As Maluquices do Imperador por Paulo Setúbal - Versão HTML

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AS MALUQUICES DO IMPERADOR

Paulo Setúbal

APRESENTAÇÃO

Devo à gentileza vencedora de Júlio de Mesquita Filho a honra de haver ingressado nas

colunas do "O Estado de São Paulo". Colaborei durante meses na grande folha.

Colaborei, com orgulho, no jornal-padrão, legítima vaidade da imprensa brasileira.

Dessa colaboração, nasceu este livro. Botei-lhe o nome, um tanto beliscante, de

Maluquices do Imperador. Dentro dele, diga-se a verdade, nem tudo são maluquices. Há

muitas páginas inocentes. Mas, isso não estorvou o batismo: as inocentes que paguem

pelas pecadoras! Que fazer? É a lei da nossa injustiça eterna...

Críticos de trabalhos meus anteriores, notadamente o Sr. Aggripino Griecco, censuram-

me o colocar, no fim das páginas, a citação das passagens onde apanhei a anedota ou o

fato curioso. Acham que isto afeta o texto. É "mostrar os andaimes do edifício". Não fiz

desta vez, citação alguma. Mas, é bom que o leitor saiba, desde agora, não haver eu

inventado a substância de nenhuma das histórias que aí vão. Catei-as em vários autores.

Uns já embolorados, outros de uso corrente. Serviram-me de fontes, entre muitos outros:

Melo Morais, pai, ("Crônica geral", "História das Constituições", "Brasil-Histórico") H.

Raffard ("Pessoas e Coisas do Brasil") A. Augusto de Aguiar ("Vida do Marquês de

Barbacena") Francisco Gomes da Silva, ("Memórias Oferecidas a Nação Brasileira"),

Vasconcellos Drummond ("Memórias"), D. Vieira ("Memórias Históricas"), A. Rangel,

("Textos e Contextos"), Alberto Pimentel ("A Corte de D. Pedro IV"), Loureiro ("Cartas do

Brasil"), etc.

São Paulo, 926

PAULO SETÚBAL

BRASIL-REINO

7 de março de 1808. A nau Príncipe Real, com a flâmula azul branca panejando ao vento,

entra galhardamente pela barra a dentro. Todos os tripulantes, sacudidos por áspero

bombardeio de surpresas, derramam olhos escancarados sobre o panorama

embebedante, único:

- Que lindo! que lindo!

No ar que faisca, debaixo dum céu entontecedor, azul de Sêvres, o sol escachoa

avanhandavas de ouro. E sob a luz fúlgida, dentro da sua virgindade selvagem, recorta-se

em coloridos fortes a paisagem - maravilha, Águas e morros! Tudo pródigo, tropical,

cheirando a terra moça, ineditamente belo. Como pássaros verdes, papagaios enormes

pousados à tona dágua, surge das espumas um bando arrepiado de ilhas. Que pitoresco!

E toda gente, na amurada, a apontar com o dedo:

- É a "Rasa"!!

- A "Comprida!"

- A "Redonda"!

- Os "Dois Irmãos"!

- As "Palmas"!!

Ao longe, magnífico bugre americano, lá está o Gigante de Pedra, estendido no chão,

tatuado, brônzeo, com a sua empolgante monstruosidade rústica. Além, encoscorado e

bravio, caboclamente brasileiro, o Corcovado pintalga-se de mataria brava, a paulama

enroscada no cipoal, os nhacatirões gritando pelo carnavalesco das flores. Acolá,

esbeltíssimo, núncio da Terra Nova, o Pão de Açúcar arremessa nas nuvens,

arrogantemente, o seu pico de pedra, que fura o céu.

E o Príncipe Real, enfeitado de bandeirolas e de galhardetes, rasga com bizarria a

ondada mole.

As fortalezas da terra, avistando-o, içam as cores portuguesas. E sob o cascatear do sol,

na alegria olímpica da manhã, estruge de súbito uma atroada frenética. É a salva real que

estronda, cento e um tiros pipocando, sinos a carrilhonarem, roqueiras, estrépito de

rojões, zabumbas, charangas, fogos de artifício que riscam o ar.

De todos os lados, às dezenas, já os escaleres engaivotam as águas crespas da baia.

Remam com fúria, rumo da nau que entra. Um deles, leve barquito com grandes

embandeirados, alcança-o logo. Chega-se ao casco. Tomba-lhe da amurada a escadinha

de bordo. Sôfrego, os olhos chispando, sobe por ela um passageiro. É José Caetano de

Lima. É o primeiro carioca que se embarafusta pela nau. Os tripulantes abrem alas. E o

feliz morador do Rio de Janeiro, ao passar, corre uns olhos atordoados pelo bando

suntuoso.

Quanta gente luzida! São todos fidalgos do mais velho sangue. As damas, em grande

decote, os cabelos encaracolados, chapéus de plumas berrantes, faiscam de sedas e de

pedrarias. Os cavalheiros, hirtos, espartilhados, as casacas azuis de riço claro, trazem o

peito estrelado de crachás. Apenas, com um destoar chocante, vêm dum beliche gritos

estranhos, gritos roucos de mulher presa:

- Não me matem! Não me matem!

O embarcadiço continua varando a ponte. Em meio da turba, por entre a mescla rutilante

de fidalgos e fidalgas, destaca-se um casal muito grave, muito protocolar, de que os

demais circunstantes se distanciam com respeito. Ele é gordo, muito rechonchudo,

bochechas estufadas, olhos parados, de suíças. Ela é áspera, feições de homem, bigodes

no lábio, pêlos no rosto, pêlos na mão, pêlos por toda parte. Ele, o molengo é D. João VI;

ela, a cabeluda, é D. Carlota Joaquina. São os regentes de Portugal.

José Caetano de Lima precipita-se para os dois. Tomba-lhes aos pés. Beija-lhes as mãos

vitoriosamente: é o primeiro fluminense que, tonto de gozo, tem a ventura de prestar

vassalagem aos fujões reais!! Do beliche soturno, porém, ecoa subitamente a estranha

voz:

- Não me matem!

É D. Maria, a louca. É a rainha de Portugal que chega aos berros, encarcerada,

enfunebrecendo a nau:

- Não me matem! Não me matem!

Assim, naquele dia gloriosamente radioso, por entre ribombos formidáveis, com

espavento e gala, aportava ao Brasil, escorraçada por Napoleão Bonaparte, a família Real

Portuguesa.

* * *

Napoleão Bonaparte e o embaixador de Espanha, trancados no salão nobre de

Fontainebleau, assinam um tratado secreto. O Imperador está irritadissimo. Ferreteado

por aquela idéia avassaladora, obcecante, de matar a Inglaterra pelo isolamento,

Bonaparte não admite que o misérrimo Portugal, depois de decretado o bloqueio, ainda

tenha o atrevimento de conservar as suas amizades com a ilha. Eis porque, debruçado

sobre o mapa, o lápis em punho, o corso retalha o reino dos Braganças em três pedaços.

Acintoso, com a maior sem-cerimônia, distribuiu-os assim: o norte, que ele denomina a

"Lusitânia Setentrional", destina galantemente a Maria Luísa de Bourbon e Parma,

despojada agora do trono da Etrúria; o centro, o "Principado dos Algarves", oferece ao

príncipe da Paz, o famoso espanhol Godoy; o sul, a "Lusitânia Meridional", toma-o

singelamente para si. Destarte, juntamente com a Espanha, fica resolvido o destino da

naçãozinha inútil. Está riscado Portugal da Europa. E logo, sem grandes motivos,

começam as atitudes agressivas. Rompem-se as relações diplomáticas. O embaixador

português, D. Lourenço de Lima, recebe de Talleyrand os seus passaportes. Essa notícia

ecoa aterradoramente em Lisboa. D. João, num desnorteio, faz o Marquês de Marialva

partir num atropelo para Paris. Leva o ilustrissimo fidalgo os mais rastejantes protestos de

amizade. Leva para Bonaparte um baú de presentes opulentíssimos, grossos fios de

pérolas, saquinhos atulhados de diamantes brasileiros. Leva ainda mais - oh pavor! -

ordens de oferecer a mão do próprio D. Pedro, herdeiro do trono, a qualquer pessoa da

família do Imperador. A filha de Luciano seria recebida com grande gosto. Ou então, se

fosse do agrado de Napoleão, mesmo a filha dum general qualquer... Mas, o coche

dourado de Marialva ainda não havia transposto as fronteiras, já as tropas de Junot

rompiam uivantes pela península adentro. Vinham como um furacão. Ia tudo raso! O

pobre D. João, no seu palácio, ouviu o estrépito ameaçador. Não houve mais que trepidar:

embarcou espavorido para o Brasil. Esse embarque, essa fuga dum ridículo espantoso, a

mudança de toda uma corte em vinte e quatro horas, foi incrível página de opereta. Foi

página dolorosamente bufa. Oliveira Martins pintou-a com pinceladas de ouro.

* * *

O bergantim real, alcatifado de coxins de veludo., com o seu belo toldo de damasco

franjado, atracou debaixo do mais quente ribombo de festa. O povo espremia-se no cais.

Milhares de espectadores, com avidez mordente, o coração aos saltos, contemplavam,

fascinados, a embarcação garrida. Tudo queria "ver o rei". O Conde dos Arcos, que então

governava o Brasil, correu a abrir a portinhola: e do bergantim, muito ataviada de

garridices, desceu lustrosamente a família real. Era D. João VI, em grande gala. Era D.

Carlota Joaquina, com o seu fuzilante diadema de pedrarias. D. Pedro, o herdeiro do

trono, principezinho de nove anos, muito vivo, os cabelos crespos e negros, saltou

acompanhado de Frei Antônio de Arrábida, o preceptor. Seguia-o o irmão mais moço, o

infante D. Miguel, todo de veludo, calças compridas, o gorro apresilhado por um fúlgido

broche de pedras. As princesas vinham enfeitadas com primor. Muito lindas. Vestiam

sedas dum azul pálido, enevoadas de arminhos, com grandes diamantes nas orelhas e

altos trepa-moleques nos cabelos. Viera, também, galhardo e belo, um moço arrogante,

muito simpático, olhos romanticamente verdes: era o Senhor D. Pedro Carlos de Bourbon

e Bragança, infante da Espanha, sobrinho dos regentes.

No cais, fora armado um altar. D. João e D. Carlota, seguidos pelo príncipe e pelos

infantes; ajoelharam-se diante dele. O chantre da Sé tomou da água benta e aspergiu

ritualmente os reais hóspedes. Tomou do turíbulo de prata e incensou-os por três vezes.

D. João, com fervorosa compungência, caiu então por terra: beijou o Santo Lenho. A

corte, prosternando-se, acompanhou-o no beijo tradicional. Depois, ao longo do cais,

formou-se o séquito de honra. Lá ia a bandeira, lá ia a cruz, lá iam os nobres, lá ia o clero,

lá ia a gente da terra. No meio das alas, carregado pelo Senado da Câmara, franjado de

ouro, rutilando ao sol, um imenso pálio de seda: e, debaixo dele, com os seus atavios

carnavalescamente vistosos, a deslumbrar a colônia toda a família real.

Nas ruas, recobertas de areia branca, esparzidas de flores e de folhagens profusíssimas,

as casas enfaceiraram-se garridamente. Colchas de seda, tapeçarias e veludos,

damascos de coloridos fortes, tudo palpitava, ria, baloiçava-se às portas e janelas,

despencava-se festivamente das varandas. Papagueantes, agitando o lenço com

entusiasmo, despejando braçadas de rosas, as donas enramilhetavam as sacadas,

faiscavam de louçanias, punham no quadro cores estonteantes, todas com muita pluma,

com muita renda, com muita seda, com muita pedraria de preço. E eram foguetes pelo ar,

estampidos nas fortalezas, músicas reboantes, vivas, alegrias loucas, ensurdecedoras. O

cotejo magnífico penetrou na Catedral. Começou o "Te-Deum"...

* * *

Nessa noite, houve grandes luminárias A casa dos Tel es, em frente ao Paço,

resplandescia, fascinante. Chispava de tanta luz, tinha tantos copinhos de vela, com

tantas cores, que a própria D. Carlota Joaquina mandara felicitar os donos pelo gosto. E

enquanto, sob júbilos barulhentos, o povo pasmava-se diante dos rojões de lágrimas que

subiam ao céu, D. João VI, sentado no trono, com o seu faustoso manto de niza branca,

dava no Brasil o seu primeiro beija-mão. O Rio de Janeiro, a cidadezinha colonial, a terra

selvagem dos macacos, viu estadear-se nessa noite, com fausto espaventoso, a mais

legítima aristocracia de Portugal. Que desfilar empavonado!

A corte atulhava garridamente os sabes toscos e nus daquele pobre Paço. Era a Senhora

D. Mariana Xavier Botelho, Duquesa de S. Miguel, camareira-mor da rainha D. Maria,

emproada e grave, com a sua riquíssima afogadeira de pérolas ao pescoço. Era a

Marquesa de Luminares, primeira dama de D. Carlota Joaquina, muito broslada de

rendas, toda a refulgir no seu bizarro vestido cor de açafrão. Era a Duquesa de Cadaval,

com os seus gorgorões pesados, os caracóis brancos do cabelo tombando-lhe

versalhescamente pela nuca. A Marquesa de Belas, olheirosa e pálida, ainda atordoada

dos cambaleios da nau, desolava-se com a desolada Condessa de Caparica, que deixara

em Lisboa, no atropelo do embarque, o seu querido samovar de prata manuelina. Mas,

não eram apenas as donas. Perpassavam refulgentes, o peito abrolhado de insígnias, os

nomes mais retumbantes do reino. D. José Noronha Camões de Albuquerque, Marquês

de Anjeja; D. Álvaro Antônio de Noronha e Castel o Branco, Marquês das Terras Novas; o

Marquês de Alegrete, o Conde de Cavaleiros, O Visconde de Anadia, José Rufino de

Sousa Lobato, o guarda-jóias, o amigo íntimo de D. João. Toda uma turba de marechais,

de desembargadores, de eclesiásticos, de moços da Câmara, de guarda-roupas, de

damas do paço, de damas de honor...

* * *

No outro dia, com protocolos infindáveis, houve nova procissão no cais. A Corte inteira

abalou-se para receber a rainha, que ficara a bordo. D. Maria I desceu da nau,

espavorida, o oIhar tonto, muito pálida. A doida contemplou estupidamente a turba. Um

terror agoniante pintou-se-lhe no rosto. Quis fugir. Mas agarraram-na logo. Meteram-na

dentro duma cadeirinha dourada. E quando, na cadeirinha, ouviu o baque da portinhola

que se fechava, a louca prorrompeu em berros, que faziam mal:

- Não me matem! Não me matem!

E recolheram-na ao Paço.

Durante nove dias, a cidadezinha encheu-se de festa. Durante nove noites a cidadezinha

encheu-se de luminárias. Foi um estonteamento! D. João andava radiante. Uma alegria

torrenciosa borbulhava-lhe no peito: livre, enfim, das garras de Napoleão Bonarparte! Uff!

E pôs-se tranqüilamente a comer os seus três franguinhos no almoço e os seus três

franguinhos no jantar.

No Brasil, durante largo tempo, a vida de D. João correu sem arrepios. Tudo aqui lhe era

propicio: o clima, a pacatez, a água da Quinta, as laranjas da Bahia, a solidão. Apenas, na

fazenda de Santa Cruz, um carrapato ferrou-lhe na perna. D. João arrancou-o

bruscamente: o ferrão do animal ficou-lhe cravado na carne. Mordida feroz! O regente

mancou durante vários meses... A não ser isso, a não ser o dente do bicho, nada viera

quebrar a serenidade daquele viver. Tudo mar de rosas.

E D. João, inspirado pelos ministros, começou a engrandecer o país. Abriu os portos da

Colônia ao mundo. Criou o desembargo do Paço. Organizou o Banco do Brasil. Fundou a

Escola de Medicina. Fundou a Academia de Belas-Artes. Fundou a tipografia régia.

Construiu uma fábrica de pólvora. Mandou explorar as minas de ferro do Ipanema. Fez o

Jardim Botânico. Abriu a Biblioteca Nacional. Um infindar de benefícios!

A terra, com tais reformas, tomou um surto vertiginoso. Tamanho, tão forte, que os

ministros levantaram logo a idéia de se elevar o Brasil a reino. D. João recebeu a medida

com bom semblante. Formou-se em torno dela uma forte corrente de simpatias. Cogitou-

se afoitamente em realizá-la. Mas D. Carlota Joaquina interveio. A espanhola detestava o

Brasil. Aqui, era terra de negros, aqui, era terra de degradados, aqui, era o fim do mundo.

Seria ridículo elevar a reino um país imundo como estes. E D. Carlota combateu rijamente

o plano: estabeleceu-se na corte uma luta manhosa, uma luta na sombra,

melindrosíssima.

Nesse instante, em Viena, reunia-se um congresso formidável. É em 1815. Enquanto

Napoleão Bonaparte, sob o olhar implacável de Hudson Lowe, escreve as suas memórias

em Santa Helena, os embaixadores das grandes potências discutem a paz da Europa.

Talleyrand, a mais alta cabeça diplomática da época, defende os interesses da França. O

estadista tremendo, para defendê-los, apoia-se habilmente nas pequenas nações que

conseguiu seduzir e coligar em torno de sua política. Tal eyrand nesse momento, tem os

olhos do mundo fixados nele. O Conde da Barca, Ministro da Guerra, amigo particular do

grande francês, escreve-lhe uma carta reservada, muito Intima, suplicando que intervenha

no caso do Brasil. Pede que Tal eyrand, não só trabalhe pela elevação do Brasil a Reino,

como faça que esse ato seja reconhecido pelo Congresso de Viena. Dentro da carta,

muito agradavelmente com uma gentileza irresistível, ia, ao que dizem, uma ordem de

cem mil cruzados. Ia, naqueles belos tempos, a bagatela de quatrocentos contos fortes.

Talleyrard recebe a carta, o pedido, o dinheiro. Uma súbita idéia irrompe naquele cérebro

de gênio. Portugal, no Congresso, é considerado como nação de terceira ordem. E as

nações de terceira ordem não têm voto nas deliberações. Nem sequer têm assento no

recinto do Congresso: são apenas consultadas na antecâmara. O reino dos Braganças,

por isso mesmo, não pode tutelar como deve os seus direitos. D. João pleiteia

ardentemente a entrada no Congresso. Talleyrand por seu turno, precisa nas

deliberações do voto da pequena nação amiga. E bate-se então, de corpo e alma, pelo

reconhecimento de Portugal como grande potência. As nações opõem-se. Qual o meio de

vencê-las? Diante da missiva secreta do Conde da Barca, Talleyrand ilumina-se. Está

descoberta a fórmula. É executar o pedido do seu amigo. É elevar o Brasil a reino. É dar a

estes imensos domínios o privilégio de nação. Portugal, dono de tão vasto reino, tornar-

se-ia, forçosamente, potência de primeira ordem. Entraria no Congresso e teria voto nele.

E o estadista põe-se a campo. Fala com os embaixadores portugueses, manda instruções

ao Rio, dá ordens ao ministro francês, agita-se, insufla, escreve. D. João não vacila mais:

reúne o conselho e expõe a matéria. Os ministros, sem discrepar, são todos pela grande

medida. Então, esfregando as pontas dos dedos, rindo aquele risinho amarelo, muito dele,

D. João resolve:

- Diante do que ouvistes, senhores ministros, vou elevar o Brasil a reino. Precisamos ter

assento e voto no Congresso de Viena. E é esse, como vedes, o único alvitre para

chegarmos até lá.

E elevou o Brasil a reino.

* * *

Talleyrand, ao ter ciência do ato, discutiu-o em Viena: Portugal, por consenso unânime, foi

reconhecido como grande potência. Sentou-se no recinto do Congresso e teve voto nas

deliberações. E assim, graças ao famoso francês, o Brasil deixou de ser colônia. Ficou

reino: dera um passo formidável para a sua independência.

A BAILARINA DO TEATRO S. JOÃO

20 de março de 1816. O Rio de Janeiro amanheceu lúgubre. Tudo bruma e cinza. Bóia no

ar uma plangência estranha. Bandeiras enroladas em fumo. Dorido tanger de sinos.

Veludos negros tombando das varandas. Os coches carregados de crepes. No paço,

onde há um borborinhante vaivém de gente, os cortesáos sobem e descem as

escadarias, todos de preto, protocolarmente compungidos, num grande luto. Que houve?

Um acontecimento grave: morreu D. Maria I, a louca, mãe de D. João VI.

Na Sala dos Despachos, transformada em câmara mortuária, repousa o cadáver da

rainha. É uma velha de oitenta e dois anos. As mãos em cruz, muito longas e maceradas,

um sorriso esvoaçante gelado na boca, a morte está paramentada de grande gala.

Faísca-lhe ao peito a grã-cruz de S. Tiago. Traz a tiracolo a banda da Ordem de Cristo.

Traz a banda encarnada de Aviz. Envolve-lhe o busto, com chocante suntuosidade, o

manto real de veludo carmezim, forrado de seda branca, todo borrifado de estrelas de

ouro.

O corpo ficara em exposição.

Espera-se, apenas, que D. João VI venha beijar-lhe as mãos para franquear a câmara ao

público. D. Carlota Joaquina, essa, pela manhã, já viera com as filhas. A rainha D. Mana,

em vida, detestara D. Carlota Joaquina. D. Carlota, por sua vez, detestara a rainha. Não

se toleraram nunca. Nesse dia, por mera etiqueta, D. Carlota penetrou na câmara-

ardente, beijou friamente a mão da morta, virou as costas saiu sem derramar lágrima.

Encerrou-se, depois, nos seus apartamentos. E nunca mais tornou a penetrar na câmara.

Nem sequer desceu para acompanhar o esquife até ao coche.

O pobre D. João VI, no entanto, desolara-se fundamente. Chorou como um menino, aos

borbotões. Filho incomparável, afetuosíssimo, a perda da rainha lanhara-lhe o coração

como uma espadeirada. E agora, naquele instante, Sua Majestade deve descer para a

despedida.

São três horas da tarde. Os corredores estão coalhados de palacianos. Todos esperam o

rei. Nisto, de luto fechado, os olhos muito vermelhos, cabelos em desordem, D. João

aparece no salão mortuárIo. Vem acompanhado de D. Pedro e D. Miguel. O Conde de

Parati e o Visconde de Magé, os seus validos, os dois amigos do coração, circundam-no

funereamente. Ambos choram. Na câmara-ardente, de pé, os vestidos lantejoulados de

vidrilhos negros, a Senhora Viscondessa do Real Agrado, que é camareira-mor, e D.

Margarida Sofia de Castello Branco, que é dona da câmara, velam com fundos respeitos

o corpo real. D. João entra. O Marquês de Anjeja, reposteiro-mor, retira o manto que

cobre a defunta. E então, sinceramente ferido, as lágrimas a saltarem-lhe dos olhos

aquele homem gordo, bochechudo, abraça desvairadamente o cadáver da mãe. Beija-o.

Beija-o longas vezes. Beija-o repetidamente, aos soluços, acabrunhado, num grande

desespero comovido. O príncipe e o infante debruçam-se também sobre o caixão: e

ambos, com um ósculo demorado, despedem-se da avó. É tocante. Mas, o Senhor

Marquês de Aguiar, D. Fernando José de Portugal e Castro, ministro das três pastas,

suplica ao rei que se recolha. Os validos também suplicam-lhe que se poupe a tanta dor.

D. João, que chora sempre, deixa a câmara mortuária. Retira-se para os seus aposentos.

Uma angústia cruciante rasga-lhe a alma: é a única dor sincera, a única chaga viva que

abriu a morte da louca.

* * *

Oito horas da noite. Trancado no seu quarto, muito inquieto, o príncipe D. Pedro passeia

agitadamente. Tudo aquilo, aqueles lutos, aqueles cortesões fúnebres, aqueles coches

recobertos de crepe, revira-lhe azedamente os nervos. De vez em quando, enfiando o

olhar pela janela, Sua Alteza vê os altos dignitários chegarem para o beija-mão. É o

Cardeal Capelli, núncio apostólico, com as suas sedas escarlates; é Lorde Strangford, o

ministro inglês, de casaca negra, luvas, cartola felpuda de palmo e meio; é o Conde de

Cavaleiros, mordomo-mor, com o seu largo fitão a tiracolo e a Ordem de Cristo

vermelhejando na lapela; é o...

E D. Pedro, aquele belo príncipe de dezessete anos, moreno, olhos muito negros e muito

românticos, aquele moço garboso, aquele moço doidivanas e estúrdio, que enche a corte

com os seus estouvamentos, D. Pedro é talvez o único, na hora fúnebre, que não se

interessa por aquelas pompas, por aqueles crepes, aqueles lutos. O seu espirito está

longe dali. A sua ânsia é outra. Punge-lhe um desejo estranho. Ferreteia-lhe uma vontade

louca de voar, de deixar o Paço, de fugir àquelas tristezas, de correr para um ninho

amado... Para um ninho que o espera com carícias entontecedoras. E D. Pedro, dentro

dos seus aposentos, numa irascibilidade mórbida, anda, fuma, agita-se. Goteja-lhe no

cérebro um pensamento só. É uma idéia fixa, enrodilhante. No desvario duma paixão

furiosa, paixão de adolescente, D. Pedro não pensa noutra coisa senão no seu amor. Não

aspira outra coisa a não ser o saciar aquela tortura faminta de amar e ser amado. E

sozinho, naquela noite lúgubre, o príncipe sonha com ela... E arde por ela... Ela por toda

parte! De repente, num assomo, D. Pedro bate palmas. O criado ergue o reposteiro. É

Plácido Pereira de Abreu: É o antigo barbeiro do Paço. É a pessoa que o príncipe mais

estima na corte. E D. Pedro, ao vê-lo, ordena-lhe em voz baixa:

- A minha capa negra e o meu sombreiro de abas largas.

Plácido sorri. E o príncipe:

- Você já sabe aonde vou, não sabe?

- Sei! Vossa Alteza vai para o largo do Rocio.

- Vou! Não posso mais. Aquela mulher é a minha paixão...

Mas, é bom que Vossa Alteza se acautele, tornou o criado; é bom não sair pela frente do

Paço. Há muito coche, muito escudeiro, muita gente graúda que vem chegando. Vossa

Alteza pode topar com muito mexeriqueiro. É mais prudente que Vossa Alteza saia pelo

alçapâo.

- Você tem razão, Plácido. Traga-me a capa e abra o alçapão. Plácido trouxe a capa. D.

Pedro enrodilhou-se profundamente nela. Enfiou o chapéu de abas largas, enterrou-o na

cabeça, quebrou-o nos olhos. O criado, depois de vestir o amo, recuou uma pequena

mesa que havia no meio do aposento. Ergueu o tapete. Depois, com jeito, levantou um

alçapão disfarçado no soalho. D. Pedro meteu-se por ele. Pulou no andar térreo. Era

exatamente a "Sala dos Pássaros". Dai, abrindo as portas do fundo, D. Pedro precipitou-

se na rua. (1)

De preto, enrodilhado - na capa negra, o vasto chapéu mergulhado até às orelhas, o vulto

misterioso esgueirou-se pelos becos escuros do velho Rio. Um ou outro lampião de

azeite. Escuridão espessa na cidadezinha suja. De vez em quando, passava um capoeira

assobiando. Tudo mais silêncio. O príncipe alcançou o largo do Rocio. Estacou diante

dum sobrado. Bateu à porta. Uma luz súbita jorrou lá dentro. E logo, na sacada, uma voz

sonora, muito orvalhada, gritou do alto:

- "Qui est-lá?"

E o príncipe, cá em baixo, com um sussurro:

- Sou eu! Abra...

Instantes depois, no sobrado do Rocio, D. Pedro, arremessando a capa, atirava-se

perdidamente nos braços duma linda moça. A rapariga, fina e leve, ria-se daquela

maluquice em noite tão fúnebre...

Era a Noemi. Era a famosa bailarina do Teatro S. João.

Foi numa noite de gala, aniversário do príncipe regente, que D. Pedro viu no palco, pela

primeira vez, a bailarina entontecedora. Era uma francesinha de matar. Uma boneca de

luxo, toda pluma frágil como um bibelô. E tão loira! E tão fresca E dona duns olhos tão

grandes, tão liricamente azuis! D. Pedro era um príncipe impetuoso. Tinha dezessete

anos, o coração sôfrego. A bailarina, a criatura pequenina e doce, fascinou-o doidamente.

D. Pedro atirou-se às tontas na aventura. Noemi foi o seu primeiro amor. Foi a loucura da

sua adolescência. O moço Bragança desatinou-se. Fez tudo o que podia fazer, aos

dezessete anos, um príncipe de sangue, herdeiro do trono, desbragado e estróina. Viveu

com a rapariga uma vida de romance, boêmia, ensartado de noitadas febrentas, com

serenatas de violão e de lundus. Cobriu-a de sedas. Recamou-a de pérolas. Lantejolou-a

de pedrarias magníficas. Foi um estonteamento! A aventura custou-lhe uma fortuna.

Um dia, porém, o Plácido veio despertá-lo bruscamente daquela embriaguez de amor. O

criado falou com severidade:

- É preciso liquidar as dividas, príncipe! Vossa Alteza está encalacrado. A casa Phillips

anda reclamando o pagamento... A coisa já vai longe!

D. Pedro, com indiferença:

- Quanto é que eu estou devendo, Plácido?

- É fácil dizer, Alteza.

Sacou um caderninho do bolso e começou a fazer as contas:

- Casa Phil ips... joalheiro do Paço... ourives da Rua do Piolho... modista da Rua do

Ouvidor... modista da Ajuda... perfumista... florista... luveiro... dinheiro fornecido... Tudo

somado, como Vossa Alteza vê, faz onze contos novecentos e oitenta. Digamos doze

contos.

- Doze contos?

E, D. Pedro, estuporado, deu um salto da cadeira:

- Doze contos?

- Doze contos! E é preciso pagar. Os fornecedores vivem atrás de mim. Eu sempre a

adiar...

- Diabo, exclamou o moço num esbraseamento, pondo ás mãos na cabeça; diabo! Onde

vou eu achar tanto dinheiro?

D. Pedro recebia um conto de réis por mês. Aquela bagatela mal dava para a tença dos

seus moços da câmara, para pagar os seus criados, fazer as suas esmolas, comprar os

seus cavalos. Mas, D. João era sovina. Um unhas-de-fome. Não havia meio de sair do

conto de réis. Por isso, diante da divida, diante daqueles doze contos de réis, o príncipe

desnorteou-se. Não sabia como desentalar-se. O Plácido começou a sugerir planos:

- Vossa Alteza procure o Targini, tesoureiro de el-Rei, conte o que sucedeu, peça o

dinheiro.

- Está maluco, Plácido? O Targini faz um barulho de cair o céu! Arrebenta o escândalo por

aí. Meu pai enlouquece...

- Neste caso, antes de falar ao Targini, Vossa Alteza fale com um valido do Senhor D.

João. O Visconde de Magé ou o Conde de Parati. Vossa Alteza expõe o que há, pinta

claramente o aperto, pede aos validos que convençam D. João a fornecer o dinheiro.

D. Pedro detestava os validos do pai. Nunca lhes dirigia a palavra. Achava-os muito tolos

e muito carolas. Dava-lhes a mão a beijar secamente. Nunca teve um sorriso para eles.

Eis porque, sem vacilar, exclamou com vivacidade:

- Deus que me guarde! Eu prefiro morrer a pedir um favor àqueles beatões. Aquilo é gente

ruim. Uns pestes! Vamos bater noutra porta...

E começaram ambos, o amo e o criado, a engendrar um meio de pagar as dividas. O

Plácido lembrou timidamente:

- O Pilotinho, se Vossa Alteza quisesse, emprestaria o dinheiro...

- O Pilotinho?

- Sim, o Pilotinho. Eu vou sempre molhar a goela, na bodega do homem; e o homem,

cada vez, não se esquece de me dizer: "oh! Plácido, vê se arranjas um jeitinho de eu me

encaixar nas boas graças do Paço. Tu és tão amigo lá do Príncipe..." Ora, como Vossa

Alteza sabe, o Pilotinho é rico. Uma palavra de Vossa Alteza - zás - estão aqui os doze

contos de réis...

D. Pedro era um estróina. Um doidivanas completo. Não refletiu um instante no disparate

daquele alvitre. Pedir emprestado dinheiro ao Pilotinho era para D. Pedro tão natural

como pedir emprestado a D. João VI. E o príncipe agarrou-se à idéia:

- Bravos! Não há que discutir. Corra a casa do Pilotinho e traga-me aqui o homem com os

doze contos.

O Plácido saiu.

Joaquim Antônio Alves, o Pilotinho, era um pé-de-chumbo rico, bodegueiro na rua dos

Barbonos. O dinheiro dera-lhe prestígio. E o homem andava faminto por doirar aquele

prestígio com amizades vistosas, que o honrassem. O Plácido contou-lhe o que havia.

Transmitiu-lhe o pedido do príncipe. O bodegueiro abriu dois olhos fuzilantes! Correu para

dentro, vasculhou uma empoeiradíssima arca, empacotou um monte de notas, veio num

aturdimento para o Paço. O Príncipe, ao vê-lo entrar, recebeu-o com bulhento alvoroço.

Pegou no dinheiro, fechou-o no contador, virou-se esfuziante para o pé-de-chumbo:

- Você é amigo, Pilotinho! Você é um grande amigo! Tome lá...

E abraçou-o. Abraçou-o com uma larga ternura comovida. O Pilotinho, o tosco

bodegueiro, para receber do herdeiro do trono um abraço assim tão quente, tão apertado,

não emprestaria apenas aqueles misérrimos doze contos: daria ao príncipe toda a sua

fortuna...

II

A aclamação de D. João VI foi um deslumbramento. A mais soberba festa que a Colônia

vira até então. Aquele rei burguês, aquele homem bonacheirão e gordo, empenhara-se

com alma, rasgadamente, para que seu grande dia tivesse um brilho único, estonteante,

Não houve poupança. Targini. o tesoureiro de el-Rei, abriu os cofres atulhados de barras

de ouro E foi um gastar profuso, um enfeitar, um cobrir de luxos desmedidos aquele pobre

Rio de 1816.

São três horas da tarde. A Varanda Real cintila. É um pavilhão imenso, suntuosíssimo,

que João da Silva Muniz, arquiteto do Paço, sob o olhar vigilante do Barão do Rio Seco,

construíra exclusivamente para o ato supremo. Faiscam dentro dele atavios régios. Toda

a aristocracia da corte, a mais alta, a de sangue mais limpo, borborinha por entre os

capitéis dourados. Nas tribunas, de onde jorra uma crua faiscação de jóias, papagueiam

risonhamente as damas, os decotes branquejando entre rendas e gazes, os altos trepa-

moleques de ouro cravados nos cabelos em coque. Lá está na tribuna de honra, que é de

seda rosa, toda broslada de arminhos, a Senhora D. Carlota Joaquina, muito empoada,

pêlos ruivos na cara áspera, sentada triunfalmente entre as quatro princesinhas.

De repente, pelo ar festivo, rompem as charamelas. A corte inteira, ao toque eletrizante,

ergue-se com ânsia. Os olhares todos cravam-se ávidos na entrada. O Porteiro Real

escancara as portas. E o cortejo magnífico surge. Que belo! À frente, com as grossas

maças de prata ao ombro, vêm os Porteiros da Cana. Depois, o Rei-d'Armas, com o seu

vistoso capacete empenachado. Seguem-se os dois Arautos, com as longas trompas de

ouro. Finalmente os Passavantes cobertos de ferro, as couraças de escamas refulgindo.

O Alferes-Mor empunha a Bandeira Real enrolada na haste. E o séquito passa. São os

Moços da Câmara, são os Moços Fidalgos, são os Grandes do Reino, são os Bispos, é

Tomás Antônio Vila nova Portugal, Monistro e Secretário de Estado.

Enfim, o Rei.

Sua Majestade tem à direita o Príncipe D. Pedro, herdeiro do trono, descoberto, um largo

fitão a tira-colo. À esquerda, servindo de condestável, o Infante D. Miguel trazendo na

mão um estoque desembainhado. E D. João VI entra. A Varanda Real freme, sacudida.

Lá fora, uivando, O povo delira. E é uma atroada louca, ribombos de canhão, morteiros,

sinos bimbalhantes, charangas enchendo os ares de marchas estrepitosas. O Rei está

soberbo. É a primeira vez que os vassalos o vêem com todas as galas da realeza.

Faiscam-lhe ao peito as insígnias de suas ordens. Pende-lhe do pescoço o colar do

Tosão de Ouro. Tomba-lhe dos ombros, com a mais grandiosa magnificência, o manto

real. É riquíssimo, de veludo carmezim, bordado a fios de ouro, semeado de castelos e

quilhas, apresilhado por dois imensos broches de diamantes que fuzilam,

fulgurantissimos. O Conde de Parati, no oficio de camareiro-mor, carrega a cauda do

manto. Sua Majestade avança rutilando até a um alto estrado. Ai, sob largo dossel de

damasco, está armado o trono real.

O Marquês de Castelo Melhor, reposteiro-mor, retira o damasco que o cobre. O Conde de

Parati entrega a Sua Majestade o cetro. D. João senta-se. Os cortesãos, de acordo com

seus cargos, espraiam-se pela Varanda. Ao lado do trono, atendendo o Rei, ficam o

Marquês de Torres Novas e D. Nuno José de Sousa Manuel, gentis-homens honorários.

Em frente, hirto e solene, o Ministro do Reino. Depois, o Marquês de Anjeja, que serve de

mordomo-mor. Vêm após os seis Bispos. Depois, os Grandes do Reino. Depois, os

Titulares. Depois, o Senado da Câmara. Depois, a Mesa do Desembargo do Paço.

Depois, a Casa da Suplicação. Depois...

Há um instante de silêncio. O Ministro de Estado faz um sinal ao Rei-d'Armas. O

Rei~d'Armas avança até ao meio do Salão. Curva-se diante de Luís José de Carvalho e

Melo, ilustríssimo Desembargador do Paço. O Desembargador levanta-se, atravessa a

Varanda, posta-se em frente ao Monarca. O Rei-d'Armas brada com retumbância:

- Ouvide! Ouvide! Ouvide! Estai atentos...

E Carvalho de Meio, diante do trono, sob um silêncio grave, declama a fala do protocolo.

É rápida. Meia dúzia de frases rituais. E logo, terminada a arenga, o Marquês de Castelo

Melhor coloca diante de Sua Majestade uma pequena mesa recoberta de veludo verde. É

a hora do "Juramento Real". Momento supremo. D. José Caetano, o Bispo-Capelão,

recebe do mestre de cerimônias o missal e o crucifixo. Deposita-os sobre a mesa.

Ajoelha-se. O Bispo de Azoto, Prelado de Goiás, e o Bispo de Leontópolis, Prelado de

Moçambique, testemunhas do grande ato, ajoelham-se também. O ministro do Reino,

nesse momento, curva-se diante do trono: Sua Excelência suplica a el-Rei que jure. D.

João levanta-se. Passa o cetro para a mão esquerda. Ajoelha-se numa vasta almofada

acairelada de ouro. Estende a mão direita sobre o missal e o crucifixo. E solene, com uma

lentidão majestosa, debaixo do olhar sôfrego da corte, el-Rei presta o juramento sagrado:

- Eu, João, Rei de Portugal, do Brasil, dos Algarves, juro...

E repete, palavra por palavra, a fórmula sacramental que o Ministro do Reino vai lendo em

alta voz. Está acabado o juramento. D. João torna a sentar-se no trono: está

definitivamente Rei.

Principia, então, com as mais severas etiquetas, uma outra cerimônia. Cerimônia das

mais sérias e significativas: é o juramento de "Preito e Vassalagem a el-Rei". O primeiro

que jura é o Príncipe Herdeiro. Em seguida, o Infante D. Miguel. Depois, segundo as suas

hierarquias, o Ministro do Reino, os Bispos, os Desembargadores, os Grandes, os

Titulares, a Nobreza. D. João, do alto do trono, recebe com um sorriso o juramento dos

cortesãos. Quando o desfile finda, cessado aquele burburinhar de gente, o Alferes-Mor

desenrola a bandeira real. E festivamente, em altas vozes:

- Real, Real, Real, pelo muito Alto e muito Poderoso Senhor D. João VI, Nosso Senhor!

Toda a corte prorrompe num brado só, entusiasticamente:

- Real, Real, Real!

E estrugem as músicas, largo vozerio, Há uma alegria desordenada pela Varanda. O

Alferes-Mor, com a bandeira desenrolada, grIta em meio do tumulto:

- Alas! Alas!

Todos abrem alas. O Alferes-Mor embarafusta-se por entre as alas abertas. Vão-lhe à

frente os Porteiros da Cana, o Rei-d'Armas, os Arautos, os Passavantes. E o préstito a

passo lento, aproxima-se do balcão que dá para o Terreiro do Paço. Ali, na sacada, diante

de todo o povo, o Rei-d'Armas brada retumbante:

- Ouvide! Ouvide! Ouvide! Estai atentos.,. Há um relâmpago de silêncio. O Alferes-Mor

lança a bandeira real ao vento. E com ufania, a pulmões plenos, berra para a massa:

- Real, Real, Real, pelo muito Alto e muito Poderoso Rei D. João VI, Nosso Senhor!

Que delírio! O povo desanda em gritos. Atroa o Terreiro do Paço uma algazarra bravia,

Repiques de sinos sacodem o ar As fortalezas estrondam. Fogos de artifício japonizam o

céu.

Debaixo da baruheira, rindo-se, o ar de glória e festa, D. J0ão ergue-se E todo aquele

bando suntuoso ondeia. Lá vai a caminho da Real Capela. Aí, sobre um troneto, rutilando

de luzes, há. uma relíquia do Santo-Lenho. El-Rei ajoelha-se. A corte inteira ajoelha-se.

Sua Majestade beija a relíquia. Levanta-se. E enfim, majestosamente, senta-se no trono

real, armado ao lado do altar. Rompe, no coro, a música de Marcos Portugal. Começa o

'Te-Deum"...

* * *

A Capela Real abriu-se para o povo. Grossas ondadas de gente inundaram subitamente a

nave. A igreja fervilhou. Não cabia dentro dela um alfinete. Todo o mundo queria ver o

Rei!

Lá de cima, do alto duma tribuna, o Conde de Parati contemplava risonhamente aquele

burburinho. De repente, com espanto, o cortesão deu de chofre com uma rapariga loira,

muito linda, que cravava olhos sôfregos no trono. Era a Noemi, a bailarina do Teatro São

João. A moça sorria. O Conde de Parati virou-se rápido: ao lado do trono, desempenado e

belo, D. Pedro fitava impavidamente a moça. E, por seu turno, diante da Corte, acintoso e

chocante, mandava-lhe um sorriso escandaloso. O Conde de Parati, acotovelando o

Visconde de Magé, murmurou baixinho:

- Veja aquilo, Visconde!

- É a paixão, meu amigo! É a paixão que faz daquelas coisas...

E o Magé, apagando a voz, num cicio:

- Vossa Excelência já sabe o resultado desses amores, não sabe?

- O resultado desses amores? Não sei...

- Que diz?

E misterioso, bem ao ouvido do amigo:

- Saiba, meu Caro Parati, que a francesinha vai ser mãe...

O Conde de Parati olhou pasmado para o Visconde de Magé. Os seus olhos fuzilaram:

- Vossa Excelência está certo disso?

- Absolutamente certo! Contou-me o Plácido. E o Plácido, como Vossa Excelência bem

sabe, é o amigo mais íntimo do príncipe...

O Conde de Parati calou-se. Aquilo era muito sério. O escândalo mais atordoante que

poderia estourar aos ouvidos de D. João. É que agora, exatamente naquele momento, el-

Rei tratava do casamento do filho. O Marquês de Marialva já andava pela Europa a

sondar as casas reinantes. Parece que a da Áustria... Imagine-se um pouco se D. Pedro,

aquele estúrdio, aquele príncipe estourado, perdido de paixão como andava, cometesse a

loucura de casar-se às escondidas com a bailarina. Que complicação! E o Conde de

Parati, muito apreensivo:

- Essa aventura do príncipe, meu caro Visconde, pode ter conseqüências brutais. É

preciso que D. João saiba de tudo, não acha?

- É preciso! Vossa Excelência presta a el-Rei um altíssimo serviço, contando o que se

passa. É um caso grave.

- Tem razão, Visconde! É um caso grave. Amanhã, el-Rei saberá de tudo...

No outro dia, ainda nos seus aposentos, D. João ouviu do Conde de Parati os pormenores

das maluquices do príncipe. O Monarca arregalava os olhos, estuporado:

- Doze contos? Pois o príncipe já gastou doze contos nisso?

- Doze contos, Majestade. Dinheiro esse que pediu emprestado ao Pilotinho.

- Ao Pilotinho? O bodegueiro da Rua dos Barbonos? Mas, é incrível. Esse rapaz é um

louco! Esse rapaz me mata de vergonha! Veja que papel, meu amigo! Pedir dinheiro ao

Pilotinho! Um príncipe!

E assim, trancados nos aposentos, el-Rei e o valido conversaram longamente. Que é que

decidiram? Ninguém o soube. Apenas, ao sair, o Conde de Parati afirmou:

- Vou providenciar os papéis para hoje mesmo. Amanhã, quando a corveta partir, levará

os dois...

E saiu. Decerto, o Conde de Parati preparou os papéis. Pois, no dia seguinte, seriam onze

horas, o íntimo de D. João apareceu no Largo do Rocio. A bailarina espantou-se

imensamente:

- Vossa Excelência, Senhor Conde?

- Eu mesmo, Senhora Noemi. El-Rei mandou-me aqui para pedir que Vossa-Mercê vá

comigo até ao Paço.

- El-Rei?

- El-Rei...

A ordem era estranha. Havia nela qualquer coisa de mistério. Mas, que fazer? A

francesinha não pôde recusar. Vestiu às pressas o seu vestido rodado, cor de pinhão,

enfiou as luvas, pôs o chapeuzinho de pluma branca. E saiu saltitante, pequenina,

pisando leve como um passarinho. D. João recebeu-a com afabilidade. Fez-lhe um

agradinho paternal no queixo. E logo, sem mais rodeios, esfregando os dedos, com o seu

riso amarelo:

- Mandei chamá-la, minha filha, para dar-lhe uma ordem. Uma ordem que é necessário

ser cumprida à risca: a menina tem de retirar-se hoje mesmo da Corte...

- Eu?

- Sim, minha filha; Vossa-Mercê! Mas, eu não quero que a menina, depois dessa

aventurazinha que teve com o príncipe, se vá embora ao desamparo, sem dinheiro, sem

ter pessoa alguma que a ajude. Longe de mim tal coisa! Eu resolvi, por isso, que Vossa-

Mercê se case. Dou-lhe para marido o tenente da minha guarda. É um rapagão bonito, um

belo moço da ilha Terceira. Nomeei-o para um ofício de Pernambuco. Um oficio de

primeira ordem, que rende oitocentos mil réis...

A moça ouvia aparvalhada. Aquilo esmagava-a. Não sabia o que dizer. E D. João

continuava, esfregando os dedos, rindo aquele risinho amarelo, muito dele:

- Já dei ordem para que o meu Tesoureiro leve a bordo a quantia de seis contos de réis. É

uma ajudazinha para o enxoval do bebê que vai nascer. Ordenei mais que entregue a

Vossa-Mercê cinco contos. Isso é uma lembrança minha: um dote para Vossa-Mercê. A

Rainha, ao saber do caso, também mostrou muita simpatia pela menina. Mandou, por sua

vez, que lhe desse um conto de réis. E ordenou ao guarda-jóias que lhe entregue a

Vossa-Mercê um anel de ouro, com uma bonita pedra. É para Vossa Mercê depositar

esse mimo no berço do seu filhinho, no dia em que for batizado...

Noemi compreendeu tudo. Sentiu bem a inutilidade de qualquer oposição. Era baldado

resistir. El-Rei podia fazer tudo o que quisesse. A bailarina viu nítida a sua catástrofe.

Fincou soturnamente os olhos no chão; e as lágrimas, em fios, começaram a despencar-

lhe pelas faces...

- Os papéis do casamento já estão prontos, continuou el-Rei. Vamos realizá-lo, menina.

E virando-se para o Conde de Parati:

Chame o padre, Conde. E traga também o noivo. Estão ambos no Salão dos

Despachos...

Nessa tarde, quando a corveta largou ferro, a bailarina do Teatro S. João precipitou-se

como louca no seu beliche. Atirou-se entre os almofadões do leito. E ai, durante toda a

noite, abafando os soluços, a rapariga chorou num desespero.

Que lua de mel!

* * *

D. João acabara de jantar. Comera os seus três franguinhos. Comera-os com os dedos,

enlambuzando-se, atirando os ossos ao chão. O infante D. Miguel correu ao aparador e

trouxe a bacia com o jarro de prata. O príncipe D. Pedro ergueu o jarro, despejou a água,

ofereceu a toalha ao Rei. D. João lavou-se, enxugou as mãos, fez o sinal da cruz. Depois,

feliz e bonacheirão, enlaçou o braço no braço do Conde Parati:

- Vamos dar graças a Deus, Conde. E partiram para o oratório.

D. Pedro, livre do protocolo, correu ansioso ao seu apartamento. Que alvoroço! O coração

batia-lhe descompassado. Era o momento de partir para o Largo do Rócio...

Naquela tarde, porém, mal o príncipe entrou, o Plácido, assustadíssimo, surgiu como um

fantasma diante dele. D. Pedro estranhou aquela fúria:

- Que é isso?

- Vossa Alteza ainda não sabe?

- Você está louco, homem! Não sabe o quê?

- Vossa Alteza não sabe o que aconteceu a Noemi?

D. Pedro agarrou forte nos ombros do criado. Sacudiu-o violentamente:

- À Noemi?

- Pois Vossa Alteza não sabe? A menina partiu hoje para Pernambuco...

- Para Pernambuco?

- Sim, Alteza. Na corveta que acaba de sair do porto. Imagine Vossa Alteza o que

aconteceu: D. João obrigou a pobre rapariga a casar-se com o tenente da Guarda. Deu-

lhe cinco contos de dote...

E desembuchou tudo. D. Pedro fremia. Os seus nervos estalavam. Os olhos ardiam-lhe,

febrentos. Aquilo desordenara-o. Era doloroso como um punhal que lhe entrasse pelas

carnes. Eis que o príncipe, no seu atordoamento, começa a tremer. De repente, sem

saber como, uma nuvem passa-lhe pelos olhos. As órbitas dilatam-se-lhe. Uma súbita

rigidez penetra-lhe os músculos. A boca espumeja-lhe, sangrenta. E D. Pedro desaba

pesadamente no chão.

Era o ataque.

* * *

Seis meses depois, em Pernambuco, morria a filha da bailarina. O General Luís do Rego,

que governava a Província, ordenou para a bastardinha funerais de princesa. Houve

grande luto oficial. Não se pejou o general em lançar mão de tão acintosa sabujice para

ganhar o coração do herdeiro do trono. A criança foi embalsamada. Veio para o Rio. E

dizem que D. Pedro, durante anos, guardou na Câmara dos Pássaros, debaixo do

alçapão, o cadaverzinho adorado, relíquia fúnebre da sua grande paixão da mocidade.