Arestas - crônicas de percurso por Volmer Silva do Rêgo - Versão HTML

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ARESTAS

Crônicas e Textos Jornalísticos

reunidos, ordinários e comprometidos com

a (ir)realidade cotidiana e literagens.

Volmer Silva do Rêgo

2006

primeira edição – eletrônica 2013

Dados catalogados na fonte (CIP)

Silva do Rêgo, Volmer - 1960 (Volmer de Recife) Arestas - Crônicas reunidas - 1a. Edição São

Paulo, 2007 – 1ª revisão 2013

Literatura jornalística – Crônicas, crítica jornalística.

©Todos os direitos reservados - Proibida a reprodução sem a autorização expressa do editor.

Capa - Volmer S. do Rêgo

Projeto gráfico - Volmer S. do Rêgo

Edição - Volmer S. do Rêgo

Revisão - Volmer S. do Rêgo

®Todos os direitos reservados

Agradecimentos - gracias a la vida! Dedico este livro à memória de meu pai, redator e editor, ao meu

filho amado Diego Aires, a minha mãe Da. Eunice, aos meus irmãos Eusiel e Jeasir.

ÍNDICE

1 – A cruz e a espada da política brasileira

2 – A política é só um meio

3 – Abusos linguanares

4 - O anticristo e o anticonhecimento

5 – Blues eyes

6 – Circularejando pensares

7 – Coisa feia!

8 – Contributo à milenar idiotice humana

9 – Diálogo pertinente

10 – Dose certa

11 – Educação para a liberdade

12 – Educação – um modo ímpar

13 – Educar pra que¿

14 – Enquanto escrevo meu livro

15 – Erros da Física

16 – Estado vivo é estado bom, desde que funcione lá

17 - Eurocopa de futebol em Portugal

18 – Falsidades filosóficas e o problema da lógica das palavras versus a crueza dos interesses

19 – Fofocas, realidade e História

20 – Futebol

21 – Homens, objetos relativos

22 – Jornalismo sem crédito

23 – Lenha seca para uma bela fogueira

24 – ‘ Liberas’ quae seras tamen

25 – lições de um jardim de infância

26 – Mahabaratha

27 – Mercosul maravilha

28 – Na antesala da poética

29 – Não existe feiúra. Ou é deformidade ou é miséria

30 – Governar com números é bem diferente de ser governado por eles

31 – O estigma da educação

32 – O eterno giro parado

33 – O exército das formigas vermelhas

34 – Todo brasileiro é corrupto

35 – O x e o y da questão

36 – O zen do mouse

37 – Partículas

38 – Pensar é só pensar – repensar o modelo – revendo o óbvio

39 – Pequenas digressões semiológicas

40 – Peru de Natal

41 – Revistas e recortagens

42 – O povo é apenas o povo

43 – Intróito curioso

44 – Quem gera o processo

45 – Ruídos da comunicação glo(tri)balizada

46 – Se alguém te der um tapa

47 – Semiologia de um fôlego só

48 – Sob o Trópico de Capricórnio

49 – Todos procuram a Deus, mas só encontram o que se procura

50 – Um sonho recorrente

51 – Waht is it means¿

1 - A CRUZ E A ESPADA DA POLÍTICA BRASILEIRA

As verticais e as horizontais nas dimensões e perspectivas do horizonte e do provável.

Para entender o desenho dos eixos de poder no Brasil pós-eleições 2006 e fazer sérias considerações

você deve olhá-lo de frente - o formato inicial é de cruz, e há paralelas, mas jogar xadrez de nada vai

te ajudar na percepção, porque não é exato, não é lógico. Nunca será. São Paulo, Minas Gerais e Rio

Grande do Sul com apoio do Maranhão e do Ceará - na hora H apontarão no horizonte, e dali,

incontestavelmente, sairá o novo candidato forte à presidência da República. Claro que José Serra,

Aécio Neves e Yeda Crucius, um trio naturalmente desafinado por formação, passarão por ampla

reformulação do discurso e das práticas e vão ter de superar os imensos egos e inflados staffs. Serra

sai na frente, já foi candidato, ministro, tem cacife intelectual e está entre os amores de FHC, mas

tem o estigma de ser paulista, que não gerou presidente nos últimos cem anos de República. Secou o

ventre?

Não, a missão do estado parece mesmo ser outra, de igual importância - manter acesa a chama

bandeirante, de ir na frente, ponta de lança, como se diz no football, sem medo dos zagueiros

rompedores de canelas, e, se precisar, atropelar o que vier - juízes, torcedores, patrocinadores (?) -

mesmo sem beleza, delicadeza ou arte, para entrar no gol adversário. Lá vem, de novo, em 2010, o

PSDB e seu fiel escudeiro de aluguel à tiracolo, o PFL. Nesta composição (esquisita para muitos,

mas o que não é em política partidária?) pesam mais os interesses e vaidades pessoais do que as

divergências partidárias e ideológicas (ou propostas administrativas internas), ainda que um esteja de

lado e o outro de costas para o povo. Pesa também a vontade de desfazer o feito e atrapalhar ao

máximo, com vistas aos pleitos eleitorais bienais, as realizações da situação. Sempre foi e sempre

será assim, pois aqui trata-se de homem com medo, raiva e inveja de homem, coisas menores. Essa

tirada de ‘conduzo, não sou conduzido’ é retórica - o leão vai atrás dos rebanhos de caça. Se ele se

veste de veadinho é outra coisa! É estratégia. Já os abutres e as hienas do PFL sobrevivem à socapa,

de sobras, ainda que alguns deles saibam caçar, coisas da evolução natural.

Das Gerais Aécio traz enorme rebanho, riquezas, jeitos e trejeitos, é oligarca de família de

sobrenome ministerial e presidencial, tem tradição política. Aprendeu fazer mesa e cama com

cuidados coloniais e imperiais. Terá peso nas composições a serem feitas, porém, tem jeitinho de

senador, nada mais. Já Yeda cuida das fronteiras, lida com dois traçados, é flor de beleza e perfume

marcante, sabe seduzir com seu discurso acadêmico e tem traços de republicana, o que lhe confere

pulso e firmeza na hora de bater ‘o dedo’ na mesa. Pode levar o Brasil ao Chile, dizem seus

entusiastas. Quem vem do Rio Grande sempre tem ótimas chances. Pela frente o machismo de seus

compadres numa época em que as mulheres ganham espaços cada vez mais importantes no cenário.

Elas, contudo, assim como os homens, isoladamente desequilibram a balança. Equanimidade seria

palavra chave. Numa analogia digressiva, e a comparação só se faz necessária dadas as condições

específicas do país, o campeonato brasileiro de futebol produzirá grandes clássicos e isso será

decisivo - olhem e aprendam, mas não se enganem: São Paulo, Grêmio, Cruzeiro, Inter, Atlético

mineiro e qualquer outro time paulista (quem sabe o Corinthians de Lula, ou o Palmeiras de Serra?

Ambos a cair pelas tabelas) farão a propaganda subliminar de seus dirigentes políticos regionais e

encherão estádios e cofres - a festa da poeira continua! O suporte está em plena construção ainda que

não tenham aprendido a receita empresarial e administrativa dos modelos europeus, pelo menos não

o reproduzem por aqui, ainda.

Em importância, sem, contudo, serem iguais em graus e valores que lhes ditam a colocação, surgem

Rio de Janeiro, Bahia, e Pernambuco que formam atualmente, coisa difícil de crer, a ‘frente central

de esquerda adestrada’ - aqui PT, PMDB e PSB se afinam pelo discurso social, mas são tantos os

interesses díspares e os modos de como atingir o povo (na cabeça, na barriga, nos braços) que a

proposta ou visão trabalhista acaba comprometida com o capital, com quem atrita e provoca muita

fumaça (se adoram e se desejam, só não se conhecem ainda, em profundidade, logo não sabem do

que podem), deixando pouco claro quais são e pouco espaço para os compromissos reais que os

orientam - pau e pedra na construção de um ideário.

Ainda assim já saiu um programa bolsa família, um bolsa escola, as cotas para negros e minorias nas

universidades públicas e privadas, desses programas que causam forte impressão nos patrocinados

enquanto dialeticamente reproduzem a contradição histórica e econômica - ampliam e achatam a

classe média – o esteio. “É mano! Dizem os cabras da rua: “distribuir renda significa dar uma menor

fatia para dada um”. Ainda tem muito ladrão, é certo, mas para isso deveria existir uma polícia, uma

inteligência, não é? A PF andou fazendo sua parte. A lojinha da dona Daslu e outras importadoras,

por exemplo, só em São Paulo ficaram de cuecas e calcinhas na mão. Mas, quer milagres? Até os 40

vestidos da madame ajudaram a derrubar a casa!

Indo em direção ao sol, Jacques Wagner enfrentará a oligarquia bem estruturada dos caciques

cacaueiros de Salvador, embora tenha Waldir Pires ao seu lado (perdido como avião de carreira). São

séculos de ‘magalhães’ varrendo aquelas praias e levando tudo de roldão. Abaixo, no Rio, Cabral

tem os morros e os chefes das gangues cariocas nos calcanhares - sofre do mal de Aquiles e vai ter

de fazer concessões esdrúxulas para receber oxigênio e deixar a praia limpa para receber os

estrangeiros. As polícias podem e vão ajudar, chefe! O moço de Recife também sofrerá com os

coronéis - flagelo do agreste - e terá de beber da aguardente daqueles grotões se quiser matar a sede

de sua gente, libertar os novos escravos das fazendas e dos inocêncios. Vez ou outra recorrer à lenda

de Arraes para não deixar a peteca cair será expediente.

O PDT do falecido Brizola tem representatividade reduzida, mas sua postura francamente trabalhista

(leia-se sindicalista, ou, na linguagem de sapa – ‘malaca’) tende a ser absorvida pela força dos outros

- seria besteira ficar de fora e tentar oposição. Mas, se bater o orgulho do velho caudilho e sua visão

de pampas, nada impede que o minuano sopre e o obrigue a fazer uma guinada mais à esquerda para

cooptar os descontentes do PSOL ou a eles se misturarem num coro anacrônico, de laivos

franciscanos e afinação duvidosa. Não deixa de ter importância na balança geral do equilíbrio,

filosoficamente. Renascerá assim, uma novidade que cruzará os corredores estudantis e servirá de

motivo para discussões acadêmicas, agremiações e ritos circunstanciais aquecendo as mentes vazias

da UNE, UBE, UMES e outras siglas. Coisas da idade e dos ciclos humanos memoriais. Dali sairá a

‘nova’ esquerda tupiniquim com a benção da intelectualidade socialista internacional de plantão, até

o momento que suas contas e finanças forem abertas e de lá emanar um cheiro ruim de mesmice.

Mas, o país ainda não aprendeu a lição e bate cabeça. Sabe pouco da função federativa e da

condução do ideal da República. Só a título de sugestão a coisa deveria funcionar assim: a bancada

do estado, formada por gente de diversos partidos, tende a votar unida em questões que digam

respeito ao estado representado. Claro a autonomia federativa pressupõe esta condição fundamental.

O que diz respeito ao estado de São Paulo, por exemplo, é de interesse de todos os deputados

paulistas, independentemente do partido que o elegeu. Eu disse tende, mas não vota,

necessariamente. A coisa vai muito de quem lançou a proposta a ser discutida e votada. Na frente do

estado está o partido, uma asneira reducionista que põe tudo a perder e desfigura a questão

republicana. E, à frente do partido, estão seus caciques, que respondem aos lobbies e a interesses

muito peculiares. Uma burrice sem tamanho porque reflete o isolacionismo tacanho e fisiológico de

algumas mentes e embora trate do jardim, não consegue estabelecer sinapses saudáveis com o resto

do parque. De fato, até hoje, só se luta pela força e representatividade do partido majoritário, em vez

de discutirem-se as necessidades da união dos estados federativos.

O partido X tem mais caciques e detém mais mídia e exposição, sua voz é a mais ouvida. Burrice!

Porque leva pelo cabresto curto os menores sem lhes dar ouvidos (um zurro ou outro, vez em

quando, mas não sai disso!). Assim, os problemas do estado (unidade federativa) Y ficam em

segundo plano porque os caciques do partido afinam com o estado X (uf) e só votam prioritariamente

nestas questões, grupismo, meramente pessoal, vaidades, senadores e vantagens. Ou isso muda e

todos se aproveitam do esforço conjunto da sociedade brasileira, ou então continuaremos do jeito que

está - a reforma partidária é importante, sim, mas é só parte, e pequena, da verdadeira questão. Eis

porque, ainda digressivamente, não se faz um campeonato brasileiro de futebol por estados. Faltam-

nos um pacto federativo coerente e respeito pela sua adoção e medidas.

O argumento de que seria muito desigual é falacioso, porque a vida é assim - entram em cena os

mais fortes e os mais fracos, os fortes lutam com os fortes e os fracos com os fracos – e os mais

fracos podem até se unir contra um forte – daí, talvez, o porquê da geração racional, ou pelo menos

razoável, de divisões e categorias. Por isso o Senado e as câmaras altas e baixas dos estados e a

federal têm de aprovar um regulamento. Parece justo, e preserva a correlação das forças. Quando um

mais fraco apresenta força suficiente para subir de categoria dá-se a ele a oportunidade de provar que

pode estar ali ‘lutando’, numa melhor de três, contra o mais fraco dos mais fortes. Além do que São

Paulo, que é o mais forte de todos, já cumpre a função do imperialista doméstico. Investe e explora

em outros estados, e o mesmo também é feito em escala menor por outros ‘fortes’ da federação, ou

da República Federativa, o que é melhor.

Embora seja crucial e paradoxal, a federação ainda vive de desequilíbrios, mas manter o poder

centralizado é questão pétrea, e a visão republicana de governar para todos ainda esbarra no

compadrismo porque as estruturas de representatividade parlamentar estão corroídas, mero reflexo da

natureza das relações humanas. Há, contudo, um outro modelo a ser percebido, e ele diz e mostra que

elefantes, por exemplo, bebem mais água do que outros animais, devido ao seu porte, porém, em

épocas bravas, podem ficar muito mais tempo sem comer e sem beber, sem perder a majestade de sua

configuração original. Se fraquejarem demais serão vítimas de carniceiros. Assim, as elites nacionais

ficarão em casulo, recolhidas por um tempo, digerindo seus erros e procurando sintetizar enzimas a

fim de proporcionar ao sustentáculo de suas alegrias - à classe média, pasto de gramíneas onde come

e defeca (porque pobreza e miséria só trazem tristeza e doença),- um pouco mais de dignidade e

espaço para respirar. Cíclico. Exatamente o que o governo Lula fez, e pelo que parece ainda fará se a

sociedade organizada – e aqui entram os governadores e suas intenções verdadeiras, afinal, todos

querem exercer a digna função de salvador – se predispuser a lutar por um país melhor! A esperança

é mesmo um mal latino.

2 - A POLÍTICA É SÓ UM MEIO

a ética é só uma palavra no país das meias mentiras.

Na lei das execuções penais há uma sentença basilar e que se repete comumente em face de delitos e

situações contrárias à norma prevista. Ouvimo-la freqüentemente – ‘tudo o que você disser será

usado contra você, portanto, é melhor ficar calado, você tem o direito de permanecer calado’. E,

sobretudo, do que os outros disserem a seu respeito, o direito de se defender também lhe será

assegurado. Básico. Os doutos e causídicos que me perdoem se estiver errado, por favor, corrijam-

me. Em mercado vale tudo numa corrida concorrencial, e é isso que ocorre na nossa típica

democracia tropical quando se trata de chegar a cargos eletivos, de meros vereadores à presidência

da República, dada a promiscuidade e o grau de contaminação que o fado político assumiu em seu

envolvimento com o aspecto financeiro. Presidência da República é só um cargo a ser disputado,

como gerente de supermercado, diretor comercial de uma empresa qualquer. No mais, uma peça

contábil em que se prevêem, inclusive, honorários para crápulas e encomendas escusas.

Assim como no mercado expedientes comuns como a compra de votos, de informações sobre a

posição do concorrente, desvios de condutas dos melhores posicionados na corrida e conseqüentes

flagrantes circunstanciais sobram e se oferecem como produtos ou ferramentas naturais de apoio

(contabilizados como Caixa Dois), já que a lei eleitoral que deveria regular tais situações é sofrível,

não prevê diferenciação e, de fato, favorece oligarquias e assoberbados no poder econômico, embora

se espalhe por aí que temos o código mais avançado do mundo, por todos invejado e copiado. Eu não

queria votar em Timbuctu.

A hipocrisia é geral, e não há porque se espantar com dossiês (se fossem ruins seriam ‘amarguês’,

ouvi um dia) e pastas coloridas sobre tais e quais aventureiros políticos ávidos pelo poder e suas

peripécias comprometedoras. Documentos difamatórios sobre uns e outros povoam o universo

político, são ordinários e comuns, como churrasco de gato. Mais interessante, porém, e que dá o tom

burlesco das maquinações e ‘maquiaveleidades’ dos envolvidos é a capacidade de buscar inverter os

fatos e de fazer um crime da tentativa de denunciar o bandido, como os senadores do PFL e PSDB

Bornhausen e Jereissati, respectivamente, intentaram no caso das denúncias sobre Serra - candidato

peessedebista ao governo do estado mais rico da federação, São Paulo - estar envolvido com a Máfia

das Sanguessugas. Alegaram que era preciso descobrir de onde vinha o dinheiro para a compra e a

encomenda do dossiê. Ora, que asneira! O dinheiro vem do mercado eleitoral que se tornou a

tragicomédia da disputa eleitoral, pela corrida neste inferno em que todo espeto é quente e o cheiro

de carne chamuscada aperitivo. Quem quer o poder tem de ter dinheiro para disputá-lo, e quem tem

dinheiro compra as ferramentas de apoio necessárias que o mercado aquecido oferece. Deve,

portanto, investir bastante e sem receios, porque se ganhar sabe que a recompensa, o prêmio, é

inigualável. O crime não é o dossiê, o crime é ter-se envolvido com a quadrilha de estelionatários

que roubaram o dinheiro público o que ocorreu anos antes e ficaria impune se não fosse denunciado

pelo documento. Não foi assim com o ‘mensalão’, com os ‘bingos do fim do mundo’? Questão de

timing - a denúncia na hora certa - é um jogo, lembre-se disso, e as cartas estão marcadas!

Em algumas situações, entretanto, nem é preciso recorrer aos dossiês. É só ir a imprensa (dividida - é

bom atentar para o papel desta e procurar imparcialidades, se as houver) e ler os fatos e ver as fotos.

Assim, a revista Carta Capital , número 405 de agosto de 2006, na matéria intitulada O Sangue

Transborda, da página 28 e 29, ainda que sem as fotos (apenas as cita) expõe os fatos que envolvem

o ex-ministro da Saúde de FHC, José Serra, na falcatrua milionária apelidada de Sanguessugas e

cumpre seu papel histórico, indicando, inclusive, outros veículos jornalísticos ditos sérios que

deveriam tê-lo feito e não o fizeram. Em resumo, há a denúncia, há os fatos e há as provas - tudo o

que tipifica, em linguagem acadêmica - o delito penal. Cumpra-se a lei, pombas! Porque é que o STE

(ou será TSE?) não toma para si a responsabilidade de punir os responsáveis e invalida as

candidaturas dos envolvidos e comprovadamente culpados? (Um dia ele o fará, mas será em proveito

próprio...) Responde-se: pelo simples fato de que as ferramentas de apoio que o mercado financeiro

oferece aos concorrentes estão espalhadas em vários rincões e instituições ditas sérias deste país, e é

lamentável saber que nenhuma delas cumpre, de fato, aquilo a que se destina por obrigação e função,

mas tem aplicabilidade tópica. Ora, a análise das provas, o que é prova? Os conceitos de

culpabilidade, inocência e de presunção desta, etc, e outras razões teoréticas da retórica, da oratória e

até, pasmem, da deontologia processual servem, indistintamente, para uns e para outros.

Uma pequena digressão: UM PROJETO não ELEITORAL - se somos nós os eleitores os principais deste

processo, por que não podemos impugnar a eleição de um candidato por uma manifestação anterior

ao voto? Assim: diremos não aos candidatos e partidos com candidatos envolvidos

comprovadamente em escândalos que lesaram o patrimônio público, o erário pelo menos, já que o

patrimônio moral é lixo ou inexiste nestes casos. Entrando com uma petição de impugnação no

cartório ou Zona eleitoral mais próximo (dez assinaturas já são suficientes¿) um mês ates do pleito,

ou mais... Aí o Tribunal Eleitoral acataria a sentença popular e nem deixava o salafrário se inscrever

como candidato. Mandava um aviso ao partido dizendo: “Ilmo Sr. Presidente do partido tal, este

cabra, este funcionário de seu partido, não pode ser funcionário público, não tem a excelência

suficiente e necessária para tanto. Escolham o melhor dentre os vossos quadros e mande-o para cá

prestar concurso. Se passar e se o programa de governo do seu partido for aceito por uma bancada

popular escolhida aleatoriamente entre os eleitores nós o submeteremos ao crivo popular – sabatina e

debate - e se for aceito entra para o sistema da eleição e votação. Rogo, portanto, ao senhor

presidente desta agremiação político-partidária, dita séria, que faça uma lista de seus melhores

funcionários baseados nas premissas anteriores e a apresente ao nosso cartório-tribunal, e saiba que

esta mesma lista estará à disposição do público eleitor-consulente até um dia antes das eleições,

devendo este partido publicá-la também em igual teor nos principais jornais de circulação estadual”.

Nem precisaríamos perder tempo escolhendo entre tantos medíocres em quem votar. Se escapasse

algo a este crivo depurativo, aí sim, o voto decidiria. Ou, melhor, ao final nem precisaríamos votar!

Seria o fim dos caciques e começaria o reinado do funcionário público - este, como qualquer

funcionário, andaria na linha até o trem pegá-lo. Aí seria sacado e punido. Ponto final.

Próximo...Bem melhor do que a campanha falaciosa que o próprio TSE andou veiculando nas TVs

tentando passar meia mentira por meia verdade. Mas, nem tudo é simples ou perfeito assim, embora

devesse. Falta vontade e vergonha e quem sabe a verdadeira justiça divina operando mais amiúde. Só

para complementar: no mesmo exemplar da revista Carta Capital, recomendo a leitura da coluna do

ex-ministro da fazenda do regime militar do general Geisel - Delfin Neto - intitulada ‘A

desmontagem do outro’. Não se espante são coisas da sétima vala do Inferno dantesco. “Ó cega

cupidez! Ó ira ardente, que a tantos leva ao mal na vida curta, e na eterna castiga eternamente!”

3 - ABUSOS LINGUANARES

e liberdade.

A língua inglesa é uma piada. Digo isso sem pestanejar porque tropeço nela e caio freqüentemente

com a boca na botija. E embora nunca tenha ido além do verbo to be, gosto do tratamento que se dá

ao pronome da primeira pessoa, EU. No mais a acho bobinha, infantil e violenta. Quer ver? Quantas

letras tem aqui: a. Uma, certo? E aqui - o. Ok, só uma. Artigos defi nidos, pronomes pessoais,

preposições etc.. Bom demais! E aqui - i. Uma, apenas uma. Mas, peça para um inglês ou americano

ou canadense (ou onde quer que se fale este idioma pretensioso) lerem em voz alta tais letras. Eles

dirão ei, ou, ai. Ou seja, duas letras ao invés de uma só. Não ria! Isso é pura complicação, é mania de

grandeza, desperdício, principalmente de minha inteligência econômica e de minha paciência

apequenada pela idade! Eu não ando por aí arrastando às craseados!

Já o português, a língua portuguesa, e porque não a brasileira, brasilês, ao que prefiro, já que não

somos mais colônia, e nada devemos aos lusitanos, não é uma língua, ou é, sim... Quero dizer...Essa

sim é uma língua descomplicada! E criativa! Acho. Acho não, quero. É a língua que nos cria. Uma

letra só tem (e só precisa ter) o som de uma letra - a é a, i é i, u é u. Pronto! Não é preciso mais do

que isso. São vogais, duplicidade é coisa de consoante - aliás, é o que o termo já diz - com um som a

mais, porque sozinhas não teriam sentido. Essa é uma afirmação irrefregável. Quer apostar? Quantas

vezes é possível uma consoante se dobrar numa mesma palavra? O espanhol usa ll (éle, éle - não, ele

não, o pronome não, a letra éle) para dizer ele (a letra éle) e o agá (h). Ou seja, duas letras para

exprimir o som de seis (opa!) É muita pretensão! Eu prefiro as cambalhotas de minha língua às

possíveis camballotas (se o disséssemos em bom portunhol) do reino de Castella e Aragón. Ainda

assim, sem as vogais uníssonas, não teriam o menor valor, e nada exprimiriam.

É tão ruim quanto o italiano que vive dobrando os pês, os zês, os tês, os eles etc., ou o francês que

faz do gê e do ene um nha, nhé, nho manhoso e qualquer, e engole vogais colocando em seu lugar

uma apóstrofe. Isso é lá coisa que se faça com a língua! Gosto da liberdade que propõe, mas não sou

adepto das torturas, bicos e dobras musculares para se chegar a sons agradáveis ou pronunciáveis

para justificar a riqueza ou a beleza lexicográfica. Ginástica facial é coisa de Spa ou salão de beleza.

Tomemos a letra Jota, e nós só usamos o jota - J - para dizer ele mesmo (ele o pronome, aqui no

caso...). Só que jota tem quatro letras em português e apenas três em inglês - jei. Ou quatro, pois tem

um d sumidio, tímido no começo. Não se afirma. Arrá! te peguei, ou me peguei! ...É, mas no

espanhol ele, o jota, tem um som de erre, aspirado, o que é errado ( ejado?) no meu entender. Erre é

erre e jota é jota! Você não pode jir de uma coisa, você pode rir dela. Ou rrá pode? O meu jefe não é

refe, aspirado, gutural. É chefe, chato e pronto. Um sibilante, viperino som de chis no início da

palavra o qualifica. Ou um aquoso caudal, como água escorrendo também é suportável. Isso é

inteligente, confortável como uma xícara de chá. Aliás, lembrese, chis (x) em inglês é equis, ou eks.

Isso pode!? Um simples x ampliado a essa potência! Eks é demais! De uma arrogância britânica! Um

jota no lugar do cê e do agá é de um reducionismo muito pretensioso e pode levar a confusões. Tanto

quanto os dois eles (as letras l e l, não o pronome no plural) de uma lluvia simples. Para que

tempestade em copo de água!?

Imagine a frase: ele (agora o pronome, terça persona no singular) é um rugador de bolha. Conseguiu?

E os argentinos machões dizem pellota. Rá! Não ria, por favor! Bom, não importa, já que no caso eu

defendo sempre o uso da língua em qualquer situação que envolva uma conversa, um papo, escrito,

falado etc. Aliás, defendo-a, e, ao seu uso também, noutras situações, menos confessáveis, mas não

menos importantes. Do sorvete ao dedo. Isso é coisa séria! O alemão, por exemplo, é cheio de zptks

numa mesma palavra, sem mencionar os ß (o que quer dizer isso cara!? diz pra mim, por favor, que

coisa é esta? usa um esse (s) e pronto! Se precisar dobra...), e olha que tem cada palavrão com mais

de dez letras! Para quê? Composição, filosofia, duplos sentidos? Quem tem tempo de ler dez, doze ou

mais letras numa só palavra? Tem de ser rápido, conciso. O tempo urge, precisamos ganhar dinheiro.

Não dá pra ficar perdendo tempo com questiúnculas, incondicionalmente. Somos (?) capitalistas. Por

exemplo, tem coisa mais ridícula do que o ipsilone? É i e acabou. Viu - i - simples, direto, claro

como o sol das manhãs de maio. Um traço alegre, aberto ao infinito, vertical, conciso. Nós aqui

dizemos - ã. Não gastamos duas letras para tal. Imagine o inglês dizendo não. Naen? Nou? Tem que

fazer um treco com a língua. Eles sacaram a bobeira, mas teimam e dizem no. Tudo bem

economizam com duas letras, mas arrastam um uzinho no final, reparou? Nou...Então para que

reduzir a escrita para duas letras - no - se falam três - nou? A quem querem enganar? E a palavra

tudo - all - ora, au é coisa de cachorro! Pára com isso! Agora sleep é que é demais. Põe um i, é mais

simples (mas, i se diz ai – acredita?) Então fi caria slaipi. Vai entender! Durma com um barulho

destes bajo una lluvia! O español bota tio em cima do ene. É muita indexação! Isso quer dizer que

tem um agazinho ali, escondidinho? Tá bom! É riqueza, luxúria, esbanjamento? E eu tenho de

deduzir isto sozinho?

Na raiz da nossa língua, que é o latim (românico), também tem uma que não me desce pela goela. É

o tal do æ . Do que se trata, do i? Ora, vamos lá pessoal, estamos falando de nossa língua, nossa vida.

Que em latim é vitæ? Tem som de i, mas quer dizer a neste particular e post transliteratur. Depois os

gringos vêm nos dizer que o português é que é complicado, que é difícil fazer negócios conosco. Não

entendem os ablativos, os dativos, Guimarães e as rosas. Só porque inventamos uma cedilha? Para

colocar no lugar dos inúmeros esses e falsos zes que nidificam por aí? Ablactemos então!? Não

senhor! Não precisamos inventar ou copiar mais nada (mas, sou a favor do desenvolvimento). Nossa

língua é culta, bela e incompreendida. Somos ricos e bons. Se não gostam que transem com os

chineses. Quero ver! Estalos e ventos Errar uma consoante ou outra é normal, não podemos falsear é

nas vogais. Aliás, língua é uma invenção humana, ela e estes sinais gráficos que usamos para

diferenciar um som do outro. Se eu descobrisse quem foi que inventou essas bobagens eu lhe daria

um supetão e lhe faria algumas perguntas baseadas na filologia e na gramática. Essas sim são

carregadas de pressupostos irrefregáveis...Aliás, o que vem a ser irrefregável mesmo?

* não quero nem saber do acordo ortográfico!

4 - O ANTICRISTO E O ANTICONHECIMENTO.

Especulações filosóficas atuais ou a teoria do antisensível e das contra-aparências, em que o projeto

se revolta contra o projetista.

A partir do fim do século 2 em diante o cristianismo ocidental tornou-se definitivamente parte da

rotina ordinária da práxis do império romano e se ramificou através da doutrinação, uma nova forma

de entrar pacificamente nas conquistas e colônias com outro discurso além da espada (sem que esta

estivesse totalmente embainhada), para a própria expansão do império, aproveitando a esteira deitada

pelo apóstolo Paulo e os caminhos abertos por outros pregadores intelectualizados na Europa do

meio e em direção ao norte.

O império se esvaziava rapidamente e para assegurar a sua expansão Roma adotou o cristianismo (já

deformado, é claro, pela mixagem com o paganismo romano oriundo da Grécia e das Sibilas) como

religião oficial, uma forma de permanecer no centro histórico do mundo, a saber, hoje o Oriente

Médio dos fenícios, caldeus, semitas e outras culturas mesopotâmicas, e também sem deixar de

assimilar as outras influências religiosas pagãs dos povos conquistados, atraindo-as para a esfera de

seu sincretismo, adaptando-as à liturgia e ao credo dominante na medida em que ia avançando. Fixa

em um centro, pode realizar sua expansão. Matematicamente, fisicamente, juridicamente,

filosoficamente, religiosamente, economicamente, tudo aprendido no manual grego, que já era a

soma racional de todo o conhecimento acumulado pela humanidade até então.

Roma antes de Cristo era pagã, era panteísta como a Grécia, nada mais natural, portanto, que aceitar

o paganismo consorte das novas colônias. Nasceu, diz o mito e a poesis de Virgílio Publio

encomendada pelo ministro Mecenas, da vontade de Enéas, general troiano, e dos sonhos dos deuses,

que o impeliram pelo Mediterrâneo até as costas da Sicília e Itália, após fragorosa derrota em Tróia

na guerra de nove anos contra os gregos e aqueus de Agamenon e Ulisses (aquela do cavalo de

madeira). A partir disso foi uma peregrinação por diversas terras, pedindo aos diversos reis dos

povos habitantes dos locais onde aportava permissão para desembarcar e tentar fundar uma cidade,

pacificamente. Das nove naves tripuladas que partiram de Tróia arrasada, levando homens, mulheres,

velhos e crianças, depois de longa peregrinação apenas quatro chegaram às costas da Itália, à época

dominada pelos latinos. Ali, depois de intrigas e muitas mortes, chegariam a estabelecer um império

que se estenderia pelo mundo e o dominaria, conforme a predição da vidente feita a Enéas, em seus

sonhos. Uma história bem contada, mas que não tem a grandiosidade e a eloqüência poética da Ilíada

e da Odisséia gregas, de quem, descaradamente fez a cópia. De nada valem os argumentos de que

naquela época a questão dos direitos autorais não existia, ou de que as obras eram abertas e serviam

para isso mesmo, influenciarem umas às outras. Roma é uma cópia, ou uma melhora do status mundi

que encontrou bagunçado quando surgiu e, para arrematar, fez a sua própria bagunça. É claro que

esta é uma visão atual!

Virgílio foi introduzido na corte pelo senador Mecenas graças às suas qualidades poéticas, e tornou-

se amigo do poder aceitando a encomenda do imperador romano, que queria uma origem mais nobre

para o seu povo tão forte e guerreiro. A história da loba e de seu fi lhotes humanos – Rômulo e Remo

– o incomodava e o cobria de opróbrio (loba é lupus em latim, e lupanar é casa de lobas, ou

prostíbulo) e assim fez-se a cópia, que se chamou de Eneida (em homenagem a Enéas), louvando

poeticamente as novas origens e características de Roma. Virgílio ganhou dinheiro e prestígio com

isso. Depois, numa virada, experimentou a ira do imperador que o exilou para longe do conforto e de

todos, por razões políticas. Entretanto, tornou-se, segundo Dante Alighieri que nele também se

inspirou para escrever sua Divina Comédia, o maior poeta latino de todos. Há que se notar também

em Dante muito da Odisséia grega, compilada por Homero mil anos antes. Roma vestiu-se para

cobrir as manchas do sangue que derramou, e não se lavou antes.

Entrementes, em sentido estrito, não há religião mais complexa, ou seja, amplamente formada por

diversidade e abrangência de credos regionais, o que facilitou seu ecumenismo e, portanto, o diálogo

inter-religioso, principalmente entre povos de língua latina da idade média em diante. É certo que

enfrentou resistência no norte europeu e mais ao leste, e para tanto recorreu a um acordo tácito com

as forças ditas bárbaras, teutônicas, mas assegurou para si, ainda que submetido a esta divisão, todo o

território europeu atual, as Américas e Oceania, graças à fusão e formação do sacro império romano

germânico, para onde transferiu seu poder por um tempo a fim de ampliar sua capacidade de

assimilação das culturas nórdicas, transformando-se.

Na Idade Média Carlos Magno com a aprovação de Leão III conseguiu reestruturar o império, que se

chamou Carolíngio, porque soube usar da organização da única instituição que sobreviveu à queda –

a igreja – e criou e esparramou um corpo de especialistas dali oriundos, que sabiam ler e escrever

para administrar a nova expansão do império que rapidamente retomou o poder sobre a Europa.

Depois foram expurgos e limpeza étnica que culminaram no final do século XX com os conflitos da

Bósnia Herzergóvina e atualmente com os rigores dos éditos da CEE. Hoje também, para migrar da

Europa para os USA, país para onde se transladou o capitalismo financeiro e econômico, (sede

ideológica da reforma luterana) qualquer pessoa tem uma série de requisitos e protocolos a

preencher. Questões de segurança e de manutenção. Para lá, em breve, também deverá ir a igreja e

sua organização toda, o lado não latino dela, pelo menos. Tivesse Eu de fazer uma afirmação

bombástica, daquelas que te põem em risco de sobrevivência, mantendo-o afastado da possibilidade

de trabalhar com dignidade e de ter cerceada a liberdade, diria assim – Cristo estava certo, lá para os

judeus pobres e abandonados pelo império e pelo seu próprio povo, cheio de cismas e divisões

internas (no que Moisés deve ter falhado com a pregação da união das tribos de Judá – só 12 se

salvaram - o que se vê ocorrer milênios depois de sua obra grandiosa – um revide histórico

incentivado pela cirúrgica intervenção do enclave de Israel a partir dos anos 50 do século passado

bem no olho do mundo) e, ainda assim os judeus não o aceitaram.

Mas, também o cristianismo errou, porque na mão dos romanos virou, para além de sua realização

teogônica e capital ético, uma peça política de forte expressão de poder, mera ferramenta de

apropriação da alma e do corpo dos homens em benefício de reis, imperadores e projetos políticos

expansionistas, que com o passar dos tempos o reformaram à maneira de uma pantomima, cheia de

truques e feitos de fé, como se apresenta hoje. Culpa de quem? Da igreja organizada pelos romanos

que sempre foram pragmáticos, souberam orientar sua conduta de dominadores a partir das fraquezas

dos outros povos. Façanhas apreendidas com os gregos. Ou, para amenizar, não há culpa alguma em

saber aproveitar-se da fraqueza alheia para sobreviver – é da evolução das espécies, diriam os

naturalistas e evolucionistas. E aqui uma mão lava a outra, devolvendo o favor. Ponto para os USA

que a esperam evoluída em breve.

Uma coisa é certa: a politização se deu em duas vertentes iniciais - uma a da espada dada a Pedro (o

lado sangrento da força do império – temporal, terreal, chegado ao misticismo) fortaleza sobre a

pedra, estrutura, templo, catedral, e que assumiu uma das características fundamentais do

monoteísmo judaico, a saber, o aspecto belicoso do deus que vai à frente dos exércitos em uma

coluna de fumaça e de fogo, destruindo seus inimigos sem piedade, como deve caber a todo império

que se expande. A outra, a chave do conhecimento (espiritual – leia-se científica), foi dada a Mateus,

resgatando o lado esotérico dos ensinamentos dos profetas, dos juízes semitas e, porque não, dos

filósofos gregos reinterpretados à luz da Patrística, dos pais da igreja neoplatônica do século II em

diante, e como defendiam as bulas e concílios dos papas – pretensos imperadores dos séculos X, XI,

XII, XII – na idade média, revirando e revisando Aristóteles e tirando de cena qualquer vestígio de

interpretação filosófica oriental (leia-se árabe ou persa).

Aproveito e pergunto, digretivamente, num arroubo de flexão mental, apenas como digressão

figurativa: seriam os cavaleiros templários, os jesuítas chefiados por Ignácio de Loyola os modernos

Jedis do seriado Guerra nas Estrela (dirigido por George Lucas), menos latinizados, lutando para

defender uma princesa, ou um princípio feminino? Roma se dividindo em facções: a coisa não muda

nunca, em essência, só na forma? Tudo pelo poder já há mais de 2500 anos; antes, durante e depois

de se tornar República, a variante melhorada e ampliada da Polis grega.

Por que afirmo isso? Por uma razão simples e aqui eu lhes suplico a inteligência e a validação dos

paralelos análogos: li outro dia uma matéria em uma revista científica escrita por Michio Kaku,

intitulada Há uma teoria do tudo? Professor Doutor em física teórica na City University of New York,

e autor de Hyperspace: a Scientific Odyssey through the 10th Dimension - (Oxford University Press)

Michio se dizia encantado com as teorias de Albert Einstein desde a infância, teorias inacabadas, e

que apesar da consistência e modernidade (na verdade só a releitura ou uma reinterpretarão do

conhecimento contido, portanto, apenas uma revelação) dos estudos que a todos deixavam perplexos,

não deixavam de ser incompletas perquirições sobre assuntos abrangentes, mas que nada concluíam,

dado que o conhecimento é circular e parece-se com uma corda que se puxa constantemente e nunca

se finda. Ora, os estudiosos que vieram depois é que lhes deram corpo, atualizaram e transformaram

os pressupostos do velho físico austríaco. Hoje a teoria da relatividade e as “descobertas” científicas

de Einstein, após setenta anos não passam de um presságio daquelas idéias iniciais tanto que se

aprofundaram as pesquisas e se ajuntaram novos e desconcertantes dados a ela, continuamente. De

Einstein resta só o nome. Mas, conclusão, ainda nenhuma! Ele só pegou a ponta da corda e a puxou.

Hoje há um enorme rolo sobre o qual a ciência se debruça e se enrosca ao mesmo tempo em que não

a podem parar de puxar, pois às respostas daquilo para o que já se sabe, formular as perguntas, estão

ainda lá na frente. A energia, o espaço, a luz e as dimensões ganharam novos dínamos e sobram

especulações. Uma boa é a do micro-espaço, do micro-tempo, das frações mínimas mas constantes

de energia e de suas possíveis transformações.

Quando uma criança dá um pulo na areia da praia ela move os grãos da areia que se empurram e se

chocam uns contra aos outros, e isto, estes micro-choques provocam descargas elétricas que

impulsionam os grãos em várias direções, e todo o universo visível, pensado e invisível e impensável

se move, se altera. Seria perfeitamente absorvido e compreendido num plano absolutamente estático,

mas como o mundo já é uma massa energética em constante movimento e mutação não percebemos

a magnitude destes pequenos gestos. Lá a coisa se sublima. Um outro dado seria, a criança quando o

fez estava sorrindo ou estava séria? Sim, porque ao contrário do que disse Einstein, Deus jogou todos

os dados pelo universo visível e invisível, nós é que deveremos juntá-los todos se quisermos

descobrir algo de essencial sobre nós mesmos. Eis porque o exterior imenso nos acovarda e ao

mesmo tempo nos atrai, e eis porque o inverso, o interior insondável e também escuro nos puxa para

si e nos promete monstros e maravilhas.

Da conquista de Marte ao projeto Genoma, um mesmo sentido, duas direções. O macro e o

microuniverso são espelhos complementares, mas são também inversões. Desde o Egito antigo, de

Hermes Trimegisto e os segredos dos sacerdotes de Ísis. O mesmo pode-se dizer do pensamento

ocidental, do cristianismo e das teorias teológicas relacionadas do Cristo de Nazaré, ou das

especulações filosóficas e naturalistas dos pré-socráticos, dos eleatas, dos milésios, dos jônicos, dos

atomistas (dos quais nos chegaram apenas fragmentos, uns mais outros menos), do mestre Platão e

suas definições de República, de Aristóteles e as correntes conseqüentes dos pensadores escolásticos,

renascentistas, do conteúdo social dos filósofos das revoluções industrial e burguesa de Inglaterra e

França nos séculos XVII e XVIII, dos filósofos românticos dos séculos XVIII e início do XIX na

Alemanha, e, do abandono de tudo isso pelos neotolos do Novo Mundo que nos querem separados

do cordão umbilical da velha Europa, como se isso já fosse possível.

Do princípio de tudo aquilo só nos restam os nomes, todo o mais foi transformado, ou evoluiu e se

perdeu pela ação natural do tempo e também da possessão artificial deste, para ser mais amável, de

acordo com as interpretações, necessidades, intenções e vontades políticas (o homem é um animal

político – zoon politikós) de quem detinha tais conhecimentos e pretendia “dividilo” com os outros –

divisão esta, diga-se de passagem, eivada nas mais sinceras e legítimas intenções e idéias de

manutenção do status quo – coisas do poder – vide Nicola di Machiavelli e a prática política de

nossos ‘príncipes e representantes’, democraticamente eleitos em parlamentos representativos (e isso

é um problema, pois é mais representativo do que participativo, relativamente ao povo que vota e

elege).

Hoje, milênios depois, quinhentos cérebros privilegiados e absolutamente focados em uma missão,

cuidam da manutenção do império e para tudo eles têm uma forma, um conteúdo, e conhecem as

regras e cuidam dos desvios, sabem onde podem ocorrer erros e fazem previsões com margens

mínimas de falhas, e sabem que o espírito humano é incontido, infinito e que, portanto, é disso que

devem cuidar, deste ente não acabado, renovável, deste vir a ser e que pode surpreender, o que

também já está dentro do sabido e previsível. Eis porque manter uns modelos em funcionamento e

eis porque desmontar outros que não funcionam ou podem causar danos à engrenagem. Parece

mecânico? Mas, não é, ou é também.

Neste sentido e direção, onde falha a educação falha o projeto como um todo, porque na tribo dos

selvagens, dos retrógrados e escravagistas se ensina (diferente de educar) para o trabalho ao invés da

educação para a liberdade, e eis porque a luta política no Brasil e nos outros países da América

Latina, que experimentaram muito pouco da Reforma graças ao recrudescimento da igreja imperial

católica e de setores militares das décadas de 50, 60 e 70 é tragicômica: tornamo-nos egoístas e

aceitamos a barbárie, lutamos e matamos por roupas, jóias, carros e vontade de aparecer na televisão,

nós, brasileiros queremos ganhar um busto numa praça ou um nome de avenida, e para tanto

transferimos esta vontade para políticos representativos e representantes que se vão às assembléias e

votam o dia da viúva. Do outro lado crianças continuam sem direito à infância, ou morem de fome

ou são vítimas de traficantes de almas, de drogas, de corpos; fi lhos matam pais, facções se

aglomeram em torno do poder e o exercem de fato, sobram assombrações. O rolo do império

continua passando.

Dentro de um círculo não há lados e parece que todos correm atrás de um mesmo objetivo – suas

próprias costas, talvez curiosos por saber que também os próprios rabos lhes pertencem, ainda. Está

claro por que não merecemos o respeito da comunidade internacional? Como se eles fossem santos!

Mas, pelo menos têm um projeto, do qual somos apenas uma parte. E nós, precisamos ou podemos

ter um projeto? Aí vale o corte separatista. Primeiro romper com modelos arcaicos europeus e norte-

americanos que não nos interessam, depois rever a questão da federação brasileira e suas divisões, os

estados, que lutam independentemente sem um foco no todo, lembrando que o todo é o reflexo das

partes, mas desenvolve qualidades próprias, particulares, e que, portanto, também age

independentemente e de forma autônoma, eis o princípio da interdependência, fulcro de toda a

liberdade. A partir daí investir na criação de uma identidade cultural e na renovação patrimonial e

educacional do país, estruturas das quais não se pode prescindir se o que se pretende é mesmo um

país livre e soberano feito por homens verdadeiramente livres.

5 - BLUES EYES

Daniel Boone was a man, was a big man...

Era assim que começava o seriado na TV na década de setenta, com uma bela canção no estilo

colonial inglês, coral masculino, orquestração etc. Eu tinha uns dez anos de idade e não entendia

nada. Daniel desbravou o oeste norte-americano e o fez de acordo com o figurino - o que vier pela

frente levará bala, a não ser que venha de costas e em posição de, digamos, subalterna submissão e,

se demonstrar prazer melhor, não perde o escalpo. Levou sua mulher Rebecca, seu filho Israel e tinha

um ‘amigo’ índio cherokee chamado, pasmem, mean gol (mingo pros caipiras tupiniquins) - que

quer dizer em bom inglês - o alvo.

Mingo era um nativo nobre, logo um tolo que acreditava no branco e na pureza de suas idéias. Como

todos os cherokees donos daquelas terras era descendente de uma nação pujante, vestida, vivendo em

estado de arte e em profunda relação espiritual com a terra. Somavam-se a eles todas as outras etnias

de pele vermelha do Norte, do Centro Oeste e das grandes pradarias norte-americanas, constituindo o

grande tronco da família ou nação Sioux. Auto-intitulavam-se os “seres humanos”. Estavam lá há

pelo menos dez mil anos. Eram várias tribos, Black foot, Pawnee, Shawnee, Shayenes, Tuscarora,

Apaches, Meewauky, Moicanos, Shoktosee, Dakotas, entre dezenas de outras espalhadas do Canadá

ao México. Todas respeitavam os territórios de caça umas das outras. A não ser quando o inverno era

rigoroso demais e, com a caça dificultada e a comida escassa eram forçados uns a invadirem as terras

dos outros (geralmente atrás de manadas de búfalos, alces, gamos, perus silvestres e outros animais

dos quais aproveitavam tudo, carne, pele e ossos).

Aí o “pau comia”. Mas havia uma certa condição de respeito, um certo sentido elevado de honradez.

Quando um pele vermelha matava um animal de porte, como um cervo, alce ou búfalo, ele pedia

perdão ao grande pai por tirar a vida de um irmão antes de disparar seu arco e flecha. E também

agradecia, claro, porque caçar um búfalo era aventura para fortes. Depois de morto o animal era

reverenciado e o homem desta vez pedia-lhe perdão por ter de comê-lo para sustentar os seus e por

isso, e porque sabia também que poderia estar caçando em terras alheias, aproveitava o animal

abatido ao máximo, como respeito ao mesmo e aos donos daquelas terras e para não deixar nenhuma

pista ou rastro aos seus possíveis caçadores.

Índio esperto andava em silêncio, mesmo em bandos de caça e captura. Guerreiros, nunca estavam

passeando por lazer. Sair para a floresta, para as pradarias era sempre um exercício sério, com função

e objetivo definidos, um líder batedor mais experiente guiando pequenos bandos de até dez

exploradores. No mais preferiam ficar em casa, com suas famílias e cuidar de suas coisas, seus filhos,

sua gente. Com a chegada do homem branco e suas armas de fogo foi sendo empurrado cada vez

mais para Oeste, em direção às grandes montanhas do Noroeste norte-americano, para o estado do

Wayomi, ou Washington, lá pros lados do monte McKingley (o ponto mais alto daquelas terras)

próximo ao Oceano Pacífico. Lugar frio e inóspito. Acabaram confinados em reservas.

As coisas não eram fáceis naqueles dias. Nem hoje. Bush mandou jogar fósforo branco sobre os

iraquianos rebeldes. Como jogaram Napalm sobre os vietnamitas ou bombas atômicas sobre os

japoneses. Não aceita “na boa”, então ‘vai na porrada’, os gringos quando querem entram e acabou.

Oferecem panelas, miçangas, espelhos, facões e outras armas que para eles já são brinquedos e não

os assustam mais (como rifles e pistolas automáticos e munição à vontade) e contra as quais seus

coletes e capacetes de kevlar e teflon já se tornaram impenetráveis. Se são aceitas fazem as trocas,

encantam as mulheres mais bobinhas com seus olhos azuis e suas “bilôlas” grandes e rosadas, fazem

a festa, deixam bastardos, dominam, vão embora e fazem filmes onde são retratados como heróis. Se

não espinafram o que vier pela frente. Eis o poder em sua face rude com tratamento “cultural”.

Depois de dominado, o “inimigo” terá acesso facilitado a computadores, carros, pay per view, strip

tease, pokker, football, pistolas automáticas ou machine guns, poderá andar em shoppings centers,

ter um credit card, video games e uma série de serviços e benfeitorias, como police, fast food, sex

and city, Las Vegas, rock and roll, reagge etc, tudo da mais absoluta necessidade e sem o qual já não

se pode viver hoje em dia, dizem. Demorou uns cem anos, mas fizeram dos USA um enorme país

passando por cima de tudo e de todos. Enfi aram um enclave também no Oriente Médio, bem no

meio dos povos árabes (o estado de Israel), e ainda não lograram o lucro almejado, já pegaram boa

parte do petróleo, é certo, mas é que aquele povo muçulmano é duro na queda. Têm até um deus

próprio, o que dificulta muito. Como é que ainda preferem camelos a fords mustangs? Deve ser

porque areia é mais mole do que o asfalto. Só pode ser. Mas entraram e estão lá. Mandam e muito.

Na América Latina, dominaram primeiro o México e levaram mais de 45% de seu território. Texas,

Arizona, Califórnia, Nevada era tudo terra de “chicano”. Depois vieram descendo e pegaram o

Panamá, a Nicarágua, Costa Rica, não conseguiram mandar em Cuba, por não quererem sujas as

mãos de “sangue americano” e para a igreja não os condenarem, mas se tiverem de entrar vão com

bola e tudo. Matarão o ditador Fidel envenenado, quando puderem (ele já sofreu mais de quinze

atentados). Têm até uma base militar na ilha e uma parte daquela terra não é permitida para os

cubanos, a não ser em música, Guantanamera ( yo soy un hombre sincero...lembra? uma referência a

base de Guantánamo). Na América do Sul já levaram a Colômbia, o Chile e a Argentina, o Paraguai

e parece que tudo caminha em direção ao Uruguai, mas esbarraram na Venezuela, e no Brasil e ao

que tudo indica não será fácil também com a Bolívia e com o Peru.

Os interesses por aqui são diversos - muita riqueza, el dorado siglo XXI, grandes extensões de terras

semivirgens, indústrias pouco competitivas, muita comida e agricultura farta, povo pacato, burro,

sorridente e adulador e quase covarde, mulher bonita, sol o ano todo, muita maconha e cocaína.

Enfim tudo o que o capital precisa para vivenciar a experiência do paraíso ainda na terra, o que os

católicos não aceitam nem acreditam por força das tradições romanas, mas os protestantes da

reforma querem e praticam. Day by day, forever and ever again.

De bom eles têm uma língua e bons escritores, música inteligente e bem construída e dólares, que se

trocados em reais ainda saem na base de dois por um. Nada mal para quem tiver o que trocar!

6 – CIRCULAREJANDO PENSARES

Alguém : “Eu deveria ter visitado mais meus amigos e lhes contado como me sentia em vez de só

encontrá-los em festas, ou enterros” (oportunamente).

Vivemos a sociedade dos sem tempo, eis como somos pobres, presos em cadeias eletrônicas!

Estamos nos habituando à solidão restritiva da família de tanto querer protegê-la como valor

inestimável, numa relação neurótica, semiótica do medo, dentro de uma sociedade que já destruiu os

verdadeiros valores que a tornariam efetiva ferramenta de construção e lapidação de ser humano e

não deixou nada em seu lugar que possa nos confortar, a não ser uma pregação pífia do ‘amor’ que

nos une. Quando acaba o dinheiro, porém...Um novo modelo está sendo implantado e nem nos

apercebemos - o modelo de sempre.

A contradição parece advir ana ou diacronicamente de uma luta ideológica enorme e fechada em

seus paradigmas, polarizada, jogando trevas onde deveria haver luz e caminhos, arrastando-se a

séculos e que de um lado dizia: a família não é necessária a não ser para a representação da matriz

de uma sociedade controladora, paternalista, machista, e que portanto mantém o poder nas mãos de

uns poucos, enfatizando a necessidade de crermos na direção apontada por eles. Precisamos nos

libertar! Era um postulado da sociedade socialista, materialista, que emergia com força na visão

crítica e historicamente coerente do materialismo científico alemão, marxista, que sobrevive ainda

hoje, cheio de traduções e interpretações. Do outro lado, a pregação capitalista e religiosa da