As minas de prata terceira parte por José de Alencar - Versão HTML

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O capataz aproveitou-se desse engano, e de repente contornando a ilha, se distanciara

dos seus perseguidores.

Afinal uma das chalupas chegando a tiro de arcabuz, disparou contra a catraia a primeira

carga de fuzilaria, quase toda perdida; porém segunda e terceira iam seguir-se, e afinal

viria a abordagem.

Estácio então avaliou de longe a situação da catraia.

— Qual tem melhor olho? perguntou.

— Em falta de Guaraçu, eu! disse um.

— Na popa, que apanhe o mastro.

O índio ajoelhou e fez a pontaria; o mancebo retificando-a, achou-a perfeita.

— Fogo!...

O grito de Antão respondeu ao longe.

— Bravo!...

Dissipado o turbilhão de fumo conheceu-se o estrago produzido na chalupa;

aproveitando-se do espanto causado entre os holandeses, a catraia continuou a salvo e

atracou ao navio; os três prisioneiros foram içados como fardos, e a judia recebida pelo

mancebo com a possível cortesia. O Antão Gonçalo pisou com sentimento indizível de

júbilo esse soalho que fora seu chão tantos anos.

— Olá! mestre!... gritou-lhe Estácio; cuidado com a catraia!

E continuou a fulminar os escaleres holandeses, dos quais só escapou o último,

arripiando carreira. Os tripulantes ou morreram no combate, ou foram acabar depois às

mãos dos selvagens nalgum ponto da costa, pois deles não houve mais notícia.

— A caravela? perguntou o Antão.

Estácio apontou para o horizonte, onde o navio aparecia como uma sombra.

— E então? Que fazemos aqui parados? gritou o velho marujo.

— Sois capaz de navegar o bergantim? Com que maruja?

— Os meus índios!... Que mais quereis?... São antas; tanto correm em terra como nadam

n'água. Vereis!...

— Pois arranjai-vos com a manobra; eu me ponho ao leme.

— Ah! entendeis do riscado?...

— Não; mas Deus proverá.

A intenção de Estácio era queimar os dois navios e voltar à Bahia com seus prisioneiros;

mas tendo-lhe escapado a caravela, o plano do Antão lhe sorria.

Mandou que lhe trouxessem Pedro:

— Toma, rapaz, a bolsa do holandês, que te foi prometida. Põe-te a nado, e safa-te!...

— Já agora prefiro ficar convosco!...

— Acho que não fazes bem.

— Por que razão, senhor?

— Não tenho confiança em ti; por conseguinte porei ao teu lado um destes camaradas

para torcer-te o gasnete à primeira suspeita. Pensa bem; ê um perigo.

— Senhor, eu não sou velhaco! replicou o rapaz com lágrimas nos olhos. Se me passei

para vós, abandonando os que me assoldaram, foi porque me vencestes à força; resisti

quanto pude, do mais não tenho eu culpa. A bolsa, aceitei-a porque veio do meu ganho; e

pois que me privastes de tão boa freguesia, justo era que me desforrásseis. Mas agora

que me ganhastes, não posso ser senão vosso.

— Está bem; ficai!

Com pouco o bergantim desfraldando ao vento as velas todas até os últimos papa-figos,

singrava airosamente rumo do norte, com a proa sobre a caravela.

Eram oito horas do dia; o sol entornava cascatas de luz sobre as solidões do mar. O

bergantim deitando cinco a seis nós por hora, prosseguiu com ardor a caça começada;

ganhava sobre a caravela meio nó, de modo que só lá por volta da tarde a não escassear

o vento podia chegar ao alcance do canhão.

Antão descansado a respeito da manobra passara uma revista pela despensa, e havia

arranjado sobre a meia laranja um suculento almoço; paios, bolacha, queijo e vinho; ele e

o estudante fizeram-lhe as honras com excelente apetite.

Quando estavam no fim da refeição, achegou-se deles Esteves:

— A judia vos busca, Senhor Estácio.

— Dizei-lhe que já sou com ela.

Como preparava-se para descer à câmera, viu que lhe vinha ao encontro a formosa

israelita. O mancebo não se pôde esquivar à admiração, contemplando a bela criatura. Os

grandes olhos negros, de intenso brilho, nadavam em um fluido límpido, como se ainda os

orvalhasse o soro das lágrimas; não havia sorrisos no seu lábio, mas que sorrisos valiam

a bonina deles?

— Senhora, escusai, disse o estudante catando a cortesia devida às damas, se não vos

agasalho como era meu dever e mais ainda meu desejo. O caso imprevisto que me fez

hóspede vosso, quis que ainda neste ponto incorresse em vosso desagrado.

— Outra coisa para mim de maior monta me traz à vossa presença, senhor cavalheiro.

— Melhor faríeis ordenando que fosse eu à vossa.

— Vai quem espera mercê; e muito alcança, às vezes, se obtém audiência para o que tem

a pedir.

— Desterrai esse temor, senhora; com muito empenho vos escuto.

Raquel afastou-se fazendo ao mancebo um aceno para que a seguisse. Tirando então de

sob a peliça que a envolvia o cofre de filigrana com suas joias, abriu-o de modo que só

Estácio o visse:

— As joias que estão neste cofre valem, segundo ouvi, muitos centos de mil cruzados;

além delas meu pai traz a oparlanda cosida de ouro; tudo isto vos pertence se concederes

a vida ao velho Samuel e à sua filha.

Estácio sorriu com benevolência:

— Guardai, donzela, vossas lindas joias para adereçar-vos, que a nenhuma iriam elas

melhor que à sua formosa senhora. Quanto ao ouro de Samuel, todo ele fundido não pesa

um só fio do cabelo de sua cabeça. Vosso pai é mercador, e vós filha; pensa ele que tudo

se compra, vós, que tudo se pode esperar em benefício do autor de vossos dias. Por isso

a ambos vos perdoo.

Raquel, apesar do tom brando dessas palavras, sentiu a têmpera d'alma varonil, como

sob o macio estofo de um divã acetinado sente-se a vibração elástica do aço.

Arrependeu-se quase do passo que tinha dado, e receou tivesse agravado a sorte do pai,

ofendendo o brio do mancebo. Sob essa pressão vergou a fronte lânguida.

— Outra moeda, senhora, tendes para mim de maior preço, com a qual muito, senão tudo

podeis obter.

Raquel corou, erguendo os olhos magoados:

— Essa linguagem, cavalheiro...

— Apresso-me em declarar-vos; a moeda de que vos falei, não é outra, senão a verdade.

Essa sim, é ouro fino e de lei!

— Não seria capaz de faltar a ela!

— Creio bem, mas podeis encerrar-vos no silêncio.

— Que exigis de mim?

— A confissão inteira do que é passado a respeito da fuga dos dois flamengos.

— Uma impiedade! Que as palavras da filha sirvam para condenar o pai!...

— Para a condenação de vosso pai, com mágoa vos digo, não hei mister de mais do que

já sei da melhor fonte. Samuel, grão-mestre dos judeus do Salvador, foi quem promoveu a

fuga dos flamengos. Em sua casa se ocultaram até partirem da cidade; dele receberam

dinheiro e a missiva que para em meu poder, convidando o inimigo a vir atacar a Bahia.

Raquel estremecia a cada palavra do mancebo:

— Pois se tudo sabeis, que mais quereis de mim?

— Há um ponto que eu ignoro; não compromete mais vosso pai, antes pode favorecê-lo.

— Qual ele é?

— Quem foi o traidor, que descobriu o santo, e entregou a planta da cidade levantada

pelo sargento-mor?

Raquel empalideceu; a palavra borbotou-lhe do seio como uma lava:

— Foi o mais vil dos homens!...

— Fidalgo?

— Para vergonha de seu nobre sangue!...

— O nome?...

— Poupai-me a dor de o proferir!

Estácio refletiu:

— Esse homem, senhora, seria o mesmo, cujo corpo depois que o assassinaram, foi

lançado à rua, pouco distante de vossa casa, cerca de onze horas?

— Não estava morto; sim ébrio!

— Era ele então?... Um oficial de a cavalos, se não me engano!...

— Pois que tanto sabeis, vede o resto!

Raquel tirou do seio o vale de D. José, que na noite antecedente tomara das mãos do pai,

e entregou-o ao mancebo.

Estácio leu corando de vergonha; terminando, a donzela referiu-lhe em poucas e acres

palavras a cena passada na véspera entre ela e o alferes.

— A vida e a liberdade de vosso pai, senhora, por este papel e o segredo profundo do que

ele encerra!

— Guardai-o e Deus vos recompense.

— A promessa que vos faço não se pode realizar já; depende ela do governador, em

nome de quem procedo; mas empenho-vos minha palavra.

— Ela me basta! disse a judia com nobreza.

Estácio ficou pensativo, relendo lentamente o papel que tinha diante dos olhos:

— Muito amigo sois desse homem, cavalheiro?

— Ele? exclamou Estácio. Vota-me ódio profundo.

— Bem me parecia que entre vós e ele só ódio pode existir. Mas então por que exigis que

se cale sua infâmia?

— É irmão da mulher que eu amo!

— D. Inês?...

— Compreendeis-me?... Todo o segredo!...

— Eu vo-lo juro.

Nesse instante um índio soltou um pequeno grito gutural com que costumava chamar a

atenção, e que se pode talvez exprimir assim:

— Huhu!...

À esquerda, na extrema do horizonte, descobria-se a mastreação e velame de uma

embarcação de alto bordo, que seguia o mesmo rumo, porém muito amarrada; devia estar

a três léguas de distância: Estácio assestou o óculo, que passou ao contramestre.

— É uma fragata... e portuguesa. Vai para São Sebastião!

— Vira de rumo?...

— E vem de Pernambuco.

— Bem pode ser o novo governador, D. Francisco de Sousa!

— Estava a chegar?

— Já tardava!

— Então não é outro.

Ambas as suposições eram exatas.

A fragata era realmente portuguesa e trazia a seu bordo D. Francisco de Sousa,

governador nomeado para o Estado do Sul; tendo-se demorado na travessia da Europa

por causa da caça a dois navios holandeses que a desviaram de sua rota, refrescara

alguns dias em Pernambuco, e demandava agora o porto do Rio de Janeiro.

D. Francisco de Sousa é um vulto importante na história dos tempos coloniais, pela

energia do caráter, agudeza de engenho e grandes letras; embora apenas um momento

perpasse pela cena deste drama, teve uma grande influência na crônica das minas de

prata. Em 1591 viera ele à cata daquelas minas com a promessa de uma recompensa,

negada ao seu descobridor; agora, dezoito anos depois, voltava com renovação da

promessa à busca daquele imenso tesouro, cujo segredo a terra guardava.

Vaz Caminha não se enganara pois; era o roteiro de Robério Dias que trazia outra vez à

América o orgulhoso fidalgo português.

Quando mestre Brás ao desembarcar em Lisboa foi ao palácio dos Sousas visitar o antigo

governador, não o levou mera reverência ou acatamento. O judengo que embaçara o

frade e os companheiros, fingindo-se enjoado e ébrio durante a palestra da ceia, ouvira

tudo; e, como o P. Molina, farejara a existência do roteiro no poder de D. Diogo de Mariz.

Revelou portanto ao fidalgo o que sabia e conjeturava. D. Francisco correu a Madrid; teve

larga conferência com o ministro; e por fim, depois de mil protelações, obteve a divisão do

Estado e o provimento para o Sul.

Seria a sua segunda vinda ao Brasil tão funesta ao filho, como fora a primeira ao pai?

Já a Providência os aproximava. De milhares de léguas que separavam esses dois

homens, o soberbo fidalgo e o órfão desvalido, só restavam três; e em pouco talvez se

tenham eles de encarar frente a frente como dois inimigos hereditários; entre ambos

erguia-se a memória da vítima!...

Também de bordo da nau tinham avistado o bergantim à popa e a caravela à proa como

os dois extremos da base de um triângulo, de que ela ocupasse o vértice. O comandante

depois de examiná-los atentamente com o óculo de longa mira, ficou pensativo:

— Não vos parecem os nossos dois holandeses da Ilha de Fernando de Noronha?

— Eu jurara que são!... respondeu o imediato.

— Se não fosse o senhor governador estar tão impaciente de chegar!...

— Pois vão no mesmo rumo, que mau é tentar!...

— Avisais bem!

Embocando a buzina mandou a manobra:

— Larga escotas a bombordo! Cassa a estibordo! Orça à terra!...

Uma hora depois, mestre Gonçalo exclamava a bordo do bergantim:

— Oh! oh!... Os amigos vão-se chegando. Quem sabe se já não farejam a caça.

— Quem? Os da nau? perguntou Estácio vivamente.

— Os ditos cujos. Não vedes como atravessam manhosamente? Por tarde temo-los

conosco.

— E não há meio de evitá-los?...

— É o que não custa; mas deixaremos escapar a caravela?

— Isso não!...

— Depois quem sabe?... Talvez os flamengos com medo da nau se cosam com a terra, e

vão se esconder nos baixos dos Abrolhos! Nesse caso embaçamos cá os camaradas, e

podemos pilhar a caravela como tatu no buraco.

— Conheceis estas paragens?...

— Se não conhecera!... Muito herege inglês e francês caçamos por aqui no tempo do

Senhor D. Jerônimo de Albuquerque. Bom capitão de mar, aquele! Como ele não vem cá

segundo.

O contramestre voltou-se:

— Olá de proa!...

Foi Pedro quem acudiu:

— Vai lá por baixo, e vê se me desencavas a bandeira real de Espanha. É impossível que

estes cães de flamengos não a trouxessem a bordo, para nos pregar das suas.

Por volta da tarde o horizonte apareceu acolchoado de grossas nuvens bronzeadas. O

vento ponteiro que se levantou de sudoeste anunciou a repetição da tempestade da

véspera.

O bergantim, singrando galhardamente, ganhara tanta vantagem, que estava quase a tiro

de canhão da caravela; como previra o contramestre, os flamengos, que a princípio

buscavam a salvação no alto mar, com o aparecimento de outra vela se encostaram à

terra. Não obstante, a nau tomando o vento em cheio pela popa aproximava rapidamente

do bergantim que apenas o tomava a seis quartas.

Estácio estava inquieto, receando algum obstáculo.

— Que alcance dais a este rodízio, mestre Antão?

— Cinquenta quintais... Pode alcançar cerca de trezentas braças.

— E a caravela está?...

— Pouco mais do que isso!

— Então experimentemos!...

Carregada a peça com uma carga formidável, o moço fez a pontaria.

— Na mastreação!... disse o contramestre. Cortar-lhe as asas!...

A bala partiu, e foi cair perto da caravela, mas já fria e sem força; contudo o mancebo não

desanimou, e os tiros sucederam-se uns aos outros. À medida que o alteroso bordo da

nau se aproximava, o sangue fervia-lhe no coração de impaciência; e nova descarga

partia. Afinal foram seus esforços coroados de sucesso: uma bala cortou a meio o mastro

da mezena, diminuindo consideravelmente o pano à caravela, cuja marcha atrasou.

A tempestade rugia; sobre o manto dela desdobrava-se a noite tormentosa. Quando o

primeiro trovão soou a sota-vento, do lado oposto ouviu-se o tiro do canhão a bordo da

nau; as quinas portuguesas desdobraram-se majestosamente na popa, enquanto o

pavilhão de capitão-general borboleteando pela adriça, foi tremular no tope do mastro

grande.

O bergantim correspondeu à salva, içando igualmente a bandeira real de Espanha e

Portugal. Os dois navios alongando-se em rumos paralelos, foram assim um instante a

par e par, e tão próximos que se podia falar sem buzina de um a outro bordo.

— Que navio é esse? perguntaram.

— Uma presa flamenga.

— Venha o comandante a bordo.

— Não tenho tempo!... respondeu Estácio.

— Obedecei, senão vos meterei ao fundo!...

O mancebo calou um instante:

— Ponde vós o escaler ao mar; a mim não sobra gente para isso.

Em um instante arreou-se o escaler da nau com dois marinheiros e um oficial; os navios

ficaram ao pairo durante a travessia, continuando depois a sua marcha. Estácio, havendo

feito suas recomendações a Antão e Esteves, passara-se para bordo da nau, onde

apenas chegado foi conduzido à popa. Ali estava o Governador D. Francisco de Sousa

com sua comitiva, e ao lado o capitão-mor do vaso e oficialidade.

A presença do mancebo produziu no grupo de fidalgos e oficiais vária impressão. A beleza

viril de sua fisionomia, que realçava nesse momento um assomo de intrepidez, inspirava

interesse e simpatia; mas as roupas enxovalhadas no mar e no combate, as mãos negras

de pólvora, deviam excitar uma prevenção a respeito da qualidade e posição do mancebo.

— Sois então o comandante da presa? interrogou o governador.

— Quem me interroga, e com que autoridade?

— Aquele pavilhão já vo-lo anunciou, mancebo! replicou o fidalgo com severidade.

— Como a bandeira real içada a meu bordo anunciou ao sr. capitão-general, que eu

navego ao serviço d'El-Rei!

— Prudência, mancebo. Falais a D. Francisco de Sousa, governador, e capitão-general do

Estado do Sul.

Estácio empalideceu:

— Acatarei em Vossa Senhoria a autoridade de El-Rei, nosso senhor...

O mancebo carregou nas últimas palavras para tornar bem frisante o seu pensamento,

que era separar o cargo da pessoa, nivelando ao mesmo tempo a ambos, o poderoso

fidalgo e o fraco mancebo, na qualidade de súditos do mesmo soberano.

— Como vos chamais?

— Melhor é que o ignoreis, senhor; porque esse nome deve ser uma recordação

pungente para Vossa Senhoria.

— Que significa isto?... Explicai-vos melhor! exclamou o governador dardejando um olhar

de cólera.

— Sou filho de Robério Dias, senhor governador!

— Ah!... Sim, ele deixou um filho!...

— Na miséria, em que tem vivido até hoje.

— Não se trata disto agora. Onde e como fizeste esta presa?

— Capturei-a ontem à noite na Ilha de Itapoã, onde estava fundeada.

— Com que autoridade?... Admira-vos a pergunta? Igual me fizestes pouco há!

— Com a autoridade que tem todo o súdito de El-Rei de servi-lo e defender os seus

estados; autoridade justa e legítima como nenhuma outra, pois nasce de um dever

sagrado. Onze homens apenas metem-se numa catraia, e à custa de grande esforço e

ardil obtêm capturar um bergantim tripulado por sessenta marujos, matando a maior parte

da tripulação; e quando, servindo-se das armas do inimigo, o perseguem, tudo isto sem

custar um ceitil ao real erário, vós, sr. governador, lhe saís ao encontro, para lhe perguntar

com que autoridade fizemos isto?

Essa linguagem firme abalou todos que a ouviram; mas restava uma suspeita no espírito

de D. Francisco.

— Sem dúvida, mancebo, que praticastes uma ação valorosa, e eu vos louvo por vosso

arrojo; mas não sabendo se a fizestes em nome de El-Rei como dissestes, ou por conta

própria, viajareis de conserva comigo até São Sebastião, onde averiguaremos o caso, e

se for como dizeis, darei conta a El-Rei que vos premiará.

— Suspeitais que eu seja um pirata, senhor?... replicou o mancebo com azedume. Assim

devia julgar o filho, quem há dezoito anos condenou o pai como traidor!

— Deixai em paz as cinzas paternas, mancebo, não as revolvei que podem tisnar-vos

ainda!... Basta; já resolvi o que tenho por melhor.

— Com vossa permissão, o que resolvestes não é possível.

— Por quê?

— A minha obra não está acabada!

— Nós a acabaremos juntos.

— Que diríeis, senhor governador, de quem vos quisesse usurpar os poderes de que vos

El-Rei investiu?...

— Qual paridade há nisso?

— A captura daquele navio é meu direito, como é vosso a patente dada por El-Rei.

— Quero eu tomá-lo!...

— Não é a mim que o toma V. S.a, mas ao Senhor D. Diogo de Menezes e Siqueira,

governador e capitão-general do Estado do Brasil, a quem só reconheço como tal, pois a

nenhum outro ainda prestaram homenagem as Câmaras das cidades e vilas!...

— Onde está a patente que dele trazeis?

— Não careci dela para arriscar a minha vida, menos agora que a empresa está feita.

— Tenho resolvido!

— Atenda o senhor governador que será causa de escapar-nos o inimigo; já ele ganhou

sobre nós e com a noite nos fugirá.

Era real o que dizia o mancebo, nem essa circunstância escapara aos oficiais.

— Bem; consinto que tomeis a dianteira; mas meter-vos-ei a bordo uma guarda, para

segurança.

— O primeiro soldado que pisar nas tábuas do bergantim sem permissão, será também o

último, porque o navio arrebentará com a explosão do paiol. É minha ordem!... E agora

podeis fazer de mim o que vos aprouver!...

O mancebo cruzou os braços, e pôs-se a olhar a caravela, que envolta pelas sombras da

noite tormentosa, confundia-se já com o vulto da terra assomando a sota-vento.

As organizações superiores têm um poderoso magnetismo, ao qual não escapam outras

de igual têmpera. O heroísmo da empresa audaciosa, executada pelo brioso mancebo em

tão verdes anos, a firmeza do seu ânimo junto à agudeza de engenho, conquistaram a

admiração do fidalgo. Por outro lado D. Francisco sentia, que ele não tinha justo motivo

para reter o navio; a suspeita de pirataria era inverossímil; quando muito se podia supor

um corso feito sem carta e por conta própria. Mas na colônia do Brasil, tão desamparada

da Metrópole quanto acometida por aventureiros de todas as nações, e onde a defensão

do Estado estava quase sempre confiada aos esforços particulares, podia-se com razão

imputar como delito a Estácio o seu ato de bravura, e impedi-lo de coroar a sua obra com

a destruição do outro navio?

Essas razões ponderadas em conselho modificaram a primeira decisão do governador; o

mancebo foi restituído ao seu navio. Quando ele sentiu de novo sob os pés as tábuas do

bergantim, respirou como Anteu depois de tocar a terra.

— Reparemos o tempo perdido!...

A tempestade desabava. O bergantim, como um corcel por algum tempo sofreado,

disparou corcoveando sobre as ondas. Impelido pela refega do temporal, arrostando

temerariamente a fúria dos elementos, parecia um dos brancos alcíons que ao cair da

tormenta, atravessam calmos e serenos por cima das ondas.

D. Francisco sorriu murmurando consigo esta paródia sinistra:

Sit tibi aqua profunda.

III - Em que o rato fura a casca do queijo mas não chega ao miolo.

Terça-feira da Purificação, em que se contavam dois de fevereiro do ano da graça de

1609, O provedor-mor da alfândega de São Sebastião do Rio de Janeiro estava ocupado

em rever papéis velhos, quando sua mulher lhe mandou avisar pela caseira, que um

padre da Companhia o procurava.

O fidalgo ordenou que o fizessem entrar, e interrompendo as suas notas, esperou a visita

anunciada.

D. Diogo de Mariz teria cerca de trinta anos; mas os últimos cinco decorridos depois da

catástrofe que lhe roubara de um só golpe toda a família, haviam assolado aquela

mocidade robusta e viçosa. A sua fronte alta e inteligente, como a de seu pai, começava a

despovoar-se, e a tez morena, menos crestada do sol do que outrora, parecia curtida pela

dor e saudade.

Mas o que perdera em brilho e frescor da idade, ganhara em gravidade de aspecto e

nobreza de gesto. Começava a adquirir a beleza varonil, que adornava o busto venerável

de D. Antônio de Mariz, ainda nos últimos dias da sua existência.

A sala em que se achava o fidalgo era como a página desdobrada do íntimo de sua alma:

ali estavam em torno, a cingi-lo, as recordações mais palpitantes de sua vida. Os retratos

de seus pais, de Cecília e Isabel, pendiam das paredes; e em frente à papeleira onde

escrevia, um pintor do tempo imaginara sob as indicações do fidalgo uma cópia muito

semelhante da casa do Paquequer assentada sobre o rochedo à margem do rio. A um

lado via-se uma palhoça, e encaminhando-se a ela um índio que figurava Peri; no terreiro

D. Antônio passeando com um mancebo fidalgo que representava Álvaro de Sá. Mais

longe, perto do casarão dos aventureiros, a desengonçada figura de Aires Gomes. D.

Lauriana e as moças apareciam sentadas nos degraus da escada, trabalhando em obras

de agulha e debuxo.

Bastava ao fidalgo erguer os olhos e circular esse aposento para se imaginar ainda no

Paquequer, vivendo a alegre e descuidosa vida de mancebo que fruíra naqueles ermos,

cercado de sua família. Então embalava-se algumas horas nessa doce ilusão, até que

afinal lhe subia à memória uma ideia pungente que amargurava todas as reminiscências;

recordava-se com desespero que fora ele, insciente é verdade, a causa primeira da

calamidade que o isolara no mundo.

Nesse instante, ao recolher no canto da arca as notas que escrevia, assaltou-o essa ideia

suscitada pela vista de um objeto ali guardado. A visita que entrou depois, veio encontrá-

lo submerso no doloroso recordo dos tempos idos.

O P. Gusmão de Molina, pois era ele quem procurava a essa hora o provedor, penetrou

no aposento com a orgulhosa humildade que acompanhava o jesuíta ao palácio, como à

choupana; e era o traço característico, dessa, mais que de nenhuma outra ordem

religiosa. Cada membro dela sentia-se pequeno como individualidade, mas como parte da

poderosa associação conhecia que nele estava a força da Companhia. A humildade

trajando as vestes profanas da soberba, o corpo do apóstolo sob a túnica do patriciado:

eis o jesuíta.

Da porta ao fidalgo que se erguera para recebê-lo, o P. Gusmão fez as três reverências,

conforme o ritual da Companhia, cruzando as mãos no peito à moda oriental. Mas não foi

unicamente à cortesia que se aplicou a atenção do frade durante esse curto instante:

aproveitando o movimento da cabeça, seus olhos circularam duas vezes o aposento, uma

de alto a baixo, outra da esquerda à direita.

— É o Senhor D. Diogo de Mariz, em presença de quem estou?

— Sim, Reverendo. Queira ter a bondade de acomodar-se.

O jesuíta sentou-se.

— Minha pessoa é desconhecida a Vossa Mercê, senhor provedor; mas não assim o meu

nome. Eu sou o P. Gusmão de Molina!...

— Gusmão de Molina!... Não me recordo!... disse lentamente o fidalgo sondando sua

memória.

— Não admira, pois faz mais de ano que viu esse nome e uma vez tão somente.

— Dir-me-á V. Paternidade onde o vi?

— Na carta que em setembro do ano atrasado escrevi a Vossa Mercê, de Lisboa onde

então me achava.

— Sobre que objeto? perguntou o fidalgo, como quem se lembrava, mas queria verificar a

lembrança.

— A propósito do roteiro que pertenceu a Robério Dias e se acha em poder de Vossa

Mercê.

— Ah! exclamou D. Diogo.

— Nessa carta avisava eu ao senhor provedor haver-se perdido a que Sua Mercê

escrevera anteriormente à mulher de Robério Dias...

O frade com os olhos cravados no semblante do fidalgo proferiu as últimas palavras e

continuou repetindo:

— Escrevera à mulher de Robério Dias; pelo que, sendo possível apresentar-se com ela

alguma pessoa inculcando-se procurador daquela dama, para receber o roteiro, prevenia

em tempo que só a mim, em nome da Companhia, cabia reclamá-lo, pois o filho de

Robério Dias e seu único herdeiro, é nosso irmão noviço.

— Recordo-me agora perfeitamente; tenho-a ali.

D. Diogo ergueu-se, e abrindo a arca tirou de um escaninho um papel, que estava atado a

um embrulho cerrado e lacrado com pingos verdes. Desdobrando o autógrafo já

amarelado do P. Molina e percorrendo-o com os olhos para certificar-se de sua

identidade, o apresentou ao jesuíta. Este agradeceu; por comprazer recebeu o papel e leu

o que ele sabia de cor.

Enquanto isto, o fidalgo de novo acabrunhado por essa evocação do passado, que ainda

há pouco o pungira, reclinara a nobre fronte carregada de mágoas. Ao erguer a vista do

papel deu o P. Molina com essa fisionomia quebrada por triste desânimo, e torvou-se; os

cantos de sua boca plicaram-se como duas garras, que ele teve logo o cuidado de cobrir

com um sorriso angélico:

— Vejo porém que foi em pura perda o aviso, pois me apresento tarde para reclamar o

nosso direito!... insinuou a voz dolente do frade.

O fidalgo solevou a fronte surpreso:

— Donde vê tal, V. Paternidade?

— Do modo pesaroso com que me recebe o senhor provedor, o qual por seguro não

anuncia boa-nova.

D. Diogo sorriu com melancolia:

— Não quero mal a V. Paternidade pela severa lição de cortesia que me deu agora, pois a

mereci. Não é com rosto magoado e ânimo pesaroso que se agasalha o hóspede que nos

Deus envia; e nem D. Diogo de Mariz costuma semelhante hospitalidade. Mas se V.

Paternidade soubesse que passado doloroso acorda em mim a menor circunstância

relativa à catástrofe que me enlutou o resto da existência!...

— A morte do Senhor D. Antônio de Mariz, pai de V. Mercê?...

— Teve V. Paternidade notícia dela?

— Achava-me nesta cidade quando aconteceu.

— Talvez não a referiram com todas as particularidades.

— Ouvi falar apenas de longe; e pesou-me não saber mais miudamente do acontecido.

— Se o P. Molina a deseja ouvir, creio que acharia consolo em confiar-lhe as minhas

penas, e especialmente um escrúpulo de consciência, que nada ainda pôde apagar.

— Para mim será gosto e dever escutar a sua mercê. Essas dores ocultas e recônditas,

são as que buscamos nas profundezas d'alma com mais afã que o mineiro as veias de

ouro nas entranhas da terra.

O P. Molina ouviu em grave silêncio, sem perder um gesto da fisionomia do fidalgo. Seu

olhar agudo e penetrante apalpava o seio daquela alma que se desnudava; e sondando o

ponto em que ela parecia fender-se, conhecia não ser mais do que o lisim da pedra.

— As almas de mais forte têmpera, pensava ele, são sujeitas a essas falhas; como são

justamente as pedras rijas, que racham mais profundamente.

D. Diogo começou a narração dos fatos que precederam a catástrofe do Paquequer

desde o momento da morte por ele dada involuntariamente até o dia da sua partida para a

cidade de São Sebastião em busca de socorro.

— Quando voltei àqueles lugares onde havia deixado quanto amava neste mundo, só

encontrei a terra devastada pelo fogo. As ruínas que juncavam o chão em que fora a

casa, anunciaram-me logo a terrível catástrofe. Na seguinte manhã minha gente cativou

três índias velhas, únicos restos da tribo aimoré, que vagavam na mata próxima; delas

soube os pormenores do acontecimento funesto. Meu pai alcançara morte digna de um

cavalheiro português; perecera sepultando consigo os seus inimigos.

À recordação do heroísmo paterno um ligeiro sorriso trespassou a máscara triste do

fidalgo; porém breve apagou-se, deixando a fisionomia mais opaca e torva que dantes.

Abriram-se dos olhos aos cantos da boca duas rugas profundas, onde jaziam sepultas,

mas não desfeitas, as dores cruas daquela catástrofe.

— Avalie V. Paternidade de minha miséria e angústia nesse transe. Pois sobre essa

chaga viva imagine que punham um ferro em brasa, e terá uma ideia longe do que sofri,

lembrando que eu era o causador da desgraça dos meus!...

A nobre fronte do fidalgo vergou como o cimo do cedro robusto, quando a carcoma ataca-

lhe o cerne.

O P. Molina, que o ouvira em grave silêncio, falou então; e com a eloquência persuasiva

que possuía no mais alto grau, espargiu nas úlceras dessa alma chagada o bálsamo de

sua palavra ungida e elevada. Aproveitou habilmente esse espiráculo que se abria

naquela alma para insinuar-se dentro dela.

A Providência é que desenvolve das várias causas os efeitos diversos; tal poder não foi

dado ao homem, simples utensílio na grande fábrica do universo. Quantas vezes no

pecado não se gera grande virtude ou obra meritória? E quantas do cumprimento do

dever as desgraças?

— Praticastes uma ação inocente, porque não tivestes a intenção do mal.

— Quem o sabe?... exclamou o fidalgo.

— Sei-o eu que perscruto os refolhos de vossa alma. Não a tivestes, não. E pois ofendeis

o Senhor, deixando-vos abater por semelhante pensamento, e gastando na dor uma

coragem de que tanto hão mister a Santa Religião Católica e o serviço de El-Rei. O

sofisma de vossa consciência é o mesmo de Jó amaldiçoando o dia em que nasceu!...

À medida que o frade falava sentia D. Diogo abrandar a angústia de sua alma. Mais calmo

pôde reatar o fio à narração.

— Consinta V. Paternidade que finalize esta penosa narrativa. O que resta, mais de perto

lhe interessa, pois explica como se acha em meu poder o manuscrito de Robério Dias.

— Escuto a Vossa Mercê, como devo.

— Apesar da cruel certeza que viam meus olhos e da afirmativa das velhas selvagens, a

esperança ainda não me abandonou de todo. Tratei de percorrer os arredores a ver se

descobria algum vestígio animador. Demos então com um claro na mata, onde sem

dúvida uma partida de gente de D. Antônio de Mariz travara combate mortal com os

Aimorés. De uma banda estavam alinhadas as ossadas dos aventureiros já descarnadas

pelos abutres, mas cobertas ainda de alguns trapos das roupas. Contamos nove. Da outra

banda havia seguramente vinte e tantos esqueletos de selvagens, sinal de que os nossos

haviam vendido a vida bem caro.

— Esse combate deve ter precedido de perto a catástrofe em que a tribo dos Aimorés foi

destruída.

— De que induz isso V. Paternidade?

— Os selvagens têm por dever de religião enterrar os seus mortos depois do combate, e

se o não fizeram é porque sobreveio a catástrofe em que pereceram!

— É bem possível. Um dos homens que eu havia assoldado para acompanhar-me,

remexendo com a ponta de um chuço naquele monturo de ossos e trapos, espetou uma

bolsa de malha; e abrindo-a na esperança de topar com alguma moeda, achou um rolo de

papel. Quis o acaso que observando-o à distância, me achegasse a tempo de ler-lhe por

cima do ombro a palavra roteiro. Apoderei-me logo do manuscrito, que pelo rótulo conheci

pertencer ao famoso Robério Dias, do Salvador, filho de outro de igual nome, por alcunha

Moribeca, descobridor das minas de prata.

— E o manuscrito?... disse com paciência evangélica o P. Molina.

— Deixe V. Paternidade que conclua de uma vez; depois conversaremos do mais. O

homem, que achara a cinta, não sabia ler felizmente; mas da primeira palavra ROTEIRO

que me escapara, concebera ele suspeitas, ainda que erradas, do valor do papel. Era em

1604, e então já envelhecida a história das minas de prata que tanto rumor fizera,

começava a ganhar muita voga a fábula da cidade encantada ou reino do el-dorado. Para

aí torceu a fantasia do mariola, que se imaginava já senhor de palácios e tesouros.

Desenganei-o de sua pretensão; e aceitando o depósito sagrado que Deus me incumbira

em nome dos ausentes e desvalidos, apenas chegado ao Rio de Janeiro escrevi à esposa

de Robério que soube viver ainda na Bahia. Mais de ano decorreu sem resposta alguma,

e já eu ia de novo insistir, quando me vieram às mãos as respeitáveis letras de V. Pater

nidade.

— Neste caso, resta unicamente que eu apresente os meus poderes para receber o

manuscrito!... murmurou o P. Molina.

— Tais poderes, acredito que V. Paternidade os tem, pois sabedor como é, e tão

respeitável de sua pessoa e ministério sagrado, não seria admissível que os ignorasse, ou

sem eles se apresentasse; de resto em tempo e lugar próprio averiguaremos esse ponto.

— Não sei qual tempo e lugar sejam mais próprios do que este em que estamos! retorquiu

o P. Molina sempre afável e cortês.

D. Diogo erigiu o busto com a altivez que herdara do pai:

— Lembro haver dito a V. Paternidade que aceitara de Deus o depósito que ele me

incumbira em favor dos ausentes e desvalidos. Pois bem, esse depósito sagrado, para

que dele me exonere é necessário que sua restituição se faça perante oficial de justiça, e

fique em público e raso no livro de notas. É hoje dia santificado, e pois amanhã pode V.

Paternidade receber o que de mim requer, comparecendo ao cartório do tabelião Ferreira,

antes da alfândega.

Ecce homo! murmurou consigo o frade.

O semblante do P. Molina ficou impassível; sua atitude não sofreu a menor alteração; mas

o ligeiro empanado dos olhos, efeito de uma conversão da luz para o íntimo, denotava

que uma ideia grave surgira no seu espírito, que reclamava máxima atenção. O visitador

vira com as últimas palavras do fidalgo surgir um obstáculo formidável aos seus planos

tão bem combinados; e tomando o peso a esse fardo, dispunha-se a carregá-lo sobre os

ombros, e alijá-lo à banda para desimpedir o caminho.

— Ouvi a V. Mercê, sem logo ir-lhe à mão, esperando pelas razões em que fundou a

resolução tomada; mas ou me engano eu, ou não foram elas deduzidas.

— Para que fim, padre-mestre? A minha honra me ordena de proceder nesta

conformidade, e pois dispenso argumentos. Pode V. Paternidade produzir outros mais

engenhosos; nenhum lhe afirmo de maior força que aquele.

— Permita sempre o senhor provedor observar-lhe que o escrito público e suas

solenidades só é uso exigi-lo, quando existe uma obrigação anterior revestida de igual

sacramento. Ora, é V. Mercê quem confessa ter recebido esse depósito de Deus, sem ter

passado título algum; parece que da mesma forma o deve restituir?

— O padre-mestre esquece que há uma testemunha?...

— Bem sei; o mariola que achou a bolsa. Mas é realmente uma testemunha?... Penso

que não; uma testemunha quer-se idônea, sabedora do fato, e nesse caso não está um

mariola, que ignora a natureza do objeto. De resto que valha como testemunha, em troca

dela dou a V. Mercê duas mais conceituadas, o dono do roteiro e seu procurador.

— Bem adverti eu que V. Paternidade havia de acabar por ter razão contra meus

argumentos, pois que não sou versado nestas coisas; mas da minha convicção é que

duvido que me demova.

— As mesmas rochas se movem e espedaçam; e para isso basta um sopro do Senhor.

Dele espero que alcançarei persuadir a V. Mercê.

— É tentá-lo, padre-mestre.

— Senhor D. Diogo de Mariz! proferiu o visitador assumindo uma atitude grave e um tom

solene; a honra que V. Mercê invoca em prol de sua resolução é o mesmo título sagrado

pelo qual eu neste instante em nome de meu constituinte e da Companhia que

represento, em nome especialmente dos brasões de sua cota d'armas, reclamo e protesto

contra a insólita exigência que me acaba de ser feita.

— Cautela, padre!... Medi bem as vossas palavras antes de enunciá-las; e dizei logo que

direitos vos dão meus brasões e minha honra!...

— Todos, nobre fidalgo, como vou provar. Ouça-me o senhor provedor sem receio de que

ofenda os seus brios. Há cerca de quatro anos que foi pela esposa de Robério Dias

recebida a carta que anunciava a achada do manuscrito pertencente a seu marido; e

sabendo em que mãos estava ele depositado, julgou-o aí mais seguro do que nas suas

próprias. Finou-se deixando ao filho o cuidado de receber o manuscrito; esse moço,

apesar do imenso valor de semelhante papel, continuou a confiança materna, até que

renunciou seus direitos na Companhia, a qual perseverou por mais de ano no nobre

exemplo de seus antecessores. Nenhum dos sucessivos proprietários do tesouro de que

o Senhor D. Diogo de Mariz tem a guarda, duvidou um instante da inviolabilidade desse

depósito.

— Nem o devia!... Há mais de quatro anos que esse papel existe em meu poder; desde o

primeiro dia em que li o rótulo nunca mais estes olhos o buscaram para ler uma palavra;

na mesma hora em que a esta cidade cheguei, o cerrei sob meu selo, e o depus no

mesmo lugar da prateleira onde jaz ainda intato desta mãos.

— Eu o sabia antes que o dissesse V. Mercê, e como eu, sabiam aqueles que dormiam

na maior tranquilidade e segurança, acreditando que seu tesouro estava sob a guarda de

Deus, pois estava sob a guarda de tão honrado fidalgo. Essa confiança nobre não merece

reciprocidade? Não pede que dispenseis igual com que a teve convosco?

— Tinham a minha carta.

— E depois de perdida?... Por outro lado não ignora V. Mercê a história desse roteiro e da

descoberta de que ele reza; por lho terem roubado, o que então ninguém acreditou, finou-

se Robério desgraçado, e ainda assim feliz, por não ver cumprir-se o confisco que se

executou sobre seu espólio, reduzindo à miséria mulher e filho.

— Tenho notícia desses fatos, ainda que era eu menino quando se deram.

— Pois considere V. Mercê nos efeitos da sua exigência. O ato público divulgará a

existência do roteiro que se supõe perdido ou incógnito. Logo se açularão de um lado as

perseguições dos governadores, do outro a cobiça dos aventureiros para disputarem a

presa; prosseguirá a série interrompida dos crimes a que já deu lugar esse fatal segredo;

eu perecerei vítima dele, mas isso é o menos. A Companhia não poderá fazer o uso nobre

que pretende, qual é o de restituí-lo a El-Rei em nome do filho de Robério Dias, pedindo

em recompensa unicamente a reabilitação da sua memória, e o dízimo do quinto da

mineração para edificação de novos colégios.

D. Diogo calou-se; o P. Molina depois que o contemplou um instante, concluiu:

— Consulte V. Mercê sua consciência e diga. Seria conforme à honra que tanto preza,