As marcas corporais e a superstição em Espinosa por Cátia Cristina Benevenuto de Almeida - Versão HTML

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USP – UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FFLCH – FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

CÁTIA CRISTINA BENEVENUTO DE ALMEIDA

AS MARCAS CORPORAIS E A SUPERSTIÇÃO EM

ESPINOSA

São Paulo

2011

2

USP – UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FFLCH – FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

CÁTIA CRISTINA BENEVENUTO DE ALMEIDA

AS MARCAS CORPORAIS E A SUPERSTIÇÃO EM

ESPINOSA

Dissertação

de

mestrado

apresentada

ao

Departamento de Filosofia da Faculdade de

Filosofia,

Letras

e

Ciências

Humanas

da

Universidade e São Paulo, para a obtenção do título

de mestre em filosofia.

Área de concentração: História da Filosofia

Orientação do prof. Dr. Homero Silveira Santiago.

São Paulo

2011

3

Para Nicolas, amor maior que eu.

4

AGRADECIMENTOS

Nós temos sempre necessidade de pertencer a alguma coisa; e a

liberdade plena seria a de não pertencer à coisa nenhuma. Mas, como

é que se pode não pertencer à língua que se aprendeu, à língua com

que se comunica, e neste caso, a língua com que se escreve? (José

Saramago, do documentário, Língua, vidas em português, 2003,

Brasil/Portugal).

Depois de ler e reler coisas que pudessem expressar o que penso e o que sinto,

inesperadamente, encontrei-me com essas palavras de Saramago, dizeres que muito aguçaram

meu pensar sobre parte do que eu gostaria de expressar neste espaço que me cabe. Digo isso,

por que faço minhas, as palavras desse literato. É verdade, tenho em mim a necessidade de

pertencimento, mais do que pertencer à língua com que escrevo, desejo pertencer a algum

lugar. E, há algum tempo, venho à procura desse lugar para pertencer; não foi facílimo

encontrá-lo, aliás, acho que nunca o será; foi um longo caminhar, por vezes solitário e

estranho, inevitavelmente complexo, novo e velho ao mesmo tempo; no entanto, prazeroso

por excelência, e, quão formidável foi este encontro.

Agradeço especialmente ao professor e meu orientador Homero Silveira Santiago, por

compartilhar da construção de uma “filósofa” e por sua fundamental presença, certamente

fizeram possível a realização desse mestrado. Agradeço também aos professores Luis César

Oliva e Marcos Ferreira de Paula, que me auxiliaram com sua disposição e suas importantes

observações por ocasião do exame de qualificação. Também os agradeço, por aceitarem

participar da banca de defesa deste trabalho. Ao professor Lorenzo Vinciguerra, de

L’Université d’Amiens, em particular, pelo estimulante e sempre pronto intercambio mantido

durante as trocas de e-mail’s. Minha gratidão aos colegas e professores do Grupo de Estudos

Espinosanos da USP, pelos debates enriquecedores dos quais pude assistir e tanto aprender.

Agradeço à Éricka Itocazu pela interlocução e incentivo constante. À Vânia e Marinê Pereira,

sobretudo pela amizade, e pelos diálogos frutíferos mantidos durante nossa longa estada na

biblioteca; nossos deliciosos cafés e “bandejões.” Dou graças aos meus queridos amigos, em

especial, à Sheila Paulino, por me acolher e orientar em minha solitária chegada, a Fábio

Moraes, André M. Rocha, Daniel Santos, Luis André (Dedé), Mariana Gainza, Yara Carvalho,

Roberta Belletti, enfim, a todos os que transformaram este campus num lugar acolhedor.

5

Também à Soledad Croce, Cecília Abdu Ferez, Marcela Rosalez, amigos dos colóquios

espinosanos de Córdoba, pelas palavras regadas de estímulo ao meu trabalho e ao professor

Diego Tatián por esse aprazível espaço de reunião, do qual tenho tanto apreço. Um

agradecimento muito especial a quatro mulheres singularíssimas: Claudete Benevenuto,

Cleusa M. Schneider, Cacilda Simoni e, particularmente, à Lilian Elman Sister por momentos

inexplicáveis. Também pela presença constante em minha vida, agradeço com demasiado

carinho aos meus irmãos: Glauber Benevenuto, Cristian Schneider, Karen Schneider e aos

meus verdadeiros e valiosos amigos. E, finalmente, agradeço com todo meu amor a Nicolas

Benevenuto de Almeida por fazer de mim, a cada dia, um “corpo ainda mais apto a uma

infinidade de coisas” e a Roni de Almeida por coisas inumeráveis, sobretudo por acreditar,

sempre, nesse momento.

Agradeço à CAPES, cujo apoio financeiro possibilitou a realização deste trabalho. E

também à Secretaria do Departamento de Filosofia da FFLCH, em particular e com muito

carinho à Maria Helena, Mariê, Geni e Luciana pela assistência e amabilidade.

6

EPÍGRAFE:

“Por mais raro que seja, ou mais antigo, só um

vinho é deveras excelente: aquele que tu bebes

calmamente com o teu mais velho e silencioso

amigo.”

(Mário Quintana, do livro Espelho Mágico).

7

RESUMO

ALMEIDA, Cátia Cristina Benevenuto. As marcas corporais e a superstição em

Espinosa. 2011. 122 f. dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia Letras e Ciências

Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

Esta pesquisa destina-se ao estudo das marcas corporais deixadas das relações entre os corpos.

Procuraremos refletir, sobretudo, sobre as impressões corporais que se direcionam aos

dogmas, crenças e preconceitos que se traduzem em superstição. Todavia, não partiremos para

uma análise exaustiva da superstição, enquanto um conjunto de crenças e rituais que estão

embasados em preceitos outorgados pela exterioridade. Nossa intenção segue além dos

ditames da exterioridade. Priorizamos refletir, sobretudo, acerca do corpo, ou seja, de um

corpo que é naturalmente disposto, favorável em acolher e manter a superstição e suas

articulações. Buscaremos ainda compreender os mecanismos que permitem que esse corpo se

condicione mais facilmente aos ditames ou as regras de uma crença. Contudo, procuraremos

pelas raízes da superstição e para isso nos embrenharemos no que há de mais profundo na

vida dos corpos.

Palavras chaves: corpos, relações, marcas corporais, superstição.

8

RÉSUMÉ

ALMEIDA, Cátia Cristina Benevenuto. Les marques du corps et de la superstition

chez Espinosa. 2011. 122 f. dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia Letras e Ciências

Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

Cette recherche se destine à l'étude des marques corporelles laissées des relations entre les

corps. Nous chercherons à réfléchir, surtout sur les impressions du corps qui sont dirigés vers

les dogmes, les préjugés et les croyances qui se traduisent dans la superstition. Toutefois, nous

ne partirons pas pour une analyse exhaustive de la superstition, comme un ensemble de

croyances et de rituels qui sont ancrés dans les préceptes accordée par externals. Notre

intention va au-delà des exigences de l'externalité. Prioriser reflètent, avant tout, sur le corps,

c'est à dire, un corps qui est naturellement disposé, accueillir favorablement et de maintenir la

superstition et leurs articulations. Nous chercherons à mieux comprendre les mécanismes qui

permettent au corps à l'état plus facilement aux diktats ou les règles d'une croyance.

Cependant, nous allons rechercher les racines de la superstition et vers lequel nous vautrer

dans ce qui est plus profonde dans la vie des corps.

Mots clés : corps, relations, marques corporelles, superstition.

9

Nota preliminar

Em todo o texto, nós seguimos a edição bilingue da Ética, frequentemente, a tradução

de Tomaz Tadeu – SPINOZA. Ethica. Latim-português. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

Para eventual consulta sobre termos em latim do Teológico-Político, utilizamos o texto latino

original do Tratado Teológico-Político, edição Gebhardt: SPINOZA. OPERA. Im Auftrag de

Heidelberger Akademie der Wissenschaften herausgegeben von Carl Gebhardt. Heidelbergue:

Carl Winters Universitätsbuchhandlung, 1972, a citação será seguida da indicação do texto

original.

Utilizamos as seguintes edições de referência: 1) para o Breve Tratado, SPINOZA.

Tratado Breve. Tradução, introdução e notas de Atilano Dominguez. Madrid: Alianza

Editorial, 1990; 2) para o Tratado Da Reforma da Inteligência, ESPINOSA. Tratado da

Reforma da Inteligência. Tradução, introdução e notas de Lívio Teixeira. São Paulo. Cia

Editorial Nacional, 2004; 3) para o Tratado Teológico-Político, ESPINOSA. Tratado

Teológico-Político. Tradução, introdução e notas de Lívio Teixeira. São Paulo. Martins

Fontes, 2004; 4) para o Tratado Político, ESPINOSA. Tratado Político.Tradução, introdução

e notas de Diogo Pires Aurélio. Revisão: Homero Santiago. São Paulo. Martins Fontes, 2009;

5) Correspondencia. SPINOZA. Correspondencia. Tradução, introdução e notas de Atilano

Dominguez. Madrid. Alianza Editorial, 1988. Quanto aos textos em língua estrangeira,

algumas passagens citadas foram traduzidas por nós mesmos, e não terão a indicação

“tradução nossa” ao final de cada passagem.

Siglas para as obras de Espinosa

E Ética demonstrada segundo a ordem geométrica – Ethica ordine gemetrico

demonstrata

KV Breve Tratado, Tratado Breve

TRE Tratado da Reforma Da Inteligência

Correspondencia Cartas

TTP Tratado teológico-político

TTP Edição Gebhardt, Tractatus theologico-politicus

TP Tratado Político

10

Siglas e abreviações indicativas da Ética

Ap. Apêndice (Parte I)

ax. Axioma

cor. Corolário

def. Definição

dem. Demonstração

esc. Escólio

expl. Explicação

prop. Proposição

pref. Prefácios

Formas de citação (exemplos)

E III, 56 esc. Ética, Parte III, proposição56, escólio

Correspondencia 25 Carta, 25

TRE §57 Tratado da Reforma da Inteligência, parágrafo 57

TP I, 6, p. 85 Tratado Político, Capítulo 1, parágrafo 6, página da edição de referência

TTP, pref. §4, p. 3 Tratado Teológico-Político, Prefácio, parágrafo 4, página da

edição de referência

11

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...............................................................................................................................13

1.

UM CORPO EM BUSCA DO CORPO .........................................................................................19

1.1

O corpo ........................................................................................................... 19

1.2

A Potência – o ato de afetar e de ser afetado .................................................... 20

1.3

Sensação, percepção e afecção ........................................................................ 23

1.4

Existir em ato.................................................................................................. 28

1.5

O despontar da singularidade .......................................................................... 31

2.

VESTIGIA CORPORIS ..............................................................................................................36

2.1

As impressões corporais ................................................................................. 36

2.2 Os corpos e suas diferenças ............................................................................ 41

2.3 Traço e Marca ................................................................................................ 44

2.4 A lógica da impressão e reimpressão .............................................................. 46

3.

O SISTEMA DE MARCAS .......................................................................................................51

3.1 O princípio de uma imagem .......................................................................... 51

3.1.1- As imagens das coisas ................................................................................. 56

3.1.2 Significação e Signo ..................................................................................... 60

3.2 O Desejo ........................................................................................................ 65

3.3 A cristalização das marcas .............................................................................. 68

3.4

A teoria do conhecimento de Espinosa ........................................................... 74

3.4.1 A imaginação sem limites .............................................................................. 81

4.

UM ENVOLVIMENTO, A SUPERSTIÇÃO ...................................................................................85

4.1 Superstição ....................................................................................................... 85

4.2 O preconceito finalista – O sistema de marcas no Apêndice da Ética I............... 91

4.3 Atuação e prática no prefácio do Teológico-Político. As ramificações: psicológico-

políticas ao exemplo de Alexandre. .................................................................................... 100

12

4.4 Corpo: uma potência que produz impotência ................................................... 107

REFERÊNCIAS .............................................................................................................................119

13

INTRODUÇÃO

A atenção dada às análises acerca de um conhecimento através da imaginação, que

conduz o homem para as teias da superstição, é em Espinosa, ao mesmo tempo, antiga e atual.

Antiga, na medida em que a teoria do conhecimento pertence a um lugar clássico no

espinosismo, qual seja, aquele no qual a imaginação pareça obedecer a uma hierarquia onde

ela é inferior à razão, pois sua contribuição é limitada na produção do saber. Nesse caso, ela

ocuparia o lugar de um conhecimento defeituoso. Essa formulação de um conhecimento

defeituoso aponta para o lado negativo da imaginação e poderíamos postular um desinteresse

de Espinosa a seu respeito. Dado isso, vale questionar qual a função que ocuparia a

imaginação numa filosofia que privilegia a consideração das coisas sub specie aeternitatis?1

Mas a questão também é atual, pois de acordo com Henry Laux,2 em meados dos anos de

1960 e 1970, iniciaram-se novos estudos sobre o espinosismo e com isso a reinterpretação da

imaginação, vista por uma diversidade de interesses, como: um tema de estudo posicionado

no campo do conhecimento; a função de experiência prática que tenta direcionar e certificar

as condições de operação da natureza.

Acreditamos, sobretudo, que é sob esse movimento de direção prática da natureza que

encontramos os textos direcionados à imaginação, como no Tratado da Reforma da

Inteligência, que reconhece as perspectivas mais gerais acerca da questão, contudo não

intenciona desenvolver um sistema ético de efeito social. E, no Tratado Teológico-Político 3,

que reconhece as perspectivas da imaginação frente aos desdobramentos acerca da Sagrada

Escritura; em princípio, tal desdobramento confere uma concepção negativa da imaginação,

contudo, tal concepção é marcada por uma época conflitante entre o Estado e a Igreja

instituída. Isso nos leva a perspectivas diferentes; de uma maneira geral, Espinosa pretende

mostrar como o primeiro gênero de conhecimento não é um gênero inferior porque se propõe

a dar conta de uma realidade física embasada na experiência dos sentidos, sem o recurso às

premissas das coisas. Com efeito, a imaginação pode também ser compreendida a partir de

1 SPINOZA, B. Ethica V. Edição Bilingue, Latim/Português. Tradução e notas: Tomas Tadeu. Belo Horizonte:

Authêntica Editora, 2007.

2 LAUX, H.. Imagination et religion chez Spinoza- La potentia dans l’histoire . Paris, Vrin,

1993. p.10.

3 ESPINOZA, B. Tratado Teológico-Político. Tradução, introdução e notas: Lívio Teixeira. São Paulo, Martins

Fontes, 2004.

14

leis óticas1 de aparência ou de representação que podem muito bem serem relacionadas com

uma reflexão sobre o desejo, ou ainda sob a dimensão do corpo individual e social. Diferentes

mas complementares, essas perspectivas exploram a via de uma imaginação constitutiva e

produtora de uma organização de relações entre os indivíduos. Relações que se entrecruzam

em todos os campos da existência; um deles é o campo da superstição. E, se outrora

imaginação e superstição foram desassociadas, embora ambas façam apelo ao exterior e se

alimentem de uma exterioridade que só favorece o conhecimento confuso e mutilado.

Contudo, o fator que merece ser destacado é que a imaginação frente à superstição denuncia

um campo problemático. Em verdade, a imaginação propicia a formação de todos os tipos

superstição, porém somos seres naturalmente imaginantes e jamais iremos suprimí-la de nossa

existência. Então estaremos confinados à superstição?

Nesta pesquisa buscaremos identificar e ressaltar os mecanismos que englobam a

imaginação e a superstição a fim de que formem um sistema, de maneira que os efeitos

conjuntos deste sistema possam garantir que a superstição se fixe, se propague e, sobretudo,

se estabilize. Certamente, por ser a imaginação um encadeamento de conhecimentos oriundos

da nossa relação com a exterioridade, incerto, inevitável, inferior ao conhecimento adequado

das coisas, a superstição não poderia ser outra coisa, senão um emaranhado de crenças, cujo

conhecimento se funda na exterioridade, sendo do mesmo modo inevitável, incerta, útil para

muitos indivíduos que vivem à mercê do exterior, porém uma crença bem inferior aos

preceitos de uma religião natural discutida por Espinosa, que é o reconhecimento de Deus

como sumo bem e amá-lo como tal, com liberdade, porém isso só pode ser dito de uma

relação de felicidade, jamais de medo, porque amar Deus como sumo bem, é o mesmo que

dizer, amá-lo não por temor de algum castigo ou penitência, pois o amor jamais poderá surgir

do medo, mas da suma liberdade e felicidade. 2 Por isso, para a religião natural não há

necessidade de nenhum aparato vindo do exterior que possa garantir e manter a existência

singular. Contudo, nosso interesse não é pela religião natural, nem está nessa relação livre e

de felicidade entre Deus e o homem, mas nosso interesse se funda na relação de uma suposta

liberdade e felicidade marcadas pelo imaginário, numa relação que exerce um poder de

convencimento e, ao passo que convence, também aprisiona, na capa da religião ou a

superstição mesma. E isto nos permite dizer que superstição e imaginação pertencem a um

universo comum: um universo de estados instáveis, flutuantes; e esses estados incertos são os

1 MIGNINI, F. Ars Imaginandi- Apparenza e rappresentazione in Spinoza . Napoli: E.S.I, 1981. p.113-114.

2

SPINOZA, B. Correspondencia. Traducción, introducción y notas: Atilano Domínguez. Madrid. Alianza

Editorial. 1988. Cartas, 42-43.

15

maiores propiciadores de um conhecimento confuso e mutilado acerca das coisas; porém, esse

conhecimento é de tal forma real e convincente, que leva de maneira determinante, porém

instável, a certo modo de agir e de viver.

Entretanto, uma vez que existem fatores interligados por questões culturais, habituais

que proporcionam a consistência de certos valores, e que permitem edificar doutrinas, como

uma doutrina da superstição, é porque sobre eles também repousa toda uma dinâmica das

afecções e por isso as suas implicações na esfera religiosa e política. Mas, esses fundamentos

só podem ser mais claramente identificados quando nos deparamos com certas noções, como:

imagem ( imago), signo ( signum) e principalmente a noção de traços ou marcas corporais

( vestigia corporis). Esses traços são o que podemos denominar como as impressões ou marcas

deixadas e registradas em nosso corpo através das relações com os demais corpos. Por isso, ao

nos depararmos com tais impressões corporais, imediatamente vislumbramos um imenso

campo que muito terá a nos fornecer em relação à dinâmica da superstição. Iniciamos por nos

questionar: o que de fato são essas marcas? O que elas nos revelam? Em que ponto da

experiência elas se entrecruzam com a superstição? Qual seu poder de interferência nas

práticas de vida? E qual o mecanismo que lhes serve de apoio?

Por um lado, antecipadamente, já temos condições de esclarecer que Espinosa não faz

uma profunda e exaustiva análise das marcas, por outro lado é inegável que ele as maneja e

remaneja a fim de entender a maneira pela qual um corpo se apresenta como memória de suas

práticas. É justamente sobre esse ponto que paira nosso interesse. E a fim de que possamos

entender o funcionamento e o desdobramento do universo de um indivíduo que se deixa levar

pela superstição, bem como tudo que a cerceia, optamos por desvendar a mecânica corporal,

isto é, a mecânica formadora das marcas da superstição. Para isso, iremos vasculhar as

entranhas dos corpos em busca de suas íntimas marcas. Nossa busca começa com o corpo. O

que é um corpo? O que são as afecções de um corpo? Como o corpo permite que lhe

imprimam as marcas? Em seguida, nos lançamos rumo à imaginação. O que é uma imagem?

O que é a imaginação? Como imaginação se vincula à superstição? Quem é o indivíduo

supersticioso?

No que tange à superstição, ela está amplamente presente em todas as discussões de

Espinosa acerca do poder teológico-político. É uma questão que perpassa não somente os

tratados de política como também a Ética. Para o filósofo a superstição não é algo que possa

aumentar a potência do indivíduo e afirmar sua existência, mas contrariamente, ele a toma

como sendo um campo de preconceitos que trazem consigo um envolvimento muito

16

pernicioso, contudo eficaz, sobretudo, por que a superstição está presente tanto no discurso

psicológico quanto no político, e estes dois discursos estão permeados por um fator comum

que é o medo. Uma vez que na esfera política interessam particularmente os efeitos políticos,

já na esfera individual interessam os efeitos particularmente existenciais.

Dada essa presença da superstição que cerceia todos os campos da existência, nosso

questionamos se dirige quanto a sua impotencialidade: a superstição seria mesmo uma

impotência? Todavia, a análise espinosana acerca da superstição não visa somente expor seus

malefícios, mas, sobretudo, suas origens, ou seja: o que de fato leva o homem a cair nas teias

da superstição? Sobre essa questão também se funda todo nosso interesse, que se encontra

voltado ao que há de mais íntimo para tal propensão humana.

Dois textos importantes nos trazem também dois fatores primordiais que levam o

homem às teias da superstição, são eles: o Apêndice da Ética I e o Prefácio do Tratado

Teológico-Político. No Apêndice da Ética I, Espinosa utiliza uma fórmula acerca do destino

humano, cuidadosamente arquitetado por Deus, os fins dos quais toda a humanidade estaria

confinada, ele se refere a uma doutrina dos fins, aqui justamente encontramos o discurso de

efeito psicológico, moral . Já no Prefácio do Tratado Teológico-Político, o questionamento é

direcionado a um afeto e nele a superstição tem como principal pilar o medo. O homem

amedrontado e triste que padece por imaginar perder seus bens, cargos honoríficos, prestígio

e, para que estes bens estejam garantidos e a vida sempre próspere, ele necessita agradar a

Deus através de todo o tipo de rituais e cultos, já aqui encontramos o discurso de efeitos

voltados para a política. São dois níveis de discurso que se entrecruzam pelo medo e a via

propiciadora desse entrecruzamento não poder ser outra, senão a imaginação. Assim, cada vez

mais próximos da imaginação, vemos que ela não só nos traz um campo fértil para o

desdobramento da superstição, como é questão fundamental nesta pesquisa, pois sem ela um

sistema não poderia formar-se. Por isso nos interessa saber como opera a imaginação e, de

que maneira a superstição se alimenta dessa operação.

De fato, para que possamos falar em um sistema formador de superstição, além de

confrontarmos os limites da imaginação, é necessário averiguarmos as raízes, os fundamentos

que conduzam à formação desse sistema. Por isso, nossa busca vai ao encontro da origem;

nossa intenção é encontrar a raíz, a nascente da superstição, logo, o que almejamos saber é

como se constitui o processo da superstição corporeamente. Não obstante, pensamos também

poder admitir a existência de uma atividade corporal, disposta interna e externamente ao

sustento a superstição. Portanto iremos buscar por elementos que não apenas formem, mas

17

que sustentem essa procura. E movidos por essa instigante e intrigante atividade corpórea, que

nosso profundo interesse se volta aos termos vestigia corporis,1 traços, marcas e impressões

corporais. Obviamente não nascemos supersticiosos; a superstição é algo a que todos os

homens estão naturalmente sujeitos,2 uma vez que se estamos sujeitos ou ainda tendemos a

ela naturalmente é porque algo em nosso corpo “convém” com algo da exterioridade e

permanece conosco. E como isso se opera? Simplesmente ficamos marcados? Marcados por

toda uma existência? No livro intitulado Tratado dos três impostores, cuja autoria é

supostamente atribuída a um discípulo de Espinosa, Jean Maximilien Lucas, este afirma que

Espinosa ao se referir à alienação humana provocada pela superstição, já dizia:

Só os que se livraram das máximas de sua infância puderam conhecer a

verdade; é preciso fazer extraordinários esforços para superar as impressões

do costume e apagar as falsas ideias das quais o espírito humano se nutre

antes que seja capaz de julgar as coisas por si mesmo3.

Esta passagem, sobretudo nos confere a plena convicção de que a superstição não seria

somente o efeito de um processo da exterioridade com a exterioridade; o corpo e sua mente

guiados apenas pelos ditames da percepção através dos sentidos, ou ainda pelas imagens

exteriores. Não. A superstição tem raízes profundas e internas que estão impressas no corpo

humano. Certamente a superstição não poderia deixar de ser um processo complexo, mesmo

porque estamos falando de corpos complexos, tão complexos, a ponto de terem que realizar

extraordinários esforços para se livrarem dela. Além do que, a superstição também é algo que

pode habitar a mente humana desde muito tempo, desde a mais tenra infância ela se instala e

nutre o espírito humano. Isso que dizer que então podemos responsabilizar nossas

lembranças por nos tornarmos indivíduos supersticiosos? Ora, o fato é que impossível

tomarmos a superstição apenas pelo seu lado que a caracteriza como impotência; é inegável

que não possamos atribuir potencialidade a algo que para ser desfeito, necessita que

realizemos extraordinários esforços para expurgarmos.

Com efeito, há uma capacidade organizadora e produtora da potência corporal, sobre a

qual devemos refletir, sobretudo, quanto à expressividade dessa potência no mundo. Pois

estamos diante de um corpo potencial, mas que não tem a obrigatoriedade de produzir apenas

1 SPINOZA, B. Ethica II. post. 5.

2

ESPINOSA, B. Prefácio do Tratado Teológico-Político. p. 7.

3 Jean Maximilien Lucas (médico de Haia): Vie de M. Benoît de Spinoza, par um de ses disciples. Hamburgo,

Henry Kunrath, 1735, 1ª ed. 1719, em Les nouvelles littéraires. Amsterdã, Du Sauzet. Cf: A vida e o espírito

de Baruch de Espinosa. Jean Maximilien Lucas. Tratado dos três impostores. Anônimo. São Paulo. M.

Fontes, 2007.

18

o que é potencial. E, uma vez que não produz apenas o potencial, então questionamos: porque

um corpo potencial produz o impotencial? Afinal, a superstição é uma potência ou uma

impotência? Como a superstição sobrevive? Há cura para a superstição? Estas, bem como

tantas outras questões nos convocam a realizar uma análise minuciosa da teoria dos corpos

que se encontra na pequena física contida na segunda parte da Ética. Tal exploração servirá

como nosso sustentáculo no desdobramento da gênese da superstição. Isso só será possível,

devido à longa explanação que é feita por Espinosa sobre a constituição dos corpos e suas

relações de movimento e repouso, o que nos permite um embasamento não apenas quanto a

sua origem, como também epistemológico da superstição. E, uma vez embasados por esse

percurso ontológico da Ética, buscaremos pelos elementos que constituem as impressões

corporais, as marcas, nos dois textos mencionados anteriormente, o Apêndice da Ética I e o

Prefácio do Tratado Teológico-Político. Estes dois textos configuram aspectos essenciais e

primordiais a nossa conclusão, pois demonstram a formação fundamental, prática e usual do

sistema da superstição: o Apêndice revela o processo imaginativo, ou seja, o pilar cognitivo

da superstição e seu uso; já o Tratado Teológico-Político, nos lança diretamente ao seu campo

de prática, de atuação no instante em que nos colocamos diante do exemplo de Alexandre. Em

resumo, através do exposto neste texto, pretendemos mostrar o nosso sistema de marcas

corporais em pleno funcionamento.

19

1. UM CORPO EM BUSCA DO CORPO

1.1 O corpo

Para construir o nosso percurso em busca das raízes corporais da superstição, é

primordial analisarmos o corpo. Primeiramente, ver o que Espinosa define por corpo e por

afecções de um corpo: “Por corpo compreendo um modo que exprime, de uma maneira

definida e determinada, a essência de Deus, enquanto considerada como coisa extensa. Veja-

se o corol. da prop. 25 da P. I.”1 No entanto, na definição 5 da primeira parte da Ética,

Espinosa enuncia o “modo como sendo uma afecção da substância e, portanto, o que existe

em outro e por outro é concebido.”2 Porque a definição 1 da parte II da Ética define o corpo

como modo, porém não busca na definição 5 da E I uma referência? De fato, a explicação é

dada pelo corolário da prop. 25 da Ética I, no qual se lê que “as coisas particulares nada são

senão afecções dos atributos de Deus, isto é, modos pelos quais se exprimem os atributos de

Deus de maneira certa e determinada.” E o que isso quer dizer? Na def. 1 da Ética II, o corpo

é definido como expressão certa e determinada da essência de Deus; o que é enfatizado agora

pela parte II da Ética é a natureza expressiva do modo e que essa expressão é certa e

determinada por se tratar de uma coisa singular; na parte I da Ética, Espinosa já demonstrou

que os efeitos dos atributos de Deus são coisas determinadas a existir e a operar de maneira

certa.3 A definição 5 da Ètica I, sublinha o modo como o estar em outro e ser concebido por

outro, ou seja, o modo no interior do ser absoluto; na Ética II a definição 1 sublinha o modo

finito pelo exprimir a essência do ser absoluto de maneira certa e determinada, portanto, sua

particularidade.

Ora, por que encontramos uma definição de corpo na segunda parte da Ética intitulada