Astral Série - 0103 - Suicidas por Marcelo Prizmic - Versão HTML

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Thomas

Eu conhecia Mirela do passado.

Lembro-me bem de sua amizade com minha filha.

Houve época em que tornaram-se “unha e carne” por

estudarem na mesma sala de aula no ginasial. Mas, apesar

de não ter tido envolvimentos significativos com a família,

soube da desgraça que os abalou. Visitei-os no intuito de

ajudá-los de alguma forma, e infelizmente, este foi o quadro

que encontrei:

O velório, com cerca de quarenta pessoas, entre elas

amigos e parentes, acabara de pouco.

Acompanhei de perto a família até dentro de sua casa,

e uma vez todos reunidos à mesa para o jantar, passei a

observar seus semblantes de um dos cantos da espaçosa

cozinha:

Qualquer pessoa perceberia que o trágico falecimento

do irmão de Mirela pairava sobre o pensamento de todos. A

expressão de tristeza e inconformismo era praticamente a

mesma em cada face, na exceção de sua mãe, que além da

dor sentida, não pode esconder duas lagrimas mornas a

pingar na toalha.

Mirela, a filha mais nova, remexia a comida no prato

sem vontade, distante, enquanto o pai, absorto em seus

próprios pensamentos, esforçava-se por mostrar-se

controlado.

Apesar de ser um ato pouco educado, mas necessário

ao desejo de ajudar, liguei-me a todos mentalmente, e a

Mirela por último buscando informações*.

*buscando informações – Psicometria - Thomas, por ser um espírito livre, liga-se mentalmente a aura física ou espiritual de uma pessoa, e faz, conforme necessidade, uma

leitura de impressões, tanto de imagens passadas como de pensamentos presentes.

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SUICIDAS Marcelo Prizmic Nenhum dos presentes podiam imaginar o que se

passava em sua mente:

Mirela revia a vela acessa próxima a cama, que

esquecera no quarto de bagunças do irmão. Imaginava o

vento soprando sobre as cortinas, que após vários

movimentos de ida e volta, acabaram por inflamar-se em

contato com a pequena chama que mal clareava o

ambiente.

Na sua imaginação, construiu uma imagem do fogo

espalhando-se rapidamente no local em que seu irmão mais

velho dormia. Acreditava que ele nem mesmo acordara

intoxicado pela fumaça.

Além do acidente, revia centenas de imagens do

passado, tempos felizes no qual brincavam despreocupados

trocando confidencias.

Lembrava quando um acobertava as traquinagens do

outro, estas, imaturas, frutos naturais da tenra idade.

Imagens que serviam neste momento apenas para

açoitar de forma indescritível sua alma.

Sua ideia de culpa era devastadora.

Foi a sua vez de não conseguir reprimir as lágrimas, e

uma vez à tona, retirou-se de brusco da mesa de refeição

sem dizer uma palavra aos demais.

Seus pais apenas a seguiram com o olhar,

acompanhando seu andar cansado, subindo as escadas a

caminho de seu quarto.

***

Mirela, em um passado não muito distante, havia

experimentado algumas drogas na companhia de amigos.

Mantinha escondida em sua casa uma certa

quantidade destes elementos. Como ela mesma dizia

sorrindo: “Um pequeno estoque para o meu prazer”. Mas,

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SUICIDAS Marcelo Prizmic neste momento, “prazer” era uma palavra esquecida,

distante, vivia somente forte dor.

Sentindo que algo de muito ruim estava para

acontecer, vi quando vários espíritos surgiram, rodeando-a,

ligando-se a ela mentalmente.

Espíritos familiares e amigos tentavam sugestioná-la a

não fazer o que desejava. Ela mostrou-se surda a estes

apelos, infelizmente, aceitou a sugestão dos inferiores.

Não pensou duas vezes: Caminhou até a cômoda de

seu quarto e arrastou-a aproximadamente vinte centímetros

da parede. Moveu um taco do assoalho que funcionava

como tampa, para um buraco que ela pacientemente fizera.

Retirou de seu interior uma pequena caixinha e, sentando-se

ao chão, passou a observar atentamente seu conteúdo.

Queria simplesmente um pouco de paz, esquecer

mesmo que fosse por uma fração de segundos a desgraça

que caiu-lhe sobre a cabeça.

Sabia que as drogas escondidas representavam uma

fuga temporária, mas mesmo assim a desejava.

Não tinha experiencia com dosagem, nem espaço em

sua mente para analisar os resultados e, sem dúvidas,

colocou várias cápsulas e comprimidos na palma de sua

mão. Serviu-se de um pouco de água esquecida da noite

passada, que ainda se encontrava sobre o criado mudo e

engoliu a mistura.

Colocou tudo novamente no seu devido lugar e

arrastou a cômoda na posição original.

Deitou-se esperando ansiosa o efeito.

Muito me doeu ver o desenrolar dos fatos: Revivi

naquele instante um dos momentos cruciais da vida de

minha filha, e ela, a exemplo de Mirela, também negara meu

auxilio*

* Auxílio – Sabrina no passado fez exatamente a mesma coisa, motivada pelo sofrimento

causado por Samira. - Livro 1 - “Qual o seu medo?”.

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SUICIDAS Marcelo Prizmic Sabrina

Devido ao excesso de serviço cheguei tarde em casa.

– Graças a Deus é sexta-feira. Amanhã estou livre. -

pensei comigo, imaginando algo para Rafael e eu fazermos

juntos.

Mal tive tempo de descansar alguns pacotes que

segurava, quando fui abordada por minha mãe com

péssimas notícias:

– Foi bom que chegou querida... Tenho notícias ruins. -

falou angustiada.

– O que foi mãe? O que aconteceu? - perguntei já

aflita.

– Lembra da Mirela?

– Mirela.. Mirela.. - murmurei buscando lembranças em

minha mente. - Não! Que Mirela?

– Aquela sua amiga de escola... que mora no centro da

cidade...

Uma vez associando o nome com as informações

passadas, lembrei da garota distante.

– Sim. Estudamos no ginasial. O que tem ela?

– Foi tudo de uma vez.. - pausou. - Seu irmão morreu

ha três dias atrás em um acidente, queimado. Mirela um dia

depois tentou suicídio. Os pais estão desesperados, “nas

últimas”.

– O que? Como isso aconteceu? Como você ficou

sabendo? - falei espantada.

– Não sei! Seu pai encontrou um amigo que mora

perto. O amigo sabendo que vocês eram velhas conhecidas,

contou-lhe que Mirela tentou suicídio ingerindo várias

drogas. Está no hospital em coma desde ontem.

Minha mãe sem dúvida era uma mulher difícil de se

lidar. Sempre estressada, cansava a todos que a rodeavam.

Mas tinha uma coisa que marcava positivamente seu

caráter: O tal do “amor fraterno”. Bastava saber que outras

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SUICIDAS Marcelo Prizmic pessoas, mesmo livre de vínculos familiares estavam

passando por dificuldades, sempre assumia as dores alheias

como próprias. Sua sensibilidade muitas vezes havia me

tocado, e eu, claro, admirava sua forma de ser.

– Obrigada por me contar mãe. Vou esperar as “coisas

esfriarem” um pouco e farei uma visita... - falei pensativa. -

Onde está papai?

– No serviço. Ligou para falar sobre outras coisas e

acabou me contando sobre essa desgraça...

– Entendo... eu vou ver se consigo ajudá-los de alguma

forma. Prometo manter a senhora informada. Tudo bem?

Agora vou tomar um banho. - finalizei subindo as escadas

em direção ao quarto.