As Cavernas de Marte por Isaac Asimov - Versão HTML

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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando

por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo

nível.

Dedicatória

Para WALTER I. BRADBURY

sem o qual eu realmente

nunca teria escrito este

livro.

Introdução

Este livro foi publicado pela primeira vez em 1952, e a descrição da atmosfera

de Marte e de sua superfície foi feita de acordo com as convicções astronômicas da época.

Entretanto, desde 1952 os conhecimentos astronômicos a respeito do sistema

solar interno progrediram de maneira notável, com a ajuda do radar, de raios e de mísseis.

Em 28 de novembro de 1964, a sonda espacial conhecida como Mariner IV foi

lançada em direção a Marte. Em 15 de julho de 1965, a Mariner IV passou ao lado de Marte,

a uma distância de apenas 6000 milhas, registrou uma série de observações e tomou

fotografias que foram retransmitidas para a Terra.

Descobriu-se então que a atmosfera de Marte possuía apenas um décimo da

densidade Imaginada pelos astrônomos. A mais, as fotografias comprovaram que a superfície

de Marte estava salpicada de crateras, parecidas com as da Lua. Por outro lado, não se

encontraram indícios claros de canais.

Sondas posteriores enviadas a Marte parecem indicar que no planeta há menos

água de quanto parecia, e que as capas de gelo marcianas, que podem ser vistas da Terra, são

formadas por dióxido de carbono congelado e não por água.

Isto significa que é muito menos provável que em Marte exista vida, ou que ela

tenha existido no planeta, como os astrônomos imaginavam em 1952.

Espero que mesmo assim os leitores gostem da estória, mas espero também que

não aceitem certas descrições como “fatos”: os conceitos que em 1952 eram aceitáveis, agora

já estão superados.

Isaac Asimov,

Novembro, 1970.

.1.

Uma ameixa de Marte

David Starr estava observando o homem e assim viu quando aconteceu. Viu como

ele morreu.

David esperava pacientemente pelo doutor Henree enquanto apreciava,

satisfeito, a atmosfera do reais novo restaurante da Cidade Internacional. Esta era a primeira

oportunidade para festejar depois de obter seu diploma e ser admitido no Conselho da Ciência

como membro efetivo.

Não se importava de esperar. O Café Supreme ainda brilhava pela recente

aplicação de tintas de cromo-silicone. A luz agradável que se espalhava por todos os cantos

do salão não tinha qualquer fonte visível. Na ponta da mesa que se apoiava na parede, havia

um pequeno cubo luminescente que continha uma minúscula imagem tridimensional do

conjunto que produzia uma suave música. A batuta do maestro era um objeto brilhante em

movimento contínuo, de apenas um centímetro e meio, e a mesa era obviamente do novo tipo

Sanito, a mais moderna aplicação de campo de força e, a não ser pelo bruxuleio proposital,

poderia ser totalmente invisível.

Os calmos olhos castanhos de David observavam as outras mesas, meio ocultas

em seus nichos, não tanto por uma questão de tédio, mas porque as pessoas o interessavam

muito mais que todos os mais modernos truques ostentados pelo Café Supreme. A tritelevisão

e os campos de força há dez anos eram considerados verdadeiras maravilhas, mas agora já

eram aceitos com naturalidade. As pessoas, porém, não mudavam: entretanto, mesmo dez mil

anos depois da construção das Pirâmides e cinco mil anos depois da explosão da primeira

bomba atômica, ainda representava um mistério insolúvel e uma maravilha sempre renovada.

Viu uma moça jovem e bonita, elegantemente vestida e que sorria suavemente

para o homem sentado em sua frente; um homem de meia-idade, metido em roupas

domingueiras e pouco confortáveis, apertando os botões do garçom automático, enquanto a

mulher e duas crianças observavam compenetradas; e dois homens de negócios que

conversavam animados enquanto comiam a sobremesa.

E enquanto David detinha o olhar nos dois homens de negócios, a coisa

aconteceu. Um dos homens ficou congestionado e se agitou numa tentativa fútil de se levantar.

O segundo homem lançou uma exclamação e esticou o braço numa tentativa confusa de ajudá-

lo, mas a esta altura o primeiro homem já estava despencando da cadeira e deslizando

embaixo da mesa.

David tinha se levantado ao primeiro sinal de algo alarmante e deu três passas

compridos que o levaram até a mesa próxima. Entrou no nicho e logo seus dedos encontraram

o botão, ao lado do cubo televisivo, e a cortina violeta com seus desenhos fluorescentes

deslizou sobre o trilho, fechando a alcova. Ninguém repararia. Muitas pessoas preferiam

jantar com a cortina puxada, que garantia maior privacidade.

O companheiro do homem desfalecido finalmente conseguiu falar. Disse:

- Manning está doente. Parece um ataque. Você é médico?

David respondeu em tom calmo e sua voz irradiava confiança. Disse:

- Fique calmo e não faça barulho. Vamos chamar o gerente e faremos tudo que

for possível fazer.

Agarrou o homem inerte e o ergueu como se ergue uma boneca de pano, apesar

dele ser bastante encorpado. Empurrou a mesa para um lado e o campo de força deixou seus

dedos levemente separados enquanto empurrava. Deitou o homem sobre o banco, afrouxando

as costuras Magno de sua camisa e começou a aplicar a respiração artificial.

David porém não tinha qualquer ilusão sobre as probabilidades de revivê-lo.

Conhecia bem todos os sintomas: as faces subitamente avermelhadas, a voz sumida, a

dificuldade de respirar, os poucos minutos de luta desesperada pela vida, e depois o fim.

A cortina se mexeu. O gerente estava chegando com rapidez admirável,

obedecendo ao sinal de emergência lançado por David antes mesmo de abandonar sua própria

mesa. O gerente era um homem baixo e gorducho, metido em roupas pretas, apertadas e

conservadoras.

Parecia perturbado.

- Será que alguém... - começou, mas logo pareceu se encolher ao ver o homem

em deitado.

O segundo conviva estava falando com rapidez quase histérica:

- Meu amigo e eu estávamos jantando, quando ele teve este ataque. Não sei quem

é este outro homem.

David interrompeu suas inúteis tentativas de reanimar um homem morto. Passou

a mão sobre seus fartos cabelos castanhos, alisando-os para trás. Perguntou:

- Você é o gerente?

- Sou Oliver Gaspere, gerente do Café Supreme - explicou o baixinho com ar

surpreso. - Percebi a chamada de emergência da mesa 87, mas quando cheguei lá, não havia

ninguém. Disseram-me que um moço tinha entrado apressadamente na alcova da mesa 94 e o

segui. Agora estou vendo isto. – Começou a se virar. - Chamarei o médico.

David interferiu.

- Deixe para lá. Já não adianta. O homem morreu.

- O que! - gritou o segundo conviva e deu um passo para frente. - Manning!

David Starr o puxou para trás e o empurrou contra a beirada da mesa invisível. –

Calma, homem. Você já não pode fazer nada e este não é o momento mais oportuno para fazer

barulho.

- Não, não - concordou Gaspere. - Não podemos perturbar os outros fregueses.

Entretanto, senhor, será necessário que um médico examine este pobre homem para

estabelecer as causas da morte. Não posso permitir qualquer irregularidade em meu

restaurante.

- Sinto muito, senhor Gaspere, mas este homem não poderá ser examinado por

qualquer pessoa neste momento.

- O que é que você está me dizendo? Se este homem morrer de um colapso

cardíaco...

- Por favor, coopere um pouco. Discussões inúteis não adiantam. Qual é seu

nome, senhor?

O conviva ainda vivo respondeu em voz baixa:

- Eugene Forester.

- Muito bem, senhor Forester. Quero saber exatamente o que foi que o senhor e

seu amigo comeram aqui.

- Senhor! - O gerente rechonchudo arregalou os olhos até que deram a impressão

de querer sair das órbitas. – O senhor está insinuando que algum alimento pode ter provocado

isto?

- Não estou insinuando qualquer coisa. Estou apenas fazendo perguntas.

- Pois você não tem qualquer direito de fazer perguntas. Quem é você? Você não

é alguém que pode fazer perguntas. Insisto para que um médico examine este pobre homem.

- Senhor Gaspere, trata-se de um caso que compete ao Conselho de Ciência.

David descobriu o lado interno de seu pulso, erguendo levemente a manga de

Metalite flexível. Durante um instante só apareceu a pele, mas a seguir uma porção oval

começou a escurecer até ficar preta. No interior do oval pequenos pontos de luz amarela

piscaram formando a conhecida constelação da Ursa Maior e Orion.

Os lábios do gerente tremeram. O Conselho de Ciência não era uma agência

oficial do governo, mas seus membros se situavam quase acima do governo.

Falou:

- Senhor, peço desculpas.

- Não é necessário pedir desculpas. Senhor Forester, por favor, quer responder

a minha primeira pergunta?

Forester murmurou:

- Pedimos o jantar especial número três.

- Ambos pediram a mesma coisa?

- Sim.

David insistiu:

- Vocês não pediram alguma substituição? - Enquanto estava em sua própria

mesa, tinha lido o cardápio. O Café Supreme oferecia iguanas extraterrestres, mas o jantar

especial número três era uma refeição corriqueira entre os terrestres: sopa de verduras,

costeletas de vitela, batatas ao forno, ervilhas, sorvete e café.

- Sim, realmente pedimos uma substituição - falou Forester franzindo a testa. -

Manning pediu ameixas marcianas em calda para sobremesa.

- E o senhor não pediu?

- Não.

- Onde estão as ameixas marcianas agora? - David já conhecia esta fruta que

amadurecia nas estufas marcianas: era cheia de sumo e sem caroço, e seu aroma era realçado

por um leve gosto de canela.

Forester disse:

- Ele comeu as ameixas, O que é que o senhor acha?

- Quanto tempo passou antes que ele desfalecesse?

- Acho que se passaram cinco minutos. Nem chegamos a terminar o nosso café. -

O homem empalideceu. - Será que as ameixas estavam envenenadas.

David não respondeu. Olhou para o gerente.

- Fale-me das ameixas.

- Não havia nada de errado com as ameixas, mas nada mesmo. - Gaspere

agarrou a cortina, sacudindo-a com gesto nervoso, mas não se esqueceu de manter a voz baixa.

- As ameixas são frescas, chegaram com um carregamento recente de Marte e foram aprovadas

pela fiscalização governamental. Servimos centenas de porções de ameixas durante as últimas

três noites. Até agora não registramos qualquer incidente como este.

- Mesmo assim, acho aconselhável mandar riscar as ameixas do cardápio, até

uma nova fiscalização. Entretanto, pode ser que as ameixas nada tenham a ver com o assunto.

Traga-me uma caixinha qualquer, pois quero recolher o que sobrou do jantar para uma futura

análise.

- Já vou.

- E lembre-se de não mencionar o incidente com qualquer pessoa.

O gerente voltou em poucos minutos, enxugando a testa com um fino lenço.

Observou:

- Não consigo entender. Palavra, não consigo.

David colocou na caixa os pratos de plástico usados, os pedaços de pão, as

xícaras parafinadas do café cuidadosamente tampadas, e com muito cuidado depositou a caixa

onde não estaria atrapalhando. Gaspere parou de esfregar nervosamente as mãos e esticou o

braço para alcançar o contato na beirada da mesa.

David foi mais rápido e o gerente ficou surpreso ao ver seu braço imobilizado

- É por causa das migalhas, senhor.

- Pois é, pretendo levá-las também. - Usou um canivete para recolher até a

última migalha, deslizando a lâmina sobre o invisível campo de força. David, pessoalmente,

duvidava de tampos de mesa feitos com campos de força. O fato de serem totalmente

transparentes não ajudava os convivas a se sentirem completamente à vontade. Ao ver que os

pratos e os talheres pousavam sobre o nada deixava as pessoas tensas, e por este motivo o

campo de força era propositalmente defasado, para produzir um bruxuleio de interferência que

proporcionava uma ilusão de substância.

Estas mesas, porém eram apreciadas em restaurantes, porque no fim da refeição

bastava estender o campo de força por uma fração de polegada para destruir instantaneamente

migalhas e eventuais gotas em sua superfície. Quando David terminou de recolher os restos,

deixou que Gaspere estendesse o campo de força. Primeiro David acionou o fecho de

segurança e depois Gaspere usou sua chave especial. Logo apareceu uma nova superfície

absolutamente limpa.

– Agora, mais um minuto. – David consultou seu relógio e afastou levemente a

cortina.

Chamou em voz baixa:

- Doutor Henree!

Um homem de meia-idade, alto e magro, sentado na mesa que era de David,

virou o rosto com ar surpreso.

David sorriu.

- Estou aqui. - Colocou um dedo nos lábios.

O doutor Henree se levantou. Suas roupas eram displicentemente largas e os

cabelos grisalhos e já um pouco escassos estavam puxados cuidadosamente para um lado, por

causa de uma pequena calvície. Falou:

- Meu caro David, você então já chegou? Pensei que estivesse atrasado. O que

foi que aconteceu?

David parou de sorrir. – Respondeu: – Mais um caso.

O doutor Henree entrou atrás da cortina, viu o homem morto e murmurou: – Ora,

esta.

- Pois é - comentou David.

- Eu acho – falou o doutor Henree, tirando os óculos que logo começou a limpar

com um minúsculo raio de força - que deveríamos fechar o restaurante. - Voltou a colocar os

óculos.

Gaspere abriu e fechou a boca como um peixe, sem deixar sair qualquer som.

Finalmente falou com voz embargada: - Fechar o restaurante. Está aberto há apenas uma

semana. Assim iremos à falência! À falência!

- Estava pensando em fechar apenas durante uma hora, ou coisa assim. Teremos

que remover o cadáver e será necessário examinar a cozinha. Tenho certeza que o senhor

também deseja esclarecer qualquer dúvida que poderia levar as pessoas a pensar em

intoxicação alimentar. Também acredito que o senhor não faz questão que isto aconteça em

frente ao pessoal que agora está jantando.

- Está bem. Vou providenciar para que o restaurante esteja à sua disposição, mas

preciso de uma hora para que todos os presentes possam terminar de jantar. Espero que não

haja qualquer tipo de publicidade.

- Pode ficar sossegado. - O rosto enrugado do doutor Henree mostrava sua

preocupação. - David, quer telefonar para a sede do Conselho e falar com Conway? Nestes

casos seguimos um procedimento especial. Ele sabe o que precisa fazer.

- Será que preciso ficar? - perguntou Forester de repente. - Estou me sentindo

mal.

- Quem é ele, David? - perguntou o dr. Henree.

- O companheiro de mesa do falecido. Seu nome é Forester.

- Estou vendo. Senhor Forester, considerando as circunstâncias, receio que o

senhor terá que ficar aqui - mesmo se sentindo mal.

Vazio, o restaurante parecia frio e repelente. Agentes silenciosos vieram e foram

embora. A cozinha foi examinada átomo por átomo, com total eficiência. Só o doutor Henree e

David Starr ficaram. Foram sentar num nicho vazio. As luzes não estavam a e as tritelevisões

em cada mesa eram apenas cubos de vidro sem vida.

O doutor Henree sacudiu a cabeça.

- Não descobriremos coisa alguma. Já sei disto, pelas experiências passadas.

Sinto muito, David. Esta não é a festa que planejei para você.

- Temos tempo suficiente para festejar mais tarde. Em suas cartas, você

mencionou estes casos de intoxicação alimentar, por isto eu estava prevenido. Entretanto, não

tinha percebido todo este mistério que parece ser um detalhe necessário. Se eu soubesse, teria

me comportado de maneira mais discreta.

- Não. Não adianta. Não poderemos manter o segredo eternamente. Aos poucos,

as noticias vão se espalhando. Há pessoas que viram outras morrer enquanto comiam, e depois

ouvem outros casos parecidos, Sempre acontece durante as refeições. A coisa está feia e está

ficando pior. Bom, falaremos mais a este respeito amanhã, quando você se encontrar com

Conway.

- Espere! - David olhou para o homem mais idoso. - Há algo que o preocupa

muito mais que a morte de um homem, ou a morte de milhares de homens. É algo que eu não

sei. O que é?

O doutor Henree suspirou. – David, receio que a Terra esteja ameaçada por um

grande perigo. A maioria do Conselho não quer acreditar e o próprio Conway não está

acreditando muito. Entretanto, tenho certeza que estas supostas intoxicações alimentares são

apenas uma tentativa habilidosa e brutal de assumir o controle da economia e do Governo da

Terra. Até agora, David, não encontramos qualquer indicio que pudesse nos dizer quem está

atrás disto, quem está nos ameaçando, e de que maneira tudo isto acontece. O Conselho de

Ciência está completamente à mercê de algo desconhecido.

.2.

A colheita nos céus

Hector Conway. Chefe do Conselho da Ciência, olhava pela janela do mais alto

apartamento da Torre da Ciência. Cuja estrutura eslanchada dominava os subúrbios

setentrionais da Cidade Internacional. A cidade começava a brilhar de luzes logo no início do

crepúsculo. Logo ficaria marcada pelas estrias de luz que marcavam os passeios elevados

para pedestres. Os prédios se transformariam em joias iluminadas, com as janelas formando

desenhos preciosos. Bem em frente da janela podia ver na distância as duas abóbadas do

Congresso, com a Mansão Executiva entre ambas.

Estava sozinho no escritório e a fechadura automática estava regulada apenas

para as impressões digitais do doutor Henree, Agora já não se sentia tão dominado pela

depressão. David Starr estava a caminho: por um processo que parecia até mágico, tinha se

transformado num adulto, pronto para receber sua primeira tarefa como membro do Conselho,

Conway tinha a impressão de estar esperando a visita de seu próprio filho, e de uma certa

forma, era assim. David Starr era seu filho: filho seu e de Augustus Henree.

No começo, eram apenas três amigos: ele mesmo, Gus Henree e Lawrence Starr.

Conseguia se lembrar muito bem de Lawrence Starr. Os três tinham frequentado juntos as

mesmas escolas, tinham sido admitidos juntos no Conselho, feito juntos as primeiras

investigações. Depois, Lawrence Starr foi promovido. Era de se esperar: entre os três, era o

mais brilhante.

Foi mandado para Vênus, numa função semipermanente, e foi aquela a primeira

vez que os três não enfrentavam algo juntos. Starr foi embora com a mulher e o filho. O nome

dela era Bárbara. A linda Bárbara Starr. Henree e ele não chegaram a se casar, e na memória

de ambos não sobrava o nome de qualquer moça que pudesse competir com Bárbara Starr.

Com o nascimento de David eles se tornaram tio Gus e tio Hector, e às vezes David ficava

confuso e chamava até o pai de tio Lawrence.

Então, durante a viagem para Vênus, aconteceu o ataque de piratas. Foi uma

verdadeira chacina. As naves piratas em geral não costumavam tomar prisioneiros no espaço,

e em apenas duas horas mais de uma centena de criaturas humanas foram mortas. Entre elas

estavam Bárbara e Lawrence Starr.

Conway conseguia se lembrar do dia e até do minuto em que recebera a notícia

na Torre da Ciência. Logo naves de patrulha foram para o espaço, perseguindo os piratas. O

ataque ao refúgio dos piratas nos asteroides foi levado a termo com uma violência sem

precedentes. Ninguém podia ter certeza que eles tivessem apanhado exatamente os piratas que

eram os responsáveis pela destruição da nave que ia para Vênus, mas daquele ano em diante o

poderio dos piratas começou realmente a diminuir.

As naves patrulha acharam mais alguma coisa: um minúsculo bote salva-vidas

que vagava numa órbita precária entre Vênus e a Terra, irradiando um pedido de socorro por

meio de sinais de rádio frios e automáticos. No bote só havia uma criança. Um garotinho

solitário e assustado, de apenas quatro anos, que durante muitas horas não conseguiu falar, a

não ser uma única frase muitas vezes repetida: – Mamãe falou para eu não chorar.

O garotinho era David Starr. Os acontecimentos, vistos pelos olhos daquela

criança, eram bastante confusos, mas sua interpretação foi muito fácil. Conway conseguia

imaginar o que deviam ter sido aqueles últimos minutos no interior da nave atingida:

Lawrence Starr morrendo na cabine de comando enquanto os piratas tentavam penetrar na

nave; Bárbara, com um desintegrador na mão, colocando David no bote salva-vidas e

ajustando os controles do bote da melhor maneira que podia, e finalmente lançando o bote

para o espaço. E depois?

Ela tinha um desintegrador na mão. Devia tê-lo usado até o último momento

contra os inimigos, e quando tudo já estava perdido, contra si mesma.

Todas as vezes que Conway se lembrava disto sentia o coração apertado. Seu

coração doía e todas as vezes voltava a desejar que tivessem lhe permitido acompanhar as

naves de patrulha, para poder ajudar a reduzir as cavernas dos piratas em oceanos

chamejantes de destruição atômica. Mas lhe disseram que os membros do Conselho eram

valiosos demais para poder arriscar a vida em operações de polícia, e teve que ficar a ler as

notícias nas tiras dos boletins que saiam do seu projetor de telenoticias.

Junto com Augustus Henree tratou de adotar David Starr e ambos fizeram o

impossível para apagar da memória da criança a lembrança daqueles terríveis últimos minutos

no espaço. Para David, ambos se esforçaram para ser pai e mãe ao mesmo tempo; vigiaram

seus estudos e não pouparam esforços para que a criança chegasse a ser o que Lawrence Starr

era.

David superou qualquer expectativa. Ele se parecia com Lawrence pela altura

que chegava a um metro e oitenta, era ágil e robusto, com os nervos tranquilos e os músculos

elásticos de atleta, e a mais o cérebro brilhante e agudo de um cientista de escol. Também

havia algo em seus cabelos castanhos e ondulados, em seus olhos castanhos tranquilos e na

covinha do queixo, que desaparecia com o sorriso, uma lembrança de Bárbara.

Sua passagem pela Academia deixara um rastro fulgurante salpicado das cinzas

de recordes anteriores superados, nos campos esportivos e nas salas de aula.

Conway ficara levemente perturbado por estes resultados. – Gus, isto não me

parece natural. Ele está superando até o pai!

Henree, que não gostava de desperdiçar palavras, ficou quieto, soltando-

baforadas com seu cachimbo.

- Sinto-me meio constrangido ao dizê-lo - continuou Conway - porque sei que

você vai se divertir às minhas custas, mas acho que tudo isto não é completamente normal.

Lembre-se que, quando criança, ficou durante dois dias vagando a esmo no interior daquele

bote, com apenas uma fina camada de proteção contra as radiações solares. E ficou a apenas

setenta milhas do Sol durante um período em que as manchas solares estiveram no ponto

máximo.

- Você está afirmando - comentou Henree - que David deveria ter morrido

queimado.

- Não sei, não - resmungou Conway. - O efeito das radiações sobre tecidos

vivos, sobre tecidos humanos vivos, ainda permanece um mistério.

- Isto é verdade. As experiências neste campo não são muito viáveis.

David terminara a universidade com a média mais alta de todos os tempos.

Conseguira apresentar uma tese original de biofísica. Era o homem mais moço que tivesse

recebido a nomeação a membro efetivo do Conselho de Ciência.

Apesar disto, Conway ainda sentia muito a perda do amigo. Há quatro anos

recebera a nomeação de Chefe dos Conselheiros. Era uma grande honra, e para alcançá-la ele

teria até sacrificado sua própria vida, mas sabia também que se Lawrence Starr estivesse

vivo, a eleição acabaria por ter outro resultado.

Depois da nomeação, perdera quase que por completo os contatos com o jovem

David. Ser Chefe dos Conselheiros significava dedicar todas as horas do dia e da noite aos

problemas da Galáxia. Durante a cerimônia da formatura, vira David apenas de longe e

durante os últimos quatro anos conseguira falar com ele apenas quatro vezes.

Quando ouviu a porta se abrindo, seu coração acelerou as bati das. Virou-se e

foi rápido ao encontro de ambos, enquanto entravam.

- Gus meu velho! - Estendeu a mão e agarrou a outra. - E David, meu rapaz!

Passou uma hora. Já estava escuro quando conseguiram parar de falar em

assuntos pessoais e se dedicar ao universo.

Foi David que começou. Disse:

- Tio Hector, hoje vi pela primeira vez um caso de intoxicação. Já sabia o

suficiente a respeito para evitar o pânico. Infelizmente não sabia o bastante para evitar a

intoxicação.

Conway respondeu em tom grave:

- Ninguém sabe o suficiente para tanto. Gus, suponho que mais uma vez foi por

causa de um produto marciano.

- Não podemos ter certeza absoluta, Hector. Mas a pessoa comeu uma ameixa

marciana.

- Veja se pode me dizer tudo que eu possa saber a respeito - pediu David.

- Os casos são realmente muito simples - respondeu Conway. - São de uma

horrível simplicidade. Durante os últimos quatro meses, aproximadamente quatrocentas

pessoas morreram logo após comer um qualquer produto crescido em Marte. Não se trata de

um veneno conhecido e os sintomas não se parecem com os de qualquer doença conhecida. O

que acontece é uma rápida e total paralisia dos nervos que controlam o diafragma e os

músculos do peito. Isto leva a uma paralisia dos pulmões, com resultados fatais dentro de

cinco minutos.

- Mas não é apenas isto. Em alguns poucos casos conseguimos socorrer a vítima

em tempo útil, tentamos a respiração artificial, como você também tentou, e chegamos a

colocá-las em pulmões de aço. Mesmo assim, todas morreram dentro de cinco minutos. O

coração também fica afetado. As autópsias não mostraram qualquer resulta do, a não ser uma

degeneração dos nervos, que deve acontecer num tempo excepcionalmente breve.

- E que tal os alimentos que levaram à intoxicação? - perguntou David.

- Não conseguimos nada - falou Conway. - Sempre há tempo suficiente para que

a porção ou o produto sejam completamente consumidos. Outros espécimes do mesmo

produto, na própria mesa ou na cozinha, se demonstraram completamente inócuos. Foram

consumidos por animais e até por pessoas voluntárias. O conteúdo dos estômagos dos

cadáveres só permitiram chegar a resultados duvidosos.

- Neste caso, como é que vocês sabem que se trata de intoxicação alimentar?

- Por causa da coincidência da morte logo após a ingestão de alimentos

marcianos em todos os casos, sem qualquer exceção. Trata-se de mais que uma coincidência.

David comentou, pensativo: – Obviamente, a coisa não é contagiosa.

- Não, graças às estrelas. Mesmo assim, é bastante grave. Por enquanto,

mantivemos um sigilo quase absoluto e tivemos nisto a total colaboração da Polícia

Planetária. Duzentos casos fatais em quatro meses entre a população total da Terra ainda

representam um fenômeno controlável, mas os casos podem aumentar. Se a população da

Terra começar a desconfiar que um bocado qualquer de um alimento marciano pode ser o

último bocado, as consequências poderiam ser terríveis. Mesmo que explicássemos que a

mortalidade é de apenas cinquenta casos por mês, entre uma população de cinco bilhões,

qualquer pessoa chegaria a pensar que, com certeza, seria uma das cinquenta.

- Certo - concordou David - e isto significaria que o mercado de alimentos

marcianos importados acabaria de vez. Seria um enorme prejuízo para os Sindicatos

Agrícolas Marcianos.

- Isto não tem qualquer importância. - Conway encolheu os ombros como a

eliminar o problema dos sindicatos, por ser de somenos. - Você não vê qualquer outra

implicação?

- O que estou vendo é que a agricultura terrestre é incapaz de alimentar cinco

bilhões de pessoas.

- Exato. Não podemos prescindir de alimentos importados de outros planetas. Se

desistíssemos de importar, a Terra estaria morrendo de fome dentro de seis semanas.

Entretanto, se o povo começar a recear os alimentos marcianos, não haverá meio para evitar

isto, e não sei até quando poderemos adiar a revelação. Cada nova vítima representa uma

nova crise. Toda vez imaginamos que a nova vítima será aquela anunciada por todos os

telenoticiários. Todas as vezes ficamos a nos perguntar se a verdade acabará por ser

conhecida. E ainda por cima, temos a teoria de Gus.

O doutor Henree se ajeitou sobre a cadeira e começou a encher o cachimbo,

comprimindo vagarosamente o fumo.

- David, estou convencido que esta epidemia de intoxicações alimentares não é

um fenômeno natural. Para isto, é excessivamente espalhado. Um dia acontece no Bengala, no

dia seguinte em Nova Iorque, depois em Zanzibar. Na minha opinião, trata-se de coisa

planejada.

- Eu já lhe expliquei... - interferiu Conway.

- Se um grupo qualquer tivesse a intenção de se apoderar do controle na Terra,

qual meio seria melhor que atacar nosso ponto mais fraco, quero dizer nosso

aprovisionamento de alimentos? A Terra é o planeta mais populoso da Galáxia. Não é por

menos, afinal trata-se da pátria original do gênero humano. Este fato, porém, os transforma no

mundo mais fraco, pelo menos num certo sentido, porque não somos autossuficientes. Nossas

colheitas são feitas nos céus: em Marte, em Ganimedes, em Europa. Se as importações forem

prejudicadas por ato de pirataria, ou pelo sistema muito mais sutil aplicado agora, dentro de

pouco tempo ficaremos indefesos. É só isto.

- Entretanto - comentou David - se o caso é este, vocês não acham que o grupo

responsável entraria em contato com o governo, mesmo apenas para dar um ultimatum?

- Seria um procedimento normal, mas é possível que eles estejam apenas

esperando a hora certa, deixando tudo amadurecer. Também é possível que eles estejam

negociando diretamente com os fazendeiros em Marte. Os coloniais têm uma mentalidade

peculiar, desconfiam da Terra, e caso chegassem à conclusão que sua própria existência está

ameaçada, poderiam se aliar com os criminosos. Aliás, é até possível que eles mesmos... -

Soltou algumas baforadas. - Por outro lado, não quero fazer qualquer acusação.

- Neste caso - disse David - qual seria meu papel? O que é que vocês querem

que eu faça?

- Deixe que eu explique - interferiu Conway. - É o seguinte, David queremos que

você vá até os Laboratórios Centrais na Lua. Você integrará um time de pesquisadores que

investiga o problema. Atualmente, eles estão recebendo amostras de qualquer carregamento de

alimentos que sai de Marte. Sem dúvida nenhuma, mais cedo ou mais tarde, encontrarão algum

espécime envenenado. A metade de qualquer amostra serve para alimentar ratos e a outra

metade é analisada com todos os meios à nossa disposição.

- Entendo. E no caso de tio Gus estar certo, acho que vocês também dispõem de

outra equipe em Marte?

- Sim, uma equipe de homens muito experientes. Mas quero saber se você está

pronto para ir até a Lua amanhã à noite.

- Sem dúvida. Posso ir embora agora, para fazer meus preparativos?

- Pode, é claro.

- Existe alguma objeção se eu usar minha própria nave?

- Não. Nenhuma objeção.

Quando os dois cientistas ficaram sozinhos, observaram e em silêncio a feérica

iluminação da cidade, durante muito tempo.

Finalmente Conway falou: – Como ele se parece com Lawrence. Mas ele

também é ainda muito moço Será uma missão perigosa.

Henree perguntou: – Você acredita que a coisa poderá funcionar?

– Sem dúvida! – Conway soltou uma gargalhada. – Você ouviu sua última

pergunta a respeito de Marte. Ele não tem qualquer intenção de ir à Lua. Eu o conheço demais.

Por outro lado, é a melhor maneira de protegê-lo. O registro oficial mostrará que ele está indo

para a Lua; os homens do Laboratório Central já receberam instruções para anunciar sua

chegada. Quando David chegar em Marte, os Conspiradores que você suspeita, se é que eles

realmente existem, não terão qualquer razão para desconfiar que ele é um membro do

Conselho, e David cuidará de se manter incógnito, imaginando que desta maneira poderá nos

enganar.

Conway continuou:

– Ele é brilhante. É possível que tenha a capacidade de conseguir algo que todos

nós não poderíamos fazer. É muita sorte nossa que David ainda seja tão moço e que possamos

manobrá-lo. Daqui a alguns anos será impossível. Ele adivinharia logo.

O comunicador tilintou levemente. Conway abriu o circuito.

– O que é?

– Uma comunicação pessoal para o senhor.

– Para mim? Está bem, pode transmitir. – Olhou para Henree, com ar meio

assustado. – Não pode ser dos conspiradores que você anda imaginando.

– Abra e veja – sugeriu Henree.

Conway cortou o envelope. Arregalou os olhos e logo soltou uma gargalhada.

Jogou a folha de papel em direção a Henree.