Arquitetando a 'Boa Vizinhança': a sociedade urbana do Brasil e a recepção do mundo... por Fernando Atique - Versão HTML

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Arquitetando a “Boa Vizinhança:”

a sociedade urbana do Brasil e a recepção do mundo norte-americano

1876 - 1945

Fernando Atique

orientadora:

Profa. Dra. Maria Lucia Caira Gitahy

tese apresentada à Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo da Universidade

de São Paulo, como parte dos requisitos

para obtenção do título de Doutor em

História e Fundamentos Sociais da

Arquitetura e do Urbanismo.

São Paulo, 2007

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Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por

qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa,

desde que citada a fonte.

Assinatura:

E-mail: fernando.atique@gmail.com

Capa: Fotomontagem de Fernando Atique usando casa

projetada pelo arquiteto Mario Penteado, em Campinas

/ SP; automóvel Chevrolet e o trio de amigos criados

por Walt Disney.

Projeto Gráfico e Diagramação: Fernando Atique

Fontes Usadas: Baker Signet BT e ABC Logos XYZ

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A Philip Oliver Mary Gunn,

(in memoriam)

o mais brasileiro dos irlandeses,

o mais plural dos pesquisadores,

um mestre para a vida toda.

A Anézia, Anita Fernanda e Ramez, as fontes vivas da minha história.

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A

AGRADECIMENTOS

Certa vez, eu ouvi de um professor que os agradecimentos das teses e dissertações estavam se tornado as maiores sessões dos trabalhos acadêmicos. Nunca me esqueci desta colocação. Desde então, tenho pensado no significado do famoso jargão de que a produção intelectual é solitária, e estou convencido de que, embora a escrita de uma tese seja tarefa individual, a atividade de pesquisa e a maturação de idéias são trabalhos que transcorrem em interação com professores, colegas e amigos. Ao escrever esta sessão, procuro nominar as muitas pessoas que apoiaram a realização desta tese como forma de agradecimento pelos estímulos recebidos ao longo de quase meia década.

Agradeço, primeiramente, a Maria Lucia Caira Gitahy que desde a entrevista no processo de seleção do doutorado, em 2003, demonstrou entusiasmo pela pesquisa, e que, por circunstâncias da vida, acabou por se tornar minha interlocutora principal. Devo explicitar meu agradecimento pela acolhida num dos momentos mais difíceis da minha vida na Academia e pelas portas que me abriu ao permitir minha participação num dos mais instigantes fóruns de pesquisa e debate que já conheci: o Grupo de Pesquisa em História Social do Trabalho e da Tecnologia como Fundamentos Sociais da Arquitetura e do Urbanismo, da FAUUSP.

Aos colegas deste grupo sou profundamente grato por me acolherem, com generosidade, e por me proporcionarem a chance de interagir com suas próprias pesquisas e, principalmente, por interagirem com a minha. A André Augusto Alves, Artemis Rodrigues Fontana Ferraz, Cristina de Campos, Gustavo Pimentel, Luiz Augusto Maia Costa, Luiz Felipe Bernardini, Marcos Virgílio da Silva, Maria Beatriz Portugal Albuquerque e Sidney Piochi Bernardini eu deixo registrado meu muito obrigado.

Sou grato a Antonio Pedro Tota que não só me instigou a formular várias das hipóteses presentes neste trabalho através de seu livro O Imperialismo Sedutor

O Imperialismo Sedutor, mas que me brindou ao aceitar participar da banca

de qualificação desta tese, ampliando o meu entendimento sobre várias questões historiográficas.

Expresso, ainda, minha gratidão aos amigos que fiz por meio da USP – São Carlos, os quais me forneceram livros, artigos, ombros e entusiasmos diversos ao longo de vários anos: Alessandra Navarro, Alexander Abuabara, Amanda Franco, Ana Cristina Kondor, Ana Paula Cassago, Ana Paula Farah, Cláudia Gomes de Araújo, Daniele Porto, David Sperling, Elizabeth Arakaki, Fabiana Stucchi, Fabiano Lemes, Flávia Brito do Nascimento, Francisco Sales, Fúlvio Teixeira de Barros Pereira, George Dantas, Gustavo Partezani, Heverson Tamashiro, Juliana Mota, Liziane Peres Mangili, Marcus Dantas de Queiroz, Mary Helle Balleiras, Mateus Bertone da Silva, Mirela Macedo, Nora Cappelo, Oigres Cordeiro, Paulo Castral, Renata Cabral, Rosana Steinke, Sálua Manoel e Tatiana Sakurai.

Agradeço aos Professores dos Programas de Pós-Graduação do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, em São Carlos, e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em São Paulo, ambos da USP, pelos ensinamentos e trocas de informações ao longo da pesquisa: Akemi Ino, Ana Lanna, Anja Pratsckhe, Hugo Segawa, José Eduardo Lefèvre, José Tavares Lira, Mônica Junqueira de Camargo, Nabil Bonduki, Paulo Bruna e Renato Anelli. A Telma de Barros Correia eu devo expressar minha gratidão por ter sido a primeira pessoa a me falar sobre o “Mission Style”, e por ter me orientado nos caminhos de descoberta da História do Urbanismo e da Arquitetura. A Maria Lucia Bressan Pinheiro eu declaro meu apreço pela amizade generosa, e por ter sido interlocutora importante em diversas fases desta pesquisa.

Agradeço à Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior – CAPES - pela concessão da Bolsa de Estágio de Doutorado “Sandwich”, imprescindível na elaboração desta tese. A João Roberto vi

Patrinhani, da Pró-Reitoria de Pós-Graduação sou muito grato pela ajuda na resolução de todos os trâmites inerentes à referida bolsa CAPES.

A Nilce Aravecchia Botas e Maria Luiza de Freitas eu devo muito, não apenas pelas acolhidas na Paulicéia, mas, principalmente, por terem me estendido a mão tantas vezes; por terem discutido a pesquisa comigo, e por serem duas intelectuais que possuem os mesmos sonhos que eu. A Gabriela Campagnol declaro meu profundo apreço pela amizade e pelo compartilhamento dos planos e das agruras que envolveram esta tese. A Stella Pugliesi sou muito grato pelas conversas, sorrisos e pelas acolhidas em território carioca. A Vanda Quecini expresso meu muito obrigado pela amizade, pela hospitalidade e pelas conversas quase terapêuticas ao longo desses anos de pesquisa.

Externo meu sincero agradecimento ao Professor Fernando Diniz Moreira por ter feito a ponte entre mim e a University of Pennsylvania, nos Estados Unidos. Naquela universidade eu encontrei pessoas que foram primordiais para a pesquisa da tese: professor David Bruce Brownlee, chefe do Deparment of the History of Art, intelectual de primeira grandeza, que me orientou nos meses em que residi na Philadelphia. Ainda, ali, agradeço a atenção e a amizade da professora Cathrine Veikos, da arquiteta Tânia Calovi Pereira, da arqueóloga Linda Meiberg, da socióloga Vida Bajc, do químico Fabrício Vargas, dos arquitetos Erik Soderberg, Grace Ong e Alexander Eisenschmidt, e de Karina Flauzino e Mariana Garcia, pessoas que foram as referências mais importantes em minha “aclimatação” nos Estados Unidos. Aos funcionários dos diversos acervos, bibliotecas, arquivos e entidades da Penn: William Whitaker, Nancy Thorne, Nancy Miller, William Keller, Tammy Betterson, Darlene Jackson, Edward Keller, meu muito obrigado. A Bridget Arthur Clancy da Presbiteryan Historical Society e aos funcionários do Athenaeum of Philadelphia, também deixo registrado meus agradecimentos. Ainda nos Estados Unidos agradeço a atenção da professora Cristina Peixoto-Mehrtens, da University of Massachusetts Dartmouth e de Elaine Engst da Cornell University. A Sally Crimmins-Villela, da State University of New York eu agradeço todas as diretrizes dadas na elucidação de um equívoco historiográfico. De Lew e Lídia Radabaugh eu trago saudosas lembranças pela generosa recepção dispensada a mim, em Chicago.

No Brasil, nas mais diversas localidades, eu sou grato a Abimael Cereda Júnior, Adriana Irigoyen, Ana Cláudia Orlandi, Ana Luiza Martins, André Rodrigues, Ariane Palma, Benedito Tadeu de Oliveira, Camila Postigo, Carlos Kessel, Carlos Orlandi Júnior, Cecília Francisca da Silva, Cloir Salatiel, Eduardo Carlos Pereira, Esther Araújo, Evandro Atique, Fabíola Orlandi, Francisco Medaglia, Glória Araújo, Helen Dutra Gomes, Hudson Corrêa Lopes, Isabela Trazzi, Jane Falcosky, James Lawrence Vianna, Juciléia Barbosa, Luciane Ortega, Márcia Salatiel, Marco Aurélio Filgueiras Gomes, Maria Alice Vaz Ferreira, Maria Borges, Maria Cecília Luiz, Marilia Salatiel, Mirian Tscherne, Raquel Cisoto Barbosa, Roberta Wik Atique, Roberto Conduru, Rodrigo Botas, Rogério Monteiro de Siqueira, Salete Alves, Sania Maria de Lima, Suelen Cereda, Taciana Marinho, Thaís Veltroni, Tirza Garcia Lopes, Washington Pastore Amore.

Agradeço aos funcionários das Bibliotecas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em especial, Estelita, Maria José e Filomena, da Pós-Graduação, e Rejane, da Graduação; aos funcionários da Biblioteca Paulo Santos, do Paço Imperial do Rio de Janeiro e da Biblioteca Nacional. Às demais instituições pesquisadas, eu também externo meu muito obrigado pela atenção.

Obrigado, também, a todos os funcionários da Pós-Graduação da FAUUSP, em especial, a Isa, sempre cordial e correta, e a Cristina, pelas ajudas importantes, em diversos momentos do doutorado.

Na Universidade São Francisco expresso meus agradecimentos e meu apreço a Washington Luiz Alves Corrêa, Rosemeire Santana e Marta Catalani, por terem viabilizado meu afastamento para a realização do Estágio “Sandwich”, nos Estados Unidos. A Glacir Fricke eu sou eternamente agradecido pela generosidade, amizade, senso crítico, eficiência e compreensão que, ao longo de toda a tese, surtiram efeitos de lemes incomparáveis. Ainda, ali, sou sinceramente grato pela amizade e pelo companheirismo dos colegas vii

professores Ângela Barbon, Jairo Bastidas, Marcus Massak, Maria Camila D’Ottavianno, Maribel Nogueira, Priscila Meireles e Rangel Nascimento. Agradeço a Andrea Loewen pela ajuda em determinados momentos no início da pesquisa. Aos meus alunos e ex-alunos também agradeço e, em especial, devo nominar Alexandre Torricelli, João Luiz do Carmo, José Fábio Bueno, Maria Cristina Erdelyi, Michele Bernardi, Patrícia Goyos, Renata Matsumoto, Ricardo Stéfani e Sandro Pincinatto que forneceram materiais para a pesquisa, em momentos diversos.

A Marta de Freitas Salatiel, uma amiga incomparável, uma “mãe adotiva” e auxiliadora indispensável, sou profundamente grato por incontáveis coisas, impossíveis de serem enumeradas, mas, espero que sejam facilmente exprimidas.

Agradeço, de forma intensa, aos meus familiares, que, mais do que nunca, foram importantes na minha vida: Anita Fernanda, minha professora de vida; Ramez, meu historiador particular; Ana Rosa, José Gabriel, Augusto, Marcelo, Ana Lúcia, Mateus, Ana Beatriz e minha avó Anézia, a personagem que me deu todos os demais, e que me mostra como é bom viver em família.

Campinas, inverno de 2007.

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ix

“O neocolonial não foi idéia original nossa, mas da

maior parte do continente que, nas segunda e terceira

décadas do século, adotou uma espécie de Doutrina

de Monroe para a arquitetura (...) cada qual procurando

reviver formas senão autóctones, pelo menos caldeadas

no Novo Mundo ao tempo da colonização – algumas

repúblicas como o México e os Estados Unidos

chegaram a exportar essas formas (‘Mexicano’,

‘Californiano’, ‘Mission Style’)”.

Paulo Santos, Quatro séculos de arquitetura.

x

xi

RESUMO

ATIQUE, Fernando. Arquitetando a “Boa Vizinhança”: a sociedade urbana do Brasil e a recepção do mundo norte-americano, 1876 - 1945. Tese de Doutorado. São Paulo: Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Área de Concentração em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, 2007.

Trata do processo de construção de diálogos entre o Brasil e os Estados Unidos, tendo como focos a arquitetura, o urbanismo e a sociedade brasileira que vivia em cidades, entre 1876 e 1945, período compreendido entre o ano da viagem de Pedro II aos Estados Unidos da América e o final da Segunda Guerra Mundial. Analisa quatro grandes eixos pelos quais a sociedade urbana do Brasil foi alcançada pelo mundo norte-americano: política e relações diplomáticas dos profissionais do espaço; disseminação de saberes técnicos e científicos capazes de alterarem a arquitetura, o urbano e a domesticidade brasileira; vinculação das instituições de ensino superior do país com o universo acadêmico estadunidense, sobretudo com a University of Pennsylvania. Aborda, ainda, a prática arquitetônica dentro dos princípios do “Mission Style”. Analisa como o Brasil foi, ao longo de sete décadas, tecendo relações que permitiram a construção de discursos e representações sobre o pan-americanismo. Mostra a relevância de se enxergar a relação do Brasil com os Estados Unidos como um processo no qual se arquitetou a “Boa Vizinhança”, explicitada com maior ênfase nos anos da Segunda Guerra.

Palavras-chave: Brasil; Estados Unidos; profissionais do espaço; ensino superior; University of Pennsylvania; Mission Style; pan-americanismo.

ABSTRACT

ATIQUE, Fernando. Constructing the “Good Neighborhood”: the Brazilian society and the reception of the American world, 1876 - 1945. Doctorate dissertation. São Paulo: Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Área de Concentração em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, 2007.

This thesis explains the making of a relationship between Brazil and the United States. The period of study begins in 1876 when Pedro de Alcantara, the Brazilian emperor, went to the United States to participate of the Centennial Exhibition held in Philadelphia. The final temporal mark of this study is the year of 1945, when the World War II was finished, and the presence of the goods, equipments and the way of life from the United States got the most relevant levels in the whole world. The thesis’s object of research can be understood like a plural one: not only the architecture, but also the whole urban environment and the classes that lived in that space. Trying to develop a particular narrative about the process of Americanization of the architecture and the city in Brazil, the thesis shows four ways of this attitude. The first one is concentrate on considerations about politics and diplomatic relations concerning of a group of professionals (architects, engineers etc) called as “spatial artisans”. The second way treats the references and the representations of the United States that had changed the domesticity and the form of the Brazilian way of life. In addition of these two, the work shows the discovers made in the United States about the Brazilians alumni from University of Pennsylvania that had came back to Brazil to increase the Americanization’s process by the architecture.

With a special focus about the pan Americanism the thesis studies the reception and dissemination of the Mission Style architecture in Brazil. The importance of this discussion is great and unfolds a process called as “constructing the Good Neighborhood”.

Key words: Brazil; United States; spatial artisans; University of Pennsylvania; mission style; architecture; pan Americanism.

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SUMÁRIO

Introdução

Diálogos Velados na Arquitetura e no Urbanismo Brasileiros 3

A gênese da pesquisa 7

O objeto na historiografia da arquitetura e das cidades brasileiras 9

A estrutura do trabalho 14

Capítulo 1

Americanismo, Pan-Americanismo e Interamericanismo:

o “lugar ” do Brasil 19

1.1 - Visões da ”América”: Debates sobre a Aproximação dos Estados Unidos 22

1.2 - Visões do “Brazil”: Americanos Analisam o Pan-Americanismo 42

1.3 - Questões Profissionais: Os Congressos Pan-Americanos de Arquitetos 47

1.3.1 - “O Congraçamento dos Obreiros do Belo” 50

1.3.2 - Algumas Lições “Americanas” dos Congressos Pan-Americanos 64

C a p í t u l o 2

“A ‘A m é r i c a ’ p a r a o s B r a s i l e i ro s ” :

a sociedade urbana do Brasil e as referências americanas 77

2.1 – Circulação de pessoas, idéias e produtos 79

2.2 - Estados Unidos: lócus da técnica e da indústria moderna 107

2.3 - Olhando o Mundo Americano: Revistas e Cinema 128

xiv

Capítulo 3

Um Outro Roteiro:

em busca de profissão nos Estados Unidos 135

3.1 – ‘Espalhando Sementes’: A Atuação de Educadores Norte-Americanos no Brasil 136

3.1.1 – O Mackenzie College e a divulgação do Ensino Superior Norte-Americano no Brasil 154

3.2 – “Ide e Estudai!” A Conexão Brasil - Estados Unidos de Ensino Superior 167

3.3 – A “University of Pennsylvania” e os Alunos Brasileiros 179

3.4 – Desenhando as Américas: os Egressos dos Cursos de Arquitetura da Penn e o Brasil 208

3.4.1 – George Henry Krug: trajetória eclipsada 212

3.4.2 – William Procter Preston: trajetória revelada 220

3.4.3 – John Pollock Curtis: da Arquitetura à Embaixada 226

3.4.4 – Christiano Stockler das Neves: discípulo da ‘Fine Arts’, não da ‘Beaux-Arts’ 231

3.4.5 – Eugênio de Almeida Castro: incógnita persistente 245

3.4.6 – Edgard Pinheiro Vianna: outrora, no grande circuito, agora, fora dos manuais 246

3.4.7 – Washington Azevedo: tentativa frustrada na “Terra do Tio Sam” 265

3.4.8 – Fernando Gama Rodrigues: do Mackenzie para a Penn 266

C a p í t u l o 4

“A s Fo n t e s d a A rq u i t e t u r a ” :

o “M i s s i o n S t y l e ” e o n e o c o l o n i a l n o B r a s i l 271

4.1 – Uma Polêmica: A Arquitetura ‘Neocolonial’ e Suas Fontes Estrangeiras 271

4.2 – “Mission Style”: caracterizações fundamentais 287

4.3 - Algumas Escolas de Arquitetura do Brasil com “Repertórios Neocoloniais” 306

4.3.1 – Escola Polytechnica de São Paulo: Escola de “Multi” Referências 308

4.3.2 – Escola [Inter]Nacional de Belas Artes 337

4.3.3 – As Várias “Américas” no Curso de Arquitetura do Mackenzie 359

4.4 – A Disseminação de Projetistas e de Manuais de um Neocolonial Segundo o “Gosto Norte-Americano”372

4.5 – O “Mission Style” como Arquitetura Pan-Americana 405

Considerações Finais

O Caminho Pan-Americano da Americanização 415

Referências Bibliográficas e Iconográficas 427

Anexos: Tabela Cronológica dos Estudantes da “University of Pennsylvania” (Penn)

com Comprovada Origem Brasileira (1876 - 1950);

Tabela de Ex-Alunos da Penn com Comprovada Atuação Profissional no Brasil. 449

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1

odução

intr

“Nosso crescente contato, já agora não só econômico e

político, mas também cultural, com os Estados Unidos, é

um tema ao mesmo tempo inquietante e sugestivo para a

imaginação. (...) Na viagem de algumas semanas que acabo

de realizar à América do Norte, acostumei-me a julgar

melhor semelhante opinião. Exigindo de nós um comércio

espiritual que promete conseqüências amplas e duradouras, I

exatamente o contrário de uma pura aquiescência, ela é,

ao menos por esse motivo, digna de atenção e respeito”.

Sérgio Buarque de Holanda, 1978, p.23-24.

2

odução

intr

Fig. 1 a 3: [imagens da abertura]: capas da revista Careta.

Disponível em: www.universohq.com/quadrinhos/

n24052003_07.cfm. Acesso em 03 jun 2007.

3

odução

intr

I INTRODUÇÃO

Diálogos Velados na Arquitetura e no Urbanismo Brasileiros

Em 1997, como costumeiramente fez ao longo de quase todo o século XX, a indústria cinematográfica de Hollywood distribuiu algumas centenas de filmes ao redor do mundo. Naquele ano, entretanto, o setor de entretenimento americano ressuscitou um título que está inserido numa estratégia de mercado que remonta aos anos 1920. A Máscara do Zorro, filme estrelado por Catherine Zeta-Jones e Antonio Banderas trouxe às telas uma cândida versão da conquista da California, processada na primeira metade do século XIX. A produção não provocou nenhuma revolução em termos cinematográficos, mas revelou uma nova tentativa de diálogo dos Estados Unidos com a América Latina. Esta postura de ressurgimento de personagens que permitem uma ligação dos Estados Unidos com o continente americano, como o Zorro, não pode deixar de ser vista como uma postura que visa a amenização da expansão do idioma, dos hábitos e da presença física de muitos latinos nos Estados Unidos.1 O filme, que mostra a luta pela defesa dos interesses dos povos californianos mediante a ação de um herói descendente de hispanos, tem como meta sensibilizar os imigrantes e seus filhos para o fato de que os Estados Unidos, embora se autopropale como a “terra da democracia”, necessita de um controle sobre esta diversidade étnica, intentando manter a noção construída ao longo do século XIX, de que é possível que cada estado da federação tenha uma origem própria, mas que, ao mesmo tempo, esteja, cada um, submetido a um fundo histórico comum, explicativo do que se julga ser os Estados Unidos da América. De maneira geral, nos últimos anos o que o governo daquela nação tem procurado fazer é enfatizar a idéia de que o país precisa voltar a ser 1 A Máscara do Zorro (The Mask of Zorro), de 1997, teve

roteiro produzido por John Eskow, baseado na história de

Ted Elliott, Terry Rossio e Randall Jahnson, com direção geral

de Martin Campbell. Os filmes anteriores desta saga foram A

Marca do Zorro (The Mark of Zorro), um filme-mudo,

lançado em 1920, com Douglas Fairbanks e Noah Beery. O

enredo era baseado num conto datado de 1919, intitulado

The Curse of Capistrano, da lavra de Johnston McCulley.

Em 1940 houve uma nova versão desta mesma história, que

conservou o mesmo título. Naquele ano, ela foi estrelada

por Tyrone Power e Linda Darnell. A direção esteve a cargo

de Rouben Mamoulian e a produção foi assinada por Raymond

Griffith e Darryl F. Zanuck. Disponível em http://

pt.wikipedia.org/wiki/Zorro. Acesso em 16 mai 2007.

4

“americanizado”.

odução

intr

O processo de transmissão de conceitos, imagens, produtos e modos de pensamento cuja ascendência está nos Estados Unidos da América é tradicionalmente chamado de “americanização”. Em linhas gerais, é sobre este processo que esta tese se debruça, tendo como foco a sociedade brasileira fixada em área urbana e suas demandas espaciais. Como poderá ser visto ao longo do trabalho, alguns recortes foram feitos dentro deste processo de forma a gerar uma ênfase maior sobre o campo da arquitetura e do urbanismo. Assim, por isso, optou-se por recorrer à discussão sobre o reaparecimento da saga do Zorro, nesta introdução, por ver nesta atitude dos empresários do setor cinematográfico muitas implicações sobre as considerações contidas neste trabalho. Com esta retomada nota-se, por um lado, o sucesso da empreitada americana por sobre o continente, uma vez que a imagem dos Estados Unidos como o locus da técnica, da vida moderna e do enriquecimento se fixou no imaginário de muitos países latinos. Por outro lado, esta retomada do “herói californiano” deixa explícita, também, que para muitas pessoas não basta apenas consumir ou se referir às novidades emanadas de New York, de Chicago ou de Los Angeles em seus próprios países: é necessário transferir-se para aquelas plagas tentando alcançar o “sonho americano”

integralmente. Notadamente, a busca pelos Estados Unidos tem feito com que os americanos passem a sentir o reflexo especular de suas próprias atitudes. Hoje, em linhas gerais, o país procura conter a

“hispanificação” do país criador da “americanização”.

O processo denominado “americanização” teve defensores e críticos ao longo dos séculos XIX e XX, em todos os países da América, como também, na Europa e na Ásia (CODY, 2003). Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a emergência dos Estados Unidos como grande potência econômica e política, se fez notória. Concomitantemente, teorias e posturas identificadas com a preservação das “heranças locais”

dos países alcançados pelos interesses estadunidenses também afloraram. De maneira geral, estas formas de pensamento combativo estavam afinadas às esquerdas políticas e explicitavam a necessidade de um melhor desenho relacional entre os países-alvo da expansão do americanismo e o próprio Estados Unidos.

No continente americano, muitos políticos e intelectuais procuraram mapear os riscos e as conseqüências da expansão dos norte-americanos, intentando mitigar a sedução exercida pela economia, pelas paisagens, pela cultura e, também, pela arquitetura estadunidense.

No universo brasileiro também ocorreu o mesmo processo. É possível encontrar, facilmente, diversos 5

títulos produzidos entre os anos 1960 e 1980 que tratam das relações Brasil – Estados Unidos dentro da odução

idéia da existência de um “imperialismo yankee”. Alguns exemplos são as obras de Moniz Bandeira, intr

Presença dos Estados Unidos no Brasil: dois séculos de história, de 1973, e Tio Sam chega ao ao Brasil

Brasil:

a penetração cultural americana, de Gerson Moura, cuja primeira edição remonta a 1984. Contudo, é importante mostrar que, em linhas gerais, a historiografia brasileira cristalizou a idéia de que o processo de

“americanização do Brasil” se delineou apenas na década de 1930, quando, explicitamente, a “Política da Boa Vizinhança”2 , de Franklin Delano Roosevelt foi formulada e posta em prática por Nelson Rockefeller e pelo staff do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (TOTA, 2000). Particularmente, sobre este processo de americanização, que teve facetas na cultura, na política e na economia, várias obras foram escritas, ajudando a entender muitas opções brasileiras na condução de sua política econômica, como, também, na produção de seu espaço. O livro de Antonio Pedro Tota, O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da Segunda Guerra, de 2000, e a tese de doutoramento de Ana Elena Salvi, “Cidadelas da Civilização:” políticas norte-americanas no processo de urbanização brasileira com ênfase na metropolização paulistana dos anos 1950 a 1969, de 2005, são os exemplos mais recentes e mais bem acabados para o entendimento da ação da Política da Boa Vizinhança, no Brasil.

Enquanto a elite intelectual e muitos membros da esquerda militante se manifestavam de forma contrária à vinculação com os Estados Unidos, sobretudo no segundo pós-guerra, os efeitos da americanização já se faziam sentir em cada parte do Brasil, de forma inconteste. Desde os anos 1940, era possível encontrar em quase todo o país, milk shakes, sorvetes Kibon, calças jeans – também chamadas de “rancheiras”, demonstrando sua ascendência nos “ranchos estadunidenses” – lambretas, discos, e expressões gestuais, como o simples fato de apontar o polegar para cima, em sinal de confirmação, todos advindos dos Estados Unidos (TOTA, 2000: 10).

Contudo, as representações da cultura norte-americana no Brasil não se deram apenas por meio desses signos, e muito menos começaram após o fim da Segunda Guerra Mundial. Este processo teve início ainda no século XIX, e encontrou peculiaridades no Brasil. País visto, tradicionalmente, como um ente estranho no contexto continental, já que era o único a ser governado por um império, o único a falar português, o único a ter uma grande extensão territorial mantida de forma coesa, e um dos poucos a se dividir entre sua adesão ao universo americano ou à sua herança européia, o Brasil era, entretanto, um parceiro de peso que deveria ser buscado por Washington (SANTOS, 2004). Desde o final do século XIX, então, pode-se 2 A“Política da Boa Vizinhança” remonta a 1928, quando

Herbert Hoover, durante sua viagem a alguns países da

América Latina, usou a expressão“good neighbor”. Como

informa Tota, foi num discurso em Amapala, Honduras, que

o então presidente dos Estados Unidos cunhou o termo,

demarcando o princípio de sua política externa para a América

Latina, e dando a sugestão para o nome da política que

Roosevelt praticaria, a partir de 1933 (TOTA, 2000: 28).

6

falar num processo de americanização do país, o qual, ainda hoje, não encontrou seu fim. Alerta-se para odução

intr

o fato de que, de forma alguma, este processo deve ser visto como unilateral, ou seja, como tendo sido maquiavelicamente pensado pelos norte-americanos para ser implantado à revelia dos brasileiros, embora tenha sido explorado conscientemente pelos estadunidenses. Sustenta-se a tese de que os Estados Unidos era uma nação que oferecia uma opção modernizadora atraente à elite brasileira, a qual passou, então, a celebrar o país das “estrelas e listras” em diversas áreas.

Visando construir uma interpretação pluralista deste processo de aproximação com os Estados Unidos, no campo da arquitetura e do urbanismo, esta tese se valeu de um arco temporal traçado por dois acontecimentos políticos que foram cruciais para o desenvolvimento das cidades e da arquitetura no Brasil, e, por conseguinte, para a implantação deste processo de americanização. A primeira baliza remonta ao último quarto do século XIX: a viagem que Dom Pedro de Alcântara, o segundo imperador do Brasil, fez aos Estados Unidos, em 1876, para participar da exposição comemorativa do centenário da independência daquela nação.3 A outra baliza é o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, fato que demarca o início do nacional desenvolvimentismo, no Brasil, e que revela um estreitamento de relacionamento com os Estados Unidos. Optou-se por determinar o ano de 1945 como o marco temporal final para esta pesquisa por se ter, na historiografia nacional, uma grande quantidade de títulos publicados, e um conseqüente discurso, ainda hegemônico, de que o Brasil “se americanizou”, de fato, após o conflito mundial encerrado em 1945. Nos quase setenta anos abarcados por esta tese, muitos eventos, personagens, fontes, locais e instituições foram descobertos e tratados, mostrando quão rica e quão densa foi a trajetória do Brasil no que concerne ao seu envolvimento com os Estados Unidos, desconstruindo a noção de que a americanização do país ocorreu na metade dos novecentos.

Foi tentando escrutinar este relacionamento multifacetado que se empregou o termo “mundo americano”

como parte do objeto de estudo desta investigação. O “mundo americano” é, pois, entendido, nesta tese, como um recurso retórico que aponta para uma pluralidade de eventos, de personagens e de fontes que, embora tenham origens e trajetórias próprias, ao serem confrontados uns com os outros, e vistos em conjunto, permitem a criação de uma teia que enreda todo o processo de americanização. Como este trabalho foi escrito por um arquiteto e urbanista, dentro da área de concentração em História e Fundamentos Sociais da Arquitetura e do Urbanismo, a produção do espaço foi escolhida para a aproximação ao objeto de estudo. Desta forma, muito embora os marcos temporais façam referência a atividades políticas – uma 3 Esta periodização encontra respaldo na bibliografia

internacional contemporânea, como o livro Exporting

American Architecture, da lavra de Jeffrey Cody. Cody revela,

em sua obra, que a década de 1870 é crucial para o princípio

da construção das relações de comércio e de política externa

dos Estados Unidos, inscrevendo-a dentro da Segunda

Revolução Industrial. Dentro desta década, o autor em

questão aponta a relevância de se enxergar a Exposição

Internacional da Philadelphia, de 1876, como o principal

elemento de catálise do processo de americanização (CODY,

2003).

7

viagem de um chefe de Estado e o fim de um conflito bélico internacional – são os fatores culturais e odução

espaciais inerentes e decorrentes destes dois eventos que mais interessam a este trabalho. Assim, espera-intr

se que esta tese possa, também, contribuir com a história social da cultura, e não apenas à história da arquitetura e do urbanismo, ou ao debate das formas e das técnicas de produção do espaço, embora estas facetas também apareçam no trabalho.

Deve-se expor, ainda, mais alguns pressupostos presentes no próprio título desta tese. Enquanto os Estados Unidos construíam sua hegemonia político-econômica a partir do final do século XIX, os países com os quais a “Terra de Tio Sam” manteve relações eram atraídos pela idéia de obtenção dos produtos

“made in USA”. Em resumo: enquanto divulgaram, venderam e disponibilizaram mercadorias e tecnologias, os Estados Unidos foram criando laços econômicos que se transformaram, também, em laços sociais, os quais, por sua vez, permitiram a criação de representações positivas acerca do “mundo americano”. Este processo, segundo se interpreta, deve ser visto como uma etapa de construção de uma política maior, consolidada na segunda metade do século XX e que, portanto, conduziu à efetivação da “Política da Boa Vizinhança”. As etapas que levaram à ampliação e à explicitação do contato norte-americano com o país são entendidas como uma construção que transcorre no tempo e no espaço, mantendo, sempre, íntima relação com a arquitetura e com o urbanismo. Sendo assim, fazendo uma nítida referência ao campo no qual a pesquisa se desenvolveu, e, ao mesmo tempo, mostrando que a “americanização” é decorrência de um processo maior, optou-se por utilizar a expressão “Arquitetando a Boa Vizinhança” para o título, a qual mostra que o objeto de estudo precede a década de 1930, passa por ela e avança até as portas do marco mais notório do processo de americanização do mundo: o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

A gênese da pesquisa

A idéia para a escrita desta tese é tributária de três eventos isolados, os quais, entretanto, se coadunam, e nela se fazem presentes, enfim. Para esta pesquisa, a primeira noção de que havia relações não explicadas entre o Brasil e os Estados Unidos no campo da arquitetura e do urbanismo, remonta a 1997, numa assessoria de pesquisa promovida pelo Prof. Dr. Marcelo Tramontano, à época, orientador de Iniciação Científica do autor deste trabalho. Naquele ano, Tramontano apresentou um livro de nome Scenes of the World to Come: European architecture and the American challenge – 1893-1960, escrito pelo 8

historiador e crítico de arte francês, radicado nos Estados Unidos, Jean-Louis Cohen. Resultante de uma odução

intr

exposição homônima organizada por Cohen para o Centre Canadien d’Architecture, em 1994, para estimular o estudo sobre o “século americano”4 o livro desmontou paradigmas historiográficos da própria Europa ao mostrar, através de documentos, que nem todas as propaladas inovações européias eram, de fato, oriundas do Velho Mundo. Como exemplo desta reavaliação historiográfica pode ser citada a gênese de alguns preceitos habitacionais de Le Corbusier, como a Maison Citrohan, dos anos 1920, nos apartment-houses nova-iorquinos dos anos 1890 (COHEN, 1995: 57). Na época, a descoberta desta formulação analítica de Cohen, que apontava para um novo fluxo de referências na arquitetura da Europa, aguçou o criticismo, do então pesquisador iniciante, sobre a produção historiográfica da área arquitetônica no Brasil. Em 1998, já trabalhando numa outra pesquisa de Iniciação Científica, sob o comando da Profa.

Dra. Telma de Barros Correia, houve a surpresa pela indicação de que havia dentro do escopo da arquitetura neocolonial realizada no Brasil uma vertente americana chamada Mission Style. Nunca antes daquela data este termo havia sido mencionado nas aulas de história da arquitetura e do urbanismo e, muito menos, era possível encontrar explicações plausíveis sobre os motivos pelos quais um país de zelosa memória colonial tivesse praticado uma arquitetura que se referenciava aos Estados Unidos de forma tão explícita. Anos mais tarde, já na fase de preparação da dissertação de mestrado, enfocando uma arquitetura vertical que mediava a “Europa e a América”,5 uma visita a uma livraria revelou a publicação de um livro que veio a se tornar a inspiração maior para o aprofundamento nas duas questões que acima já foram reveladas. O livro encontrado era o escrito pelo historiador Antonio Pedro Tota sobre as relações brasileiras com os Estados Unidos, dentro do campo que já era caro, ao então mestrando, da história social da cultura. A conjugação destes três eventos isolados deu origem ao plano de pesquisa que conduziu a esta tese.

Inicialmente, procurava-se entender quais teriam sido os elementos domésticos e arquitetônicos que permitiriam vincular o Brasil aos Estados Unidos. Contudo, ao longo do desenvolvimento da pesquisa, pontos que eram latentes, como a questão do pan-americanismo e da atração profissional pelos Estados Unidos, afloraram. Deve-se explicitar que este ganho repertorial foi devido à atuação do Prof. Dr. Philip Gunn como orientador da tese por mais de dois anos, função que exerceu até seu falecimento, em outubro de 2005, duas semanas após o exame de qualificação deste doutoramento. O prosseguimento dos trabalhos teve um novo incremento com o ingresso no grupo de pesquisa em História Social do Trabalho e da Tecnologia como Fundamentos Sociais da Arquitetura e do Urbanismo, coordenado pela Profa. Dra.

Maria Lucia Caira Gitahy. As discussões processadas no seio do grupo, que reúne um seleto time de 4 Este termo advém do artigo escrito por Henry Luce para a

revista Life, em fevereiro de 1941. A expressão, desde então,

tem sido usada como sinônimo da hegemonia político-cultural

estadunidense, no mundo.

5 Faz-se referência ao Edifício Esther. O resultado desta

pesquisa pode ser encontrado no livro Memória Moderna:

a trajetória do Edifício Esther, publicado pela FAPESP e

RiMa Editora, em 2004.

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pesquisadores, com investigações relacionadas a esta, enriqueceu as análises que estavam em processamento.

odução

intr

Mais um fator que foi determinante para a escrita desta tese foi a oportunidade de realizar pesquisa nos Estados Unidos, entre março e julho de 2006. Através da obtenção de uma “bolsa sandwich”, concedida pela Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES – foi possível consultar arquivos e bibliotecas da University of Pennsylvania, na cidade da Philadelphia, bem como outras instituições, como a Presbyterian Historical Society, o Athenaeum of Philadelphia e a Avery Library, da Columbia University, em New York. As pesquisas em fontes primárias e em publicações somente encontradas nos Estados Unidos permitiram a ampliação da tese e, ao mesmo tempo, confirmaram muitas hipóteses sustentadas desde o princípio da investigação, em 2003.

O objeto na historiografia da arquitetura e das cidades brasileiras

Há, na historiografia que trata da arquitetura e das cidades brasileiras, um predomínio de narrativas que enfatizam a presença européia na constituição de seu aspecto formal. Tal discurso, de fato, contempla uma inegável e pertinente ação do Velho Mundo sobre o Brasil. Contudo, a despeito de estudos já bem antigos nas ciências humanas que apontam os Estados Unidos da América como referência na cultura, na política e na economia brasileira, torna-se curioso notar que são poucos e bem recentes os trabalhos que abordam as relações do Brasil com os Estados Unidos no desenvolvimento dos espaços, sejam urbanos ou arquitetônicos. Tal lacuna gera uma imagem nebulosa da presença norte-americana no Brasil, e tem razões históricas. Como deixou explícito o arquiteto Carlos Alberto Ferreira Martins, em sua dissertação de mestrado Arquitetura e Estado no Brasil: elementos para a investigação sobre a constituição do discurso moderno no Brasil; a obra de Lucio Costa – 1924/1952 houve, por parte do arquiteto Lucio Costa, a cunhagem de um mecanismo teleológico para a escrita da história da arquitetura que se tornou a base da produção historiográfica deste campo, no Brasil, até poucas décadas atrás (MARTINS, 1987).

Assim, os autores vinculados a esta forma de interpretar a história da arquitetura muito pouco revelaram dos germanismos e, principalmente, dos americanismos presentes no país desde os finais do século XIX.

O exemplo maior deste procedimento historiográfico é o livro Arquitetura Contemporânea no Brasil, quitetura Contemporânea no Brasil, do

paleógrafo francês Yves Bruand. No livro de Bruand é possível encontrar passagens que expressam a ênfase nas relações européias, como esta:

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“os arquitetos brasileiros sentiram-se pouco atraídos pelas grandes realizações de seus colegas dos odução

Estados Unidos. Exceto o crédito de Wright (...), a influência dos E.U.A. não se fez sentir na arquitetura intr

até época bem recente [anos 1960]” (BRUAND, 1991: 255).

Esta informação é dada por Bruand a despeito dos arranha-céus que pontuavam a paisagem de nossas grandes cidades, desde a década de 1930, e que eram plenamente identificados como um fenômeno norte-americano (ATIQUE, 2004:120). Outros argumentos para o menosprezo da repercussão americana, no país, também não são difíceis de serem apontados. Em princípio, pode-se ressaltar que a historiografia da arquitetura e do urbanismo no Brasil, estabilizada como campo disciplinar após a Segunda Guerra Mundial, já sob a égide do Movimento Moderno, viveu o desconforto de pensar o papel dos Estados Unidos em pleno período da Guerra Fria. A percepção que se tinha daquele país variava entre a apologia das suas realizações e a visão de que Washington DC nutria“pretensões imperialistas” e de “aniquilamento da cultura local”. A última visão devia-se, em muito, à influência da esquerda, que transmitiram, a pelo menos uma geração de historiadores da arquitetura, muita desconfiança pelo “país do norte”.6 Tal discurso é plenamente compreensível, haja vista a política internacional posta em prática por aquele país, após o fim do conflito, em 1945, com o endurecimento da “Política da Boa Vizinhança”. Esta política, ao mesmo tempo em que tolhia possíveis simpatias por outros países, sobretudo aos vinculados ao socialismo, avassalava o Brasil com marcas indeléveis de uma suposta superioridade cultural norte-americana, a qual se tornava muito difícil de ser aceita pela elite cultural e intelectual mais ativa, no país. Assim sendo, poucos pesquisadores da área da arquitetura e do urbanismo se aventuraram num campo que parecia “minado”.

As transformações históricas mais gerais que atingiram o capitalismo, no último quartel do século XX, colocaram sob novas perspectivas e novas luzes estas questões. Após este “abalo” na estrutura capitalista, o panorama editorial sobre o mundo americano também se alterou. Devem ser citados, por exemplo, a obra de Giorgio Ciucci, Manfredo Taffuri, Francesco Dal Co e Mario Manieri Elia, La ciudad americana, de 1975, que trata da formulação de um campo de trabalho – o urbano - e de teorias formuladas nos Estados Unidos para o trato com este campo. Não se pode deixar de falar, mais uma vez, dos importantes livros de Jeffrey Cody, de 2003, e de Jean-Louis Cohen, de 1995, já citados.

Na seara editorial brasileira, algumas obras, como a de Nicolau Sevcenko, Orfeu extático na metrópole, de 1992, e a de Antonio Pedro Tota, o imperialismo sedutor, de 2000, mostram uma gama de elementos 6 A trajetória de João Batista Vilanova Artigas é exemplar

para essa questão. De projetista de edifícios residenciais aos

moldes hispano-americanos e casas de nítida vinculação

wrightiana, nos anos 1930, Artigas se tornou o principal

autor a combater o “imperialismo”, não só dos EUA, como

de Le Corbusier, após a II Guerra.

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culturais, artísticos, sociais e políticos que confirmam a pertinência da hipótese central da tese, que é a de odução

que antes da Segunda Guerra já existia um importante relacionamento cultural com os Estados Unidos. Na intr

produção recente da historiografia da arquitetura brasileira são encontrados trabalhos que abriram caminhos para a investigação da relação Brasil – Estados Unidos. Entre eles está o livro da arquiteta Adriana Irigoyen, de 2002, denominado Wright e Artigas: duas viagens, que versa sobre a presença do arquiteto Frank Lloyd Wright nas estruturas basilares da Arquitetura Moderna brasileira. Outro trabalho que procurou empreender uma primeira reavaliação destes diálogos norte-americanos foi o da Profa. Dra. Maria Lucia Bressan Pinheiro, que, em sua tese de doutoramento, de 1997, chamada Modernizada ou moderna? A arquitetura em São Paulo, 1938-1945, mostrou a presença de muitos estilos pitorescos em São Paulo, identificados com a produção arquitetônica estadunidense. Em termos do pensamento e da práxis urbanística, podem ser elencados o recente livro da socióloga e doutoranda em urbanismo, Cristina de Campos, São Paulo pela lente da higiene: as propostas de Geraldo Horácio de Paula Souza para a cidade (1925-1945), publicado em 2002, que mostra o pensamento urbanístico do médico higienista Horácio de Paula Souza, depois de seus estudos em Baltimore, de onde trouxe novos métodos e paradigmas que foram implementados na cidade e no estado de São Paulo. Outro trabalho recente é o do arquiteto Candido Malta Campos Neto (2002), Os Rumos da Cidade: urbanismo e modernização em São Paulo, que

mapeia a ação dos principais líderes políticos e urbanistas da cidade, explicitando muitas de suas referências segundo padrões norte-americanos. Os trabalhos das urbanistas Nadia Somekh (1997), A cidade vertical e o urbanismo modernizador: São Paulo 1920-1939, e Sarah Feldman (2005) Planejamento e

zoneamento: São Paulo, 1947-1962, analisam a chegada dos preceitos norte-americanos ligados à verticalização e às instituições de urbanismo da cidade. Ao lado destes trabalhos ligados à questão urbana devem ser incluídos, ainda, a tese de doutoramento de Luiz Augusto Maia Costa, O moderno planejamento territorial e urbano em São Paulo: a presença norte-americana no debate da formação do pensamento urbanístico paulista / 1886-1919, 2005; e o livro de Sidney Piocchi Bernardini, de 2006, Os planos da cidade: as políticas de intervenção urbana em Santos – De Estevan Fuertes a Saturnino de Brito (1892-1910), que mostram, de forma inconteste, a grande ascendência que o universo técnico estadunidense exerceu no exercício do planejamento territorial e urbano brasileiro. Outra obra que também escrutina, pelo campo da ordenação do espaço, o contato do Brasil com os Estados Unidos é a já citada tese de doutoramento da arquiteta Ana Elena Salvi, Cidadelas da civilização, de 2005.

Especificamente no que concerne ao estudo do Mission Style, a produção historiográfica é bem mais 12

lacunar. A obra brasileira que fez maior referência ao tema foi a dissertação de mestrado do arquiteto odução

intr

Eduardo de Jesus Rodrigues, defendida na FAUUSP, em 1986, de nome As fachadas na arquitetura paulistana: o estilo missões. Entretanto, a dissertação não se volta à análise histórica, inserindo-se no campo da linguagem visual. Já o livro da arquiteta Silvia Wolff, Jardim América: o primeiro bairro-jardim de São Paulo e sua arquitetura, de 2001, se atêm, com muito critério, justamente, à produção “missioneira”

deste bairro-jardim. Wolff aponta, inclusive, que “dos 102 projetos realizados para o Jardim América, entre 1935 e 1940, quase a metade, ou seja, 46, apresenta motivos forjados pelo neocolonial hispano-americano” (WOLFF, 2001: 228). Outras duas teses de doutoramento, defendidas na FAUUSP, também trouxeram elementos para a compreensão dos aspectos formais do estilo missões. São elas, Manifestações da arquitetura residencial paulistana entre as Grandes Guerras, da lavra de Clara Correia D’Alambert, de 2003, e A morada carioca no contexto das zonas norte e sul nos anos 20, de Norma Maria Geoffroy, de 2004. Mesmo assim, é a tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2002, de autoria do arquiteto e historiador Carlos Kessel, intitulada Entre o pastiche e a modernidade: arquitetura neocolonial no Brasil,

quitetura neocolonial no Brasil, a que traz maiores considerações e fontes documentais

importantes ao estudo do Mission Style. A passagem em que analisa a difusão do estilo missões, no Brasil, tem a clara intenção de tentar separá-lo do neocolonial luso-brasileiro:

“Apesar das semelhanças formais justificadas pela proximidade entre arquiteturas coloniais portuguesa e espanhola, o Estilo Missões representa o último dos frutos da árvore eclética que o movimento neocolonial tinha se proposto a derrubar – e o fato de que boa parte do público não erudito tomasse um pelo outro se constituía em fator de irritação para os propugnadores do neocolonial” (KESSEL, 2002: 18).

Entretanto, Kessel, com todo o levantamento documental que efetua, abre margens a outros estudos. Isso ocorre, por exemplo, ao analisar a visão de importantes personagens do cenário arquitetônico nacional, como o antigo presidente do instituto Brasileiro de Arquitetos, Nereu Sampaio, publicada na revista Arquitetura e Urbanismo, em 1940, na qual defendia o Mission Style como um exemplo a ser seguido na busca das raízes do país, ou, ainda, do médico e antigo diretor da Escola Nacional de Belas Artes, José Marianno Carneiro da Cunha Filho, que via o missões com cautela, temeroso de que houvesse a produção de um “equívoco”, em função do “entrelaçamento de elementos ornamentais do nosso estilo com os dos variantes hispano-americanos” (CUNHA FILHO, 1929 In: ARCHITECTURA: mensário de arte, n.7, dez, 1919: 9 -10).

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Na historiografia consagrada nacionalmente, o Mission Style é interpretado como uma “forma de ecletismo odução

exótico, de interesse limitado”, mesmo tendo triunfado “na arquitetura residencial” devido “a moda das intr

casas ‘missão espanhola’, importada dos Estados Unidos por Edgar Vianna” (BRUAND, 1991: 57). Há, contudo, algumas poucas vozes, como Paulo Santos, que falam com certa simpatia sobre o estilo e sobre a presença norte-americana no país (SANTOS, 1981: 94).

Para completar este breve panorama que versa sobre a presença norte-americana no país, não se pode deixar de lembrar da imagem do Brasil fabricada pelos americanos para seu próprio uso. O melhor caso em relação à arquitetura é o do livro Brazil Builds,, editado pelo MoMA – Museum of Modern Art -, de New York, em 1943. O livro foi um dos principais divulgadores da arquitetura brasileira no estrangeiro, e se inseriu nos esforços americanos de firmar alianças, numa das estratégias da “Política da Boa Vizinhança”

de Franklin Delano Roosevelt, por meio de Nelson Rockefeller, como assinala Hugo Segawa (SEGAWA,1999: 100). Produzido pelo arquiteto Philip L. Goodwin e pelo fotógrafo Kidder Smith, o Brazil Builds era um catálogo com 200 páginas, impresso para servir de suporte à exposição homônima montada no MoMA, que chegou a circular pelo país. Apresentando obras antigas e modernas, muitas das quais desconhecidas dos próprios brasileiros, o Brazil Builds foi um dos principais divulgadores daquilo que se podia considerar arquitetura moderna brasileira, e, por isso, nele não existem grandes referências ao neocolonial e muito menos ao Mission Style. Aliás, até existem referências ao neocolonial, mas estas são usadas para descrever o que não deveria ser a arquitetura do Brasil. Alguns autores sustentam que tal interpretação se deu porque, de fato, quem teria elaborado os clichês e selecionado as obras do catálogo teria sido Lucio Costa, como sugeriu, em palestra, o professor Alberto Xavier. Enfim, comprovando-se ou não tal afirmação, o livro englobou apenas aquilo que fazia parte do repertório modernista, lançando as demais posturas e correntes arquitetônicas e a um papel secundário na formação das cidades brasileiras.

Por isto, antes de se realçar apenas o papel que o final da Segunda Guerra Mundial desempenhou dentro do “triunfo do imperialismo yankee” da América Latina, compete à historiografia, e, em especial à dedicada à arquitetura e ao urbanismo, indicar os caminhos que foram percorridos até a consumação deste efeito.

Esta tese procura colaborar nesta tarefa, fazendo a análise do período em que se “arquitetava a Política da Boa Vizinhança”.

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A estrutura do trabalho

odução

intr

Esta tese é composta por quatro capítulos mais considerações finais, além desta introdução. Cada capítulo apresenta uma seqüência de reflexões próprias, o que permite a leitura autônoma de cada seção, caso seja desejável pelo leitor. A organização do trabalho nestas quatro partes, excluindo-se introdução e considerações finais, permite enfatizar quatro caminhos pelos quais se percebeu o processo da americanização. Estes caminhos são o da diplomacia e da política internacional; da expansão do comércio e dos signos do mundo capitalista americano; o da educação atrelada ao projeto religioso estadunidense, e, por fim, o da arquitetura.

Posto isto, pode-se esmiuçar o que cada capítulo aponta à reflexão.

O primeiro capítulo, intitulado Americanismo, Pan-Americanismo e Interamericanismo: o “lugar” do Brasil se volta à discussão conceitual sobre qual seria o termo adequado para o entendimento da política praticada pelo Brasil desde o século XIX: americanista, pan-americanista ou interamericanista? Nele são estudados os conceitos de América e de pan-americanismo, os quais geraram acaloradas discussões no passado.

Intenta-se, com esta análise, pontuar as posições assumidas pelo Brasil, neste debate. Analisam-se, também, as visões que o Brasil teve acerca da política externa estadunidense, abrindo para o registro da presença dos intelectuais que repudiaram a idéia de uma aproximação com aquele país, mas, também, dos que não se importaram e, ainda, para os que estimularam o relacionamento brasileiro com a “Terra do Tio Sam”.

Como primeira aproximação ao campo da arquitetura e do urbanismo estuda-se, ainda, a emergência e a importância dos Congressos Pan-Americanos de Arquitetos, entendidos como fóruns privilegiados para o debate profissional pan-americano e para a divulgação dos pressupostos técnicos, comerciais e formais de ascendência norte-americana.

Tendo analisado a importância do pan-americanismo para o entendimento do relacionamento do Brasil com os Estados Unidos, sobretudo por meio dos Congressos Pan-Americanos de Arquitetos, estuda-se, no segundo capítulo, denominado “A América para os Brasileiros:” a sociedade urbana do Brasil e o mundo americano, a importância das exposições internacionais processadas naquele país, entre 1876 e 1939, para que o Brasil entrasse em contato com o universo comercial e profissional americano, ajudando na criação de representações positivas sobre ele, por aqui. Analisa-se, ainda, a repercussão de técnicas, empresas, equipamentos e entidades norte-americanas, no Brasil, mostrando a pluralidade de visões da sociedade urbana brasileira sobre os Estados Unidos da América.

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odução

Apoiado na ampla divulgação do universo americano, verificado no segundo capítulo, e, especialmente, intr

na idéia de que os Estados Unidos era “a nação messiânica do mundo moderno”, como defendia Alberto Freyre, pai de Gilberto Freyre, estudam-se, no capítulo 3, as vinculações entre a chegada de missões protestantes e a criação de um sistema de ensino que estreitou laços com os Estados Unidos. Analisam-se, dessa maneira, a constituição de uma rede educacional que trouxe métodos e docentes dos Estados Unidos ao Brasil, como propiciou, também, a criação de um fluxo de estudantes para as principais universidades norte-americanas, como a Columbia University, a Cornell University e a University of Pennsylvania. Retomando o foco no campo da arquitetura e do urbanismo, analisam-se os profissionais que se formaram na University of Pennsylvania, e, dentre estes, os que adquiriram conhecimentos em arquitetura, já que muitos deles foram de capital importância para a ampliação do universo profissional brasileiro, e, principalmente, por terem introduzido formas e estéticas oriundas dos Estados Unidos, pretensamente vinculadas a um “estilo pan-americano”.

O quarto capítulo trata, exatamente, da história deste “estilo pan-americano”. Analisando a chegada, a recepção e a difusão do Mission Style, gerado na costa oeste americana, e encampado como um fator de contato entre o mundo yankee e a América Latina, apresentam-se não apenas considerações sobre o escopo formativo da arquitetura neocolonial brasileira, como, também, sobre os principais profissionais envolvidos com sua feitura. Abordam-se, ainda, as escolas de nível superior que divulgaram materiais e métodos de projetação do espaço, favorecendo o enraizamento do Mission Style, no Brasil. Aparecem, também, algumas considerações sobre a disseminação, junto às massas, das referências estadunidenses.

Ainda neste capítulo, prepara-se o leitor para o alinhavo das questões tratadas durante todo o trabalho, revelando como os quatro caminhos da americanização do Brasil foram semelhantes nas outras repúblicas americanas, o que leva, naturalmente, à pertinência de entender o caminho pan-americano da americanização, discussão empreendida nas considerações finais desta tese.

Concluindo: se a saga do Zorro foi exibida em vários lugares do mundo, foi, de fato, no continente americano que ela encontrou maior acolhimento. A história do Zorro enfatizava a idéia de que aquele tipo heróico, habitante de uma casa pretensamente colonial, poderia mostrar um caminho para o encontro da tradição com a modernidade, da preservação da herança européia, mas, também, do alinhamento com o desenvolvimento econômico e social contemplado nos Estados Unidos. Se a construção de arranha-céus 16

revelava a imagem de uma cidade estadunidense da costa leste, como New York, o aparecimento do odução

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Mission Style mostrava que muitos almejaram, no Brasil, e na América Latina, como um todo, uma vinculação com as cidades que gravitam ao redor de Los Angeles, a cidade mais latina dos Estados Unidos. Se na historiografia da arquitetura e do urbanismo no Brasil ainda é difícil encontrar estudos sobre a vinculação com os Estados Unidos na produção de arranha-céus7 e no planejamento urbano, deve-se comentar que o relacionamento brasileiro com as formas e as imagens da costa oeste americana ainda é um tabu. Um diálogo velado que se intenta tornar mais audível com esta tese.

7 Uma importante contribuição no preenchimento desta lacuna

é a recente dissertação de mestrado do arquiteto Gustavo

Ribeiro Pimentel, defendida nesta casa, este ano. Pimentel

estuda a tecnologia do concreto armado e a verticalização

do centro da cidade de São Paulo, entre 1934 e 1952.

(PIMENTEL, 2006).

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