Armadilha Nupcial por Anne Hampson - Versão HTML

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Armadilha Nupcial

Where Eagles Nest

Anne Hampson

Depois de passar sete anos sob a vigilância severa do tio,

Lynn queria sua liberdade a qualquer custo. Por isso

sentiu-se injustiçada quando soube, pelo testamento dele,

que seria confiada a um tutor. Para poder receber sua

herança, viu-se obrigada a aceitar o pedido de casamento

de Paul Loukas, enteado de seu tutor. Já tinha tudo

planejado: casaria, pegaria os papéis que lhe davam a

posse do dinheiro e fugiria. Mas Paul, grego esperto e

arrogante, não lhe deu essa chance. Levou-a para Delfos,

fez-lhe todas as vontades, mostrou-se um companheiro

agradável e um amante perfeito, Lynn sabia que com ele

seria submissa... e queria ser livre. Mas teria forças para

resistir às carícias de Paul e a seus beijos

enlouquecedores?

Copyright: © 1980 by Anne Hampson

Título original: "Where Eagles Nest"

Todos os direitos reservados, incluindo o direito de

reprodução total ou parcial sob qualquer forma.

Essa edição é publicada entendimento com Silhouette

Books, a Simon & Schuster

Division of Gulf & Western Corporation,

New York, N.Y., USA

Silhouette, Silhouette Romance e colofão são marcas

registradas de Simon & Schuster

Tradução: Alberto Azevedo

Copyright para a língua portuguesa: 1983 Abril SA.

Cultural e Industrial — São Paulo

Composto na Linoart e impresso nas oficinas do Círculo

do Livro S.A.

Capa: Ilustração Silhouette

CAPÍTULO I

Lynn ficou muda diante das palavras de seu advogado.

Sentada do outro lado da escrivaninha, encarou-o lívida

de ódio.

— Sinto muito, Lynn — ele disse, tentando ser

simpático. — Parece que seu tio Joseph decidiu respeitar

as recomendações contidas na carta de seu pai e por isso

nomeou outro tutor para substituí-lo. Este homem, o Sr.

Jake Grayson, assumirá total responsabilidade por sua

herança até que você complete vinte e cinco anos.

— Mais um ano — ela retrucou, furiosa. — Mas não é

justo!

— Na realidade, não será nada diferente do que foi até

agora. Além disso, um ano não é tanto tempo. Depois,

você assumirá o controle total de seu dinheiro.

— E a minha vida? Tio Joseph fez tudo isso só porque eu

não quis casar com Victor.

— Ele realmente tinha esperanças de que você casasse

com o filho. Como eu disse várias vezes, ele não tinha o

direito de controlar sua vida da mesma maneira que

administrava a sua fortuna.

— Quero casar com outra pessoa, mas, pelo visto, vou

ter que enfrentar a mesma oposição por parte desse outro

homem.

— Está pensando em casar?

— Com Russell Martin. Acho que você o conhece.

— Russell? — O advogado ergueu de leve as

sobrancelhas ralas e grisalhas. — Conheço mais o pai

dele. Para mim, é uma absoluta surpresa saber que está

comprometida com Russell.

Lynn olhou rapidamente para ele, percebendo que seu

tom de voz combinava com o ar de espanto que tomou

conta de seu rosto. Mas não tinha tempo para fazer

perguntas irrelevantes naquele momento. Nem tinha

paciência para explicar que ela e Russell não estavam

exatamente noivos, mas que havia entre eles um acordo

tácito a respeito da seriedade do relacionamento.

— Nunca ouvi falar desse tal Jake Grayson, que meu tio

escolheu para tutor — disse, balançando a cabeca. —

Titio nunca falou dele.

— Parece que foram amigos desde a juventude. Quando

seu tio percebeu que não tinha muito tempo de vida,

entrou em contato com esse velho amigo e pediu: que

aceitasse a responsabilidade de zelar pela sua fortuna.

— Dr. Blane, tenho vinte e quatro anos! Não preciso que

ninguém se responsabilize pela fortuna que meu pai me

deixou. Tio Joseph e eu nunca nos demos bem.

Principalmente nos últimos anos. Queria que eu casasse

com Victor e, quando me recusei terminantemente, ele se

voltou contra mim. Tornou-se mesquinho, cortou minha

mesada. Quando morreu, seria muito hipócrita da minha

parte chorar por ele. Na realidade, eu estava ansiosa para

cuidar do meu próprio dinheiro.

Parou, sentindo um vazio no estômago. Tinha sido

despojada de seus bens durante todos aqueles anos.

Agora que a morte do tio ia finalmente trazer a fortuna

para suas mãos, ele havia nomeado outro tutor para

tomar conta de seus negócios.

— Tenho certeza de que meu pai nunca nomearia tio

Joseph como meu tutor, se soubesse o modo como eu

seria tratada.

Richard Blane interrompeu-a:

— Seu pai tinha uma razão para salvaguardar sua

herança, Lynn. Havia muitos caça-dotes por perto

naquela época. Decidiu então tomar providências para

proteger você, caso ele morresse. E estava muito certo,

pois, algumas semanas depois de ter alterado o

testamento, teve um ataque de coração e morreu.

Lynn ouviu tudo, quieta e refletindo: sua mãe tinha

morrido quando ela nasceu; por muitos anos, teve uma

babá. Em seguida, aproximou-se do pai, mas

infelizmente, aos dezessete anos, apaixonou-se

perdidamente por um homem que obviamente estava

muito mais interessado em seu dinheiro do que nela.

Depois de uma conversa com o pai, que ameaçou

deserdá-la, ele desapareceu.

Impulsivamente, Lynn apaixonou-se por outro homem,

que acabou por revelar os mesmos interesses. Foi então

que surgiu Paul Loukas, um grego oito anos mais velho

que ela. O pai de Lynn, desconfiado de que ele estava

também interessado na fortuna da filha, ameaçou

deserdá-la até o último tostão. Mas Paul pediu Lynn em

casamento e sugeriu que fossem morar na Grécia, em

Del-fos, onde vivia. Lynn foi incapaz de tomar uma

decisão; naquele momento, estava até mesmo

questionando sua opinião a respeito dos homens. Além

disso, a personalidade de Paul muitas vezes a

amedrontava. Ele parecia um deus grego, magnífico e

todo-poderoso, e que ia dominá-la, submetendo sua

vontade, destruindo enfim sua personalidade. Tinha

ouvido histórias escabrosas a respeito da superioridade

tradicional dos homens gregos em relação às esposas,

filhas é até mesmo irmãs.

Lynn era muito criança aos dezessete anos. Sempre fora

bastante mimada pelo pai que a adorava. E percebeu que

nunca seria feliz ao lado daquele homem cheio de

arrogância e superioridade.

Os dois se conheceram num dia em que o carro de Lynn

quebrou e ele a levou até em casa. Estava de férias,

visitando amigos da mãe, que era inglesa, e telefonou no

dia seguinte, convidando Lynn para jantar. Seu pai

estava viajando a negócios e ela achou o convite

divertido.

Outro convite se seguiu, depois outro, e Lynn não pôde

deixar de se sentir lisonjeada por ser alvo de tantas

gentilezas de um homem bonito. E também por ser

invejada por todas as mulheres. Alto, moreno e

musculoso, de uma beleza clássica certamente herdada

do pai, Paul Loukas era tudo o que uma mulher pode

desejar, e ainda mais! Lynn sabia pouco a respeito da

família dele. O pai era armador e tinha três filhos. Uma

das irmãs de Paul era casada e a outra tinha somente dez

anos. Ele contou muitas coisas sobre Delfos e estava

certo de que ela ia adorar o lugar.

Lynn não se importava com a reação de Paul ao saber

que não queria casar com ele. De qualquer modo, era

menor e precisava do consentimento do pai.

— Podemos fugir — ele disse. — Seu pai irá nos visitar

depois de tudo consumado.

— Não posso casar contra a vontade dele. Amo muito

meu pai.

Lynn corou diante do olhar de Paul naquele momento,

mas não modificou sua decisão.

Depois de muita insistência, Paul foi forçado a aceitar a

recusa, embora furioso.

Um leve pigarro do advogado trouxe-a de volta ao

presente e à situação difícil em que se encontrava.

— Acho que só resta aceitar a decisão do meu tio. Pelo

menos, falta apenas um ano. Depois disso, ninguém mais

vai poder me dizer o que fazer com o meu dinheiro e

com a minha vida — acrescentou, em tom amargo,

pensando em Russell, com quem estava envolvida há

quatro meses.

— Tomara que Russell espere — comentou o advogado.

Lynn tinha certeza de que o Dr. Blane não aprovava sua

escolha, mas a opinião dele não significava nada naquele

momento.

— Ainda acho injusto precisar da aprovação de um

estranho para casar.

Seus lábios estavam tensos, e os olhos azuis brilhavam

de raiva. Pelo testamento de seu pai, até completar vinte

e cinco anos, Lynn não podia casar sem o consentimento

de seu tutor. Evidentemente, o pai achou que nessa idade

ela estaria suficientemente madura para não se deixar

dominar por um entusiasmo tolo, como tinha acontecido

com os três primeiros homens de sua vida.

Lynn teve alguns outros casos sem importância, mas

nunca mais havia pensado em casamento, até encontrar

Russell. Ele era diferente dos outros: gentil com todos,

admirado por onde quer que passasse. Lynn não tinha

nenhuma dúvida a respeito de seu bom caráter. Um tanto

bonachão, sem dúvida seria o tipo de marido que deixa a

mulher em liberdade, e era exatamente isso que ela

queria. Qualquer manifestação de posse a deixava muito

irritada.

Com o passar dos anos, Lynn desenvolveu uma

personalidade forte; nunca se daria bem com um marido

dominador. Russell seria sempre gentil e

condescendente. Por isso, as restrições impostas pelo tio

tornavam-se cada vez mais insuportáveis. Quando ele

anunciou a Victor e Lynn que tinha só mais alguns meses

de vida, ela ficou naturalmente chocada e triste, embora

não gostasse dele, e imediatamente pensou na liberdade

que teria para administrar sua fortuna e decidir seu

destino.

E agora estava sendo informada por seu advogado que o

controle estava nas mãos de um estranho que nunca tinha

visto.

Quando voltou para a casa que Victor havia herdado,

Lynn resolveu interrogá-lo. Era uma bonita mansão no

estilo Tudor, construída num grande terreno e anexa a

uma fazenda. Sem dúvida, um lar que causaria inveja a

muitas mulheres. Para Lynn, no entanto, viver ali com o

tio e o primo tinha sido uma experiência infeliz, e ela

ansiava pelo momento de ter um lugar só seu.

— Jake Grayson? — murmurou Victor, balançando os

ombros. — Papai mencionou esse nome algumas vezes.

Nunca o encontrei, se é isso que você quer saber.

— Sabia que seu pai ia nomeá-lo meu tutor?

— Para falar a verdade, sabia. Papai achou que você

devia ter um tutor, até completar vinte e cinco anos.

— Talvez você tenha contribuído para esta decisão —

murmurou Lynn por entre os dentes.

— Não exatamente.

— O que quer dizer com isso?

— Simplesmente, não fiz nada para dissuadi-lo. Achei

que não era da minha conta.

Lynn respirou fundo, tentando se controlar, enquanto

Victor foi até o bar.

— Aceita um drinque? — perguntou por cima do ombro.

— Não, obrigada, não bebo a esta hora.

— Que diferença faz a hora? Permita-se ser feliz, Lynn.

Está certo, você recebeu notícias desagradáveis, hoje,

mas não é nenhuma tragédia. Afinal, dentro de um ano,

será dona absoluta de sua vida.

— Mais um ano jogado fora!

— Até parece uma velha. O que significa um ano para

quem tem só vinte e quatro?

— Seu pai queria nos ver casados. Por isso fez essa

sujeira comigo.

— Sou mesmo tão insignificante para você, Lynn? —

perguntou, voltando-se para ela com o copo na mão.

— Simplesmente, não estou apaixonada por você. Nem

você por mim.

— No entanto, seria uma ótima jogada unir nossas

fortunas.

— Estou quase convencida de que você não tem tanto

dinheiro.

Lynn estava perto da janela, olhando para Victor, tendo o

cuidado de não deixar transparecer a pena que sentia. O

primo não tinha personalidade, refinamento ou a menor

educação. O pai dele, irmão da mãe de Lynn, era muito

diferente, o exemplo do fazendeiro inglês. O filho nunca

seria respeitado pelos colonos.

O rapaz respirou fundo, tomou um gole de uísque e

disse:

— Talvez eu tenha que vender esta propriedade, se você

se recusar mesmo a casar comigo.

— Não tenho orgulho desta casa a ponto de querer morar

aqui para o resto da vida.

— Com o homem certo, ia gostar. A casa tem um

charme especial.

— Concordo, e por isso acho que poderia vendê-la por

um bom preço. — Lynn se calou e, como ele não

respondesse, decidiu voltar ao assunto anterior: — Vou

encontrar Jake Qrayson no escritório do Dr. Blane

amanhã ao meio-dia.

— Ele é um velho, ao que me consta. Onde mora?

— Seu pai nem mesmo mencionou onde ele morava?

— Não, nunca. Eu não estava interessado no homem.

— Nem mesmo agora?

— Nem agora. Não ligo a mínima para saber quem é o

seu tutor. Está pensando em sair daqui? — perguntou,

servindo-se de outro drinque.

— Depende só desse tal de Jake me dar dinheiro

suficiente para comprar um lugar meu. É tão humilhante

ter de pedir licença para se usar o próprio dinheiro!

— Mais humilhante ainda é não poder casar com quem a

gente quer. — Embora fosse um alívio, se Lynn aceitasse

casar com ele, Victor não guardava nenhum

ressentimento pela recusa. — Quem sabe ele aprova seu

casamento com Russell?

— Algo me diz que ele tomará a mesma atitude de tio

Joseph.

— Bem, não sei. Papai tinha outros interesses, lembre-se

disso. Esse tal de Jake não tem nenhum motivo para

dizer "não". De mais a mais, Russell não é mau caráter;

um pouco moleirão, mas não há nada de errado com ele.

— O que quer dizer com moleirão?

— Está sempre sorridente. Parece complacente demais

com a vida.

— Por acaso está querendo dizer que Russell é um

irresponsável?

— É o que acho. Mas, tendo você como esposa, nada

disso importa. Você vai se responsabilizar por tudo, sem

dúvida. Seu dinheiro é que sustentaria a casa. O que ele

tem é muito pouco, só o negócio do pai, que divide com

outros quatro irmãos.

— Russell não vai casar comigo por dinheiro!

— Não estou dizendo isso. Mas que será um bom

negócio para ele, lá isso será.

Lynn não tinha mais paciência para continuar a conversa,

e nos minutos seguintes falaram de assuntos banais, até

que ela se retirou para o luxuoso quarto que vinha

ocupando nos últimos sete anos. Era um quarto muito

grande e iluminado, decorado em tons de azul e rosa,

com mobília estilo rainha Ana e que encantava a todos

que o conheciam.

Para Lynn, tinha servido muitas vezes de refúgio nos

momentos em que entrava em choque com o tio, o que

acontecera com muita frequência nos últimos dois ou três

anos. Ele se irritava com a auto-suficiência da sobrinha.

O que queria era conduzir a vida dela por onde achasse

mais apropriado; ou seja: ela devia casar com Victor,

trazendo assim sua fortuna para os cofres da família

Stafford. O que mais o deixava indignado era a teimosia

de Lynn, que não dava muita atenção ao que sempre

tinha sido sua preocupação mais séria: o perigo de ser

explorada por um caça-dotes qualquer.

Lynn fechou a porta do quarto, jogou-se na cama e ficou

olhando para o teto. A vida lhe parecia muito sem graça,

agora que não podia nem cuidar de seus próprios

negócios. Não porque não fosse capaz; pelo contrário,

era muito esperta e sabia exatamente o que fazer com seu

dinheiro.

Bem, como Victor tinha dito, o tal Jake podia ser uma

pessoa compreensiva e razoável e não se opor a seu

casamento. E, uma vez casada, a fortuna estaria

automaticamente em suas mãos. Pensou nessa

possibilidade por alguns instantes e em seguida suspirou,

desanimada. Seria muita sorte, se Jake Grayson tomasse

uma atitude razoável. Ele era amigo de seu tio, e isso já

bastava para que sentisse que suas chances eram quase

nulas.

CAPÍTULO II

Lynn já estava no escritório do advogado quando Jake

Grayson chegou, exatamente na hora marcada. Muito

interessada em conhecê-lo, Lynn observou-o atentamente

e sentiu-se otimista ao descobrir que gostava dele. Alto e

anguloso, de olhos azuis muito sinceros que combinavam

com um sorriso constante, tinha um ar meigo e bom, que

fez com que ela procurasse entender como podia ter sido

amigo de seu tio. Depois de uma conversa

inconsequente, Lynn sentiu-se ainda mais otimista. Se

soubesse agir certo e usasse um pouco de persuasão,

tinha certeza de que tudo aconteceria da maneira que

desejava.

O advogado conduziu a conversa por um tempo,

preparando o terreno.

— Quando telefonou hoje cedo, disse que gostaria de

convidar a srta. Carlton para almoçar e eu não a avisei.

— É verdade, eu gostaria de almoçar e ter uma longa

conversa com ela — respondeu Jake. — Infelizmente,

agora não vai ser possível. Meu enteado desembarca no

Aeroporto de Heathrow às duas e meia. É uma visita

inesperada, embora venha nos ver sempre. Não é preciso

ir ao aeroporto, mas vocês sabem como são as mães.

Além do mais, ele mora na Grécia e vem só duas ou três

vezes por ano.

— Sendo assim, não tem muito tempo para a srta.

Carlton — disse o advogado, consultando o relógio.

Parecia um pouco desapontado, pois achava que era

dever de Jake Grayson ter uma longa conversa com

Lynn, uma vez que era responsável pela fortuna dela.

— Infelizmente, não vou poder. Mas tenho uma

sugestão. Minha casa fica a quarenta quilômetros daqui e

gostaria de convidá-la para jantar conosco esta noite.

Independente de qualquer coisa, você conheceria meu

enteado. — Olhou para Lynn, esperando que seu convite

fosse aceito.

Ela hesitou por alguns instantes.

— Combinado, Sr. Grayson.

— Pode me chamar de Jake, é assim que todos me

chamam.

— Meu nome é Lynn — respondeu, sorrindo.

— Posso chamá-la assim?

— Claro.

O Dr. Blane deixou-os a sós para conversarem, e Lynn

não perdeu tempo em esclarecer como se sentia, tendo

um novo tutor encarregado de controlar seu dinheiro:

— Não foi justo da parte de tio Joseph. Fez isso

simplesmente porque eu não quis casar com o filho dele.

— Ao dizer isso, percebeu um olhar de compreensão e

sentiu-se vitoriosa.

— Também acho uma injustiça... se é que foi mesmo

esta a razão que o levou a designar um novo tutor.

— Foi, sim. Jake, tenho vinte e quatro anos e devia ser

responsável pelos meus próprios bens, concorda?

— Claro — disse ele, com firmeza, olhando o relógio e

calculando quanto tempo ainda tinha para chegar ao

aeroporto. — Você me fez sentir como não tenho

nenhum direito de interferir em sua vida, Lynn.

Absolutamente nenhum.

Ela baixou o olhar, tentando esconder à expressão de seu

rosto e cumprimentando-se ao mesmo tempo pela

maneira inteligente como havia conduzido a situação.

— Quero casar, Jake — disse, com um pequeno suspiro

de efeito. — Tio Joseph nunca concordou, pois queria

que eu casasse com o filho dele. E você? Preciso de seu

consentimento, Jake.

— Então, já está dado.

— Como sabe, se eu casar com o consentimento do meu

tutor, todo o dinheiro passará automaticamente para as

minhas mãos.

— O Dr. Blane me explicou tudo. — Tornou a olhar para

o relógio, incomodado pelo adiantado da hora.

Lynn só podia agradecer a esse enteado desconhecido,

pois tinha certeza de que a pressa contribuíra muito para

a atitude de Jake.

— Você casará quando bem entender. E então, seu

dinheiro irá para suas mãos, exatamente como deve ser.

— Obrigada — disse ela, com muita gratidão. Mas, no

íntimo, sentia-se exultante por ter convencido aquele

velho de bom coração. Não o havia enganado;

simplesmente, lutara por seus direitos. O que importava

era o resultado, e não os meios utilizados. Tinha sido

dócil em suas mãos, exatamente como ela esperava que

acontecesse com o futuro marido.

— Aqui está o meu cartão — disse Jake, e em seguida

explicou como chegar a sua casa. — Talvez seja melhor

passar a noite lá. Assim, não precisa voltar tarde,

dirigindo sozinha. Carro é uma coisa tão imprevisível,

pode encrencar a qualquer hora numa estrada deserta...

— Não me importo de assumir o risco — ela respondeu,

lembrando-se naquele momento da noite em que Paul

Loukas parará para socorrê-la, pois seu carro tinha

quebrado. — Mas ficarei lá esta noite. — Com um

sorriso, acrescentou: — Será mais cômodo. Obrigada

pelo convite.

— Então, estamos combinados. Permita-me dizer que

fiquei feliz em conhecê-la, Lynn. Você é uma moça

muito bonita e meu enteado terá, sem dúvida, o maior

prazer em conhecê-la.

— Ele vai ficar muito tempo? — perguntou, mais por

educação. Na verdade, não estava nem um pouco

interessada.

— Talvez uma semana. Nunca se sabe. Desculpe-me,

mas tenho mesmo que ir. Até a noite, então.

— A que horas devo chegar?

— Cedo, se quiser, por volta das sete.

— Estarei lá. Até logo, Jake, e obrigada por ter sido tão

compreensivo.

— E eu podia agir de outra maneira? Como você mesma

disse, já tem vinte e quatro anos e é mais do que capaz de

cuidar de suas próprias coisas sozinha.

Lynn chegou às quinze para as sete, e uma empregada

informou que Jake e a esposa ainda estavam no

aeroporto.

— O Sr. Grayson telefonou. Disse que sente muito não

poder estar aqui, mas o avião partiu com atraso e só

chegaria às seis horas. Acha que vai estar aqui por volta

das sete e quinze.

— Obrigada.

Lynn foi conduzida pela empregada através de um hall

até a sala de visitas que tinha o mesmo tamanho da que

havia na casa de seu primo, em Stafford Manor.

Pensando em Victor, lembrou-se no mesmo instante do

que tinha dito, um pouco antes de ela sair. Ele revelou

que pretendia pedir Virgínia Grant-Holmes, uma velha

amiga, em casamento, e achava que seria aceito. A

notícia não surpreendeu muito a Lynn, que sabia ser a

fortuna de Virgínia, assim como a sua, muito útil para

Victor naquele momento crítico em que boa parte da

herança poderia perder-se em impostos.

— A senhorita quer tomar alguma coisa? — a

empregada perguntou, mas Lynn balançou a cabeça.

— Não, obrigada. O Sr. Grayson convidou-me para

passar a noite aqui. Minha maleta está no carro.

— O Sr. Grayson me avisou. Gostaria de conhecer seu

quarto?

— Sim, por favor.

— Vou pegar sua mala.

Lynn seguiu a empregada e viu-se num quarto muito

elegante e decorado com móveis modernos. O tapete era

cor-de-rosa, as cortinas num tom mais escuro, as paredes

e a roupa de cama, brancas. Depois de observar o quarto

longamente, Lynn desfez as malas e arrumou seus

produtos de toalete no banheiro.

Já estava vestida para o jantar, por isso só lavou as mãos,

penteou os cabelos e passou um pouco de perfume. Seu

anfitrião devia estar chegando. Desceu para a mesma

sala de visitas e, assim que chegou, ouviu vozes no hall.

— Sinto muito pelo atraso — disse Jake. — Espero que

lhe tenham dado o recado sobre o avião.

Lynn não pôde responder. O sorriso desaparecera de seu

rosto, e seus olhos se arregalaram, assustados. Jake

virou-se para as outras duas pessoas que tinham vindo

com ele e notou a mesma expressão de espanto no

enteado.

— Algum problema? — perguntou a Sra. Grayson,

olhando para os dois jovens.

Paul estava tão absorvido que certamente não ouviu as

palavras da mãe. Seus olhos negros pareciam examinar

Lynn nos mínimos detalhes.

— Você é a garota de que Jake me falou? Ele disse que o

nome era Lynn, mas eu nunca poderia imaginar que

fosse a mesma. — Parou, balançando a cabeça, como se

não pudesse acreditar. — É estranho, mas de alguma

maneira sempre tive certeza de que nos encontraríamos

outra vez. Sete anos... Você não mudou quase nada —

disse, observando-a dos pés à cabeça.

Lynn corou. Estava tão surpresa que foi incapaz de dizer

uma palavra, ao se deparar com Paul, depois de tanto

tempo. Ele parecia ainda mais alto e forte.

— Vocês se conhecem? — perguntou a Sra. Grayson. —

Mas que coincidência! Quando e onde se conheceram?

— Sim, nós nos conhecemos, de passagem — disse

Lynn, recuperando-se do choque.

— De passagem? Quase casamos!

— Não foi bem assim. Eu só tinha dezessete anos —

explicou ela, olhando para o tutor. — Era muito jovem

para casar. De qualquer maneira, meu pai nunca teria

consentido.

— Meu filho a pediu em casamento? Bem, você devia se

sentir lisonjeada. Quantas vezes Paul repetiu que não

estava interessado em se ligar a uma mulher, pois, nos

dias de hoje, podia ter quantos romances quisesse.

A Sra. Grayson era uma mulher morena, sem inibições,

mas Jake ficou muito embaraçado com o comentário.

— Você guardou segredo durante todos esses anos, meu

filho — disse ela, sorrindo com seus enormes olhos

azuis.

— Você também não casou, Lynn — ele comentou, mais

uma vez sem prestar atenção às palavras da mãe. — Ê

estranho, porque continua muito bonita.

Seguiu-se um breve silêncio durante o qual Lynn ficou

trêmula sem motivo aparente. A mãe e o padrasto de

Paul trocavam olhares, e havia uma expressão muito

estranha no rosto da Sra. Grayson.

— Não pude casar. Papai morreu poucos meses depois

que você...

— Depois do nosso breve romance? — Havia um certo

cinismo em sua voz.

— Papai me deixou sob a custódia de um tutor que não

permitiu meu casamento.

— Por que não continuamos a conversa enquanto

jantamos? Estou certo de que estamos todos com fome e

que a Sra. Young não vai gostar, se demorarmos muito

para experimentar a comida maravilhosa que nos

preparou.

— A Sra. Young é nossa governanta e também

cozinheira — disse a Sra. Grayson, segurando Lynn pela

mão. — Sou Helen Grayson, querida. Já que nem meu

marido nem meu filho tiveram a gentileza de nos

apresentar, vamos resolver nós mesmas. Você é Lynn

Carlton e meu marido foi designado para ser seu tutor.

Estou casada com Jake há dois anos. Agora quero é

conhecer a única mulher com quem meu filho quis casar.

Estou certa, Paul, ou você já pediu outras mulheres em

casamento?

— Não. Ela foi a única.

Lynn apertou a mão da Sra. Grayson, envergonhada por

causa do olhar sarcástico de Paul. Procurou dar o

máximo de atenção para aquela que poderia ter sido sua

sogra. Alta, magra, os cabelos ligeiramente grisalhos e

muito bem-vestida, a Sra. Grayson tinha um ar elegante e

distinto. Era, sem dúvida, uma aristocrata.

— Desculpe não ter apresentado vocês — disse Jake,

mas, quando percebi que Paul e você...

Lynn não respondeu. Naquele momento, a idéia de estar

sob a tutela de alguém a irritava. E Jake provavelmente

percebeu, pois mudou imediatamente de assunto e voltou

a falar do jantar. Ela olhou de relance para Paul; era

evidente que ele estava se divertindo muito com a

situação.

Lynn voltou para o quarto só para ajeitar os cabelos e

retocar a maquilagem. Seu encontro com Paul tinha sido,

no mínimo, chocante. Mesmo assim, não devia ter

perdido o controle daquele jeito. Era uma sensação

desagradável, meio nebulosa, que não conseguia

dominar.

No entanto, afastou os maus pensamentos, ao se lembrar

da observação que ele havia feito a respeito de sua

beleza. Sua imagem no espelho revelava uma garota de

corpo esbelto, cintura fina, busto redondo e firme, rosto

em forma de coração, cabelos castanho-claros, longos e

sedosos, olhos bastante separados e sobrancelhas

delicadamente erguidas. O vestido decotado revelava a

pele macia do pescoço e dos ombros. Era de organza

azul, justo na cintura e com uma saia longa e ampla.

Ficava muito bem nela, e estava se sentindo ótima, até

ver Paul Loukas. A sensação desagradável voltou como

um peso na boca do estômago.

Pegou um pente e arrumou os cabelos. Passou também

um pouco de blush e de batom e saiu do quarto,

descendo a escada que levava ao hall. A empregada

estava lá e conduziu-a até uma sala íntima onde havia um

grande bar. Era um lugar muito agradável, com

almofadas macias e mobília discreta. Por alguns

instantes, Lynn ficou admirando a decoração, mas logo

começou a se sentir incomodada por estar só e decidiu

voltar ao quarto por mais algum tempo. Logo que deu os

primeiros passos, viu Paul na porta. Perdeu o fôlego

diante daquele belo homem e não pôde evitar a

lembrança dos tempos em que era invejada por todas as

mulheres que a viam com ele.

Os anos tinham presenteado Paul com têmporas

grisalhas, e sua boca, que antes parecia sempre pronta a

dar uma gargalhada, era agora sensual e austera. Sim, ele

estava diferente... e mais atraente ainda. Os sinais de

maturidade revelavam um rosto bronzeado de incrível

beleza e acentuavam os traços aquilinos. Os cabelos

eram negros e ondulados. Os olhos, profundos e

penetrantes, às vezes de um azul intenso, às vezes negros

como ônix, eram emoldurados por sobrancelhas grossas

e pretas.

Era evidente que percebia a admiração de Lynn, e um

sorriso cínico e divertido surgiu nos cantos de sua boca.

— Aonde vai? — perguntou, entrando na sala,

bloqueando-lhe a passagem.

Lynn deu um passo para trás, furiosa ao sentir que tinha

corado. Onde estava sua autoconfiança? Até aquele

instante, tinha conseguido se controlar diante de todos os

homens; constrangimento era um sentimento

desconhecido para ela.

— Não havia ninguém aqui, então resolvi voltar para o

quarto — disse, finalmente, num esforço para que a voz

fosse o mais impessoal possível.

— Bem, agora eu estou aqui. Sente-se. Vou buscar um

drinque. O que prefere?

— Um Martini seco, por favor.

— Gelo?

— Só um pouquinho.

Paul entrou no bar para servir os drinques e colocou o de

Lynn numa mesinha que trouxe para perto dela. Ficou

parado, olhando-a, pensativo.

— Como eu disse há pouco, você é uma garota bonita.

Com os anos, alguns de seus traços ficaram mais suaves,

mas...

— Você se incomoda de ser menos pessoal? — disse ela,

ríspida, tirando da testa alguns fios de cabelo com as

mãos ligeiramente trêmulas.

— Você não mudou muito — continuou ele. — Pelo

menos, fisicamente. Mas acho que ganhou um

temperamento muito desagradável.

— Seus pais vão demorar muito?

— Mamãe é como todas as mulheres: demora um século

para se arrumar. Mas, no final, acaba valendo a pena.

Gostou dela?

— Não a conheço, mas acho que vou gostar.

— As mulheres são estranhas. Mamãe ficou

inconsolável, quando meu pai morreu, há quatro anos.

Dezoito meses depois, conheceu Jake e começou a sair

com ele. Casaram logo em seguida.

— Por que está me contando isso?

— Só para conversar, já que você não parece disposta a

falar.

— Você herdou a casa de seu pai em Delfos? —

perguntou, ignorando o comentário.

— Ele me deixou tudo que era de valor. Mamãe e

minhas duas irmãs receberam uma boa quantia em

dinheiro. — Calou-se, girando o copo entre os dedos e

olhando, pensativo, para o conteúdo de cor âmbar.

O gelo tilintou quando Lynn pegou o copo e o levou aos

lábios.

— Uma de suas irmãs era casada — disse ela, quebrando

o silêncio. — E a outra, já casou?

— Tem só dezessete anos. É solteira. — Seus lábios se

contraíram e Lynn percebeu que Maria, a irmã mais

nova, tinha feito algo que o irmão reprovava.

— Ela passa mais tempo com você do que com a mãe?

— É grega demais para viver aqui. E escolheu ficar

comigo, na casa onde tinha nascido. Na época, estava só

com quinze anos e teria sido um trauma afastá-la dos

amigos.

Então, Paul tinha autoridade sobre a irmã. Isso era

comum na Grécia, e Lynn sentiu pena de Maria, pois

tinha certeza de que ele era muito severo. Qualquer

envolvimento, mesmo um namoro passageiro, diminuiria

muito suas chances de casamento.

— Ela estuda?

— Está terminando o colégio este ano e quer ir para a

Universidade em Atenas.

— Você vai permitir?

— Acho que não.

— Atenas é cheia de tentações. É disso que está com

medo?

— Você é muito esperta — disse ele, tomando um gole.

— Ela tem todo o direito de ir para a Universidade. Você

não foi? Por que proibi-la de ter formação universitária?

— Maria é muito leviana para o meu gosto. — Os

músculos de seu maxilar se retesaram.

— A opinião de sua mãe não conta numa decisão como

essa?

— Papai deixou Maria sob minha guarda.

— Entendo. Assim mesmo, gostaria de saber se sua mãe

está ou não a favor de Maria.

— Claro que está. Minha mãe é inglesa e a favor da

igualdade dos sexos.

— E você não é?

— Sou grego o suficiente para ter certeza de que serei a

autoridade em minha casa.

— E dominar sua esposa, por certo.

— Se eu casar um dia. — Seu olhar era tão estranho, que

Lynn sentiu um calafrio.

— É claro que você vai casar um dia — disse ela,

olhando para a porta, ansiosa para que os pais dele

chegassem.

— Quem sabe? Fale-me um pouco de você — pediu

Paul, recostando-se no sofá e encarando-a com interesse.

— O que fez todos esses anos?

Ela contou rapidamente sua vida. Quando mencionou

que o tio queria que casasse com o filho, percebeu que as

sobrancelhas de Paul se franziram um pouco.

— Nunca o vi, não é? — E ficou pensativo.

— Não, Victor estava fora naquela época. De férias. —

Quanto tempo tinha namorado Paul? No máximo, três

semanas. E, em tão pouco tempo, ele tinha decidido que

queria casar...

— Ele está casado agora?

— Meu primo? Não. Mas hoje me contou que vai propor

casamento a uma amiga nossa.

Paul se levantou e, ao ver que o copo de Lynn estava

vazio, perguntou se não queria outro drinque.

— Não, obrigada.

Depois de olhar para o chão durante um longo tempo,

Paul levantou o olhar e percorreu lentamente todo o

corpo de Lynn.

— É, uma pequena mudança... — murmurou para si

mesmo.

— Não acho que mudei muito — interrompeu ela,

desejando que ele parasse de olhá-la daquela maneira.

Russell nunca faria isso. Em seus olhos havia sempre um

profundo respeito, quando a encarava; quase adoração.

— Todo mundo muda com o tempo.

Ele se aproximou e seu físico enorme fez com que ela se

sentisse pequena, inferior e muito comum. Ficou

imaginando se ele havia tido muitos casos e se algum

teria sido realmente sério.

— Sete anos... Você tem agora vinte e quatro, ainda é

muito jovem.

— Mas suficientemente adulta para cuidar dos meus

negócios — interrompeu Lynn, impulsivamente, sem

perceber que ele não tinha nada a ver com aquele

assunto.

— Assim mesmo, Jake foi escolhido para seu tutor. Aos

poucos, ela foi percebendo o que Paul estava insinuando.

Ficou tensa.

-— É dever dele cuidar para que não cometa erros.

— Jake acha que não preciso de tutor. Tivemos uma

conversa no escritório do advogado. Ele não fez

nenhuma objeção ao fato de eu casar com quem quiser, o

que significa que em breve terei controle total sobre meu

dinheiro.

— Em outras palavras, ele abdicou de toda a autoridade.

— Exatamente.

— Quem é o escolhido? — perguntou Paul, depois de

um silêncio.

— O nome dele é Russell Martin.

— Fale-me um pouco dele.

— Não é possível que você esteja interessado.

— Mas estou, e muito. Já quis casar com você um dia;

por isso, não acho tão estranho meu interesse por alguém

que conquistou aquilo que não consegui. — Sua voz

tinha um tom sarcástico e os olhos sorriam.

— Ainda não acredito que esteja interessado.

— Conte-me a respeito dele — repetiu Paul, levando o

copo aos lábios. Parecia amável, mas havia algo em sua

voz que a fazia sentir-se muito incomodada. Era quase

como a brincadeira de gato e rato.

— Ele é um homem muito bonito, não tem um ar

arrogante e... — Como descrever Russell?

— Que bom! — disse Paul, divertido. — Ele não é

arrogante? Que bom para você! Estimulante.

— Não há motivo para gozação. Russell não tem nada de

especial, mas gosto dele.

— Gosta? — Sentou-se, as sobrancelhas levantadas, e

colocou o copo numa mesinha em frente. — Tudo o que

quer é um homem que lhe seja agradável?

— E o que mais eu podia querer?

— Por que vai casar com ele? Deve ter uma razão.

— O que está querendo dizer, exatamente? — perguntou

Lynn, olhando novamente para a porta. O que será que

os pais dele estavam fazendo?

— É óbvio que não o ama.

— Claro que amo. Por que outra razão iria casar?

— É isso que estou perguntando.

Para alívio de Lynn, a Sra. Grayson apareceu nesse

momento. Paul levantou, e perguntou o que a mãe queria

beber. Ela estava com um vestido de noite branco, de

seda pura, elegantíssimo. Mãe e filho esbanjavam poder,

distinção e segurança.

Jake chegou logo em seguida e, nos minutos que

antecederam o jantar, conversaram sobre o atraso do

avião. Lynn ficou só ouvindo, certa de que o olhar de

Paul estava constantemente sobre ela. Sentiu um novo

alívio quando, finalmente, Sally anunciou que o jantar

estava servido.

CAPÍTULO III

Paul ficou muito quieto durante a primeira parte do

jantar, acompanhando com interesse a conversa entre

Jake e Lynn.

— Como já deve ter percebido — acrescentou Jake,

voltando-se para o enteado — Lynn e eu nos

encontramos pela primeira vez hoje à tarde. Logo de

início, ela me convenceu de que é mais do que capaz de

cuidar de seus bens. Depois da conversa, senti que seria

uma imposição da minha parte interferir em sua vida. O

tio dela nunca devia ter nomeado um novo tutor, e sim,

deixado as coisas correrem naturalmente após sua morte.

Uma mulher inteligente como Lynn, aos vinte e quatro

anos já devia estar administrando sua herança sem a

intromissão de quem quer que fosse. Por isso, prometi

que não abrirei a boca para nada. Lynn vai casar com o

jovem que escolheu, na hora que bem entender. — E

sorriu para ela.

— Obrigada, Jake. Devo confessar que fiquei chocada

com a atitude de tio Joseph.

— Tudo porque ele queria que você casasse com o filho

dele. Mas não é justo que sua vida seja determinada por

interesses alheios.

— Ele sabia que eu jamais casaria com Victor; portanto,

sua atitude foi inútil.

— Concordo, querida.

— Jake, acho que você devia pelo menos conhecer esse

rapaz com quem Lynn deseja casar — interrompeu Paul.

O padrasto franziu a testa e olhou para Lynn. Os lábios

dela estavam crispados e os olhos azul-esverdeados

faiscavam de ódio.

— Não acho que tenha o direito de me opor. Aliás, Lynn

pode traze-lo aqui, para nos visitar, quando quiser.

— Continuo achando que você devia primeiro vê-lo e

depois permitir o casamento — insistiu Paul, com

firmeza, ignorando o olhar furioso de Lynn. — Afinal,

você é de fato responsável neste caso. Se fosse eu,

certamente ia querer conhecer o homem.

— Jake já deu seu consentimento — explodiu Lynn. Seu

tom deixava bem claro que Paul devia cuidar da própria

vida. Mas, ao perceber a mudança da expressão dele,

sentiu-se insegura e compreendeu que, se ele quisesse,

poderia influenciar na decisão de Jake, que tinha sido tão

maleável até aquele momento.

— Acha que estou faltando com meu dever, Paul? —

Jake perguntou.

Ao ouvi-lo, Lynn ficou sem fôlego. Parecia preocupado,

o que a deixou mais sem esperanças.

— Acho que está, Jake. Desculpe, Lynn. Com certeza,

está ressentida por eu ter expressado minha opinião.

Ela não respondeu, ciente de que era uma hóspede e de

que a mãe de Paul estava ali, olhando para o filho com

cara de quem entendia muito bem o que se passava.

Tinha ouvido tudo com atenção, a ponto de esquecer o

filé em seu prato. Lynn ficou fascinada com a expressão

daquela mulher. E também com a de Paul. Parecia que os

dois se comunicavam por telepatia.

— Qual é sua opinião, querida? — Jake perguntou à

esposa.

— Lynn pode não gostar, mas estou de acordo com Paul.

Você devia ter um encontro com esse jovem, antes de

permitir o casamento.

— Sendo assim, acho que... — Jake começou,

constrangido. — Perdoe-me, Lynn, mas estou confuso

sobre esse assunto. Porém não há por que se preocupar;

tenho certeza de que vou gostar dele e que vocês casarão.

— Está bem — murmurou ela, sabendo que, mesmo que

Jake o aprovasse, Paul seria sempre contra. A solução

era esperar que Paul partisse para apresentar Russell.

Mesmo já tendo decidido o que fazer, Lynn pressentia

que não seria tão simples assim.

— Quando vai traze-lo? — perguntou Paul, e de novo

ela lançou-lhe um olhar penetrante.

— Na semana que vem, ou na outra. Ele está ocupado...

— Ocupado?

— Escutem, mesmo que Jake não aprove, tenho que

esperar só mais um ano! Quando fizer vinte e cinco, terei

o controle absoluto da minha herança. — Olhou para a

Sra. Grayson. — Desculpe-me, mas acho que Paul não

tem o direito de interferir.

— Estão vendo? — disse Jake, sentindo-se obviamente

envergonhado. — É só esperar um ano mais, e ela poderá

casar. Que diferença faz, se eu proibir o casamento?

— Você vai gostar dele — disse Lynn, confiante. — Mas

acho que Paul, não. Russell é muito gentil e fala pouco.

— Gentil? Fala pouco? — Paul jogou a cabeça para trás

e soltou uma gargalhada. — Que adjetivos mais sem

graça você usa para descrever o homem com quem

pretende casar!

— Paul, por favor — pediu a Sra. Grayson.

— Não pretendo, apenas — corrigiu Lynn. — Já decidi.

— Está realmente decidida?

— Claro que estou. Sei exatamente o que quero.

— Um homem gentil e calado, sem arrogância, alguém

que será dócil como um cachorrinho recém-nascido.

— Paul agora chega — disse a mãe. — Você parece ter

esquecido que Lynn é nossa convidada.

— Acho que Lynn e eu devíamos ter uma conversa a sós

— sugeriu ele, com ar brincalhão.

— Acho uma ótima idéia — interrompeu Jake, antes que

ela tivesse tempo de responder. — Afinal de contas, são

velhos amigos. Quer dizer... acho que são — corrigiu, ao

notar a reação dos dois.

— Vamos ter nossa conversinha, Lynn — disse Paul,

depois que terminaram o jantar. Virou-se para a mãe: —

Com licença. — Seus olhos cruzaram com os de Jake,

que imediatamente acenou com a cabeça.

— Claro. Vocês vão ficar no escritório?

— Não, vamos para o jardim. Está uma noite muito

agradável, tipicamente inglesa. Como não vou ficar aqui

muito tempo, queria aproveitar o máximo este clima. —

Seus olhos procuraram Lynn. — Vamos?

— Com licença. — Seguiu Paul até o jardim, sentindo a

vibração daquela noite enluarada.

— A julgar por sua expressão, não está esperando nada

agradável — ele disse, enquanto atravessavam a varanda.

Estava de fato uma noite quente e banhada pelo luar

prateado; o ar em volta deles era carregado de perfume.

— Não sei o que está querendo dizer.

— Não está disposta a ter uma conversa amigável.

— Meu tutor é o seu padrasto, e não você!

— Ele sempre ouve meus conselhos — respondeu, num

tom lânguido que a enfureceu ainda mais. — Sempre

acha que minha opinião é melhor do que a dele. Tem um

coração generoso e é incapaz de ferir alguém.

— Está querendo dizer que está errado ao deixar eu casar

com quem bem entender?

— Estou dizendo que você percebeu exatamente que tipo

de pessoa ele é e conseguiu convencê-lo de que as coisas

deviam ser feitas à sua maneira e que tinha sido tratada

injustamente por seu tio.

Já tinham atravessado o gramado e estavam agora

entrando por um atalho entre arbustos. Paul foi na frente

e Lynn ficou olhando seus passos largos, aquele corpo

que dava a sensação de força, poder e virilidade latente.

Sentiu-se aliviada quando chegaram a um espaço aberto

e ela pôde de novo ficar ao lado dele.

— Meu tio foi injusto comigo — protestou. — Queria

que eu casasse com o filho dele.

— Disso eu já sei. Por que não casou?

— Não o amava.

— Mas também não ama esse tal Russell. — Pela

primeira vez, Lynn percebeu um tom estranho naquela

voz e se lembrou de já tê-la ouvido antes e achado

profundamente atraente.

— Amo, sim. O que sabe dos meus sentimentos?

— Sei identificar uma mulher apaixonada.

— Você nunca se casou. Isso é surpreendente — ela

disse, sem perceber.

— Nunca encontrei ninguém como você. Lynn parou e o

encarou.

— Não entendi esse. comentário.

— Acho que fui bastante claro. Você foi meu ideal de

mulher e sabe disso.

— E ainda sou? — perguntou, ofegante, sentindo o

coração aos saltos outra vez.

— É claro — respondeu, displicentemente, como se

dissesse aquilo só por educação.

— Você é um homem estranho. Se antes eu já não

conseguia entendê-lo, agora menos ainda.

— Não é preciso que me entenda. Pelo menos, não

precisa entender meus sentimentos. Quanto às minhas

intenções, quanto mais cedo as entender, melhor.

Embora fosse educado e suave, havia algo de primitivo

em seu tom de voz, algo de autoritário. A opinião dele,

mais do que a de Jake, seria decisiva para o futuro

casamento de Lynn. Por isso tinha se sentido tão

incomodada. Uma fúria incontrolável dominou-a,

principalmente porque se sentia incapaz de combater

qualquer decisão daquele homem a respeito de sua vida

nos próximos doze meses.

Tinha certeza de que ele ia aconselhar o padrasto a

proibir o casamento.

O que podia fazer? Devia usar alguma tática para

envolvê-lo? Tinha dito que era sua mulher ideal, mas o

que provavelmente estava querendo dizer é que era o

tipo de mulher que lhe agradava. Paul não tencionava

casar. Por outro lado, devia haver nele algum ponto

vulnerável, do qual pudesse tirar algum proveito.

Lançou-lhe o sorriso mais doce de que era capaz.

— Não sejamos inimigos, Paul. Está evidente que já não

tem mais nenhum ressentimento por eu não ter casado

com você. Então, por que se importa tanto em saber

quem vai ser meu marido?

Depois de um silêncio interminável, que deixou Lynn

com os nervos à flor da pele, ele finalmente respondeu.

Havia frieza em sua voz:

— Não pretendo deixar que cometa um erro. Vai trazer

esse tal Russell aqui para me ver; se eu o aprovar, poderá

casar. Senão... durei a Jake que retire o consentimento.

A raiva tomou conta dela como uma tempestade. Seu

corpo inteiro tremia.

— Por que está interferindo em coisas que não lhe dizem

respeito? — Se tivesse coragem, podia ter batido nele.

Em vez disso, virou-se e foi embora, desejando ficar

sozinha para se acalmar. Mas ele a seguiu e, frustrada,

Lynn diminuiu o passo. — Odeio você! Por que não

ficou na Grécia?

— Você não me odeia. Um dia ainda vai me agradecer

pela atitude que estou tomando.

— Impossível! Só espero que Jake não dê ouvidos aos

seus conselhos.

— Ele vai me ouvir. Já está perturbado por ter deixado

você decidir tudo sozinha. Foi bom eu chamar a atenção

dele em tempo.

— Por que não vai cuidar da sua própria vida?

— Se posso impedir que Jake cometa um erro, é meu

dever tomar uma atitude.

Por que ele está fazendo tudo isso?, Lynn perguntou a si

mesma. Devia haver uma razão, não era só uma

interferência banal. Paul nunca se importaria tanto com

uma coisa dessas. Não, havia outro motivo.

— Não está fazendo isso por despeito, não é?

— Despeito?

— Porque não casei com você.

— Acha que eu seria capaz de me sentir despeitado? Ela

olhou para aquele rosto frio.

— Não, acho que não.

O ódio de Lynn tinha diminuído um pouco. Tentava se

controlar para que Paul ficasse mais calmo. Ao chegarem

a um lugar isolado do jardim, parou e falou, com voz

suave:

— Por favor, diga-me: por que é contra o meu

casamento?

— Esse Russell é muito fraco de caráter para você, Lynn.

Ela tentou pensar a respeito, admitindo talvez que essa

era a impressão que tinha transmitido.

— Ê a minha escolha.

Voltou a andar, mas Paul barrou seu caminho.

— Sua escolha? — Olhou-a com ar cínico. — Fico me

perguntando o que fez com que o escolhesse.

— Quero um marido que me trate de igual para igual.

Russell é flexível e...

— Flexível? Pelo amor de Deus, Lynn, cada vez mais

você o descreve como um fraco de caráter. Acredita

mesmo que possa ser feliz com um homem desses?

— É claro. Não pretendo casar com um homem

dominador, se é isso que está pensando.

— Quer dizer: escolheu um homem a quem vai dominar.

— Não necessariamente. Apenas pretendo também ter a

minha liberdade.

— É, você mudou. — Ficou pensativo, lembrando-se da

jovem que tinha conhecido. — Mesmo assim, gosto do

seu jeito. Deve ter sido muito doloroso ser controlada por

seu tio.

— Realmente foi, e durou muito tempo. Acho que nunca

mais admitirei qualquer espécie de controle.

— Mas você é controlada por Jake.

— Por Jake, não... — Não completou a frase, pois não

podia admitir nem por um instante a hipótese de ser

dominada por Paul.

— Seu orgulho não a deixa ver que estará sob meu

controle durante os próximos doze meses...

— Odeio você! — falou, tomada de raiva e frustração.

— Vou casar com Russell, e pouco me importa a

influência que você exerce sobre Jake!

— Não se importa também de perder sua herança?

— Eu disse que vou casar com ele dentro de um ano.

— Muita coisa pode acontecer em um ano. — Estava

muito próximo e ela não podia recuar, pois naquele

ponto exato os arbustos eram muito espessos e o solo

lamacento e escorregadio.

— Está querendo dizer que posso mudar de idéia?

— É evidente que sim.

Lynn moveu-se, meio desajeitada, com dificuldade,

porque Paul estava muito perto. Sentiu o cheiro da loção

após-barba, um suave aroma de pinho que se misturava

ao cheiro másculo do corpo dele. Seus sentidos estavam

agitados, e ela ficou chocada ao perceber que estava

também fisicamente excitada.

— Só que... não vou mudar de idéia. — Olhou em volta,

procurando um modo de escapar.

— Sei por experiência que a mente feminina muda tanto

quanto a cor do camaleão.

— Pelo jeito, tem uma vasta experiência.

— Bastante razoável. O suficiente para me convencer da

inconstância das mulheres. — Aproximou-se ainda mais,

seu corpo praticamente encostando no dela.

Lynn percebeu que, se quisesse escapar, teria que

empurrá-lo para fora de seu caminho.

— A experiência transformou você num cínico. — Sua

mente era um torvelinho de pensamentos confusos que

ela não podia nem queria analisar. Tudo o que desejava

era se ver livre daquele homem, mas ao mesmo tempo

sentia-se atraída, afetada pela proximidade e por aquela

sensualidade máscula. Lynn não podia negar que, se ele

não decidisse recuar naquele momento, estaria perdida.

Nada daquilo tinha lógica, era muito perturbador, e ela

ficou pensando se a suavidade da noite tinha que ver com

o que estava sentindo.

Paul inclinou a cabeça, parecendo querer beijá-la, mas

logo em seguida endireitou-se.

— Fale um pouco de você.

Os olhos negros examinaram o rosto dela e depois

devoraram seu corpo. Um tremor a invadiu. Tentou

controlar aquele desejo crescente, um desejo que nunca

tinha sentido com Russell.

— Não há muito o que dizer — respondeu, desejando

não parar mais de falar. — Minha vida foi muito boa

enquanto papai era vivo, mas, como já disse, ele morreu

logo depois que nos separamos. Tio Joseph foi nomeado

meu tutor porque papai tinha medo dos caça-dotes.

— Ê, acho que me lembro de ter sido condenado à

revelia. Mas isso não importa mais. Por favor, continue.

— Parecia ter conseguido aproximar-se ainda mais, e

agora Lynn tinha plena consciência de que aquele corpo

grande tocava o dela. Queria sair dali, correr... ou não?

— Tio Joseph era viúvo, tinha um filho, era natural que

me levasse para morar com ele. A casa onde vivi com

meu pai havia sido alugada e eu não podia tirar os

moradores de lá. Na Inglaterra, depois que você aluga

uma casa, é muito difícil despejar os inquilinos. Por isso,

quando receber meu dinheiro, vou ter que comprar

outra... Calou-se ao perceber o que tinha revelado: que

Russell não ia comprar uma casa para eles. Encarou

Paul, mas não percebeu nada em seu rosto.

— Cresci junto com Victor — continuou, depois de uma

pausa. — Quando fiz vinte e um anos, tio Joseph sugeriu

que casasse com meu primo e recusei. Era persistente,

ficou zangado e depois se transformou num verdadeiro

inimigo. Daí em diante, minha vida foi desagradável.

— Esse Victor queria casar com você?

— Ficaria muito contente com o casamento, mas não nos

amávamos. Por isso, a idéia de tio Joseph era ridícula.

— Parece que seu tio queria muito sua fortuna.

— Sim. Antes, eu suspeitava; agora, tenho certeza.

— Você ainda vive com Victor, não é verdade?

— É. Ele não guarda nenhum ressentimento por minha

atitude. Já lhe disse que vai propor casamento a uma

outra jovem em breve.

— Mais uma herdeira, sem dúvida — insinuou Paul,

num tom irônico.

— É, ela tem dinheiro. Victor já tinha me dito que, se eu

não casasse com ele, teria que vender a casa. Mas agora

espera salvar a propriedade, casando com essa moça.

— Você vai ter que sair de lá, se ele for bem sucedido?

— Claro. Duas mulheres numa casa só nunca dá certo.

— Não, quando uma delas é você.

— Isso não me pareceu muito gentil de sua parte.

— Não tive intenção de ofender. Você ficou muito dura,

Lynn.

— Ê, acho que sim. Deve ter sido consequência do

tratamento que recebi de tio Joseph. Estava sempre na

defensiva; por isso, me tornei dura.

— Fico imaginando até que ponto — murmurou ele. Seu

tom de voz era mais do que sarcástico.

Lynn sentiu os nervos agitados, a boca seca. Com um

movimento brusco e decidido, conseguiu desvencilhar-

se, mas na pressa escorregou e tropeçou, perdendo o

equilíbrio. Teria levado um tombo, se não fosse o auxílio

rápido de Paul, que a agarrou e a apertou contra o corpo.

Antes que pudesse reagir, estava aprisionada nos braços

dele.

— Largue-me! — disse, baixinho. — O que pretende?

— Decidi conhecer seus limites de resistência. Seus

lábios se encontraram, antes que ela pudesse responder.

Lynn conhecia o gosto embriagador daqueles lábios que

deslizaram, úmidos, entreabrindo os seus, até que ela

experimentou um misto de êxtase e vergonha, quando

suas línguas se tocaram. Lutou para não corresponder,

mesmo sabendo que nunca venceria a técnica e a

experiência de Paul. Era evidente que queria dominá-la,

que seu objetivo era a vitória, a vitória a qualquer custo.

Percebendo que ele estava prestes a vencer, num esforço

supremo Lynn conseguiu soltar-se e começou a correr.

Segundos depois, gritou, ao sentir-se novamente

agarrada pela cintura.

— Deixe-me em paz!

Foi calada por um beijo que a deixou sem fôlego.

Mesmo depois que os lábios se separaram, Lynn foi

incapaz de falar, ainda sem respiração. Seus olhos,

cheios de fúria, encontraram o olhar cínico de Paul. No

desejo de acabar com aquele sorriso, ela ergueu a mão e

deu-lhe um tapa. Uma expressão de ódio incontrolável

tomou conta do rosto de Paul; com um rugido que mais

parecia vir de um animal selvagem, começou a sacudi-la.

— Faça isso de novo, e vai se machucar!

— Foi você quem provocou. Ai! Já está me machucando

de verdade. — Levou as mãos aos olhos cheios de

lágrimas. Seus ombros ardiam, não conseguia controlar

as batidas do coração. Por que aceitara dar aquele

passeio? Como podia adivinhar que o filho charmoso e

bem-educado da Sra. Grayson ia se comportar daquela

maneira? Era um grego perfeito naquele momento, o

rosto escuro banhado de luar, os olhos brilhando de

ódio... ou de algum outro sentimento?

Agora percebia que a verdadeira personalidade de Paul

tinha ficado oculta na época em que ele pretendia casar.

Havia escapado por pouco! Teria sido obrigada a se

submeter a ataques diários de paixão incontrolável.

Como todas as gregas, teria um filho por ano. Ou, quem

sabe, as coisas fossem diferentes agora e as gregas

estivessem mais valentes, mais inteligentes e menos

dispostas a aceitar uma situação de inferioridade. Mesmo