afinal, tratava-se do restaurante da moda em Nova Iorque.

Um paletó esporte contrastando com a calça comprida clara. Sapatos de cromo alemão, polidos impecavelmente. Uma loção de barba discreta. Cabelos bem penteados.

Não era um sujeito desprezível;. Fazia boa figura, podia brilhar até se lhe dessem um lugar de destaque. andava na moda, tinha um bom carro, podia se dar ao luxo de férias anuais no Havaí.

E estava apenas no começo. Era cômodo e animador pensar daquela forma. Apesar de frustrante, seu trabalho na firma era compensador.

Olhou-se mais uma vez no espalho. Faria boa figura, se conseguisse dominar seu nervosismo. Talvez um pouco de firmeza o ajudasse a enfrentar a situação.

Ao invés de uma descompostura, poderia até se sair bem, revelando qualidades que fariam Jean Paul olhar com mais atenção aquele seu obscuro advogado.

E Jill, onde ficava naquilo tudo? Simplesmente não havia lugar para Jill e outras loucuras em sua vida. Mas, de alguma forma, ela era uma espécie de trunfo que Roy podia usar.

Sim, faria isso mesmo. Se Jean Paul não a tratasse com o devido respeito, se todas aquelas coisas terríveis que imaginara acontecessem, restaria a ele a chance de uma vingança pessoal: roubaria Jill de Jean Paul.

A idéia era excitante e hilariante ao mesmo tempo. Tremendamente irônico e, apesar de pensar a respeito, Roy não se sentiu culpado por usar a garota.

Era como se... se Jill estivesse ali apenas para isso mesmo: ser usada por alguém.

Era terrível esse pensamento, mas lógico, sordidamente lógico.

Estava, finalmente, diante de Jean Paul. Um batalhão de garçons o cercava. Jean Paul apontou uma cadeira. Um garçom a afastou rapidamente para que Roy se sentasse.

O rapaz lutava com o nervosismo que o dominava, impressionado com o modo como o grande milionário era tratado. O pessoal parecia entender seus desejos com um simples olhar.

Uma garçom se debruçou sobre Roy, perguntando sobre sua bebida. Roy pediu uísque escocês, Jean Paul disse a marca. Num piscar de olhos foram servidos. Roy nunca vira tanta eficiência.

Com um gesto de mão, Jean Paul deu a entender que desejava estar a sós com o convidado. Os garçons se retiraram em fila. Seria divertido se não fosse tão impressionante.

O milionário tomou um gole de seu uísque e depositou o copo sobre a mesa. Tirou um cigarro de uma luxuosa cigarreira. Roy não viu de onde saiu aquele garçom com um isqueiro aceso. Parecia estar em alguma parte por ali, esperando aquele momento.

— Fume um dos meus — disse Jean Paul, estendendo-lhe a cigarreira. — Não os encontrará no mercado, são feitos especialmente para mim./

Seu tom de voz era amistoso, o que deixou. Roy tranqüilo. Ele apanhou um cigarro e levou-o aos lábios. Por instantes esperou que um garçom surgisse com o isqueiro. O cigarro tinha sabor extravagante, mas era bom. Jean Paul tomou mais um gole de seu uísque.

— Deve estar curioso a respeito desse convite, não?

— Sim, claro — respondeu Roy, esforçando-se para demonstrar segurança.

Jean Paul o examinou com os olhos antes de continuar a falar. A situação era quase impossível. O todo-poderoso diante de seu mais intimo servidor. Impossível, mas real.

— Minha filha me falou a seu respeito — falou o milionário, sem ironia, como se aquela fosse uma observação casual.

— Espero que isso não... — interrompeu-se Roy, julgando que a palavra ofensa não tinha sentido na continuidade daquela conversa informal e amistosa.

— Gostei do modo como se livrou dela ontem à noite. Seria um embaraço maior se não pudesse contar com sua decisão, meu rapaz.

Roy desejou saber quais seriam as palavras dele se soubesse que, na noite anterior Roy mal suspeitava de que Shirley fosse filha dele.

Preferiu se calar e continuar atento à conversa. Era o mais indicado.

— Talvez você não saiba ainda, mas sei tudo sobre quem trabalha para mim...

Roy teve um pequeno sobressalto, mas disfarçou o ligeiro mal-estar com mais um gole de uísque.

— Tenho observado seu trabalho. Não é brilhante, mas sabe ser eficiente, o que é importante também. Além disso, parece ter uma influencia muito grande sobre minha filha. Não sei como o conseguiu, mas é importante para que a mantenha ocupada com alguma coisa.

— Ocupada, senhor?

— Ocupada, com algo em que pensar, ao invés de me atazanar a vida, como faz quando...

quando briga com um dos seus namorados, pode me entender?

— Claro, senhor.

— Pretendo aposentar o Johnson. Walker subirá para o posto dele e você irá para o lugar dele. Não é muito, mas é apenas um teste. Vamos ver como você se sairá...

Aquele teste significava que Roy pularia para o meio do corredor, deixando duas ou três salas para trás, não conseguia se lembrar ao certo no momento.

O importante era aquele salto repentino. Posição, mais tinha, algumas facilidades a mais.

Tudo porque estava agindo corretamente, com prudência, sem arroubos de valentia ou romantismo.

— Isso o deixa satisfeito?

— Naturalmente, senhor.

— Caso não saiba, Shirley está agora se preparando para dar uma festa. Com todos os diabos, mas tive de lhe comprar um apartamento hoje, maior que o de Jill, numa localização mais privilegiada ainda.

Roy se lembrou da pressa da garota em sair, naquela manhã. Por que um apartamento era tão importante.

— Talvez ela o convide para ir morar lá. Não se acanhe, é isso que ela sempre desejou. É

uma espécie de oposição sistemática a tudo que faço.

— Entendo, senhor.

— Minha filha e eu temos de nos insultar mutualmente, é forçoso, impossível de ser evitado.

Quero que em ajude a evitar isso, Anderson.

— Como, senhor?

— Faça-a aceitar Jill. Aquela garota é muito importante para mim — pediu Jean Paul, como um mortal comum pediria um favor a um semelhante.

Roy conseguiu reprimir um sorriso de ironia diante das palavras do milionário. Sabia o quanto Jill era importante para ele.

Ela mantinha as aparências e despertava a inveja de que ele necessitava para se impor sobre todos os outros. No fundo, era um velho tolo e acabado.

De algum modo, Roy teve pena dele, obrigando-se a pensar em Jill novamente. Fatalmente se encontrariam novamente. O que aconteceria, então?

Estava, agora, numa outra posição. O que tinha a perder era muito maior. Tudo era muito cômodo e compensador. Um bom cargo, uma boa mulher.

— Vou levar Jill à festa de Shirley esta noite. Cabe a você aparar as arestas e levar as duas a um entendimento. Muita coisa depende disso, Roy — finalizou ele, com uma ameaça velada no tom de voz franco.

— Eu o farei — afirmou Roy, duvidando de tudo.

CAPÍTULO 7

Roy não acreditava, Jean Paul muito menos, mas o impossível acontecera. Nada menos que os deixasse apreensivos, ou exigisse a ação prometida á Roy.

Jill estava lá, Shirley a recebera sem escândalos, sem sarcasmo, sem ofensas. apenas se olharam, como que se medindo.

— Não espera que eu a chame um dia de mamãe, não? — indagou Shirley, mais em brincadeira que em ofensa.

— Você é muito grande para isso — respondeu Jill, com uma resignação cansada, os olhos fugindo ao olhar de Roy, que as observava do centro da sala.

Jean Paul fez um movimento de aprovação com a cabeça. Roy percebeu que aquilo era o abrir-se de todas as portas de sua vida futura.

Shirley queria mostrar o apartamento a Roy. Levou-o a todos ao cômodos. Trancaram-se no quarto. diante dele, ao lado da cama, a garota sorriu. Seu rosto espelhava uma felicidade que a deixava radiante.

— Como me sai? — indagou ela.

— Foi maravilhosa — observou ele, aliviado por evitar, afinal, um embaraço desastroso para Jill.

Havia falado com Shirley antes da festa. Ela nada dissera de concreto, por isso ele temera o inevitável quando as duas se encontraram.

Shirley, no entanto, parecia outra. encontrara em Roy algo que, talvez, houvesse procurado o tempo todo, inutilmente.

Roy era sua resposta, ela estava certa disso, pelo menos no momento. E se amanhã tudo mudasse e Roy não fosse tão importante, ela estava segura de levar consigo definitivamente a imagem de alguém que lhe dera alguma coisa proveitosa realmente.

— Gosta do meu apartamento? — indagou ela, ainda mantendo aquela distância entre eles.

— como o conseguiu tão depressa?

— Eu e meu pai, apesar de tudo, temos nossos momentos de lucidez...

— Tivemos uma prova disso ainda há pouco.

Ela sorriu, caminhando na direção dele.

— Eu o convenci, finalmente. Quanto aos detalhes, nada é impossível para Jean Paul John, mesmo comprar o apartamento modelo de um prédio.

— Eu a sinto feliz, Shirley.

— Devo isso a você, Roy. De repente acordei e me vi ao lado de um homem bom e gentil, capaz de me amar com loucura e disposto a ser meu. Isso muda qualquer mulher, Roy.

— Fácil vem, fácil vai — observou ele, abraçando-a e sentindo-se um tanto orgulhosos de si mesmo.

Afinal, fazia alguém feliz, isso era importante. Se nada podia fazer por Jill, que não fizesse o mundo todo desabar sobre os dois, pelo menos conseguia tornar tudo mais aceitável para todos.

Temia, no entanto, que o entusiasmo de Shirley fosse passageiro. Quem pode entender as mulheres. Tudo fora tão rápido, era impossível uma certeza de alguma coisa.

— Que seja definitivo, enquanto durar, Roy, e sinto que pode durar, se nada mudar em você, em nós.

— E o que pode mudar?

— Nada pode mudar — frisou ela, abraçando-o com força e apertando-o.

Talvez Shirley fosse uma garota mimada, comprando seus brinquedos. Talvez fosse uma louca neurótica, com mania de inconstância e desamor.

Podia ser qualquer coisa. O certo, porém, era que, naquele momento era a chance que Roy esperava naquele corredor.

E Jill, o que era? Um sacrifício, um pequeno sacrifício, necessário ao fluir naturalmente dos acontecimentos, um esforço pessoal a ser feito em beneficio de si mesmo.

Quando a ela, suas necessidades de ansiedades, sua solidão e seu desespero, Roy nada podia fazer. Não havia lógica em pretender fazer algo, que significava um desastre maior.

Era apenas uma garota, mais uma garota, com algo de especial que Roy ainda não intensificara. Podia ser que um dia ele acordasse para um fato que desconhecia, admitindo um outro significado.

No momento, no entanto, não havia sentido em outra coisa que não fosse acariciar o corpo de Shirley, sentindo as mãos dela e desnudando.

A fome constante de amor que animava aquele corpo era um desafio a Roy. ele se dispôs a encará-lo com tudo de si, garantindo-se, como quem garante um investimento maior.

Shirley era a passagem rápida para o extremo importante do corredor. Beijos bem aplicados, como os que espalhava agora nos ombros e pescoço da garota, eram a garantia para isso.

Excitada e fogosa, Shirley o arrastou para o leito. Deitaram-se num salto sincronizado e extravasaram o desejo que os empolgava.

Tornara-se mais fácil agora esquecer Jill, concluía Roy. Já não era o mesmo de antes.

Muitas coisas mudara em sua vida. A cada momento, aumentavam suas chances de sucesso e, consequentemente, seus riscos.

Pôr tudo aquilo a perder, era o mesmo que atira-se pela janela. Se ao menos pudesse entender sua fixação em Jill, talvez sua decisão fosse outra.

Era fácil justificar tudo aquilo como uma influencia passageira, um momento de solidão mútua, de desespero a dois, que os pôs um diante do outro.

Shirley o despia lentamente, cobrindo-lhe a pele com beijos à medida que o livrava de suas roupas. As mão dele soltaram botões e fechos, empurraram tecidos finos sobre a pele macia e feminina.

Nus como o desejo exigia, seus corpos se roçaram e se buscaram com impaciência. Roy a deitou sob si, forçando a abrir os braços para que a visão daqueles seios redondos e agressivos fosse total.

A ponta de sua língua roçou alternadamente cada um dos bicos róseos e entumecidos. Em suspense, a garota aguardou uma caricia mais forte.

Sua mãos buscaram o ponto mais rijo de Roy, brindando-o com sensações desconcertantes nos suaves movimentos de vaivém.

Aqueles seios pequenos e torneados, ao alcance de seus lábios, punham Roy num estado insuportável de excitação. Seus lábios, então, passaram a beijar rapidamente os bicos eretos.

Shirley moveu o corpo, fogosa e inquieta, provocando-o ainda mais. A boca de Roy sobre um dos seios, sugando-o com avidez.

O corpo da garota se contorceu, invadido por uma onda de calor que brotava de seu ventre e causava agitação por onde passava.

Não havia barreiras entre eles. O amor e a paixão os levavam ao clímax da intimidade. Sem hesitação, os lábios de Roy escorregaram pelo ventre de Shirley, até onde suas carnes eram mais úmidas e perfumadas.

Novos e indescritíveis prazeres percorreram o corpo da garota, fazendo-o se contorcer em espasmos prolongados. Suspiros e gemidos suplicantes mais empolgavam Roy em sua ação.

Dai o prazer total foi tudo uma questão de tempo, habilidade e paixão.

* * *

Quando voltaram a ampla sala do apartamento, seus rostos ainda estavam ligeiramente afogueados. A ausência de ambos não fora notada e, se o fora, todos souberam disfarçar.

Algumas coisa mudara na roda de conversa onde Jean Paul estava. Ele parecia falar um pouco mais alto que de costume.

Shirley e Roy se aproximaram. Jean Paul estava bêbado. Jill era mantida junto dele contra sua vontade. Isso era visível pela expressão de seu rosto, onde se misturavam embaraço e vergonha.

Jean Paul gargalhou histericamente ao ver Roy e Shirley. havia ironia e sarcasmo em seu rosto. A bebida o deixava completamente mudado.

— Está bem, Sr. John? — disse-lhe Roy, julgando-se intimo o bastante para fazê-lo.

— quem pensa que é, seu Dr. Ninguém? — indagou Jean Paul, recuando um passo para se livrar da mão que Roy estendia para o seu braço.

Jill recuou com ele, puxada pelo ombro. O desespero e a angustia se estamparam em seu rosto, ofuscando-lhe aquela beleza de uma ternura desmedida.

— Não está pensando que pode me dizer o que fazer, apenas porque concordei em deixá-lo ir para a cama com minha filha, está? — insistiu Jean Paul, cambaleando, a voz pastosa e irreconhecível.

— Papai, por favor! — pediu Shirley.

— Olhe para mim, garota! — disse ele à filha... — sou um gênio. consigo transformar lixo em ouro. Quer dois exemplos? Basta olhar esse advogadozinho de nada e essa vadia aqui comigo...

Não chegou a terminar. A bofetada desferida por Shirley o atingiu em cheio no rosto, deixando-o estupefato. Rapidamente a garota dispensou todos os convidados. Não havia mais razão para a festa.

Jean Paul se deixou cair sobre uma poltrona, ainda incrédulo com o acontecimento ou agora totalmente estúpido pela ação da bebida.

Jill caminhou para a janela. Roy a seguiu com os olhos. tinha certeza de que ela chorava.

Quando o último convidado saiu, Shirley chamou Roy.

— Leve Jill para casa. Conforte-a se for preciso. Nunca vi meu pai assim. Pensei que um acordo entre nós facilitasse tudo, mas de um modo ou de outro, temos de nos ofender e nos irritar sempre, é fatal.

— Está bem, vou levá-la.

— Deixe-me falar com ela antes — pediu Shirley, indo até onde estava Jill.

Roy não soube o que falavam. Sua atenção se voltara agora para o corpo embriagado e adormecido de Jean Paul. Ele roncava como um suíno, um gordo e grande suíno do desalinho de suas roupas.

Roy se aproximou dele, vencendo o temor inconsciente que o forçava a se afastar dali. Jean Paul não era nada naquele estado.

Fosse quem fosse, tivesse o poder que tinha, mas sempre seria aquilo, um velho cada vez mais velho e acabado, senil e bêbado.

A face real do todo-poderoso homem era deprimente e, de algum modo, fez Roy se orgulhar de ser o que era.

Jill passou por ele a caminhou da porta. Shirley disse a Roy:

— Vou chamar o motorista para me ajudar a pôr papai no carro e levá-lo para casa. Espero-o aqui. Cuide para que ela esteja bem. Sinto que eu e Jill podemos ser amigas, já temos um inimigo comum.

Roy concordou com um aceno de cabeça e deixou o apartamento. Jill esperava o elevador.

Roy se aproximou dela, sem saber o que dizer.

Desceram em silêncio até a garagem. Jill não o olhara em nenhum momento. Roy sentia seu corpo tremulo e movido por emoções que ele gostaria de entender totalmente, para poder se entregar a elas.

Era apenas uma questão de saber, mas que poderia decidir seu dia seguinte, seu momento seguinte.

Acomodaram-se no carro de Roy. Ele ligou a chave. O motor ronronou suavemente. Ele se voltou para ela.

— Quer que eu a leva já para o apartamento ou prefere...

— Prefiro que leve agora mesmo — disse ela, enxugando discretamente as lágrimas.

Roy sabia que havia algo que poderia fazer por ela, mas simplesmente não podia fazê-lo.

Por momento, teve a palavra certa entre seus lábios, mas, comodamente, ela se foi sem utilidade.

Ele a levou para o apartamento dela. Não trocaram uma palavra mais ou um olhar que fosse. Eram, agora, dois inimigos na aparência. Quando, finalmente, ela abriu a porta e acendeu as luzes, Roy se sentiu vacilar em suas decisões, fitando aquele tapete onde se amaram uma vez.

— Precisa voltar agora — indagou ela, como se temesse a solidão daquela noite.

— Sim, Shirley estará a minha espera.

— Não sabia de seu romance com ela.

— Aconteceu de repente.

— Quer tomar alguma coisa comigo?

Roy hesitou, querendo aceitar e querendo fugir a uma verdade que poderia surgir a qualquer momento entre eles. Percebendo a sua indecisão, Jill acrescentou:

— Detestaria beber só, esta noite, Roy.

Ele concordou com um aceno de cabeça, incapaz de não se sensibilizar com aquele tom de voz angustiada e triste. Fechou a porta atrás de si e foi se sentar.

Jill serviu dois copos de uísque e foi se sentar diante dele. Estendeu um dos copos para ele.

Roy inclinou o corpo para apanha-lo.

Seus dedos se tocaram por momentos. Os pensamentos se turbilhonaram na cabeça de Roy. O contato daquela pele o transtornava.

Ele conseguiu, no entanto se recuperar e voltar a apoiar o corpo contra o encosto da poltrona. Jill tomou um gole, mantendo a bebida na boca, lábios cerrados naturalmente.

Roy a imitou. Olharam-se. O silêncio era perturbador e embaraçante.

— Como vai ser agora, Roy? — indagou ela.

— Como pode ser agora, Jill? — retrucou ele, no mesmo tom de voz.

Ela cruzou as pernas num movimento natural de corpo. Diante dela, Roy teve a maravilhosa visão de pernas esculturais e coxas tentadoras diante dos olhos.

Pode sentir o perfume insinuante e perturbador daquelas carnes sedosas e firmes. Todo o apelo erótico daquele corpo pareceu explodir diante de seus olhos, prendendo sua atenção.

— Da maneira como você julgar que seja possível, Roy. Quero apenas uma fuga de vez em quando, algo que me faça esquecer momentos como o desta noite.

— Está me propondo...

— Sim, isso mesmo, Roy — disse ela, levantando-se e indo até um móvel.

Abriu a gaveta e retirou um pequeno envelope. Voltou a se sentar, segurando o envelope por momentos, antes de atirá-lo na direção de Roy.

O envelope bateu em seu peito e escorregou para o lado de seu corpo. Roy olhou Jill surpreso, antes de apanhar o envelope e abri-lo.

Havia uma chave ali, presa a uma corrente de ouro.

— Eu a mandei fazer, é uma duplicata da chave da porta. Tenho-a comigo há algum tempo, não a dei antes por falta de oportunidade. Você fugiu de... — ela não terminou o que pretendia dizer.

Roy apertou a chave entre os dedos, olhando-a nos olhos. Aquela garota novamente lhe estendia a mão, pedindo ajuda. Conseguiria ele aceitar os riscos?

— Venha quando quiser, não importa. apenas venha de vez em quando. Pode entrar pela garagem, vir a pé, disfarçar-se, como quiser. Há mil maneiras de burlar a vigilância constante de Jean Paul.

— Até quando poderemos levar isso adiante. Quem nos garante que um dia não seremos surpreendidos?

— Há portas e armários em demasia neste apartamento, isso é muito conveniente às vezes.

Roy entendeu a insinuação. Parecia haver uma resposta para tudo menos para a pergunta que o incomodava: o que Jill significava para ele?

Olhando-a, triste e só a sua frente, era fácil entender que a desejava cobrir de caricias e amor, buscando juntos o prazer do sexo.

Mas isso não podia ser tudo.

CAPÍTULO 8

Aquela chave parecia queimar a palma de sua mão, enquanto ele mantinha seus olhos fixos nos olhos de Jill. Aquele azul intenso e límpido era simplesmente maravilhoso.

Desviou seus olhos para os cabelos dela, repartidos no alto da cabeça e caídos sobre os ombros em dóceis caracóis.

Seus cabelos tinham uma cor dourada e uniforme.

Seguramente, seriam perfumados e suaves ao contanto dos dedos. Mergulhar as mãos naquela cascata dourada seria excitante e repousante.

Seus olhos escorregaram um pouco mais para os olhos expressivos, a boca sensual e travessa, as curvas dos seios por baixo o tecido da blusa.

Depois, um pouco mais abaixo, aquele vale promissor de escuridão e ruína, delicias e conforto. Ela descruzou as pernas, quebrando um encanto.

Com a cabeça ligeiramente baixa, Jill tomava mais um gole de seu uísque, olhando-o por sobre o copo. Havia um convite naquele olhar.

Roy pensou em Shirley, no tempo, na espera. Ela não exigira sua volta imediata. Talvez nem tivesse retornado ao apartamento ainda.

Jill ainda o olhava, como a implorar uma migalha para sua fome, um calor amigo para o seu frio.

Era um risco calculado, mas, diabos, ele desejava aquela mulher, não podia fugir a essa verdade. Sair dali sem tê-la possuído, tomado e dado o que ambos necessitavam, era terrivelmente impossível.

Estavam protegidos naquela noite. Jean Paul estava bêbado, Shirley cuidada dele e depois esperaria por Roy, o tempo que fosse preciso.

Haveria coragem futuramente para aceitar o desafio e enfrentar os riscos? Era difícil para Roy responder a isso. Naquela noite estavam protegidos.

Jill abaixou a cabeça. Seus cabelos escorregaram naturalmente, cobrindo-lhe o rosto. Por momentos, aquilo fascinou Roy, excitou-o, provocou-o.

Ele se levantou lentamente e caminhou a distancia que os separava. Os olhos de Jill se fixaram nos sapatos dele. Suspense e ansiedade fizeram-na tremer ligeiramente.

As mãos de Roy mergulharam no emaranhado dourado dos cabelos da garota, descobrindo-lhe o rosto. Jill levantou a cabeça, encarou-o.

Seus rostos estavam sérios. As mãos dele se firmaram contra as faces dela, forçando-a a se levantar. Frente a frente, suas respirações reagiam no mesmo compasso.

Um momento de indecisão ainda para Roy, antes que se abraçassem com força. Seus lábios se buscaram para selar um pacto, talvez momentâneo, talvez duradouro.

— Jill, é tudo uma loucura impossível de evitar — sussurrou ele, tremulo de desejo.

— Que aconteça, Roy. Que aconteça... repetiu ela, olhando-o com ternura e gratidão.

Roy a enlaçou com força novamente, voltando a beijá-la longamente. Suas mãos escorregaram pelo corpo dela. Jill esfregou seu corpo ao dele.

Roy a empurrou de volta para o amplo sofá, deitando-se junto dela. Seus lábios se buscaram novamente. Roy introduziu sua língua por entre os lábios da garota.

Jill tremia de emoção, o coração batia descompassado, sua respiração era difícil e irregular.

O desejo que os atraí era alucinante e irreversível. Roupas se amontoaram sobre o tapete.

Corpos nus se tocaram com emoção. Por momentos Roy deixou que seus olhos se extasiassem com a visão daquele corpo escultural. Depois, suas mãos iniciaram um caminhada de reconhecimento.

Percorreram-lhe os contornos delicados dos seios, acariciando o ventre liso e achatado, contornaram seus quadris, testaram a rigidez provocante de suas nádegas roliças.

Depois, com lentidão calculada, uma daquelas mãos se introduziu no encontro daquelas coxas sedutoras e carnudas. Seus dedos trabalharam com habilidade, excitando a garota ao extremo.

Jill se contorceu toda, em espasmos de prazer. A língua de Roy penetrou sua boca, provocando-lhe novas emocionantes sensações.

As mãos dela percorriam o corpo dele em caricias ternas e provocantes.

Os lábios dele deslizaram pela face da garota, beijando-a, antes de saltarem para o pescoço torneado e para os ombros retos e elegantes.

Jill prendeu a respiração, o corpo formigando, sensível pelo desejo. O hálito quente e apressado de Roy pairou acima de seus seios. Aquela mão, perdida na umidade de seu ponto mais sensível, transmitia a mais deliciosa das loucuras.

Roy sugou, então, cada um daqueles seios, depois os beijou e os massageou, voltando a sugá-lo e beijá-lo, incapaz de saciar-se com qualquer das caricias.

— Queria o máximo naquele momento, naquela noite, naquele encontro que poderia ser o último entre eles. O futuro era uma enorme incógnita. Decifrá-la era uma tarefa que não cabia naquele instante.

Lábios ardentes deslizaram para o ventre da garota, fazendo-o convulsionar-se, Roy equilibrou o corpo precariamente sobre o sofá. Sua respiração ofegante percorreu o ventre da garota, antes de provocar as sensações mais excitantes e quase insuportáveis.

Algo forte e infinitamente deliciosa se definia no ventre da garota, formando ondas de calor que percorriam sua espinha e transtornavam-lhe os sentidos.

Sua cabeça girava loucamente. As luzes da sala se confundiam com reflexos de espelhos, com cabelos agitados diante dos olhos.

O tempo se fez delicia. O desejo máximo se fez urgente, como forma única de satisfação.

Roy se deitou, então, sobre ela. Jill flexionou docemente os joelhos para os lados, abrindo espaço para que os quadris de Roy se encaixassem aos seus.

a penetração foi lenta e saborosa, uma promissora caminhada ao prazer total.

Golpes firmes e profundos se sucederam, ganhando intensidade e ritmo. Aquela sensação se agitou no ventre de Jill, até um ponto insuportável.

Depois, tudo se fez inconsciência e lassidão no emaranhado de sensações que compões o clímax.

Jill abriu os olhos algum tempo depois. A luz acesa era irritante. Roy se vestia em silêncio.

Ela apanhou a saia caída ao lado do sofá e cobriu o corpo, como se o corpo vestido de Roy a fizesse envergonhada de sua nudez.

— Vai voltar? — indagou ela.

Roy terminou o nó da gravata, automático, perfeito. Não sabia como responder. Algo forte o prendia a Jill. Pena que não soubesse definir o que se tratava.

— Por favor! — pediu ela.

Roy recompôs os cabelos com as pontas dos dedos. Interrompeu o movimento para olhá-la.

Suas mãos ficaram estendidas atrás da cabeça, sem sentido.

Aqueles olhos azuis suplicavam por uma promessa, por uma migalha de promessa.

— Não sei, Jill — respondeu ele, sem nenhuma certeza de nada.

— A chave, vai levá-la — indagou a garota, levantando-se para apanhá-la sobre o tapete e estendê-la para Roy.

As mãos dele penderam imóveis ao lado do corpo. Ele a olhava nos olhos, tentando entender o que sentia em relação a ela, além daquele enorme desejo de tê-la sempre consigo.

— Por favor, mesmo que nunca a use, pelo menos terá me deixado uma esperança. Eu preciso desesperadamente de uma esperança. É só isso que lhe peço agora, Roy.

O conflito interior que ameaçou perturbar Roy foi resolvido do modo mais cômodo e fácil. Ele estendeu uma das mãos e apanhou a chave.

— Obrigada! — disse a garota.

Levado por um impulso irresistível, Roy a apertou em seus braços, beijando-a com ardor.

Depois soltou-a e recuou alguns passos na direção da porta.

Abriu-a lentamente. Antes de fechá-la, seus olhos se fixaram na fechadura e depois na chave que tinha na mão, Jill sorria, gratificada. Aquele Sorriso talvez fosse a última recordação entre eles, Roy não estava certo também. Estava feliz, no entanto, por poder deixá-la com um sorriso nos lábios.

* * *

Quando chegou ao apartamento, Shirley já o esperava. A expressão do rosto dele era cansada e triste. Shirley notou aquilo, caminhando ao seu encontro.

— Foi uma péssima noite, não? — indagou ela, enlaçando-o pela cintura e pousando sua cabeça no peito dele.

— Sim, uma péssima noite, mas não de toda — disse ele, pensando em Jill.

— Não de toda? — estranhou Shirley, levantando a cabeça para olhá-lo.

Roy sorriu e a beijou levemente na testa.

— Claro que não. Ela ainda não terminou e estamos juntos.

— Adoro você, Roy! — exclamou Shirley, beijando-o longamente.

Depois caminharam juntos para o sofá, Shirley tinha dois copos de uísque prontos. Passou um para Roy e se acomodou, a cabeça sobre o ombro dele.

— Tudo está bem com papai... Esteja certo de que ele se desculpará com você amanhã.

— Acredita nisso realmente?

— Eu o fia prometer, em troca de algumas concessões...

— Não entendo.

— Problemas entre mim e ele.

— E Jill?

— Pobre garota! Sinto pena dela. Sempre a julguei uma inimiga. Nesta noite, eu a vi como uma espécie de aliada. Como a deixou.

— Bem — respondeu Roy evasivamente lembrando se daquele sorriso nos lábios da garota.

— Vamos velejar amanhã? Tenho um barco que...

— Não, por favor. Sinto-me cansado demais.

— E tem razão, querido. Passou por emoções que nunca suspeitaria enfrentar um dia, não é verdade?

— Sim, acertou.

A mão de Shirley procurou a de Roy. Seus dedos se enlaçaram lentamente. O calor de um se misturou ao do outro. Os polegares se acariciaram.

Shirley trouxe a mão de Roy para cima de sua coxa. A sensação era macia e agradável. O

dedo mínimo de Roy se moveu de um lado para outro, acariciando-a. ela se ergueu.

— Quer comer alguma coisa? — indagou ela, trazendo um prato de canapés para perto dos dois.

— Parecem deliciosos — disse ele, como se aquela observação fosse uma espécie de agradecimento pelo interesse dela.

Shirley apanhou um dos salgadinhos com as pontas dos dedos e levou-o aos lábios de Roy.

Ele beijou-a na mão em seguida.

Roy deixou seu corpo relaxar. Tudo era confortável e bom. Muito cômodo, também.

— amanhã iremos ao seu apartamento buscar suas coisas — disse ela, servindo-lhe um outro salgadinho.

— Como? — indagou ele sem entender.

— Você vai se mudar para cá. Vamos tentar uma experiência? — propôs ela, repentinamente eufórica e excitada.

— Fale.

— Você vem morar aqui, está decidido. Se tudo correr do modo como esperamos, nós nos casaremos. O que acha?

— Fantástico! — disse ele, dando a ênfase necessária, mas se sentido neutro como se nada mais importasse.

Não devia se sentir daquela forma. Tudo que sempre sonhara lhe estava sendo entregue numa bandeja de ouro. O que mais poderia esperar?

A concentração de um relacionamento que não conseguia entender? Jill, novamente Jill.

Que importava Jill?

— Adoro você — disse a garota, apertando-se contra ele.

Roy acariciou seus cabelos, enquanto fechava os olhos e desejava não pensar em outra coisa senão o futuro promissor que se abria diante dele.

Jill era apenas uma garota, uma garota igual a tantas outras que ele poderia ter, sem complicações, sem riscos, sem jogar nada fora.

Shirley estava ali mesmo, ao seu lado, pedindo apenas para ser mulher e fazê-lo feliz.

— Sabia que há cursos de culinária por aí? — indagou ela, com um sorriso travesso e delicioso nos lábios.

Roy olhou-a com interesse. Interesse e surpresa.

— Quer dizer que vai...

— Sim, vou empregar minha inteligência em algo inédito. Garanto que serei a melhor de todas.

— Como pode alguém mudar tanto? — indagou ele, em voz alta, quando deveria ter sido consigo mesmo.

— É fácil responder a isso, quando se encontra a pessoa certa, Roy — respondeu ela, beijando-o nos lábios, no rosto, no pescoço, na orelha.

Roy a enlaçou, tombando-a sobre seu corpo. Shirley estendeu o corpo, repousada. Roy acariciou seus cabelos com cuidado.

Depois, a ponta de seus dedos deslizou pelos olhos da garota, percorreu-lhe a curva delicada do nariz, caminhou repetidas vezes sobre o ponto de encontro daqueles lábios quentes e sensuais.

Ela desabotoava os botões de sua camisa, afrouxava-lhe o nó da gravata, livrando-o do paletó. A mão de Roy deslizou pelo queixo da garota, acariciou lentamente seus pescoço e depois e depois penetrou resoluta pelo decote.

Carnes quentes e macias, de contato delicioso, foram descobertos por seus dedos. As mão estendidas de Shirley penetraram pela camisa entreaberta, acariciando o peito de Roy.

Ele a levantou ligeiramente para beijá-la. Shirley o enlaçou pelo pescoço, prolongando o beijo.

— Por que não vamos dormir, querido? — sugeriu ela, travessa e maliciosa.

— Por que não? — respondeu ele, repetindo em seguida: — por que não?

Quando fechou a porta atrás de si, Roy desejou estar encerrando aquele capítulo todo de sua vida. Uma chave, pesando em seu bolso, dizia-lhe que tudo aquilo continuaria em aberto.

Jill, sempre Jill. Talvez um dias seus caminhos voltassem a se cruzar. Até lá, muita coisa poderia ter mudado para Roy, inclusive ele, se já não fosse tarde demais.

Shirley se despia sem pressa, com languidez e premeditação, enquanto Roy continuava parado, pensando.

Quem sabe, amanhã pensasse de outra forma e decidisse romper consigo mesmo, agindo de acordo com o coração e não com a maldita razão?

Shirley nua, se estendia sobre o leito, vibrando ao olhar intenso que Roy depositava sobre ela.

Ele começou a se despir também, sem pressa, buscando a última conclusão. Era a mais perigosa e desejada de todas.

Talvez fosse o bastante saber que Jill dia após dia, noite após noite, estaria lá, à espera dele, sem mais nada pedir ou exigir em troca.

Nu, ele desligou todas as luzes e guiou-se pela respiração ofegante de Shirley.

LOURIVALDO PEREZ BAÇAN