Aspectos de Herança da Língua Árabe na Língua Portuguesa: Pontos de terminologia por Enilde Faulstich, Elzamária Araújo Carvalho - Versão HTML

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ASPECTOS DE HERANÇA DA LÍNGUA ÁRABE NA LÍNGUA PORTUG UESA

PONTOS DE TERMINOLOGIA

Enilde Faulstich (Universidade de Brasília/Centro Lexterm, Brasil)

Elzamária Araújo Carvalho (Universidade de Brasília/Centro Lexterm, Brasil)

A história de uma língua não é um esquema

rigorosamente preestabelecido,

não é um problema algébrico.

Não se pode partir do latim

e chegar diretamente aos dias de hoje,

saltando por sobre vários séculos

de palpitante vida.

(Serafim da Silva Neto)

RESUMO:

NESTE ARTIGO, PROCUROU-SE REAVIVAR A PRESENÇA DA LÍNGUA ÁRABE NA LÍNGUA

PORTUGUESA, POR MEIO DE ESTUDO DE CASOS PONTUAIS DE TERMINOLOGIA QUE

DEMONSTRAM, ATRAVÉS DOS SÉCULOS, A PERENIDADE DE FORMA E DE SIGNIFICADO DE

ORIGEM ÁRABE NO PORTUGUÊS. A PRESENÇA DO ÁRABE NO PORTUGUÊS E NO ESPANHOL É UM

FENÔMENO LINGÜÍSTICO COMPLEXO, QUE, POR ISSO, DEVE SER INVESTIGADO SOB UMA

PERSPECTIVA SINCRÔNICA E DIACRÔNICA. PARA MELHOR ORGANIZAR AS IDÉIAS, O CONTEÚDO

ESTÁ DIVIDIDO EM TRÊS PARTES COM SUBTEMAS QUE ABORDAM: I) A EFERVESCÊNCIA

LINGÜÍSTICA DA PENÍNSULA IBÉRICA À CHEGADA DOS ÁRABES; II) A ENTRADA DO AL NO

PORTUGUÊS; III) O PERCURSO DAS UNIDADES TERMINOLÓGICAS AZOGUE, AZOUGUE E

AÇOUGUE NO ESPANHOL E NO PORTUGUÊS, CUJO MOVIMENTO NA HISTÓRIA DOS

SIGNIFICADOS AUXILIAM A COMPREENSÃO DOS USOS CORRENTES EM DETERMINADOS

MOMENTOS DAS DUAS LÍNGUAS.

PALAVRAS-CHAVE:

TERMINOLOGIA ARCAICA; TERMINOLOGIA PONTUAL; O CASO ADUBO; OS CASOS

AZOGUE, AZOUGUE E AÇOUGUE NO ESPANHOL E NO PORTUGUÊS; HISTÓRIA DAS

LÍNGUAS NA PENÍNSULA IBÉRICA

RESUMEN:

EN ESTE ARTÍCULO SE HA INTENTADO REAVIVAR LA PRESENCIA DE LA LENGUA ÁRABE EN LA

LENGUA PORTUGUESA, POR MEDIO DEL ESTUDIO DE CASOS PRECISOS DE TERMINOLOGÍA QUE

DEMUESTRAN, A TRAVÉS DE LOS SIGLOS, LA PERENNIDAD DE FORMA Y DE SIGNIFICADO DE

ORIGEN ÁRABE EN EL PORTUGUÉS. LA PRESENCIA DEL ÁRABE EN EL PORTUGUÉS Y EL ESPAÑOL

ES UN FENÓMENO LINGÜÍSTICO COMPLEJO Y POR ESTA RAZÓN, DEBE SER INVESTIGADO

SEGÚN UNA PERSPECTIVA SINCRÓNICA Y DIACRÓNICA. PARA ORGANIZAR MEJOR LOS IDEAS, EL

CONTENIDO ESTÁ DIVIDIDO EN TRES PARTES CON SUBTEMAS QUE PLANTEAN: 1) LA

EFERVESCENCIA LINGÜÍSTICA DE LA PENÍNSULA IBÉRICA A LA LLEGADA DE LOS ÁRABES; 2) LA ENTRADA DE “AL” EN EL PORTUGUÉS; 3) LA TRAYECTORIA DE LAS UNIDADES

TERMINOLÓGICAS AZOGUE, AZOUGUE Y AÇOUGUE EN EL ESPAÑOL Y EL PORTUGUÉS; ESE

MOVIMIENTO EN LA HISTORIA DE LOS SIGNIFICADOS AUXILIAN LA COMPRENSIÓN DE LOS USOS

CORRIENTES EN DETERMINADOS MOMENTOS DE LAS DOS LENGUAS

PALABRAS-CLAVE:

TERMINOLOGÍA ARCAICA; TERMINOLOGÍA PUNTUAL; EL CASO ADUBO; LOS CASOS

AZOGUE, AZOUGUE Y AÇOUGUE EN EL ESPAÑOL Y EL PORTUGUÉS; HISTORIA DE LAS

LENGUAS EN LA PENÍNSULA IBÉRICA

1. INTRODUÇÃO - A CONSTITUIÇÃO EFERVESCENTE DA PENÍNSULA

IBÉRICA

Antes da chegada dos romanos, a faixa ocidental da Península Ibérica dividia-

se, de sul a norte, em três territórios: um denominado Cyneticum, que era densamente povoado; outro que correspondia à região entre Anas e Tagus (Tejo), onde ficavam

numerosas cidades, indicadas por Ptolomeu, cuja localização é hoje desconhecida, e um

terceiro, do Tejo para cima, até o Douro, dentro do qual havia uma subdivisão, que

corresponde ao que hoje é a Galiza. No decorrer dos séculos, desabaram sobre a

Península numerosos e variados povos, uns como amigos e outros como conquistadores.

Desses contatos, eram inevitáveis as mesclas físicas e os conseqüentes choques de

culturas.

Na base indígena da população peninsular, encontravam-se três elementos

essenciais:

1) O pirenaico, de que os bascos são os representantes.

2) O pré-ibérico, que começou a extinguir-se no neolítico.

3) O ibérico, provavelmente de origem africana, que surge no neolítico.

No começo do século VIII a.C., entra, na Península, outro povo de origem

indo-européia: os celtas, que vieram através dos Pireneus. Dois séculos mais tarde,

entrariam novas levas mais expressivas e significantes de celtas. Pela supremacia desse povo, pouco a pouco se foi manifestando, na Península, uma relativa unidade cultural

que, progressivamente, foi sendo assimilada pelas tribos autóctones. Essa estabilidade

vai perdurar até a conquista romana.

Os romanos desembarcam na Península Ibérica no ano 218 a.C. (século III),

em decorrência da tomada da base militar cartaginesa ali existente, durante a II Guerra Púnica. Com a derrocada dos cartagineses, os romanos partem para a conquista da

Península e levam dois séculos para conquistar o território plenamente. Nesse período,

os povos da Península, com exceção dos bascos, adotam o latim como língua e, mais

tarde, todos abraçam o cristianismo.

Se em Roma a sociedade era estratificada em patrícios, plebeus e escravos, no

processo de latinização da România, o elemento plebeu foi preponderante, o que

possibilita aos estudiosos, mesmo sem dados suficientes, admitir que a língua levada à

România foi marcadamente popular.

Do século V ao VIII, a Península foi invadida pelos vândalos, suevos, alanos e

visigodos, povos germânicos que legaram à Península uma contribuição mínima e

corroboraram a desagregação da unidade romana. Resultou disso que forças centrífugas

preponderaram sobre as de coesão. Todavia, o que parecia ser negativo funcionou como

uma válvula difusora do latim oral, que, em detrimento do latim escrito culto, evoluiu

rapidamente e diversificou-se. Com a entrada dos vândalos, dos alanos e dos suevos, a

Península começou a afastar-se lentamente da influência do mundo clássico de Roma e

entrou em declínio social e cultural, tornando-se inevitavelmente mais rudimentar.

Contudo, a efervescência social e lingüística na Península era natural, em decorrência

do fato de que o latim era a língua de uma sociedade cada vez mais complexa e

articulada.

Com a invasão muçulmana, em 711, pelo estreito de Gibraltar, a sociedade

ibérica assistiu à abrupta queda do poder visigodo e sofreu a súbita anexação ao mundo

mediterrâneo do dar- al- Islam. Os muçulmanos adentram o território e, em pouco tempo, conquistam a Península Ibérica. Eram árabes e berberes do Magreb. Tinham o

islã como religião e o árabe como língua de comunicação, mesmo aqueles que falavam

o berbere. Os povos ibéricos chamaram-nos “mouros”, querendo dizer, “habitantes do

Norte da África”.

A sociedade ibérica sob o domínio muçulmano encontrava-se, por volta do

século XI, fundamentalmente dividida em três facções distintas, em razão das diferentes orientações religiosas dos povos em presença naquele território – muçulmanos, judeus e

cristãos. Todos os outros critérios de divisão tornaram-se secundários por comparação a este.

Até por volta do ano 1000, a Espanha muçulmana dominou os inimigos

cristãos. Foi a época áurea do califado de Córdoba. Porém, no início do século XI, os

reinos cristãos iniciaram um movimento ofensivo que se tornaria irresistível. Assim,

Coimbra foi reconquistada em 1064, Santarém e Lisboa em 1147, Évora em 1168 e

Faro em 1249. Com a tomada de Faro, o território de Portugal formou-se

completamente. O restante da Península só foi definitivamente reconquistado bem mais

tarde, em 1492, quando os Reis Católicos se apoderaram do reino de Granada.

Por meio da história, pode-se afirmar que a invasão muçulmana e a

Reconquista foram acontecimentos determinantes na formação das três línguas

peninsulares – o galego-português a oeste, o castelhano no centro e o catalão a leste.

Estas línguas, nascidas na direção norte-centro, foram levadas para o Sul pela

Reconquista. Nas regiões setentrionais, onde se formaram os reinos cristãos, a

influência lingüística e cultural dos muçulmanos tinha sido mais fraca do que nas

demais regiões. Na região meridional, o domínio muçulmano deixara subsistir uma

importante população cristã de língua românica: os cristãos chamados moçárabes, que,

em meio às contínuas dissensões de árabes e de berberes, apresentavam-se como um

grupo coeso e compacto. Ficaram célebres os moçárabes do Andaluz, com uma cultura

meio latina e meio árabe. Vale lembrar que o setor cultural em que se tornaram mais

perduráveis os elementos moçárabes foi o da arquitetura e o da iluminura, representado

em Portugal pela igreja de Lourosa (distrito de Coimbra) e pelas iluminuras do Livro das aves e do Apocalipse de Lorvão.

Foram, portanto, os moçárabes o principal veículo de transmissão da cultura

muçulmana que os cristãos da Península assimilaram.

A Reconquista provocou importantes movimentos de populações. Os territórios

retomados aos mouros estavam despovoados. Os soberanos cristãos “repovoaram” esses

territórios e, entre os novos habitantes, havia em geral uma forte proporção de povos

vindos do Norte. Foi assim que o galego-português recobriu, pouco a pouco, toda a

parte central e meridional do território português.

É fartamente conhecida a influência marcante da cultura árabe na Península

Hispânica. Criaram uma literatura, uma filosofia e uma ciência bem próprias que

marcaram o pensamento humano em geral e o europeu em particular. O longo contato

entre muçulmanos e cristãos resultou na assimilação, por parte dos cristãos, de

vocabulários especializados de origem árabe.

A literatura lingüística que procura explicar a presença da língua árabe nas

línguas românicas e, particularmente, na língua portuguesa, reduz a interferência árabe, nos léxicos românicos, a campos léxicos pontuais, relativos ao:

Vocabulário de natureza político-social, como, alcaide, alferes, almoxarife,

alfândega etc.

Vocabulário comum, como, alcova, argola, alicate, alfaiate etc.

Vocabulário de agricultura, como, açafrão, alecrim, alfazema, algodão etc.

Vocabulário de frutos, como, laranja, lima, limão, tâmara etc.

Vocabulário de pesos e medidas, como, alqueire, arrátel, arroba, quintal etc.

Vocabulário de alimentos, como, açorda, açúcar, aletria, almôndega, arroz etc.

Vocabulário de toponímia, como, Alfama ( refúgio), Alcântara ( ponte), Almada ( mina) etc.

Vocabulário de ciências, como, algarismo, álgebra, nadir, cifra etc.

No entanto, dados lingüísticos, submetidos a uma análise mais acurada,

revelam que os fenômenos extrapolam a concepção corriqueira de que o árabe

emprestou palavras às línguas peninsulares e enriqueceu o léxico tão-somente. Esse

assunto será discutido a seguir.

2. OS FENÔMENOS LINGÜÍSTICOS: DOIS CASOS ILUSTRATIVOS

2.1. O AL-, PARTÍCULA E ARTIGO

Na condição de partícula inseparável, o al-, no árabe, tem dupla função. Ou

funciona como prefixo de um nome substantivo ou adjetivo e serve para todos os

gêneros, números e casos, ou funciona como um determinante que restringe um nome

apelativo. Por ser uma partícula inseparável, jamais aparece sozinha na oração. Esta

regra, porém, não foi rigorosamente seguida nas línguas românicas, e, no português, o

al- não aparece como partícula.

Com a função de artigo, o al- entra na língua portuguesa, já no contato árabe-ibérico, incorporado ao nome que antecede (al+catara = alcatra) e passa a “sinalizar”

que possivelmente tal palavra “do português” é de origem árabe.

Contrariamente à primeira regra, o al-, na função de artigo incorporado, perde

seu significado restritivo e atribui ao significado da palavra a que está ligado um valor genérico, de tal forma que, na língua de entrada, no caso, o português, a palavra iniciada por al- árabe admite o acréscimo de um artigo do português (a alcatra, o alecrim). O

fenômeno da incorporação não se dá igualmente em todas as línguas românicas, mas,

principalmente, no português e no espanhol (cf., por exemplo, zucchero, no italiano, sucre, no francês, azúcar, no espanhol, e açúcar, no português; assim como, zafferano,

no italiano, safran, no francês, mas azafrán, no espanhol, e açafrão, no português).

Na língua portuguesa, a incorporação do artigo al- aos substantivos ora se dá

de forma plena (al-), ora se dá de forma abreviada (a-), por meio da perda do elemento

fonético - l-. Ainda assim, a regra morfológica de derivação que prevalece é a de que, mesmo escrito a-, o item gramatical ali presente é al-. Serve de exemplo almanaque

[calendário ou folhinha], derivado do verbo maná [contar, numerar, calcular], que na sua forma nominal árabe é almaná. Outro exemplo é arroba, que significa a quarta parte e deriva-se do verbo rabaá; neste caso, a forma de origem deve ter sido * al- rabaá, em que o « l » se assimila à consoante seguinte, resultando daí a forma atual.

A alternância entre al-/ a- justifica-se porque o alfabeto árabe se divide em diferentes espécies de letras. Entre estas, há as letras Solares e as Lunares. As solares são aquelas que, no início de palavras com consoantes, provocam a mudança do « l » na letra idêntica: al-dail > addail > adail. As letras lunares não permitem a assimilação do

« l »; a palavra mantém sua integridade e pode ser usada com o artigo incorporado ou não, como, acelga/celga. Em grande parte das palavras árabes que se encontram no

português e no espanhol ocorreu a incorporação do al- pleno; o mesmo não se dá no italiano nem no francês. As palavras de origem árabe, da época tratada, são, em francês, empréstimos indiretos. Segundo Wartburg (1962:75-78), em geral essas palavras

entraram na língua francesa ou via italiano, quando não têm o “al” (cotone > coton;

zucchero > sucre), ou via Península Ibérica/latim medieval (alambique > alambic;

alcool).

2.2. O CASO DO TERMO ADUBO

Adubo aparece 29 vezes nas receitas do livro Um tratado da cozinha portuguesa do século XV, sendo 25 receitas de pratos salgados.

Eis um excerto:

e tomarão a perdiz e huua pouqª de cebola

picada/ e a cebola ha de Ser pmro

a fogada cõ azeite ou mamteygua

e deitareis tudo ẽ huua tigella de

foguo cõ seu adubo/. crauo/ pimẽeta/

e acafrão. i (1994: 7)

Grande parte da lexicografia portuguesa atribui a “adubo” dois significados

distintos: o primeiro relativo a excremento ou resíduo animal e vegetal ou produto

mineral ou químico que serve de fertilizante à terra; o segundo relativo a condimento, a tempero ou a iguaria que se mistura à comida para dar-lhe sabor especial.

A curiosidade de qualquer falante do português é saber se a palavra “adubo”,

com significados tão distintos, tem a mesma origem etimológica, isto é, se é proveniente do árabe que se difundiu na Península Ibérica.

Houaiss (2001) informa que adubo é forma regressiva de adubar e que este verbo, por sua vez, entrou no português pela via do antigo francês «adober», atualmente adouber. O Dictionnaire étymologique du français, de Picoche, registra que a forma italiana addobbare ( assaisonner) foi emprestada ao francês (> adouber) e ao espanhol (> adobar), assim como, addobbo ( assaisonnement), proveniente de * dobba, é uma forma hipotética de origem frâncica, língua dos francos, dialeto germânico ocidental.

Disso se conclui que, no português, adubo não é uma palavra de origem árabe, mas frâncica/germânica, embora, segundo a forma, tenha todas as condições de ser árabe.

A questão que se põe agora é a seguinte: então, o que parece ser herança da

língua árabe na língua portuguesa não o é?

Algumas evidências surgem da pena de Vieira (1862), em seu dicionário,

quando informa que adubo é palavra do árabe atobo.

De acordo com esse estudioso, encontramos em Sousa (1981) a seguinte

descrição:

adubo – attobo. Especiarias, como são pimenta, cravo canela etc. Deriva-se do verbo tába, ser suave, cheiroso, bom e grato.

Vieira (1862) e Sousa (1981) são duas referências que nos permitem reconstituir o

percurso de «adobo» na condição de palavra que possui letra solar:

al + tobo > attobo > addobo > adobo > adubo

Portanto:

1) Adubo, com o significado de temperar, derivado do francês adouber, é um falso cognato (não vem da mesma raiz) de adubo derivado do árabe atobo.

2) No italiano, no francês e no espanhol, as formas verbais addobare, adouber e adobar, respectivamente, possuem o significado guardado em * dubban, de família germânica.

3) Diversos dicionários de língua contemporânea cruzam e confundem adubo

derivado do árabe e adubo que entra no português pelo francês.

4) Adubo, equivalente a tempero, ainda é encontrado no português de Portugal, conforme atesta o Dicionário da língua portuguesa contemporânea da Academia

das Ciências de Lisboa (2001), e em falares regionais do interior do Brasil.

3. DESCRIÇÃO DOS TERMOS AZOGUE, AZOUGUE E AÇOUGUE, À LUZ DE

UMA ANÁLISE CONTRASTIVA

Nesta parte, contempla-se uma análise lingüística preliminar dos termos

mencionados, no espanhol e no português, derivados do árabe. Os termos selecionados

foram: (1) azogue, do espanhol; (2) azougue e açougue, do português. A relevância da investigação justifica-se pela importância dada ao vocabulário da língua árabe na

formação lexical das línguas supracitadas, durante o período em que os árabes

invadiram e ocuparam a Península Ibérica.

Do ponto de vista lingüístico, a presença do árabe no português e no espanhol é

um fenômeno complexo, como vimos anteriormente, que deve ser investigado, sob uma

perspectiva diacrônica e sincrônica. Para a descrição dos termos, desenvolveu-se a

pesquisa por meio da leitura de dicionários etimológicos, de dicionários comuns e

especializados. Para o progresso da discussão, adotou-se, na análise dos dados

selecionados, os princípios teóricos da semântica lexical funcionalista. Quanto à

metodologia de pesquisa, utilizaram-se os procedimentos da análise contrastiva.

Com base nos princípios teóricos da semântica lexical cognitiva, e sob uma

perspectiva funcionalista, busca-se fazer uma descrição dos fenômenos decorrentes da

mudança de significado dos termos, ao longo do tempo.ii Para tal, o presente estudo

integra diacronia e sincronia, visando à investigação do movimento histórico dos

significados, bem como seus usos correntes em determinados momentos.

3.1. ANÁLISE DIACRÔNICA DO ÁRABE AZ- ZĀUQ E AS- SŌQ iii

No árabe antigo, segundo as informações lexicográficas de Machado (1952:

62), existiam duas palavras que significavam, respectivamente, mercúrio e mercado

geral: az- zāuq e as- sōq.

Az- zāuq, denominação de um metal líquido – o mercúrio –, pertencia ao domínio da linguagem técnica da Alquimia, ciência da qual os árabes tinham grande

conhecimento, à época da invasão da Península Ibérica.

Por sua vez, as- sōq designava mercado geral, lugar onde todos os bens físicos eram colocados à venda.iv Essa palavra, bem como az- zāuq, foi emprestada do árabe ao romance.v

3.1. 1. AZ- ZĀUQ: DO PERIODO IBERICO ARCAICO (PIA) A FORMAÇÃO DO

PORTUGUES E DO ESPANHOLvi

Tanto o português – azougue –, quanto o espanhol – azogue –, provenientes de az- zāuq, no período ibérico arcaico (PIA), têm duas acepções em comum: (a) o significado de prata viva ou mercúrio ; (b) o significado de pessoa viva e inquieta. Estas duas acepções podem ser examinadas nos seguintes verbetes:

azougue, s. Do ár., az-zāuq, «mercúrio». Cf.: Steiger, Contribución, pp. 145, 214, 362.

Séc. XV (1498). «azougue vall. a farazala. dez cruzados», Diário da Viagem de Vasco da Gama, p. 81, ed. de 1945. (MACHADO, 1952: 62)

azougue sm. ‘designação vulgar do mecúrio’, XIV, fig. ‘Pessoa muito viva e esperta’

1813, do ár. az-zâ’up. // azougado do XVI. (CUNHA, 1982: 89)

AZOGUE, ‘mercurio’, del hispanoár. zá̯ uq (ár. zâ'uq) íd. 1.ª doc.: 1295-1317, doc. en Memorias de Fernando IV.

Dozy, Gloss., 228; Eguílaz, 324. Tenía z sonora en castellano antíguo (Nebr.; G. de Segovia, p. 86) y hoy en judeoespañol (BRAE XIII, 232). Comp. ÁZOE.

DERIV. Azogar ‘cubrir con azogue los cristales’, ‘contraer una enfermedad que produce un temblor contino, causada por los vapores de mercurio’, ‘agitarse mucho’; cal

azogada [Aut.] ‘la que ha recibido una porción de agua y está disuelta, pero no del todo muerta’; llámase asíi porque corre fácilmente, como si fuese azogue¹. Azoguería.

Azoguero.

¹ Esta buena etimología de Aut. no ha encontrado favor en las ediciones recientes de la Acad., donde se indica como étimo el ár. Súqā (R. Martí), nombre de acción del verbo sáqà ’regar’. No son muchas las palabras romances derivadas de nombres de acción

árabes, y sobre todo sería extraño que se hubiera perdido sin dejar memoria el

sustantivo *azoga, del cual, siendo así tendría que derivar cal azogada.

Azogue, ’plaza’, V. zoco. Azoico, V. ázoe. Azolar, V. azuela. (COROMINAS, 1961) As informações lexicográficas, constantes dos verbetes, permitem supor que a

extensão metafórica de prata viva para pessoa viva deu-se antes de o espanhol e de o

português tornarem-se línguas independentes, durante o PIA, e, ainda, que houve uma

convergência de uso, de tal maneira que, nas duas línguas, usava-se a forma

azogue/ azougue para denominar pessoa viva. Isso reforça a hipótese de que o uso metafórico dessas duas formas surgiu no PIA. Na seção seguinte, serão apresentadas

duas hipóteses de como essas formas passaram a indicar pessoa viva.

Hipótese 1: Prata viva - o processo de extensão semântica no PIA

Argumenta Silva (1999:40) que os fenômenos cognitivos que estão na base do

processo de extensão semântica das unidades lexicais são a metáfora e a metonímia. A

metáfora funciona como um mapa que leva um domínio da experiência a outro domínio.

Nesse caso, é um mecanismo cognitivo que permite mapear esquemas desde

experiências corporais a domínios altamente abstratos.

O desenvolvimento semântico de prata viva pode ser explicado da seguinte

forma:

i) Mercúrio possui a mesma predicação para prata e pessoa « ser viva », isto é, algo que se move, que parece que é vivo.

ii) Azogue significa, conforme o seguinte contexto, contrair uma enfermidade, caracterizada por tremores contínuos e agitação. Esses sintomas são causados

pelos vapores do mercúrio, que parece/que é vivo. Corominas (1961) assim

descreve:

contraer una enfermedad que produce un temblor continuo, causada por los vapores de

mercurio’, ‘agitarse mucho’; cal azogada [ Aut. ] ‘la que ha recibido una porción de agua y está disuelta, pero no del todo muerta’; llámase así porque corre facilmente, como si fuese azogue¹. Azoguería. Azoguero.

As informações de i) e ii) remetem ao processo cognitivo de extensão

metáforica, no caso do item terminológico mercúrio que desenvolveu outro significado terminológico. Nesse contexto, prata viva e pessoa viva mantêm uma relação de similaridade semântica, motivada, em parte, por uma característica comum, a saber, o

conceito atribuído a uma substância é equivalente ao comportamento de uma pessoa,

manifestado pela agitação que o contato com a própria substância causa.

Para Dirven ( apud SILVA, 1999 :46), no processo semântico metafórico, um

domínio-origem é mantido e projeta-se em um domínio-alvo, no caso, azogue/azougue é

mercúrio e pessoa esperta é azogue/azougue, que é mercúrio. Veja a representação:

projeção: B →A

A

domínio-origem

“mercúrio”

B

domínio-alvo

“pessoa esperta”

Nessa perspectiva, Lakoff e Johnson ( apud SILVA, 1999:47) argumentam que

grande parte da nossa experiência cotidiana é configurada por meio de processos

cognitivos metáforicos.

Portanto, a hipótese aqui assumida é a de que a concepção abstrata atribuída

à “pessoa viva”, desenvolvida pelo processo cognitivo metáforico, fundamenta-se em

duas propriedades do mercúrio: (1) substância que se agita, que se move; (2) substância que causa agitação na pessoa que tem contato direto com ela.

Hipótese 2 : A forma azougue/azogue do PIA na terminologia da língua portuguesa e da língua espanhola

É possível dizer, por meio do contraste de etimologias, que tanto o português

quanto o espanhol mantiveram o significado da forma árabe az- zāuq, do PIA , na formação lexical das unidades azougue e azogue. Ambas significam mercúrio, termo técnico da área da química, e pessoa esperta e inquieta, expressão usada no léxico comum. (cf. verbetes apresentados)

3.1. 2. AS-SŌQ: PERMANENCIA DO SIGNIFICADO DE MERCADO GERAL

DO PIA

A hipótese para a perenidade do significado de as- sōq, da antigüidade ibérica até hoje, é a de que o mesmo significado de mercado geral ficou preservado desde o árabe antigo.

3.1.2.1. A FORMA AÇOUGUE EM PORTUGUES

No período ibérico arcaico, o significado de as- sōq estava incluso numa categoria superordenada; as- sōq era qualquer tipo de venda ou de troca feita em mercado. Na formação lexical do português, o superordenado passa a ser designado por

um item lexical mais específico, no caso, por açougue. Essa mudança se explica pelo processo de especialização de significados, em que estes se alteram ao serem

empregados no âmbito de uma profissão ou no repertório lexical de um determinado

grupo de falantes. Assim, as- sōq, através do tempo, passou de genérico a específico e, em conseqüência, como termo, passou a designar estabelecimento comercial onde se

vendem carnes de animais.

3.1.2.2. A FORMA A ZOGUE EM ESPANHOL

Em

espanhol,

azogue segue dois percursos – um semântico e um fonológico –,

fatos que não sucederam em português. Portanto, no espanhol atual, encontram-se dois

significados com a mesma forma azogue. No DRAE (1970), esses significados

aparecem sob a forma de entradas distintas com acepções diversas. Azogue¹ tem três acepções, porém só a primeira é marcada com a área de especialidade ( Quím. ):

mercúrio; tipo de nave; pessoa inquieta. Azog ue² tem apenas uma acepção: mercado, como nos verbetes a seguir:

azogue¹. (Del ár. az-za’ûq, el mercurio.) m. Quím. mercurio, metal. ║ 2. Cada una de las naves destinadas antes para conducir azogue de España a América. ║ ser uno un

azogue. fr. fig. y fam. Ser muy inquieto. (DRAE, 1970)

azogue². (Del ár. as-sūq, el mercado.) m. Plaza de algún pueblo, donde se tiene el trato y comercio público. (DRAE, 1970)

Por meio da análise dos verbetes do espanhol, é possível verificar que, do

ponto de vista diacrônico, mantiveram-se os dois itens lexicais originais do árabe az-

zaûq (mercúrio) e as- sūq (mercado) ainda distintos no PIA, que deixam no espanhol itens lexicais com diferentes etimologias. Esses dois itens, já na língua espanhola,

passaram por modificações fonológicas com o desaparecimento da oposição entre

consoantes fricativas sonoras e surdas, tornando-se palavras homônimas e

proporcionando ao termo azogue dois significados.

Na perspectiva diacrônica, o fenômeno da homonímia, que se discute aqui,

pode envolver significados não-relacionados, por isso, pode-se interpretar que houve

uma fusão de duas formas diferentes, com significados distintos, que resultou no item

lexical azogue.

Do ponto de vista sincrônico, pode-se inferir que os falantes de espanhol usam

o item lexical azogue para denominar entidades não-relacionadas semanticamente.

Assim, é possível afirmar que significados etimologicamente não-relacionados

na diacronia podem produzir termos homônimos na sincronia.

3.1.2.3. A SISTEMATIZAÇÃO DE AZOGUE EM NÚCLEOS SEMÂNTICOS

Além do processo semântico da homonímia, pode-se, ainda, por meio das

informações lexicográficas, organizar as acepções do termo azogue em dois núcleos semânticos:

1) AZOGUE → Núcleo I: Acepção 1 mercúrio; acepção 2 pessoa viva.

2) AZOGUE → Núcleo II: Acepção 1 mercado geral.

Enquanto não se observa nenhuma mudança relevante no núcleo II, assim

como na acepção 2 do núcleo I, verifica-se que, na acepção 1 do núcleo I, houve uma

mudança semântica significativa. Essa evolução semântica pode ser depreendida

mediante o contexto lexicográfico do verbete:

2. Cada una de las naves destinadas antes para conducir azogue de España a América.

(DRAE, 1970)

Nesse caso, houve uma extensão metonímica. A metonímia é entendida, na

lingüística cognitiva, como uma estratégia de conceptualização, baseada em uma

relação de contigüidade entre duas entidades de um mesmo domínio conceptual. O

reflexo dessa estratégia é visível na expressão lingüística de uma entidade por meio da designação de outra. Assim, a extensão categorial de mercúrio se dá por meio do produto transportado – o conteúdo mercúrio –, que passa a designar o meio de

transporte que o leva, o continente nave. Portanto, no espanhol, a palavra azogue passa a designar, além das acepções mencionadas, um tipo de transporte marítimo.

3.2. ANÁLISE DE AÇOUGUE E DE AZOUGUE EM PORTUGUÊS

Em português, o desenvolvimento semântico de açougue e de azougue se fez independentemente do espanhol.

Machado (1952: 62) atesta que, no século XIII, a forma açougue, do árabe as-

sōq, possuía o significado original de mercado, conforme as descrições seguintes.

• Verbete 1:

Açougue, s. Do ar. as-sōq, «mercado, feira». Séc. XIII (1254).- «… et mando quod quicumque uoluerit uendere et comparare in uestris azougues uendat et comparet ibi Et quicumque uolerit uendere et comparare in méis azougues uendat…», em Arquivo

Histórico de Portugal, I: 31; em texto de 1269: «… louamos e outorgamos que toda

carne e todo pescado se uenda nos aaçougues del Rey…», na Chancelaria de D. Afonso

III, I, fl. 96 vs. De açougue deriva açougagem. Cf. Revista de Portugal, vol. XVII: 12.

No entanto, comprova-se o uso de azougue, com o significado também de

mercado, no contexto apresentado por Machado (1952: 62), no mesmo verbete 1:

et mando quod quicumque uoluerit uendere et comparare in uestris azougues uendat et comparet ibi Et quicumque uolerit uendere et comparare in méis azougues uendat, em Arquivo Histórico de Portugal, I: 31.

Nesse contexto, azougue ocorre duas vezes no plural. Outra observação que

deve ser mencionada é que azougue está sendo empregado com sentido genérico no

texto.

Ainda no mesmo verbete, Machado (1952: 62) atesta, em um contexto datado

de 1269, que já existia a forma aaçougue s:

louamos e outorgamos que toda carne e todo pescado se uenda nos aaçougues del Rey, na Chancelaria de D. Afonso III, I, fl. 96 vs.

Percebe-se que, já nessa data, houve especialização do significado de açougue.

Essa especialização decorreu do uso de açougue com um significado mais específico:

“que toda carne e todo pescado se uenda nos aaçougues” (MACHADO, 1952: 62).

No português atual, encontram-se azougue, com acepções derivadas de az-

wq (mercúrio), e açougu e, proveniente de as- sūq (mercado, feira), do século XIII.

• Verbete 2:

azougue s.m. (1344 cf. IVPM) 1 m.q. MERCÚRIO (QUÍM) 2 pessoa de muita vivacidade e inquietude 3 B infrm aguardente de cana; cachaça 4 ANGIOS m.q. MERCURIAL

(‘designação comum’) ETIM ar. az-zā’wq ‘mercúrio’ SIN/VAR ver sinonímia de cachaça e antonímia de tolo ANT ver sinonímia de tolo HOM azougue (fl. azougar) (HOUAISS, 2001: 68).

• Verbete 3:

açougue s.m. (1269 cf. IVPM supl.) 1 estabelecimento onde se vendem carnes, esp.

frescas; carniçaria, corte, talho 2 obsl. local onde se abatem animais para consumo; matadouro 3 p.ext. p.us. matança, carnificina, massacre 4 B infrm.pej. m.q. PROSTÍBULO

5 fig. B local em que há açougada, algazarra ETIM ar. as-sūq ‘mercado, feira’; f. hist.

1269 açougue, 1269 aaçougue, 1294, açougue SIN/VAR ver sinonímia de prostíbulo.

(HOUAISS, 2001: 67).

Ao cotejar as informações lexicográficas dos verbetes 2 e 3, extraídos do

Houaiss (2001), pode-se distribuir os dados lingüísticos em dois núcleos semânticos:

1) Núcleo I: A entrada azougue designa: (1) um termo técnico da área de química, o mercúrio; (2) um atributo a uma pessoa; (3) um pro

2) duto líquido com álcool; (4) uma espécie de planta.

2) Núcleo II: A categoria açougue designa: (1) estabelecimento comercial onde se vendem carnes; (2) matadouro; (3) matança; (4) prostíbulo; (5) local em que há

algazarra.

Como se pode observar, com base na leitura do núcleo I e do núcleo II, os itens

lexicais passaram por expansões semânticas de diversas naturezas. Cabe destacar ainda

que, durante o estudo, verificou-se, por meio de entrevistas informais, que azougue, para alguns falantes do português do Brasil, designa ímã, o óxido de ferro que atrai o

ferro e outros metais. O uso de azougue com significado de ímã não está dicionarizado nas obras lexicográficas pesquisadas.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Da análise das unidades lexicais azogue, azougue e açougue, obtiveram-se os seguintes resultados:

1) O português e o espanhol mantiveram as formas derivadas do árabe az- zāuq na formação lexical das línguas supracitadas, passando a ser azogue e azougue. Estas designam o termo técnico mercúrio da área da química e denominam pessoa esperta e inquieta, na língua comum.

2) Os itens lexicais formados do árabe az- zaûq e as- sūq (DRAE, 1970), na língua espanhola, passaram por modificações fonológicas, tornando-se palavras homônimas e

assumindo a forma azogue para denominar mercúrio, pessoa viva e inquieta e um tipo de transporte marítimo.

3) A forma as- sōq, em português, passou por um processo semântico de especialização, que pode ser explicado da seguinte maneira: a palavra árabe as- sōq, no PIA, funcionava como uma categoria semântica superordenada, e incluía qualquer tipo de venda ou de

troca feita no mercado. No português, perde a categoria de superordenado e passa a ter

um significado específico, de termo que designa um tipo de estabelecimento comercial -

açougue.

NOTAS :

1. Extraído de “tigellada de perdiz”.

2. Cabe ressaltar que, para este artigo, uma discussão teórica mais aprofundada sobre semântica lexical cognitiva extrapola os objetivos propostos para o estudo que aqui se faz, por isso, na discussão, tratar-se-á somente dos conceitos necessários.

3. Para o espanhol, conforme o Diccionario de la Real Academia Española (1970), doravante DRAE, as formas atestadas são: az-zaûq e as-sūq. Como se pode observar, as formas apresentadas para o português e para o espanhol são quase idênticas. No entanto, a fim de otimizar as principais formas árabes distribuídas nas seções deste artigo, optou-se pela seguinte sistematização: 1 (diacronia: período ibérico arcaico (PIA)) português espanhol, az-zāuq e as-sōq (Machado, 1952); 2 espanhol, az-zaûq e as-sūq (DRAE, 1970); 3

português do Brasil, az-wq e as-sūq (HOUAISS, 2001).

4. Nesse caso, açougue, no início, não era apenas local de venda de carne, mas um lugar onde se efetuavam vendas e trocas de todos os tipos de produtos.

5. Para este trabalho, não foi possível consultar documentos da fase arcaica das línguas ibéricas, na qual se deram os empréstimos dessas palavras. Portanto, neste artigo será descrita apenas a evolução desses empréstimos para o português e para o espanhol, a partir das formas e dos usos documentados em obras lexicográficas.

6. Considera-se o período denominado de ibérico arcaico (PIA) a época em que o português e o espanhol, como romances, ainda não eram línguas distintas e, como falares locais, coexistiam com o árabe na Península Ibérica.

ABSTRACT:

THIS ARTICLE TRIES TO REVIVE THE PRESENCE OF THE ARABIC LANGUAGE IN THE

PORTUGUESE LANGUAGE BY THE STUDY OF TERMINOLOGIES, WHICH SHOW THE LONGEVITY

OF FORM AND MEANING THROUGHOUT THE CENTURIES. THE PRESENCE OF ARABIC IN

PORTUGUESE AND SPANISH IS A COMPLEX LINGUISTIC PHENOMENON, WHICH SHOULD BE

INVESTIGATED BY FOLLOWING A SYNCHRONIC AND DIACHRONIC PERSPECTIVE. IN ORDER TO

BETTER ORGANIZE THE IDEAS, THIS ARTICLE IS DIVIDED IN THREE PARTS: I) THE LINGUISTIC

EFFERVESCENCE OF THE IBERIAN PENINSULA AT THE ARRIVAL OF THE ARABS; II) “AL”

ENTRANCE IN PORTUGUESE; III) THE PATH TAKEN BY TERMINOLOGICAL UNITS LIKE AZOGUE,

AZOUGUE AND AÇOUGUE IN SPANISH AND PORTUGUESE; THEIR MOVEMENT ALONG THE

HISTORY OF MEANINGS HELPS TO UNDERSTAND THE CURRENT USAGES IN PARTICULAR

MOMENTS OF BOTH LANGUAGES.

KEY WORDS:

ARCHAIC TERMINOLOGY; TERMINOLOGICAL UNITS: ADUBO (MANURE), AZOGUE,

AZOUGUE AND AÇOUGUE (BUTCHER’S SHOP) IN SPANISH AND PORTUGUESE; HISTORY

OF LANGUAGES IN IBERIA

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Enilde Faulstich é professora de Lingüística – Lexicologia, Lexicografia e

Terminologia -, de História da Língua Portuguesa e de Política do Idioma no

Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula (LIV), do Instituto de

Letras (IL), da Universidade de Brasília (UnB). Criou em 1988 o Centro de Estudos

Lexicais e Terminológicos – Centro Lexterm (http://www.lexterm.unb.br) e coordena as

atividades de ensino, de pesquisa e de extensão do Centro Lexterm. É pós-doutora pela

Université Laval de Québec.

Criou o Curso de Licenciatura em Português do Brasil como segunda Língua,

com a colaboração e o apoio do Colegiado do LIV, do IL, das instâncias administrativas

superiores da UnB e com a autorização do Conselho Universitário da UnB. É

professora de graduação e de pós-graduação; orienta teses, dissertações e pesquisas, em nível de Pós-doutorado, de Doutorado, de Mestrado e de Iniciação Científica. Ministra

cursos no Brasil e no Exterior; apresenta conferências no Brasil e no exterior. Tem

livros e artigos publicados no Brasil e no exterior. É membro de Associações Nacionais

e Internacionais. É membro do Conselho Universitário da UnB.

Elzamária Araújo Carvalho é mestre em Lingüística, com dissertação

defendida e aprovada no LIV, sob o título Colocações conceituais e lexicais em

linguagens de especialidade.