Aposta Indecente por Mathilda Wright - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

Sinopse

Paris, 1854. Um dos homens mais ricos de França, o marquês de Villeclaire

tem uma vida luxuosa e despreocupada, onde não falta nada que o dinheiro e a

sua posição social possam pagar. Mulheres, jogo, festas, caçadas, palácios…

Mas uma aposta faz com que os destinos de Villeclaire e Catherine

Duvernois, uma jovem e misteriosa viúva, se cruzem, num momento em que uma

nuvem negra tolda os dias do belo marquês, prestes a casar, contra sua vontade,

com Blanche de Belfort.

A vida de Louis de Villeclaire desmorona-se…

Quem é Catherine Duvernois? E Blanche de Belfort? Alguém está mentindo.

Mas quem? Porquê? A resposta mudará para sempre o futuro destas três

personagens.

Um romance arrebatador, que se desenrola entre os sofisticados salões da

aristocracia parisiense e as deslumbrantes paisagens do vale do Loire, levando os

leitores numa viagem inesquecível por cenários de sonho, durante o reinado do

Imperador Napoleão III.

CAPÍTULO 1

Havia duas coisas que Louis de Villeclaire não dispensava: um bom

champanhe e mulheres bonitas. Como Cléa, a pequena alsaciana1, acabada

de chegar a casa de Madame Martine e que lhe mostrava que sabia usar a língua

não apenas para falar, quando foram interrompidos por vozes vindas do salão, no

andar de baixo, e barulho de gente que corria e falava no corredor.

— Que inferno! — exclamou Louis soerguendo-se num cotovelo, o belo

corpo nu iluminado pelo enorme candelabro de doze velas que ardiam ao lado da

cama.

Cléa parou de lhe lamber o interior das coxas musculadas. Olhou para ele

um pouco assustada:

— Será fogo? — a jovem abriu muito os seus já enormes olhos castanhos.

Louis soltou uma gargalhada irônica.

— Fogo, Cléa? Diz antes o cavalo do Vertou! Não sei porque é que

Martine franqueia a porta de sua casa a esses burgueses novos-ricos que não se

sabem portar como cavalheiros...

A rapariga saiu da cama com um salto ágil de gazela e envolveu as suas

deliciosas curvas num luxuoso roupão de seda cor de pérola bordado com exóticos

pássaros azuis e laranja.

— Vou ver o que é... — disse Cléa, e deixou o quarto, fechando a porta

atrás de si.

Louis deixou-se ficar estendido na cama, irritado com aquela interrupção

inusitada. A culpa era, certamente, de Vertou que não sabia nem beber nem

lidar com mulheres e que, a nadar em dinheiro novo, frequentava agora os

melhores bordéis de Paris. Ainda há dois dias tinha armado um enorme escândalo

1Relativo ou pertencente à Alsácia.

em casa de Colette, numa festa em que ele e os seus amigos de pândega se fizeram

açoitar com chicotes pelas raparigas. Um depravado sem maneiras! Até para se ser

depravado era preciso ter educação. Essa era, pelo menos, a opinião de Louis de

Villeclaire, ele próprio um depravado assumido. Uma fama lendária envolvia o seu

nome desde a primeira noite em que pisara o melhor e o mais exclusivo bordel de

Paris.

Oh! Como as coisas tinham mudado... Ainda se lembrava daquela tépida

noite de primavera de 1834 quando o pai, o velho marquês de Villeclaire, o tinha

trazido, pela primeira vez, a ele e a Gaston, o jovem príncipe de

Montblanc, àquela casa. Ainda hoje, mais de vinte anos depois, podia sentir a

maciez das alcatifas que atapetavam as salas, o cheiro suave do perfume das

mulheres, o toque delicado dos seus vestidos soltos, quase transparentes, que

mostravam mais do que encobriam. E lembrava-se de Martine, claro!

Como poderia tê-la esquecido? O porte de rainha da bela mulata, os seus olhos

verdes, amendoados, os lábios cheios, trocistas, recostada numa chaise-

longue forrada a veludo cor de sangue, lânguida. Lembrava-se de se ter sentido

minúsculo perante aquela mulher de quarenta anos que o olhava de alto a baixo e

cujos olhos o atingiram como um raio. Da vergonha que sentiu de que os outros, o

pai, sobretudo, pudessem perceber a sua aflição. E a mão de Martine a acariciar seu

rosto:

— Como é bonito... — disse ela e o seu sotaque crioulo soou como música

aos ouvidos do jovem Louis. E depois, voltando-se para Gaston, passando-lhe os

dedos pelos caracóis louros: — Mon prince !

Como tudo era calmo naquela casa, nesse ano de 1834, quando Martine

lhe pegou na mão e o conduziu pela enorme escadaria de mármore que leva ao

seu quarto. Louis tinha apenas quinze anos e sentia as pernas tremerem

enquanto vencia os degraus. Mas também se lembrava de que essa fora a primeira

e única vez em que lhe custou subir aquelas escadas. Depois dessa noite, voltara

milhares de outras. Quase sempre com Gaston, o cobiçado príncipe de Montblanc,

e também com Laurent, conde de Juy, Pierre, marquês de Forchemont, e Marcel

Bachelard, filho de um dos maiores banqueiros de França, burguês e judeu, é certo,

mas educado pelos melhores preceptores de Paris e, por isso, um homem elegante,

refinado e também ele um dos seus companheiros inseparáveis de borga desde o

tempo em que todos frequentavam o mesmo colégio. Como tudo era civilizado e

silencioso em casa de Martine, em 1834 e nos muitos anos que se seguiram.

Aconchegou-se mais entre as cobertas fofas da cama de Cléa e ficou apensar no

calor suave de todos os corpos de mulheres que tinha amado naquela casa.

Nanette, Renée, a louca Helène, insaciável, que fazia amor coberta de esmeraldas e

contava que era filha ilegítima do czar Alexandre da Rússia...

— O conde de Joubert, senhor marquês... — ia começar Cléa a contar

quando voltou a entrar no quarto, pálida, como se tivesse visto um fantasma.

Louis voltou-se na cama, desagradado por aquela entrada intempestiva

lhe ter desviado o pensamento de Helène, a louca, com quem uma tarde tinha

feito sexo atrás de um dos túmulos da cripta de Notre-Dame. «Não seja mau,

venha ter comigo. Vou rezar para que o papá me aceite como sua filha. Quero

vê-lo», tinha escrito no bilhete que lhe mandou pela criada. E ele foi, por desfastio

e porque não lhe apetecia a tarde literária em casa da tia Clemence, princesa de

Auvergne. Poesia chocha, chá quente, velhas a cheirarem a violetas e

raparigas desengraçadas, mortas por o caçarem como marido, apesar da má fama

que o envolvia, mas deslumbradas pelo seu título de marquês de Villeclaire e,

também, pela sua enorme fortuna. Chatice por chatice antes as rezas de Helène,

para se tornar princesa da Rússia, à literatura da tia. Por isso foi e por isso mostrou

a cripta da catedral a Helène quando ela, a fazer beicinho, lho pediu:

— Imagine, há dois anos a viver em Paris e nem conheço Notre-Dame!

Helène, de repente, muito interessada nos pormenores da arquitetura

mortuária francesa. A querer ver tudo e, atrás de um túmulo, com habilidades de

contorcionista a tornar-lhe o sexo duro, enorme, e a debruçar-se sobre a tampa do

sepulcro para ser possuída por trás. Helène aos gritos, os dedos cravados nas

pregas de pedra de um manto real qualquer, descontrolada. O sacristão, velho e

quase surdo, a passar por ali e a olhar espantado para a aflição daquela rapariga

tão nova.

— Um antepassado — disse-lhe Villeclaire. — Está muito comovida...

Helène, a louca !

— Vem! — disse Louis abrindo os olhos, na urgência que as recordações de

Helène lhe tinham deixado no corpo.

— Monsieur, o conde de Joubert... — repetiu Cléa, e parecia uma menina,

pálida, assustada, o pequeno corpo a tremer — está lá em baixo, ferido, matou um

homem...

Villeclaire despertou imediatamente do torpor em que a noite com Cléa e

as recordações de várias outras noites, muito antes de Cléa, o tinham deixado e

saltou da cama, nu. Bertrand de Joubert não era exatamente um amigo, mas era

um cavalheiro, como ele, um velho conhecido, um vizinho cujo castelo no Vale do

Loire ficava muito próximo do enorme palácio que Louis tinha herdado naquela

mesma região. Vestiu-se à pressa, amaldiçoando as inúmeras peças de roupa que

um homem elegante era obrigado a usar,e saiu do quarto ainda a compor o cabelo

seguido por Cléa, pobre Cléa, em pânico.

Louis de Villeclaire foi um dos últimos clientes de Madame Martine a entrar

no enorme salão onde os grandes espelhos de molduras douradas reverberavam à

luz das centenas de velas que ardiam, envolvendo o ambiente num cálido odor de

cera e almíscar. As paredes, ricamente forradas de damasco azul eram testemunhas

mudas das muitas conversas ali mantidas ao longo dos anos. Negócios de Estado,

vendas de bancos, nomeações de diplomatas, substituições de ministros, até o

início da guerra na Crimeia, dizia-se, tinham sido decididas naquela sala onde

Martine recebia os seus seletos clientes e onde, enquanto estes bebiam champanhe

e fumavam longos charutos perfumados, as belas raparigas que trabalhavam em

sua casa exibiam as suas formas esculturais dançando ou, simplesmente,

conversando em pequenos grupos.

Mas não era nada disso que se passava naquela noite quando Louis desceu

do quarto de Cléa e entrou no salão. Bertrand de Joubert jazia num dos canapés

forrados de seda azul-celeste, e o doutor Moreau, o mais famoso dos médicos de

Paris, acabava de lhe colocar uma ligadura no braço direito. Havia na sala uma

agitação desusada. Os risinhos das raparigas tinham sido substituídos por sussurros.

Homens circunspectos conversavam em voz baixa. E Martine, mantendo o seu

porte de rainha crioula, segurava a mão de Joubert.

— Vamos, onde te meteste? Por pouco não subi para arrombar a porta do

quarto de Cléa. — Pierre de Forchemont puxava o amigo, a caminho da saída.

— O que é que aconteceu? — queria saber Villeclaire.

— Conto-te quando estivermos a salvo dentro da minha carruagem. A

polícia não tarda a aparecer...

— E os outros? Marcel, Laurent, Gas...

O marquês de Forchemont nem lhe deu tempo para acabar a frase:

— Estão à nossa espera no Gascogne, com ostras e champanhe. Conto-te

pelo caminho.

A carruagem que já os esperava à porta atravessou a Rue Saint-Honoré e,

logo depois, os cavalos trotavam ao longo da Rue de Rivoli finda a qual

depositaria os passageiros junto das magníficas arcadas da Place de Vosges, onde

ficava o Gascogne, restaurante frequentado pela alta sociedade parisiense e com

fama de ter as melhores ostras de França. Chovia torrencialmente e as grossas

gotas de chuva batiam no tejadilho2 da carruagem fazendo um barulho

ensurdecedor, ainda piorado pelo som das ferraduras dos quatro possantes cavalos.

Era impossível conversar, fazer perguntas. Por isso, Louis de Villeclaire limitou-se a

ouvir o que o seu amigo Pierre de Forchemont lhe contava, aos gritos e entre

gargalhadas:

— Uma aposta estúpida! Entre o Joubert e o Duvernois, o velho notário

da Rue des Archives... Nem percebi bem! Uma confusão qualquer aos dados que

acabou numa aposta sobre qual deles era mais rápido a disparar uma pistola...

Villeclaire soltou uma gargalhada:

— Dois apostadores inveterados e dois péssimos atiradores!

— Mas, pelos vistos, ambos com a mesma velocidade no gatilho — disse

Forchemont. — O Joubert foi atingido num braço e a ironia é que, apesar de mau

atirador, desta vez acertou no alvo. Matou o Duvernois...

— Matou? — Villeclaire já não ria.

2Teto de automóvel ou de qualquer veículo; capota.

— Matou — respondeu Forchemont no momento em que a carruagem

parava em frente à porta do restaurante. Saíram a correr para chegarem ao

abrigo das arcadas antes que a chuva os deixasse encharcados.

— Onde foi isso?

— Marcaram encontro para esta noite, no Bois de Bologne.

—No Bois? — ainda perguntou Louis.

—No Bois, meu caro! Se é isso que queres saber, trouxeram o Joubert para

casa da Martine porque calcularam que o bom do Moreau lá estaria. Às três da

manhã era a melhor maneira de lhe arranjarem rapidamente um médico. —

Pierre ainda disse, cínico, antes de empurrar a porta de madeira e vidro: — Uma

ideia disparatada! Estragar assim a noite a um cristão... Acabaram-nos com

a pândega! O Joubert é primo de um ministro do Império e na Martine ninguém

toca, que Napoleão III não deixa. Por alguma razão ela lhe fornece as melhores

raparigas de Paris e arranja os disfarces para que Sua Excelência se possa encontrar

com elas. Mas, enfim, conosco é diferente, ninguém nos ia safar de ficar ali até de

manhã, à disposição de um cabo de esquadra qualquer, a querer fazer perguntas a

torto e a direito...

Villeclaire sorriu discretamente e entrou no Gascogne atrás de Pierre.

O jovem marquês ainda sorria quando se juntou aos três outros amigos

que, num gabinete privado, já bebiam champanhe enquanto esperavam as famosas

ostras.

Laurent contava aos outros as maravilhas de Andreja, a polaca loura com

quem tinha estado nessa noite em casa de Martine. Mas interrompeu-se quando

viu Louis entrar:

— Morre um homem, estragam-me a noite com Mademoiselle Andreja e

tu, meu velho, entras aqui com essa cara de felicidade?... Há que experimentar os

dotes dessa Cléa se ela te deixa assim!

— Enganas-te, meu caro. Por uma vez, a minha felicidade nada tem a ver

com mulheres e nem sequer com champanhe. Simplesmente, esta noite, fiquei um

pouco mais rico...

— Ah, não! Louis, não vais aproveitar esta ocasião, já de si um pouco

fúnebre, para nos anunciares que a tua tia Clemence, finalmente, te convenceu a

casares com uma das enfadonhas herdeiras ricas que frequentam os seus chás

literários...

— Não, nada disso, meu querido Laurent! Quantas vezes vos disse que não

fui talhado para o casamento? Sou um pássaro que precisa de liberdade...

— E então? — perguntou o príncipe de Montblanc — vais contar-nos a

origem desse dinheiro que fará com que a tua escandalosamente enorme fortuna se

torne ainda um pouco mais escandalosamente enorme?

Louis de Villeclaire esfregou as mãos saboreando a curiosidade dos amigos.

Acendeu um charuto e ficou a ver as ondas de fumo desfazerem-se no ar. Um

criado bateu à porta e pediu licença para entrar. Trazia uma travessa onde

brilhavam deliciosas ostras que inundaram a sala com o seu cheiro de mar.

— Alphonse, mais champanhe! Muito gelado! — pediu Louis.

Sentaram-se na mesa requintadamente coberta por uma toalha de linho

branco, com finos bordados e prepararam-se para provar aquela ceia servida em

caríssimos pratos de porcelana e talheres de prata. Antoine Gascogne sabia como

agradar aos seus melhores e mais exclusivos clientes.

— Se não vais casar com uma herdeira rica, conta-nos como ficaste ainda

mais rico — pediu, curioso, Gaston de Montblanc.

— Muito fácil, meus amigos! Que outra maneira existe de um cavalheiro

aumentar, do dia para a noite, a sua fortuna? Ganhei uma aposta!

— Que aposta, Louis? Tu próprio nos contaste que estiveste em casa, a ler,

durante todo o dia. Depois, jantaste conosco em casa do Bachelard e fomos juntos

para a Martine... — lembrou Laurent. — A menos que, agora, faças apostas com o

teu mordomo ou com o teu cocheiro...

— E, por acaso, eu disse que tinha feito a aposta hoje? Contei-vos,

apenas, que a tinha ganho hoje. Aliás, para ser exatamente preciso, ganhei-a há

menos de uma hora. Mas é uma aposta antiga. — Louis riu-se. — Enfim, não muito

antiga... tem duas semanas ou coisa parecida.

O marquês de Villeclaire serviu-se de ostras e mostrou-se deliciado com o

manjar que os amigos tinham escolhido para a ceia. Mas, à volta da mesa, mais

ninguém comia e todos estavam suspensos do que Louis tinha para lhes contar. E

como este parecia mais interessado nos mariscos do que em satisfazer a curiosidade

deles, Marcel, o banqueiro, não se conteve:

— Então, vais ou não dizer-nos que aposta foi essa?

— Devias, antes, perguntar-me a quem ganhei a aposta Bachelard...

— A quem? — perguntaram Pierre e Laurent em coro.

Louis deu uma enorme gargalhada antes de responder:

— Ao morto!

— Como foi isso? — quis saber Gaston.

— Eu vos conto... — decidiu-se a dizer, finalmente. E contou aos amigos

que, há duas semanas, depois de ter estado com eles no baile da condessa de Balac,

e quando já ia na sua carruagem a caminho de casa, não tendo sono, decidiu

dar ordem ao cocheiro para parar a meio dos Campos Elísios. De repente, tinha-

lhe apetecido tentar a sorte na roleta, depois de uma noite com muita sorte com

Madame Bousquet, a bela ruiva casada com um dos maiores proprietários de Paris.

Por isso, mandou o cocheiro parar e entrou no Casino Étoile.

— Estava um pouco bêbedo... — confessou Louis de Villeclaire, como a

preparar os amigos para o que se seguiria.

Tendo provado a si próprio que essa era, de fato, uma noite de sorte

excepcional e guardando já os 300 francos que acabava de ganhar numa

única jogada, foi parado por uma mão que lhe travou o braço. Era Duvernois!

— Meu jovem marquês! Reparei que ainda agora entrou e já o vejo sair.

Uma noite má?

— Não, muito pelo contrário! Vim provar a mim mesmo que estou

invencível... — respondeu com uma gargalhada. Os olhos do velho notário

brilharam ao ouvi-lo dizer tal coisa e ali mesmo o desafiou para uma aposta

absurda com o argumento de que não havia homens invencíveis, nem sequer por

uma única noite. Villeclaire que escolhesse um número, sem fichas na mesa. Ele,

Duvernois, escolheria outro. Se nenhum deles acertasse a coisa ficaria por aí

mesmo, aprendendo Villeclaire que Duvernois tinha razão quanto à

impossibilidade de se ser absolutamente invencível. Se algum deles acertasse,

receberia do outro dois mil milhões de francos...

— Dois mil milhões! — exclamou Marcel de Bachelard em tom chocado

com a exorbitância do montante da aposta.

—Trinta e três vermelho! — disse Villeclaire e ainda acrescentou: — Contra

todos os outros números, Duvernois. Hoje estou especialmente generoso.

Os quatro rapazes soltaram exclamações de horror. E Gaston não se

conteve:

— Um pouco bêbedo, Louis? Estavas completamente embriagado...

Villeclaire não lhe respondeu e continuou a contar aos amigos que esse

número lhe veio à cabeça por ser a idade de Madame Bousquet, e a cor? Ah! A cor

era a do vestido que essa senhora usava nessa noite e lhe espalhava nos cabelos

ruivos um ardente tom de fogo. Era um cavalheiro e, por isso mesmo, dispensou-se

de acrescentar que eram também de fogo os beijos que trocou com ela, no jardim,

enquanto o marido jogava bilhar e fumava charutos no aconchego elegante da sala

de fumo dos condes de Balac.

— E?... — perguntou Gaston de Montblanc.

— E saiu o 33 vermelho... — disse Louis de Villeclaire.

Todos ficaram em silêncio perante tamanha temeridade. E o

estouvado marquês prosseguiu com a sua história: dois dias depois passou

pelo gabinete de Duvernois, na Rue des Francs Bourgeois, para cobrar a dívida e o

velho notário confessou-lhe não ter o dinheiro disponível. Mas logo ali se

prontificou a assinar uma nota de dívida, a vencer daí a duas semanas, a 18 de

novembro de 1857.

— Amanhã... — sussurrou Laurent de Juy.

Villeclaire continuou a contar os pormenores do negócio, que por vontade

de Duvernois, tinha ficado estabelecido em escritura pública feita perante outro

notário, amigo do devedor. Se, à data combinada, Duvernois continuasse a não ter

disponível a quantia devida, os dois mil milhões de francos, todos os seus bens

passariam para a posse de Villeclaire.

— Por isso, meus amigos, bebamos! Esta noite fiquei dois mil milhões

de francos mais rico e, passada uma semana de luto, como manda a decência,

tenciono visitar a família do bom Duvernois para apresentar condolências e...

cobrar a minha dívida!

— Família? Será que o Duvernois tem família? — perguntou Gaston de

Montblanc — Sabemos que vivia numa bela casa na Rue des Archives e que tinha

gabinete na Rue des Francs-Bourgeois. Mas família? Nunca ouvi falar... Vocês

ouviram?

Todos concordaram que, apesar de Duvernois ser um homem conhecido

em todos os locais de Paris onde houvesse apostas, nunca ninguém lhe tinha visto

a família. Nem sequer tinham ouvido falar...

— Nem nas corridas de cavalos de Chantilly apareceu alguma vez com a

mulher — lembrou Marcel.

Pierre soltou uma gargalhada:

— E nunca o vimos em nenhum lado onde houvesse mulheres! O velho era

louco por cavalos e mesas de jogo, mas mulheres...

— Haverá, certamente, uma velha e simpática Madame Duvernois

escondida na casa da Rue des Archives. Ou, no pior dos casos, um procurador

qualquer que agora trate dessas minudências — disse Louis.

— Pois eu, meu caro Villeclaire, no teu lugar, não esperava nem mais um

dia, após a semana obrigatória de luto, para visitar seja quem for que viva para lá

dos portões daquela casa. Ao que sei, o velho Duvernois deve-te dinheiro a ti e a

mais não sei quantos. Sempre teve fama de usar as suas artimanhas de notário para

não pagar o que devia. Como tu, esta noite, muitos outros terão certamente a

mesma ideia de ir apresentar condolências à viúva. Apressa-te, para que sejas, se

não o primeiro, pelo menos um dos primeiros...

Louis não respondeu mas guardou para si, muito bem guardada, a

informação utilíssima que o amigo acabava de lhe dar e prometeu-se que, daí a

oito dias, sem adiamento algum, iria à Rue des Archives. Caramba, dois mil

milhões sempre eram dois mil milhões!

Louis acordou tarde, como acontecia quase sempre quando estava em Paris.

Passava as noites nos teatros, nos bordéis, nos bailes de alta sociedade e, assim

como assim, tanto lhe fazia. Na cidade não havia muito mais que um homem

elegante pudesse fazer. Por isso, era já perto do meio-dia quando Maurice, o seu

criado pessoal, entrou no quarto com a bandeja de prata em que, todos os dias,

lhe servia o pequeno-almoço. Pousou-a sobre uma mesa, abriu os pesados

cortinados de veludo azul que impediam que a luz despertasse cedo de mais o

jovem Marquês e ficou à espera que o amo acabasse de se espreguiçar.

— Bom dia, senhor marquês!

— E é este um bom dia, Maurice? — Quis saber Louis.

— Talvez não, meu senhor! Começou a nevar...

Louis bocejou. Voltou a espreguiçar-se. Recostou-se nas almofadas e o

criado aproximou a bandeja com a primeira refeição do dia.

— Há correio?

— Sim, senhor marquês, a maior parte serão convites e chegaram duas

cartas em mão, uma do seu procurador e outra de... — Maurice interrompeu-se,

sem saber como terminar a frase.

— De quem, meu velho? De Madame Bousquet?

O criado confirmou com um aceno de cabeça.

— Ah, não! A chata Madame Bousquet! Tão chata quanto bonita. Estava a

ser tão divertido e, imagina, teve a infeliz ideia de se apaixonar por mim. As

mulheres estragam tudo quando se apaixonam, Maurice... — e como o criado não

respondia, o marquês de Villeclaire insistiu: — Não dizes nada?

Maurice sorriu.

— Que quer o senhor marquês que lhe diga?!

Louis riu-se e começou a tomar o pequeno-almoço enquanto abria o

correio e ia dizendo alto:

— Um baile em casa dos duques de Saint-Denis... almoço em casa da tia

Clemence na próxima sexta-feira... ceia em casa dos príncipes Walensky... Ah! E

Madame Bousquet quer que vá visitá-la hoje, à hora do chá. Hoje? Que dia é hoje,

Maurice?

— Terça-feira, 25 de novembro, meu senhor.

Louis lembrou-se, então, que a semana de luto por Monsieur

Duvernois acabara na véspera e que devia, nesse dia, sem falta, visitar a família e

cobrar a dívida.

— Papel e pena, Maurice. Tenho de agradecer o convite a Madame

Bousquet e avisá-la de que não poderei ir.

Abriu, depois, a carta do procurador e ficou a saber que seria conveniente a

sua presença no seu castelo do Vale do Loire para decidir com o feitor alguns

assuntos relacionados com as sementeiras de inverno naquela sua grande

propriedade. Normalmente detestava tratar desses assuntos. Que plantassem

batatas ou curgetes3 a ele tanto se lhe dava, mas o pai, e já antes do pai o avô,

cumpriam escrupulosamente esta tradição de ouvirem o feitor explicar o que

iriam plantar ou colher e de quanto tinham sido as rendas pagas pelos rendeiros no

final das sementeiras, e ele cumpria o ritual umas vezes com mais enfado do que

outras. Olhou lá para fora, através da janela. O céu estava escuro e a neve caía

acumulando-se na balaustrada da varanda. Muito bem, rumaria para oeste,

onde pelo menos não nevava e onde podia passar uns dias agradáveis a caçar.

Podia convidar os rapazes, iriam todos... Talvez levasse Cléa...

— O senhor marquês almoça em casa? — Maurice interrompeu-lhe os

pensamentos.

— Que horas são?

— Passa já do meio-dia, meu senhor.

— Não, não almoço. Prepara a minha roupa. Vou ter de sair, avisa o

cocheiro.

Maurice saiu para mandar preparar a carruagem e voltou ao quarto

seguido por uma criada que carregava uma enorme bacia de prata que fumegava.

— Bom dia, senhor marquês! — disse a rapariga fazendo uma vénia.

— Bom dia, Marie! — respondeu Villeclaire.

3Fruto da família das abóboras a courgette é um alimento típico dos povos da bacia do Mediterrâneo. Muito apreciada

na cozinha francesa e italiana, em África e na Ásia é conhecida como símbolo da abundância e da fecundidade.

Quando a criada voltou a fechar a porta do quarto, Louis saltou da cama e

foi sentar-se na cadeira de toilette, pronto para ser barbeado por Maurice.

E enquanto o criado o arranjava e o ajudava a vestir, deliciou-se a pensar no quão

mais rico estaria quando esse mesmo dia acabasse. Dois mil milhões de francos a

mais no seu patrimônio! Mas, primeiro, teria de procurar a escritura assinada

por Duvernois. Tinha a vaga ideia de tê-la guardado no cofre da biblioteca,

juntamente com as caixas de joias que tinham pertencido à sua mãe e os títulos das

suas propriedades do Vale do Loire e da Borgonha.

Sim, aqui estava o documento, exatamente no local onde Louis suspeitava

tê-lo guardado. O cofre do escritório. Pela primeira vez leu o documento assinado

por Duvernois. Pareceu-lhe tudo tal como combinado: a 18 de novembro de 1857,

se não dispusesse dos dois milhões de francos que lhe devia, o notário

comprometia-se a passar para a sua propriedade «o edifício em que moro, no

n.º 42 da Rue des Archives, o edifício n.º 71 da Rue des Francs-Bourgeois, o n.º 60

da Rue de Rosiers, a minha casa de Saint-Cast-le-Guido, e todos os bens e pessoas

que nelas houver».

— Todos os bens e pessoas... — repetiu Villeclaire, batendo com o rolo de

papéis na palma da mão. Começou a percorrer a biblioteca em grandes passadas. A

escritura de dívida mais parecia um testamento. Duvernois entregava-lhe tudo o

que era seu. A mulher também, se a houvesse. E havendo... teria de encontrar uma

solução para a velha senhora Duvernois. Como seria ela? Talvez uma

velhota simpática e bondosa. De repente, sentiu um aperto no coração. Se fosse

esse o caso, dentro de algumas horas ficaria com tudo o que até aí tinha sido dela.

Talvez a senhora estivesse aliviada por se ver livre do insuportável Duvernois,

viciado em jogo e apostas. Talvez pensasse que agora poderia acabar os seus dias

em paz. E ele ia aparecer para lhe roubar as últimas esperanças.

E se a velhota fosse, de fato, simpática e bondosa...

— Não sejas piegas, Louis! — disse para si mesmo, em voz alta. E logo ali

decidiu que, se fosse esse o caso, lhe proporia um resto de vida descansado e

confortável no convento das Ursulinas, para onde se podia retirar com uma criada

para servi-la. Ele próprio se encarregaria do dote e de dizer à madre superiora que

se tratava de uma parente muito afastada e viúva. Ou, se a solidão da clausura não

lhe agradasse, poderia ceder-lhe um dos muitos apartamentos num dos prédios de

que era dono. Não nos Campos Elísios, mas perto da Sorbonne, um daqueles

apartamentos pequenos e antigos que alugava a estudantes que nunca lhe

pagavam as rendas. Assim como assim, deixaria que Madame Duvernois

vivesse num deles. Dar-lhe-ia uma pequena pensão anual e uma criada. Qualquer

coisa que lhe permitisse viver modestamente mas com decência. Logo veria com

Laval, o seu procurador, de quando poderia ser a pensão.

De repente, franziu a sua bela testa e os olhos azuis tornaram-se frios como

aço. E se a velha fosse insuportável como o marido? Uma dessas velhas rabugentas,

que desatam aos gritos, que arrepelam os cabelos... Sim, podia muito bem ser um

osso duro de roer. Era até o mais provável! Que velhinha bondosa e simpática

teria alguma vez casado com Duvernois na juventude? Nesse caso,

nem apartamento nem Ursulinas, um convento qualquer, desses que recolhem

indigentes, seria mais do que suficiente.

— Ao diabo com a velha! — murmurou.

Nesse momento bateram à porta da biblioteca e Maurice anunciou que a

carruagem já estava pronta e à espera.

* * *

A casa da Rue des Archives era sólida, grande, com uma enorme porta de

madeira trabalhada e janelas fechadas, nos três andares. Parecia inabitada. «Talvez

se tenham ido embora...Talvez tenha chegado tarde de mais...», pensou Louis de

Villeclaire quando saiu da carruagem.

A neve acumulava-se já no passeio e havia pouca gente na rua. Amaldiçoou

o tempo que o fazia sair de casa com aquele frio e puxou a corrente de metal que

fez suar um sino, longe da porta, mas suficientemente audível. Teve de esperar

uns minutos, dando alguns passos de um lado para o outro para não enregelar, até

que a porta se abriu e Louis pode ver um criado de meia-idade, mal-encarado e

malvestido, com chinelos de fazenda grossa e embrulhado numa manta.

— Faça o favor de dizer...

O jovem marquês hesitou uns segundos. Dizer o quê? Que vinha apresentar

os seus pêsames à família? E se não houvesse família? Devia ter-se informado antes,

mas andara demasiado ocupado entre os braços de Cléa e os de Madame

Bousquet. Agora, não tinha outro remédio senão supor que havia, de fato, uma

família que devia ser cumprimentada.

— Sou o marquês de Villeclaire. Venho apresentar os meus pêsames

à família.

O criado afastou-se um pouco da porta para lhe dar passagem.

— Faça favor de entrar, vou anunciá-lo.

A casa cheirava a mofo e era escura, mas ainda assim Louis pôde reparar na

decrepitude que o rodeava. As enormes tábuas do chão rangiam sob os seus pés e

os móveis estavam cobertos de pó. Os quadros eram soturnos, as pratas estavam

sujas.

O criado conduziu-o a uma sala grande, onde os estofos dos canapés

estavam puídos e os tapetes já tinham conhecido melhores dias, abriu as grandes

portadas das janelas e deixou-o à espera. Durante uns breves minutos Villeclaire

pôde observar tudo em pormenor, à fraca luz que entrava pelos vidros sujos.

Aquela sala tinha manifestos sinais de já ter tido outra vida. Certamente teria

havido ali dias alegres, de bailes e reuniões sociais. Aquelas paredes tinham sido

testemunhas de gargalhadas e segredos, conversas de senhoras e conciliábulos

de homens. E estava a imaginar tudo isto quando a porta voltou a abrir-se e

entrou uma rapariga alta e magra, vestida de luto, mas cuja roupa parecia não ter

sido feita para ela. O corpete era demasiado grande e tinha os punhos dobrados e

a saia caía sem graça, como se estivesse pendurada num cabide. O preto do tecido

não tinha brilho e mostrava o desgaste dos anos. Louis supôs imediatamente que se

tratava de uma filha do velho notário e reparou, quase em pânico, que nunca

tinha posto a hipótese de Duvernois ter descendência.

Mas era um homem do mundo e não deixou transparecer a surpresa

com que recebeu a sua chegada. Dirigiu-se a ela e estendeu a mão para beijar a

dela:

— Louis de Villeclaire — disse, tocando-lhe a pele com os lábios e reparou

que a mão dela era pequena, branca, delicada, com unhas perfeitas, sem anéis.

— Catherine Duvernois — respondeu ela, numa voz suave e logo depois

acrescentou: — Suponho que veio cobrar alguma dívida que o meu marido

tinha para consigo, senhor marquês...

Louis sentiu-se fulminado por um raio. Aquela rapariga, que teria pouco

mais de vinte anos, era a viúva do notário! Olhou uma vez mais para ela

e admirou-lhe os enormes olhos verdes, as maçãs do rosto salientes e o cabelo

escuro que lhe caía, encaracolado, nos ombros e nas costas. Era muito bonita, mas

de uma beleza triste.

— Exatamente... — concordou o jovem marquês.

Catherine fez-lhe sinal com a mão para que se sentasse e sentou-se ela

também.

— Calculei que fosse isso, apesar de o criado me ter dito que vinha

apresentar os seus pêsames. Foi delicado da sua parte e devo agradecer-lho. Mas

desde esta manhã tenho recebido várias visitas de credores e não vi razão para a

sua ser diferente. Duvernois não tinha amigos...

Louis tossiu ligeiramente, sem saber o que lhe responder e Catherine

continuou:

— Se quiser fazer o favor de me dizer o montante da dívida, venderei o

que for necessárias e amanhã ou depois saldarei a quantia. Duvernois não

deixou dinheiro, deixou contas para pagar e é isso que tenho estado a fazer.

Espero que compreenda e que tenha a paciência de esperar os dias necessários.

— Não me parece que seja possível, minha senhora. De fato, trouxe os

documentos comigo, o seu marido devia-me dois mil milhões de francos...

Catherine empalideceu ao ouvi-lo dizer tal coisa e foi com as mãos a tremer

que segurou os papéis que Villeclaire lhe estendia. Depois de ler perguntou com a

voz serena, mas firme:

— Que tenciona fazer agora, senhor marquês?

— Tomar imediatamente posse do que é meu, minha senhora, antes que

outros credores a visitem e a senhora se lembre de vender patrimônio que já é

meu.

Catherine de Duvernois olhou-o nos olhos com desprezo e isso irritou-o.

Não gostava de ser desafiado e muito menos por uma mulher. Nunca antes alguma

tinha tido a ousadia de o olhar daquela maneira. Aquela rapariga, certamente, não

sabia com quem estava a falar.

— E o que vai fazer conosco uma vez que, agora, pelo que leio, também

somos propriedade sua? — perguntou ela.

Ah! A altivez com que lhe falava! Era, de fato, muito bonita, mas o seu

orgulho irritava-o.

— Quantas pessoas moram nesta casa? — Villeclaire respondeu-lhe com

outra pergunta.

— Eu, o criado que já conhece e uma cozinheira — respondeu Catherine,

sem deixar de o olhar de frente. Estava sentada com as costas muito direitas e tinha

um porte orgulhoso, apesar da pobreza das roupas que vestia.

— Não há mais empregados nem mais família?

— Apenas o escrivão que trabalhava no gabinete da Rue des Francs

Bourgeois.

— Mais ninguém?

— Mais ninguém.

— Não há um feitor, um caseiro, em Saint-Cast-le-Guido?

— Não, que eu saiba. Mas o senhor Legrand, o notário perante quem

Duvernois assinou esta infâmia poderá informá-lo melhor do que eu.

Louis fingiu não ouvir este último comentário da jovem viúva e continuou

a fazer perguntas sobre Saint-Cast-le-Guido.

— É uma propriedade grande?

— Não, de maneira nenhuma. É uma pequena casa de pedra com um

jardinzinho, à beira-mar.

A irritação de Louis aumentou. Não bastava a altivez e o desprezo com que

aquela mulher lhe falava, agora descobria que o patrimônio de Duvernois estava

longe de chegar aos dois mil milhões de francos que o notário lhe devia.

— Quem vive no prédio da Rue des Rosiers?

— O judeu que tem a padaria no rés-do-chão e a sua família.

— E quanto pagam de renda?

— Não lhe sei dizer.

Louis levantou-se e passeou pela sala, a grandes passadas, com as mãos

atrás das costas. Tinha mais problemas para resolver do que gostaria. E precisava ir

ao Vale do Loire urgentemente. Que grande maçada!

— Eis o que pretendo, minha senhora: vou imediatamente ao notário onde

essa escritura que tem nas mãos foi assinada pelo seu marido e passarei

imediatamente para meu nome todos os bens que lhe pertenceram. Os dois

criados desta casa e o escrivão receberão indenizações e cartas de recomendação e,

hoje mesmo estarão livres para procurarem outras colocações. Quanto a si...

— Louis olhou mais uma vez para ela e não descobriu uma sombra de

medo. Muito pelo contrário, estava agora também de pé, e fitava-o, desafiadora.

— Quanto a si... creio, o convento das Franciscanas Descalças ou qualquer outro

que acolha viúvas pobres servirá perfeitamente. Vou pensar nisso! Entretanto,

enquanto vou ao notário, deixarei o meu cocheiro aqui à porta e antes que eu

próprio tenha tratado de todos os papéis, estará aqui um policial, por isso, não

tente fugir ou tirar de casa coisas que, de fato, já há uma semana me pertencem. Se

esperei estes dias para lhe dizer isso foi porque decidi respeitar o seu luto, podia ter

passado todos estes bens para meu nome sem sequer lhe comunicar.

Catherine esboçou um ligeiro sorriso que pareceu irônico a Louis.

— Não precisa obrigar um pobre policial a suportar esta neve, senhor

marquês. Nada será tirado desta casa e eu não tenciono fugir. Aguardarei que me

diga que convento escolheu para mim uma vez que, agora, sou também uma coisa

sua — disse-o como se lhe desse uma bofetada, com um tom cortante e desabrido.

— Tenha uma boa tarde, Madame Duvernois — disse Louis e saiu irritado,

a caminho do notário, pensando que tudo teria sido mais fácil se a viúva do

notário fosse uma velhota simpática e bondosa. Muito provavelmente teria, até,

gostado dela e o seu bom coração teria amolecido, acabando por instalar a

senhora num dos bonitos apartamentos que possuía nos Campos Elísios. Mas

aquela rapariga desafiadora ia ter o que merecia...

CAPÍTULO 2

Nessa noite, Louis jantou em casa com os seus amigos de sempre,

Gaston, Pierre, Laurent e Marcel. Estava taciturno e distraído e, durante todo

o tempo, uma ruga vincava a sua bela testa.

— Villeneuve, que bicho te mordeu? Convidas-nos para celebrar os teus

novos dois mil milhões de francos e estás com essa cara... De repente, a fortuna

causa-te problemas? — brincou Pierre.

Marcel, o banqueiro, soltou uma gargalhada:

— Meu caro marquês, diz-nos o que te aflige. Certamente nada que uma

experiente casa bancária não possa resolver por ti!

Os amigos riram e Louis tentou rir com eles. Mas, de fato, alguma coisa o

incomodava. Aqueles olhos verdes e desafiadores de Catherine Duvernois, que

nem por um momento se umedeceram quando a ameaçou com um futuro sombrio

num convento para indigentes.

— Nada de muito grave! — respondeu aos amigos. — De fato, tenho de ir

ao Vale do Loire por uns dias, o dever chama-me. E logo numa altura em que esta

neve torna as viagens mais incómodas e me apetecia o aconchego quente da cama

de Cléa.

Esforçou-se por ser natural e voltou a rir. Os rapazes riram com ele.

— E Madame Bousquet? — quis saber Laurent.

— Oh! A Bousquet! Está insuportável, apaixonada, exige que a visite todas

as horas e fala até em largar o marido e fugir comigo para Inglaterra ou para a

Alemanha. Sonha com uma casinha pequena, no campo, onde viveremos os dois,

felizes, até sermos velhos.

— Meu bom Louis, ainda bem que o dever te chama ao Vale do Loire

porque, de fato, tens aí um problema. Oh! Se tens! É o que dá meteres-te com

burguesas... têm a imaginação curta e a cabeça cheia de ideias bucólicas que bebem

nos romances da moda. É fugir delas, Villeclaire, é fugir delas... — declarou o

príncipe de Montblanc.

E foi ainda rindo das desventuras de Louis de Villeclaire com a sua amante

burguesa que os rapazes chegaram à casa de Martine. Cléa estava ocupada

com outro cliente e Louis somou mais essa contrariedade ao seu dia, decidindo

ficar ali mesmo pelo salão, a beber champanhe, sem paciência para escolher outra

rapariga. Apetecia-lhe a pequena Cléa, que, de noite para noite, ficava mais

competente na arte do amor e o excitava cada vez mais. Mas as raparigas

eram assim mesmo, atendiam quem chegava primeiro e as escolhia. A ele, tanto se

lhe dava que se deitassem com ele e com mais não sei quantos. Até que chegasse

um velho tolo que se embeiçasse por elas e lhes montasse casa. Às vezes, até

casavam... Bebeu mais um gole de champanhe e, de repente, foi como se um

relâmpago lhe iluminasse o pensamento. «É evidente, foi isso mesmo que

aconteceu! O velho Duvernois deve ter conhecido a mulher num bordel e casou

com ela. Por que outra razão estaria uma rapariga tão nova casada com um

velho?... E aquela frieza no olhar!», disse para si próprio. Não se lembrava de

alguma vez a ter visto em nenhum dos bordéis de luxo que frequentava, mas a

verdade é que também nunca tinha encontrado Duvernois em nenhum deles.

Muito provavelmente, o velho notário era cliente de casas mais modestas ou podia

tê-la conhecido numa casa de jogo, onde muitas dessas aventureiras,

que trabalhavam sem a proteção de uma madame e de um teto fixo, iam caçar os

seus parceiros. Mas acabava de tomar uma decisão que, definitivamente,

lhe resolveria vários problemas.

— Sozinho esta noite, meu belo marquês? — perguntou Martine que,

entretanto, se aproximara sem que Louis percebesse.

— A Cléa está ocupada...

— Há outras raparigas disponíveis.

— Estou sem paciência para escolher, Martine. Talvez esteja a ficar velho

ou talvez este não seja um bom dia.

— Talvez esteja a ficar apaixonado, meu senhor! Ouvi dizer que uma tal

Madame Bousquet o traz muito ocupado.

— É o que se diz? — Louis sorriu e Martine notou que havia tristeza nos

seus belíssimos olhos azuis.

— Louis, Louis... conheço-vos há quantos anos? Vinte? Era um rapazinho

quando o seu pai o trouxe aqui pela primeira vez. Estimo-o como estimei o seu pai

e conheço-o melhor do que muitos dos seus amigos. Procure uma jovem no seu

meio que lhe dê filhos e uma vida familiar agradável, que lhe permita perpetuar os

seus títulos e a sua fortuna...

— Que ideia, Martine! Só de te ouvir falar em casamento já me sinto

enfadado... — Louis forçou um sorriso.

— Pense no que lhe digo. É agradável a sua vida. Tem dinheiro, posição,

amigos e as mais belas mulheres de Paris aos seus pés, mas nenhuma à sua

espera quando chega a casa. Os anos passam, meu amigo, e esse vazio que se lê

nos seus olhos tornar-se-á mais e mais profundo. Acredite em mim, sei do que falo.

O embaixador da Bélgica entrou nesse momento e Martine despediu-se de

Louis para recebê-lo. Uns minutos depois, sem esperar pelos amigos que,

entretanto, tinham subido aos quartos com as suas amantes, o marquês de

Villeclaire pediu a um criado que chamasse o seu cocheiro e saiu.

Quando chegou a casa avisou Maurice, que como sempre ainda o esperava,

que dentro de dois dias partiria para o Loire.

— Acompanho-o, senhor?

— Sim, por favor, Maurice.

— Quer que eu tome alguma providência? Terá convidados?

— Nada de especial, o costume. Não nos demoraremos mais do que uma

semana. Duas, no máximo.

Louis deitou-se a pensar no corpo redondo e suave de Beatrice Bousquet,

na sua pele rosada entre os lençóis brancos e nos suspiros profundos quando a

levava ao orgasmo. Beatrice era uma mulher notável, uma amante extraordinária

que o deixava louco de desejo e o fazia correr para ela como um adolescente que

acaba de descobrir o sexo. Tinha umas pernas bem torneadas, umas ancas macias e

estava sempre disposta a experimentar tudo o que Louis lhe propunha. Gostava de

correr riscos, de coloca-lo em sua cama debaixo do nariz dos criados e

sabendo que o marido podia chegar a qualquer momento. Iria ter saudades da sua

boca de lábios cheios e das suas mãos que brincavam com o seu sexo e o guiavam

para o interior de si própria quando se abria para ele.

«Uma maçada ter-se apaixonado...Uma pena, mesmo», pensou Louis de

Villeclaire no preciso momento em que os seus olhos se fecharam e adormeceu.

Catherine Duvernois arrumou os seus parcos haveres mesmo antes de saber

qual seria o seu destino. Fosse o que fosse que o marquês de Villeclaire decidisse

sobre ela, sabia que estava a viver os últimos dias naquela casa. Não teria saudades

desses cinco anos em que viveu encerrada naquele casarão frio e decrépito, a ter de

suportar os maus modos daquele velho desagradável de quem agora era viúva, a

falta de dinheiro, a má comida, a solidão, a impertinência dos criados que a

tratavam como uma igual, o desprezo com que as outras mulheres a olhavam nas

raríssimas vezes em que saía para comprar botões ou linhas para remendar a sua

roupa velhíssima, os olhares de piedade dos caixeiros quando entrava numa

loja, deixando-a a um canto, para ser atendida depois de outras senhoras que

chegavam a seguir a ela. Estava cansada daquela vida. Aos vinte e dois