As Cavernas de Marte por Isaac Asimov - Versão HTML

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Henree apanhou a mensagem. Só havia poucas linhas apressadamente escritas: –

Vou fazer como desejam: irei para Marte. Assinado: David.

Henree começou a gargalhar descontroladamente. – Estou vendo que você

realmente soube manobrá-lo muito bem.

Conway não se segurou mais, e ambos gargalharam juntos.

.3.

Homens para as fazendas de Marte

Para qualquer Terrestre nativo, a Terra significava a Terra. Era apenas o terceiro

planeta na ordem de afastamento daquele sol que os habitantes da Galáxia conheciam como o

Sol. Entretanto, pela geografia oficial, Terra significava muito mais que apenas um planeta: a

denominação se aplicava a todos os corpos celestes do Sistema Solar. Marte era considerado

uma parte da própria Terra e os homens e mulheres que viviam em Marte eram Terrestres

iguais aos que viviam no pátrio planeta. Pelo menos, do ponto de vista legal. Os habitantes de

Marte votavam para eleger representantes no Congresso de Toda-Terra e para eleger o

Presidente Planetário.

Por outro lado, era apenas isto. Os Terrestres de Marte se julgavam uma raça

diferente e muito melhor, e qualquer recém-chegado precisava fazer muitas coisas antes que os

trabalhadores das fazendas marcianas o considerassem um pouco mais que um turista qualquer

sem muita importância.

David Starr descobriu isto quase imediatamente, ao entrar no prédio da Agência

de Emprego Agrícola. Logo atrás dele caminhava um homenzinho. Neste caso, o homenzinho

era realmente muito baixinho: tinha um metro e cinquenta e cinco, quando muito. Se ele e

David tivessem ficado cara a cara, o nariz do homenzinho teria chegado no máximo até o

esterno de David. O baixinho tinha cabelos ruivos claros, escovados para trás, uma boca

larga, e usava o típico macacão de abotoadura dupla e as botas altas até a coxa e muito

coloridas dos trabalhadores das fazendas de Marte.

Enquanto David se aproximava do guichê com o letreiro luminoso que

anunciava: “Empregos Agrícolas”, ouviu passos rápidos ao lado e uma voz de tenor gritou: –

Espere aí! Diminua a velocidade, cara!

O baixinho parou em sua frente.

David perguntou: – Posso lhe ser útil?

O baixinho o observou cuidadosamente, de cima a baixo, depois esticou um

braço e se apoiou displicentemente na cintura do Terrestre. – Quando foi que você desceu da

passarela?

– Que passarela?

– Você é bem graúdo para ser um Terrestrinho. Como é, vocês estão muito

apinhados lá fora?

– De fato, cheguei da Terra.

O baixinho deixou sair vagarosamente os braços, um atrás do outro, e suas mãos

bateram no couro das botas. Era o típico gesto de autoafirmação dos agricultores.

– Neste caso – falou – que tal você ficar esperando um pouco, enquanto um

nativo cuida de seus próprios assuntos?

David respondeu: – Esteja à vontade.

– Mas, caso você tenha a fazer qualquer objeção, podemos resolver isto depois

de eu terminar o que pretendo fazer, ou então em qualquer outra oportunidade a sua escolha.

Meu nome é Bigman. Sou John Bigman Jones, mas poderá me encontrar, perguntando a

qualquer pessoa da cidade onde se encontra Bigman. – Parou um instante e continuou: – Este é

meu sobrenome e também minha alcunha, Terrestrinho. Você tem alguma objeção?

David respondeu, muito sério:

– Absolutamente.

Bigman disse:

– Certo! – e virou as costas para se aproximar do guichê. David sorriu quando

teve certeza que o outro não podia vê-lo e depois tomou um assento e esperou.

Estava em Marte há apenas doze horas, um tempo suficiente para registrar sua

nave com um nome falso nas grandes garagens subterrâneas fora da cidade, alugar um quarto

de hotel para passar a noite, e passear durante algumas horas nas ruas da cidade coberta por

uma abóbada.

Em Marte só existiam três cidades deste tipo: o número exíguo era justificado

pelos altíssimos custos de manutenção das abóbadas e de fornecimento das enormes

quantidades de energia necessárias para manter a temperatura e a gravidade da Terra.

Wingrad City, a cidade cujo nome lembrava Robert Clark Wingrad, o primeiro homem a

desembarcar em Marte, era a maior de todas.

Não era muito diferente de uma cidade da Terra: aliás, parecia um pedaço da

Terra, recortado e transportado para um outro planeta. Tinha-se a impressão que os homens de

Marte, vivendo a trinta e cinco milhões de milhas de distância, desejassem se esquecer deste

detalhe. No centro da cidade, no ponto em que a abóbada elipsoidal tinha a altura de um

quarto de milha, existiam até prédios de vinte andares.

Só faltava um detalhe: não havia sol, e nem céu azul. A abóbada era translúcida

e quando era iluminada pelo sol, a luz se difundia de maneira igual por toda sua extensão de

dez milhas quadradas. A intensidade da luz em qualquer ponto da abóbada era bastante fraca,

e por isto, para o morador da cidade o “céu” tinha uma coloração amarelo-pálida. Entretanto,

o efeito geral era o de um dia nublado na Terra.

Ao chegar da noite, a abóbada esmaecia e desaparecia numa escuridão sem

estrelas. Então as luzes das ruas se acendiam e Wingrad City se parecia ainda mais com uma

cidade da Terra. No interior dos prédios usava-se luz artificial, dia e noite.

David Starr levantou o olhar ao som de uma altercação.

Bigman ainda estava perto do guichê e berrava:

– Pois eu afirmo que este é um caso de lista negra. Por Júpiter, vocês me

botaram na lista negra!

O homem no guichê parecia chateado. Usava costeletas fofas que alisava

constantemente com os dedos. Disse: – Não costumamos fazer listas negras, senhor Jones...

– Meu nome é Bigman, já expliquei isto, O que é que há? Você está com medo

de ser amável? Você me chamava Bigman nos primeiros dias.

– Está bem, Bigman, não temos qualquer lista negra. Simplesmente não temos

qualquer requerimento de agricultores.

– O que é que você está me contando aí? Tim Jenkins conseguiu um emprego

anteontem, em exatamente dois minutos.

– Jenkins tem experiência com mísseis.

– Tudo o que Jenkins sabe fazer com mísseis, eu também sei.

– Mas você está registrado aqui como semeador.

– Pois é, e sou um ótimo semeador. Será que ninguém precisa de um?

- Escute, Bigman – disse o homem do guichê. – Seu nome está aqui no rol. Não

posso fazer mais do que isto. Quando surgir uma oportunidade vou avisá-lo. – Concentrou-se

na papelada em sua frente, ostentando indiferença para qualquer outro assunto.

Bigman deu as costas, mas gritou por cima do ombro:

– Está bem, mas vou ficar sentado aqui, bem em sua frente, e o primeiro

requerimento de mão de obra que chegar, será meu, e irei para uma fazenda. Se alguém não me

quer, quero ouvi-lo pessoalmente. Entendeu? Terão que dizê-lo a mim, J. Bigman J.,

pessoalmente.

O homem do guichê não respondeu. Bigman se sentou, resmungando. David Starr

se levantou e foi até o guichê. Nenhum outro trabalhador agrícola protestou contra sua

presença na fila.

Disse:

– Estou procurando um emprego.

O homem ergueu o olhar, apanhou um formulário e um impressor manual. – Que

tipo de emprego?

– Qualquer tipo de trabalho agrícola.

O homem largou o impresso? manual. – Você é nativo de Marte?

– Não, senhor. Sou da Terra.

– Sinto muito. Não tem qualquer oportunidade.

David disse: – Escute, sei trabalhar e preciso de emprego. Pela Galáxia, o que é

isto? Existe alguma lei que proíbe aos Terrestres de trabalhar?

– Não é isto. Acontece que você não pode fazer muita coisa nos campos sem

experiência prévia.

– Mesmo assim, preciso de emprego.

– Existem muitos empregos na cidade. No guichê ao lado.

– Trabalho na cidade não é de meu gosto.

O homem do guichê examinou David com ar interessado, e David adivinhou seu

pensamento sem qualquer esforço. Os homens iam até Marte por muitos motivos, um dos quais

era que a Terra se tornava para eles um lugar que não oferecia sossego. Quando chegava um

pedido de busca, as cidades de Marte eram facilmente vasculhadas (afinal, elas eram um

prolongamento da Terra), mas era praticamente impossível encontrar um homem procurado

que estivesse trabalhando numa fazenda de Marte. Os Sindicatos Agrícolas eram da opinião

que o melhor trabalhador era aquele que não ousava ir para qualquer outro lugar. Por este

motivo, o perseguido era protegido e o Sindicato cuidava para que as autoridades da Terra,

parcialmente hostilizadas e desprezadas, não conseguissem apanhá-lo.

– Seu nome? – perguntou o homem.

– Dick Williams – respondeu David, dando o nome que já servira para registrar

sua nave.

O funcionário evitou pedir qualquer identificação.

– Onde posso entrar em contato com você?

– Hotel Landis, quarto 212.

– Você já teve alguma experiência com baixa gravidade?

Continuou a fazer perguntas. Boa parte dos formulários ficou sem preencher. O

funcionário suspirou, colocou o formulário numa abertura onde era automaticamente micro-

filmado, colocou um número de protocolo e assim o incluiu nos registros oficiais do

departamento.

Finalmente disse: – Vou notificá-lo. – Seu tom, porém, não parecia promissor.

David se afastou. Não esperava grandes resultados, mas pelo menos tinha

estabelecido sua identidade de indivíduo à cata de um trabalho legítimo numa fazenda. O

próximo passo...

Virou-se de repente. Três homens acabavam de entrar na agência de empregos e

o baixinho chamado Bigman estava se levantando com um pulo. Com atitude agressiva, o

baixinho parou em frente aos três, com os braços levemente afastados do corpo. David não

conseguiu ver qualquer arma.

Os três homens pararam. Um deles riu e falou: – Ora, vejam. Parece que

Bigman, o poderoso anão, está aqui conosco. Talvez esteja procurando emprego, chefe.

– O homem tinha ombros largos e um nariz achatado. Um charuto apagado e todo

mastigado, de fumo marciano, esverdeado, pendia de um canto da boca. Também tinha uma

barba de dois dias.

– Fique quieto, Griswold – respondeu um outro homem que se encontrava à

frente de todos. Seu corpo era meio rechonchudo, não era muito alto e a pele de suas faces e

da nuca parecia lisa e lustrosa. Usava o típico macacão marciano, mas de fazenda

visivelmente mais fina que a de qualquer outro macacão na sala. As botas altas, que chegavam

até as coxas, eram coloridas, roxas e rosadas, num desenho espiralado.

Durante todas as suas viagens a Marte, mesmo em épocas posteriores, David

Starr nunca conseguiu ver dois pares de botas com o mesmo desenho, e nunca viu botas que

não fossem espalhafatosas. Obviamente, representavam a marca da personalidade entre os

agricultores.

Bigman se aproximou dos três homens, estufando o peito com o rosto contorcido

pela raiva. Disse: – Você, Hennes. Quero meus papéis.É meu direito reavê-los.

O homem rechonchudo era Hennes. Falou com ar tranquilo: – Você não vale

seus papéis, Bigman.

– Pois não posso conseguir um emprego decente sem meus papéis. Trabalhei

para você durante dois anos e cumpri o trato.

– Você fez muito mais que cumprir o trato. Saia da minha frente. Passou ao lado

de Bigman e se aproximou do guichê. Disse: – Preciso de um semeador experimentado – que

seja bom. Quero um que seja alto o bastante para enxergar, para substituir um garotinho do

qual tive que me desfazer.

Bigman se ressentiu.

– Pelo Espaço! – berrou. – Você está certo quando afirma que fiz mais do que

cumprir o trato. Você quer dizer que eu estava trabalhando quando já não deveria estar.

Trabalhei o suficiente para ver você dirigir depressa para o deserto, à meia-noite. Só que na

manhã seguinte você não queria se lembrar disto, e me mandou despedir por eu ter

mencionado o fato, e ainda por cima você retém meus papéis...

Hennes, irritado, olhou por cima do ombro.

– Griswold – falou. – Chute este imbecil para a rua.

Bigman não arredou pé, apesar de Griswold ter tamanho suficiente para quebrá-

lo em dois pedaços. Disse com sua voz estridente: – Está bem. Um de cada vez.

David Starr, porém, se mexeu e deu alguns passos vagarosos, com aquela

lentidão que podia enganar os desavisados.

Griswold observou:

– Você está me atrapalhando, amigo. Preciso me livrar de um lixo.

Atrás de David, Bigman gritou:

– Está bem, Terrestrinho. Pode deixá-lo vir.

David ignorou estas palavras. Falou com Griswold.

– Este lugar parece um lugar público, antigo. Todos temos o direito de ficarmos

nele.

Griswold respondeu:

– Não vamos discutir, amigo. – Colocou uma mão no ombro de David, num gesto

brutal, com a intenção de empurrá-lo para um lado.

Entretanto a mão esquerda de David agarrou o pulso do braço que Griswold

esticava, e num instante a mão direita empurrou o ombro de Griswold. O homem arredou

cambaleando e suas costas bateram duramente na partição de plástico que dividia a sala.

– Eu prefiro discutir, amigo – explicou David.

O funcionário do guichê se levantou gritando. Outros funcionários de outros

guichês esticaram o pescoço pela abertura, mas ninguém fez menção de interferir. Bigman

gargalhou e bateu uma mão nas costas de David.

– Nada mal, por alguém vindo da Terra.

Hennes ficou imóvel durante alguns segundos. O terceiro homem, um trabalhador

agrícola com o rosto pálido de quem passava tempo demais debaixo do minúsculo sol de

Marte, e pouco tempo debaixo das lâmpadas solares artificiais da cidade, abriu a boca de

forma ridícula e ficou assim, de queixo caído.

Griswold recuperou o fôlego com alguma dificuldade. Sacudiu a cabeça. Seu

charuto tinha caído ao chão e ele o chutou Finalmente levantou a cabeça e seus olhos

esbugalhados mostraram toda sua fúria. Afastou-se da parede e todos viram um lampejo de

aço que logo desapareceu em sua mão.

David, porém deu um passo para o lado e ergueu o braço. O pequeno cilindro

retorcido que em geral ficava entre seu corpo e a parte superior do braço, desceu rápido pela

manga e se aninhou em sua mão.

Hennes gritou:

– Cuidado, Griswold. Ele está com um desintegrador.

– Jogue sua faca – falou David.

Griswold soltou uma série de palavrões, mas o metal da faca tilintou no chão.

Bigman a apanhou com um pulo e riu brevemente ao ver o barbudo derrotado.

David esticou a mão e examinou a faca.

– Olhe só que brinquedo inocente, nas mãos de um indefeso trabalhador agrícola

– comentou. – O que dizem as leis de Marte sobre porte de facas energéticas?

Conhecia a arma e sabia que era a arma mais cruel de toda a Galáxia.

Aparentemente, era apenas um cabo de aço inoxidável, um pouco mais grosso que um cabo de

faca comum, mas que ainda assim podia ficar comodamente na palma da mão. No interior

deste cabo havia um motor minúsculo com a capacidade de gerar um campo de força de vinte

e dois centímetros fino como uma navalha, que conseguia cortar qualquer matéria comum. As

couraças e armaduras de nada adiantavam e com a faca energética conseguia transpassar não

só a carne mas também os ossos, seus ferimentos eram quase sempre mortais.

Hennes se colocou entre ambos. Disse: – Você está autorizado a carregar este

desintegrador, Terrestre? Guarde-o e vamos parar com isto. Volte aqui, Griswold.

– Espere um minuto – falou David, enquanto Hennes se aprestava a ir embora. –

Você estava procurando um homem, não é mesmo?

Hennes parou e ergueu as sobrancelhas. – Sim, de fato eu estava procurando um

homem.

– Certo. E eu estou procurando emprego.

– Preciso de um semeador com bastante experiência. Você tem?

– Para lhe dizer a verdade, não.

– Você já colheu? Sabe dirigir os carros de areia? Vou lhe dizer uma coisa:

você é apenas... – deu um passo para trás como para observá-lo melhor – .. apenas um

Terrestre que parece ter familiaridade com um desintegrador. Não tenho qualquer trabalho

para você.

David abaixou a voz e murmurou:

– Nem mesmo se eu lhe disser que estou interessado em intoxicações

alimentares?

Hennes não mudou de expressão.

– Não entendo o que você quer dizer.

– Neste caso, faça um pequeno esforço. – Sorriu levemente, mas sem qualquer

sinal de humor.

Hennes observou:

– Trabalhar numa fazenda marciana não é nada fácil.

– Eu não sou do tipo fácil – retrucou David.

O outro observou seu corpo musculoso.

– É. Pode ser. Está bem, vamos lhe dar cama e comida, e para começar, três

mudas de roupas e um par de botas. Cinquenta dólares no primeiro ano, pagos no fim. Se você

não completar o ano, não receberá nada.

– Certo. Que tipo de trabalho?

– O único tipo que você é capaz de fazer. Ajudante de refeitório. Se você

aprender, será promovido. Se não aprender, ficará ali mesmo, o ano todo.

– Está bem. E que tal o Bigman?

Bigman que estava observando a ambos, estrilou:

– Não senhor, não pretendo trabalhar para este piolho de areia. Se quiser ouvir

minha opinião, não acho aconselhável você trabalhar para ele.

David falou por cima do ombro:

– Que tal trabalhar por algum tempo, em troca de seus papéis e de boas

referências?

– Bom – respondeu Bigman. – Pode ser por um mês.

Hennes perguntou: – Ele é amigo seu?

David assentiu. – Sim, e não irei sem ele.

– Então, vou levá-lo, Só por um mês, e terá que manter aquela bocarra bem

fechada. Sem salário, apenas em troca dos papéis. Vamos embora. Meu carro de areia está lá

fora.

Os cinco homens saíram, Bigman e David formando a retaguarda.

Bigman falou:

– Amigo, devo-lhe um favor. Pode cobrar a hora que quiser.

O carro de areia estava aberto, mas David conseguiu ver as frestas que serviam

para enfiar os painéis que serviam para fechá-lo contra as tempestades de areia que

costumavam surgir de repente em Marte. Os pneus eram muito largos para diminuir a

tendência a atolar na areia dos trechos mais secos. A área de vidro era reduzida ao mínimo, e

onde havia vidro, ele se integrava ao metal de tal forma que pareciam soldados juntos.

Havia bastante gente na rua, mas ninguém prestou qualquer atenção ao carro de

areia e aos trabalhadores agrícolas que, afinal, eram bastante corriqueiros.

Hennes falou:

– Nós ficaremos na frente. Vocês dois podem entrar atrás.

Enquanto falava, sentou-se no lugar do motorista. Os controles se encontravam

no centro da partição dianteira, e o para-brisa estava logo acima. Griswold se acomodou à

direita de Hennes.

Bigman entrou na parte traseira do carro e David o seguiu. Alguém estava atrás

dele. David já estava se virando quando Bigman gritou:

– Cuidado!

O segundo jagunço de Hennes estava encolhido perto da porta do carro com um

sorriso cruel no rosto mole e pálido. David se mexeu depressa, mas era tarde demais.

A última coisa que viu foi a boca lustrosa da arma na mão do jagunço enquanto

ouvia um leve zunido. Quase não percebeu o que estava acontecendo e uma voz muito distante

falou:

– Está bem, Zukis. Entre atrás e fique vigiando. – As palavras pareciam chegar

do fundo de um túnel muito comprido. A seguir, houve a sensação momentânea de movimento

para frente e depois o nada total.

David Starr caiu para frente e perdeu qualquer sensação de vida.

.4.

Vida alienígena

Manchas irregulares e luminosas flutuavam em proximidade de David Starr. Aos

poucos começou a perceber uma violenta sensação de formigamento e, ao mesmo tempo, uma

pressão esquisita nas costas. A pressão nas costas era apenas devida ao fato de estar deitado

sobre um colchão muito duro. O formigamento, ele o sabia, era a consequência de uma pistola

neurônica, uma arma cuja radiação agia sobre os centros nervosos na base do cérebro.

Antes que as manchas luminosas tomassem uma forma coerente, antes mesmo

que conseguisse entender onde se encontrava, David sentiu que seus ombros estavam sendo

sacudidos e logo depois suas faces receberam o impacto ardido de bofetadas. A luz clara

começou a penetrar em seus olhos abertos e levantou o braço que formigava para evitar mais

um bofetão.

Bigman estava se debruçando por cima de David e seu rosto de coelho, com o

nariz redondo e arrebitado, estava quase tocando o seu. Falou:

– Por Ganimedes, pensei que tivessem mesmo acabado com você.

Apesar das dores, David conseguiu se erguer, apoiando-se no cotovelo.

– Tenho a impressão que foi isto que fizeram. Onde é que estamos?

– No xadrez da fazenda. Não adianta querer sair. A porta está trancada e as

janelas têm grades.

David apalpou o corpo perto da axila. Não encontrou o desintegrador. Era óbvio

que o tirariam dele. Falou:

– Fizeram o mesmo com você?

Bigman sacudiu a cabeça.

– Não, Zukis me achatou com uma coronhada. – Tocou delicadamente o topo da

cabeça, fazendo caretas. Logo se empertigou: – Porém, quase quebrei o braço dele.

O eco de passos chegou do lado oposto da porta. David se sentou e ficou

esperando. Hennes entrou acompanhado por um homem mais idoso, com um rosto comprido e

cansado, olhos azuis desbotados debaixo de sobrancelhas grisalhas e fartas, que pareciam

eternamente franzidas. Vestia roupas da cidade, muito parecidas com trajes terrestres. Pelo

visto, até dispensava as altas botas marcianas.

Hennes falou primeiro com Bigman.

– Pode ir para a casa da boia, e não tente sequer espirrar sem ser autorizado,

caso contrário vão quebrá-lo em dois pedaços.

Bigman torceu o rosto, acenou para David, dizendo:

– Até depois, Terrestre – e saiu, batendo exageradamente as botas contra o chão.

Hennes esperou que se afastasse, depois fechou a porta. Falou com o homem de

sobrancelhas grisalhas:

– Este é o tal, senhor Makian. Falou que seu nome era Williams.

– Acho que foi muito arriscado usar a pistola neurônica, Hennes. Se você o

tivesse matado, um indício muito valioso poderia ter desaparecido na poeira dos canais.

Hennes encolheu os ombros. – Estava armado. Não podíamos nos arriscar. De

qualquer forma, ele está aqui, senhor.

David pensou que estavam falando a seu respeito como se ele não estivesse

presente, ou então fosse apenas um objeto inanimado.

Makian virou-se para observá-lo com seu olhar duro. – Você ai. Sou o dono

desta fazenda. Por mais de cem milhas em qualquer direção, tudo pertence a Makian. Eu

decido quem fica livre e quem vai para o xadrez; decido quem trabalha e quem não vai comer:

decido até quem vai viver e quem vai morrer. Você entendeu bem?

– Entendi – respondeu David.

– Neste caso, responda com franqueza e não terá nada a temer. Não tente

esconder nada, porque sou capaz de tirá-lo de você de qualquer jeito. Mesmo que precise

matá-lo. Entendeu isto também?

– Perfeitamente.

– Seu nome é Williams?

– É o único nome pelo qual pretendo ficar conhecido em Marte.

– Está bem. O que é que você sabe a respeito da intoxicação alimentar?

David mexeu-se e colocou os pés no chão, Disse:

– Escute, minha irmãzinha morreu tomando um lanche de pão com geleia. Tinha

apenas doze anos e ficou deitada no chão, com o rostinho ainda lambuzado de geleia.

Chamamos o médico. Ele explicou que era uma intoxicação alimentar e recomendou que não

comêssemos qualquer alimento que se encontrava na casa, até que ele voltasse com

equipamento capaz de analisar tudo. Mas ele jamais voltou.

Em vez dele, chegou uma outra pessoa. Era alguém que possuía muita

autoridade. Estava acompanhado por agentes à paisana. Mandou que explicássemos o que

tinha acontecido, com todos os detalhes. Finalmente disse:

– Foi um ataque cardíaco. – Explicamos que isto era ridículo, porque minha

irmãzinha era sadia e seu coração estava em perfeitas condições, mas ele não quis ouvir.

Falou que se contássemos ridículas histórias de intoxicação alimentar, poderíamos nos dar

muito mal. Levou consigo o pote de geleia, Ficou furioso por termos lavado o rosto de minha

irmã, que estava todo lambuzado.

Tentei me comunicar com nosso médico, mas a enfermeira sempre respondia que

ele não estava, Finalmente entrei à força em seu consultório e o encontrei, mas ele não quis

dizer nada, e insistiu que seu diagnóstico estivera errado, parecia amedrontado. Então fui até a

polícia, mas eles não quiseram me prestar ouvidos.

O pote de geleia que os homens levaram continha o único alimento que minha

irmã comeu, e que os outros não tinham comido naquele dia, O pote foi aberto naquela

ocasião, e era de proveniência marciana. Somos gente conservadora, e gostamos de comidas

antigas e caseiras. O pote de geleia era o único produto marciano em toda a casa. Tentei ver

nos jornais se ocaso de minha irmã fora o único caso de intoxicação alimentar, Tudo parecia

muito suspeito. Fui até a Cidade Internacional. Larguei meu emprego e decidi que ia descobrir

por que minha irmã tinha morrido, usando qualquer meio possível, e que ia responsabilizar os

culpados. Mas não consegui apurar coisa alguma, ninguém queria falar, e um dia apareceu um

policial com um mandado para me prender.

Eu já estava duvidando que isto aconteceria e consegui me manter um pulo à

frente. Vim para Marte por dois motivos, O primeiro é que esta era a única maneira para ficar

longe da cadeia (mesmo que agora não pareça) e o segundo, porque consegui descobrir

algumas coisinhas Nos restaurantes da Cidade Internacional aconteceram duas ou três mortes

suspeitas e sempre em restaurantes que servem comida marciana. Então cheguei à conclusão

que a resposta se encontrava em Marte.

Makian estava esfregando o queixo com o polegar. Comentou:

– Este relato me parece bastante convincente, Hennes. O que é que você acha?

– Acho bom exigir nomes e datas, para confirmar tudo. Afinal, não sei quem é

este homem.

O tom de Makian era quase lamuriento:

– Você sabe que não podemos fazer isto, Hennes. Não quero fazer qualquer

coisa que possa espalhar o menor boato a respeito desta encrenca. Todo o Sindicato iria água

abaixo. Estaríamos liquidados. – Virou-se para David: – Vou mandar Benson para conversar

com você. Benson é nosso agrônomo. – Olhou para Hennes: – Fique aqui até Benson chegar.

Benson só chegou depois de uma meia hora. Durante todo o tempo

David ficou recostado displicentemente no catre, não dando qualquer atenção a Hennes que,

por sua vez, fazia o mesmo.

Finalmente a porta se abriu e uma voz anunciou:

– Sou Benson. Era uma voz suave e hesitante e pertencia a um homem de rosto

arredondado, de mais ou menos quarenta anos, cabelos escassos cor de areia e óculos sem

aro. Sua boca pequena se estirou num sorriso.

Benson continuou:

– Suponho que você é Williams

– Certo – respondeu David Starr.

Benson observou cuidadosamente o jovem Terrestre, como tentando formar uma

opinião. Perguntou:

– Você se sente inclinado para a violência?

– Não estou armado – respondeu David. – A mais, me encontro numa fazenda

repleta de homens dispostos a me matar se eu fizer algo que não lhes agrade.

– É verdade. Hennes, quer nos deixar a sós?

Hennes se levantou de um pulo, protestando: – Seria muito imprudente, Benson.

– Por favor, Hennes. – Os olhos suaves de Benson apareceram por cima das

lentes.

Hennes resmungou, bateu uma mão no cano da bota em sinal de insatisfação e

saiu pela porta. Benson a trancou.

– Sabe, Williams, durante os últimos seis meses eu me tornei um homem

importante neste lugar. Até Hennes acata minhas ordens. Eu ainda não me acostumei com isto.

– Voltou a sorrir. – Agora, conte- me tudo. O senhor Makian disse que você assistiu a uma

morte provocada por esta esquisita intoxicação alimentar.

– Foi minha irmã.

– Oh! – Benson corou. – Lastimo muito, muitíssimo. Compreendo que o assunto

deve ser muito doloroso para você, mas será que você poderia me contar os detalhes? Ë muito

importante.

David repetiu o relato que já fizera a Makian.

Benson observou: – E a coisa aconteceu depressa, assim como você disse?

– Cinco ou dez minutos depois dela ter comido.

– Terrível! Espantoso! Você não pode imaginar até que ponto isto é preocupante.

– Esfregava nervosamente as mãos. – De qualquer forma, Williams, quero lhe contar o resto.

Você adivinhou uma boa parte, e de uma forma qualquer, sinto-me responsável pelo que

aconteceu com sua irmãzinha. Todos nós, aqui em Marte, somos responsáveis até que o

mistério não esteja desvendado. Sabe, estas intoxicações estão acontecendo há muitos meses.

Não houve muitos casos, mas o bastante para todos ficarmos muitos preocupados.

Investigamos.a proveniência dos alimentos envenenados e agora temos certeza

que eles não vêm de qualquer fazenda. Descobrimos também mais um detalhe: todos os artigos

envenenados saem de Wingrad City. Por enquanto nada descobrimos que pudesse incriminar

as outras duas cidades de Marte. Isto significa que a fonte da infecção está na cidade e Hennes

andou investigando neste sentido. Tomou o hábito de ir até a cidade, investigando durante a

noite, mas até agora não descobriu nada.

– Estou vendo. Isto explica uma observação de Bigman.

– Como? – Benson, surpreso, torceu a boca e depois sorriu. – Já sei, você está

falando no baixinho que só sabe falar gritando. É verdade, ele viu Hennes sair da fazenda, e

Hennes o despediu. Hennes é um homem muito impulsivo e de qualquer maneira, acho que

Hennes está errado. É lógico que o veneno deve passar por Wingrad City. Afinal, a cidade é o

ponto de embarque do hemisfério.

O senhor Makian acredita que o veneno está sendo espalhado deliberadamente

Ele e outros integrantes do Sindicato receberam mensagens com propostas de compra de suas

fazendas, por um preço ridículo As mensagens não continham qualquer alusão às intoxicações

e não existe qualquer elo aparente entre as ofertas e aqueles horríveis acontecimentos.

David estava ouvindo com atenção. Perguntou:

– Quem foi que quis comprar as fazendas?

– Como poderíamos sabê-lo? Vi as cartas e elas apenas especificam que se as

ofertas forem aceitas, o Sindicato terá que irradiar uma mensagem em código numa onda

subetérica especifica. A mais, as cartas especificam que a cada mês, o preço oferecido será

rebaixado de dez por cento.

– Não é possível investigar a proveniência das cartas?

– Receio que não. As cartas passam pelo correio geral com um carimbo de

“Asteroide”. Como poderíamos vasculhar os Asteroides?

– E vocês notificaram a Polícia Planetária?

Benson riu baixinho.

– Você realmente imagina que o senhor Makian ou qualquer outro membro do

Sindicato estada disposto a chamar a polícia num assunto destes? Eles consideram isto uma

declaração de guerra pessoal. Você não sabe avaliar direito a mentalidade marciana,

Williams. Aqui não costumamos chamar os agentes da lei quando temos dificuldades, a não

ser que estejamos dispostos a admitir que se trata de algo que não conseguimos controlar

pessoalmente. Nenhum agricultor jamais faria isto. Já sugeri que a informação fosse levada ao

conhecimento do Conselho de Ciência, mas o senhor Makian não quis fazê-lo. Ele disse que o

Conselho já estava investigando as intoxicações sem qualquer sucesso, e que se o Conselho

era composto de imbecis, como parecia, ele preferia dispensar sua ajuda. A este ponto, eu

entrei em cena.

– Quer dizer, o senhor também investiga o caso?