As Aventuras de Pinóquio por Carlo Collodi - Versão HTML

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Prefácio

Este livro não deve ser lido por crianças, mas sim

para as crianças (por seus pais ou por outros adultos).

Mesmo que elas já estejam alfabetizadas, vou citar dois

excelentes motivos para ler este livro para elas.

O primeiro é que a leitura só será suficientemente

prazerosa quando ela se tornar um processo inconsciente

ou automático e crianças de até 12 anos (na maior parte

dos casos) ainda não são capazes disso. Dirigir, por

exemplo, é um processo inconsciente: em determinado

momento o motorista pensa em “aumentar a velocidade” e

todo o processo de acelerar, pisar na embreagem, trocar a

marcha e acelerar novamente é realizado de modo

inconsciente. Esse é o motivo pelo qual é possível realizar

várias atividades (muito bem) enquanto estamos dirigindo.

A leitura prazerosa só ocorre quando não exige nossa

atenção, ou seja, é como se outra pessoa estivesse lendo e

nossa preocupação consciente fica voltada apenas para a

criação de “imagens mentais” referentes à história que está

sendo contada. Portanto uma criança que está preocupada

em decodificar os signos lingüísticos, não será capaz de

imaginar adequadamente as cenas que a leitura está

descrevendo.

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É muito importante que as crianças treinem a leitura,

mas ler livros para elas faz parte deste processo. Quando

assistimos um filme vemos imagens e sons que são uma

interpretação que o diretor de cinema fez sobre

determinada história, mas quando ouvimos uma história

(ou lemos uma história) nós é que montamos esta

interpretação. O mais importante é que várias pessoas se

dão conta de que uma interpretação customizada

dificilmente será superada por uma interpretação genérica.

Pessoas capazes de desfrutar disso serão leitores para o

resto de suas vidas.

O segundo motivo é que a versão original abre a

oportunidade de discutir vários assuntos, que são

verdadeiramente relevantes e que nos dão oportunidade

para reflexão com as crianças.

A história mais difundida atualmente é apenas uma

versão “adocicada” da original e para que isso fosse

possível foram retirados elementos fundamentais, o que

fez com que perdesse em profundidade. Embora seja

carismático, o Pinóquio desta versão assemelha-se a um

bebê e quase tudo que lhe acontece depende mais dos

outros do que dele mesmo, dando a impressão de ser mais

vítima do que protagonista de sua vida.

A versão original, que você lerá nas próximas

páginas, embora seja mais dura, é também muito mais rica

e pedagógica. Trata-se de uma verdadeira história de

evolução humana, pois nela Pinóquio é realmente o

protagonista, recebe conselhos (que geralmente não

utiliza), faz as suas escolhas e depois responde por seus

erros e acertos, assim como ocorre ou ocorrerá com

qualquer um de nós.

Eu acredito que Carlo Collodi foi muito “iluminado”

ao escrever esta bela história e desejo contribuir, ajudando

a perpetuá-la.

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CAPÍTULO 1

Mestre Cereja, um carpinteiro, encontra um

pedaço de madeira que chora e ri como uma criança.

Séculos atrás, vivia... –Um rei! – Meus pequenos

leitores dirão imediatamente. Não crianças, vocês estão

enganadas... Era uma vez um pedaço de madeira. Não era

uma madeira cara ou especial, nada disso, era apenas um

pedaço comum de madeira. Uma daquelas grossas e

pesadas toras de madeira, que são colocadas para queimar

na lareira durante o inverno para manter o interior das

casas em uma temperatura acolhedora e agradável.

Eu não sei como isso realmente aconteceu, mas o

fato é que um belo dia esse pedaço de madeira encontrava-

se na loja de um velho carpinteiro. Como era um

especialista em carpintaria era chamado de mestre e seu

verdadeiro nome era Antônio, mas todos o chamavam de

Mestre Cereja, pois a ponta de seu nariz era tão redonda,

vermelha e brilhante que parecia uma cereja madura.

Assim que viu este pedaço de madeira, Mestre

Cereja ficou muito contente. Esfregando as mãos,

murmurou para si mesmo:

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–Esse pedaço de madeira chegou na hora certa, vou

utilizá-lo para fazer uma perna de mesa.

Ele segurou o machado a fim de descolar a casca e

começar a dar forma à madeira, mas quando estava prestes

a dar-lhe o primeiro golpe, parou com o braço acima do

corpo, pois tinha ouvido uma vozinha a lhe dizer em tom

de súplica:

–Por favor, tenha cuidado! Não me bata tão forte!

Um olhar de surpresa brilhou no rosto de Mestre

Cereja e este tornou-se ainda mais engraçado do que de

costume. Ele movimentou os olhos arregalados e

assustados procurando descobrir de qual lugar vinha

aquela vozinha, mas não viu ninguém!

Ele olhou sob o banco... Ninguém!

Ele espiou dentro do armário... Ninguém!

Ele procurou entre as aparas de madeira... Ninguém!

Ele abriu a porta, olhou para o lado de cima, depois

para o lado de baixo da rua e ainda assim... Ninguém!

–Oh, eu entendo! – disse a si mesmo, rindo e

coçando a peruca – Agora posso entender facilmente, eu

só pensei ter ouvido uma vozinha dizer estas palavras! Na

verdade nada disso aconteceu! Bem, bem, vou voltar ao

trabalho mais uma vez.

E desferiu um golpe mais forte sobre o pedaço de

madeira.

–Oh, oh! Você me machucou! – gritou a mesma

vozinha.

Mestre Cereja ficou em estado de choque. Seus

olhos ficaram arregalados, sua boca ficou aberta e sua

língua pendia em seu queixo.

Assim que se recuperou um pouco do susto, disse,

tremendo e gaguejando de medo: – De onde foi que veio

esta voz, se não há ninguém por perto? Poderia ser

possível que este pedaço de madeira tenha aprendido a

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falar e chorar como uma criança? Eu não posso acreditar!

Aqui está um pedaço de lenha comum, do tipo que

utilizamos para queimar no fogão, igual a qualquer outro.

Será possível que tenha alguém escondido nele? Se assim

for, pior para ele. Eu vou dar um jeito nisso!

Com estas palavras, ele agarrou o pedaço de madeira

com as duas mãos e começou a batê-lo impiedosamente.

Jogou-o no chão, depois contra as paredes da sala e até

mesmo contra o teto. A madeira sentiu e até gostaria de

reclamar, mas ficou quietinha o tempo todo. Ele persistiu

neste procedimento por uns dois minutos: nada. Cinco

minutos: nada. Dez minutos: nada.

–Oh, agora eu entendo. – disse por fim, tentando

bravamente rir, esfregando a sua peruca com a mão – Isso

pode ser facilmente entendido, eu só estava imaginando

ouvir uma vozinha! Bem, bem, vou voltar ao trabalho

mais uma vez!

O coitado estava morrendo de medo, então para

descontrair, ele tentou cantar uma canção alegre e assim

ganhar um pouco de coragem. Deixou de lado o machado

e pegou a plaina para alisar a madeira. Passou-a para lá e

para cá, ao fazer isso ele ouviu a mesma vozinha. Desta

vez ela riu enquanto falava:

–Ora, ora, pare com isso! Pare com isso! Ha, ha, ha!

Você está fazendo cócegas em meu estômago.

Desta vez o pobre Mestre Cereja caiu como se

tivesse sido atingido por uma pancada na cabeça. Quando

recuperou os sentidos, abriu os olhos e percebeu que se

encontrava no chão. Seu rosto tinha mudado; a queda fez

com que seu nariz batesse diretamente no chão,

achatando-o e fazendo com que a sua cor passasse de

vermelho para um roxo escuro.

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CAPÍTULO 2

Mestre Cereja dá o pedaço de madeira ao seu

amigo Gepeto, que o utilizará para fazer uma