Apelo da terra por L P Baçan - Versão HTML

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1ª Edição Eletrônica

L P Baçan

Autor

Edição Eletrônica: L P Baçan

Novembro de 2009

All rights reserved

Copyright © 2009 do Autor

Distribuição exclusiva através do

SCRIBD

Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

APELO DA TERRA

"Tenho às vezes a impressão de que os homens de

todas as nações da Terra enlouqueceram, mas

acho que nós devemos conservar a nossa

sanidade mental para trazer ordem ao mundo e

evitar que nele se estabeleça definitivamente o

caos..."

(Érico Veríssimo em O Prisioneiro)

Tropeçou na sombra vacilante de uma estátua eqüestre e parou. Alisou a barba escura e rala no seu queixo rugoso e quadrado e olhou as nuvens roxas fixas no céu lilás. Sorriu. Afinal começava a compreender o mundo. O

universo das coisas minúsculas não mais lhe era tão desconhecido. Os ponteiros do relógio pareciam correr em sentido oposto. Marcavam uma hora que não lhe interessava no tempo e no espaço. Concluiu que breve, muito breve mesmo, teria outra crise. Apressou-se.

Seguiu entretido em contemplar os edifícios da avenida, feitos como blocos de madeira sobrepostos, como um quebra-cabeça infantil. Um vento grosso e chocante vergastava as árvores. A hora da crise chegava. Um pavor delicioso insinuava-se sorrateiramente pelo seu corpo sem penas. Grossas gotas adocicadas de um suor vermelho escorriam-lhe pelos cabelos, molhando a nuca, onde uma veia nervosa saltitava. Dentro de pouco tempo a crise chegaria. Era preciso preparar-se para ela. A cada uma, seguia-se outra, mais forte, mais mortal. Tudo dentro de um espaço de tempo preenchido por esperas angustiantes e sombrias.

As crises começaram estranhamente. Houve uma aerofagia, uma explosão, um caixão e um lençol cor-de-rosa. Refletida num espelho, metade de seu corpo ficou fechada numa escuridão de abandono. Depois, a chaga na terra abriu-se e nela incrustaram o caixão. Um punhado de terra, então, escorreu-lhe pelos dedos e trouxe os primeiros sintomas, mais tarde agravados, que denunciaram a inexplicabilidade daquela doença que o colocaria em posição privilegiada entre os homens comuns. Não havia dúvida.

Fora escolhido pelos deuses e aquela doença era a prova. Mais tarde, quando trabalhava seu ócio, aquele mudo apelo, que se repetiria muitas vezes, explodiu-lhe aos ouvidos. Era, aliás, mais um lamento deteriorado que propriamente um apelo. Primeiro aquela vontade de agigantar-se, inchar-se como um balão negro, tornar-se incomensuravelmente grande e subir, subir bem alto. Em seguida, lá de cima, do topo da sua iniquidade, pouco a pouco deixar escapar o gás da vida e tornar-se pequeno. Após esses primeiros sintomas, agulhadas de uma dor estranha feriam-lhe o corpo todo, fazendo-o suar aquele suor vermelho que lhe escorria pela testa. Vinha, então, a crise propriamente dita. As primeiras foram fracas. As últimas tornavam-se gradativamente mais fortes. Vinha a atração forte e irresistível que o levava, e ao seu corpo, rumo à terra. E vinham as dores das raízes que lhe saíam pelo corpo e fixavam-se no solo em busca de agasalho e alimento. E a terra, como um imã, fazia seu corpo grudar-se à poeira, feria-o, maltratava-o, sugava suas energias. Depois, as raízes lentamente se desprendiam do corpo em ruídos de carvalho arrancado à terra virgem. Acontecia então aquela terrível paz, aquela angustiante sensação de alheamento e imortalidade que o fazia pisar firme e forte sobre os calcanhares.

Os pingos dourados de chuva que caíam, dançando ao som dos trovões, iluminados pelo néon dos relâmpagos, despertaram-no das recordações do presente. O suor escorria mais rápido, misturando-se à chuva que o lavava, tingindo seu corpo. Notou, de repente, o assanhamento das raízes que intumesciam a pele e ameaçavam rompê-la. Estava prestes a ter a crise. Mas a chuva caindo ameaçava deter os bondes que corriam sobre corrimões e a interromper, por longas horas, o vaivém sem atropelos dos carros no leito do rio. Uma revelação caiu-lhe pesadamente sobre os ombros. Sem condução, como alcançaria um parque, um jardim, um pedaço de terra onde as raízes pudessem nascer e desenvolver a vida? Onde plantaria ele as raízes-sementes de uma nova raça que surgiria para triunfar sobre a inutilidade dos homens?

Pensamentos arrepiantes crivaram seu corpo de medo, ao recordar-se daquela vez. Seu corpo se retraía de frustração ao recordar quando ficara preso no elevador, sem poder sair e plantar raízes. Aquela dor, aquela miserável e adorável dor de um parto inexplicável torturara seu corpo por longas horas de orgulho. Até que caísse imantado sobre a terra da construção, na avenida dos sonhos, pareceu-lhe haver transcorrido um século de dores e dores. E naquele tempo, eram crises pequenas, facilmente suportáveis. Mas agora seu corpo maternal atingia um alto grau de procriação, respeitável para a sua nova raça.

Como resistir? Urgia vencer um tempo que caminhava rumo ao passado.

Urgia vencer a chuva que escorria pelos prédios, molhando as folhas cor de mel de árvores imóveis em sua fatalidade. Mas como? Como vencer o aborto antecipado, se a terra clamava seu lamento-apelo de vida e morte?

Um sol de dardos envenenados de marrom escuro atravessou as nuvens e veio dar-lhe uma esperança fugidia. Era impossível prolongar por mais tempo aquela ansiedade louca de parir raízes e deixar-se sugar pela mãe-terra, que gestaria e desenvolveria seus filhos-plantas, futura raça a dominar a humanidade. Era impossível prolongar por mais tempo o nascimento das minúsculas raízes que se agitavam na ação uterina.

Mas a chuva dourada, de volta, dissolvendo os últimos dardos de sol, pôs fim a suas esperanças. Um longo explodir de faíscas e fogos pirotécnicos acolheu a chegada festiva de um raio que inutilizou de todo a inutilidade dos semáforos. Era o fim. O relógio estava a poucos passos da hora fatal. Logo, logo os primeiros sintomas se manifestariam. E depois? Como reter os filhos-raízes? Seria humanamente impossível.

— Balões, balões de vida, balões de morte, balões inúteis, balões de sabão, balões de sonho, quem se arrisca? Olhem os balões, comprem os balões e acabem-se com os balões — apregoava um anão incomensuravelmente gigantesco, atrás de um balcão de névoa, à margem da avenida.

Interessado e desesperado, desesperado e interessado, o homem examinou as protuberâncias de seu corpo. Era tarde demais, não poderia esperar. Não suportaria. Um passo a mais e pronto: chegaria a hora fatal.

Com gestos despretensiosos, tirou do bolso um pedaço de pedra, inexplicavelmente verde, e comprou três balões negros. Com suspiros e gemidos de parturiente, encheu os três, até o máximo, com uma facilidade espantosa para seu estado. Depois, amarrou cuidadosamente, com nós cegos duplos, um no braço esquerdo, um no direito e o último na cabeça. Esperou que uma brisa passasse e, entre dores, suor vermelho e chuva dourada, sentiu que os filhos nasceriam mortos. A terra, vendo seu estado, lamentou seu último apelo. A brisa impulsionou seus pés e ele subiu, subiu e agigantou-se, subiu e inchou-se, depois caiu, caiu, caiu!

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