As três irmãs por Anton Tchékhov - Versão HTML

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Anton Tchekhov

As três irmãs

Drama em 4 actos

(1900-1901)

Personagens

Prozorov, Andrei Serguêievitch

Natalia Ivanovna, sua noiva, depois esposa

Olga, Macha e Irina, irmãs de Andrei Serguêievitch

Kuliguin, Fiodor Ilitch, professor de liceu, marido de Macha Verchinin, Aleksander Ignatievitch, tenente-coronel, comandante de artilharia

Tuzenbach, Nikolai Lvovitch, barão, primeiro-tenente Solionii Vasilii Vasílievitch, capitão

Tchebutikin, Ivan Romanitch, médico militar

Fedotik, Aleksei Petrovitch, tenente

Rode, Vladimir Karlovitch, tenente

Ferapont, velho contínuo da municipalidade

Anfissa, velha babá, tem oitenta anos

Ação se desenrola numa Capital de Província

Primeiro Acto

Uma sala na casa dos Prozorov. Entre suas colunas se divisa a sala de jantar. É um meio-dia ensolarado e alegre. Na sala de jantar estão pondo a mesa para o almoço.

Olga, vestindo o uniforme azul de professora de Liceu, corrige, sentada ou andando, os cadernos de suas alunas. Macha, de vestido negro, está sentada com o chapéu sobre os joelhos e lê um livro.

Irina, de roupa branca, está de pé junto à janela, imersa em pensamentos.

Olga

- Hoje faz um ano exato que morreu nosso pai, dia 5 de maio, dia da sua santa, Irina. Fazia muito frio e nevava. Eu pensava que não iria sobreviver, e você, desmaiada, esta estendida aqui no chão como um cadáver. Porém desde então se passou um ano, e já podemos recordá-lo de coração leve, você já se veste de branco e tem o rosto iluminado. (O relógio bate doze horas) Também então o relógio bateu. (Pausa) Lembro-me, quando levaram nosso pai tocava uma banda militar e no cemitério disparou-se uma salva de tiros. Ele era general, um general de brigada, e mesmo assim havia pouca gente.

Talvez por causa da chuva. Chovia forte e também nevava....

(Atrás das colunas, na sala de jantar, aparecem junto à mesa o Barão Tuzenbach, Tchebutikin E Solionii.)

Olga

- Hoje faz calor, as janelas estão abertas, mas ainda não apareceram brotos de bétulas. Faz onze anos que nosso pai recebeu a sua brigada e nós deixamos Moscou, mas eu me recordo perfeitamente. Nesta época, começo de maio, em Moscou já está tudo florido, faz calor, os raios de sol inundam toda a cidade.

Passaram-se onze anos, mas me recordo de tudo, tintin por tintin, como se tivéssemos deixado Moscou ontem. Meu Deus! Quando acordei hoje de manhã e vi toda esta luz, a primavera, meu coração se encheu de alegria e desejei ardentemente estar em minha cidade natal.

Tchebutikin

- Que nada!

Tuzenbach

- Claro, que bobagem! (Macha, pensativa, a cabeça inclinada sobre o livro, assobia suavemente uma canção)

Olga

- Não assobie, Macha. Como pode fazer isso? (Pausa) Desde que vou ao liceu todos os dias e à noite dou aulas particulares, tenho constantes dores de cabeça e fico pensando que já estou velha. E de fato, nesses quatro anos de liceu sinto minha juventude e minhas forças escapando-me dia a dia, gota a gota. E anseio cada vez mais e mais...

Irina

- Que mudemos para Moscou! Vendamos a casa, deixemos tudo e partamos para Moscou.

Olga

- O quanto antes! (Tchebutikin e Tuzenbach riem)

Irina

- Nosso irmão seguramente se tornará professor universitário, então não irá ficar mesmo aqui. Só a pobre Macha vai continuar aqui.

Olga

- Macha nos visitará todos os anos para passar o verão em Moscou. (Macha assobia suavemente uma canção)

Irina

- Tudo se ajeitará, se Deus quiser. (Olha pela janela) Que beleza de dia! Não sei por que brilha tanta luz no meu coração. Quando lembrei hoje pela manhã que era o dia da minha santa, fiquei feliz de repente e recordei a infância, quando mamãe ainda viva... Ai, os pensamentos maravilhosos que me invadiram!

Olga

- Hoje você está radiante e belíssima. Macha também está belíssima. Andrei seria também garboso, mas engordou muito e isso não lhe fica bem. Eu porém envelheci um bocado e emagreci, decerto por causa das discussões com as alunas. Hoje, por exemplo, que é o meu dia de folga, estou aqui e a cabeça não dói, sinto-me mais jovem que ontem. Estou com vinte e oito anos, mas... Está tudo bem, tudo é a vontade de Deus, mas sabe-se lá, se me casasse e passasse o dia em casa seria melhor. (Pausa) Eu amaria o meu marido...

Tuzenbach (a Solionii)

- O senhor diz tanta bobagem que nem vale a pena escutá-lo (Entra na sala) Esqueci de avisar-lhe que Verchinin, o novo comandante de artilharia, virá fazer-lhe uma visita hoje. (Senta-se diante do piano)

Olga

- Estamos encantadas.

Irina

- Ele é velho?

Tuzenbach

- Não muito. Anda no máximo pela casa dos quarenta, quarenta e cinco. (Toca piano suavemente) Parece ser um sujeito simpático.

Que ele não é burro, isso é certo. Apenas fala muito.

Irina

- É um homem interessante?

Tuzenbach

- Bem, é. Mas tem mulher e sogra e duas filhas pequenas.

Convém dizer também que se casou pela segunda vez. Nas visitas, que aliás faz amiúde, conta que tem mulher e duas filhas. Também aqui ele vai contar. A mulher parece ser um pouco desmiolada, usa longas tranças, como uma menina, se expressa com frases complicadas e muita filosofia, e freqüentemente tenta o suicídio, decerto para aborrecer o marido. Eu há muito já teria abandonado essa mulher, mas ele a agüenta e apenas se lamenta

Solionii (entra na sala na companhia de Tchebutikin)

- Com uma mão levanto só um pud e meio1, mas com as duas chego a levantar cinco ou até seis pudes. Sendo assim, concluo que dois homens têm não apenas o dobro de força de um, mas pelo menos o triplo.

Tchebutikin (andando, lê um jornal)

- Contra queda de cabelos... dissolver dois gramas de naftalina em meia garrafa de álcool... Friccionar todas as noites... (Anota em sua caderneta) Tomaremos nota disso (A Solionii) Preste atenção.

Empurramos a rolinha no frasco. Um tubinho de cidro a atravessa.

Depois, pegamos uma pitada do mais simples, do mais comum dos alumes...

Irina

- Ivan Romanitch, caro Ivan Romanitch!

1 27 quilos aproximadamente.

Tchebutikin

- Que é, minha filhinha, minha alegria?

Irina

- Diga-me, por que estou tão feliz hoje? Como se navegasse num veleiro, acima da minha cabeça o distante céu azul, e grande pássaros brancos circulando ao meu redor. Por que é assim? Por quê?

Tchebutikin (beijando-lhe as mãos, carinhosamente)

- Meu passarinho branco.

Irina

- Hoje, quando despertei, levantei-me e tomei banho, de súbito me pareceu que tudo no mundo estava tão claro e eu sabia como se deve viver. Querido Ivan Romanitch, eu sei tudo. O homem deve se esforçar, trabalhar com o suor do rosto, quem quer que seja, e só nisso reside o sentido e objetivo da vida, a nossa felicidade e o nosso prazer. Como é bonita a vida do operário que se levanta de madrugada e quebra pedra na estrada, ou do pastor ou do professor que ensina a criança, ou do maquinista na ferrovia... Meu Deus! Tem muito mais valor não apenas o homem que trabalha, mas o boi também, e o cavalo de carga, do que uma jovem casada que acorda ao meio-dia, tem seu café da manhã servido na cama, demora duas horas para se aprontar... Ai, como isso é terrível! Só o calor do verão é capaz de nos deixar tão sedentos quanto a sede que eu tenho hoje de trabalhar. E se de agora em diante eu não levantar cedo e não trabalhar, negue-me, Ivan Romanitch, a sua amizade!

Tchebutikin (ternamente)

- Negarei. Negarei.

Olga

- Nosso pai nos acostumou a levantar às sete horas. Agora Irina acorda às sete horas, mas permanece na ama até as nove, pelo menos, pensando sem parara em não sei o quê. E com uma cara tão séria! (Ri)

Irina

- Você está acostumada a me considerar uma menina e agora estranha o meu rosto está sério. Tenho vinte anos!

Tuzenbach

- Eu compreendo – e como! – que as pessoas desejem trabalhar.

Em toda minha vida nunca trabalhei. Nasci na fria e indolente São Petesburgo, numa família que nunca soube o que era trabalhar e nunca conheceu provações. Recordo-me, quando voltei para casa depois da academia militar, era o lacaio quem me tirava as botas; naquela época eu era cheio de caprichos, porém a minha mãe me olhava maravilhada e ficava admirada se os outros não me vissem do mesmo modo. Preservaram-me do trabalho. Porém, não conseguiram me afastar dele por completo. É chegada a hora, já se aproxima, uma imensa e saudável tempestade está por vir, já está a caminho, daqui a pouco chegará aqui e afugentará da nossa sociedade a indolência, a indiferença, o preconceito contra o trabalho, o tédio putrefato.

Trabalharei. Daqui a vinte e cinco ou trinta anos todos os homens trabalharão. Todos!

Tchebutikin

- Eu não trabalharei.

Tuzenbach

- O senhor não conta.

Solionii

- Daqui a vinte e cinco anos o senhor já não estará mais entre os vivos, graças a Deus. Dentro de dois ou três anos terá um derrame e morrerá. Ou num dia em que eu estiver de mau humor simplesmente lhe darei um tiro na cabeça, meu anjo. (Tira do bolso um frasco de perfume e o borrifa no peito e nas mãos. )

Tchebutikin (Ri)

- De fato, nunca na vida fiz nada. Desde que terminei a faculdade não movi mais um só dedo, não li um único livro, apenas o jornal

(Tira do bolso outro jornal) Eis um... Pelos jornais, sei, por exemplo, que existiu um tal Dobroliubov, mas o que ele escreveu, isso já não sei. Só Deus sabe! (Ouvem-se golpes no assoalho, vindos do andar de baixo) Ah, estão me chamando em baixo, alguém veio me ver. Volto logo, adeus. (Retira-se apressado, cofiando a barba. )

Irina

- Está tramando algo.

Tuzenbach

- Sim. Tinha uma cara muito solene ao sair, decerto voltará com um presente para a senhora.

Irina

- Ai, que desagradável.

Olga

- Sim, é terrível. Sempre está às voltas com essas bobagens.

Macha (levanta-se e cantarola em voz suave) “Junto ao mar há um carvalho, uma corrente de ouro pende de seus galhos... uma corrente de ouro pende de seus galhos...”

Olga

- Macha, hoje você não está alegre. (Macha, sempre cantarolando, põe o chapéu) Aonde vai?

Macha

- Para casa.

Irina

- Que estranho.

Tuzenbach

- Não vai ficar para o almoço festivo?

Macha

- Tanto faz... À noite dou um pulo aqui. Adeus, querida. (Beija Irina) Desejo-lhe, de novo, saúde e felicidade. Em outros tempos, quando nosso pai ainda vivia, nos dias de santo vinham sempre trinta ou quarenta oficiais nos visitar e faziam muita algazarra, um grande rebuliço. Hoje temos aqui apenas uma pessoa e meia e reina um silêncio sepulcral. Bem, vou indo. Hoje me sinto melancólica... estou de mau humor, mas agora adeus, minha querida, vou sair por aí...

Irina (contrariada)

- Ai, como você é...

Olga (entre lágrimas)

- Eu a compreendo, Macha.

Solionii

- Quando um homem filosofa, faz filosofística, ou digamos, sofística. Mas se uma – ou duas – mulheres filosofam... isso é, senhores, como se ladrassem à lua.

Macha

- Como o senhor é terrivelmente desagradável. O que quer dizer comisso?

Solionii

- Nada... “Volta-se e estarrecido diz ‘Ai’: era um urso que o seguia...”2 (Pausa)

2 Fábula de Krilov

Macha (a Olga irritada)

- Não chore!

(Entram Anfissa E Ferapont; este traz um bolo)

Anfissa

- Por aqui, por aqui, paizinho. Vá entrance, está com os pés limpos (A Irina) Vem da prefeitura, da parte de Mikhail Ivanovitch Protopopov. É um bolo.

Irina

- Obrigada. Diga-lhe que agradeço (Apanha o bolo)

Ferapont

- O que disse?

Irina (em voz mais ala)

- Agradeça a ele!

Olga

- Babá, dê-lhe pastel. V, Ferapont vai ganhar pastel Ferapont

- O que disse?

Anfissa

- Vamos, Ferapont Spiridonitch, vamos! (Ambos saem)

Macha

- Não gosto desse Protopopov, ou Mikhail Potapovitch, ou Ivanitch, ou sei lá o quê. Ele não deve ser convidado.

Irina

- E eu não o convidei.

Macha

- Então está bem.

(Entra Tchebutikin, seguido por um soldado que carrega um samovar de prata. Ouvem-se exclamações de assombro e reprovação)

Olga (cobre o rosto com as mãos)

- Um samovar! É terrível! (Entra na sala de jantar e se dirige à mesa)

Irina

- Querido, querido Ivan Romanitch, o que o senhor aprontou?

Tuzenbach (ri)

- Não disse?

Macha

- O senhor não tem vergonha, Ivan Romanitch?

Tchebutikin

- Minhas queridas, vocês são as únicas pessoas, as mais caras que eu tenho neste mundo. Em breve vou completar sessenta anos, sou um velho, um velho solitário e imprestável. Nada mais de bom resta dentro de mim, salvo o amor que lhes devoto. Se vocês não gostassem de mim, já há muito estaria morto. (A Irina) Minha querida, minha filhinha. Conheço-a desde o dia em que nasceu, carreguei-a nos braços... e amava a sua falecida mãe.

Irina

- Mas para que esse presente caro?

Tchebutikin (entre lágrimas, zangado)

- Presente caro, pare com isso! (Ao soldado) Suma-se daqui com esse samovar. (Imitando-a) Presente caro... (O soldado dirige-se com o samovar à sala de jantar. )

Anfissa (Atravessa a sala)

- Minhas flores, um coronel desconhecido está lá fora. Já tirou o capote e vem vindo. Irinuchka, seja amável e carinhosa com ele! (Ao retirar-se) Puxa, já é hora de almoçar! Ai, meu Deus.

Tuzenbach

- Deve ser Verchinin (Entra Verchinin) O tenente-coronel Verchinin.

Verchinin (a Macha e Irina)

- Tenho a honra de me apresentar: Verchinin. Muita, mas muita satisfação mesmo, em vê-las. Como cresceram!

Irina

- Sente-se, por favor, estamos encantadas.

Verchinin (em tom jovial)

- Estou muito contente. Mas as senhoras são três irmãs, não é mesmo? Recordo-me de três menininhas. Já não me lembrava mais dos rostos, mas sei que seu pai, o coronel Prozorov, tinha três filhinhas, disso me recordo perfeitamente, eu as vi com os meus próprios olhos. Como o tempo passa! Como o tempo passa!

Tuzenbach

- Aleksander Ignatevitch é de Moscou.

Irina

- É de Moscou? O senhor é de Moscou?

Verchinin

- Sim, sou. O seu falecido pai era comandante de artilharia e eu servia como oficial na mesma brigada. (A Macha. ) Agora me parece que me lembro do seu rosto.

Macha

- Eu não me lembro do seu.

Irina

- Olga! Olga! (Grita em direção à sala de jantar) Olga, venha aqui! (Olga entra na sala, vinda da sala de jantar) Descobrimos que o tenente-coronel Verchinin é de Moscou.

Verchinin

- Então a senhora é Olga Serguêievna, a mais velha. E a senhora é Maria... e a senhora é Irina, a mais nova...

Olga

- O senhor é de Moscou?

Verchinin

- Sou. Estudei em Moscou e foi lá que entrei para o exército.

Servi durante longo tempo em Moscou, por fim recebi o comando dessa artilharia e mudei-me para cá, como vêem. Na verdade me lembro pouco das senhoras, sei apenas que eram três irmãs. Mas a figura do seu pai ficou gravada na minha memória. Se fechar os olhos o vejo diante de mim, como se ele estivesse vivo. Eu os visitava em Moscou com freqüência.

Olga

- E eu que pensava me recordar de todo o mundo, agora...

Verchinin

- Meu nome é Aleksander Ignatievitch.

Irina

- Então, Aleksander Ignatievitch, o senhor é de Moscou... Que surpresa!

Olga

- Nós pretendemos mudar para lá.

Irina

- Esperamos estar lá já o outono. É a nossa cidade natal.

Nascemos lá. Na antiga Rua Basmannai... (Ambas riem de alegria)

Macha

- Encontramos por acaso um conterrâneo. (Vivamente) Agora já sei. Olga, eu me recordo, dizia-se sempre em casa: “o major apaixonado”. O senhor era então primeiro-tenente e estava apaixonado por alguém, e todos o chamavam assim, não sei por quê, talvez por brincadeira, o major apaixonado.

Verchinin (ri)

- Sim, sim. O major apaixonado. Isso mesmo!

Macha

- Naquele tempo o senhor usava só bigode. Ai, como envelheceu!

(Entre lágrimas) Como envelheceu!

Verchinin

- Sim, quando me chamavam de “major apaixonado” eu ainda era jovem, ainda me apaixonava. Hoje tudo mudou.

Olga

- Mais ainda não tem um fio sequer de cabelo branco!

Envelheceu, porém não é nenhum velho.

Verchinin

- De qualquer forma, vou completar quarenta e três anos...

Deixaram Moscou há muito tempo?

Irina

- Há onze anos. Mas, por quê você chora, Macha? Deixe de ser tola! (Entre lágrimas) Ah, agora eu também estou começando a chorar.

Macha

- Não é nada. Morava em que rua?

Verchinin

- Na antiga Rua Basmanaia.

Olga

- Nós também!

Verchinin

- Durante algum tempo morei na Rua Niemetzkaia. Da Rua Niemetzkaia costumava ir para o Quartel Vermelho. No caminho há uma ponte sombria, e sob ela se ouve o murmúrio das águas. Quem passar por lá sozinho se sentirá tomado de tristeza (Pausa) Mas que rio lindo, que rio magnífico, tem aqui! Que rio magnífico!

Olga

- Sim, porém é gelado. Aqui faz frio e tem muito mosquito.

Verchinin

- Não é bem assim. o clima daqui é bom e saudável clima eslavo.

Bosques, rio... e também bétulas. De todas as árvores a que mais gosto é a querida e recatada bétula. Viver aqui é uma verdadeira felicidade. Só estranho que a estação de trem fique a vinte verstas da cidade... E ninguém sabe por que razão.

Solionii

- Eu sei porquê. (Todos olham para ele) É que se a estação ficasse perto, não estaria longe. E se está longe, entoa não pode estar perto.

(Mal estar geral, silêncio)

Tuzenbach

- Vasilii Vasilich, o senhor é muito brincalhão.

Olga

- Já consigo me lembrar do senhor. É claro!

Verchinin

- Conheci a senhora sua mãe.

Tchebutikin

- Era uma santa mulher, que Deus a tenha.

Irina

- Mame foi enterrada em Moscou.

Olga

- Sim, no cemitério Novodievitchie.

Macha

- Veja, já quase esqueci o rosto dela. Da mesma forma não recordarão os nossos rostos tampouco. Acabarão se esquecendo de nós.

Verchinin

- Sim. Acabarão por nos esquecer. É o destino – nada se pode fazer contra ele. O que a nós parecia sério, importante, de muito valor, com o tempo será esquecido e considerado sem importância.

(Pausa) E o mais interessante é que nós nem sabemos a que eles darão valor importância e o que considerarão inútil e ridículo. Será que no começo não viam as descobertas de Copérnico ou de Colombo como inúteis e ridículas e consideravam verdadeiras revelações as escrivinhações de um tolo excêntrico qualquer? E também é possível que a vida que agora nos satisfaz venha as ser mais tarde julgada estranha, desconfortável, desprovida de razão, insuficientemente pura e talvez até pecaminosa.

Tuzenbach

- Quem sabe? Mas é possível também que a nossa vida de agora seja qualificada de superior e se refiram a nós com respeito. Hoje não existem torturas, execuções e nem invasões de domicílio, apenas muito, muito sofrimento.

Solionii (em voz de falsete)

- Tsip, tsip, tsip... O barão pode passar muito bem sem o mingau, contanto que possa filosofar.

Tuzenbach

- Vasilii Vasilitch, me deixe em paz... (Muda de assento) Já chega.

Solionii (em voz de falsete)

- Tsip, tsip, tsip...

Tuzenbach (a Verchinin)

- Os sofrimentos que vemos hoje em dia – e são tantos! Não deixam de demonstrar uma certa elevação moral já alcançada pela sociedade...

Verchinin

- Sim, sim, naturalmente.

Tchebutikin

- Barão, o senhor disse agora mesmo que a nossa vida será considerada elevada um dia; porém os homens são pequenos...

(Levanta-se) Veja como eu sou pequeno. Se alguém disser que minha vida é elevada e tem sentido isso me consolará. (De fora chega o som de um violino. )

Macha

- É Andrei, nosso irmão, quem está tocando.

Irina

- Andrei é um sábio. Provavelmente será professor universitário.

Seu pai era militar, mas o filho seguirá carreira científica.

Macha

- Conforme o desejo de papai.

Olga

- Hoje caçoamos muito dele. Parece que está um tanto apaixonado.

Irina

- Por uma moça daqui. É possível que ela também apareça aqui hoje.

Macha

- Ai, mas como ela se veste! Não apenas se veste mal, fora de moda, mas de um jeito simplesmente lastimável! Usa uma saia estranha de um amarelo berrante, adornada com franjas vulgares, e uma blusa vermelha. E o rosto, parece tê-lo esfregado, tão brilhante ele é! Andrei não está apaixonado por ela, não acredito nisso, ele tem bom gosto. Está apenas troçando da gente, fazendo pilhéria. Além do mais, ouvi dizer ontem que a moça vai se casar com Protopopov, presidente do conselho municipal. Seria ótimo se assim fosse. (Fala voltada para a porta lateral)

(Entra Andrei.)

Olga

- Meu irmão, Andrei Serguêievitch.

Verchinin

- Verchinin.

Andrei (enxugando o tosto acalorado)

- Prozorov. O senhor foi designado para cá, não é mesmo? É o novo comandante de artilharia?

Olga

- Imagine, Aleksander Ignatievitch é de Moscou.

Andrei

- É mesmo? Bem, nesse caso o congratulo, minhas irmãs não o deixarão em paz.

Verchinin

- Já tive o prazer de aborrecê-las com as minhas recordações.

Irina

- Veja a moldura de retrato que ganhei hoje de Andrei. (Mostra a moldura) Ele mesmo a fez.

Verchinin (olha a moldura sem saber o que dizer)

- Sim... é resistente...

Irina

- E a moldura que está pendurada na parede acima do piano também foi ele que fez. (Andrei faz um gesto com a mão e se afasta do grupo)

Olga

- Andrei é o nosso sábio, toca violino, faz umas coisinhas de madeira, em suma, tem talento para tudo. Andrei, não vá. Ele tem o hábito de se afastar. Venha cá! (Rindo, Macha e Irina pegam Andrei pelo braço e obrigam-no a voltar)

Macha

- Venha, venha!

Andrei

- Ora, me deixem!

Macha

- Que sujeito engraçado! Em outros tempos Aleksander tinha o apelido de major apaixonado e isso não o deixava nem um pouco ressentido.

Verchinin

- Nem um pouco!

Macha

- E sabe o que você é? Você é violinista apaixonado.

Irina

- Ou então o professor apaixonado!

Olga

- Está apaixonado! Andriuchka está apaixonado!

Irina (bate palmas)

- Viva, viva! Andriuchka está apaixonado!

Tchebutikin (aproxima-se de Andrei por trás e abraça-lhe a cintura com ambas as mãos)

- “Só para o amor a natureza nos criou!” (Ri às gargalhadas; sempre com o jornal na mão)

Andrei

- Bem, já chega, já chega... (Enxugando o rosto) Não preguei o olho a noite toda e agora estou um pouco tonto. Fiquei lendo até as quatro e depois fui para cama, mas não consegui fechar os olhos.

Pensava nisso e naquilo, até que chegou o solzinho da manhã e invadiu o quarto todo. Durante o verão, enquanto estiver aqui, pretendo traduzir um livro do inglês.

Verchinin

- O senhor sabe inglês?

Andrei

- Sim; nosso pai, que Deus o tenha, praticamente nos martirizava com a educação. É ridículo, uma bobagem, mas devo dizer-lhe que depois da morte dele comecei de repente a ganhar peso, e em um ano engordei muitíssimo, como se o meu corpo tivesse se libertado de uma grande pressão. Graças a nosso pai, eu e minhas irmãs sabemos francês, alemão e inglês, e Irina até italiano. Mas quanto não nos custou isso!

Macha

- Saber três línguas nesta cidade é um luxo desnecessário. É até mais que um luxo; é simplesmente uma coisa inútil, como um sexto dedo. Sabemos muita cosia desnecessária.

Verchinin

- Que nada (Ri) “Sabemos muita coisa desnecessária.” Sou de opinião que não pode existir cidade, por mais enfadonha e triste, onde uma pessoa inteligente e instruída seja desnecessária.

Admitamos que entre os cem mil habitantes desta cidade, sem dúvida atrasada e grosseira, existam apenas três que se assemelhem aos senhores. Naturalmente os senhores não serão capazes de conquistar a massa insensível; aos pouco terão de ceder e se perderão no meio da multidão de cem mil pessoas. A vida os afogará, porém os senhores não desaparecerão por completo, sem deixar vestígio. Mais tarde, depois dos eu desaparecimento, já haverá seis pessoas como só senhores, depois doze, e assim por diante, até que por fim as pessoas da sua espécie constituirão a maioria. Em dois ou três séculos a vida na terra será incrivelmente bela. Essa é a vida de que o homem necessita e se por ora ainda não existe, devemos pressenti-la, esperá-la, sonhar com ela, preparar-nos para ela. Por isso devemos ver e saber mais do que viam e sabiam nosso pais e avôs. (Ri) E os senhores se queixam de que sabem muita cosia desnecessária!

Macha (tirando o chapéu)

- Vou ficar para o almoço.

Irina (suspira)

- Devíamos tomar nota de cada palavra sua. (Entrementes Andrei deixou a sala sem ser notado)

Tuzenbach

- O senhor diz que a vida na terra, ao cabo de muitos anos, será assombrosamente bonita. Certo. Mas, para participarmos dela desde já, mesmo à distancia, devemos nos preparar e temos de trabalhar...

Verchinin (levantando-se)

- Sim. Olhe só, quantas flores têm aqui! (Esquadrinha a sala) E

que casa magnífica! Eu os invejo. Passei a vida toda em apartamentos apertado. Duas cadeiras, um diva e um fogão sempre soltando fumaça. Eram essas flores que faltavam na minha vida.

(Esfrega as mãos. ) Mas enfim, para que falar nisso?

Tuzenbach

- Sim, é preciso trabalhar. O senhor de certo pensará: um alemão sentimental. Mas dou-lhe a palavra, sou russo e nem sequer entendo alemão. Meu pai era cristão ortodoxo... (pausa)

Verchinin (andando de um lado para o outro)

- Muitas vezes penso se pudéssemos começar a vida de novo e o fizéssemos de modo consciente? Se a vida cumprida fosse uma espécie de rascunho e a outra – a nova – o texto passado a limpo?

Imagino entoa que todos nós nos esforçaríamos antes de mais nada, para não nos repetirmos. Criaríamos outras condições de vida, providenciaríamos uma casa florida como esta, luminosa...Tenho esposa e duas meninas; minha esposa é uma mulher doente, etc., etc. Mas se pudesse recomeçar a vida, não me casaria. De modo algum

(Entra Kuliguin, trajando uniforme de gala)

Kuliguin (aproximando-se de Irina)

- Querida cunhada, permita-me manifestar as minhas felicitações no dia de sua santa e desejar-lhe, de todo o coração, sinceramente, boa saúde e tudo o que de bom se pode desejar a uma moça de sua idade. E entregar-lhe este livro, de presente. (Entrega-lhe o livro) É a história do nosso liceu, escrita por mim e cobrindo cinqüenta anos de sua existência. É um trabalhinho insignificante, escrito nas horas vagas, mas mesmo assim você deve le-lo. Meus respeitos, senhores.

(A Verchinin) Kuliguin, professor de liceu e conselheiro (A Irina) Este livro contém a lista de todos os alunos que freqüentaram a nossa instituição nos últimos cinqüenta anos. Feci, quod potuit, faciant meliora potentes 3 (Beija Macha)

Irina

- Mas na Páscoa você já me presenteou um igual.

Kuliguin (ri)

- Entoa me devolva, ou dê-o ao coronel. Tome-o coronel. Talvez o leia num dia em que não tiver nada melhor para fazer.

Verchinin

- Muito obrigado. (Faz menção de se retirar) Foi um grande prazer conhecê-los.

Olga

- Já vai? Nada disso!

Irina

- O senhor vai ficar para o almoço. Por favor!

Olga

- Eu também lhe peço que fique.

3 Fiz como pude, faça melhor quem souber.

Verchinin (inclina-se)

- Parece que cheguei no meio de uma festa familiar. Perdoem-me, mas não sabia, e ainda não dei os meus parabéns (Dirige-se com Olga à sala de jantar. )

Kuliguin

- Hoje, senhores, é domingo, dia de descanso. Descansemos pois, nós também, e vamos nos divertir, cada um conforme sua idade e posição social. No verão os tapetes devem ser retirados e guardados até o inverno... Com inseticida ou naftalina. Os romanos eram um povo saudável, pois sabiam tanto trabalhar quanto descansar, não era à toa que propalavam Mens sana in corpore sano.

Sua vida decorria dentro de determinadas formas. Nosso diretor diz: o mais importante na vida é a sua forma... O que perde a sua forma acaba, e assim ocorre também no nosso dia-a-dia (Abraça Macha e ri)

Macha me ama. A minha mulher me ama. E as cortinas devem ser retiradas, junto com os tapetes... Hoje estou muito alegre, de excelente humor. Macha, hoje às quatro da tarde iremos à casa do senhor diretor. Estão organizando um pequeno passeio para os membros do corpo docente e seus familiares.

Macha

- Não vou.

Kuliguin (triste)

- Mas por que não, Macha querida?

Macha

- Eu vou lhe dizer (Enraivecida) Está bem, eu vou mas me deixe em paz, me deixe em paz, por favor. (afasta-se)

Kuliguin

- Depois passaremos o resto da tarde na casa do senhor diretor.

O senhor diretor, apesar da saúde abalada, esforça-se por levar uma vida social. É uma pessoa brilhante, superior. Um homem magnífico.

Ontem, após a conferência, ele me disse: “Estou cansado, Fiodor Ilitch! Cansado!” (Olha o relógio da parede, depois o seu relógio de bolso) O relógio de vocês está sete minutos adiantado. Sim, ele disse:

“Estou cansado”. (De fora chega o som de um violino. )

Olga

- Tenham a bondade, senhores, o almoço está servido! Haverá pastel também!

Kuliguin

- Ai, Olga querida! Ontem trabalhei desde de manhã até as onze da noite, estava muito cansado, mas hoje me sinto tão feliz! (Passa à sala de jantar e dirige-se à mesa) Olga, querida...

Tchebutikin (guarda o jornal no bolso e cofia a barba)

- Pastel? Isso sim é que é vida!

Macha (a Tchebutikin , em tom severo)

- Vou lhe avisando: hoje o senhor não vai beber. Entendeu? A bebida lhe faz mal.

Tchebutikin

- Que nada! Isso já passou. Não bebo há dois anos (Impaciente)

Mas tanto faz se eu bebo ou deixo de beber.

Macha

- Mesmo assim, não se atreva a beber. Não se atreva. (Irritada, mas tomando cuidado para que o marido não a ouça) Diabos, lá vamos nós outra vez passar a tarde nos aborrecendo na casa do diretor!

Tuzenbach

- Em seu lugar eu simplesmente não iria

Tchebutikin

- Não vá.

Macha

- Não vá, não vá... Vida maldita. Insuportável... (Dirige-se à sala de jantar)

Tchebutikin (dirigindo-se também à sala de jantar)

- Portanto...

Solionii (dirigindo-se também à sala de jantar)

- Tsip, tsip, tsip.

Tuzenbach

- Basta, Vasilii Vasilitch. Basta!

Solionii

- Tsip, tsip, tsip.

Kuliguin (alegremente)

- À sua saúde, coronel! Sou pedagogo, faço parte desta família; sou marido de Macha, Macha é uma ótima criatura.

Verchinin

- Experimentemos esta vodica escura. (Bebe) À sal saúde! (A Olga) Sinto-me tão bem em sua casa! (Apenas Irina e Tuzenbach permanecem na sala)

Irina

- Macha está de mau humor hoje. Casou-se com ele aos dezoito anos, quando ainda acreditava que o marido fosse o homem mais inteligente deste mundo. E agora mudou de opinião a seu respeito. É

o melhor dos homens, porém não o mais inteligente.

Olga (impaciente)

- Andrei, venha logo!

Andrei

- Agora mesmo (Entra e dirige-se à mesa)

Tuzenbach

- Em que está pensando?

Irina

- Eu? Não gosto do seu amigo, desse Solionii, tenho medo dele.

Só diz bobagens...

Tuzenbach

- É um homem estranho. Tenho pena dele e também raiva, mas sobretudo pena. Acho que é muito tímido... Quando estamos sozinhos ele costuma ser bastante inteligente e agradável, s nas reuniões torna-se um sujeito grosseiro e provocador. Espere mais um pouco até todos se acomodarem em torno da mesa. Deixe-me estar ao seu lado. Em que pensa? (Pausa) Tem vinte anos e eu pouco menos de trinta. Quantos anos ainda temos pela frente, quantos e quantos dias, todos eles iluminados pelos raios do amor.

Tuzenbach (Não lhe presta atenção)

- Estou sedento de vida, de luta, de trabalho... E em minha alma essa sede se une ao amor que sinto pela senhora, Irina... A senhora é tão maravilhosa e a vida também me parece tão maravilhosa... Em que está pensado?

Irina

- O senhor disse que a vida é maravilhosa. Sim, mas se apenas parece maravilhosa?! Para nós três a vida ainda não foi maravilhosa.

Cobriu-nos como a erva daninha... Estou derramando lágrimas... Em vão... (Rapidamente enxuga o rosto e sorri. ) Devemos trabalhar, trabalhar. Estamos tristes e temos uma visão tão sombria da vida porque não conhecemos o trabalho. Descendemos de pessoas que desprezavam o trabalho. (Entra Natalia Ivanovna; está trajando um vestido cor-de-rosa com conto verde. )

Natacha

- Ah, já estão sentado à mesa. Cheguei atrasada (De relance olha-se no espelho e ajeita o cabelo) O penteado parece que não está mal... (Nota a presença de Irina) Irina Serguêievna, querida, meus parabéns. (Beija-a forte e longamente) Ai, estão com tantas visitas, fico embaraçada... Bom dia, barão.

Olga (entra na sala)

- Ah, chegou Natalia Ivanovna também. Seja bem-vinda, querida.

(Trocam beijos)

Natacha

- A reunião hoje está muito concorrida, fico acanhada...