As Faces do Mal, série Contato Volume II por Erika BG. - Versão HTML

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Volume 2

As Faces do Mal

Érika Bento Gonçalves

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Contato II - As Faces do Mal, de Érika Bento

Gonçalves, está licenciado com uma LicençaCreative Commons - Atribuição-

NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

ISBN-13: 978-1500637392

Copyright © 2013 por Érika Bento Gonçalves

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou

reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito da autora.

Este livro é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações,

lugares, acontecimentos e incidentes são todos produtos da imaginação do autor ou

usados de modo ficcional. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou

mortas, acontecimentos ou lugares é mera coincidência.

Capa, revisão e diagramação: Érika Bento Gonçalves

A 1ª edição deste livro é de distribuição digital GRATUITA, sendo

expressamente proibida a sua venda, cópia ou distribuição, total ou

parcialmente, sem a autorização do detentor dos direitos autorais.

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A publicação gratuita deste livro é parte da estratégia para a publicação

do terceiro volume da série CONTATO, com data ainda não definida.

Aos leitores e amigos que acreditaram em mim e me incentivaram a dar

sequência à série Contato.

A todos vocês, de coração, um grandioso

Muito Obrigada!

Capítulo 1

Sophie mantivera distância demais. Agora, perdera-a de vista, o que

significava que a garota já deveria ter entrado no quarto. Não, não, não! Acelerou

os passos. Uma vida estava em jogo. No alto da escada, inclinou-se à esquerda

pelo corredor e viu o segurança vindo. Droga! Por sorte, o gigante dentro de um

terno preto bem cortado falava ao rádio com alguém e não percebeu a estranha

figura daquela mulher em seu vestido profundamente decotado esquivando-se para

trás de uma coluna de mármore. Vamos, vamos, anda logo! Pensou, com urgência.

Ela precisava encontrá-la antes que fosse tarde demais.

Assim que ele passou por ela, Sophie o acompanhou com os olhos até que

ele desaparecesse no final do corredor e saiu correndo nas pontas dos pés,

segurando os sapatos pretos de salto agulha em uma das mãos, seguindo na

direção oposta.

O quarto era a terceira porta da ala oeste. Enquanto se aproximava da

imponente entrada, pensava apenas que gostaria de estar errada sobre os seus

pressentimentos. E, desta vez, estava sozinha. Sem Anne nem Jesse.

Principalmente Jesse.

Sophie sentiu um arrepio subir-lhe do cóccix à nuca. Um prelúdio

desencorajador que ela fez questão de ignorar. Girou a maçaneta fria − uma

enorme esfera dourada − abrindo lentamente a folha direita da porta branca dupla,

fazendo-a deslizar silenciosa sobre um alto carpete cinza chumbo.

Caminhou insegura até adentrar completamente e fechou a porta atrás de

si sem se virar, esquadrinhando todo o hall. As cores lhe eram familiares.

Demasiadamente familiares. Já estivera ali antes, em suas visões. Meu Deus é

aqui. Tudo vai acontecer neste lugar.

Sophie fechou os dedos em punhos para conter o tremor. As paredes

verde-escuras com os padrões de largas listras pretas; as luminárias douradas

fixadas à parede e o teto rebaixado. Estava tudo ali, como vira várias vezes em sua

mente.

À sua frente, duas poltronas de cor manteiga separadas por uma pequena

mesa redonda de madeira escura. Na parede, um nu impressionista era iluminado

por uma luz direta – a única acesa no ambiente de cerca de vinte metros quadrados

−, o que fazia a forma curvilínea parecer saltar da tela. Do lado esquerdo, uma

grande porta de correr − que, provavelmente, daria acesso ao quarto −, estava

ligeiramente aberta. Pela pequena fresta, uma suave claridade invadia o hall como

uma folha fosca de claridade.

Sophie deu dois passos à frente e sentiu uma respiração quente e ritmada

chegar à sua nuca por entre os cabelos. O tempo ficou suspenso no ar. Virou-se

rapidamente e encarou, com espanto, a pessoa atrás dela. O choque a paralisou e,

em seguida, sentiu apenas um forte empurrão fazendo seu corpo se chocar contra o

batente da porta do quarto. Seus pulmões se retesaram e ficou sem ar por alguns

segundos. Um lenço frio e úmido com cheiro forte de éter foi enfiado em seu rosto

cobrindo-lhe o nariz e a boca. Ela tentou reagir, mas um pesado antebraço

pressionava o seu pescoço, como fazem os lutadores de luta livre.

Sophie ficou sem ação. Os seus olhos encaravam a sua agressora fazendo-

lhe mil perguntas silenciosas, mas havia apenas um olhar frio encarando-a de

volta. Não havia nada que ela pudesse fazer. Já sentia os membros adormecer

enquanto o gás forte e estéril rastejava para dentro do seu corpo, entorpecendo seu

cérebro e fazendo-a, lentamente, perder a noção da realidade. Tudo desapareceu à

sua volta.

Quanto tempo Sophie ficara desacordada era algo que somente uma

pessoa saberia dizer, mas ela pouco se importava. Estava ocupada demais

arrastando o corpo dormente de Sophie para dentro do quarto e acomodando-o em

uma poltrona. Amarrou os pulsos aos braços de madeira com braçadeiras de

plástico − que muitos policiais usam como algemas − e os pés foram atados aos da

poltrona com um lenço apertado em seus tornozelos, deixando-a com as pernas

ligeiramente abertas.

Estranhamente, as mesmas mãos que lhe imobilizaram os pés e os braços

rudemente, moveram-se com delicadeza ajustando o decote pronunciado do

vestido, cobrindo-lhe a parte do seio que ficara à mostra ao manipular o seu corpo.

Alguns minutos se passaram antes que Sophie começasse a recuperar a

consciência. Abriu os olhos piscando-os compulsivamente, como se o bater das

pestanas fosse tirá-la mais rapidamente daquele transe. Mmmmm... gemeu,

sentindo dores nos braços e nas pernas. Tentou, inutilmente, se mexer e, não tendo

êxito, abriu os olhos com mais determinação. Observou com horror a situação em

que se encontrava e, imediatamente, levantou o olhar.

Mas o que é isso? Pensou, tentando realinhar mente e corpo, o que vira,

porém, a fez se sentir como se estivesse dentro da visão que a acompanhava há

duas semanas. Havia alguém amarrado à cama, alguém que, ela sabia, seria

torturado e, provavelmente, morto.

— Solte-a, por favor, solte-a! — gritou, em vão. Ouviu uma risada vinda

do hall onde fora atacada, momentos antes. Agora se lembrava de tudo. Lembrava-

se, inclusive de quem a havia agredido. — Por que você está fazendo isso? —

indagou, como se estivesse em posição de exigir uma resposta, ainda tentando dar

um sentido a tudo aquilo.

— Porque eu preciso de você — respondeu-lhe uma voz saindo da

escuridão. — Você é o meu bilhete de saída deste inferno.

Sophie não disse mais nada durante os trinta segundos seguintes. Ficou

apenas observando aquela figura desfilar em sua direção. Era tão confiante em

seus movimentos calculados que Sophie teve certeza de que iria morrer. Uma

pessoa como ela, capaz de manipular toda a situação até agora, não hesitava. Havia

planejado todos os detalhes para aquele desfecho. Tinha domínio sobre tudo e

sobre todos.

— O que ela fez a você? Eu não entendo! — questionou Sophie, vendo

aquela mulher imóvel na cama. Talvez já estivesse morta, pensou, aterrorizada.

— Ela? — Respondeu com outra pergunta, gesticulando um enorme

punhal em suas mãos. A lâmina brilhou sob o feixe de luz que descia de um dos

vários spots embutidos no teto e Sophie suspendeu a respiração. — Você não sabe

nada sobre ela afirmou, rancorosamente, apontando com o punhal para o corpo

seminu atado à cama.

— Não, por favor, não! — implorou Sophie, vendo a ponta da lâmina

passar suavemente sobre a coxa direita da mulher, sem cortá-la, como se estivesse

indecisa por onde começar.

Sophie pensou ter visto uma reação física da pessoa amarrada à sua

frente. Um ligeiro repuxão na perna acariciada pelo aço frio do punhal. Embora a

poltrona estivesse virada para a cama, Sophie não conseguia ver o rosto da mulher

deitada à sua frente. Ele estava virado de lado, totalmente coberto por pesados

cachos cor de cobre, mas Sophie já não tinha mais dúvidas de quem fosse. Só não

entendia o por quê.

— O que você acha de contarmos à Sophie a sua verdadeira história,

hein? — perguntou com ironia, puxando rispidamente a cabeça da mulher pelo

queixo, deixando o rosto finalmente à mostra. Posicionou o punhal junto ao

pescoço da vítima fazendo com que ela se debatesse, tentando libertar os braços e

as pernas, inutilmente. Um grunhido surgiu por baixo da larga faixa de tecido

amarrada à boca da vítima.

Sophie viu um par de olhos faiscando de ódio, uma ira vingativa e doce.

Ela vai matá-la, eu sei que vai e eu vou morrer também. Choramingou, desta vez,

deixando que as lágrimas lhe molhassem o rosto, e pensou em Jesse. Nada disso

estaria acontecendo se não fosse por ele, por aquele maldito sonho e por suas

visões. Tudo começara com Jesse também atado a uma cadeira.

Como a sua vida podia ter mudado tanto em menos de dois meses?

Anne, me perdoe... Você tinha razão... Você sempre tem razão...

Lamentou-se intimamente.

E Sophie viu a lâmina subir e descer com fúria; afiada e certeira. Gritou.

Era só o começo. Ela sabia que outros golpes viriam. Muito sangue seria

derramado nos lençóis brancos daquela cama dossel.

E duas pessoas iriam morrer naquela noite.

Capítulo 2

Quarenta e cinco dias antes.

Os olhos dele encaravam-na sedentos. Passeavam pelo seu corpo quase

perfeito enquanto as pequenas mãos dela alisavam a pele macia das próprias

coxas. Ela sabia que isso o excitava. Subia e descia as mãos devagar enquanto seus

olhos o encaravam desafiadoramente. Ele sentia ondas por todo o corpo e desejava

devorá-la inteira, de todas as maneiras possíveis.

Ela se divertia observando as chamas lampejando em seu olhar. Usava

apenas um vestido prateado curto de tecido delicado e vaporoso que se erguia com

os movimentos arredondados dos quadris, inundando os pensamentos dele de

fantasias, mas ele não podia tocá-la. Suas mãos estavam amarradas aos braços da

cadeira com as meias de seda dela, tiradas minutos antes, assim que o jogo de

sedução começara.

Ela sorria, provocantemente, passando a língua pelos lábios tentando não

parecer proposital, mas é claro que ele sabia que fazia tudo parte do jogo. Sabia e

se excitava; sentia a calça apertando-lhe entre as pernas. Ah, se ela apenas soltasse

suas mãos ou ao menos abrisse o zíper da sua calça! Ele lançou-lhe um olhar

suplicante, mas ela não atendeu ao pedido. Seus olhos se estreitaram

maliciosamente e o dedo indicador ergueu-se no ar, balançando de um lado para o

outro, em negação.

— Você vai ficar aí, amarrado como está. Relaxe e aproveite... —

sussurrou, num sorriso malicioso.

As mãos dela se moveram lentamente erguendo o vestido pouco acima da

cintura, exibindo uma minúscula calcinha preta sobre a pele lisa e dourada. Os

movimentos dos quadris, ora para a direita, ora para a esquerda, salientavam uma

ligeira ondulação na barriga que ele quis lamber e mordiscar.

Delicados dedos de unhas pintadas de vermelho escuro se enfiaram por

baixo do elástico lateral da calcinha e seguiram em direção ao pequeno triângulo

que cobria o essencial de suas partes íntimas.

— Você quer me tocar, Jesse? — perguntou, enquanto as pontas dos

dedos desapareciam entre as pernas. — Quer, não quer? — gemeu ela, e os olhos

dele acompanharam o movimento dos seus dedos num macio vai e vem.

— Quer sentir o meu gosto, Jesse? — gemeu novamente. — Ah... eu sei

que quer... — levou a mão à boca, despudoradamente, sugando dedo por dedo,

com uma expressão maligna e excitante.

— Você está acabando comigo... — resmungou ele em um tom gutural.

— É essa a intenção... — sussurrou de volta, encarando seus olhos

brilhantes cor de mel.

As ágeis e delicadas mãos dela abriram o zíper lateral do vestido,

mostrando parcialmente as curvas do seu corpo. Depois, subiram e se enfiaram sob

as alças do vestido, fazendo-as escorrer pelo ombro e o tecido brilhante deslizou

pelo seu corpo, caindo como uma cascata prateada ao redor dos seus pequenos pés

nus.

Os olhos dele passearam deslumbrados por aquela escultura viva de seios

volumosos e cintura fina. Nem a pequena pinta pouco abaixo do seio esquerdo

passou-lhe despercebida; pareceu-lhe uma gota de chocolate que ele precisava

saborear. Pela primeira vez, tentou se desfazer das amarras em torno aos pulsos

com mais força e ela riu escandalosamente.

— Menino malvado... — censurou, enquanto movia os quadris de um

lado ao outro numa sequência torturante de ondulações que, só então, Jesse

percebeu estar no ritmo da música que tocava em algum lugar no quarto. Um som

que ondulava pelo ar, saindo de um lugar profundo como uma respiração quente e

envolvente.

Ela se virou de costas para ele exibindo suas redondas e fortes nádegas

nuas. Apenas um pequeno fio de elástico negro subia entre elas, terminando em

um minúsculo coração entre as covas abaixo da coluna.

Enquanto o quadril se movia como um pêndulo de carne macia, pequenas

rugas se formavam à altura da cintura. Jesse sentiu o corpo convulsionar de desejo

de apertá-la, mordê-la, devorá-la! Ela lhe dirigiu um último olhar para trás antes de

escorregar as mãos pelo corpo empurrando a calcinha para baixo. O movimento

fez com que o seu tronco se inclinasse para frente elevando ligeiramente os

quadris, dando-lhe uma visão de todo o seu esplendor.

Os hormônios de Jesse explodiram e a força com que ele puxou uma das

mãos fez a meia calça ceder. Finalmente, estava livre e com um movimento rápido

puxou-a pela cintura, fazendo-a cair sentada sobre as suas pernas. Seus cabelos

roçaram-lhe o rosto e ele sentiu o cheiro doce em seu pescoço. Com o braço

direito, envolveu toda a circunferência daquela estreita cintura e, enquanto beijava

e mordiscava loucamente a sua pele, seus dedos procuravam famintos senti-la

entre as pernas.

— O que a sua queridinha Sophie diria sobre nós, agora, hein? —

desdenhou, gargalhando perversamente, mostrando profundas covinhas no rosto.

Toda a sua beleza se desfez e o rosto perfeito tornou-se apenas vulgar e

satisfeito. O corpo, antes magnificamente esculpido, transformou-se em uma

volumosa massa de carne, e a pele macia e quente, agora, era um espelho da sua

alma: fria e áspera.

Sophie acordou do sonho ensopada de suor sentindo o coração galopar até

a garganta. Sentou-se rapidamente como um cão vigilante e procurou Jesse ao seu

lado na cama, mas os lençóis cinza escuros estavam apenas revirados e vazios.

Percorreu os olhos pelo quarto à meia luz esticando o olhar para dentro do

banheiro à sua esquerda. Estava totalmente só. A luz do sol que inundava o

banheiro se desfazia suavemente em uma linha oblíqua, engolida pela escuridão

das pesadas cortinas do quarto.

Embora Sophie tivesse consciência de que aquilo não passara de um

pesadelo, imaginar Jesse e Adrian juntos daquela maneira fazia-a sentir um gosto

acre na boca. Fechou os olhos e as imagens do sonho ainda estavam marcadas em

sua memória, como lama que escorria lenta e pegajosamente pela parede da sua

mente.

Abriu-os novamente e era como se Adrian estivesse ali, em algum lugar

do quarto, esperando por ela; para rir dela, zombar da sua confiança e ingenuidade.

Argh! Gritou internamente, num misto de ansiedade e nojo. Jogou os lençóis para

o lado e pulou para fora da cama.

Adrian fora uma presença incômoda na relação de Jesse e Sophie desde o

início. Foram meses e meses de caçada, sendo Jesse o tesouro que Adrian tanto

cobiçava. Chegara perto, certa vez. À época, Adrian era casada com Steven, o

melhor amigo de Jesse. A amizade dos dois rendeu a Adrian uma vaga de

assistente no escritório de arquitetura de Jesse. Oportunidade que usou não

profissionalmente, mas para criar infinitas armadilhas para arrancá-lo de Sophie,

sem se importar nem um pouco com o próprio marido. Pobre Steven, fora um

choque quando soube que Sophie flagrara a sua esposa beijando Jesse na boca, em

um café ao lado do escritório.

O episódio voltava à tona em sua mente e ela quase pôde sentir a palma

da mão arder da bofetada que dera em Adrian naquela noite .

Pare de remexer no passado. Não vai levar a nada!

Abriu a porta do quarto e a claridade da sala ao fundo do corredor agrediu

seus olhos, causando-lhe uma ligeira vertigem. Apoiou uma das mãos na parede e

esperou que a tontura passasse. Caminhou lentamente pelo corredor passando pelo

quarto que Jesse transformara em sala de leitura e TV; seguiu até a área principal

da casa e estava tudo assustadoramente silencioso. Caminhou pela ampla sala,

mais parecido com um loft com seu imenso vão livre, sentindo-se como se

estivesse sendo vigiada. Sentia uma presença observando-a e lutou contra isso.

O pé-direito alto das paredes de tijolos avermelhados entrecortadas por

longas janelas verticais sempre lhe deram uma deliciosa sensação de liberdade,

mas não agora. As cortinas em suave tom caramelo que ela tanto adorava e que

esquentavam o ambiente, contrastando com as luminárias metálicas que pendiam

de fios de aço do teto rústico, pareceriam túnicas mortuárias. Sentiu um ligeiro

arrepio e esfregou as mãos nos braços. Foi até o balcão da cozinha e encontrou um

bilhete.

“Bom dia, meu amor. Não quis te acordar. Fui correr e volto logo. Amo

você, J.”

Nem as palavras “meu amor” e “amo você” fizeram-na se sentir melhor.

Será que Jesse está mesmo no parque? Questionou uma vozinha diabólica. O

pensamento lhe pareceu tão ridículo quanto voltar a se preocupar com Adrian, uma

predadora de homens fáceis, coisa que Jesse nunca fora. Ele já lhe dera provas

suficientes do seu amor. Esteve ao seu lado durante os seus piores momentos nos

últimos dez meses, enquanto ela sofria derrames e lutava para não morrer. Ele não

seria capaz de uma traição como aquela; correção: ele não seria capaz de nenhuma

traição. Ponto final.

Sophie não precisou se esforçar para se lembrar de quantas vezes Jesse a

surpreendera com presentes inusitados, demonstrações de afeto e do quanto ela era

importante em sua vida. Apenas cinco meses atrás lhe dera uma viagem de

surpresa a Giethoorn, uma pequena cidade conhecida como a Veneza Holandesa,

onde as ruas são formadas por pequenos canais. Desdobrara-se para surpreendê-la

somente para que Sophie pudesse patinar sobre as águas congeladas dos canais.

— Você fica radiante patinando no gelo — comentara Jesse, com um

sorriso abobalhado no rosto, quando estavam em uma das inúmeras pistas de

patinação de inverno espalhadas por Londres, um mês antes de levá-la a

Giethoorn.

Sophie sorriu, soltou os dedos entrelaçados nos dele e rodopiou no ar,

caindo com leveza sobre a lâmina afiada sob seus pés.

— Patinar me faz sentir livre — respondeu.

— E esquiar, não?

— Ah, é claro, mas, ainda assim, prefiro a leveza e o deslizar das lâminas

ao impacto e à velocidade dos esquis — seus olhos brilharam como os de uma

criança. — Pena que as pistas sejam tão pequenas e com tanta gente. Seria bom

poder ir adiante, sem limites.

Foi o suficiente para Jesse começar a planejar a surpresa. Esperou o

momento certo, monitorando o clima na pequena Veneza e, quando a temporada

de patinação sobre o canal começou, reservou hotel e passagem de avião para três

dias depois. Apareceu para buscar Sophie no trabalho com a desculpa de que iriam

pegar um cliente dele no aeroporto. Por mais que Sophie fosse de longe uma boa

anfitriã, tentava fazer-lhe companhia sempre que possível. Ele fazia tudo por ela e,

aos poucos, Sophie aprendia a retribuí-lo.

Chegando ao aeroporto, contou-lhe que havia um presente esperando por

ela, mas que teriam que ir de avião.

— Jesse, você está louco? Avião? Para onde estamos indo? — perguntava

entre risos de ansiedade.

— É perto, não se preocupe — respondeu, com o olhar travesso, enquanto

tirava do portamalas uma bolsa de viagem que Anne havia preparado no dia

anterior. A melhor amiga de Sophie era, também, uma cúmplice nos esquemas de

Jesse, quando se tratava em surpreender a amiga.

Sophie só descobrira que o destino era a Holanda quando estavam na sala

de embarque, mas jamais imaginaria que estariam indo a Giethoorn! E, para

aumentar a sua expectativa, Jesse alugara um carro em Amsterdã, de onde partiram

rumo ao pequeno vilarejo, uma viagem de quase duas horas.

A aventura terminara com um jantar em um restaurante italiano chamado

Fratelli e passaram a noite em um hotel romântico à beira do canal. Pouco antes de

dormir, Jesse abraçou-a com carinho, afagando-lhe os cabelos e, ao som do estalar

da madeira na lareira incandescente, disse-lhe:

— Se ao menos você soubesse o quanto me deixa feliz vê-la sorrindo... —

beijou-lhe a testa. — Eu sempre farei qualquer coisa para ver você feliz. Qualquer

coisa...

Qualquer coisa...

A voz de Jesse ecoou em sua mente enquanto a imagem de Adrian de

calcinha tornava tudo bem menos romântico. Foi apenas um sonho. Um estúpido

sonho! Repetiu para si mesma. Abriu a geladeira e pegou uma garrafa de chá

gelado. Versou o líquido dentro do copo e o bebeu num grosso gole, despertando

qualquer minúsculo pensamento que ainda estivesse preso àquele sonho infernal.

Embora soubesse que aquilo não era real, uma coisa a incomodava.

Sophie jamais sonhava ou raramente se lembrava dos sonhos. Normalmente eram

visões, imagens que retratavam sentimentos reais. Há três meses não tinha uma

visão. Estava quase começando a se sentir uma pessoa normal e estava gostando

daquilo.

Fechou os olhos e rendeu-se, com tristeza, à verdade. À única verdade

que conhecia. Não foi um sonho. S uspirou, embora não tivesse motivo nenhum

para duvidar da fidelidade de Jesse. Sabia disso melhor do que gostaria de admitir.

E só poderia saber porque havia mexido nas correspondências dele tempos atrás.

Era feio, era odioso, ela sabia disso e não se orgulhava nem um pouco. Havia

monitorado seus emails logo após o ocorrido no bar e nunca vira nada que pudesse

testemunhar contra ele. Havia sempre emails de Adrian, mas Jesse nunca os

respondia.

Enquanto se debatia entre confiar em seus instintos ou fechar os olhos

para eles, Sophie ouviu a porta se abrir e viu Jesse entrar.

— Já de pé? — perguntou ele com um sorriso relaxado nos lábios.

Jesse era dono de uma beleza quase ofensiva. Ombros largos, físico de

atleta, rosto quadrado e uma boca cuidadosamente esculpida. Os olhos cor de mel

emanavam um brilho tão, tão sexy! Seus cabelos castanhos claros ligeiramente

compridos num corte reto estavam rebeldes e suados.

Sophie foi até ele sentindo o coração apertado e abraçou-o com força,

fazendo-o quase perder o equilíbrio enquanto abandonava o celular e as chaves no

balcão da cozinha. Queria muito acreditar que ele nunca seria capaz de uma atitude

como aquela.

— OOhhh... eu também senti a sua falta — sussurrou em seus ouvidos,

envolvendo-a em seus braços, beijando-lhe os cabelos. — Você já tomou café?

— Não, estava esperando por você. — Jesse afastou-a ligeiramente,

olhando-a nos olhos. Havia algo diferente em sua voz. Sophie parecia... insegura?

Impossível.

— Está tudo bem? — perguntou, desconfiado.

— Claro — mentiu tão descaradamente que ele franziu as sobrancelhas e

ela se afastou. — Vou dar uma olhada nos emails enquanto você toma banho, tudo

bem? — perguntou, virando-se de costas para ele.

— Sem problemas — concordou, vendo Sophie já seguir em direção ao

escritório, do lado esquerdo da sala. Jesse a achava incrivelmente atraente com as

calças de pijama xadrez dele e uma regata branca colada ao corpo, evidenciando

suas curvas. Controlou-se para não correr atrás dela, pegá-la em seus braços e

fazer amor com ela onde quer que fosse.

Foi tomar banho.

O escritório era um cômodo pequeno e decorado com peças essenciais.

Um sofá de couro preto de dois lugares, um tapete bege e uma pequena mesa de

mogno com uma cadeira confortável também de couro preto atrás dela. Das

paredes pendiam poucos e pequenos quadros, todos em preto e branco, e a janela

era coberta por uma cortina cor âmbar, acompanhando os tons da sala de estar que,

à luz do dia, tingia de dourado o ambiente.

Sophie acomodou-se na cadeira e o couro rangeu suavemente sob o seu

traseiro. O laptop já estava ligado e assim que a proteção de tela se desfez ela

percebeu que o programa de email estava aberto. Normalmente, minimizaria a tela

e seguiria para a página do seu webmail, mas algo havia mudado dentro dela. Uma

tentação de espiar as correspondências de Jesse cutucou aquela parte secreta que,

aparentemente, só as mulheres têm. Algo sutil entre a intuição e a curiosidade.

Cerrou os olhos tentando afastar as imagens grotescas de Adrian de

calcinha de sua mente, mas quando moveu o mouse para minimizar o programa,

seus olhos foram atraídos por uma mensagem.

Remetente: Adrian.

Assunto: Saudades.

Sophie não conseguiu desgrudar os olhos da mensagem, como se luzes de

neon piscassem sobre ela e uma voz de vendedor ambulante gritasse em um

megafone. Venha, venha! Você não pode perder esta chance!

Sophie revirou os olhos tentando ganhar tempo suficiente para que o seu

desejo de abrir a mensagem desaparecesse, mas ele só aumentou. Por fim abriu-a,

sentindo o coração parar de bater de expectativa.

Eram poucas linhas e Sophie, por um nano segundo, sentiu-se aliviada.

Mas só até começar a ler.

Oi. Tudo bem com você?

Ficou quietinho de repente! Não me falou mais nada sobre o vídeo.

Perdeu a língua?

Espero que não. Faria muita falta...

Saudades.

A.

Sophie sentiu a garganta secar e o coração voltara a bater, sacudindo

dentro dela. Leu novamente cada palavra. Não podia ser verdade. Jesse e Adrian

não podiam estar tendo um caso. Fechou a mensagem. As mãos tremiam. Queria

vasculhar tudo antes que ele saísse do banho.

Queria mesmo?

Sim... Não! .. .duelavam as vozes.

Merda, Jesse!

A confusão de sentimentos fazia a mente de Sophie girar como um peão.

Os olhos corriam tão rapidamente pelas mensagens que ela começou a ficar tonta e

percebeu que não estava conseguindo se concentrar. Respirou fundo. Voltou ao

início e encontrou mais um email de Adrian; e mais outro, outro e outro. Seu

coração engasgou. Um email, em especial, chamou-lhe a atenção. Fora enviado

uma semana antes, com um arquivo em anexo. Era um vídeo. Não, por favor, que

não seja o que eu estou pensando... Abriu-o imediatamente e teve uma sensação

de déjà vu.

À sua frente estava Adrian remexendo os quadris, virando-se, levantando

o minúsculo vestido prateado, enfiando a mão dentro da calcinha e toda aquela

performance vulgar que Sophie havia visto em seu sonho.

O que você fez Jesse? O que você fez conosco?

Por mais que ela quisesse fechar o vídeo ou desviar os olhos da tela, não

conseguia. Ela tinha que ter certeza, como se já não tivesse desde que acordara.

Assistiu até o final, mas o vídeo não terminava com Jesse puxando-a para o seu

colo, como ela esperava. Ao despir a calcinha, Adrian se virava para a câmera e

sorria. A última imagem, congelada à sua frente − zombando dela, encarando-a

com ar de vitória −, era o rosto redondo de Adrian com sua covinha grotesca.

Sentiu a garganta queimar e uma corrente elétrica correr por todo o corpo

fazendo-a tremer por dentro. A respiração saiu quente e acelerada pelas narinas,

que se abriam e encolhiam como um touro furioso.

Eu odeio você, Jesse. Odeio vocês dois!

Seria capaz de saltar sobre Adrian se esta estivesse à sua frente. Seria

capaz de surrá-la, destruir de uma vez por todas aquele rosto de lua cheia. Poderia

matá-la. Mataria ambos! Aliás, desejava isso mais do que qualquer outra coisa e,

lendo a mensagem que Adrian enviara junto ao vídeo, sentiu como se o sangue em

suas veias fosse uma corrente de mercúrio líquido transformando o seu corpo em

uma massa compacta de ódio.

Olha o que eu tenho pra você hoje, meu querido. Aproveite!

PS: Não seria ótimo se Sophie entrasse na brincadeira? Fico excitada só

de pensar!

Nenhuma de suas vozes interiores emitiu qualquer comentário. Um gosto

azedo subiu-lhe à garganta e Sophie teve certeza de que iria vomitar, mas não

perderia o controle tão facilmente. Uma merda de traição não vai me derrubar,

Adrian. Não mesmo! Respirou fundo, deixou o ar inflar os pulmões e forçou a

adrenalina a baixar.

A decepção começava a superar a raiva e Sophie foi invadida por uma

fria certeza: ela queria descobrir tudo. Foi à pasta de itens enviados e procurou,

com o coração endurecido, a resposta de Jesse àquele vídeo. E lá estava ela,

enviada no mesmo dia.

Adorei o vídeo, pena que Sophie não aceitaria a nossa proposta.

J.

Apenas isso. Uma única frase jogava todas as certezas que ela tinha sobre

Jesse no lixo; surrava-lhe o orgulho e destruía toda a confiança depositada nele. Os

olhos queimavam, não de raiva; não mais de ciúmes, mas de decepção. Uma dor

atingia algo profundo, algo que Sophie desconhecia.

Farei qualquer coisa para ver você feliz..., ecoava a voz de Jesse no

porão de suas lembranças enquanto a outra frase bem à sua frente − Adorei o

vídeo, pena que Sophie não aceitaria a nossa proposta. − destruía as boas

lembranças á marteladas, seca e friamente.

Por um instante pensou que fosse uma armação de Adrian. Tinha que ser.

Jesse não faria aquilo. Ou faria? A adrenalina misturada à raiva aguçou os seus

sentidos e os olhos de Sophie foram encontrando, uma após a outra, várias

mensagens. Ela não pensou em mais nada. Apenas agiu. Começou a encaminhar

para o próprio email todas as mensagens trocadas entre eles. Queria ler todas, mas

não naquele momento. Não ali, nem naquela hora, arriscando que Jesse entrasse e

a pegasse em flagrante. Mais do que isso, queria sumir dali, mas não antes de fazer

uma última coisa.

Fechou a tela do laptop com força, produzindo um som agudo, e

levantou-se rapidamente. A parte de trás dos joelhos empurrou violentamente a

cadeira de couro para trás fazendo-a bater contra a parede. Sophie se desviou

agilmente da mesa e saiu a passos largos, sentindo a maldita intuição feminina

cutucar novamente algum lugar do seu sistema nervoso.

Correu até o balcão da cozinha, pegou o celular de Jesse e buscou as

últimas chamadas. A mais recente durara vinte e cinco minutos. Não conhecia o

número, mas havia sido uma hora atrás. Jesse nunca atendia ou fazia ligações

quando se exercitava, mas lá estava ela. Uma ligação recebida e que durara quase

meia hora. Imediatamente, chamou o número de volta e apenas dois toques depois,

uma voz feminina entrou em seus ouvidos.

— Ah, eu sabia que você ia mudar de ideia... — Sophie jamais esqueceria

a voz de Adrian; irritantemente fina e desafinada.

Com o celular ainda grudado à orelha, levantou os olhos e viu Jesse

entrando na sala pelo corredor.

— Está tudo bem, querida? — perguntou ele com o olhar transparente

como o de um bebê.

Jesse estava sem camisa, com os cabelos molhados, exalando o cheiro

fresco do banho e usando apenas uma calça preta de ginástica. Em outra situação,

Sophie o acharia deliciosamente provocante com aquele abdômen e peitorais

perfeitamente modelados, mas o olhar dela nem passou perto dos seus dotes

físicos. Encarou-o tão friamente que Jesse parou.

— O que aconteceu? — indagou, com uma expressão assustada e

confusa.

Sophie bateu o celular com força na bancada de aço escovado sem tirar os

olhos de Jesse, que suspirou. Ela sabia que os pensamentos dele corriam

rapidamente do celular para ela, para Adrian e para a sua traição. A sua merda de

traição! Podia sentir os batimentos cardíacos dele acelerando e o suor invisível

correndo pelas têmporas. A boca secando enquanto a garganta se fechava. Sophie

desejou que ele se afogasse na própria saliva, caso ainda lhe restasse alguma.

Jesse retomou os passos em sua direção, calmamente, como se estivesse

prestes a dominar um animal selvagem.

— Querida, você está bem? — perguntou, com hesitação.

À medida que ele se aproximava, o olhar dela passava do desprezo à

fúria. Cada passo que ele dava em sua direção ela recuava dois, em silêncio.

— Sophie, pelo amor de Deus, fale comigo!

Sophie já sentira muita raiva antes, em diversas situações, mas nada se

comparava ao que sentia naquele momento. Era tudo culpa sua. Depositara

confiança demais em uma pessoa, algo que nunca fizera antes. Um fio gelado

escorreu pelo seu estômago.

Jesse sentiu o ar frio exalando da respiração dela e suas palavras recuaram

para dentro da garganta. Seja o que for que ele estivesse para falar, não disse.

Ainda sem desgrudar os olhos dele, Sophie tateou o assento do sofá em

busca da bolsa que havia largado ali na noite anterior. No mesmo sofá onde

fizeram amor e trocaram declarações apaixonadas. Momentos maravilhosos que já

estavam se tornando apenas um vago traço em sua memória.

— Sophie, por favor, fale comigo. Eu...

Ela não o deixou terminar, seguiu quase correndo até a porta, sob o olhar

ainda incrédulo e impotente de Jesse. Sophie pegou o par de sapatos ao lado da

porta de entrada e foi embora sem dizer uma palavra. Ele tentou alcançá-la, mas a

porta fechou quase em seus dedos. Ele a abriu rapidamente ouvindo os passos

acelerados de Sophie descendo as escadas.

— Sophie! Sophie! — chamou-a, em vão.

Ela desceu as escadas pulando os degraus de dois em dois, chegando ao

térreo em poucos segundos, como se a sua vida dependesse daquilo. Ao sair do

prédio sentiu uma brisa fresca no rosto e foi como se o ar a despertasse de um

transe. Só então, sentiu vontade de chorar. Concentre-se! Ordenou a si mesma.

Calçou rapidamente o par de sapatilhas e subiu correndo pela rua pouco

movimentada.

Virou à direita e continuou, sempre correndo, sem pensar que a sua casa

ficava a quase cinco quilômetros de distância. O impacto dos pés no chão produzia

uma onda intensa e ritmada em todo o seu corpo, despertando-a daquele pesadelo,

das imagens de Adrian, do olhar de Jesse, das palavras de Jesse. Ela queria fugir

de tudo aquilo, queria fugir de si mesma. Se não fosse pelo seu maldito dom das

visões, ela jamais teria descoberto os segredos entre eles.

Suas pernas já se movimentavam por inércia. Sophie só sentia a bolsa

bater contra a lateral da sua coxa, rodopiando no ar e batendo novamente. Foi

neste momento que se deu conta de que estava com o seu laptop na bolsa o tempo

todo. Não precisava ter usado o computador de Jesse, mas o fizera,

inconscientemente, à procura de garantias porque, no fundo, ela sabia, desde o

início, que aquilo nunca fora somente um sonho. Ela sabia o que encontraria

naquele computador e odiou-se por isso. Sentiu algo úmido em seu rosto e,

rapidamente, passou a mão pelas bochechas enxugando o fio de lágrimas. Não

choraria por Jesse. Não choraria por si mesma. Não choraria, e basta.

O celular soou abafado em sua bolsa e ela não atendeu. Seus passos

aceleravam ainda mais à medida que a tristeza se transformava em um aperto

constante e cada vez mais forte em seu peito. Eu o odeio por isso, Jesse. Você não

tinha o direito de fazer isso comigo, não tinha o direito! Sua voz, mesmo que

muda para o resto do mundo, transformava-se de um grito enfurecido a uma fria

sentença de morte. A morte de um sentimento, da ideia de uma vida a dois e de

todas as coisas românticas e idiotas que isso representasse.

Sophie engoliu centenas de lágrimas de uma só vez. Havia aprendido isso

com o pai quando a espancava e a obrigava a ficar calada para que ninguém a

ouvisse. Havia aprendido muitas coisas por causa dele: como se fechar feito uma

ostra, afastar-se de tudo e de todos e isolar-se em seu mundo restrito de dor e

abandono. De Sophie, os homens tiveram apenas o que ela quis, durante o tempo

em que ela os desejara e nada mais. Quando um relacionamento terminava (se é

que podiam ser considerados “relacionamentos”), nunca mais voltava a sair com

mesma pessoa. Deixava-os apenas com água na boca.

Fora assim até acreditar em Jesse. Até abrir-se totalmente para ele. Era

tão fácil estar com Jesse... A vida era tão simples e segura ao seu lado... E ele a

aceitava como ela era; amava-a como ela era.

Não, não amava, sua idiota! Você, por outro lado, deixou-se levar.

Agora, veja só! Repreendeu-se. Mas nunca era tarde para enfiar os sentimentos

novamente nas profundezas da sua alma, junto com as lembranças de seu pai e de

todas as mentiras sobre o seu passado. E ela sabia como fazer isso. Sentiu as

chamas que a incendiaram tantas e tantas vezes ao lado de Jesse se apagar em um

único e gélido sopro que zuniu em seu ouvido. Um arrepio percorreu-lhe o corpo.

Sophie corria sem perceber que o que deixava para trás eram mais do que

ruas, casas e carros. Eram minúsculos pedaços de si mesma e, quando estava longe

o bastante de Jesse e de tudo o que ele representava, desacelerou os passos com o

maxilar tão enrijecido que lhe doía tanto ou mais do que o coração.

Uma única frase ecoava em sua mente: “pena que Sophie não aceitaria a

nossa proposta”. E a outra frase, dita quando ela estava nos braços de Jesse diante

da lareira na romântica vilazinha sobre as águas congeladas, não se fez mais ouvir.

Nem agora, nem nunca mais.

Mais de meia hora depois de uma corrida frenética, Sophie chegava a

casa, entorpecida e ofegante. Era como se sua mente estivesse envolta em

hidrogênio líquido. Havia apenas uma fria e úmida névoa entre ela e a sua ira;

entre ela e a sua dor. Virou a chave na fechadura e, tão logo entrou, Anne pulou

em seu pescoço.

— Ah, Sophi, eu estava tão preocupada! Você não atendeu à minha

ligação! — Quando Anne soltou-lhe o pescoço, logo notou que Sophie usava

calças de pijamas masculinas, regada sem sutiã e calçava sapatilhas. — Eu sabia

que alguma coisa estava errada. Eu sabia — falou para si mesma. Anne tinha

dessas coisas, de sentir à distância quando Sophie estava com problemas.

— Está tudo bem... — murmurou, sem entonação alguma, controlando os

batimentos cardíacos muito acima do normal.

Mais baixa que Sophie e com curvas mais acentuadas, Anne sempre

cuidara da amiga desde que se conheceram no orfanato, aos sete anos e, por isso,

sabia que ela estava mentindo. Vinte anos de convivência lhe garantiam essa

segurança.

— Ah, mas você não está bem mesmo! — exclamou, caminhando até a

cozinha, verificando o molho do macarrão na panela. Anne sempre cozinhava

quando estava agitada, embora ainda fossem onze e meia da manhã de um

domingo de sol. — Pode começar a falar!

Sophie mal sabia o que dizer. Deveria começar pelo vídeo, pelo

telefonema ou pela frase de Jesse a Adrian? Ou, talvez, pelo começo, onde tudo

sempre começa em sua vida: uma visão. Uma merda de uma visão!

— Pelo amor de Deus, Sophi! O que aconteceu? — implorou Anne,

paralisada do outro lado do balcão da cozinha olhando para Sophie ainda em pé no

meio da sala, com os cabelos quase negros alvoroçados, as bochechas ainda

vermelhas da corrida e a pele brilhando de suor nos braços nus.

— O Jesse e a Adrian. Eles têm um caso. — As palavras mal saíam de

sua boca. — Eu li os emails... e...

— O que? — interrompeu Anne, com um grito estridente.

— A Adrian mandou um vídeo dela dançando, fazendo um strip-tease, e

dizendo ao Jesse que desejava um sexo a três... — falou, quase mecanicamente,

estreitando os olhos — pelo menos eu acho que era isso o que ela quis dizer com

aquele comentário. — Anne apoiou no balcão vendo Sophie falar, com um olhar

duro e vazio. — E ele respondeu a mensagem. Jesse disse que adoraria fazer um

ménage, mas era uma pena que eu não aceitaria... — virou-se de costas e seguiu ao

sofá.

Anne buscou alguma palavra, qualquer uma, mas todas haviam fugido de

sua boca. Ficou com os lábios entreabertos, tentando dizer alguma coisa, até que

emitiu um doloroso gemido.

— Ooohhh... Sophi... eu... — soltou a vasilha que tinha nas mãos,

desajeitadamente sobre a pia, e foi até Sophie. — O que o Jesse falou sobre isso?

— Eu não falei com ele, apenas saí de lá — respondeu, quase

sussurrando. — Eu não quero nunca mais vê-lo ou ouvi-lo, Anne.

Anne podia sentir as emoções de Sophie sendo controladas sob aquela

ausência de expressão, e isso não era nada bom.

— Mas isso não é coisa do Jesse — ponderou.

— Não, Anne! — exclamou, interrompendo qualquer tentativa de Anne

de acalmar a situação. — Nem tente!

— Ele jamais faria isso a você! — exclamou, indignada. Se um dia

criassem um fã clube de Jesse, Anne seria a fundadora. Além do mais, ela o

conhecia muito bem para não engolir fácil aquela história.

— Anne, eu vi o vídeo e li os emails. Você acha que estou ficando louca?

— perguntou em um tom ameaçador, virando-se de frente para a amiga, no sofá.

— Não, claro que não. Olha... Eu posso esperar qualquer coisa da Adrian,

até mesmo um vídeo pornô nojento e vulgar para tentar seduzir o Jesse, mas ele...

— Ele é um merda, Anne. Todos são uns merdas, alguns mentem melhor

do que outros. Só isso.

Sophie levantou-se do sofá, caminhando sem rumo pela sala e Anne se

calou. Brandon já havia mentido para Anne uma vez. Escondera que tinha uma

filha e que era separado, mas isso fora quando a relação deles ainda estava no

começo. O segredo durara apenas algumas semanas. Fora isso, era um

companheiro maravilhoso.

— Sophie, você tem todo o direito de estar com raiva, mas pense bem...

Anne mal pôde terminar o raciocínio e o celular de Sophie tocou. Bring

me to life, a música preferida dela, e que anunciava o número de Jesse, soava-lhe

agora como uma provocação. Ela quis pegar o celular e jogá-lo contra a parede,

mas não o fez. Enfiou a mão na bolsa, arrancou-o com força, colocou no

silencioso, deixou que Jesse urrasse sem ser ouvido e se levantou.

— Você vai ter que falar com ele uma hora. Por que não dá uma chance

de ele se explicar?

— Anne, não — respondeu, taxativa, colocando o celular sobre a mesa

redonda da pequena sala de jantar. Anne foi até ela.

— Venha, vamos beber alguma coisa — disse, pegando-a pelo braço e

acomodando-a na banqueta em frente ao balcão da cozinha.

Serviu-lhe um copo com água, sentou-se à sua frente e pousou as mãos

sobre as dela. Sophie bebeu a água, olhou para Anne e sorriu. Um sorriso tímido e

infeliz, mas sorriu. Mil imagens passaram em sua cabeça de quando ambas eram

garotinhas e Anne sempre a amparava. Até mesmo em seus piores e mais difíceis

momentos, Sophie sempre pôde contar com ela. Para tudo e para sempre, era o

lema de uma amizade nascida no abandono e na dor.

Depois que Anne conhecera Brandon e a relação de Sophie com Jesse se

estabilizara, parecia que ambas haviam encontrado os próprios caminhos

independentes uma da outra. Agora, Sophie não faria Anne refém dos seus

problemas novamente. Por isso, forçou um sorriso mais largo, baixou a cabeça e

suspirou.

— Sabe de uma coisa? — começou, engolindo a própria dor e mudando

de assunto como se tivesse trocado o canal da televisão. — Acho que devemos

planejar as nossas férias deste ano. O que você acha?

Anne quis dizer “Férias? Como você pode pensar em férias agora?”, mas

não falou nada. Sorriu, levemente. Conhecia Sophie e sabia ler nas entrelinhas a

clara mensagem: “não quero mais falar sobre isso”. Portanto, apenas concordou.

— Claro, minha amiga — ela sabia que aquele era um dos momentos

quando Sophie empurrava as suas dores para um lugar profundo e exclusivo onde

só mais tarde − e sozinha − ela as confrontaria novamente.

Enquanto Anne servia-lhes um macarrão que cheirava a azeite e

manjericão, passaram a planejar as férias que estavam a menos de um mês.

Normalmente, tiravam férias juntas em Setembro e aproveitavam para comemorar

o aniversário de Anne. Mas neste ano, ela comemoraria com Brandon, por isso, os

planos teriam que ser diferentes.

Planejavam passar as duas últimas semanas de agosto juntas, pouco

depois do aniversário de Sophie. Estavam em dúvida entre Finlândia e Itália.

Sophie preferia o frio nórdico, claro, e Anne, obviamente, o verão italiano. Havia

ainda o fato de Thomas − o meio irmão de Sophie − vir da África do Sul passar

um período com elas. Dependiam de uma resposta dele para decidir exatamente

quando e onde passariam aqueles quinze dias de férias.

Sophie estava quase aceitando a viagem à Itália quando ouviu um

chamado em sua mente.

Ei, maninha! — A voz de Thomas soprou em seu cérebro como uma brisa

quente e úmida de verão, causando-lhe um arrepio excitante no couro cabeludo.

Enquanto uma parte de Sophie discutia com Anne os prós e contras sobre

a Itália, a outra respondia ao irmão com alegria. A telepatia entre ambos havia se

tornado parte fundamental em suas vidas.