As obras inglesas de John Wycliffe inseridas no contexto religioso de sua época: da suma teológica.. por Leandro Villela de Azevedo - Versão HTML

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Todos os envolvidos no crime foram excomungados, exceto o próprio rei, sua

mãe e seu tio.

No momento da eleição22 do papa Clemente VII - em oposição a Urbano

VI - acentuou-se a hostilidade de Wycliffe, de modo que chegou a ser chamado

na Santa Sé. Esta convocação chegou a fazer Wycliffe chamá-lo de anticristo.

Desde então suas obras começaram a atacar diretamente a Igreja, o poder

papal e as práticas consideradas errôneas por ele. Uma série de trabalhos foi

produzida e começaram a se espalhar, não somente para a Inglaterra, mas

para várias regiões da Europa. Entre estes trabalhos temos Summa

Theologiae, De eucharistia. E Trialogus. Esse último chegando a chamar a

ideia da transubstanciação em uma tolice blasfêmica.

22 Trata-se da questão do papado de Avignon onde Clemente VII será posteriormente proclamado o Anti-

papa e excomungado, e Urbano VI assumirá o papado. Episódio conhecido pelo nome de Cisma do

Ocidente.

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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Tanto a universidade como diversos de seus seguidores foram acusados

pela Igreja, ao invés de apelar ao papa o apelo foi feito diretamente ao rei da

Inglaterra. Neste momento sobressai sua ideia de criar uma igreja inglesa,

independente de Roma. Entretanto, seus ideais de pobreza da igreja fazem

com que ele não possua tantos adeptos a essa ideia, especialmente após uma

revolta de camponeses23 em 1381.

Wycliffe apóia essa revolta e, segundo alguns estudiosos, ele, inclusive,

estaria por trás dela. Um dos líderes, após sua condenação, confessa que

havia aprendido “doutrinas subversivas” de Wycliffe24. Uma censura foi

ordenada para todos os seus trabalhos e suas obras confinadas e proibidas.

Neste momento, discursos seus começam a correr entre o povo em língua

vulgar, ou seja, o inglês. Desta forma, apesar de suas obras latinas estarem

confiscadas, ele continuava difundindo suas ideias. A sua tradução da Bíblia ao

inglês, feita anos antes, chega com mais força ao povo.

Em 1383 ele é acometido por uma paralisia que pouco a pouco vai lhe

tirando as forças até o seu falecimento, no final deste ano. Desta forma sua

última obra, Opus Evangelicum não é completada. Porém, no que já havia sido

escrito, ele defende que as escrituras sagradas eram auto-suficientes, ou seja,

ali já estaria presente toda a essência do cristianismo em detrimento à toda a

tradição da Igreja Católica, concílios e bulas papais produzidas por mais de um

milênio.

Por seu pensamento dissonante da ortodoxia católica ele é conhecido ou

como um dos maiores filósofos e teólogos de sua época, ou então como o

maior dos hereges ingleses25 da segunda metade do século XIV, sendo que

alguns dos que combateram as suas ideias chegam a definir que desde o

nascimento de Jesus nenhum outro herege mais pernicioso teria surgido26

Após sua morte um grupo de seguidores de suas ideias continua a

perpetuá-las por mais um século, são os chamados Lolardos. Muito embora

23 Revolta essa liderada por, Wat Tyler, Jack Straw e John Ball, este último seguidor de Wycliffe teria

proferido um sermão entitulado “Quando Adão desposou Eva, quem era o gentio?” e que defendia que a

servidão não era natural e nem vontade de Deus, já que não existia no paraíso, e somente teria sido criada

após o pecado.

24 Entretanto isso, obviamente, não gera uma prova em si.

25 SATTERLEE, Thom, Burning Wyclif , p. XV

26 Definição dada por Paletz, que combatia as ideias de Wycliffe no confronto com Jan Hus (Conforme

está apresentado no capítiulo final deste trabalho)

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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muitos autores façam uma diferença entre “Wyclifistas” e “Lolardos” uma vez

que nem todos os seguidores de Wycliffe sejam lolardos27

II.4.B. Principais Obras de Wycliffe

Mesmo durante a sua vida Wycliffe teve várias de suas obras

queimadas, especialmente no ano de 1382, quando teve de se defender

perante as acusações de Roma. Entretanto a principal perseguição e

destruição das obras dele ocorreram após o Concílio de Constança, em 1415,

quando um de seus mais famosos seguidores Jan Hus foi morto e Wycliffe teve

duas condenações post-mortem diferentes, uma de 45 teses e outra de 260

teses, havendo uma proibição completa de divulgação de qualquer de seus

materiais, sejam livros, panfletos ou outros. Culminando com a queima de

centenas de suas obras ao mesmo tempo em Londres e em Praga28

Apesar de se colocar contra o poder papal e de muitas obras suas terem

sido queimadas, a sua produção foi intensa e ainda temos muitos de seus

trabalhos até os dias de hoje29. Tendo passado grande parte de sua vida em

universidades, especialmente Oxford, Wycliffe teve acesso a tudo o que era

necessário para esta produção excepcional. Desde material para produção dos

livros, mestres a lhe apoiarem e pessoas a ouvirem suas ideias e as

propagarem.

Para melhor estudo neste trabalho dividiremos suas obras em dois

grandes grupos: Obras em Latim e Obras em Inglês. Temos no primeiro grupo

uma série de tratados teológicos que visavam discutir com a Igreja Católica e

defender pontos cruciais, desde dogma ao direito canônico. Entre as obras

latinas temos:

27 É o caso, por exemplo, de Patrick Hombeck, estudioso de Oxford, em seu livro: What Is a Lollard?:

Dissent and Belief in Late Medieval England

28 ROBSON, J. A. Wyclif Wyclif and the Oxford Schools: The Relation of the 'Summa de Ente' to

Scholastic Debates at Oxford in the Later Fourteenth Century, p.123

29 Segundo Robson, parte desta obra somente se manteve perante o uso de cópias sem títulos ou autroria

definida, o que dificulta a posterior confirmação da autoria.

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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Determinatio quaedam de domínio30 – que tratava dos limites do poder

da Igreja em termos de cobranças de impostos. Colocando o poder clerical em

conflito com o poder secular.

De civili domínio31 – que fazia sérias acusações ao papado de Avignon,

especialmente por sua ostentação e exploração do povo. Defendendo que

seria responsabilidade dos Estados seculares impedirem que a Igreja pudesse

usurpar tais poderes de seus súditos.

Summa Teologiae32 - Seguindo o estilo de Tomás de Aquino, utilizando

apenas argumentos racionais, trás um total de 13 tratados sobre o gênesis, a

natureza e a estrutura do mundo

De Eucharistia – Tratado onde Wycliffe condena a doutrina da

transubstanciação. Defendendo que se tratava apenas de um símbolo para

relembrar o sacrifício de Cristo e não o corpo material presente no pão.

Trialogus – Complexo tratado onde Wycliffe levanta vários erros

doutrinários cometidos pela Igreja Católica, entre eles novamente o combate à

doutrina da transubstanciação.33

De sufficientia legis Christi – Prelúdio para Opus Evangelicum que

consistia em defender que a Bíblia era suficiente para governar o mundo, sem

a necessidade de intervenção da Igreja.

De veritate Sacre Scripturae – Defendia que a Bíblia era a palavra

revelada de Deus e que deveria ser soberana, superior à interpretação desta

feita por abades, cardeais ou o papa, e que quaisquer de suas ordens somente

deveriam ser obedecidas se fossem comprovadas pela Bíblia34.

Opus Evangelicum – Este último tratado não foi concluído em vida, mas

sabe-se que tratava de um embasamento teológico para comprovar que as

escrituras sagradas seriam auto-suficientes, sem a necessidade da Igreja como

intermediária entre o homem e as escrituras.

30 Há uma série de controvérsias a respeito desta obra. Johan Loserth, por exemplo, questiona a data de

publicação desta, sendo que ela teria ocorrido em 1372 e não em 1366 conforme a historiografia comum

coloca. Outros autores como F. D. Matthew nem mesmo a colocam entre as obras de Wycliffe.

31 R.L. Poole, Ioannis Wycliffe Tractatus de Civili Dominio Liber Primus (London, Truebner, 1885)

32 Também chamada de Summa de ente pela Stanford Encyclopedia of Philosophy

33 Tracts and Treatises of John de Wycliffe, ed. Robert Vaughan. London: Blackburn and Pardon, 1845,

pp. 150, 152.

34 Stanford Encyclopedia of Philosophy

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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No campo das obras inglesas temos uma pluralidade muito maior,

entretanto tratando-se, todas elas, de obras mais simples e cujo público alvo

era o próprio povo inglês, muitas vezes os próprios alunos de Oxford.

Bíblia em Inglês - A principal obra em língua inglesa, sem dúvida, é a

tradução do Novo Testamento. Partes da Bíblia já haviam sido traduzidas para

o inglês, mas não havia uma tradução completa. Wycliffe atribuiu a si mesmo

esta tarefa. Embora não se possa definir exatamente a sua parte na tradução

(que foi baseada na Vulgata), não há dúvidas de que foi sua a iniciativa, e que

o sucesso do projeto foi devido à sua liderança. A ele devemos a tradução

clara e uniforme do Novo Testamento, enquanto seu amigo Nicholas de

Hereford traduziu o Antigo Testamento. Ambas as traduções foram revisadas

por John Purvey em 1388, quando então a população em massa teve acesso à

Bíblia em idioma inglês.35

The Wicket – Esta obra, voltada ao povo inglês, possuiu apenas edições

no século XVI, tanto na língua original, como tradução ao inglês. Trata-se de

uma defesa de que o cristianismo real sempre será de minorias, uma vez que

Jesus havia dito claramente que seus seguidores seriam perseguidos, os

profetas de Israel já eram perseguidos e que o caminho da salvação era

sempre estreito, enquanto o da perdição era largo36.

The Testament of Master William – Esta obra foi publicada em conjunto

com The Wicket, desta forma também não possuindo nenhuma edição

moderna.

Suas demais obras não possuíram edições antes do século XIX, tendo

sido reunidas em 1880 por F. D. Mathew para uma única publicação. As novas

reedições ocorreram apenas recentemente em 1995 e 2005. Esse compêndio

possui as seguintes obras:

- On de Leaven of Pharisees – Comparando os fariseus aos seguidores

do papa, por seu orgulho próprio, desejo de passar ordens aos demais e

ensinamentos com defeitos teológicos;

- How the man ought to obey Prelates – Defendendo que os padres e

monges menos cultos podem se deixar levar pelo título dos prelados e como

35 Idem.

36 Praticamente nada foi publicado sobre esta obra específica, sendo que o trabalho aqui realizado é feito

diretamente sobre o texto, trazido diretamente da Bodeleian Library em Oxford. Uma cópia da edição

realizada em 1546.

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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isso pode causar problemas, especialmente no que diz respeito a sentirem-se

culpados por pecados que na verdade eram cumprimentos da vontade de

Deus.

- The rule and Testament of Saint Francis – Possui o testamento de São

Francisco e por fim uma exortação aos franciscanos que haviam se desviado

dos ensinamentos do criador da ordem, acusando-os de possuir livros caros,

viver no luxo e esquecer-se da pobreza.

- Of Prelates - Em seus 43 capítulos, faz uma comparação, assim como

Satanás era um anjo de Luz, também os prelados podem parecer de Deus,

mas na verdade levam as pessoas à perdição. Fala sobre heresias de sua

época, como os beguinos, e faz reflexões sobre o verdadeiro viver cristão.

- Speculum de Antichristo – Ataca ferozmente os seguidores do papa e

os prelados, chamando-os de clérigos do Anticristo e fala sobre interpretações

errôneas das escrituras, como por exemplo, a confusão da ideia de paz, trazida

por Cristo, com o luxo secular vivido nas igrejas.

- Of Clerks Possessioners – Acusando a luxúria e riqueza dos membros

da igreja em detrimento à real função que eles deveriam exercer.

- How the Office of Curates is ordained of God – Tratando sobre a

disparidade entre o tempo gasto pelos clérigos com o estudo e o gasto com

luxos materiais.

- The Order of Priesthood – Comparando a ignorância do clero de sua

época com os apóstolos na época da Igreja Primitiva, presente nas cartas e no

livro de Atos dos Apóstolos.

- Three things destroy this World – Na verdade Wycliffe destaca diversas

atitudes, e não apenas três, que seriam condenáveis em seu tempo.

- Of Feigned Contemplative Life – Sobre a necessidade da oração e

como os deveres do mundo podem impedir as pessoas de se dedicarem a este

ato tão importante da vida cristã.

- The Paternoster – A oração é destrinchada em várias partes, de modo

a buscar o significado mais complexo de cada uma delas. Sendo que cada

frase é ligada a uma virtude específica e a oração é tida como um presente de

Cristo para a humanidade.

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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- The Ave Maria – Ao mesmo tempo em que fala sobre a dupla natureza

de Cristo (humana e divina), faz acusações sobre a frivolidade e vaidade de

várias mulheres.

- How Satan and his Children turn Works of Mercy upside down, and

deceive man Therein, and in their Five wits. – Os maus clérigos são chamados

de filhos de Satã e colocados como um exército do mal usado para transformar

os ensinamentos de Cristo e levar os verdadeiros cristãos à perdição.

Especialmente focado na questão da misericórdia sendo transformada em

acúmulo de poder.

- How religious men should keep certain Articles – Lista de diversas

atitudes que os homens deveriam ter para se manter junto a Deus. Como por

exemplo, morte para os luxos deste mundo, não se sentir dono dos livros que

estes possuem e estudar as escrituras mais do que os segredos dos astros.

- Or Servants and Lords – Como os verdadeiros cristãos devem desejar

servir e não serem senhores, uma vez que o único senhor verdadeiro é Deus.

- Why Poor Priests have no Benefice – Ataque direto à simonia presente

em Roma e declaração desta ser a principal forma de obtenção de privilégios

dentro da Igreja.

- How Antichrist and his Clerks travail to destroy Holy Write - Acusação

da falsa premissa da Igreja de que esta teria mais poder do que as escrituras,

por ser a única capaz de interpretá-la, mas que ao fazê-lo chega a criar

interpretações até mesmo opostas ao texto original.

- How Satan and his Priests and his feigned Religious cast by three

Cursed Heresies to destroy all Good Living and maintain all manner Sin –

Defende que é tão vantajoso a Satanás convencer as pessoas de que as

escrituras são falsas, como é vantajoso fazer com que não queiram as ler e

simplesmente aceitem interpretações prontas e falsas sobre ela.

- Of Poor Preaching – Espécie de aula para pregadores, que ensina que

as escrituras sempre devem ser a base da interpretação, que o medo da ira de

Deus deve ser maior do que o da excomunhão da igreja, entre outros.

- Augustinus – Apenas uma pequena parte pôde ser encontrada e

editada recentemente. Embora provavelmente trate-se de uma introdução a

um trabalho sobre Santo Agostinho, pouco se pode dizer somente pelo excerto

que chegou até nossos dias.

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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- Of Dominion – Defende a ideia de que Deus é o dono de todas as

propriedades, de modo que a Igreja não pode se apossar delas, nem por

testamento. Enfatiza a pobreza de Cristo e de seus apóstolos e condena a

posse de bens luxuosos.

- Tratactus de Pseudo-Freris – Ensina os cristãos a identificarem quem

seriam os falsos freis, tanto por suas obras como por suas palavras. Sendo que

os que falassem em nome do amor seriam verdadeiros, mas os que falassem

em nome do medo seriam falsos. Também aqueles que se equivalessem a

Deus ou se achassem na capacidade de fazer julgamentos (o que é atributo de

Deus) seriam falsos freis.

- Of Confession – Não é o papa ou os padres que perdoam os pecados

e em momento algum Jesus ou os primeiros cristãos instituíram a confissão

privada. Isso seria apenas uma forma do papa aumentar o seu poder secular.

- Of Fatih, Hope, and Charity - Conselhos diversos para os cristãos que

viviam nas dificuldades de sua época e recados de esperança para estes.

- De Sacramento Altaris - Acusações sobre a doutrina da

transubstanciação.

- The Clergy may not hold property - Como o próprio nome diz,

acusações diversas sobre o acúmulo de riquezas por parte do clero e também

a questão da simonia.

- De Officio Pastoriali - Defende diversas ideias como: Cristo é o único

verdadeiro pastor e nenhum outro há que possa ter autoridade suprema. Os

prelados não devem julgar as pessoas, entretanto cabe a cada pessoa julgar

os prelados. Orar é a principal função de um membro do clero e não acumular

riquezas.

- De Papa – Defende a ideia de que muitos dos males da igreja de sua

época foram criados pelo papa. O identifica claramente como o anticristo.

Defende a ideia de que o mal já tomou conta de todas as igrejas, mosteiros e

locais pertencentes à igreja, e que o verdadeiro cristianismo não existirá nestes

locais.

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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II.4.C. Principais Documentos Selecionados

The Wicket teve apenas duas únicas publicações. Uma em 1546, que foi

considerada parcial e cheia de erros, e publicada novamente com correções

em 1548, pela Universidade de Oxford; e outra em alemão em 1610, com

reedição em 1612. O fato de ter sido escrito na língua inglesa não gerou tanto

interesse de estudo como suas obras latinas, uma vez que o público alvo não é

de teólogos e nem de reis. Tal documento é de extrema raridade, tendo sido

encontrado até o presente momento um único exemplar, pertencente à

Bodleian Library, na Universidade de Oxford. Porém, tal documento recebeu

um recente tratamento digital, deixando-o disponível para consulta aos

pesquisadores desta universidade e outros parceiros de pesquisa. Após meses

de contatos foi possível obter uma cópia deste documento, sendo certamente a

única versão presente no Brasil.

Tal obra além de possuir a riqueza teológica típica de Wycliffe,

justamente por ser voltada ao povo em geral, é rica em argumentos e alusões à

cultura popular, tendo por objetivo claramente que o povo se opusesse contra o

grupo, chamado por ele, de “papistas”. Há argumentações riquíssimas, ao

interpretar o texto bíblico citando Jesus e a questão dos dois caminhos: um

largo e que leva à perdição e outro estreito, que leva à salvação, Wycliffe

chega a determinar que, sempre a maioria cristã estaria errada, e a verdade

sempre estaria em uma minoria cristã que faria oposição àquela primeira. Outro

argumento de grande valor está presente na defesa de sua tradução da Bíblia

ao inglês, feita no mesmo documento. Wycliffe propõe que o próprio Espírito

Santo havia ensinado os apóstolos a falar várias línguas para que todos os

povos os entendessem, logo impedir a tradução da Bíblia seria impedir a ação

do Espírito Santo. Mais do que isso, como Deus é Verbo, e a Bíblia é a Palavra

de Deus, queimá-la, não importando que estivesse em inglês, seria um ato de

crueldade contra o próprio Deus.

O segundo documento é Comment on the Testament of Saint Francis.

Tal documento apresenta comentários feitos a respeito da vida de São

Francisco, mas especialmente de seus seguidores e falsos seguidores.

Segundo Wycliffe, havia um grupo que tentava destruir o pensamento original

franciscano, abandonando os verdadeiros valores cristãos que Francisco de

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

40

Assis havia conseguido revigorar. Este documento também é pouco estudado,

uma vez que ele é composto em 80% de uma cópia do testamento e da regra

de São Francisco, e apenas um curto e rico comentário pessoal de Wycliffe;

recebendo, assim, menor importância que os seus tratados teológicos.

A união de dois documentos, analisados comparativamente aos outros

documentos mais analisados de sua obra, pode abrir novos horizontes à forma

como compreendemos a Igreja Medieval pré reforma.

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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III. Wycliffe e os “papistas”

III.1. Definindo os Principais Temas

Wycliffe se utiliza do termo “papistas” para definir aqueles que seguem

ao papa acima da Deus. Não existe uma definição clara, dada por Wycliffe,

para definir quem seriam os papistas, uma vez que ele continua fazendo seus

sermões dentro de igrejas católicas e dentro de uma universidade católica,

Oxford, ainda assim, chama a alguns destes católicos de papistas. A referência

feita por Wycliffe, sempre define, além do “seguir ao papa”, alguma conotação

negativa, em oposição aos verdadeiros cristãos, de modo que os papistas

teriam o papa como líder maior e exemplo de vida, ao contrário dos

verdadeiros cristãos que teriam Jesus como exemplo de vida. Robert Vaughan

chega a atribuir o termo papista ao próprio Wycliffe, definindo que a utilização

deste termo auxilia na libertação da ideia das heresias em renovar a Igreja para

uma contraposição do poder papal e ideia de uma liberdade religiosa37.

Este presente capítulo tem por objetivo relacionar as ideias de Wycliffe,

em especial as apresentadas em suas obras inglesas, com as ideias da

ortodoxia católica, estabelecendo uma relação entre o termo “papista” e as

obras desta ortodoxia. Desta forma, foram selecionadas, entre outras,

respostas de Wycliffe a São Tomás de Aquino, Egídio Romano, e a importantes

bulas papais, como a Unam sanctam.

A produção de John Wycliffe é extensa, conforme pudemos ver na

introdução. Entretanto, apesar de ampla e diversificada, há temas recorrentes.

Para que este trabalho pudesse conter um foco mais específico, facilitando o

aprofundamento, alguns destes temas centrais foram isolados para serem

estudados com mais profundidade.

Foram dois os principais critérios da escolha dos temas. Primeiramente

o fato do tema ser recorrente na obra inglesa (Foco da pesquisa) de Wycliffe e

posteriormente a pertinência do tema perante a discussão filosófica e teológica

de sua época. Permitindo assim ampliar os horizontes da pesquisa à medida

que os focos comparativos sejam aumentados.

37 VAUGHAN, Robert, John de Wycliffe: A Monograph, p.523

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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Os temas escolhidos foram:

III.1.A. A ideia do mal – O mal racional x o Mal Espiritual

Assim como há luz, há trevas; assim como há, frio há calor; assim como

há, vida há morte. A concepção humana do mundo parece ser dual, e a

compreensão de uma ideia se faz perante a sua própria negação38, assim

sendo, compreender o que é Deus para Wycliffe, em parte, passa por

compreender o que é o mal. Em vias de regras, temos ao menos duas grandes

definições de mal na Idade Média, o mal moral, que pode ser colocado em

prática, mas trata-se de uma ideia abstrata, e o mal material, seja ele em forma

monstruosa material ou em forma monstruosa espiritual ou invisível39. Durante

a chamada Baixa Idade Média temos a ampla utilização das duas formas. Ao

mesmo tempo em que temos representações físicas de seres monstruosos

demonstrando o mau, seja em personificações mais específicas, como

Satanás, Lúcifer ou apenas Diabo, seja em seres anônimos, temos também

associações a seres existentes, especialmente humanos, como hereges ou

sarracenos, assim como a ações humanas, como, por exemplo, a prática

sexual por membros do clero, a relação entre a santidade feminina e a

castidade.

Dentro de múltiplas interpretações de mal temos um Wycliffe, que será

tido pelo mais maldoso herege e servo de Satanás por muitos (como foi

definido em alguns documentos referentes ao Concílio de Constança) e temos

um Wycliffe que irá abertamente definir o papado como o anticristo corrompido

por Satanás.

Wycliffe dedica uma obra inteira sobre a sua definição de mal: How

Satan and his Children turn Works of Mercy upside down, and deceive Men

Therein, and in their Five wits. Essa ideia de mal é diferente da maior parte das

representações, imagéticas ou não, que temos de mal. Uma interpretação

humanista e racionalista que nos auxilia a compreender o restante das obras

de Wycliffe.

38 CARUS, Paul, The history of the devil and the idea of evil, from the earliest times to the present day,

p.4

39 OLSEN, Karin, E. & HOUWEN, J. R., Monsters and the monstrous in medieval northwest Europe, p.

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As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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III.1.B. Questão da Eucaristia e da Transubstanciação

Wycliffe nem começa e nem encerra tal tema. Ele é apenas um dos

tantos críticos que a transubstanciação recebe durante a Idade Média. Há

muitas de suas obras centradas nesta questão. Jesus, ao se reunir com seus

apóstolos, na noite antes de ser preso e morto, compartilhou com eles pão e

vinho. Tal momento é relatado nos evangelhos Mateus40, Marcos41 e Lucas42.

Também após esse fato, Jesus ordena que tal atitude seja sempre refeita em

sua memória. Temos, dentro do próprio texto bíblico, relatos de que esse

momento era repetido mesmo nas primeiras comunidades cristãs, como no

caso da Epístola de Paulo aos Coríntios43.

Entretanto a questão da Eucaristia vai muito além de um ritual cristão. A

questão em voga era se o pão realmente se transformava em corpo de Cristo,

ou seja, sua carne, fisicamente, e se o vinho realmente se transformava em

seu sangue, ou se tudo isso era apenas um símbolo de fé. A transubstanciação

defendida pela Igreja Católica propõe que realmente há uma transformação

física na hóstia e no vinho. Ao ponto que Wycliffe entre tantos outros defendia

que se tratava apenas de uma transformação espiritual ou simbólica.

Apesar de parecer uma questão mais teológica do que prática, ela era

uma das bases do poder da Igreja Católica na Idade Média. Uma vez que

somente os escolhidos pela Igreja seriam dotados de tal dom de fazer a

consagração e, por sua vez, a transubstanciação. Assim sendo, a hóstia

consagrada, enquanto corpo real de Cristo, teria poderes milagrosos, e tais

poderes seriam exclusividade da Igreja.

Por sua vez, caso se tratasse apenas de um símbolo, qualquer pessoa

poderia fazer tal representação simbólica, sem que para isso fosse preciso

receber nenhum tipo de poder sobrenatural.

40 Mt, 26, 26

41 Mc, 14, 22

42 Lc 22, 19

43 1Co 11, 23

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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III.1.C. A questão do papa e da hierarquia eclesiástica

Wycliffe é categoricamente contrário ao papado. Ele chega a criar uma

nomenclatura para os cristãos que seguem ao papa: papistas, tem várias de

suas obras voltadas única e exclusivamente para atacar a figura papal,

chamando-o de anticristo, e seus seguidores de clero de satã, ou até mesmo o

conjunto de papas mais seguidores de filhos de satã. Uma postura tão exaltada

e clara merece ser mais aprofundada. Tanto no sentido de embasamento para

as suas críticas e ligações, como na forma pela qual estas foram recebidas

pela Igreja Católica de sua época.

Entretanto, analisando um pouco mais cuidadosamente suas obras,

podemos perceber que suas críticas não são somente à cúpula da Igreja

Católica. Pelo contrário, ele chega a, em diversos momentos, levantar

problemas na hierarquia eclesiástica e atacar até mesmo ordens mendicantes,

como os franciscanos, por terem se deixado institucionalizar e fugir dos

princípios da ordem. Sua crítica era somente às pessoas que ocupavam os

cargos ou à forma pela qual os cargos eram obtidos. Não seria isso uma crítica

ainda mais profunda acerca da forma pela qual o poder foi dividido em cargos?

Ou será, por fim, que ele era contra toda e qualquer hierarquia eclesiástica, não

importa como essa fosse?

III.1.D. Questão dos dois caminhos

Os séculos XIII e XIV foram lotados de heresias, muitas das quais se

tornaram populares e conseguiram milhares de adeptos, desafiando o poder da

Igreja Católica. Uma das semelhanças presentes em todas é o desejo de

renovação da Igreja. Não importa a forma como isso se daria. Joaquim de Fiori,

por exemplo, defendia que o tempo também seria tripartido, assim como a

trindade. Havendo o antigo testamento, onde imperava Deus pai, a lei e o

Templo era o centro da adoração. O novo testamento, onde imperava o Filho, a

Graça e a Igreja Católica era intermediária entre as pessoas de Deus; e enfim

um último tempo, onde imperaria o Espírito Santo, o amor, e a adoração seria

feita “em espírito e verdade”, sendo assim não haveria necessidade de uma

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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igreja. Essa ideia implica em uma renovação do cristianismo onde os cristãos

veriam os erros da Igreja através daquela heresia.

Entretanto Wycliffe em The Wicket , apesar das diversas críticas à Igreja

Católica, defende um ponto de vista totalmente diferente. Ele defende que o

cristianismo sempre seria de minorias. Assim como no antigo testamento os

profetas eram expulsos, desacraditados, caçados e até mortos, assim como

Jesus foi perseguido e morto, assim como os apóstolos foram perseguidos e

mortos, todos os verdadeiros cristãos sempre viveriam em perseguição. Desta

forma, ao contrário das outras heresias, Wycliffe pretende apenas que os

“verdadeiros cristãos” não sejam enganados, mas espera que toda a Igreja se

renove por suas palavras.

Esse elemento foi isolado para um trabalho mais aprofundado para que

se possa estabelecer os motivos desta diferença e até que ponto ela se

mantém em outras de suas obras ou se é algo específico em The Wicket.

III.1.E. Essência do cristianismo

Wycliffe critica o acúmulo de riqueza nas mãos de membros do clero.

Critica o papa e seus seguidores. Critica o pagamento de impostos à Igreja

Católica. Critica a forma pela qual a Igreja prega que a eucaristia deva ocorre.

Critica a postura do papa, bispos, franciscanos, entre outros. Será que se

formos retirar todos os elementos que Wycliffe considera errados ou

supérfluos, algo restará? Se restar, seria essa a essência do cristianismo

segundo Wycliffe, a que deveria ser mantida?

Wycliffe dirige todas as suas pregações aos “verdadeiros cristãos”.

Quem são esses verdadeiros cristãos? O que precisa uma pessoa ser ou fazer

para ser considerado um “verdadeiro cristão” segundo a visão de Wycliffe. Se

ele não pretende uma renovação de toda a igreja, então para onde ele

pretende guiar essa minoria que o segue?

Para responder a essas questões analisaremos suas principais obras

em inglês tentando resgatar essa questão da essência e destacar no meio das

negações quais são as diretrizes positivas.

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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Para facilitar a relação das ideias de Wycliffe com a de outros

pensadores heréticos medievais, foi escolhido que a relação de Wycliffe e os

papistas seria dividida em duas partes. Inicialmente apresentar-se-ia as ideias

fundamentais de seu pensamento, e apenas no final a sua ideia principal, que é

a dos Dois Caminhos que culmina, por sua vez, com a questão da Essência do

Cristianismo.

As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no Contexto Religioso de sua Época

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III.2. A ideia do mal presente em “How Satan and his Children turn Works

of Mercy upside down, and deceive Men Therein, and in their Five wits”

O texto produzido por Wycliffe está estruturado em três capítulos, cada

um com uma temática bem estabelecida. No primeiro capítulo é apresentada

uma dicotomia entre os ensinamentos de Jesus e a ação do clero católico, em

termos de crítica, enfatizando não somente o distanciamento do clero das

ações e ensinamentos de Jesus, mas sim uma questão de oposição. No

segundo são apresentadas as bases teológicas e bíblicas para embasar o

terceiro capítulo. Este por sua vez demonstra como que os cinco sentidos são

utilizados pelo diabo para fazer com que as pessoas pequem, e como que as

ações do clero corrompido pelo mal auxiliam a ação do próprio mal.

Sendo os capítulos 1 e 3 os principais focos da argumentação de

Wycliffe, o trabalho centra-se nos mesmos, transcrevendo partes dos

mesmospara que a análise seja feita no decorrer do texto central. A essência

do capítulo 2 são as citações bíblicas que são explicadas no decorrer da

análise do terceiro capítulo, de modo que não houve necessidade de citação

direta dos mesmos aqui.

III.2.A – Analisando o Capítulo 1

Primeiro Cristo, com poder, ordenou homens alimentarem os pobres

famintos. A destruição deste ensinamento faz com que eles façam

festas custosas e gastem muitos produtos para alimentar os lordes e os

ricos, deixando que os pobres sofram de fome e pereçam sem comida e

vítimas de outros males.

Várias passagens dos evangelhos podem ter sido inspiração deste início

de texto, ao afirmar que Cristo teria ordenado os homens a alimentarem os

famintos, por exemplo, em Mateus 14, 16 quando ocorre a multiplicação dos

pães e peixes 44. Entretanto, pelo decorrer do texto, podemos apreender que se

44 Chegada a tarde, aproximaram-se dele os discípulos, dizendo: O lugar é deserto, e a hora é já passada;

despede as multidões, para que vão às aldeias, e comprem o que comer. Jesus, porém, lhes disse: Não

precisam ir embora; dai-lhes vós de comer. Então eles lhe disseram: Não temos aqui senão cinco pães e

dois peixes. E ele disse: trazei-mos aqui.

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