As sementinhas mágicas (infantil) por L P Baçan - Versão HTML

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Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

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AS SEMENTINHAS MÁGICAS

As crianças gostavam muito da brincadeira de ficar olhando para as nuvens e imaginando formas. Luan apontava para um carneirinho pastando. Anaí olhava para a mesma nuvem, mas via um elefante. Pedro observava o gigante e a galinha da fábula que a professora contara outro dia. Quando Bernardo chamou a atenção para um indiozinho de cara feliz, tocando sanfona, todos olharam para conferir.

— Será que ele mora lá no céu? — perguntou Lisa.

— Claro que não. Aposto que ele mora numa floresta — respondeu Pedro.

Glauquito ia contar que em outra ocasião já tinha visto esse mesmo índio, numa floresta, brincando com um beija-flor, mas antes que começasse falar a professora o interrompeu:

— Glauquito sua mãe chegou! Tchau!

— Tchau! — respondeu o garoto, indo ao encontro da mãe.

Beijou-a e, durante o caminho para casa, ficou pensando se florestas e índios só existiam no céu e nos livros ou se existiam de verdade.

Em casa foi direto para o chuveiro e depois do banho a família se reuniu em volta da mesa para o jantar. Geraldo, o pai de Glauquito, gostava muito de filmes e naquela noite havia locado um chamado A Missão. Terminado o jantar, sentaram-se todos no sofá da sala para assisti. Glauco logo pulou no colo do pai e se aninhou como um gatinho.

Estava para adormecer, mas quando percebeu que se tratava de

um filme sobre os índios do Alto Xingu. Isso despertou seu interesse, mantendo-o atento à telinha. Descobriu então que essa tribo habitava a Floresta Amazônica, localizada aqui mesmo no Brasil e que é a maior do mundo. Aprendeu ainda que a casa do índio se chamava

oca e que eles caçavam e pescavam para sobreviver. Teria

aprendido muito mais, se não tivesse adormecido. Como de costume, o pai o levou para a cama.

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No meio da noite, porém, o menino acordou com um agradável som de sanfona. Olhou para a janela e percebeu uma luz estranha. Ficou com medo, mas, como a curiosidade era maior, abriu a janela para ver de que se tratava. Deparou-se com um grande clarão.

Não entendeu nada e continuou observando. Uma estrela desceu do céu e nela estava o indiozinho que ele e seus amiguinhos tinham visto naquela mesma tarde.

Glauquito sentiu um friozinho na barriga, mas ficou intrigado com tudo aquilo. Alguma coisa lhe dizia que se tratava de um amigo e que não deveria ter medo dele.

O pequeno índio bateu no vidro da janela e disse:

— Ei, Glauquito, vim convidar você para conhecer minha casa. Vamos?

O menino, que estava curiosíssimo a esse respeito e adorava passear, não pensou duas vezes: calçou logo os sapatos, pegou um agasalho, um pacote de bolachas e subiu na estrela voadora.

Viajaram pelas estradas do céu, da terra e da água. A ultima parte da viagem, inclusive, foi feita numa chalana, navegando pelo

caudaloso rio Amazonas. Jeí, o indiozinho, conhecia a lenda da origem do rio.

— Este rio nasceu quando a Lua era noiva do Sol, mas os dois não puderam se casar, porque o Sol não podia viver perto da Lua. A Lua chorou e suas lágrimas correram pela terra, até o mar. O mar ficou furioso e não quis misturar sua águas com as lágrimas da Lua, que foram, então, formar o Rio Amazonas.

Assim que desembarcaram na floresta, Glauquito sentiu um arrepio estranho, mas resolveu não dizer nada. Na verdade até esqueceu o fato, pois olhou para cima e percebeu o tamanho das árvores. Eram tão altas e tantas que mal se podia avistar o céu.

Caminharam os dois por uma trilha que os levaria até a taba do pequeno índio. No caminho encontraram vários pássaros que cantavam de diferentes formas. Jeí comentou que os periquitos eram os donos do milho, uirapuru era o pássaro da felicidade, que o acauã encantava quem ouvia seu canto e que a coruja foi o primeiro ser a morrer na Terra. Ainda haviam muitos outros: os corotoicós, araras, inambus, mutuns e jacus que são aves de bico e pés vermelhos. Sobressaía-se o inajé, o belo gavião, o japim e o cauré.

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Os dois meninos iam pulando alegremente pela floresta e imitando o canto dos pássaros que ouviam, quando, de repente, Glauquito sentiu novamente o arrepio, só que desta vez foi mais forte,

apavorando-o. Parou imediatamente e relatou o estranho fato ao amigo.

O indiozinho fez uma cara de desconfiado, olhou para todos os lados, mandou que o outro estalasse o polegar imediatamente e tratou de fazer o mesmo. O companheiro obedeceu e perguntou curioso:

— Por quê?

— Porque quando um visitante da floresta sente arrepios como esse, significa que o Curupira está por perto. Macunaíma ensinou que com Curupira é sempre bom ficar esperto.

Estalando o polegar ele nos deixa em paz.

— Quem é esse Curupira?

— É o protetor das matas, que tem os pés virados para trás.

Caminharam mais alguns minutos em silêncio, só ouvindo os barulhos dos bichos da floresta e do vento balançando as folhas das altas árvores, até que chegaram a um igarapé com lindas flores que boiavam sobre a água.

— Que flor é esta? — quis saber o menino.

— É uma vitória-régia. Certa noite uma cunhã, querendo tocar Jaci, pulou nas águas do rio que refletiam o luar. Já se afogava, quando Jaci, num beijo de luz, transformou-a na Estrela das Águas, tão formosa como as estrelas do céu, com um perfume inconfundível que jamais foi dado a outra flor.

— Jeí, o que é cunhã? E Jaci, o que é?

— Cunhã é como chamamos as moças da tribo. Jaci é lua.

Aproveitaram para cair na água, pois o calor era intenso. Estavam nadando, quando avistaram uma bela sereia, embaixo da verde

ramagem, sentada em cima de uma pedra grande. A brisa sacudia os galhos das árvores e derramava uma chuva de flores sobre os seus longos cabelos negros. Seu canto era maravilhoso!

Glauquito, que nunca tinha visto uma sereia antes, ficou enfeitiçado com sua beleza. Jeí,

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que sabia bem do que se tratava, não se deixou levar pelo encanto e rapidamente saiu da água, puxando o amigo consigo. Disse, cheio de medo:

— Corre que é a Iara! — e saiu em disparada.

Glauquito acompanhou o amigo, mesmo sem entender nada e quando já estavam bem longe, perguntou:

— Por que tanta correria? A mulher era tão bela, seu canto tão bonito e gostoso de se ouvir!

Eu queria ter ficado.

— Bem se vê que você nunca ouviu falar da Iara. Contam as lendas que ela espalha pelo capim e pelas folhas dos arbustos as sementes das dores que matam! Enfeitiça os homens e os leva para o fundo do rio, de onde nunca mais voltam. De dentro dos seus olhos verdes de cunhã nos espia a má sorte!

Glauquito se conformou e seguiram a caminhada. Jeí foi falando pelos cotovelos e alertando o amigo dos perigos.

— Jacurutu é o bruxo sonâmbulo dos ares, o assombrador das

madrugadas. Mapinguari, um índio velho que assusta as pessoas. O

saci-pererê não faz mal, mas é enganador. A cobra-grande come a gente inteirinho. O Boitatá...

Depois de muito andar, resolveram parar embaixo de um sapotizeiro para lanchar. Glauquito descobriu que essa árvore dava uma frutinha gostosa chamado sapoti e com ela se produzia o chiclete.

Deliciaram-se com muitas frutas, todas novas para Glauquito, que nunca havia ouvido falar em nomes como uvaia e babaçu. Jeí

também gostou muito do sabor das bolachas de chocolate.

— Jeí parece que você conhece todos os segredos e todas as

histórias da floresta. Quem ensinou você?

— Muita coisa meu avô contou para meu pai e meu pai contou para mim. Outras o pajé da minha tribo me ensinou, e uma parte eu aprendi na prática. Afinal eu nasci nesta floresta e ando muito por aqui.

Prosseguiram a caminhada, comendo deliciosas bananas e Jeí contou mais outra história:

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— Há muito tempo, viveram quatro irmãos: Aculi, Macunaíma, Cali e Manapé. Sofriam muita fome até que Aculi achou, no mais denso mato, uma árvore gigantesca, que dava toda qualidade de bananas. Aculi comia as frutas todos os dias, sem nada dizer aos irmãos, que padeciam de fome. Macunaíma desconfiou que o irmão estava comendo fora de casa e, à noite, quando todos dormiam, aproximou-se dele, que roncava de boca aberta, e encontrou um pedacinho de banana entre os seus dentes. No dia seguinte, Macunaíma mandou que Cali acompanhasse Aculi para ver onde ele havia encontrado bananas. Aculi com que ele prometesse que não contaria nada aos outros e ambos comeram até se fartar. À tarde voltaram para casa. Macunaíma viu os dois de barriga cheia e desconfiou. No outro dia, enviou Manapé junto com eles. Manapé descobriu tudo, comeu bananas até se fartar e levou um pouco para Macunaíma. No outro dia, Macunaíma pegou um machado e cortou a gigantesca árvore que, ao esborrachar no chão, espalhou-se em mudas por toda a floresta.

— Jeí, onde está sua sanfona? — lembrou-se Glauquito.

— Não é bem minha. Eu ganhei de São Pedro, mas só posso tocar quando vou passear no Céu.

— Será que lá tem gente?

— Sim, gente que olha para baixo. Por isso minha tribo chama estrela de olho bonito.

— Como tem gente, se lá é feito de nuvens e nuvem é mole? Como eles ficam?

— As coisas funcionam um pouco diferente por lá, Glauquito, porque as pessoas não têm peso. Entendeu?

— Não entendi muito bem, não. Mas explique-me como você desce e sobe para o céu?

— Se alguma estrela não vem me buscar, eu subo por uma palmeira até alcançar as costas do vento e ele me leva aonde eu quero ir.

Continuaram pela trilha em conversa animada e encontraram ainda muitos outros animais como onça, anta, mucura, cotia, veado,

tartaruga, tamanduá, boto, jacaré e sucuri no igarapé.

Quando finalmente chegaram na taba, foram recebidos com uma

festa onde homens, mulheres e crianças cantavam e dançavam

alegremente em volta de uma fogueira. Todos tinham os corpos pintados de vermelho e usavam lindas penas de aves na cabeça.

Glauquito ganhou um enfeite de penas e teve o corpo pintado também. Ficou curioso e ele

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quis saber que tinta era aquela. O cacique Pacamaloca explicou pacientemente:

— Essa tinta é feita de urucum, esta sementinha aqui — disse o índio.

— Será que eu posso levar um pouquinho para pintar meus amiguinhos da escola?

— Claro que pode.

O menino, encantado com o vermelho vivo da semente de urucum, apanhou um punhadinho e colocou no bolso do pijama.

A festa se estendeu noite, regada a refresco de guaraná. E é claro que o pidãozinho quis levar umas sementinhas também. O cacique anda lhe contou a lenda do guaraná.

— Das tribos da Mundurucânia, eram os mais poderosos os maués. Venciam as guerras, suas colheitas eram fartas, a pesca abundante e as doenças raras. Todo esse bem estar decorria da presença de certo curumim que nascera na tribo e por isso a atenção e os cuidados que lhe dispensavam eram enormes. Mas um dia, Jurupaí o gênio do mal, disfarçado de cascavel feriu o curumim com bote certeiro. A tribo entrou em grande lamentação e durante horas seguidas as preces e os gritos de desespero se espalharam pela floresta e pelas águas negras do Maué-açu. Tupã atendeu às lamentações e mandou que arrancassem os olhos da criança e plantassem em terra firme. Todos os dias deviam regar com lágrimas e deles nasceria a planta da vida. O pajé arrancou e plantou os olhos do curumim morto e durante quatro luas a tribo regou a terra com suas lágrimas. Uma nova planta surgiu, travessa como os curumins, procurando subir nas árvores próximas, agarrando-se com suas hastes escuras e fortes como os músculos de um guerreiro. Quando frutificou, seus frutos eram de três cores: negro, vermelho e branco. Ela trouxe a vida de volta para a tribo, fortalecendo os fracos, conservando os jovens e rejuvenescendo os velhos.

Perto do dia amanhecer cessaram o canto e a dança, aquietaram-

se os tambores e apitos. Todos se sentaram de cócoras para comer biju e tucupi de tapioca, enquanto o pajé contava uma bela história.

— Em dia de chuva boa, a mais bela cunhã da tribo saiu para

brincar com lama. No outro dia, sua barriga estava crescida e só fez crescer ainda mais, conforme os dias passavam. Numa noite de lua cheia, pulou de dentro uma cunhatã, moça já formada e tão bela quanto a mãe, mas de pele alva feito leite. Foi enterrada no mesmo dia em que nasceu, porque era um presente de Tupã. Foi enterrada dentro da oca das mulheres e todo dia a mãe regava sua cova. Depois de um tempo, cresceu uma planta que tinha as raízes brancas como a cunhatã e serviu de alimento para toda a tribo.

Daquele pé foram feitas muitas mudas e hoje em dia essa planta é conhecida pelo nome de mandioca.

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Terminada a história, fizeram silêncio para ouvir os sons da floresta que se despedia da noite. Era como uma orquestra regida pelo vento que agitava as folhas dançantes.

Nesse momento surgiram os primeiros raios de sol, colorindo o céu azul de vermelho, amarelo, laranja e lilás. Todos sabiam que era hora de Glauquito partir, por isso cantaram para ele uma canção de

despedida. O menino, em retribuição, também cantou uma música

que gostava de ouvir no rádio. O cacique Pacamaloca presenteou o visitante com um amuleto de pedra verde chamado muiraquitã e o aconselhou que nunca mostrasse a ninguém.

Terminadas as despedidas, o pajé se aproximou do menino e soprou nele um pó mágico.

Num piscar de olhos Glauquito fez todo o caminho de volta para sua casa.

Às sete horas da manhã, como de costume, a mãe de Glauquito entrou no quarto para acordá-lo para ir à escola. Despertou-o com um beijo de bom-dia e recomendou que fosse escovar os dentes e se vestir, antes do café da manhã.

Ao acordar, o menino se lembrou imediatamente do passeio realizado na noite anterior em companhia de seu amigo Jeí. Mais do que depressa contou a história detalhadamente para a mãe, depois, assobiando uma das cantigas que aprendera na aldeia, foi lavar o rosto para iniciar um novo dia.

A mãe achou a história fantástica e concluiu que o filho tivera um sonho muito movimentado naquela noite. A única coisa que ela não entendeu, quando foi arrumar a cama, foi como aquelas sementinhas tinham ido parar nos bolsos do pijama de Glauquito.

LOURIVALDO PEREZ BAÇAN

O MAGO DAS LETRAS

Atividades:

Professor de primeiro, segundo e terceiro graus

Bancário aposentado

Instrutor de Treinamento Profissional

Escritor: poeta, contista e novelista

Compositor letrista

Tradutor

Palestrante: Redação Criativa e O Processo Criativo

Publicações:

Publicou em 1996 a novela rural Sassarico, sobre o fim do ciclo do café, início da rotação de culturas (soja e trigo) e surgimento dos bóias-frias

Publicou em 1998 o livro de poemas Alchimia e em 1999 o livro Redação Passo a Passo.

Escreveu mais de 800 textos, publicados em sua maioria, sobre os mais diferentes assuntos, como: romances, erotismo, palavras cruzadas, charadas, passatempos, literatura infantil, passatempos infantis, horóscopos, esoterismo, simpatias populares, rezas, orações, intenções, anjos, fadas, gnomos, elementais, amuletos, talismãs, estresse, manuais práticos, religião e livros de bolso com os mais diversos temas, letras para músicas.

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