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Artimanhas do amor por L P Baçan - Versão HTML

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Kirck surgiu, finalmente. Era um excelente ator. Seu rosto demonstrava consternação e pesar. Parecia também muito cansado.

— Ela repousou agora — disse o playboy, indo servir-se de uísque. — O melhor que temos a fazer agora é deixá-la. Nada deve perturbá-la.

E quanto ao velho, o que será dele? — indagou Harvey, sondando o rosto do outro.

Uma pena... Não sei. Aqueles aparelhos prolongarão indefinidamente, mas clinicamente ele pode ser considerado morto. Talvez depende de Leslie uma decisão. Talvez dos médicos, não sei quem pode resolver isso.

Harvey fechou os olhos e terminou o uísque que tinha em seu copo. Por momentos imaginou como seria maravilhoso se Kirck caísse morto ali mesmo e se o velho Howard vencesse os aparelhos e também morresse.

Restaria apenas ele e Leslie, uma feliz combinação, uma milionária combinação. Tudo que sempre sonhara poderia realizar-se. Leslie Nunca suspeitaria de Marion. Harvey poderia até comprar um cassino.

— Vamos então? — indagou Kirck, terminando seu uísque.

— Sim, claro — concordou Harvey.

Deixaram a casa. Harvey foi para o seu carro e ficou observando Kirck entrar em sua Ferrari e sair devagar. Segui-o.

Após deixarem a propriedade, no entanto, Kirck acelerou sua máquina e distancio-se.

Ainda como um louco... murmurou Harvey, lembrando-se daquele acidente que vira com uma Ferrari.

Pensou em rumar para o seu apartamento. Fora uma longa tarde e penosa, presenciando a vitória de Kirck. Pensou em Marion, pensou no cassino. Precisava fazer qualquer coisa naquela noite . Alguma coisa que pudesse calar aqueles pensamentos loucos e desesperados que rondavam sua mente.

* * *

Só após presenciar a saída daqueles dois abutres, Albert se retirou para sua cabana. Estava cansado e nervoso, tendo se sentido impotente para proteger Leslie. O que acontecia era um absurdo, um ultraje.

Aqueles dois homens se degladiaram definitivamente pela posse da garota. Quem levaria vantagem, Albert não sabia. Importunava-o, no entanto, saber que não seria ele.

Estendeu-se no sofá da pequena sala, um cigarro aceso entre os lábios, a camisa desabotoada no peito. Tentou descobrir a melhor maneira de ajudar Leslie, de ampará-la dignamente, mas não havia como. Com a presença de Harvey e Kirck por perto, jamais teria uma chance.

Ouviu passos furtivos que se aproximavam. Pôs-se em pé e foi até porta. Abriu-a. A claridade avançou pela abertura e eliminou o corpo de Alice Dolly.

— Pensou que eu não viesse? — indagou ela, apoiando-se ao batente, próxima dele.

— Imaginei que viesse — respondeu ele, afastando o corpo.

Alice deslizou para dentro da sala. Albert fechou a porta, depois se voltou para observá-la.

Ela caminhava pela sala muito à vontade, examinando-a com interesse.

— É a primeira vez que entro aqui, sabia?

— Não, não sabia — respondeu ele. — Quer tomar alguma coisa.?

— O que você tem aí? — indagou ela, soltando-se sobre o sofá, cruzando as pernas com provocação.

Albert não precisava ser muito esperto para saber o que Alice viera ali por um único motivo.

Por isso aproximou-se e sentou-se ao lado dela, olhando-a demoradamente.

Os olhos da garota brilharam e ela se viu perturbada diante do modo como ele a olhava.

— Por que me olha assim?

— Deveria ser de outra maneira? — retrucou ele, o braço deslizando pelo ombro dela.

Atraiu-a lentamente para si. Seus rostos ficaram próximos, seus hálitos se confundiram. Ele tentou beijá-la, mas Alice desistiu.

— Só depois de me jurar uma coisa — exigiu ela.

— O quê?

— Que é tudo mentira o que dizem de você e de Leslie.

— Absurdo! Qualquer pessoa compreende a situação. Sou um motorista ela é uma milionária...

— Não quer dizer nada. Você pode estar apaixonado assim mesmo.

Albert encarou aquele olhar de desafio e ligeira zombaria. Feri-o interiormente a maneira vulgar com que Alice se referia a algo tão importante para ele.

O desejo de castigá-la por aquilo, de puni-la de alguma forma, porém, fez com que ele mentisse. Olhou-a direito nos olhos, uma leve crispação nos lábios.

— Sim, é tudo mentira — afirmou ele, sentindo-se invadindo repentinamente por um desespero interior que se extravasou na febrilidade com que a apertou contra si e a beijou.

A sua mentira, o modo como a tomara, tudo isso fez Alice reagir como numa explosão de sensualidade e desejo. Apertou-a a ele, mordiscou-lhe os lábios entregou-se definitivamente aquela paixão forçada.

Reclinou-a sobre o sofá, pesando sobre ela, beijando-a no pescoço, forçando sua blusa na descoberto de seus seios. Alice ofegou, excitada, as mãos penetrando pela camisa entreaberta, tocando-lhe a pele, acariciando-a com as unhas, beliscando-a apertando suas carnes.

Albert estremeceu, sentindo um desejo louco explodir dentro dele como uma mentira. O

corpo quente e sensual de Alice sugeria fantasias. Ele tentou vivê-las, mas imaginar-se com Leslie era o absurdos dos absurdos.

Seu desespero reforçou o desejo . Ele esfregou seu corpo contra o da garota. Uma de suas pernas acomodou-se entre as dela. O joelho forçou a saia, elevando-a e descobrindo as coxas torneadas e sedutoras de Alice.

Uma das mãos dele caminhou pelo flanco da garota, até tocar-lhe a pele macia das coxas, iniciando carícias que esbraseavam a camareira.

A outra mão soltou alguns botões da blusa dela, forçando uma abertura, tentando desnudar-lhe os ombros, onde depositou beijos inflamados.

As mãos de Alice entraram pelos cabelos de Albert, puxando-o para novos beijos. Suas línguas se buscaram e se tocaram, estabelecendo uma intimidade maior.

Sensações brotovam em seus corpos, alimentadas vorazmente por aquele desejo desesperado e mentiroso. Albert procurou desnudá-la , sem ser gentil, como se rasgar o tecido que ela vestia pudesse extravasar toda aquela ansiedade dentro dele.

Alice vibrou intensamente, com aquela manifestação brutal mas excitante, sentindo as mãos dele repuxarem sua blusa, forçarem sua saia, buscando com avidez sua peça mais íntima.

Ela, então, retribui na mesma medida, livrando-o da camisa, soltando-lhe o cinto, acariciando-o no ponto mais rijo e excitado, fazendo-o estremecer e arfar.

Com sensualidade e sofreguidão, Albert beijou-a nas faces, no pescoço, nos ombros, enquanto suas mãos massageavam agora, com volúpia os seios dela.

Alice se contorceu, tomada de arrepios que sensibilizavam toda a sua pele e provocaram reações em seu ventre que prometiam terminar na mais arrebatadora das sensações.

Por momentos, entregaram-se a tarefa de se desnudar completamente e de se observarem, excitados e trêmulos.

Um total e frenético descontrole dominou o corpo de Albert. Ele ofegou excitado, atirando-se com redobrada volúpia à tarefa de alucinar aquela mulher.

Suas mãos acariciaram intimamente o corpo dela, provocando extremo e indescritível prazer. Alice se agarrava freneticamente a ele, oferecendo os lábios , os seios, todo o corpo ao desejo de Albert.

Albert queria magoá-la de tanto prazer, como se fosse aquela sua forma de vingança pela ironia que enfrentava. A mulher que desejava jamais poderia estar com ele.

Suas mãos e seus lábios devassaram o corpo de Alice, dos ombros nu ao ventre em chamas, das coxas inquietas aos seios delicados e tentadores.

A volúpia contagiou-os totalmente. Espasmos de prazer abalavam seus corpos, invadidos pelo mesmo frenesi. Albert perdeu a noção de tudo ao seu redor.

* * *

Leslie acordara no meio da noite, apesar dos sedativos que lhe haviam ministrados. Por algum tempo permaneceu ali, imóvel no leito, tentando-se situar-se, procurando acreditar que tudo fora um terrível pesadelo.

Depois, pouco a pouco, as imagens daquele dia voltaram à sua mente e a certeza de que vivia uma realidade dolorosa a fez chorar em desespero.

Seu pai era a coisa mais cara que possuía. A certeza de que a verdade a respeito dele lhe fora negada fez com que o seu desespero aumentasse.

Queria ver o pai. Precisava vê-lo. Tentou levantar-se, mas sentiu seu corpo sem coordenação alguma. Agarrou-se aos móveis, procurando chegar até a porta. Quando a abriu, no entanto, uma enfermeira se adiantou pelo corredor, amparando-a.

— Srta Howard! Precisa voltar para a cama!

Não... Preciso vê-lo... Preciso — protestou ela, debilmente, enquanto era levada para a cama.

— Procure dormir. Vai se sentir melhor amanhã — disse a enfermeira, pemanecendo ali, ao lado dela.

O desespero da garota aumentou ainda mais. Se a mantinham sob aquele tipo de cuidados, havia um motivo especial. Sua preocupação pelo pai redobrou.

Precisava sair dali. Precisava ir até o hospital. Alguém tinha de ajudá-la.

Lembrou-se de Albert. Sim, Albert jamais desobedeceria a uma ordem dela. Precisava ir procurá-lo. Albert a levaria até o pai.

A presença da enfermeira, no entanto, era um empecilho a ser afastado. Leslie fingiu adormecer novamente e esperou que a outra deixasse o quarto silenciosamente.

Leslie então se levantou e caminhou até a porta com o aposento ao lado. Passou por ali e foi até a porta que dava para o corredor, a pouco passos da escada.

Abriu-a cautelosamente. Parecia febril, desonrientada, mas, por outro lado, incrivelmente certa de seus atos e das preocupações que deveria tomar.

Viu a enfermeira caminhando pelo corredor, de costas para ela. Saiu rapidamente e ganhou a escadaria. Apoiou-se ao corrimão, sentindo que toda a casa oscilava. Seu corpo parecia flutuar. Seus pés não encontravam um apoio concreto. Mesmo assim, desceu as escadas. A sala estava iluminada. Ouviu vozes, possivelmente os criados. Esguiou-se por outra porta, fugindo deles. Saiu pelos fundos da casa e caminhou, aturdida e insegura, na direção da cabana de Albert.

A brisa da noite fazia esvoaçar o tecido fino de sua camisola. O tecido transparente deixava ver os contornos sensuais de seu corpo, as marcas sutis das peças íntimas.

Viu a cabana do motorista. Havia luz acesa numa das janelas. Suspirou aliviada. Albert a levaria ao Hospital. Albert jamais a decepcionaria.

Chegou até a janela e ficou ali, imóvel, olhando aqueles dois corpos nus entregues ao amor numa volúpia louca. Os olhos de Leslie se esbugalharam, mas ela permaneceu ali, incapaz de se retirar, fitando o modo como Albert dominava Alice Dolly, como a fazia vibrar, contorcer-se, gemer e suspirar.

Ela se lembrou de seus momentos com Kirck. Estava certa de que ele lhe proporcionara uma dose intensa de prazer, mas ainda insignificante diante daquilo que Alice Dolly parecia viver nos braços fortes de Albert.

Ela observou-os até o último instante, os olhos fixos no corpo nu de Albert, na sua masculinidade rija e potente devassando o interior do corpo de Alice, fazendo-a reagir como uma gata no cio.

Tudo se confundia na mente da garota, então, com um gemido ela escorregou contra a parede, até ficar imóvel no chão.

Albert levantou a cabeça por instantes, julgando haver ouvido algo.

— Por favor, não pare! — suplicou Alice, os olhos brilhantes, as narinas dilatadas, o corpo em contorções deliciadas.

— Você não ouviu? — indagou ele, deixando-a e indo até a janela.

Olhou de um lado para o outro. A brisa farfalhou a camisola de Leslie, empurrando-a para o campo de visão de Albert. Ele olhou melhor.

— Leslie! — exclamou ele, indo vestir-se apressadamente.

— O que houve? — indagou Alice, assustada.

— A Srta Howard! — explicou Albert, deixando a cabana e contornando-a.

Ao ver o corpo de Leslie caído junto da parede, qualquer coisa ameaçou explodir dentro dele. Aproximou-se rapidamente e levantou a cabeça da garota.

— O que houve com ela? — indagou Alice, surgindo em seguida.

— Não sei... Não devia estar aqui. Vá avisar a enfermeira. Eu a levo para lá — ordenou ele, tomando Lesllie cuidadosamente nos braços.

Alice disparou na direção da casa. Albert firmou melhor o corpo desmaiado da patroa e começou a caminhar. Uma de suas mãos firmavam-se sob uma das coxas da garota. A maciez daquela pele era sentida, seu calor era contagiante.

A outra mão firmava-se sobre um dos seios dela. Albert sentia-lhe as formas, a rigidez promissora. Olhou naquele rosto, desejando estar sonhando, desejando que a realidade fosse outra.

Jamais esperara aquela ventura. O prazer de tê-la em seu braços vencia até a preocupação inicial que sentira. Seus olhos continuavam fixos no rosto adormecido da garota, observando de perto sua formas suaves e belas.

Um desejo arrebatador tomou conta dele. Talvez jamais poderia fazer aquilo, talvez jamais tivera outra chance como aquela.

Os apelos de seu coração se tornaram irrecusáveis. Ele trouxe a mais junto do peito e inclinou a cabeça. Seus lábios cobriram os dela num beijo cheio de ternura e paixão.

Todo o corpo do motorista estremeceu. Para seu espanto, porém, Leslie abriu os olhos e fitou-o por instantes, mas parecia olhar além dele.

Seus olhos se fecharam em seguida e ela continuou ali, apoiada ao peito dele, adormecida.

Aproximou-se da casa. Havia agitação em seu interior. A enfermeira e alguns criados surgiram apressadamente na porta da entrada. Todos ofereceram ajuda, mas Albert manteve Leslie em seus braços.

Carregá-la daquela forma era um prazer de que jamais abriria mão. Era a única forma de senti-la segura, protegida, livre das ameaças que enfrentava.

Levou-a até o quarto. A enfermeira examinou-a atentamente, após haver ligado para o médico. Como Leslie estivesse adormecida, fez com que todos se retirassem.

— Onde a encontrou? — indagou depois, lá fora.

— Junto à cabana...

— O que ela foi fazer lá?

— Como vou saber? — respondeu ele, irritado com a forma autoritária com que fora indagado.

A enfermeira parecia querer deixar claro que Leslie, nada tinha a fazer lá. Albert, porém, não a ouvia. Não sabia o que fizera Leslie ir até lá, mas o simples fato de ter ido, naquelas condições, significava que ela tinha, para com ele, alguma consideração e que, possivelmente precisaria dele para algo. Apenas isso já o deixava imensamente feliz.

Capítulo 6

Havia sido uma longa noite para Harvey. Aqueles pensamentos desesperados haviam-se prolongado, culminando em planos confusos e extremistas.

Kirck precisava ser afastado. De todas as ameaças que pairavam sobre a não concretização de seus planos, esse era o detalhe essencial.

Naquela manhã, em seu escritório, relia alguns planos secretos de projetos arquivados.

Viera cedo. Em sua mente havia uma Ferrari brilhante que parecia ser a melhor forma de afastar Kirck.

Estudou atentamente aquele projeto. Havia sido arquivado por falhas que não puderam ser solucionadas na época. Alguma coisa porém, podia ser aproveitada.

Apanhou o telefone e discou para um dos engenheiros da fábrica.

— Dick, estou fazendo uma limpeza nos arquivos. Vamos incinerar aqueles projetos arquivados. Você se lembra do projeto Cabra-Cega?

Sim, foi uma pena. Tínhamos tudo desenvolvido, mas não houve como adequar o comando-geral. Sou da opinião, que deve deixá-lo, Harvey, muita coisa aí pode ser aproveitada...

— Como o alimentador automático?

— Sim, foi a melhor coisa que bolamos até agora.

— Está bem. Temos os componentes no almoxarifado?

— Sim, todos eles.

Harvey sorriu, despedindo-se. Realmente, o que interessava e podia ser útil naquele projeto era o alimentador automático, um dispositivo acoplado ao carburador que permitia a aceleração por controle remoto, travando os outros comandos.

Aquela pequena peça, adaptada aos carburadores da Ferrari de Kirck, faria aquela máquina correr, independente da vontade do motorista.

Estudou atentamente as condições para a instalação do dispositivo. Depois foi ao almoxarifado e apanhou um alimentador automático e uma caixa de controle remoto.

Restava agora instalar a peça, mas isso não seria problema. Encontraria a melhor forma de fazê-lo. Depois, estar por perto quando Kirck passasse. Aquela Ferrari voaria e se acabaria num belo acidente.

* * *

Passava das dez, naquela manhã ainda, quando Leslie acordou. Sentia-se pesada, presa ao leito, uma dificuldade enorme de se mover coordenadamente.

Por algum tempo ficou ali, tentando pôr em ordens aquelas imagens confusas que dançavam em sua mente. Primeiro o pai, Harvey e Kirck depois.

Ao fundo de tudo, como um sonho incômodo, aquela visão de uma janela iluminada, de dois corpos se movendo na paixão, reagindo furiosamente ao estímulo dos sentidos, perturbando-a, fascinando-a.

Depois, como uma continuação fantástica daquele sonho, alguém a tomou nos braços, beijou-a e conduziu-a. Tentou se recordar de rostos, de nomes, mas as imagens fugiam a sua fixação.

Imaginou se não teria sonhado tudo aquilo. Por algum tempo ficou procurando encontrar um sentido maior, mas uma preocupação mais íntima acabou por se impor.

Precisava saber de seu pai, como reagira ao acidente, como se encontrava naquele momento. Fez um esforço para se levantar. A porta do quarto se abriu e a enfermeira entrou, olhando-a entre preocupada e aliviada.

— Bom dia, Srta Howard! — cumprimentou.

— Ajude-me a me levantar... Como está meu pai?

— Ele está bem senhorita. O médico vai chegar logo.

— Médico? Para que um médico aqui?

— A senhorita não se sente muito bem, o choque...

— Eu sei como me sinto. Agora, ajude-me, por favor — ordenou.

Alice Dolly surgiu à porta, aguardando ordens. Ao vê-la, Leslie sentiu uma estranha sensação de familliaridade, mas não sabia explicar de onde vinha aquilo.

A camareira, por seu turno, estava terrivelmente apreensiva, olhando a patroa. Leslie podia ter presenciado uma cena de amor na noite anterior com Albert. Se assim fosse, poderiam ambos receber uma boa reprimenda.

Não entendeu, porém, aquele olhar confuso, lançado por Leslie.

— Alice, prepare meu banho, por favor. Depois veja algo para eu vestir. Avise Albert para preparar o carro.

— Vai sair, senhorita?

— Sim, vou ao hospital.

A enfermeira olhou Dolly e fez um sinal, pedindo que acatasse as ordens de Leslie, mas deixou o quarto e rumou para o telefone mais próximo, onde ligou para o médico da família.

— Não se preocupe, estou indo para lá — avisou o médico.

* * *

Albert havia estacionado o carro diante da casa,, quando a Ferrari reluzente de Kirck chegou. Olhou-o descer do carro com um misto de raiva e revolta. O playboy entrou na casa com familiaridade.

O motorista mais uma vez lastimou o que estava acontecendo. Depois, preocupou-se com o que aconteceria ao encarar a patroa.

Primeiro, preocupava o fato de havê-la encontrado sem sentidos ao lado de uma janela. Não sabia o que Leslie fora fazer lá. Depois, preocupava mais ainda aquele beijo roubado.

A imagem do rosto de Leslie, de seus olhos abertos e espantados olhando para ele antes de se fecharem novamente, fazia-o estremecer diante do que poderia acontecer em seguida.

Talvez ela nem recordara do que houvera. Talvez tivera agora a impressão de que tudo fora um delírio, fruto dos pesados sedativos, que havia tomado. Albert torcia por essa hipótese.

Vieram avisar de que Leslie o dispensara. Kirck a levaria até o hospital. De alguma forma Albert se sentiu irritado com isso. Detestava ver aquele sujeito ao lado de Leslie, aproveitando-se, mais do que nunca da situação.

Levou o carro para a garagem, depois se dirigiu para sua cabana. Ao passar diante da Ferrari do playboy, tentou imaginar como ele fizera para conseguir um carro como aquele.

Naquele instante, Leslie surgiu à porta. Seus olhares se encontraram e Leslie pareceu estremecer, olhando-o de uma forma que o preocupou.

Albert, então, teve a certeza de que ela se lembrava do que houvera na noite anterior.

— Algum problema? — indagou Kirck, amparando-a.

— Não, tudo bem — respondeu Leslie, olhando Albert, que a cumprimentou com um leve aceno de cabeça e seguiu em frente.

Aquelas imagens em sua mente se tornaram mais claras. Lembrou-se da enfermeira pondo-a na cama, da fuga em direção a cabana do motorista.

A janela iluminada estava agora nítida em sua mente. Os corpos nus e excitados de Alice e Albert se definiram claramente.

Acompanhou com o olhar a passagem do motorista, sentindo-se terrivelmente incomodada.

Kirck conduziu-a, afinal, para o carro.

Momentos depois estavam a caminho do hospital.

— É bom que se prepare para o pior, querida — disse ele, apertando uma das mãos dela.

— Ele está vivo, não está?

— Sim, mas seu estado é indefinido... Ele pode recuperar-se a qualquer momento, mas...

— Mas... Por favor, Kirck!

— Pode permanecer em com indefinidamente, Leslie.

A garota cobriu o rosto com as mãos, tentando se situar dentro dos acontecimentos. A ausência do pai seria impossível se ser controlada. Havia muita coisa dependendo dele, de suas decisões, de suas empresas.

No hospital ela pôde ver o pai, cuja a vida era mantida por uma série de aparelhos ligados ao seu corpo. Nada podia se mais doloroso que aquela cena. Nada podia ser mais contundente para ela que ver a pessoa que ela mais amava naquela condições.

Ouviu relatórios, comentou esperanças, recebeu recomendações, mas nada disso trazia alguma coisa de concreto a respeito da recuperação do velho. Tempo, apenas isso poderia definir.

À saída, um grupo de diretores das empresas Howard esperava por ela.

— Srta Horward, sabemos que o momento não é propício, mas somos obrigados a falar de negócios...

— Cavalheiros, por favor! pediu Kirck, como se estivesse apenas preocupado com Leslie.

Intimamente, porém, com aquele encontro. As coisas poderiam definir-se mais depressa do que imaginava. Sabiam exatamente o que os diretores queriam de Leslie. Incentivá-la a isso seria assegurar-se de que aquela imensa fortuna estaria logo à sua disposição. O acidente do velho, fora, afinal, um tremendo presente de sorte.

— Está bem, Kirck, acho que papai não esperaria outra coisa de mim — disse Leslie, após pensar por instantes.

— Sendo assim, senhorita, marcamos uma reunião para esta tarde. Prometemos ser breves, sabemos de suas preocupações...

— Sim, está bem. Estarei lá, não se preocupem.

— Espero que entendam também se ela não poder comparecer — disse Kirck, o braço rodeando-a pelos ombros.

— Tudo bem, querido! disse Leskie, para a satisfação do playboy.

— Sente-se bem? — indagou ele, cheio de cuidados.

— Sim, não se preocupe comigo — respondeu ela.

Voltaram para a casa da garota, onde momentos depois chegou Harvey. Ao ver a Ferrari de Kirck, sorriu com satisfação. Havia se decidido a respeito do que fazer. Kirck seria afastado imediatamente. Quando entrou na casa, porém, procurou mostrar toda preocupação a respeito de Leslie.

Kirck acompanhou toda a cena com um sorriso satisfeito nos lábios. Levava agora uma grande vantagem do rival. Estava com todos os trunfos nas mãos e podia decidir aquela cartada a seu favor.

— Kirck, tenho um assunto urgente para resolver na cidade. Meu carro, porém, parece estar com algum problema...

— Apanhe um dos meus — ofereceu Leslie. Kirck se antecipou, porém generoso.

— Ora, por favor, Harvey — disse, atirando-lhe as chaves da Ferrari.

— Prometo não demorar. Enquanto isso, vou pedir ao Albert que dê uma olhada no meu carro — disse ele, retirando-se.

Antes de apanhar a Ferrari de Kirck, foi até seu carro e retirou dali uma pasta. Momentos depois, afastava-se, após haver pedido a Albert que desse uma olhada em seu carro.

Albert atendeu imediatamente, examinando o motor, as partes elétricas, tudo enfim. Ao final nada havia encontrado de anormal. Funcionou o veículo e circulou pelas alamedas da casa.

O carro parecia perfeito. Voltou a estacioná-lo, intrigado com o pedido de Harvey. Julgou porém, que o problema pudesse ter sido algo simples como uma sujeira no carburador.

* * *

Leslie estava à janela, olhando Albert caminhar de volta para sua cabana. As imagens da noite anterior estavam vivas agora. As lembranças dos corpos nus de Albert e Alice entregues ao frenesi do amor, provocaram nele uma estranha febre anterior.

Voltou-se e observou Kirck, servindo-se de um uísque. Ao perceber que ela o olhava, Kirck sorriu. Leslie sorriu em respostas e desviou os olhos para Albert, que acabava de entrar na cabana.

Uma espécie de curiosidade cresceu dentro dela. Comparações absurdas foram feitas, fazendo-a se sentir miserável. Deveria estar ali, preocupada com o pai, preocupada com os destinos das empresas Howard.

Sentado no outro lado da sala, Kirck tentava ver Leslie como uma dirigente de empresas.

Para uma garota mimada como ela, seria uma tarefa impossível. Ela precisaria da ajuda de um Homem, um homem hábil, experiente.

O desejo de candidatar-se ao cargo venceu sua natural aversão ao trabalho. Afinal. o poder sempre o fascinara. Sentar-se a uma escrivaninha e receber ordens era uma coisa; outra, completamente diferente, era sentar-se ali e dar ordens.

Seria interessante descobrir a opinião de Leslie a respeito do assunto. Afinal, Kirck possuía algumas referências. Nada menos que três faculdades, apesar de não chegar ao fim de nenhum dos cursos.

— Aposto que sei o que a preocupa — disse Kirck, sugestivo.

Lesllie voltou-se e olhou-o, ligeiramente embaraçda.

— Preocupa-se com seu pai, é claro, mas com a situação das empresas, não?

— Sim, é claro, tenho de me preocupar com isso — respondeu ela, indo sentar-se perto dele.

— É um trabalho pesado demais, Leslie. Não aconselharia a se envolver nisso...

— Não, não penso me envolver. Quero discutir com os diretores alguns problemas legais.

Depois, se for possível, indicarei alguém para assumir o lugar de meu pai, pelo menos até que se defina o estado dele.

Kirck sorriu triunfante, tomando outro gole de uísque.

— Já pensou em alguém? — indagou-a observando-a.

— Sim, já pensei — respondeu ela, evasivamente.

Kirck sorriu ainda mais satisfeito. Se havia alguém nos planos de Leslie, só poderia ser ele, ninguém mais. Leslie se levantou e foi até a janela novamente. Parecia ver qualquer coisa lá fora que a fascinava.

Aquelas imagens em sua mente estavam claras agora, mas incompleta. Faltava um detalhe, um detalhe importante para completar tudo.

Por mais que se esforçasse, no entanto, não conseguia se lembrar. Repassou as cenas, sentindo-se excitada. Envergonhou-se intimamente disso, da maneira como fora excitante e perturbadora, mas não fugiu à sua verdade.

O corpo nu de Albert foi lembrado em todos os seus detalhes eróticos. Os pensamentos de Leslie fizeram-na ligeiramente nervosa e afogueada.

Caminhou impaciente até junto de Kirck. Debruçou-se sobre ele e beijou-o. Kirck deixou de lado o copo e tomou-a em seus braços.

— Aperte-me, Kirck — pediu ela, desejando ser esmagada no braço dele da mesma forma como Alice o fora nos braços de Albert.

Quis ser beijada da mesma forma, quis que seu corpo fosse devassado livremente pelas mãos de Kirck, despertando nela reações como a de Alice, mas era impossível recriar aqueles momentos com outro homem.

Julgou-se maluca, fora de si em pensar daquela forma, mas a idéia sensibilizava seu corpo, bulia com seus sentidos.

Levantou-se abruptamente, fugindo aos braços de Kirck, e caminhou até a janela. Não podia continuar daquela forma. Precisava fugir àquelas imagens, àquelas sensações, àquele desejo absurdo e sem sentido.

— Vamos ver se advinha em que eu pensei para ocupar temporariamente o lugar de papai?

— indagou ela tentando fugir àqueles pensamentos.

— Eu? — indagou ele capaz de não ser convencido.

Leslie riu, voltando-se para ele. Kirck não entendeu aquele riso no lábios dela.

— Por que está rindo?

— Ora, Kirck, querido! Que piada! Adoro você, posso vê-lo em qualquer parte, menos na direção das Empresas Howard — disse ela, indo abraçá-lo.

Kirck apertou-a em seus braços, dominado por um súbito tremor.

— Eu estava apenas brincando — disse ele, terrivelmente preocupado interiormente.

— Pensei em Harvey. Papai sempre disse que ele seria o homem ideal para substutuí-lo...

— Pretende indicá-lo realmente?

— Sim, mas não diga nada a ele antes que tudo esteja definido. Quero fazer-lhe uma surpresa.

Capítulo 7

Harvey não encontrara problemas em instalar o alimentador na Ferrari do rival. Havia levado o carro até a garagem de seu prédio e trabalhara com toda tranqüilidade.

Testou-o em seguida. Afastou-se alguns metros do carro que deixara funcionando e pressionou lentamente um botão na caixa de comando.

O motor ganhou aceleração, roncando alto e forte. Desligou a caixa, satisfeito, e entrou no carro. Tudo estava pronto para o acidente.

Um detalhe, porém, precisava ser estudado com calma. O acidente teria de ser por perto, onde Harvey tivesse em seguida possibilidades de desmontar as peças que acoplara ao motor.

Decidiu, então, que o acidente aconteceria dentro da mansão dos Howard, naquela mesma tarde, na primeira tarde, na primeira oportunidade. Estando por perto, seria fácil eliminar os indícios que poderiam despertar suspeitas.

Rumou, então, para a casa de Leslie. Estava seguro e tranqüilo valeria a pena. Afinal, estava em jogo uma fortuna incalculável, capaz mesmo de levar qualquer homem a jogar sujo como fazia naquele momento.

* * *

Albert estava por perto quando Harvey chegou. Ficou observando o modo com ele descia e observava a Ferrari, antes de levar a pasta para o o seu próprio carro. Parecia haver qualquer coisa de suspeita na atitude de Harvey.

O motorista lembrou-se, então, do problema que Harvey mencionara a respeito do seu carro. Examinara-o atentamente e nada conseguira.

Isso dava-lhe a impressão de que tudo não passara de uma desculpa para utilizar do carro do outro. Qual o propósito disso tudo, Albert não conseguia entender. Viu, então, Alice Dolly colhendo algumas flores, num dos canteiros afastados da casa e foi até lá.

— Falou com a patroa hoje? — indagou Albert.

-Sim... E acho que sei o que quer saber...

— Então diga logo.

-Não sei, acho que ela não se lembra do que houve ontem. Olhou-me de um modo estranho, mas nada disse. Ela falou alguma coisa com você?

— Não, não disse nada — respondeu Albert, voltando-se e olhando na direção da casa.

Por momentos teve a nítida sensação de que alguém os observava.

Naquele momento, oculta atrás da cortina de seu quarto, Leslie realmente observava os dois.

Havia qualquer coisa em ebulição dentro dela.

Harvey e Kirck estavam lá em baixo, esperando por ela, mas a companhia dos dois não parecia satisfazê-la naquele momento.

Muita coisa girava em sua mente, confundindo-a, tentando-a, pondo-a ligeiramente febril, aguçando seus sentidos, despertando instintos.

Aquela visão da noite anterior pertubava-a, mas não havia sentido naquilo. Sabia apenas que havia alguma coisa em Albert fascinado-a, perturbando-a, mas reconhecer isso era loucura.

Deixou a janela e foi se estender em sua cama. Pensou no pai, no que acontederia sem ele, mas estava abalada intimamente, incapaz de fugir àquilo que a perturbava.

Aquelas cenas não a deixavam. Repassou-as novamente, excitando-se e envergonhando-se de si mesma, tentando encontrar o ponto incompleto que sentia haver em toda aquela seqüência.

Novamente os corpos nus de Albert e Alice dançaram à sua frente, amando-se com uma febrilidade que lhe fazia inveja. A maneira como Albert dominava o corpo de Alice, como fazia dela um amontoado de reações nervosas e frenéticas, tudo isso provocava calafrios no corpo de Leslie.

Precisava, porém, descobrir o detalhe importante que faltava. Parecia ser algo significativo.

Fez um esforço, concentrando-se naquelas imagens.

Viu-se diante daquela janela novamente. Lembrou-se de seu desfalecimento. Depois, alguém a carregava nos braços, alguém a beijava...

Levantou-se num salto, as mãos cobrindo os lábios. Albert a beijara, lembrava-se agora, entre escandalizada e excitante. Esfregou as mãos pelo rosto. Julgou-se enloquecer, os nervos à flor da pele, os sentidos em tensão, um calor intenso dominando seu corpo.

Enquanto isso, na ampla sala de estar da casa, Kirck olhava intrigado aquela expressão de vitória estampada no rosto de Harvey.

Por momentos chegou a supor que ele sabia a respeito do convite que Leslie o faria. Isso seria, porém, praticamente impossível, já que a garota havia decidido aquilo na presença de Kirck apenas.

Foi servir-se de outro uísque. Perdera a segurança inicial e se sentira ameaçado. Harvey não podia assumir aquele posto, era muito dinheiro e muito poder nas mãos de um homem com ele.

Kirck deveria ser o escolhido. Sua vitória seria completa se tivesse o domínio de Leslie e das empresas. Ficando apenas com a garota, estaria afastado de todo aquele dinheiro, já que Harvey controlaria tudo. Isso não o interessava.

— Gostou do carro? — indagou Kirck, atravessando a sala e indo até a janela.

— Sim, muito bom, mas um tanto perigoso.

— Pensei que fosse um jogador, Harvey — comentou Kirck, observando a reação dele.

Harvey, porém, não reagiu da maneira que Kirck esperava. Apenas o olhou e sorriu enigmaticamente.

— E Lesllie, como se sente?

— Subiu para o quarto repousar um pouco. Vai a uma reunião com os diretores das Empresas Howard — disse Kirck, com certa agressividade.

Harvey estremeceu. Uma reunião como aquelas tinha um objetivo que não era difícil advinhar. A ausência de Jonas Howard não podia ser superada. Alguém teria de tomar decisões em nome dele. Leslie certamente não o faria, desconhecia todas as regras daquele jogo.

O pensamento de que Kirck poderia fazer isso abalou-o. Seria a maior loucura entregar tanto poder nas mãos de um inútil como ele.

Uma sensação de pressa tomou conta dele. Seu desejo foi mandar Kirck apanhar a Ferrari e acidentar-se o mais depressa possível. Precisava impedir que fosse indicado a todo o custo para o cargo.

Apenas ele, Harvey, tinha condições de fazê-la. O próprio Jonas Howard afirmara isto diversas vezes. Sempre confiara na capacidade de Harvey. Ele estava melhor preparado que qualquer um outro.

— Você vai acompanhá-la? — indagou Harvey, em suspense.

— Sim, claro, é importante que eu vá — respondeu Kirck, com certa atividade que Harvey entendeu como arrogância.

Não teve dúvida de que tudo estava decidido a favor de Kirck. Primeiro ganhara Leslie, depois o controle das Empresa Howard. Isso significava que Harvey estava liquidado.

A guerra não terminara, no entanto. Harvey tinha um último trunfo naquela cartada decisiva.

Kirck precisava estar vivo para usufruir de toda aquela situação.

Um clima pesado pairou entre os dois homens que, mais do que nunca, consideravam-se rivais. Talvez essa rivalidade agora fosse um pouco mais longe, tornando-os inimigos mortais, já que viam um no outro a pior das ameaças.

Leslie desceu pouco depois, ordenando que servissem o almoço. Parecia nervosa. Quando se sentaram à mesa, Harvey não resistiu àquela necessidade de se assegurar a respeito de tudo que acontecia.

— Kirck mencionou uma reunião com os diretores das empresas esta tarde... Acho um pouco preciptado... — comentou.

— Foi o que tentei fazê-la entender, mas Leslie assumiu o compromisso assim mesmo —

afirmou Kirck.

-Kirck lhe disse alguma coisa? — indagou Leslie a Harvey.

— Ora, Leslie, eu não estragaria a surpresa — sorriu Kirck forçadamente.

— De que estão falando, afinal? — quis saber Harvey.

— Surpresa! — declarou Leslie, olhando Kirck. Harvey observou os dois e não teve dúvidas.

A única coisa que poderia surpreender alguém seria a indicação de Kirck para substituir Jonas Howard. Isso significava que estava fora, derrotado aparentemente.

Olhou no rosto zombeteiro de Kirck. Ele não perdia por esperar.

— Você quer que eu a leve? indagou Kirck.

— Não, Albert fará isso. Não tenho o direito de monopolizá-los, apesar de estar grata a vocês dois...

— Ora Leslie, seria um prazer para mim...

— Por favor, Kirck. Eu lhe conto tudo depois, eu prometo — disse a garota, sentindo novamente aquele calor invadir seu corpo ao imaginar-se na presença de Albert.

Não podia entender o que estava acontecendo. Albert trabalhava na casa há muito tempo.

Leslie nunca lhe dedicara uma atenção maior. O motorista era muito discreto, cumpria ordens e fazia o seu trabalho muito bem.

Depois do que presenciara na noite anterior, porém, muita coisa parecia mudar dentro dela.

Viu Albert agora como uma ameaça fascinante, alguém que deveria conhecer melhor, que deveria temer, que deveria expulsar de sua casa.

Apesar disso tudo, queria estar perto dele, observá-lo melhor, descobrir o que havia de intrigante agora com ele.

* * *

Naquela tarde, quando os três deixaram a casa, Albert estava com o carro estacionado, pronto para levar a patroa à reunião. Estava nervoso, reconhecia. O modo com Leslie o olhou ao vê-lo confirmou novamente o fato de que ela se recordava de tudo que acontecera na noite anterior.

Kirck foi para a sua Ferrari. Albert tomou imediatamente seu carro. Bastari Kirck dar a partida e rumar para os portões. Acelararia através da caixa de comando. A Ferrari se transformaria num monte de ferragens sem utilidades.

Em suspense, ficou observando Kirck dar a partida, sem resultado. Aquele motor devia funcionar, fizera tudo perfeitamente.

— Ei, Albert! Pode dar uma olhada aqui? — indagou Kirck, descendo o carro.

— Eu sinto muito Kirck, mas vou precisar dele agora — respondeu Leslie.

— Harvey, você entende de motores? — indagou ao rival, que se mantinha rígido ao volante, lamentando sua má sorte.

Harvey poderá dar-lhe uma carona até a cidade, Kirck. Se quiser, pode ligar para uma oficina também — disse Leslie, voltando-se para olhar Albert pelo retrovisor.

Percebeu os olhos do motorista se abaixarem, como que fugindo ao olhar dela. Um arrepio percorreu seu corpo.

— Ao escritório, Albert — ordenou ela, tentando aparentar calma.

— Sim, senhorita — respondeu ele, pondo o veículo em movimento.

Albert olhou então pelo retrovisor. Harvey descia do seu carro e rumava para a Ferrari de Kirck. Albert pensou, então, no que fizera.

Suspeitara da atitude de Harvey e não sossegara até dar uma olhada no veículo. Aquela peça estranha acoplada aos carburadores chamara sua atenção. Não entendeu a sua finalidade, por isso desligara o cabo do acelerador. Talvez tivesse exagerado em sua preocupação fazendo aquilo, mas a última coisa que desejava ver era Leslie novamente abalada.

— Eu sinto muito o que aconteceu ontem — disse ela, cortando-lhe o fio dos pensamentos.

Os olhos de Albert se ergueram assustados para o retrovisor. Não sabia o que dizer, não sabia como proceder em seguida. A maneira aparentemente calma com que Leslie dissera aquilo parecia demonstrar que ela não se lembrava dos detalhes daquela noite.

Albert, no entanto, estava seguro de que ela presenciara e se lembrava agora de tudo.

— Não foi nada, senhorita — respondeu ele, desviando os olhos para a estrada.

Leslie sentia-se como que brincando com fogo. A situação a punha em superioridade em relação a ele. Albert parecia embaraçado.

Estava certa quanto a isso. Albert estava trêmulo agora, nervoso. Leslie sabia de tudo. Por quê, então, não falava abertamente? Por que não o repreendia, por que não o despedia, por que não o recriminava.

Levantou os olhos ligeiramente, lá estava ela, olhando-o fixamente, fazendo-o lamentar os acontecimentos e o atrevimento maior em tê-la beijado.

Aquilo era impossível de ser suportado. Amava aquela mulher, desejava-a ao extremo.

Queria protegê-la, queria tê-la, queria ser o impossível na vida dela, mas reconhecia seu lugar.

Tudo não passava de um sonho impossível, uma ousadia que jamais deveria ter deixado acontecer. O desnível entre eles era grande demais.

Leslie agora era uma mulher no centro de uma total transformação.

De garota mimada teria de passar a senhora dos acontecimentos, mudando seus hábitos, sua vida. Ali não havia lugar para Albert. Sempre seria um empregado e de nada adiantaria sua honestidade e seu amor sincero.

Homens como Harvey e Kirck a teriam. Ela seria ousada e os usaria. Sentimentos honestos seriam preteridos em função de interesses.

Era revoltante, era humilhante para Albert perceber a realidade daquela situação. Aquele amor dentro dele pedia vazão, queria explodir, mas tinha de ser sufocado porque impossível.

E lá estavam os olhos de Leslie, mudos, olhando-o interrogativamente, questionando, esperando, talvez, que ele se traísse, que confirmasse, que lamentasse, que suplicasse perdão.

Amava aquela mulher ao extremo, mas haviam coisas de que um homem não poderia suportar por muito tempo.

Manobrou o carro para o acostamento, freando bruscamente. Voltou-se em seu assento e encarou-a.

— Vamos, diga alguma coisa afinal! pediu ele, perdendo totalmente o autocontrole.

De nada adiantara manter mais as aparências. Leslie o vira amando Alice Dolly. Leslie sabia que ele a beijara, que ele a desejava.

— Albert! — repreendeu-o, sentindo-se intimada diante do olhar desesperado daquele homem.

— Por que estamos aqui fingindo, senhorita? Eu sei e você sabe o que houve. Vamos, diga alguma coisa, despeça-me.

— Ponha-se em seu lugar e...

— Não, não me venha com isso agora. Não sou bom o bastante para ter feito o que fiz.

Deveria ser, talvez, como aqueles paspalhos que andam ao seu redor como cães treinados.

Pois sabia que eles são mais perigosos do que pode imaginar. Cada um deles tem olhos apenas para sua fortuna, senhorita. Cada um deles está disposto a tudo não porque a amam, mas por que você significa todo o dinheiro de que precisam para manter a vida fácil que pretendem levar.

Por momentos ele silenciou, ofegante, olhando-a, esperando-o enxotá-lo, olhava-o surpresa e curiosa.

— O que está falando afinal?

— Falo de Harvey e Kirck. Acha realmente que os dois a amam?

Leslie se viu confusa diante daquela pergunta. A maneira como Albert falava demonstrava que ele tinha conhecimento de fatos que ela desconhecia.

— O que há de errado com os dois? — indagou.

— Sabia que Harvey tentou matar Kirck há poucos instantes atrás? Havia um dispositivo no motor de Kirck que seria comandado por Harvey, com toda certeza.

— Você está louco...

— Sabia que Harvey tem uma amante? Sabia que Harvey está endividado até o pescoço e que Kirck usa aquela Ferrari porque alugou? É agora um homem arruinado. Os dois precisam, não de você, senhorita, mas de todo o seu dinheiro.

Capítulo 8

Após a reunião, Leslie passou pelo hospital e ficou ali um longo tempo, até que anoitecesse.

Estava aturdida, assustada, preocupada.

Mais uma vez os médicos haviam sido evasivos. A situação de Jonas Howard era indefinida.

Em suas expressões, no entanto, havia aquele pesar indisfarçável.

Leslie compreendia o que aquilo significava e sofria. Muita coisa acontecera à um só momento, tirando-a daquele pedestal de menina mimada e jogando-a numa realidade para a qual não se senti preparada.

Intimamente, porém, sabia que teria de enfrentar tudo aquilo. Aprender, agir, mudar conceitos e atitudes, transformar-se. Senti-se só e precisava de ajuda. Onde se apegar era o problema maior agora.

As palavras de Albert ainda ecoavam em seus ouvidos. A maneira cruel como ele, um simples empregado, a fizera ver em quem pretendia depositar sua confiança fora arrasadora.

Harvey e Kirck eram as únicas opções que possuía. Queria duvidar das palavras de Albert, queria poder desmentir, mas sentia-se incapaz.

Uma raiva surda dominava-a em relação ao motorista. A situação criada por ele era insustentável. A melhor atitude a tomar seria despedi-lo, mas havia algo nele que ela precisava, embora não soubesse definir ainda.

Não fazia sentido realmente, mas Albert demonstrara uma força que se impusera sobre ela, oferecendo, talvez, o tipo de ajuda que ela precisaria. Leslie não conseguia compreender e, da mesma forma, não sabia o que fazer em seguida.

Desejou ficar ali, ao lado do pai, esquecendo dos problemas que a esperavam lá fora.

Pensou na decisão que tomara na reunião. Causara surpresa aos diretores, mas, naquele momento, mas Leslie não pudera pensar em nada melhor.

Ela assumira o controle das empresas. Desconhecia tudo, teria de confiar em seus diretores. Aprenderia, sabia que aprenderia. Precisava fazer isso.

Já não podia confiar em Harvey. Já não podia confiar em Kirck. Em quem confiar, então?

A figura de Albert surgiu diante dela como uma impossibilidade que a assustava. Aceitar isso seria cometer o absurdo dos absurdos.

Alguém se aproximou dela, na ante-sala do quarto onde seu pai se achava internado. Era Albert, submisso, agora, talvez arrependido daquela explosão.

Por algum tempo ficou ali, naquela posição impassível de empregado. Leslie levantou, então, os olhos para ele.

— Como está o Sr Howard? — indagou ele.

Leslie meneou a cabeça, continuando a olhá-lo.

— De nada adianta ficar aqui, senhorita... Leslie abaixou os olhos, sentindo-se irritada e, ao mesmo tempo, grata pela presença dele. Talvez fosse o único sincero, mas não podia imaginar-se dependendo dele.

— Eu decido isso — respondeu ela, tentando manter sua condição de patroa.

— Nunca questionei isso, senhorita!

— Mas abusou da confiança, que lhe depositava, Albert — continuou ela, sentindo um tremor incontrolável invadir seu corpo. — Que direito tinha de espionar Harvey e Kirck?

— Direito nenhum, senhorita, nenhum mesmo — reconheceu ele, naquele tom de voz submisso que agora a irritava. — Muitas vezes fui obrigado a presenciar as patifarias daqueles dois...Eu sinto muito. Reconheço que me excedi... O melhor a fazer é...

Leslie levantou os olhos para ele, fazendo-o calar. Albert abaixou a cabeça. Tudo estava irremediavelmente perdido. Cometera uma loucura agindo daquela forma.

— Estarei no carro, quando quiser ir — disse ele, retirando-se.

* * *

Harvey estava terminando de se vestir. Havia telefonado para casa de Leslie, mas a garota ainda não voltara. Isso o deixava ligeiramente preocupado, mas toda a sua atenção se voltava agora para o que ocorrera no carro de Kirck.

Felizmente pudera remover a peça. Fora realmente uma falta de sorte que o cabo do acelerador se houvesse soltado. Kirck poderia já não ser um empecilho em sua vida.

Leslie talvez já tivesse confirmado a indicação dele para a direção das empresas. Para Harvey, isso poderia significar um golpe mortal em todas as suas pretensões.

Não via agora como afastar o rival, a não ser valendo-se de algo mais radical. A idéia de assassinar Kirck era fascinante, mas assustadora também.

Precisava ser sutil, esperto, discreto. Muita coisa havia em jogo. Harvey pensava agora em outros termos. Se não podia derrotar um inimigo, o melhor a fazer era unir-se a ele.

Kirck tinha muito a esconder; Harvey também. Ambos tinha um mútuo interesse na fortuna: a fortuna Howard. Leslie vinha em segundo plano. Harvey tinha Marion; Kirck tinha as garotas do Danúbio. Desse modo, nenhum poderia realmente lastimar a perda, se uma compensação maior houvesse nessa aliança.

Os dois juntos poderiam fazer muito, inclusive eliminando o último empecilho que os separaria em definitivo da fortuna. Jonas Howard ainda vivia oficialmente, mas bastaria que aqueles aparelhos fossem desligados para que sua morte se concretizasse.

Esse detalhe era importante. Com Jonas Howard morto, Leslie teria posse de toda a herança. Convencê-la a fazer com que aqueles aparelhos fossem desligados era uma tarefa que, unidos, ele e Kirck poderia levar a efeito.

Apanhou o telefone e discou novamente para casa de Leslie, mas ela ainda não havia chegado. Apanhou, então, a lista telefônica e procurou o número do rival.

Discou em seguida para ele.

— Kirck, acho que chegou o momento de termos uma conversa — disse.

Do outro lado da linha, Kirck estranhou aquele tom cordial, principalmente considerando que, naquele momento, Harvey talvez já soubesse da sua indicação para substituir Jonas Howard.

— A respeito de quê? — indagou.

— Interesses comuns, digamos!

— Estou estranhando você, Harvey...

— Esqueça! O assunto diz respeito a nós dois. Poderemos lucrar ambos com uma aliança.

— Que tipo de aliança?

— Discutiremos isso pessoalmente.

— Eu pretendia jantar na casa de Leslie, estou preocupado com ela, ainda não voltou...

— Eu também estou preocupado com ela, mas estou certo que está bem. Na certa passou pelo hospital...

-Não havia pensado nisso...

— E então, o que me diz? Podemos nos encontrar no Snack’s, acho que sabe onde é...

— Sim, sei... — afirmou Kirck, ainda intrigado com aquela proposta.

— Em meia hora, está bem? Depois iremos juntos para a casa de Leslie. Verá que só tem a ganhar, da mesma forma que eu.

— É o veremos...

* * *

O jantar fora servido. Leslie olhava atentamente os dois homens sentados à mesa, tentando imaginar de onde vinha toda aquela confiança que se estampava em seus rostos. Nunca os vira tão cordiais um com outro, como se, de repente, houvessem descoberto uma grande amizade.

Pensou em tudo em que Albert dissera dos dois. Olhando-os agora, parecia impossível acreditar que qualquer um deles não estivesse apaixonado por ela.

Pareciam até unidos naquele relacionamento, fazendo todo o possível para afastar as preocupações que percebiam incomodar Leslie.

Harvey era o mais satisfeito dos dois. Afinal, Kirck lhe contara que Leslie decidira nomeá-lo substituto do pai. Esperava, agora, apenas a confirmação dos lábios dela. A demora o impacientava um pouco, mas julgava conhecer Leslie, a garota mimada que adorava jogar com as emoções alheias.

Estava tranqüilo intimamente. Como dirigente máximo das empresas Howard, todos seus problemas terminavam. Bruce teria o pagamento da dívida, Marion teria tantas jóias desejasse e Leslie teria nele um auxiliar precioso, dedicado aparentemente em servi-la.

Kirck, por outro lado, não escondia sua satisfação. Aquela aliança com Harvey o punha em posição privilegiada. Afinal, Harvey concordara em nomeá-lo diretor, tão logo assumisse o posto de presidente.

Com um salário realmente generoso, Kirck teria tudo em suas mãos para recuperar a fortuna perdida. Além disso, ganharia Leslie, já que isso era questão decidida.

Ela demonstrara desejar mais que a Harvey, estivera com ele, arrebatadoramente. O que mais poderia preocupá-lo?

O tempo só lhe traria maiores vantagens. Com o falecimento de Jonas Howard para algum dia, Leslie seria nomeada a herdeira e ele, se marido, entraria de posse da metade da robusta fortuna.

Tudo acabava bem, afinal melhor do que pudera esperar. Leslie seria manobrada pelos dois. Acabariam por convencê-la a um dia a solicitar o desligamento daqueles aparelhos. Leslie era emotiva. O sofrimento do pai acabaria por convencê-la.

— Ainda não nos disse nada a respeito da reunião? — comentou Harvey.

— Ainda não me perguntaram a respeito de meu pai — respondeu ela, que os observara o tempo todo, intrigada com aquela repentina camaradagem.

— Sabemos do estado dele, Leslie, querida — afirmou Kirck. — Você sabe o quanto nos preocupamos com isso...

— Sim, claro — disse ela, tentando ignorá-los diante de si.

Havia tanto de falso, de interesseiro, nas expressões daquele homem que Leslie se surpreendia em não haver percebido antes.

Aquela posição de abutres à espera de uma morte a fez sentir-se mal, terrivelemnte mal.

— Eu não me sinto bem , rapazes — disse ela, levantando-se.

— Leslie, algum problema? — indagou Kirck, correndo ampará-la.

— Não, tudo bem — respondeu ela com certa rispidez, livrando-se dos braços dele. —

Fiquem à vontade, vou repousar um pouco...

— Compreendemos. Você teve uma tarde cheia, Leslie — falou Harvey.

— Sim, tive realmente — confirmou ela, retirando-se.

Kirck e Harvey observaram até que ela deixasse a luxuosa sala. Depois se entreolharam e sorriram. Harvey apanhou a garrafa de vinho e encheu o copo de Kirck. Ao brindaram silenciosamente o sucesso.

* * *

Lesllie ainda não conseguia entender aquele impulso, mas era como se toda a sua revolta, a sua frustaração e sua raiva se concenterassem agora na figura de Albert.

Em seu quarto ela abriu a bolsa e apanhou seu livro de cheques. Calculou mentalmente alguns números, depois preencheu o cheque com uma importância generosa.

Deixou a casa em seguida, rumando para a moradia de Albert. O ar lá fora parecia mais agradável. A noite mansa pareceu acalmá-la um pouco, mas ela bateu a porta segura do que pretendia fazer.

Albert abriu a porta, encarando-a, surpreso. Afastou-se para que ela entrasse. Olhou-a desejando entender aquela expressão decidida nos olhos dela.

Leslie estendeu-lhe o cheque.

— Você está despedido, Albert — disse ela, mas sua voz tremeu por instantes, da mesma forma que tremia aquela folha de papel em sua mão.

Albert olhou-a, como que se recusando agora a aceitar aquela idéia. Sabia que Leslie, mas do que nunca, precisava de ajuda contra aqueles dois.

Os olhos de Leslie continuavam fixos no dele, como se, de repente, ela descobrisse algo que despertasse nela uma curiosidade enorme.

— Antes quero que me diga algo — pediu ela. — Por que fez tudo aquilo? Por que me disse tudo aquilo?

Albert estremeceu, algo oprimindo seu peito, embargando sua voz, fazendo-o emocionar-se diante daquela verdade que já não podia mais esconder.

Era irônico Leslie indagar aquilo. Sim, ela jamais poderia imaginar ou aceitar que ele, um simples motorista, acabasse apaixonado por ela. Sorriu então.

— Acho que jamais saberá, senhorita — disse.

Leslie queria apenas uma confirmação para aquela suspeita confirmação estava agora nos olhos dele. Isso lhe assustou mais do que tudo que já lhe acontecera.

— Eu quero saber — disse ela, olhando-o Albert reconheceu que deixara tudo a perder.

Nada mais que pudesse fazer mudaria a situação. Assim, por que não ceder àquele impulso que o alucinava?

Seus braços envolveram Leslie fortemente e seus lábios buscaram os dela para um beijo sôfrego e demorado. Suas mãos percorreram aqueles caminhos que já haviam antes trilhado em fantasias incansáveis.

Leslie ficou imóvel quando ele a soltou e recuou. A emoção que percorria seu corpo era reveladora e assustadora ao mesmo tempo.

Nada mais fazia sentido. Tudo se confundia numa realidade absurda, onde as coisas mais incríveis e inesperadas podia acontecer.

— Acho que sabe agora, senhorita! — afirmou ele, desconcertado diante dela,

— Não me chame de senhorita. Não gosto da maneira como você diz isso.

— Você agora não me da mais ordens — disse ele, apanhando o cheque que ela ainda segurava nas mãos e rasgando-o em pedaços.

— Você é meu empregado! gritou ela.

— Já não sou mais! Fui despedido, lembra-se?

Leslie empurrou seus cabelos para trás, indecisa, nervosa, inquieta.

— O que pretende fazer agora? — indagou ela, como se a perspectiva de vê-la afastar-se fosse terrível demais para ser suportada.

— Vou embora — afirmou Albert, dando-lhe as costas e rumando para seu quarto, onde começou a preparar suas malas.

Leslie ficou por algum tempo naquela pequena sala, tentando se convencer de que aquilo era a melhor solução para tudo. Albert não fazia parte do seu mundo. Havia o Harvey, havia Kirck. Albert poderia ter mentido a respeito deles...

Enquanto tentava convencer-se disso, caminhou lentamente até a porta do quarto. Albert se voltou e encarou-a, como que à espera de uma decisão da parte dela.

— Fique e ajude-me — pediu ela, num fio de voz.

Albert deixou cair as roupas que pretendia pôr na mala e se voltou para olhá-la. Não sabia ainda o que significava aquele apelo, mas pela primeira vez, ela estava lhe pedindo algo, não ordenando.

— Eu vou protegê-la — disse ele, abrindo os braços.

LOURIVALDO PEREZ BAÇAN