As Aventuras de Pi por Yann Martel - Versão HTML

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FICHA CATALOGRÁFICA

Título original: Life of Pi

© 2001, Yann Martel

Em acordo com a Westwood Creative Artists

Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela Editora Nova Fronteira Participações

S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de

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CIP-Brasil. Catalogação na fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

M331a Martel, Yann

As aventuras de Pi / Yann Martel ; tradução Maria Helena

Rouanet. – Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2012.

Tradução de: Life of Pi

ISBN 978-85-209-3313-8

1. Romance canadense. I. Rouanet, Maria Helena. II. Título.

CDD 819.13

CDU 821.111(71) - 3

DEDICATÓRIA

À mes parents et à mon frère

SUMÁRIO

Capa

Folha de rosto

Ficha catalográfica

Dedicatória

Sumário

Nota do autor

Parte um Toronto e Pondicherry

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Capítulo 31

Capítulo 32

Capítulo 33

Capítulo 34

Capítulo 35

Capítulo 36

Parte dois O oceano Pacífico

Capítulo 37

Capítulo 38

Capítulo 39

Capítulo 40

Capítulo 41

Capítulo 42

Capítulo 43

Capítulo 44

Capítulo 45

Capítulo 46

Capítulo 47

Capítulo 48

Capítulo 49

Capítulo 50

Capítulo 51

Capítulo 52

Capítulo 53

Capítulo 54

Capítulo 55

Capítulo 56

Capítulo 57

Capítulo 58

Capítulo 59

Capítulo 60

Capítulo 61

Capítulo 62

Capítulo 63

Capítulo 64

Capítulo 65

Capítulo 66

Capítulo 67

Capítulo 68

Capítulo 69

Capítulo 70

Capítulo 71

Capítulo 72

Capítulo 73

Capítulo 74

Capítulo 75

Capítulo 76

Capítulo 77

Capítulo 78

Capítulo 79

Capítulo 80

Capítulo 81

Capítulo 82

Capítulo 83

Capítulo 84

Capítulo 85

Capítulo 86

Capítulo 87

Capítulo 88

Capítulo 89

Capítulo 90

Capítulo 91

Capítulo 92

Capítulo 93

Capítulo 94

Parte três Centro Médico Benito Juárez, Tomatlán, México

Capítulo 95

Capítulo 96

Capítulo 97

Capítulo 98

Capítulo 99

Capítulo 100

Créditos

NOTA DO AUTOR

Este livro nasceu quando eu estava com fome. Deixe-me explicar direito. Na primavera de 1996,

saiu o meu segundo livro, um romance, no Canadá. E não fez lá muito sucesso. Os resenhistas

ficaram desconcertados ou condenaram o romance com alguns elogios não muito entusiásticos. Os

leitores, então, o ignoraram. Apesar de todos os meus esforços para bancar o palhaço ou o

trapezista, o circo da mídia não alterou em nada esse quadro. O livro não aconteceu. Entre os

volumes enfileirados nas prateleiras das livrarias como crianças na fila para jogar beisebol ou

futebol, o meu era aquele garoto desengonçado, nada atlético, que ninguém queria ver no seu time.

Logo, logo desapareceu de mansinho.

O fiasco não me afetou muito. Eu já tinha migrado para outra história, um romance passado

em Portugal, em 1939. Só que estava inquieto. E tinha algum dinheiro.

Peguei então um avião para Bombaim. Não é tão absurdo assim, se você se der conta de três

coisas: que um tempinho na Índia é capaz de afugentar a inquietação de qualquer criatura viva;

por lá, se pode fazer muita coisa com pouco dinheiro; e um romance passado em Portugal, em

1939, pode ter muito pouco a ver com Portugal em 1939.

Eu já tinha estado na Índia antes, no Norte do país, por cinco meses. Nessa primeira viagem,

cheguei ao subcontinente inteiramente despreparado. Na verdade, tinha uma palavra para me

guiar. Quando falei dos meus planos com um amigo que conhecia bem o país, ele disse, assim sem

mais nem menos: “Lá na Índia se fala um inglês engraçado. Eles gostam de usar palavras como

bamboozle para dizer enganar.” Lembrei do que ele me disse quando o avião começou a descer

em Delhi. Portanto, a palavra bamboozle era todo o preparo que eu tinha para encarar a riqueza,

a balbúrdia, aquele jeito louco como as coisas funcionam na Índia. Usei essa palavra uma vez ou

outra e, verdade seja dita, ela me foi muito útil. Para um funcionário de uma estação ferroviária,

declarei: “Não acredito que a passagem seja tão cara assim. O senhor não está tentando me

bamboozle , está?” Ele sorriu e respondeu naquele tom meio cantado: “Não, senhor! Ninguém

aqui bamboozle ninguém. O preço é esse mesmo.”

Nessa segunda viagem à Índia, tinha uma noção melhor do que esperar e sabia o que queria: me

instalar num daqueles lugarejos nas montanhas e escrever o meu romance. Eu me via sentado

diante de uma mesa, numa varanda bem grande, com as anotações espalhadas à minha frente,

junto de uma xícara fumegante de chá. Haveria colinas verdes, envoltas em névoa, espalhando-se

aos meus pés e os gritos estridentes dos macacos encheriam os meus ouvidos. O tempo estaria

perfeito, exigindo uma suéter leve pela manhã e à noite, e uma roupa de mangas curtas durante o

dia. Nesse cenário, caneta na mão, em nome da mais pura verdade, eu transformaria Portugal em

ficção. Não é exatamente isso que é a ficção: a transformação seletiva da realidade? O ato de torcê-

la para extrair a sua essência? Para que ir a Portugal?

A mulher que tomava conta do lugar me contaria histórias das lutas para expulsar os

britânicos. Acertaríamos o que haveria para o almoço e para o jantar no dia seguinte. Quando

terminasse a minha jornada diária de trabalho, eu sairia para dar umas voltas pelas encostas das

plantações de chá.

Infelizmente, o tal romance engasgou, tossiu e morreu. Foi lá em Matheran, não muito longe de

Bombaim, um lugarejo serrano onde havia alguns macacos, mas nenhuma fazenda de chá. Esse é

um sofrimento comum entre escritores em potencial. O tema é bom, as frases também. Os

personagens são tão cheios de vida que praticamente precisam de certidão de nascimento. O enredo

que traçamos para eles é magnífico, simples e cativante. Fazemos a pesquisa, reunindo os fatos —

históricos, sociais, climáticos, culinários — que darão à nossa história o toque de autenticidade. O

diálogo flui, estalando de tanta tensão. As descrições explodem em cores, contrastes e detalhes

narrativos. Na verdade, a nossa história só pode ser maravilhosa. Mas isso tudo acaba dando em

nada. Apesar daquela promessa óbvia e luminosa, chega uma hora em que percebemos que o

sussurro que vem nos atormentando bem lá no fundo está dizendo a mais pura e terrível das

verdades: não vai funcionar. Falta um elemento, aquela centelha que dá vida a uma história real,

pouco importando se os fatos ou a comida estão corretos ou não. Emocionalmente, a nossa história

está morta: este é o “xis” do problema. Essa descoberta é muito sofrida, podem acreditar. Ela nos

deixa com uma fome tão grande que chega a doer.

Lá de Matheran, despachei pelo correio as anotações para o meu romance fracassado. Mandei

tudo para um endereço fictício na Sibéria, com um endereço de remetente igualmente fictício, na

Bolívia. Quando o funcionário selou o envelope e o atirou num daqueles recipientes, sentei ali

mesmo, tristonho e desanimado. “E agora, Tolstoi? Que outras ideias brilhantes você tem para a

sua vida?”, foram as perguntas que me fiz.

Bom, ainda tinha algum dinheiro e continuava me sentindo irrequieto. Levantei dali e saí da

agência dos correios para ir explorar o Sul da Índia.

Adoraria dizer “Sou doutor” a todos aqueles que me perguntavam o que eu fazia na vida, já

que, atualmente, os médicos são os provedores de magia e de milagres. Mas tinha certeza que

teríamos um acidente de ônibus na primeira curva e, com todos aqueles olhos pregados em mim,

teria de explicar, em meio ao choro e aos gemidos das vítimas, que era doutor em leis. Depois,

diante dos pedidos de ajuda para processar o governo em razão daquele acidente, eu teria de

confessar que, na verdade, era bacharel em filosofia. Aí, diante dos gritos

de todos, querendo saber que sentido tinha aquela tragédia sangrenta, precisaria admitir que mal

havia tocado em Kierkegaard, e assim por diante. Resolvi me ater à humilde e dolorosa verdade.

Pelo caminho, aqui e ali, deparei com a reação: “Escritor? É mesmo? Tenho uma história para

você.” Na maioria das vezes, as histórias não passavam de anedotas, de fôlego curto e vida breve.

Cheguei à cidade de Pondicherry, um minúsculo território da União, ao sul de Madras, na costa

de Tamil Nadu. Em termos de população e de tamanho, é uma parte pouco importante da Índia —

comparada a ele, a ilha do Príncipe Edward é um gigante no mapa do Canadá —, mas a história

lhe dá uma distinção especial. Pois, no passado, Pondicherry foi a capital do mais modesto dos

impérios coloniais, a Índia francesa. Na verdade, os franceses adorariam rivalizar com os

britânicos, mas o único Raj que conseguiram reunir foi um punhado de pequenos portos.

Aferraram-se a essas possessões por cerca de trezentos anos. Saíram de Pondicherry em 1954,

deixando para trás belas edificações brancas, ruas amplas traçadas em ângulos retos, com nomes

como Rue de la Marine e Rue Saint-Louis e termos como képis , quepes, para a polícia.

Eu estava no Café Índia, na rua Nehru, um salão bem grande com paredes verdes e um teto

alto. Lá em cima, ventiladores giram para manter o ar quente e úmido em constante movimento. O

local é repleto de mesas quadradas, idênticas, cada uma delas com quatro cadeiras. Os clientes

sentam onde tiver lugar, junto com quem quer que seja. O café é bom e eles servem as chamadas

torradas francesas. Logo, logo alguém puxa conversa, e, portanto, um sujeito idoso, mas forte e de

olhos vivos, com uma cabeleira branquinha, estava conversando comigo. Confirmei que fazia frio

no Canadá e que efetivamente se falava francês em algumas regiões do país; disse também que

gostava da Índia etc. e tal — aquela conversa habitual que se trava entre indianos curiosos e

amistosos e estrangeiros de mochila às costas. Recebeu a informação sobre o meu trabalho

arregalando os olhos e fazendo que sim com a cabeça. Já era hora de ir embora. Ergui a mão,

tentando chamar a atenção do garçom para pedir a conta.

Foi aí que o velho disse:

— Conheço uma história que vai fazer você acreditar em Deus.

Parei o gesto no ar. Mas estava desconfiado. Será que o sujeito era uma testemunha de Jeová

vindo bater à minha porta?

— A sua história aconteceu há dois mil anos, num recanto remoto do Império Romano? —

indaguei.

— Não.

Será que ele era um desses muçulmanos catequistas?

— Aconteceu na Arábia do século VII?

— Não, não. Tudo começou aqui mesmo, em Pondicherry, poucos anos atrás, e foi terminar,

veja só que coisa incrível, exatamente no país de onde você vem.

— E ela vai me fazer acreditar em Deus?

— Vai.

— Isso vai ser difícil.

— Nem tanto.

O garçom apareceu. Hesitei por um instante. Pedi dois cafés. Nós nos apresentamos. Ele se

chamava Francis Adirubasamy.

— Conte a sua história, por favor — disse eu.

— Mas você tem de prestar atenção — replicou o velho.

— Vou prestar — respondi, pegando bloco e caneta.

— Você já esteve no Jardim Botânico? — perguntou ele.

— Fui lá ontem.

— Reparou no trenzinho?

— Reparei.

— Ele ainda funciona aos domingos, para a felicidade das crianças. Mas, antigamente,

circulava todos os dias, de meia em meia hora. Reparou no nome das estações?

— Uma delas se chama Roseville. É a que fica perto do roseiral.

— Exatamente. E a outra?

— Não me lembro.

— Tiraram a placa. Ela se chamava Zootown. O trenzinho fazia duas paradas: em Roseville e

em Zootown. No passado, havia um zoológico no Jardim Botânico de Pondicherry.

E continuou falando. Fui anotando os elementos da história.

— Você devia conversar com ele — disse o velho, referindo-se ao protagonista. — Eu o conheci

muito bem, muito bem. Hoje em dia, é adulto. Você devia lhe perguntar tudo o que quiser.

Mais tarde, em Toronto, em meio às nove colunas de Patel incluídas no catálogo de telefone,

consegui encontrá-lo. Disquei o número com o coração aos pulos. A voz que atendeu tinha um

toque indiano no sotaque canadense; um toque bem leve, mas inconfundível, como o vestígio do

cheiro de incenso no ar. “Isso tudo aconteceu há tanto tempo...”, disse ele. Combinamos de nos

encontrar. E nos encontramos várias vezes. Ele me mostrou o diário que fez na época. Mostrou

também os recortes amarelados de jornal que, por um instante, o tornaram obscuramente famoso.

Contou a sua história. Fui anotando tudo. Cerca de um ano mais tarde, depois de dificuldades

consideráveis, recebi uma fita gravada e um relatório do Ministério dos Transportes do Japão. Foi

quando ouvi a tal fita que concordei com o sr. Adirubasamy: era realmente uma história que nos

faz acreditar em Deus.

Parecia natural que a história do sr. Patel fosse contada quase toda na primeira pessoa, pela

voz dele e através dos seus olhos. Mas quaisquer inexatidões ou erros são meus.

Preciso agradecer a algumas pessoas. Sou extremamente grato, é claro, ao sr. Patel. A minha

gratidão para com ele é tão ilimitada quanto o oceano Pacífico e espero que a minha forma de

contar a sua história não vá desapontá-lo. Tenho de agradecer também ao sr. Adirubasamy por me

lançar nessa história. Por me ajudar a completá-la, agradeço ao profissionalismo exemplar de três

autoridades: ao sr. Kazuhiko Oda, até algum tempo atrás, membro da embaixada japonesa em

Ottawa; ao sr. Hiroshi Watanabe, da Companhia de Navegação Oika; e, particularmente, ao sr.

Tomohiro Okamoto, agora aposentado do Ministério dos Transportes do Japão. Já a centelha de

vida devo ao sr. Moacyr Scliar. Gostaria enfim de expressar a minha gratidão para com essa

grande instituição, o Conselho Canadense para as Artes, sem cujo financiamento eu não teria

conseguido dar conta dessa história que nada tem a ver com Portugal em 1939. Se nós, os

cidadãos, não apoiarmos os nossos artistas, estaremos sacrificando a nossa imaginação no altar da

crua realidade e acabaremos não acreditando em nada e tendo sonhos que não valem a pena.

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Parte um

Toronto e Pondicherry

CAPÍTULO 1

O sofrimento me deixou triste e melancólico.

O estudo acadêmico e a prática religiosa, realizados com firmeza e aplicação,

foram aos poucos me trazendo de volta à vida. Continuei fiel ao que algumas pessoas

chamariam de minhas estranhas práticas religiosas. Depois de um ano de ensino

médio, entrei para a Universidade de Toronto e fiz duas graduações, uma em estudos

religiosos, outra em zoologia. A minha monografia de fim de curso em estudos

religiosos tratava de certos aspectos da teoria cosmogônica de Isaac Luria, o grande

cabalista de Safed, que viveu no século XVI. A de zoologia era uma análise funcional

da glândula tireoide da preguiça-de-três-dedos. Escolhi esse animal porque o seu

jeitão — calmo, calado e introspectivo — conseguia tranquilizar, de certa forma, o

meu eu estilhaçado.

Existem as preguiças-de-dois-dedos e as de três, classificação que se baseia nas

patas dianteiras desses animais, já que todos têm três garras nas patas traseiras.

Num verão, tive a sorte de poder estudar as preguiças-de-três-dedos in loco, nas

florestas tropicais do Brasil. Trata-se de uma criatura extremamente intrigante. O

seu único hábito efetivo é a indolência. Ela dorme ou descansa em média vinte horas

por dia. A nossa equipe testou os hábitos de sono de cinco desses animais selvagens

pondo na sua cabeça, ao anoitecer, logo depois de eles pegarem no sono, uns pratos

de um plástico vermelho brilhante cheios de água. Na manhã seguinte, já bem tarde,

fomos encontrá-los no mesmo lugar, com a água enxameando de insetos. A preguiça

tem a sua hora de maior atividade ao pôr do sol, considerando-se que o termo

atividade está sendo usado, aqui, num sentido bem amplo. Ela avança por um galho

de árvore, naquela posição característica, de cabeça para baixo, a uma velocidade de

cerca de quatrocentos metros por hora. No chão, rasteja até a árvore mais próxima a

uma velocidade de 250 metros por hora, quando motivada, o que significa um ritmo

440 vezes mais lento que o de um guepardo motivado. Sem essa motivação, a

preguiça percorre de quatro a cinco metros por hora.

A preguiça-de-três-dedos não tem muitas informações sobre o mundo exterior.

Numa escala de 2 a 10, em que o 2 representa uma estupidez fora do comum e o 10,

uma extrema acuidade, William Beebe (1926) atribuiu aos sentidos do paladar, do

tato, da visão e da audição desse animal a nota 2, e ao seu olfato, 3. Se alguém topar

com uma preguiça-de-três-dedos dormindo na selva, duas ou três sacudidelas são o

bastante para acordá-la; ela vai então olhar sonolenta em todas as direções, menos

na de quem a acordou. Aliás, por que será que ela olha assim, já que se sabe que

esse animal vê tudo embaçado, meio como Mr. Magoo? Quanto à audição, a preguiça

não é exatamente surda; ela não se interessa muito pelos sons. De acordo com

Beebe, disparos de armas de fogo feitos perto de um desses animais dormindo ou

comendo praticamente não provocam nenhuma reação. Mesmo o seu olfato, o

sentido que é um pouco melhor que os demais, não deve ser superestimado.

Segundo consta, elas podem farejar e evitar galhos apodrecidos, mas Bullock (1968)

relatou que “é comum” as preguiças caírem no chão, agarradas a galhos que se

quebram.

Você deve estar se perguntando como ela consegue sobreviver.

Justamente por ser tão lerda. A sonolência e a preguiça afastam esses animais dos

perigos, impedem que elas sejam percebidas pelas onças, pelas jaguatiricas, pelos

gaviões-reais e pelas sucuris. Os seus pelos abrigam umas algas que têm a cor

marrom durante a época de estiagem e verde no período das chuvas, o que faz com

que esse bicho se misture ao musgo e à folhagem que o cercam, parecendo mais um

cupinzeiro, um ninho de esquilos ou até mesmo uma parte da própria árvore.

A preguiça-de-três-dedos leva uma vida pacata de vegetariano, em perfeita

harmonia com o meio que a cerca. “Ela tem sempre nos lábios um sorriso afável”,

como registrou Tirler (1966). Vi esse sorriso com os meus próprios olhos. Não sou

do tipo que projeta traços e emoções humanos em animais, mas, por diversas vezes,

durante aquele mês que passei no Brasil, olhando as preguiças descansando, senti

que estava diante de iogues virados de cabeça para baixo, em meditação profunda, ou

de eremitas totalmente entregues a orações, sábios cujas vidas intensas e

imaginativas ultrapassavam o alcance das minhas comprovações científicas.

Às vezes, eu misturava os meus dois cursos universitários. Vários dos meus

colegas de estudos religiosos — uns agnósticos confusos que não sabiam o que era o

quê; que eram escravos da razão, esse falso ouro que engana os tolos com o seu

brilho — me lembravam as preguiças-de-três-dedos; e esses animais, um belíssimo

exemplo do milagre da vida, me faziam pensar em Deus.

Nunca tive problemas com os meus colegas cientistas. Os cientistas são um

bando de bebedores de cerveja amistosos, ateus e trabalhadores; gente que só pensa

em sexo, xadrez e beisebol quando não está pensando em ciência.

Fui ótimo aluno, se é que posso dizer isso de mim mesmo. Por quatro anos

seguidos, tirei os primeiros lugares no St. Michael’s College. Recebi todos os

prêmios possíveis do Departamento de Zoologia. Se não ganhei nenhum do

Departamento de Estudos Religiosos, foi simplesmente porque não existem prêmios

nesse departamento (ninguém ignora que a recompensa pelo estudo da religião não

está nas mãos de mortais). E teria ganhado a Medalha Acadêmica do Governador-

Geral, o prêmio máximo da Universidade de Toronto para os cursos de graduação, e

que já foi entregue a um número considerável de canadenses ilustres, se não fosse

por um garoto branco, comedor de carne, com um pescoço que mais parecia um

tronco de árvore e um temperamento insuportavelmente animado.

Ainda sofro um pouco com essa humilhação. Quando já se passou por muita coisa

ruim na vida, cada dor adicional acaba sendo, a um só tempo, insuportável e

insignificante. A minha vida é como um memento mori pintado por algum artista

europeu: há sempre uma caveira sorridente ao meu lado para me lembrar que a

ambição humana é uma bobagem. Debocho dessa caveira. Olho para ela, dizendo:

“Você pegou o cara errado. Pode não acreditar na vida, mas eu não acredito na

morte. Vá embora!” A caveira dá uma risadinha e chega ainda mais perto de mim, o

que não me espanta. Se a morte anda tão grudada à vida não é por uma necessidade

biológica — é por ciúme. A vida é tão linda que a morte se apaixonou por ela, e é um

amor ciumento, possessivo, que tenta controlar o que pode. Mas a vida escapa a esse

controle com a maior facilidade, perdendo apenas uma coisinha ou outra sem grande

importância e, para ela, a tristeza nada mais é que a sombra passageira de uma

nuvem. O garoto branco também foi aprovado pelo comitê de bolsas de estudos

Rhodes. Gosto dele e espero que a sua estada em Oxford tenha sido uma experiência

enriquecedora. Se Lakshmi, a deusa da fortuna, resolver um dia ser generosa comigo,

Oxford é a quinta cidade na lista dos lugares que gostaria de conhecer antes de

morrer, vindo depois de Meca, Varanasi, Jerusalém e Paris.

Não tenho nada a dizer sobre a minha vida profissional, a não ser que as gravatas

são um nó e, se invertidas, podem perfeitamente enforcar um homem caso ele não

tome cuidado.

Adoro o Canadá. Sinto falta do calor da Índia, da comida de lá, das lagartixas

pelas paredes, dos filmes musicais, das vacas andando pelas ruas, dos corvos

grasnindo, até mesmo das conversas sobre os jogos de críquete, mas adoro o Canadá.

É um grande país, frio demais para qualquer um que tenha um mínimo de bom

senso, habitado por gente inteligente e compassiva que usa uns penteados

horrorosos. De todo modo, eu não tinha motivo algum para voltar para a minha

terra, Pondicherry.

Richard Parker ficou comigo. Nunca o esqueci. Será que posso dizer que sinto

saudade dele? Pois sinto. Sinto mesmo. Até hoje sonho com ele. Na maior parte das

vezes, são pesadelos, mas pesadelos com um toquezinho de amor. Como é estranho

o coração humano... Ainda não consigo entender como ele pôde me abandonar

daquele jeito, com tamanha facilidade, sem qualquer tipo de despedida, sem olhar

para trás uma vez sequer. Essa dor é como um machado que me corta o coração.

No hospital, lá no México, os médicos e as enfermeiras foram incrivelmente legais

comigo. E os pacientes também. Fossem eles vítimas de câncer ou de acidentes de

trânsito, bastava ouvirem a minha história para se aproximarem, mancando ou em

cadeiras de rodas, eles próprios e os seus parentes, embora ninguém ali falasse

inglês e eu não falasse espanhol. Sorriam para mim, apertavam a minha mão, me

davam uns tapinhas na cabeça, deixavam comida e roupas de presente em cima da

minha cama. Acabavam me fazendo ter acessos de riso ou de choro incontroláveis.

Em um ou dois dias, eu já conseguia ficar de pé e até dar uns poucos passos,

apesar do enjoo, da tontura e da fraqueza que sentia. Os exames de sangue

revelaram que eu estava anêmico e que a minha taxa de sódio estava elevadíssima

enquanto a de potássio estava bem baixa. O meu corpo retinha líquido, fazendo com

que as minhas pernas ficassem tremendamente inchadas. Parecia até que tinham me

feito um enxerto de duas patas de elefante. A minha urina era de um amarelo

escuro, chegando quase a ser marrom. Depois de mais ou menos uma semana, já

dava para eu andar quase normalmente e até calçar sapatos, contanto que não

amarrasse os cadarços. A minha pele sarou, embora tenham ficado umas cicatrizes

nos meus ombros e nas minhas costas.

A primeira vez que abri uma torneira e vi aquele jato ruidoso, esbanjador,

superabundante, o choque foi tamanho que fiquei atordoado: as minhas pernas

bambearam e desmaiei nos braços de uma enfermeira.

A primeira vez que fui a um restaurante indiano no Canadá, comi com as mãos. O

garçom me olhou com um ar de crítica e disse: “Acabou de desembarcar, não é

mesmo?” Fiquei lívido. Os meus dedos, que, um segundo antes, eram papilas

gustativas, saboreando a comida ainda meio longe da boca, ficaram sujos diante

daquele olhar. Estancaram como bandidos apanhados em flagrante. Não ousei

lambê-los. Culpadíssimo, usei o guardanapo para limpá-los. Aquele garçom não

podia imaginar o quanto as suas palavras me magoaram. Elas foram como pregos

penetrando na minha carne. Peguei o garfo e a faca. Praticamente nunca tinha usado

esses utensílios. As minhas mãos tremiam. O meu sambar ficou completamente sem

gosto.

CAPÍTULO 2

Ele mora em Scarborough. É um homenzinho magro e miúdo — tem, no máximo, um metro e

sessenta de altura. Os olhos são escuros, como os cabelos, que estão começando a ficar grisalhos nas

têmporas. Não pode ter mais de quarenta anos. A pele é de um tom agradável de café. Apesar da

temperatura amena do outono, está usando, para ir até a lanchonete, uma pesada parca de inverno

com capuz forrado de pele. O rosto é expressivo. Fala depressa, gesticulando. Com ele, não existe

essa história de conversa fiada; vai sempre direto ao assunto.

CAPÍTULO 3

O nome que me deram é de uma piscina, coisa bem curiosa, considerando-se que os

meus pais nunca foram muito chegados à água. Um dos primeiros parceiros

comerciais do meu pai foi Francis Adirubasamy, que acabou se tornando um grande

amigo da família. Eu o chavama Mamaji: mama é tio, em tâmil, e ji é um sufixo usado

na Índia para expressar respeito e afeto. Na juventude, bem antes de eu nascer,

Mamaji foi campeão de natação, campeão de todo o Sul da Índia, e manteve o porte

de atleta pelo resto da vida. Certa vez, o meu irmão Ravi me contou que, quando

nasceu, Mamaji não queria parar de respirar água e, então, o médico, para salvar a

sua vida, teve de segurá-lo pelos pés e ficar fazendo ele girar acima da cabeça por um

bom tempo.

— Funcionou! — exclamou Ravi, girando a mão loucamente acima da própria

cabeça. — O bebê tossiu, cuspiu aquela água e começou a respirar ar. Mas aquilo

levou toda a carne e todo o sangue para a parte superior do corpo. É por isso que o

peito dele é tão largo e as pernas, tão fininhas.

Acreditei. (Ravi implicava comigo sem dó nem piedade. A primeira vez que chamou

Mamaji de “sr. Peixe” na minha cara, deixei uma casca de banana na cama dele.)

Mesmo na casa dos sessenta, quando já estava um pouco encurvado e toda uma vida

de gravidade contraobstétrica começava a empurrar a sua carne para baixo, Mamaji

continuava nadando toda manhã, fazendo trinta vezes a extensão da piscina do

ashram de Aurobindo.

Bem que ele tentou ensinar os meus pais a nadarem; o máximo que conseguiu,

porém, foi que entrassem na água do mar até os joelhos e ficassem fazendo, com os

braços, uns movimentos tão ridículos que, se estivessem praticando nado de peito,

mais pareceria que estavam andando em plena floresta, tentando afastar o mato alto

à sua frente, ou, se estivessem praticando nado livre, mais pareceria que estavam

descendo um morro, batendo os braços para não cair. Ravi era quase tão desanimado

quanto eles.

Mamaji precisou esperar até eu surgir nessa história para conseguir um discípulo

interessado. Quando cheguei à idade de aprender a nadar, que, segundo Mamaji, era

aos sete anos, para desespero da minha mãe, ele me levou até a praia, parou diante

do mar e, abrindo bem os braços, disse:

— Este é o meu presente para você.

— E, então, quase o afogou — exclamava a minha mãe.

Eu, porém, não perdi a fé no meu guru aquático. Sob o seu olhar atento, ficava

deitado na praia, batendo as pernas, escavando a areia com as mãos estendidas e

virando a cabeça a cada braçada, para respirar. Devia parecer até uma criança tendo

um ataque de fúria bem peculiar e em câmera lenta. Na água, enquanto ele me

mantinha na superfície, eu me esforçava ao máximo para nadar. Era muito mais

difícil que na terra firme. Mas Mamaji era paciente e me encorajava.

Quando ele achou que eu já tinha progredido o suficiente, deixamos para trás os

risos e os gritos, as corridas e os respingos de água, as ondas de um verde-azulado e

a espuma da arrebentação, e partimos para o formato retangular adequado e a

superfície plana formal (além, é claro, da taxa de inscrição) da piscina do ashram.

Durante toda a minha infância, fui lá com ele três vezes por semana, às segundas,

quartas e sextas, repetindo, com a regularidade de um relógio, o ritual matinal de

um bom nadador de crawl. Lembro perfeitamente daquele senhor tão digno se

despindo quase inteiramente ao meu lado; pouco a pouco, o seu corpo ia aparecendo

à medida que ele ia tirando cada peça de roupa e, no finalzinho, a sua decência era

protegida, pois ele se virava ligeiramente e vestia um magnífico calção de banho

importado. Empertigava-se todo e estava pronto. Aquilo era de uma simplicidade

épica... As aulas de natação que, com o tempo, foram se tornando treinos eram

exaustivas, mas havia também o imenso prazer de nadar com facilidade e velocidade

cada vez maiores, para lá e para cá, numa repetição que praticamente beirava a

hipnose, com a água passando de chumbo derretido a líquido bem leve.

Foi por conta própria, com um prazer culpado, que voltei à praia, ouvindo o

chamado das ondas possantes que quebravam na areia e estendiam para mim as suas

marolas, laços delicados que capturavam o seu menino indiano já tão predisposto a

ceder.

Certa vez, quando eu devia ter uns treze anos, dei de presente de aniversário a

Mamaji dois estirões de um nado borboleta bem aceitável. Acabei tão cansado que

mal pude acenar para ele.

Além da minha atividade de natação, havia as conversas a esse respeito. Era isso

que o meu pai adorava. Quanto mais vigorosamente ele resistia a nadar de verdade,

mais aquilo o fascinava. Era com as histórias de natação que ele descansava da

conversa do dia a dia sobre a administração de um zoológico. É bem mais fácil lidar

com água sem hipopótamos que com um deles lá dentro...

Graças à administração colonial, Mamaji passou dois anos estudando em Paris.

Foi a melhor época da vida dele. Era início dos anos 1930, quando os franceses ainda

estavam tentando tornar Pondicherry tão gaulesa quanto os ingleses tentavam tornar

todo o resto da Índia britânico. Não lembro exatamente o que Mamaji estudou. Algo

ligado a comércio, suponho. Ele era um excelente contador de histórias, mas elas

não incluíam nada sobre estudos, torre Eiffel, Louvre ou os cafés do Champs-

Elysées. Tudo o que contava tinha a ver com piscinas e competições de natação. Por

exemplo: havia a piscina Deligny, a mais antiga da cidade, construída em 1796, uma

barcaça descoberta, presa ao Quai d’Orsay e local de realização das provas de natação

das Olimpíadas de 1900. No entanto, ela jamais foi reconhecida pela Federação

Internacional de Natação, já que ultrapassava em seis metros as medidas

convencionais. A água dessa piscina vinha direto do Sena, sem qualquer filtragem ou

aquecimento.

— Era uma água fria e suja — dizia Mamaji. — Depois de atravessar Paris inteira,

ela chegava ali imunda. E, ainda por cima, os frequentadores da piscina deixavam

aquilo tudo um nojo.

Num sussurro de conspirador, acrescentando uns detalhes chocantes para provar

o que dizia, ele garantia que os padrões de higiene pessoal dos franceses eram bem

baixos.

— Deligny era bem ruizinha. Bain Royal, outra latrina das margens do Sena, era

pior ainda. Em Deligny, pelo menos se tiravam os peixes mortos.

Mesmo assim, uma piscina olímpica é uma piscina olímpica, bafejada por uma

glória imortal. Embora aquele lugar fosse uma verdadeira fossa, Mamaji falava de

Deligny com um sorriso carinhoso.

As condições de Château-Landon, de Rouvet ou do Boulevard de la Gare eram

bem melhores. Essas piscinas tinham um teto, ficavam em terra firme e

funcionavam o ano inteiro. Eram abastecidas pelas máquinas a vapor das fábricas

vizinhas e, com isso, a água era mais limpa e mais quente. Mesmo essas piscinas,

porém, não eram lá essas coisas e, em geral, ficavam lotadas.

— Tinha tantos escarros e tanto cuspe boiando naquela água que dava até a

impressão de que eu estava nadando no meio de águas-vivas — observava ele, rindo.

As piscinas Hébert, Ledru-Rollin e Butte-aux-Cailles eram claras, modernas,

espaçosas e alimentadas com água de poços artesianos. Representavam o padrão

máximo de excelência em termos de piscinas municipais. É claro que havia também

Tourelles, a outra grande piscina olímpica da cidade, inaugurada por ocasião dos

segundos jogos realizados em Paris, em 1924. E tinha ainda outras, muitas outras.

Mas, aos olhos de Mamaji, nenhuma delas se equiparava à piscina Molitor. Na

verdade, aquela era a glória aquática de Paris, aliás, de todo o mundo civilizado.

— Era o tipo de lugar em que os deuses adorariam nadar. Molitor tinha a melhor

equipe de natação de Paris. Havia duas piscinas, uma a céu aberto e a outra, coberta.

Ambas tão grandes quanto dois pequenos oceanos. A coberta tinha duas raias

reservadas para nadadores que quisessem treinar. A água era tão limpa e tão clara

que dava para ser usada para fazer o café da manhã. Havia um vestiário, com cabines

de madeira, azuis e brancas, que cercavam a piscina em dois pisos. Olhando para

baixo, dava para ver tudo e todos. Os funcionários, que faziam uma marca de giz na

porta para indicar que uma cabine estava ocupada, eram uns velhos meio mancos,

amistosos com aquele jeitão mal-humorado. Não havia gritaria ou bagunça que

conseguisse perturbá-los. Dos chuveiros, saía uma água quente e gostosa. Havia

ainda uma sauna e uma sala de ginástica. No inverno, a piscina externa se

transformava em rinque de patinação. Tinha também um bar, uma lanchonete, um

solário bem grande e até duas prainhas com areia de verdade. Cada azulejo, metal ou

madeira reluzia. Era... era...

Aquela era a única piscina que deixava Mamaji sem palavras, com a memória

nadando tantas vezes para lá e para cá que nem dava para contar.

Ele ficava ali recordando, e o meu pai, só sonhando.

Foi assim que surgiu o meu nome quando cheguei a este mundo, um último e

bem-vindo acréscimo à família, três anos depois do nascimento de Ravi: Piscine

Molitor Patel.

CAPÍTULO 4

Fazia apenas três anos que a nossa boa e velha nação tinha se tornado uma república

quando o seu tamanho aumentou graças a um pequeno território. Pondicherry

entrou para a União da Índia no dia 1º de novembro de 1954. Um feito cívico exigia

outro. Sem qualquer ônus, parte do terreno ocupado pelo Jardim Botânico de

Pondicherry foi posta à disposição dos interessados em aproveitar uma excelente

oportunidade comercial. E pronto: a Índia ganhou um zoológico novinho em folha,

projetado e administrado de acordo com os princípios mais modernos e

biologicamente saudáveis.

Era um zoológico imenso que se estendia por vários acres; grande o bastante para

que fosse necessário usar um trem para percorrê-lo, embora tudo ali parecesse ir

ficando cada vez menor à medida que eu crescia, inclusive o trem. Agora, é tão

pequeno que cabe na minha cabeça.

Imagine um lugar quente e úmido, banhado de sol e repleto de cores brilhantes. A

profusão de flores é constante. Tem árvores, arbustos e trepadeiras aos milhares —

figueiras sagradas, flamboaiãs, búteas, paineiras-vermelhas, jacarandás, mangueiras,

jaqueiras e muitas outras que continuariam sendo ilustres desconhecidas se não