Arizona - Beautiful Dead - Livro 2 por Eden Maguire - Versão HTML

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VOLUME 2

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3

Faz quase um ano que Arizona apareceu afogada no lago Hartman. Suicídio

não faz sentido: Arizona era segura demais para dar fim à própria vida, pensa

Darina — que não vai descansar até encontrar a verdadeira causa da morte da

amiga. Ao lado de seu amado Phoenix — que volta do mundo dos mortos-vivos

depois de uma longa e dolorosa espera —, ela inicia a busca pela verdade que,

se vier à tona, vai deixar em choque a pacata comunidade dos moradores da

cidade de Ellerton.

NÃO PERCA TAMBÉM O PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE: JONAS

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4

A cidade de Ellerton continua em alerta após a misteriosa morte dos quatro

adolescentes. Agora, a missão de Darina é cumprir a promessa que fez a

Hunter: descobrir a verdadeira causa da morte de Arizona — o segundo

Beautiful Dead —, sem deixar de aproveitar o reencontro com seu amado,

Phoenix.

Darina fará que tudo o que estiver ao seu alcance para provar à cidade que a

bela e geniosa Arizona não se suicidou. Nem que para isso ela tenha de

enfrentar a fúria dos amigos, de sua mãe, Laura, e do padrasto, Jim, que,

mesmo sem saberem seu segredo, não querem vê-la envolvida em mais

problemas.

Em uma investigação árdua e complicada, descobertas intrigantes deixam a

protagonista em pé de guerra com Arizona, que impede de todas as formas que

os segredos de sua vida sejam revelados.

Em sua missão para ajudar os Beautiful Dead, que estão em sério perigo,

Darina entenderá de uma maneira nada convencional que o orgulho não leva

ninguém a lugar algum e que a justiça pode, e deve, ser feita sempre.

Eden Maguire é norte-americana e os livros da série Beautiful Dead marcaram

sua estreia na literatura. Admiradora do clássico da literatura mundial O Morro

dos Ventos Uivantes, de Emile Brontë, Eden busca atualizar em suas obras o tema

do amor maior do que a morte. A autora vive nas montanhas geladas do

Colorado, nos Estados Unidos, onde, além de escrever, dedica-se a uma de suas

grandes paixões: a criação de cavalos.

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5

Para minhas duas lindas filhas.

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6

Phoenix Rohr mudou minha vida: entrou no imenso céu escuro dela como uma

estrela cadente e brilhante, iluminando meu mundo. Antes de encontrar Phoenix eu era

só meia pessoa inacabada e com medo. Depois, por algumas poucas semanas, fiquei

completa.

Ele e eu fazíamos tudo um pelo outro. Resistimos juntos à crueldade do mundo de

mãos dadas, ele sempre com o braço em volta do meu ombro. A verdade é que as pessoas

do meu mundo andam com essa mania de perder a vida já se foram quatro da escola

em um ano. Intensidade pelo menos não nos falta: agarramo-nos à vida que cada dia nos

traz. Amor e sexo, compartilhando cada momento. Eu me apoiava em Phoenix como se

ele fosse minha salvação. E, então, tudo se desfez em pedaços: eu o perdi essas três

pequenas palavras. Ele foi assassinado durante uma briga.

Procurei por ele em todos os lugares; saí da cidade passando com o carro por entre os

choupos e as sequoias enormes até onde o desenho da serra começava a ficar irregular

contra o céu. Sussurrei “Phoenix” milhares de vezes; seu nome era tudo o que eu tinha.

Phoenix, o quarto do grupo de alunos que não voltariam mais. Um, dois, três, quatro

golpes no coração, mas o último foi, sem comparação, o pior deles.

“Phoenix”.

Eu vivia de memórias. Seus beijos, seu toque, os dias de verão quando nadávamos no

riacho Deer, as noites em que ele ligava o som do meu carro e íamos até o lago

Hartmann, eu repousando em seu ombro e tentando contar estrelas. Por um tempo tive

medo de me esquecer de tudo.

Daí as asas de anjo, os fantasmas, os espíritos no limbo como quiser chamar

começaram a dar sinais. E Phoenix voltou.

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7

Não quero falar com ninguém, preciso ficar sozinha.

Ok, então deu tudo certo para Jonas — em parte por minha causa —, mas o

destino de três Beautiful Dead ainda está em minhas mãos. É verdade, ainda

tenho Arizona, Summer e Phoenix, nessa ordem — os nomes se repetiam em

minha cabeça como um mantra.

— Darina, eu queria que você ficasse mais em casa, a gente podia fazer tanta

coisa junta, ir ao pedicuro, fazer compras.

Essa é Laura, minha mãe.

— Darina, não dá pra você ficar dirigindo esse conversível, esse carro bebe

demais.

Meu padrasto, Jim.

Assim, dá para imaginar o quadro geral.

— Nos encontramos com você no shopping, Lucas e Christian estarão lá. —

Jordan e Hannah, saltitantes e felizes como se tivessem visto um passarinho

verde.

E Logan Lavelle.

— Darina, por que você não vai lá para casa como a gente fazia antes? Eu

estou com um DVD novinho que a gente pode assistir.

Saiam de perto de mim todos vocês e me deixem em paz.

Minha linguagem corporal deve ter indicado isso, mas essa galera é muito

casca-grossa para conseguir entender. Ou talvez eles estejam só preocupados

comigo.

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8

De qualquer forma, estou sempre de carro, saindo pela Centennial em

direção à Foxton. Passo pelas montanhas, que se erguem absolutas de cada lado

da estrada contra o céu azul.

Acabo com aquela calmaria do ar aumentando o som no volume máximo e

pisando no acelerador.

Velocidade é a única saída para tirar o peso dos meus ombros, deixando

todos para trás. Dirija, gata, dirija! Estou no meio da área onde houve a

queimada, quilômetros de floresta que ficaram completamente pretos, tocos

retorcidos, restos de troncos caídos, terra cinza. Quem sabe daqui a dez anos

alguma coisa verde recomece a crescer.

Saindo da área das árvores carbonizadas, acelerando na subida pelas

montanhas, as sequoias voltam a ficar verdes sobre o fundo de pedras cor-de-

rosa, meu segredo pesado vai escorrendo dos meus ombros, porque ali

ninguém consegue me pressionar. Ali estou segura.

A batida da música quase estoura meus tímpanos, o barulho das guitarras é

estridente, e vou cantando junto com a música aos gritos enquanto me agarro

ao volante e me inclino cada vez mais para frente no banco. Carroceria de cor

vermelho vivo e interior de couro bege com detalhes prateados. Brandon Rohr

demonstrou ter um gosto refinado quando escolheu esse carro para mim. Passo

pela encosta de Turkey Shoot, a dez minutos de Foxton e a trinta dos Beautiful

Dead.

Acho que estou com uma ideia fixa. Sei que estou. A todo momento, cada vez

que inspiro, espero por Phoenix, seus olhos lendo o que se passa em minha

cabeça e coração, seus braços em volta de mim. Por que não posso estar com ele

vinte e quatro horas por dia, todos os dias da semana? É o que quero saber.

Aí está Foxton, um descampado de casas de madeira, uma antiga loja de

quinquilharias com as janelas lacradas, um cruzamento sem semáforo. Pego a

rota alternativa, passando pelas cabanas dos pescadores com vista para as

águas turbulentas onde Bob Jonson finalmente vingou a morte de Jonas: jogou

Matt Fortune para fora da estrada, e ambos se espatifaram nas pedras antes de

afundar no riacho. Levaram a moto de Matt até Charlie Fortune, que a

consertou para que ele mesmo pudesse andar nela novamente. Fico apavorada

quando penso nisso. Não pense nisso, Darina, continue dirigindo.

As casas ficaram para trás e a estrada agora é de terra. Não há nada além

desse ponto; eu preciso sair do carro e seguir o caminho que os cervos fazem

quando vão para o bosque de choupos na encosta. Essa é a quinta, talvez a sexta

vez, que venho até aqui de carro desde que Jonas se foi, e sempre encontro só

vazio e silêncio. O vento sopra nos choupos, mas não há asas batendo, nem

campo de força dizendo aos vivos como eu para cair fora.

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9

Phoenix, sou eu. Onde está você? Preciso ver você. Quando ele me abraça, meu

coração para, é a única hora em que me sinto em casa. Se eu continuar carregando

esse segredo por muito tempo, vou desmoronar. Conte a Hunter, conte aos outros. Não

posso fazer isso sozinha.

Escalo a encosta e fico sem fôlego enquanto permaneço na sombra da caixa

d’água enferrujada. Dá para olhar entre as árvores até o próximo vale sem

nunca enxergar o antigo celeiro. As folhas dos choupos se agitam e farfalham —

como asas? É lindo, lindo mesmo — os choupos e a face inclinada do morro, as

florzinhas amarelas das ervas levantando-se orgulhosas da campina prateada. E

o céu imenso, imenso.

Mas não, eu ainda não estou ouvindo o som das asas batendo, apenas o

barulho surdo das batidas do meu coração e minha respiração arranhando a

garganta, sem sinal dos Beautiful Dead nem de Phoenix. Procuro por ele

enquanto desço rapidamente o morro, mas com tanta atenção que talvez não

esteja percebendo o óbvio e perdendo a visão do contorno de seu perfil, alto,

parado na porta do celeiro, virado em minha direção, esperando. Ele vai ter que

estar lá. Como se esperar e querer de verdade fossem o suficiente para fazer

uma coisa acontecer...

Minhas pernas se movem roçando a grama, eu me arrasto por baixo da cerca

de arame farpado e consigo enxergar dentro do celeiro, porque a porta está se

mexendo como sempre. Nos ganchos estão pendurados antigos arreios, e as

teias de aranha se espalham entre todas as vigas.

— Por favor!

Vamos deixar isto claro: estou onde os Beautiful Dead se encontravam. Eles

não se deixam ver, a menos que queiram que você os veja. Na verdade, eles

precisam permanecer em segredo para manter os vivos — eu e você, por

exemplo — longe dali, senão eles acabam... Eu já ia dizendo — mortos —, mas

seria esquisito demais. Quer dizer: Phoenix, Hunter, Arizona, Summer e o resto

já são parte do passado, são aparições que voltaram do mundo dos mortos.

O celeiro estava vazio — chequei cada centímetro, até no palheiro, aonde

finos fachos de luz chegavam ao assoalho podre. Esse foi o lugar onde eu revi

Phoenix pela primeira vez, no centro de um círculo em que todos cantavam —

eram os Beautiful Dead e seu mestre que davam a ele as boas-vindas depois de

seu retorno do limbo. Bum! — minha cabeça explodiu. Na hora em que

consegui juntar os cacos, meu namorado já era parte da gangue de Hunter e

tinha sua marca mortal para provar: uma tatuagem de asas de anjo entre suas

escápulas, bem onde a faca tinha entrado.

— Phoenix, volte! — implorei.

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10

Saí do celeiro e atravessei o quintal, perdia as esperanças a cada passo.

— Hunter — gritei. — É você quem está fazendo isso! Eu odeio você!

O mestre dos zumbis continuou mantendo-os invisíveis. Ele achava que

ainda não era a minha hora de encontrar os Beautiful Dead novamente. Ele

manteria seu ritmo, os deixaria acumulando forças depois do ocorrido com

Jonas. E vocês já devem saber que eles não têm livre-arbítrio; Hunter controla

cada coisinha que fazem. Mas, mesmo estando todos invisíveis, Hunter ainda

pôde me ouvir dizer que o odiava, bem ali, naquela hora.

Decidi apelar para seu lado sentimental, embora eu soubesse que ele não

tinha um lado sentimental...

— Hunter, por favor. Estou morrendo de saudade de Phoenix... Dói demais.

Fiquei esperando pela resposta que não veio, parada ali, ao lado da

carroceria do caminhão enferrujado.

Ainda sem resposta, subi na varanda da casa, espiei pela janela sinistra e

consegui enxergar a cadeira de balanço perto da copa e a mesa coberta de

séculos de poeira. Girei a maçaneta e empurrei com o ombro a porta trancada.

— Hunter, eu odeio você — resmunguei.

Um mês atrás eu teria saído andando e falado para mim mesma que toda

essa história de zumbis era maluquice, que devia ser efeito da dor no meu

cérebro fragilizado — fazendo com que eu visse coisas que não existiam.

Falando sério, de que outro jeito se pode levar a vida adiante quando a pessoa

que a gente mais ama morre esfaqueada em uma briga? Perda é a uma palavra

que não dá conta de dizer o que sentimos. É preciso chorar, gritar e xingar ao

mesmo tempo, começa-se a cair no fundo de um buraco cujas paredes são

moles, sem nada a que você possa se agarrar. Na opinião de Kim Reiss — uma

terapeuta a quem Laura me mandou ir —, é justamente nessas situações que o

cérebro fica mais propenso a nos pregar peças cruéis.

Mas isso foi há quatro semanas. De lá para cá, eu viajei no tempo, desvendei

o mistério sobre a morte de Jonas Jonson e passei a acreditar de verdade em

tudo que acontecia. Então, soube que Hunter, o mestre dos zumbis, com certeza

estava me deixando em banho-maria e me impedindo de ver Phoenix. Era dele a

escolha de manter todos afastados.

— Se você continuar com isso, não volto mais — ameacei. Pareceu um blefe

barato até para mim. — Você precisa de mim, eu sou o seu elo com o mundo

dos vivos.

Silêncio e vazio, nada mais.

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— Arizona precisa de mim — insisti. Já fazia quase um ano desde que ela

tinha se afogado no lago Hartmann. — O tempo dela está começando a se

esgotar.

O vento soprou pela varanda levantando uma tábua solta do telhado. Eu

tinha tentado fazer tudo que podia para que os Beautiful Dead voltassem, mas

nada adiantou. Mesmo assim, fiquei lá a manhã toda, sentada no capô daquele

caminhão velho, olhando para a Pedra do Anjo.

Por fim, desci e resmunguei:

— Tá bom, você venceu — e comecei a caminhada de volta. — Afinal de

contas, preciso ir a um enterro.

Não era o verdadeiro enterro de Bob Jonson. Depois de quatro mortes em um

único ano, parei de ir. Mas acabei indo para a vigília depois.

Todos os velhos motoqueiros estavam lá com as roupas de couro com franjas,

cavanhaques e cabelos grisalhos desgrenhados. As Harleys estacionadas

formavam m semicírculo do lado de fora do bar preferido de Bob. Como eu era

menor de idade, fiquei do lado de fora com Jordan, Lucas e Logan.

— Tudo é isso é tão triste — Jordan falava com os olhos cheios de lágrimas.

Uma mecha de seu cabelo ondulado caiu sobre o rosto. Fiquei esperando para

ver se o tímido Lucas ia abraçá-la e confortá-la.

O moleque nem se mexeu, então me aproximei e dei um lenço para ela.

— Você estava lá, Darina — ela disse. — Você viu quando ele caiu no

penhasco.

Concordei.

— Não foi um acidente, Bob forçou Matt para fora, na beira do penhasco,

acelerou a moto e se jogou atrás dele. Mas ele, sem dúvida, queria acabar com

tudo.

— Mesmo assim é muito trágico — Jordan insistiu. — Ele conseguiu se

vingar, não precisava morrer.

— Sim, precisava — Logan falou, olhando não para Jordan, mas para mim.

— Nada mais fazia sentido para Bob depois que Jonas morreu, a vida dele

estava vazia. Ele ia sempre à minha casa para beber com meu pai. Eu mesmo vi

o cara ir perdendo completamente o eixo. Não é, Darina?

Concordei novamente.

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— A mãe de Jonas veio de Chicago? — perguntei a ele.

— Sim, ela veio de avião com a irmã dela. Elas estão aí dentro com os caras.

— E como ela está? — Jordan perguntou.

Uma pessoa pode perder o filho e depois se separar do marido, mas ainda

assim se importar com ele — a prova disso é que veio para o velório.

— Como ela poderia estar? — retruquei.

Outros colegas de Ellerton High estavam chegando. Alguém ligou o som do

carro e de longe dava para ouvir Bob Dylan estourando nos alto-falantes. Era

uma música chamada ―Knocking on Heaven’s Door‖.

— Bob Jonson teria gostado — Logan disse.

A letra triste da música me fazia querer chorar, só que eu já tinha dado meu

último lenço a Jordan. Em vez disso, fixei o olhar nos tanques e escapamentos

brilhantes das motos e tentei lembrar como Jonas e Zoey tinham ficado felizes.

— Sorrindo por quê? — Jordan perguntou, impaciente. — Você é esquisita,

Darina — e saiu andando, com Lucas na sua cola.

— Não, você não é não — Logan me garantiu, tentando pôr um curativo

naquilo que ele supunha ser o meu ego ferido. — Eu sei no que você está

pensando.

Eu o encarei.

— Você pensa que sabe, Logan, mas não sabe nada!

Claro que tem uma história antiga entre mim e Logan, que me faz ter de

afastá-lo toda vez que ele tenta se aproximar. Mas, para falar a verdade, ele

nunca deixou de me tratar como a menina do jardim de infância, a vizinha para

quem ele deu um buquê de orquídeas e foi seu par no primeiro baile da escola

— como se a gente fosse ser assim, próximos para sempre, vivendo num mundo

encantado onde sabiás cantam e as badaladas dos sinos da igreja soam ao longe.

Ele deve estar ficando louco!

Senti seu olhar magoado. Ele passava as mãos indecisas no cabelo, castanho e

encaracolado. Daí ele partiu para a redução de danos.

— Bem, ninguém pode saber exatamente o que o outro está sentindo, é

óbvio. Mas você não é esquisita de maneira alguma.

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— Valeu — resmunguei, vendo a mãe de Zoey deixá-la no estacionamento.

Zoey ainda estava na cadeira de rodas, mas tinha pintado e arrumado o cabelo,

estava bonita. Fui direto falar com ela.

— Ei — ela disse com uma voz suave.

Tentei decifrar o jeito como ela sorriu para mim, e a palavra ―exausta‖ foi a

única que arrumei; devo ter lido em algum lugar de seu rosto.

— Ei, Zoey — respondi. Ela parecia pequena e frágil na cadeira de rodas ao

lado das Dynas e Softtails monstruosas. — As coisas estão difíceis para você,

não?

Ela assentiu.

— Vim por causa de Jonas.

— Você ainda tem aquela fivela de cinto da Harley que era dele? —

perguntei. Não precisava quebrar gelo nenhum com Zoey, a gente já ia direto

ao que interessava.

Levantando seu agasalho, ela me mostrou que estava usando a fivela em seu

cinto.

— O que você acha, Darina, será que Jonas e seu pai estão juntos agora?

— Boa pergunta! — desdenhei. — Depende daquilo em que você acredita.

Um grande silêncio pairou no ar. Uma dupla de ogros cabeludos cheios de

broches nas roupas saiu do bar e subiu nas motos. Duas mulheres usando

jaquetas cheias de estampas e calças pretas ficaram do lado de dentro da porta.

Vi que a menorzinha e mais bonita era a mãe de Jonas.

— No que você acredita? — Zoey quis saber.

O que eu ia fazer agora? Fingir que nem ligava ou falar aquilo que ela queria

ouvir?

— Acho que estão juntos — falei sem vontade.

— Juntos — ela repetiu com um suspiro. — Você não está dizendo isso só

por dizer?

Eu estava evitando a conversa. Tinha certeza de que Jonas havia se separado

do grupo dos Beautiful Dead no dia em que seu pai morreu; os dois agora

estavam num mundo de paz e liberdade. Pelo menos foi assim que Phoenix me

explicou. Mas eu não podia em pensar em dizer isso a Zoey.

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— Eu acredito, sim — disse por entre os dentes.

Vocês já tiveram de guardar algum segredo tão grande que toda vez que

abrimos a boca ele se debate para sair? Eu me imaginei pulando na garupa de

uma das Harleys, esticando meus braços e gritando: ―Todos vocês, prestem

atenção. Jonas e seu pai estão numa boa, eles estão livres. Conseguiram a paz

que desejavam. Fiquem felizes por eles!‖.

— Darina, você está bem? — Zoey perguntou.

— Estou bem — menti.

Por sorte ela mudou de assunto.

— Lá está a Sra. Jonson. Será que devo falar com ela? O que você acha,

Darina?

— Acho que sim. Quer que eu vá lá falar um oi e traga ela para cá?

Zoey fez que não com a cabeça. Depois das múltiplas cirurgias para

recuperar a coluna nos lugares quebrados por causa do acidente, para ela ainda

era um esforço grande se levantar da cadeira de rodas e dar passos lentos e

vacilantes em direção à porta do bar.

Os meninos no estacionamento fizeram o que tinha de ser feito: tentaram não

olhar muito. Um dos motoqueiros grisalhos, sentado em sua Dyna, largou a

cerveja, veio até ela e disse:

— Ei, deixa que eu ajudo você. — Juntos, eles subiram o único degrau em

frente à porta.

Haley Jonson hesitou quando viu Zoey e, em seguida, forçou-se a sorrir.

— Zoey, olha só!

Zoey mexeu as mãos como se tivesse realizado um truque de mágica.

— Tcha-nam!

— Puxa, que demais — Haley disse, engasgando e com os olhos cheios de

lágrimas. Ela olhou para Zoey por um bom tempo, talvez pensando: Se alguém

tinha de sobreviver ao acidente, por que não meu filho Jonas? Vários sentimentos se

misturaram em seu rosto pálido, até que apertasse a mão de Zoey.

— É bom ver você — ela enfim sussurrou.

— Você soube? — Zoey murmurou. — Darina me ajudou a finalmente

lembrar tudo o que aconteceu.

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— Querida, pare!

Zoey interrompeu sua observação.

Foi como se todo mundo no bar e no estacionamento estivesse segurando a

respiração, esperando por alguma coisa para quebrar aquela tensão

insuportável entre a mãe e a namorada de Jonas.

— Eu não preciso dos detalhes — Haley disse. — O passado é passado, ele

não volta, não importa quanto a gente se esforce.

— Eu queria... — Zoey começou, mas sua voz foi perdendo a força como um

brinquedo de corda, e ninguém jamais soube o que era que ela queria.

— Escute — Haley falou baixinho, levantando o queixo de Zoey com

delicadeza para olhar seu rosto. — Olhe para frente, não olhe mais para trás.

Liguei para a Sra. Bishop para dizer que levaria Zoey para casa. Fomos

dirigindo ao longo do Hartmann, a maior parte do tempo em silêncio, até que

parei o carro em um mirante, de onde dava para ver todo o lago cintilando ao

sol.

— Eu gostaria que houvesse razões — Zoey começou. Ela inclinou a cabeça,

encostando-se ao couro macio do apoio do banco, de olhos quase fechados.

— Para quê? — Tirei meus óculos escuros do porta-luvas e os coloquei,

depois fiquei na mesma posição que ela.

— Para isso tudo. Jonas, Arizona...

— Summer e Phoenix — acrescentei. — Quatro em um ano. Qual a

probabilidade de isso acontecer?

Zoey suspirou.

— Se ao menos a gente soubesse o porquê.

O sol estava forte, chegou a empenar o capô vermelho.

— Eu sei, tudo o que a gente queria era que fizesse algum sentido. Mas

talvez seja aleatório mesmo.

— Tudo é muito assustador — ela observava o lago à distância. — Como

Arizona pôde se afogar em uma coisa assim tão linda?

— Quantas perguntas! — reclamei. Mais uma vez, era hora de sair pela

tangente. — Olha, uma águia lá em cima.

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A ave planava em uma corrente de ar quente, as penas das pontas de suas

asas bem abertas. Então ela se curvou e saiu da corrente, pairando sobre um

ponto, pronta para se lançar ao ataque.

— Eu não acredito que Arizona tenha feito isso — Zoey virou-se em minha

direção.

Nós estávamos pisando num campo minado de novo. Escondi minhas

reações irritadas atrás dos óculos escuros.

— Ela não se suicidou, de jeito nenhum!

— Disseram que foi isso.

— Quem ―disseram‖? O povo da cidade, os jornalistas, o que é que eles

sabem?

Tinha saído nos jornais e na televisão: uma segunda fatalidade em Ellerton

High. Dessa vez um afogamento que parecia suicídio. Foi isso que o relatório da

perícia policial sugeriu.

— Eles não conheciam Arizona como eu conhecia — Zoey assistia à água

mergulhando em direção ao chão e depois subindo de volta com um pequeno

animal pendurado em seu bico afiado. — Para começar, se ela quisesse se

matar, não seria na água.

Não adiantava, eu estava tentando resistir, mas era impossível não especular.

— Estou acompanhando seu raciocínio, você está querendo dizer que

Arizona nadava muito bem, sabia mergulhar, inclusive com equipamento e

tudo...

— Não, não é isso. Quero dizer que Arizona era toda preocupada com o

cabelo, maquiagem, com sua aparência como um todo, tente lembrar. E ela

adorava fazer um espetáculo a todo momento. Se ela soubesse que a achariam

morta, com certeza tomaria um maldito cuidado para que estivesse bonita. —

Zoey fez uma pausa e depois ficou vermelha. — Estou sendo malvada demais?

— ela perguntou.

— Tá — sorri. — Mas concordo totalmente. — E ela não mudou nada, quis

acrescentar. Na última vez em que a vi, junto com os Beautiful Dead lá na encosta de

Foxton, ela ainda era a mesma escandalosa carente de atenção.

Mordi meu lábio. Não fale sobre isso, nem chegue perto. E, para me lembrar,

Hunter mandou milhões de asas batendo em volta da minha cabeça, deixando-

me tonta e forçando para que eu me sentasse direito no banco do carro.

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— Então você concorda, ela não planejou fazer isso? — A teoria de Zoey a fez

se ajeitar no banco também.

Eu dei de ombros, as asas ainda estavam à minha volta. Apesar de já não me

assustarem mais, sem dúvida elas prendiam a minha atenção.

— Você acha que sou o quê, uma leitora de pensamentos? — reclamei.

— Pense a respeito, Darina. Alguém por aí com um pingo de consciência

viria esse caminho todo até aqui, sabendo que ela estava sem carro, que ficou na

garagem, porque estava quebrado, e andou tudo isso a pé, uma distância de uns

cinco quilômetros, coisa que a gente sabe que Arizona nunca fez na vida...?

— Certo — levantei as mãos em sinal de rendição. Eu estava quase

ensurdecida pelo aviso de Hunter que dizia para não trair os Beautiful Dead. —

Não quero falar sobre isso.

— Darina! — Zoey deixou bem claro que estava decepcionada.

Balancei a cabeça e liguei o motor.

— Como a Sra. Jonson disse, passado é passado.

Ele não volta, ela tinha acrescentado. Só eu sabia que era possível, ou que pelo

menos para os Beautiful Dead era possível voltar — e voltavam. As asas batiam

como loucas enquanto eu me afastava do mirante e pegava a estrada.

— Oi, que bom finalmente ter notícias de vocês — eu disse para as asas.

Deixei Zoey na casa dela e já estava indo para a minha. — Eu estava ficando

preocupada, achando que vocês não fossem mais voltar.

Dirigi com a capota baixada e asas revoavam em volta da minha cabeça

numa confusão feita de penas; mais um lembrete que uma advertência.

— Sabe quantas vezes já fui até Foxton de carro ultimamente? Acho que sabe.

Parei no semáforo fechado e olhei para o lado.

— Phoenix!

Ele estava sentado no lugar que Zoey tinha acabado de vagar, esperando que

eu o visse e me dando aquele sorrisinho torto.

— Meu Deus! — gritei. O semáforo abriu e passei pelo cruzamento tão

devagar que o cara de trás quase bateu no meu para-choque.

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— Phoenix, não faça isso!

— Você quer que eu vá embora? — perguntou, naquele tom de voz molenga

e preguiçoso. — Eu posso ir... — esticou a mão para abrir a porta.

— Não, espere! É que eu quase tive uma parada cardíaca. Vou fazer o retorno

com o carro. — Fiquei atrapalhada com os controles e parei bruscamente num

estacionamento ao lado da mercearia.

— Ei, Darina — Phoenix sorriu.

Estiquei minha mão para tocá-lo e ver se ele... Estava ali mesmo.

Ele segurou minha mão com força.

— Quanto tempo, hein?

— Uma eternidade — suspirei. Tenho contado os dias, as horas e os minutos.

Mas Phoenix estava mesmo lá e foi difícil encontrar algo significativo para

dizer. Em vez disso, fiquei olhando nossas mãos dadas, a mão dele tão grande,

a minha bem menor, mais delicada. Fiquei me deleitando com a sensação de

seu polegar acariciando a palma da minha mão.

— Hunter falou para gente sair de lá — ele disse. — E você sabe como ele é.

— Autoritário — respondi.

— É. Eu até poderia fazer uma piada de morto-vivo sobre a falta de coração

dele... Mas vou poupar você.

— Melhor.

— Muito de mau gosto?

Claro. Sem sentimentos e, literalmente, sem coração — passou a ser assim

quando voltou do mundo dos mortos, com a pele tão branca que parecia que

nunca tinha visto o sol.

O rosto lindo e suave de Phoenix fez meu coração bater rápido o suficiente

por nós dois.

— Estou aqui, agora — ele disse suavemente. Depois me fez sair do banco do

motorista e tomou meu lugar. Sem dizer nada, foi dirigindo até uma estrada

que levava para fora da cidade, e, então, cinco minutos depois havíamos

passado as casas e estávamos indo em direção à estrada de terra que levava ao

riacho Deer.

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O carro pulava e se sacudia, eu olhava para o céu. Nem ao menos uma única

nuvem e sem vento nenhum, caso alguém precise de um boletim

meteorológico.

Phoenix estacionou ao lado do riacho, perto de um monte de salgueiros

dourados que começavam a crescer, agarrou minha mão de novo, dessa vez

para me puxar para fora do carro e me levar para trás dos salgueiros onde havia

um barranco que dava para a água. Ficamos lado a lado, um segurando na

cintura do outro, olhando para baixo.

A água, tão cristalina que víamos os seixos no fundo do riacho, fluía

tranquilamente levando as primeiras folhas de outono caídas em sua superfície

que rodopiava.

Sentamos na rocha para absorver os últimos raios de sol: Phoenix com as

pernas muito longas cruzadas, deixando um vão para que eu pudesse sentar

apoiando as costas em seu peito enquanto ele me abraçava.

— Senti sua falta — eu disse. O que não bastou para explicar nem um pouco

o corte, o buraco que ficou no meu peito, as noites de solidão sombria sem

ninguém para me ajudar a sair do desespero.

Virei-me para olhar seu rosto, traços que não se enquadravam exatamente

nos estereótipos de beleza, apesar de sua testa alta e as maçãs do rosto estarem

quase lá e aqueles enormes olhos cinza serem mais que o estereótipo em si.

Não, era a boca que o fazia diferente, um pouco viradinha para baixo só de um

lado, e o modo como seus lábios se mexiam para falar de um jeito mole e

relaxado.

Ele se inclinou para me beijar.

De novo! De novo!

Meu corpo pedia. Era tudo que eu queria. Nada mais importava: lábios

colados, respirações em compasso, olhando para ele tão de perto por uma

abertura tão pequena entre meus cílios pretos, que sua imagem ficava borrada.

Phoenix me puxou para trás contra o mato comprido e seco e me beijou com

mais força. Meus sentidos estavam à flor da pele, e eu era levada pela paixão

que aumentava, ficando mais forte e perigosa que a correnteza de qualquer rio

entre as montanhas.

De repente, ele parou e afastou a cabeça. Apertou os olhos e levantou as

mãos para que eu não ficasse tão perto.

— Que aconteceu? — Eu olhei em volta. Alguém estava espiando a gente?

Qual o problema? — Não me diga. Hunter. Ele está aqui.

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Phoenix vacilou.

— Não, é, quer dizer, ele está sempre aqui.

— O mestre — resmunguei. A paixão ardente esfriou rapidamente, e eu

consegui me recompor. — Cara, ele é mais eficiente que qualquer

anticoncepcional!

Rimos. Daí ele voltou a ficar sério.

Phoenix explicou:

— Existe uma regra, eu não posso... Sabe... Não posso me entregar por

inteiro. Precisamos manter certa distância.

— Quem disse? Hunter? Ele não sabe que as regras são feitas para ser

quebradas?

Hunter era bem pior do que Laura e Jim. Em outras palavras, suas punições

eram muito mais duras. Se eu ficasse na rua até tarde, Laura poderia me deixar

de castigo — afinal era a casa dela, ela pagava as contas etc. etc. Só que, para

Phoenix, obedecer às regras era sua única chance de continuar por aqui — caso

ele passasse dos limites colocados por seu mestre, seria expulso de Foxton e

voltaria para o limbo, ponto final. E, prestando mais atenção agora, eu podia

ouvir as asas de milhões de almas perdidas no limbo, batendo e implorando

para estar no lugar dele.

— Tá certo — aceitei. Sem retrucar.

Phoenix fechou os olhos num suspiro.

— Você entende... Sabe quanto isso é difícil para mim?

— Sei, sim — murmurei. — De agora em diante prometo manter minhas

mãos longe de você!

Nessa hora o humor já não era tanto daqueles de fazer a barriga doer, tinha

virado uma coisa mais ácida.

— O que eu fiz para merecer isso? — ele perguntou, me segurando para que

eu não saísse. — Para merecer alguém igual a você, Darina? Você é a coisa mais

linda que eu já vi, além de nunca saber qual vai ser a próxima loucura que vai

fazer ou dizer. Você sempre me pega desprevenido.

— E você lê meus pensamentos — brinquei. Fui me sentindo rapidamente

tomada pela escuridão daquele lugar deserto e só consegui voltar a mim

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mudando de assunto. — Então, pode me dizer por que Hunter deixou você vir

até aqui?

Phoenix deu de ombros.

— Ele nunca diz os motivos. O fato é que só apareceu de novo hoje cedo.

Não sei onde se enfiou desde que Jonas partiu.

— E onde vocês estavam enquanto isso? — perguntei. Tinha certeza de que

não era em Foxton.

Ele ficou inquieto e olhou para o lado.

— Arizona ficou no comando. Ela disse que tínhamos de sair de Foxton por

uns tempos, até que as coisas voltassem ao normal por lá.

— E aonde vocês foram? — insisti.

— A alguns lugares onde nunca tinha ido antes; não posso falar exatamente.

Fiquei irritada.

— Você quer dizer que ―não vai falar‖ porque Hunter não quer.

— Tudo que sei é que Hunter não está mais lá, e Arizona cuidou de nós e

pediu claramente para que não fizéssemos perguntas.

— Tá bom, você não precisa responder, mas posso tentar adivinhar, muito

educadamente: Hunter voltou para o limbo para contar as novidades para

quem, ou o que, quer que esteja acima dele: um tipo de mestre dos mestres,

deixando os Beautiful Dead numa espécie de esconderijo, hibernando até que

ele voltasse ao mundo dos vivos — analisei a reação de Phoenix, mas ele não

tinha expressão nenhuma, o que significava que eu estava certa. — Isso é

interessante... Alguém ou algo diz a Hunter o que fazer. E, escute, Phoenix, não

quero que você me diga que não preciso ocupar minha linda cabecinha com

isso, tá?

— Como se adiantasse — ele apoiou as costas na pedra e as mãos atrás da

cabeça. — Isso seria um desperdício de energia.

— E como foi receber ordens de Arizona? — Havia uma pontinha de

provocação na pergunta, admito.

— Arizona é legal, ela é inteligente, mesmo.

— Devo ficar com ciúme? — eu só estava meio brincando porque, no fim das

contas, conhecia dúzias de meninos da escola que ficavam enlouquecidos com a

aparência e o estilo de Arizona, mesmo que sua personalidade hostil fosse tão

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convidativa quanto pular sem roupa num lago congelado. Assim como

Phoenix, todos a admiravam.

— Como assim? — perguntou. — Agora, falando sério, não venha querer

arrumar confusão com ela, tá bom?

— Não quero confusão, tenho apenas que salvar sua alma zumbi — lembrei-

o da razão primordial pela qual estávamos ali. — Muitas pessoas estão

voltando sua atenção para Arizona desde que o mistério em torno de Jonas foi

esclarecido. Zoey, por exemplo, é uma delas.

Phoenix endireitou a coluna.

— Ela tem feito perguntas?

— Sim, mas não se preocupe, nunca contei nenhum segredo.

E ele relaxou de novo.

— Zoey tem dito que não acredita que Arizona tenha se afogado e que

também não acha que ela tenha morrido num mero acidente. E ela deve estar

certa.

— Você acha? — Phoenix, o Sr. Cuidadoso, não deixou escapar nada e veio

me lembrar de que havia coisas que ele não podia contar nem mesmo para

mim.

— Acho. Por que Hunter a teria escolhido se achasse que foi um acidente? —

eu sabia que o mestre só cuidava de injustiças e dúvidas; bala perdida em

Summer Madison por um atirador desconhecido; a morte de Phoenix por

esfaqueamento e não numa briga entre gangues. Uma morte comum,

explicável, não mereceria tanto a sua atenção. — Ela faz parte dos Beautiful

Dead porque há um mistério.

Ficamos sentados em silêncio por um tempo, observando o fluxo sem fim da

água abaixo de nós.

— Darina, você não precisa fazer isso se não quiser — quando começou a

falar, Phoenix parecia estar num lugar muito remoto de sua própria cabeça. —

Há uma boa chance de a gente conseguir descobrir o que aconteceu sem você.

Reagi, magoada.

— Ah, sei, já tiveram dez meses inteirinhos e aonde conseguiram chegar?

Vocês só têm dois meses agora, não se esqueça.

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Como esquecer que uma alma só existia durante doze meses na comunidade

zumbi, nem um dia a mais. Fim.

— Mesmo assim, você não precisa fazer se não quiser.

Eu me levantei e recuperei o equilíbrio de braços abertos, bem na beira da

pedra.

— O que você está querendo dizer? Que podem apagar minha memória com

seus superpoderes e eu saio daqui como se você nunca tivesse existido? Que

ótimo! Obrigada!

— Há uma alternativa, que talvez seja pedir demais — Phoenix me deu a

chance de sair de toda essa loucura, mas dava para ver em seus olhos que ele

não esperava que eu a aceitasse. Ele sabia direitinho.

— Alguma vez eu falei em desistir?

Ele me beijou muito suavemente dessa vez e acariciou minha nuca.

— Então você vai ajudar Arizona do mesmo jeito que ajudou Jonas?

— Sim. E vou ajudar Summer, e você também.

— Então está na hora — ele disse, me levando pela mão.

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Mesmo que a tarde no celeiro lá em Foxton estivesse bem ensolarada, eu

estava com frio só de calça jeans e camiseta. Tremi e fiquei grudada em

Phoenix.

— Quem é esse aí? — perguntei a ele enquanto apontava para um cara novo

que parecia tão perdido e confuso quanto eu na primeira vez que encontrei os

Beautiful Dead.

Phoenix não sabia dizer.

— Nunca o vi.

O novato estava no chão, sentado em um canto escuro e abraçando os

joelhos. Parecia não respirar direito, como se sentisse muita dor.

— É Lee Stone — Arizona o apresentou aos Beautiful Dead. — Lee, este é

Phoenix Rohr.

Lee teve dificuldade para levantar. Phoenix tinha mais de um metro e

oitenta, mas esse cara era ainda mais alto. Grande e forte, tinha cabelos claros

queimados de sol, como se acabasse de sair da praia.

— Summer, venha cá cumprimentar Lee — pediu Arizona, já puxando

minha amiga para dentro da pequena roda e me deixando do lado de fora.

Phoenix percebeu o que ela fez e abriu espaço na roda para mim também.

— E aí, Lee? Esta é Darina.

O coitado do garoto mal conseguia ficar em pé. Ele não tinha ideia de onde

estava e parecia sentir falta do bronzeado que costumava combinar com seus

músculos e cabelos descoloridos.

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— Fica tranquilo, tá tudo bem — disse Summer para acalmá-lo. Ela vestia

uma bata de algodão larga, bem leve, e calça jeans.

Lee continuava mudo; era possível enxergar dor e medo nas expressões de seu

rosto.

— O que está acontecendo? — perguntei baixinho a Summer enquanto o frio

aumentava, apesar de o sol continuar brilhando.

— Estamos esperando por Hunter.

Fiquei arrepiada — em parte pela falta de calor, mas também por ouvir o

nome do mestre. Senti Phoenix segurar minha mão com firmeza e força.

— Então não faça mais perguntas — Arizona avisou —, porque não temos as

respostas.

À medida que o tempo passava, mais figuras familiares apareciam: Eve

chegou silenciosa com Kori, o bebê, pelo quintal, e Donna desceu a escada

bamba do palheiro. Elas eram os braços direitos de Hunter — sempre alertas e a

postos para ativar o campo de força que repelia os vivos. Até então eu nunca

havia perguntado sobre suas histórias, e elas nunca tinham falado a esse

respeito. Durante a espera ninguém disse uma palavra.

Portanto, tive um bom tempo para juntar as peças. O pobre Lee devia estar

soterrado debaixo de uma avalanche de confusões, mas eu conseguia montar o

quebra-cabeça sem grandes dificuldades. Jovem, alto e atlético, cheio de dor e

dúvidas. De quem ele me lembrava, quando vim pela primeira vez ao celeiro

tanto tempo atrás? Um garoto recém-morto, pálido e perfeito, dando seus

primeiros passos vacilantes ao sair do limbo para entrar no mundo zumbi dos

Beautiful Dead, justamente como Phoenix fez antes dele.

Agora, tudo que eu precisava fazer era achar a marca mortal naquela pele

macia e gelada.

Uma sombra estendeu-se na entrada do celeiro, e todos nos viramos quando

Hunter apareceu.

Ele estava sisudo, mais rígido, inclusive mais do que eu me lembrava.

Absolutamente nada se mexia em seus traços de pedra enquanto ele andava em

direção a Lee e seus olhos tomavam nota de cada detalhe.

— Você conseguiu voltar — ele reparou.

— O que é isso? Que aconteceu? — Lee tomou fôlego e parecia pronto para

fugir ou brigar; ainda não tinha decidido qual dos dois.

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— Pode ficar calmo — disse Hunter. — Sei que neste momento você está

sentindo muita dor, mas saiba que está a salvo aqui com a gente.