Astral Série - 0101 - Qual o seu medo? por Marcelo Prizmic - Versão HTML

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Qual o seu medo?

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Itápolis – CEP 14900-000

Telefone: (016) 3262-2313

São Paulo – Brasil

editora_sensitiva@terra.com.br

Índices para catálogo sistemático:

Literatura brasileira: Romance: Sobrenatural

Sensitiva Editora, 2012. Itápolis. São Paulo.

Prizmic, Marcelo

ISBN 978-85-66073-00-3

CDD 869.935

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Na saga Astral o

extra-físico é revelado:

O lado Negro e Divino mostram

suas verdadeiras fac .

es

Viagem Astral, Psicometria,

Incorporação, Vidência, Mediunidade,

Audiênci ,

a Vampiros Astrais, Larvas,

Anjos e Demônios, Céu, Inferno,

Umbral, são apenas alguns dos temas

abordados nesta trama.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Qualquer um pode fazer a

Viagem Astral?

“Sair do corpo” é normal?

O que me espera do outro

lado?

Resposta para essas e tantas outras

perguntas, você as terá respondidas

acompanhando a história de uma menina

moça, viciada em drogas, que o destino a

leva a ser internada em uma clínica de recuperaçã .

o

Neste Livro 1, uma antiga paciente

produz o fenômeno da Viagem Astral de

forma natura . l Ela equivoca-se na ajuda

prestada as demais pacientes, levand -

o as a

loucura ou não raro a morte.

Sabrina interfer ,

e transformando a

clínica em uma verdadeira arena de batalha.

VALE A PENA CONFERIR!!!

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Considerações Iniciais

Apesar do conhecimento público e

indiscutível da existência dos fenômenos tratados

nesta obra, hoje estudados amplamente pela

ciência moderna e por diversos segmentos

religiosos e, além de fazer várias menções

médicas referente a quadros clínicos mentais,

deixo claro que não tive em nenhum momento a

intenção de transmitir ao leitor ensinamentos

científicos ou religiosos. O livro apresentado não

é nenhum “guia fenomênico”. Utilizo a essência e

tomo a liberdade de modificá-la ao meu bel-

prazer atendendo aos interesses da narrativa.

Em “Qual o seu medo?”, a fantasia e a

realidade se misturam, fatos verídicos e delírios

pessoais compõem o quadro criado no intuito

único de entreter.

Deixo ao leitor a tarefa de separá-los.

O autor

Itápolis, 06 de julho de 2009

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Dedicatória

A todos meus amigos e familiares que, vencidos pela

minha insistência, foram obrigados a ajudar e me aturar

durante o processo de amadurecimento desta obra, meus

sinceros agradecimentos.

Faço questão de criar esta dedicatória especial, pois

tenho consciência do quanto difícil me torno quando escrevo,

perturbando a todos que me cercam com perguntas loucas,

exigindo opiniões precisas, de algo que só eu consigo

imaginar e, claro, ocasionando desentendimentos. E o pior:

só aceitando críticas que me interessam.

Por ser grande a lista, friso apenas o nome de uma

pessoa que sem dúvida foi a que mais sofreu: minha esposa,

Denise Regina Brugnolle.

Explicações necessárias

O presente romance não contém um narrador

propriamente dito. O desenrolar dos fatos são contados

pelos próprios personagens. Portanto, com exceção de

Thomas, todo o restante da obra foi redigido na primeira

pessoa.

Esta técnica tem por finalidade intensificar a

experiência emocional do leitor, ou seja, permite transmitir na

plenitude as emoções vivenciadas por cada personagem e,

obviamente, o leitor recebe e sente com a mesma

intensidade o que se passa, além de uma fácil visualização

do perfil psicológico de cada integrante.

Cabe ao leitor ao iniciar a leitura de um novo bloco de

texto, observar o nome existente no canto superior

esquerdo, pois este será o narrador do momento.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Índice

Família..............................................................................................8

Clínica de Recuperação Santa Dymphna.......................................20

Visões.............................................................................................33

Ilusão Mortal..................................................................................44

Medos Máximos.............................................................................55

Psiquiatria.......................................................................................67

Samira.............................................................................................72

Fora do corpo.................................................................................79

Vingança.........................................................................................87

Pesadelo x Pesadelo........................................................................95

Santa Dymphna............................................................................104

Recomeço.....................................................................................105

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Família

Adrian

Estava no trabalho, sentado atrás de minha mesa

quando o telefone tocou.

– Alô? – atendi mecanicamente apoiando-o no ombro.

– Sr. Adrian? – perguntou uma voz feminina.

– Sim. Sou eu... Em que posso ajudar? – respondi

ainda concentrado na análise de um novo processo de

separação.

– Sou do hospital Maria Teresa. Pediram para entrar

em contato com o senhor para falar sobre sua filha Sabrina.

Encontra-se internada neste instante devido a um acidente

automobilístico. Mas tranquilize-se, ela passa bem. – falou a

mulher sem tomar fôlego, não dando margem a crises

emocionais.

Larguei tanto a caneta quanto alguns papéis, passando

a segurar o telefone com as duas mãos.

−Sabrina? Então... Ela está bem? – perguntei sem

pensar.

Levantei-me nervoso da cadeira.

– Sim. Precisamos apenas do comparecimento do

senhor ao hospital para resolver questões administrativas.

Após breve conversa finalizei:

– Estou a caminho. Sei o endereço do hospital.

Obrigado!

Desliguei o telefone descansando-o sobre sua base e

saí em direção à sala da diretoria.

Informei um dos meus superiores sobre o ocorrido.

Autorizado, segui rumo à minha casa praticamente no

caminho do hospital, no intuito de pegar minha esposa que,

por estar de licença médica, encontrava-se lá.

Chegando ao destino, parei nervosamente o carro na

entrada da garagem, e Steffani, vendo-me parar fora do

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

lugar costumeiro assim como muito antes do horário,

estranhou. Fechou a janela da sala e veio ao meu encontro.

Antes mesmo que eu me aproximasse da porta

principal, esta se abriu.

Uma vez inquirido sobre o meu retorno prematuro,

deixei-a a par do acidente, praticamente da mesma forma

que eu recebi a informação.

Steffani empalideceu, balbuciou algumas palavras na

tentativa de diálogo sem sucesso. Somente aos poucos,

através de palavras calma e otimista, tendo consciência que

Sabrina estava a salvo e passando bem, acabou por

tranquilizar-se.

Após nossa conversa inicial, aguardei-a na soleira da

porta enquanto ela pegava um agasalho.

Seguimos ao Hospital.

Conversamos durante o trajeto sobre o quê poderia ter

acontecido. Tentávamos adivinhar de alguma forma o motivo

do acidente.

Como já era de se esperar, mediante ideias que se

estenderam além do acidente propriamente dito, nossos

ânimos inflaram-se. Se já não estivéssemos à porta do

hospital, com certeza teríamos mais uma de nossas brigas.

Nosso casamento teve um ótimo período, mas após

dezoito anos juntos, nossos entendimentos andavam aos

tropeços. Não raro, com nervos alterados, colocávamos a

culpa um no outro sobre uma possível falha na educação de

nossa filha e, consequentemente, a culpa sobre o acidente

ocorrido.

Sabrina passava por uma época conturbada.

Ambos ocupados com nossos trabalhos, tínhamos

pouco tempo para acompanhá-la no dia a dia. Sabíamos e

assumíamos nossas deficiências, mas obviamente não era

culpa de apenas um. Se é que havia algum culpado. Se é

que podíamos realmente chamar isto de culpa.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Nossa filha teve uma infância difícil: O pai biológico

bebia e diariamente voltava alterado para casa. Ela

presenciou diversas brigas entre o antigo casal, cenas de

violência criadas pelo pai que espancava a mãe.

Exatamente nessa época, fui contratado por Steffani

para cuidar das questões de sua separação.

Com o tempo, em consequência da proximidade

necessária gerada por seu problema familiar, apaixonei-me

casando depois de um certo tempo.

O antigo marido deu trabalho no começo do processo,

mas ameaçado de várias formas, finalmente afastou-se.

Nunca mais foi visto por nenhum de nós. Ouvimos apenas

boatos que retratavam situações sem confirmação: Ouvimos

que após certo tempo e distante, morreu a facadas em um

bar, em uma briga na qual se envolveu.

No que diz respeito à nova família constituída, não

tivemos filhos. Steffani tornou-se estéril prematuramente.

Teve um problema com as trompas impossibilitando

definitivamente uma nova gravidez.

A ideia de sermos um casal sem filhos próprios nunca

me abalou. Aprendi a amar Sabrina como se fosse minha de

forma incondicional.

Apesar de ter dezenove anos, Sabrina nunca namorou.

Seu círculo de amigos sempre se limitou a pessoas do

mesmo sexo. Acreditávamos que o passado familiar, tendo

em mente a imagem do pai como agressor, afetou de

alguma forma seu relacionamento com os homens.

Preocupados com esta possibilidade e suas consequências,

fazíamos com que visitasse periodicamente um terapeuta.

Logo na entrada do hospital nos separamos.

Contrafeito, perguntei:

– Aonde você vai?

– Vou procurar um médico. Quero ver quem é que está

cuidando de nossa filha – falou ríspida saindo sem rumo.

Achei sua atitude inútil. Mas como ela estava com os

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

nervos à flor da pele devido nossos desentendimentos,

agravados com a situação que vivíamos por causa de

Sabrina, achei melhor não dizer nada.

– Que vá! Pelo menos estando longe não perturba. –

pensei maldoso, também alterado.

Entre estes pensamentos, dirigi-me ao balcão

conforme fui solicitado por telefone para resolver as

questões referentes à internação de nossa filha. Fiquei

preso vários minutos nesta condição.

O hospital era grande e, obviamente, por não ter

encontrado o que procurava, Steffani acabou voltando mais

nervosa do que antes à recepção.

Pelo menos desta vez ficou calada ao meu lado.

Concluído todos os trâmites necessários, fomos

informados sobre o quarto em que nossa filha se

encontrava. Obtivemos facilmente a autorização para vê-la

e, por estarmos dentro do horário de visitas, caminhamos

até ele sem trocarmos nenhuma palavra.

Rapidamente chegamos ao local.

O hospital era público, e a cena de um quarto

hospitalar é e sempre será deprimente: janelas nuas, móveis

frios, centenas de tons de branco, sons de aparelhos ligados

e o cheiro inconfundível de produtos de limpeza.

Verificamos que Sabrina dividia o quarto com mais dois

pacientes. Estava deitada e dormia profundamente.

Ao menos naquele momento, o ambiente em que

estávamos era calmo, ao contrário dos outros quartos por

qual passamos, havia vários pacientes falando alto ou

gritando suas dores.

Steffani acomodou-se do jeito que pôde na cabeceira

da cama e, com seus dedos carinhosos, procurou alinhar os

cabelos de Sabrina, acariciando-os.

Um médico adentrou ao quarto.

Após as devidas apresentações, recebemos um

convite para acompanhá-lo. Seguimos até uma pequena

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

sala.

Sentados à frente de uma mesa bagunçada que

naquele momento servia de consultório, foi-nos informado o

quadro atual de Sabrina:

– A princípio eu gostaria de dizer que a filha de vocês

passa bem. Encontra-se dormindo sob o efeito de sedativos.

Em breve acordará, mas devido às regras do hospital, só

poderão falar com ela amanhã no horário de visitas. Quanto

ao acidente, fui informado por paramédicos que a paciente

comportava-se estranhamente. Segundo testemunhas,

avançou sinal vermelho e andou um trecho de pista na

contramão, colidindo violentamente com outro veículo – deu

uma pausa escolhendo palavras. – Devido às circunstâncias

que mencionei o acidente e, vocês sabem, é lei, foi

executado por nós um exame para apurar possíveis toxinas

em seu organismo...

Steffani, tentando adivinhar o que poderia vir à frente, o

interrompeu:

– Nossa filha estava bêbada? – falou alterada.

O médico deu um suspiro.

−Não... – executando uma nova pausa – na realidade

foram detectados em seu sangue vestígios de cocaína. A

cocaína, é um dos principais componentes do crack*. Sua

filha estava sob seu efeito. Para agravar ainda mais a

situação, tirando qualquer possível dúvida quanto ao seu

uso pela paciente, foram encontradas várias “pedras” dentro

do carro.

Senti neste momento o sangue esvair-se de meu rosto

com a notícia. A última coisa que eu acreditava que pudesse

acontecer com nossa filha, era o fato de se tornar uma

viciada.

*Crack – Derivado da cocaína comercializado na forma de pedra. De baixo custo e efeitos

intensos, popularizou-se entre os jovens. Inalado, seus efeitos são imediatos.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

A droga mencionada é potente, cria dependência com

pouquíssimo consumo, além da expectativa de vida de seus

usuários ficar entre três e cinco anos. Verbalizando o que se

passava em minha mente, o médico concordou com meus

receios. Sabendo dos efeitos e grau de dependência que a

droga escolhida criava, aconselhou tratamento médico

imediato.

Steffani não pronunciou mais nenhuma palavra, mas

seus olhos “fora das órbitas” eram facilmente notados.

Levantamos de nossas cadeiras ainda abalados e sem

rumo. Após alguns minutos, acompanhados pelos

comentários e aconselhamentos do médico, recuperamos

lentamente nosso autocontrole. Por fim, nos despedimos

polidamente agradecendo sua ajuda.

Caminhamos novamente até o quarto de Sabrina

voltando a vê-la. Steffani, agora sabendo o real motivo do

acidente, observando a filha em seu leito, pôs-se a chorar.

Após alguns segundos despediu-se por um gesto, enviando

um longo beijo com a ponta de seus dedos.

Despedi-me de Sabrina mentalmente com o olhar fixo

em seu rosto adormecido.

Já próximo à saída principal do hospital, ouvi me

chamarem pelo nome. Olhando para trás, notei que a

recepcionista que anteriormente me atendera acenava.

Aproximei-me. Acompanhado por um largo sorriso, recebi de

sua mão um dos meus documentos que havia esquecido no

balcão. Agradeci saindo em seguida.

Retornando ao carro, imaginei que a “sessão de quem

é a culpa” voltaria a ser discutida a plena força, mas isto não

aconteceu. Ao contrário, apenas um silêncio incômodo nos

envolveu naquele instante.

Chegamos em casa rapidamente.

Após ocupar todo o fim da tarde que restou e boa parte

da noite atrás de informações sobre drogas e suas

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

implicações, cansados, resolvemos dormir.

Trocamos poucas palavras durante este último tempo

gasto em pesquisas, mas já na cama, como há muito não

fazia, Steffani virou-se me abraçando.

Eu a sentia extremamente fragilizada.

As próximas semanas, sem dúvida, seriam difíceis. –

pensei.

***

Alguns dias se passaram sem novidades.

Visitávamos diariamente nossa filha e seu quadro

clínico aos poucos se estabilizou. Ela apenas mantinha-se

praticamente muda. Não respondia às questões que

levantávamos sobre o motivo ou motivos que a levaram a se

drogar.

Uma enfermeira que ouviu parte de nossas conversas

aguardou pacientemente nossa saída. No momento que

julgou propício cercou-nos no corredor:

Desculpou-se inicialmente pela intromissão e, antes

mesmo que pudéssemos falar algo, aconselhou-nos a não

pressionar Sabrina da forma que fazíamos.

Frisou que os porquês não importavam mais e sim, os

meios possíveis de nos livrarmos do problema.

Disse que nossa filha naquele momento, precisava

somente do nosso carinho e de nossa compreensão,

arrematando que se houvesse uma razão específica, oculta,

esta seria melhor discutida por um profissional da área.

Após alguns momentos de conversa e reflexões,

concordamos. Agradecemos sua preocupação.

***

A dependência à droga atormentava Sabrina

No próprio hospital administraram-lhe medicamentos

14

Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

que abrandavam sua crise de abstinência e eu, como

advogado, resolvia como podia as questões criminais

referentes ao acidente e ao uso de drogas.

Fora isto, passamos por diversos profissionais de

aconselhamento e, através de um deles, nos foi indicada

uma clínica de recuperação.

Marcamos um horário.

Na hora programada pela instituição, conversamos

com uma das assistentes de nome Mara. Esta tagarelava

como se fosse uma vendedora qualquer que acreditava

estar na posse de algum produto revolucionário,

insubstituível:

– Nosso tratamento é desenvolvido a partir da

individualidade do paciente. Desta forma criamos um

programa de desintoxicação utilizando produtos fitoterápicos

específicos para cada interno. […] Contamos com uma

excelente equipe de psicólogos que acompanharão o caso e

buscarão a causa deste desvio de comportamento, no intuito

de erradicá-lo. […] Assim como nutricionistas que preparam

os cardápios diários – falou em uma única reta sem tomar

fôlego.

A clínica, mesmo sendo a mais próxima, ainda era

afastada da cidade.

Sua construção era rude.

Algo me dizia que o lugar não era o ideal.

Devido a várias questões envolvidas, inclusive o mau

pressentimento sobre a instituição e uma melhora aparente

de Sabrina que abandonou o hospital naquele dia,

decidimos tentar um tratamento em casa. Para tanto, eu e

Steffani reduzimos de forma significativa nossa carga horária

de trabalho e, mediante revezamento, conseguíamos assistir

Sabrina em tempo integral.

Tivemos problemas desde o início.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

A dependência química fez com que fugisse de casa

logo na segunda noite em família em busca da droga. Na

terceira noite ouvi barulhos fortes vindos do andar de cima e,

assustado, subi as escadas pulando degraus em direção ao

seu quarto.

A porta estava semi aberta.

Percebi que tudo estava no chão.

Sabrina andava de um lado para o outro como uma

louca: Enfiava suas mãos no armário jogando os cabides

com roupas postas de qualquer jeito. Virou sua caixa de

tranqueiras de boca para baixo e chutou-a em seguida. Nem

mesmo a estante de livros foi poupada. Parecia que tentava

retirar de lá algo escondido. Espalhava tudo que tocava.

Segurei-a fortemente tentando fazê-la parar.

Presa em meus braços ordenou:

– Me solta. Tenho que tirar este animal daqui.

– Animal? Que animal? – perguntei surpreso.

– Ali... olha o bicho ali... – apontando para cima de sua

escrivaninha vazia.

Percebendo minha confusão momentânea, concluiu:

– Você é cego?

Não respondi a pergunta.

O olhar de Sabrina estava estranho.

Girei neste instante a cabeça para Steffani que ficou à

porta acompanhando a cena. Ordenei que ela chamasse o

médico imediatamente.

Soltei Sabrina de meus braços e consegui com

dificuldade que se deitasse.

Ali, sentado na beira de sua cama, permaneci

aguardando.

Em pouco tempo um médico amigo da família estava

em casa, e após atender Sabrina, ministrando-lhe algo, ela

dormiu profundamente.

Descemos as escadarias em direção à sala e, uma vez

acomodados, o médico explicou:

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

− Mediante o que me disse, e pelo que pude apurar

observando sua filha, posso deduzir que ela está sofrendo o

que chamamos delírio*.

− O que devemos fazer? – questionei.

Steffani interrompeu:

− Delírio? Minha filha está tendo alucinações? Está

louca?

− Acalme-se senhora. – pausou. – É uma situação

reversível, passageira. É apenas um estado anormal

temporário. Não é uma doença, ok? Não se preocupe –

pausou novamente. – O uso de drogas provoca esses

efeitos em alguns casos...

Notando que Steffani não estava em condições de

assimilar informações devidamente, virou-se para mim e

continuou:

– Você me disse que a notou confusa. Que sua filha

não consegue prestar atenção e teve dificuldade em

raciocinar com clareza, correto? – perguntou sem esperar

resposta. Continuou: – Todos estes itens fazem parte dos

sintomas. Mas tudo que lhe disse precisa ser comprovado.

Eu gostaria que levasse sua filha amanhã ao meu

consultório.

*Delírio – Perturbação reversível causada pela diminuição

de atividade mental. As causas são várias, indo desde a uma

simples desidratação, lesões ou traumas na cabeça, até

intoxicação por drogas. Entre os sintomas destaca-se a perda da

capacidade de concentração, esquecimento de fatos recentes e

perda do sentido de tempo e espaço.

Em casos graves pode se perder o sentido de identidade,

assim como tornar-se vítima de alucinações nas quais vê o que

não existe. Dependendo da droga consumida, o paciente pode se

tornar retraído ou muito agitado. Costuma durar dias, horas ou

mais tempo. Normalmente agrava-se à noite.

O delírio, em última instância, pode progredir para um

estado de coma.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Após acertarmos detalhes da consulta vindoura,

retirou-se.

Thomas

Do outro lado da cidade, na clínica de recuperação

anteriormente visitada por Adrian, uma das internas estava

sentada em sua cama na penumbra da noite.

O ambiente era lúgubre: paredes descascadas, móveis

velhos e baixa iluminação que serviam somente para

intensificar esta sensação. Fora isto era espaçoso para os

padrões de um quarto de clínica convencional.

Continha três cômodos: um banheiro privado e uma

sala com vários brinquedos agregados ao quarto principal.

A mulher que ali estava aparentava perto de trinta

anos, mas encontrava-se neste momento afagando os

cabelos de uma boneca. Balançava suavemente seu corpo

para frente e para trás com o olhar fixo no infinito.

Falava sozinha:

– O melhor meio de se livrar dos medos é os

enfrentando... Vou ganhar mais uma amiguinha – repetia

continuamente em voz monótona.

Adrian

No dia seguinte, após executar os exames devidos e

respondermos a uma bateria de perguntas do médico que

nos visitou na noite anterior, tivemos sua visão final sobre o

caso.

Em todo o processo de respostas dadas por Steffani,

notei que mudou de expressão somente quando

questionada sobre alguns aspectos de ordem sexual do

passado de Sabrina. Posteriormente, quando perguntei

sobre o fato, disse apenas que não havia nada a ser

mencionado, que foi apenas impressão minha. Convencido,

não voltei a tocar no assunto.

Conversamos também com outros profissionais

18

Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

chegando todos à mesma conclusão: ela precisava

realmente de ajuda especializada. Isto, sem dúvida, seria o

melhor para ela.

Os últimos incidentes em casa provaram que nossa

decisão não foi acertada. Tínhamos apenas boa vontade, e

com certeza ela se mostrou insuficiente para resolvermos a

questão apresentada.

A clínica que tinha sido indicada inicialmente, apesar

de não ser de meu agrado, era exclusivamente feminina e

de melhor localização que as outras, facilitando visitas

frequentes e, esses fatos, pesaram muito na escolha da

clínica. Desta forma voltamos a nos comunicar com a

instituição agendando a internação para o dia seguinte.

***

Levantamos cedo, arrumamos suas malas separando o

que julgamos necessário para o seu bem estar e nos

colocamos a caminho.

Nossa filha estava estranha, falava pouco e não se

lembrava dos últimos fatos ocorridos. Conversando,

voltamos um pouco ao passado, e perguntei sobre o animal

que estava em seu quarto, sua forma, enfim, o que era.

Sabrina interrompeu:

– Eu queria que vocês parassem de fazer perguntas

cretinas. Estou cansada dessas bobagens. Vocês é que

deveriam ser internados ou presos por inventarem coisas

desse tipo...

– Mas querida... – tentou Steffani dizer algo sendo logo

interrompida:

– Não aguento mais o jeito que as pessoas me olham,

quase me chamando de coitada. Vocês é que

enlouqueceram e estão me ferrando com este papo idiota.

Odeio vocês – finalizou.

Silenciamos.

19

Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Olhando para Steffani de soslaio, notei uma lágrima

rolar por sua face.

Chegando à clínica, retiramos as malas do carro e as

entregamos a dois jovens assistentes que se encarregaram

de levá-las.

Na recepção acertei os detalhes faltantes.

Despedi-me de Sabrina com um abraço prometendo

visitá-la com frequência.

Ela abraçou-nos com frieza.

Clínica de Recuperação Santa Dymphna

Sabrina

Largaram-me sentada em uma pequena sala de espera

enquanto meus pais resolviam detalhes sobre minha

internação.

O lugar apesar de limpo era feio, antigo, como se

nunca houvesse sido reformado. O balcão, a mesa de

centro, alguns enfeites, tudo que meus olhos alcançavam

parecia ter sido retirado de algum filme do século

“retrasado”. A própria cadeira na qual me sentei encontrava-

se com o assento rasgado.

Olhando para cima, vi uma pintura a óleo de uma santa

sobre um oratório caindo aos pedaços. Ao seu pé lia-se com

dificuldade a inscrição “Santa Dymphna”.

A santa olhava para mim e, Incomodada com o fato,

mudei imediatamente de lugar. Sentei-me em outra cadeira

na esperança de sair de sua linha de visão, mas de nada

adiantou: a santa insistia em me seguir com os olhos.

Não me assustei, sabia que o fato não tinha nada de

sobrenatural, pois qualquer foto ou pintura que fosse feita de

frente geraria esta ilusão. A questão é que tudo me irritava.

Eu estava nervosa e chateada.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

– Esta foi a melhor maneira que acharam para se

livrarem de mim. Com certeza também era a mais barata

que encontraram. – falei alto sem ser ouvida.

Levantei-me da cadeira neste momento, mediante a

aproximação de meus pais que caminharam em minha

direção com um sorriso estúpido estampado em seus rostos.

Parei.

– Fique bem. Voltaremos em breve para vê-la – falou

Adrian abraçando-me.

Minha mãe também se despediu, mas apenas beijando

meu rosto. Deram-me as costas sem mais nada dizer e

foram embora.

−Não preciso de vocês – resmunguei. Já pensando em

criar um plano de fuga no momento certo.

***

Fora a recepcionista, parecia que só existiam mais dois

funcionários naquele “pulgueiro”.

Os mesmos rapazes que recolheram minhas malas se

dirigiam neste instante para o local em que eu estava. Um

desviou-se a caminho da recepção e o outro veio ao meu

encontro. Mediu-me da cabeça aos pés enquanto eu olhava

para outro lado. Em certo momento, percebendo que eu

havia notado seu olhar curioso, enrubesceu.

Após o convite para segui-lo, por não ter alternativa, o

acompanhei.

Durante o trajeto passamos por várias alas, permitindo

que eu percebesse a existência de vários outros

profissionais.

A clínica era bem maior do que eu havia imaginado.

O rapaz, tentando ser amigável, falava sobre as alas

conforme andávamos, assim como a função de algumas

pessoas ali presentes. Por não estar interessada em

detalhes, não prestava atenção no que dizia.

21

Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Apesar de achar o lugar horrível, percebi que as alas

continham um bom número de pacientes.

– É... Eles têm bastante clientes aqui – pensei

ironicamente.

Chegando a um pequeno quarto localizado no último

andar da clínica, verifiquei que dividiria o espaço com mais

três mulheres que, pela linguagem e modos, pareciam

pessoas de baixa classe.

– Sem dúvida alguma foi o local mais barato que

encontraram.

– Disse alguma coisa? – perguntou o rapaz que me

acompanhava.

– Não. Falava sozinha – respondi secamente.

Após ser apresentada à minha nova cama, fui

informada que em breve uma enfermeira viria me ajudar

com não-sei-o-quê e saiu, deixando-me momentaneamente

a sós com aquela gentalha.

Bronqueada e sem olhar para os lados, desfiz minhas

malas ajeitando as roupas que trouxe do jeito que consegui,

dentro de gavetões localizados debaixo da cama, que, além

de pesados estavam emperrados.

Escolhia algumas peças pensando em trocar de roupa,

em colocar algo mais leve, quando o meu novo uniforme foi

jogado sobre os lençóis por uma enfermeira gorda,

abrutalhada.

Assustei-me com o ato.

Analisando e odiando de imediato o uniforme

depositado sobre a cama, empurrei todas as peças jogando-

as no chão.

– Não vou vestir essas porcarias! - disse criando caso

com as roupas entregues que mais se pareciam com

pijamas.

– Olha lá! Mais uma burguesinha. Deve ser uma irmã

bastarda sua – comentou uma das moças à outra que

estava em pé ao seu lado.

22

Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

– Cala a boca cretina! – respondeu a outra, ríspida.

As três moças não falaram mais nada, ocupavam-se

agora em apenas observar minha longa e acalorada

discussão sobre os trajes com a enfermeira.

Por um momento, nosso tom de voz ergueu-se em

demasia, chamando a atenção de outra mulher que passava

no corredor. Quando a segunda enfermeira se juntou à

primeira, me vi no meio de um bate-boca cansativo e,

sentindo que não havia saída acabei cedendo.

− Você não é melhor do que ninguém, menina –

finalizou a abrutalhada, saindo e levando consigo minhas

roupas, exceto as íntimas, no intuito de me deixar sem

opção.

A decisão da enfermeira funcionou. Passei a me vestir

com o maldito uniforme e depois ajeitei minha cama.

Mudei o travesseiro que estava no centro do colchão, e

sob ele havia uma aranha gigantesca escondida.

Soltei um grito estridente, afastando-me bruscamente

quase perdendo o equilíbrio.

Neste instante pude ouvir inúmeras gargalhadas das

outras pacientes atrás de mim.

Fuzilei com o olhar uma das moças que ria sem parar

e, nem por isto ela se calou.

Após o susto, constatei que a aranha era de plástico.

Raivosamente, fui até o banheiro e joguei-a dentro do

vaso sanitário, dando a descarga em seguida. Ouvi a uma

curta distância os protestos das moças.

Para evitar discussões posteriores, saí do quarto sem

destino, batendo a porta atrás de mim. – Parece que as

“boas vindas” já haviam sido dadas. – pensei.

Thomas

A clínica contava com um espaço físico invejável.

Continha instalações apropriadas para tudo que julgavam

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

ser necessário aos pacientes internados, assim como áreas

para atividades em grupo ou individuais.

Contava com biblioteca, sala de reuniões, sala de TV,

sala de leitura, salão de jogos, além das dependências

comuns. No lado externo, podia-se encontrar vários jardins,

quadras para esportes e até uma horta. O uso destes

lugares era livre para os dependentes químicos e para

alguns pacientes psiquiátricos previamente autorizados.

Sabrina tinha livre acesso as estas áreas e, após dois

dias conhecendo as instalações, transitava por suas

dependências sem dificuldade.

Passou pela biblioteca rapidamente, escolheu um livro

e resolveu lê-lo em outro lugar.

O jardim, apesar de mal cuidado, deixava transparecer

certa imponência do passado: árvores majestosas,

centenárias, acariciavam com sua sombra todas as pessoas

que desejassem descansar longe do calor do dia. Ao centro,

uma fonte desligada e suja, lembrava por suas formas um

pouco da arte grega.

Sabrina encontrava-se sentada em um dos bancos do

jardim; segurava aberto o livro escolhido, mas não o lia.

Estava completamente imóvel.

Seu semblante era apático.

Da janela de um dos quartos que dava visão ao jardim,

Samira, uma moradora antiga, interna da ala psiquiátrica,

observava Sabrina com atenção ,medindo-a de alto a baixo.

Dava a impressão que intencionava decorar-lhe a imagem.

Observava suas formas detalhadamente: Cabelos lisos,

negros e longos caídos sobre as costas; seu rosto ovalado

chamava a atenção e, apesar de conter expressões

cansadas, era harmonioso e róseo, assim como suas mãos

finas e longas, próprias de uma pianista. Ela transmitia a

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

marca viva da feminilidade a todos que a observassem.

Samira sentia pena da nova interna. Dizia para si

mesma que a ajudaria em breve, que precisava vencer seu

passado para ser feliz. Para tanto, faria de tudo para

conhecê-la melhor. Afastou-se da janela e sentou-se

novamente na cama, passando a alinhar o cabelo de sua

boneca com os dedos. – Nós vamos ajudar ela também.

Não é? – perguntou para a boneca em seu colo.

Deitou-se, apesar do sol alto, se cobriu com um lençol

leve e dormiu.

***

Do outro lado da clínica, o diretor da instituição

encontrava-se em sua sala, que era, sem dúvida, o ícone da

bagunça e do abandono. Apenas sua mesa e cadeira

encontravam-se livre de poeira pesada. Afinal, justamente os

movimentos que executava sobre elas impediam que a

sujeira se acumulasse. Caso alguém que desconhecesse o

local entrasse na sala por engano, facilmente a confundiria

com um depósito qualquer de materiais fora de uso.

O diretor neste momento ocupava-se em atualizar

várias fichas de pacientes e, ao mesmo tempo, conversava

com Rafael sobre os medicamentos mantidos em estoque.

Rafael entregou uma lista com vários itens que estavam

próximos do fim.

Após algumas trocas de palavras o diretor abriu a pasta

de Sabrina. Rafael, vendo uma foto de aniversário na qual a

moça fazia pose de corpo inteiro, comentou:

– Difícil esta mulher. Não?

– Não tive oportunidade de conversar com ela ainda,

mas... por que diz isto?

– É uma mulher de difícil trato. Está sempre de mau

humor. Não permite a aproximação de ninguém. Vive

armada com duas pedras na mão.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

O diretor meditou um pouco sobre o que ouvira.

Percebendo que seu empregado falou sem tirar os

olhos da foto comentou:

– É uma bela mulher. Não é?

– Sim. Sem dúvida – respondeu prontamente.

– Está chateado porque ela não permite que você se

aproxime?

– Como, senhor? – respondeu enrubescendo.

O diretor sorriu, depois aconselhou:

– Cuidado. Ela sofre de delírios neste momento. Pode

a qualquer instante confundi-lo com algo que teme em suas

alucinações, ferindo-o. Não é muito inteligente se apaixonar

por ela agora. – pausou. – Aqui nesta instituição ela é

apenas mais uma paciente – emendou sério.

– Sou um profissional, senhor. Sei o meu lugar.

– Acho bom mesmo. Deixe as paixões para o lado de

fora da clínica – finalizou, entregando um envelope para ser

deixado na portaria.

Rafael pediu licença e saiu da sala.

O diretor antes de guardar a pasta de Sabrina, pegou

novamente a foto e acariciou-a com a ponta dos dedos:

Contornou lábios, cabelos, coxas e seios. Sentiu-se

enrijecer. Seus olhos faiscavam. Após tocar-se

momentaneamente, guardou a pasta e todo o seu conteúdo

em lugar apropriado.

Rafael

Neste ano, passaram para mim a tarefa de organizar a

mesa em homenagem à Padroeira de nossa casa.

Resolvi, ao invés de utilizar flores compradas como de

costume, fazer um buquê com silvestres, colhidas nas

dependências da própria clínica.

Estava quase terminando os arranjos: Coloquei tubos

de vidro nas velas para evitar que se apagassem, quando

Sabrina, a mais nova paciente parou ao meu lado.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Perguntou curiosa:

– Por que está arrumando esta mesa? Parece um altar.

– Amanhã é quinze de maio e, na semana que cai este

dia, costumamos arrumar esta pequena mesa para

homenagear a nossa Padroeira. Este ano sobrou para mim

montá-la e enfeitá-la.

Enquanto respondia à pergunta, ocupei-me em encher

o vaso de vidro que sustentava o buquê com a água de uma

moringa que previamente trouxera, enchendo-o até a

metade.

– Padroeira? Quem é ela?

Apontei para cima.

– Esta é a Santa Dymphna de Gheel, é considerada

padroeira dos portadores de deficiência mental e doenças

de foro psíquico – respondi, notando que Sabrina mudou de

expressão quando olhou para a pintura.

– O que aconteceu? Já conhecia este quadro?

Explicou-me que, no dia em que chegou à clínica, os

olhares da Santa a perseguiram, e que se sentira

incomodada com o fato.

Tentei explicar-lhe o motivo, mas fui interrompido. Disse

que já o sabia.

– Voltando ao assunto: aqui não é uma clínica de

recuperação de drogados? O que isto tem a ver com

doenças mentais?

– Sim, é. Mas antes de sermos o que somos hoje, a

instituição trabalhou muito tempo exclusivamente como

hospital psiquiátrico. Com o tempo tornou-se mista –

respondi ajeitando o buquê.

– Mista? Tem gente doida aqui?

Não gostei da forma como formulou a pergunta.

Tive vontade de lhe dizer o que realmente pensava a

seu respeito, mas não o fiz. Respondi apenas disfarçando

minha indignação:

– A clínica dividiu suas operações há alguns anos. Hoje

27

Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

temos várias alas para tratamento de doentes mentais e

outras tantas para recuperação de jovens viciados.

Sabrina olhava em minha direção, mas tinha certeza

que seu olhar transpassava pelo meu corpo, fixando-se em

um ponto longe qualquer.

Como estávamos dentro do horário de almoço, Sabrina

disse que iria ao banheiro lavar suas mãos e seguir para o

refeitório. Virou-se sem ao menos se despedir.

Apesar de mal criada era sem dúvida uma bela mulher.

Por instinto, segui o seu andar com os olhos presos um

pouco abaixo de sua cintura. Suas formas me chamaram a

atenção diversas vezes, mas seu gênio forte e trato péssimo

com as pessoas tornavam-na intragável.

Mara, a recepcionista, percebendo para onde eu

olhava soltou cortante:

– Cuidado, Rafael. Este é o jeito mais curto de se

perder o emprego – sorriu.

Dei com os ombros. Concluí o arranjo e retirei-me

finalmente da recepção.

Sabrina

Entrei no banheiro vazio.

Lavei minhas mãos e ajeitei meu “pijama” apertando

um pouco mais o laço da cintura. Enquanto fazia isto, uma

brisa gélida me envolveu. Um arrepio varreu meu corpo

inteiro, além de sentir em minha cabeça uma espécie de

formigamento.

Procurei a causa à minha volta; talvez alguma entrada

de ar. – pensei. Virando os olhos para cima pude constatar

que realmente as janelas superiores estavam abertas.

Olhando atentamente acima dos cubículos que

continham os vasos sanitários, vi uma névoa escura

flutuando sobre eles, mas ao primeiro piscar de olhos,

desaparecera. Estando cansada e com fome, atribuí a visão

a estes fatos.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Dirigi-me ao refeitório esquecendo o ocorrido.

A cozinha estava lotada.

Pensei em ir até o quarto e voltar mais tarde, quando

houvesse menos pessoas, mas percebendo que a fila se

movia mais rápido do que de costume, entrei para ser

servida.

– Acho que um porco é bem melhor tratado! – pensava

comigo, observando o espalhar relaxado da comida dentro

do meu bandejão de alumínio.

Lembrei do dia em que vi as cozinheiras lavando as

bandejas: mergulhavam várias de uma única vez dentro dos

próprios panelões de chão utilizados para prepararem a

comida, depois mexiam com uma gigantesca colher de pau,

fazendo-as subir e descer banhadas com água quente e

detergente.

Quase vomitei mesmo antes de comer.

– Isso era jeito de se lavar alguma coisa?

Sentei-me no lugar costumeiro, espantando essas

lembranças. Afinal, era obrigada a ingerir aquilo, a menos

que desejasse morrer de fome. Entretida nestes

pensamentos, não havia percebido que à minha frente uma

moça um pouco mais nova que eu, esquelética, que nunca

se sentara naquele lugar me olhava insistente. Como não

tirava os olhos de mim, não aguentando, questionei:

– O que foi? Está olhando tanto para mim por quê?

Ela, como se estivesse no “mundo da lua”, não

percebendo minha má vontade, respondeu pausadamente:

– Você é muito bonita. Se eu soubesse desenhar ia

querer fazer um retrato seu.

Notei que a moça tinha problemas mais sérios que os

meus.

Talvez arrependida pelo meu mau trato inicial, esforcei-

me em responder suas questões vazias. Fiz também

algumas perguntas no intuito de contentá-la. Tinha certeza

que era só.

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Qual o seu medo? Marcelo Prizmic

Perguntei há quanto tempo estava internada, e como

ela não soube responder, desconfiei que, apesar de nova,

era “cliente” da casa já há um bom tempo.

Descobri que a razão dela estar neste “antro” era o

mesmo de sempre: drogas. Mas percebi que, no seu caso, a

química e o tempo de uso ou ainda o excesso,

comprometera seriamente sua mente.

Em certo momento identificou-se como Anna e de

repente, assustada sem nenhum motivo aparente,

perguntou:

– Você já os viu?

– Quem?

– Os mortos! Não te falaram que aqui os mortos

aparecem para os vivos? – perguntou-me em sussurro,

como se confiando a mim um estupendo segredo.

Sorri em pensamentos: Um lugar horrível como este, se

não é assombrado, com certeza deveria ser.

Controlando o riso continuei com a conversa:

– Não. Não sabia. Quem mais já viu?

– Todo mundo – abrindo os braços – até a cozinheira

Pipa já viu – apontando com o indicador para uma mulher de

meia idade que cheirava uma panela.

– O que você já viu? – perguntei por perguntar.

– Vejo pacientes que já morreram. – pausou. – Você

sabia que aqui ninguém recebe alta? Sempre pioram...

pioram... e, cada vez que pioram, são mandados para um

lugar pior, até que uma hora morrem?

Arrepiei dos pés à cabeça com este comentário.

Era sem dúvida irracional, mas a sequência dos fatos