Atormentado por Patricia Franconere - Versão HTML

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Patrícia Franconere

Atormentado

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São Paulo

2011

Patrícia Franconere

Título Original: Atormentado

Copyright© 2011 por Patrícia Franconere

ISBN

2

Atormentado

Sinopse

Ferdinando Fraccadore Vetorazzi nasceu em Crotone, um pequeno vilarejo nas

montanhas, situado na região da Calábria no sul da Itália. Foi criado sob a doutrina

católica, teve uma infância difícil ao lado do pai Giuseppe que o educou com austeridade e

da mãe Francesca, mulher beata, submissa e superlativa que passou parte de sua vida

correndo atrás do

marido, este , sempre envolvido com mulheres do povoado. Entre elas, Amparo, mulher

bela e fogosa que não pensava duas vezes em afrontá-la. Ferdinando ainda criança,

descobriu o desejo carnal ao ver os seios nus de Amparo durante uma briga entre ela e

sua mãe. Tímido, morria de vergonha dos escândalos que a mãe produzia cada vez que

se encontrava com a rival. A imagem de parte do corpo nu de Amparo ficou entranhada em

sua memória. Ele descobriu o prazer solitário dentro do banheiro de sua casa, mas para

sua infelicidade, foi flagrado pela mãe que, decepcionada o acusava de pecador. Arisco ao

contato físico e demonstrações de afeto, Ferdinando encontrou num violino velho um alívio

momentâneo para sua culpa e seus questionamentos.

Abandonado por seu pai, que viajara para o Brasil com a desculpa esfarrapada de ir

apenas à procura de trabalho, Ferdinando ainda jovem, passou a ser arrimo de família, já

que sua mãe abatida com o abandono, passava o resto de seus dias largados sobre a

cama. Aos vinte anos, Ferdinando envolveu-se com Amparo. Por uma noite ela foi mais

que uma amiga. Mas uma tragédia abateu-se em sua casa. Sua mãe falecera de uma

maneira brutal enquanto ele se deliciava nos braços da bela mulher. Ferdinando se culpara

pela morte da mãe e colocara em xeque a existência de Deus. Sozinho e sem perspectiva

de vida, Ferdinando decidiu viajar para o Brasil a procura do pai e de respostas que tanto o

afligia.

A rigidez. a inflexibilidade e as imposições constantes de regras, impunham limites em

suas ações e seus pensamentos. Ele passou a acreditar que o lhe era imposto era o certo.

O excesso de rigidez e a devoção fervorosa ao catolicismo fizeram com que ele criasse um

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Patrícia Franconere

padrão mental de comportamento implacável, provocando assim, um sentimento de

autopunição que só trazia sofrimento aos outros e a si próprio. Porém ,ele não era um

homem mau. Apenas não sabia lidar com pessoas, muito menos com a vida. Ele era capaz

de amar intensamente e odiar na mesma proporção. Inteligente, corajoso e de espírito

empreendedor, tornou-se um empresário de sucesso internacional, mas a culpa, a

saudade da mãe, a falta de amor do pai e o ciúme doentio que nutria pela esposa não

permitiam que ele encontrasse felicidade em lugar algum. Até que um fato inusitado lhe

trouxesse de novo a razão.

Prefácio

Jardim Marajoara (São Paulo, Brasil) 22 de setembro de 2001.

Era início de primavera. Uma chuva torrencial meio fora de hora caia incansável

trazendo o que restava do frio do inverno consigo. Num pequeno salão de

aproximadamente quarenta metros quadrados e portas de vidro que, tremulavam com o

bater do vento forte, eu e outras pessoas nos amontoávamos ao lado da aniversariante

que completaria 15 anos de idade. Seu rosto era pálido como uma boneca de cera e suas

feições permaneciam estáticas iluminadas pelas fortes luzes que vinha do teto. Seus

cabelos da cor do mel acomodavam-se sobre os ombros como cascatas. Próximos a mim

estavam o Padre Cosmo e minha querida Poliana. Exatamente às oito horas da noite as

luzes se apagaram e as velas do bolo foram acesas. Eu Ferdinando Fraccadori Vetorazzi e

minha mulher Bete nos colocamos ao lado de nossa filha Dominice.Com meu velho violino

Stradivarius em mãos comecei a entoar os primeiros acordes de parabéns a você.As

pessoas presentes começaram a cantar:

Parabéns pra você,

Nesta data querida,

Muitas felicidades,

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Atormentado

Muitos anos de vida!

Para Dominice nada!

Tudo!

E como é que é?

É!

É pique.. É pique... É pique...É pique...É pique... É hora... É hora... É

hora...Ratimbum!

DOMINICE... DOMINICE... DOMINICE...

Não houve alegria naquela canção. Apenas dor e lágrimas.

Não houve presentes. Apenas flores.

Quem já teve a oportunidade de ver o mapa da Itália sabe que o país se parece com

um bota. Sendo assim, informo que minha história começa em uma região chamada

Calábria que está situada no dedo da bota, ou seja, na ponta dela.

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Eu nasci em março de 1956 numa pequena casa de pedra no ponto mais alto de uma

colina verdejante. O lugar era tão alto que às vezes eu tinha a impressão de poder tocar o

céu com as pontas dos dedos. Descendo a colina havia muitas casas encravada na

montanha em vielas tão estreitas que mal dava para passar um carro. A maioria eram

casas assobradas com pouco terreno, por esse motivo era comum ver roupas secando em

varais improvisados no parapeito das janelas. O pequeno vilarejo era de uma beleza

natural indescritível. Sua costa era banhada pelo Mar Jônico que desaguava no Mar

Mediterrâneo. Esta era a vista que eu tinha da minha casa. O Mediterrâneo todo para

abraçar. Muitas vezes desde a minha mais tenra idade lembro-me de ficar sentado na

frente da minha casa olhando para aquela imensidão azul de água. Muitas vezes passava

horas admirando o lugar e pensando na vida. Eu imaginava se Deus estava atrás da linha

do horizonte ou no céu, enxergando nós, pobres mortais, como minúsculas formigas. O

clima de Crotone era quente e seco mais até que outros lugares da Itália. Por isso eu

estava quase sempre enfiado dentro de calças curtas em tons pastéis, agarrada aos

suspensórios e boina para não rachar a cabeça devido elevada temperatura do sol.

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Patrícia Franconere

Província de Crotone (Calábria, Itália)1966.

Eu estava com dez anos de idade.

-- Ferdinando! Cadê você seu impiastro! — perguntou minha mãe como sempre

aos berros.

— Aqui fora mãe! — respondi enquanto guardava minhas bolinhas de gude dentro

de um saco de flanela.

— Vá chamar seu pai! — ela gritou de dentro da casa.

— Não sei onde o pai está mãe! — respondi tentando me debruçar na janela do

quarto para olhar para dentro.

— Ele deve estar com os pescadores no bar do Pepe enchendo a cara de vinho!

— To indo!

— Diz pra ele que se não chegar logo ficará sem almoço!

— Ta bom mãe! — respondi enquanto me afastava da casa correndo.

— Vê se não desce correndo para não se arrebentar nas pedras! — ela me disse

agora debruçada no parapeito da janela.

— Ta bom! Ta bom... — Caminhei lentamente.

—Vai logo se não eu te mato peste! — gritou minha mãe. “Ela quer que eu ande

devagar ou que eu corra?” Pensei. Ela era assim. Nunca se decidia. E como qualquer

bom italiano que se preze está sempre querendo matar alguém.

Eu desci a montanha em desabalada carreira em busca do meu pai. Essa não era

a primeira vez que minha mãe me incumbia dessa tarefa. Naqueles dois últimos dois

anos era o que eu mais fazia. Meu pai era marceneiro e trabalhava em uma fábrica de

móveis. Depois de provocar uma briga com um dos funcionários foi demitido. Aliás,meu

pai adorava se meter

Em encrencas e essa foi apenas mais uma delas. Meu pai já não era muito de pegar

no batente com a demissão ele acabou se encostando na minha mãe que lavava e

passava para fora para poder pagar as contas de casa.Ele por sua vez passava a maior

parte do tempo conversando com os pescadores da região quando não, no bar do

Pepe.Minha mãe odiava quando isso acontecia porque lá morava a dona Amparo irmã

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Atormentado

caçula do seu Pepe.Minha mãe jurava de pés juntos que meu pai tinha um caso com

ela,afinal era o que Crotone inteiro comentava.Eu ainda não a conhecia pessoalmente,mas

diziam ser uma mulher muito bela e foi o que constatei.

Assim que desci a colina me deparei com a pequena mercearia de portas verdes do

seu Pepe.

— Seu Pepe o senhor viu meu pai? — perguntei ao homem barrigudo de olhar

amistoso que estava atrás do balcão. Ele sorriu amarelo, e sem titubear caminhou até uma

porta atrás do balcão que dava acesso direto a casa a casa dele e chamou por meu pai.

— Giuseppe, seu filho está aqui procurando por você.

Meu pai saiu de lá com a cara mais desconfiada do mundo. Estava com a barba por

fazer, com os suspensórios caídos, braguilha da calça aberta (na minha santa ingenuidade

eu achava que ele tinha acabado de urinar) e seu velho chapéu cinza de feltro estilo

borsalino em suas mãos.

— Caspeta! Mas o que foi dessa vez?

— A mãe ta chamando o senhor pra almoçar.

_ Ma vá cagare! Nem deu o horário? Ainda são dez e meia! Tua mãe quer que eu

vá comer com as galinhas?!

Nesse instante, uma mulher bonita de seios fartos e cabelos acobreados apareceu ao

lado do meu pai.

— O que aconteceu Giuseppe? — perguntou a mulher demonstrando certa

intimidade ao tocar o braço do meu pai.

— Larâdxa! Mas que ta fazendo aqui no bar? Não falei para me esperar lá dentro?

Porca miséria!

Depois do esporro que meu pai deu a mulher sem graça voltou a entrar.

— Quem é aquela mulher? É a dona Amparo?

— É o Amparo sim.

E o que ela tava fazendo lá dentro com o senhor? — perguntei inocentemente

(naquele tempo as crianças ainda eram bocós).

— Não é da sua conta! — ele respondeu enquanto tentava encaixar o chapéu

surrado na cabeça.

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Patrícia Franconere

— Mas pai... — eu disse reticente. — A mãe já falou que não quer ver o senhor

conversando com essa donna aí!

Meu pai enfurecido tascou um bofetão bem na minha cara.

— Cazzo! Quantas vezes vou ter que dizer para não se intrometer na minha vida!

Envergonhado, baixei a cabeça e sai sem dizer uma palavra. Essa não era a primeira

vez que meu pai me humilhava na frente dos outros.

— Coitado do menino! Não precisava ser tão enérgico com ele. — disparou o grande

amigo do meu pai.

— Este moleque não passa de um bocó!

— Ele vai contar pra Francesca! — concluiu Pepe enquanto enchia um copo de

vinho.

— Se ele contar acabo com a raça desse vagabundo.

Pepe, apesar de ser o melhor amigo do meu pai não concordava com suas atitudes.

Ele era um homem correto e honesto e íntegro.Tinha o fardo de carregar sua única irmã

nas costas.Amparo uma balzaquiana viúva que vivia as suas custas e lhe rendia muitas

dores de cabeça.Mulher fogosa não se limitava em se envolver com homens solteiros,mas

principalmente os casados e meu pai foi apenas mais um deles.Minha mãe que o diga...E

eu também...

Meia hora mais tarde, dentro da cozinha escura da casa de pedra, a gritaria na minha

casa rolava solta.

— Quantas vezes vou ter de falar que não quero mais saber de você andando com

aquele biscate?

— Mas que biscate? Ta ficando louca? — retrucou meu pai sentado à ponta da

mesa gesticulando sem parar.

— Louco ta ficando você! Eu arranco seus culhões se eu descobrir que você se

deitou novamente com aquela vagabunda!

— Ma que? Para de falar tanta bobagem!

— Eu me mato de tanto trabalhar nessa casa,lavando,passando e fazendo comida

para encher essa sua pança enquanto você me trai com aquela maledita.

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Atormentado

— Você não passa de uma porca gorda! Você deveria de boca fechada e me servir

à comida! — gritou meu pai subindo cada vez mais alto na escala da estupidez.

Minha mãe por outro lado colocou o avental manchado de molho de tomate e

começou a colocar as panelas sobre a mesa com brutalidade. Afinal isso era o máximo de

agressividade que lhe era permitido.

— Ferdinando! Vem que o almoço ta servido! — gritou minha mãe enquanto

acomodava seu traseiro avantajado numa cadeira torta do lado direito do meu pai que, por

sua vez, mordiscava uma torrada de pão velho, coberto com antepasto de berinjela.

Confesso que tive medo de entrar na cozinha,mas sabia que não poderia escapulir de uma

punição,sendo assim entrei.Quando me aproximei da mesa o velho me deu um potente

tapa nas costas de criar vergão.

— Cazzo! — praguejei.

— Dá próxima vez que abrir essa tua boca grande você vai para o milho entendeu?

— Eu entendi.

— Quantos anos têm aquela vagabunda? — perguntou minha mãe.

—Eu sei lá quantos anos ela tem? — respondeu meu pai furioso.

—Deve ter uns vinte quatro vinte cinco. _concluiu minha mãe. —Você não tem

vergonha? Um homem com quase quarenta anos se deitar com uma mulher dessa idade?

E que tipo de mulher se deita com um homem com as pelancas caindo feito você?

Meu pai não respondeu. Mesmo aborrecido com a discussão sentei-me do lado

esquerdo do meu pai e fiquei quieto. Só abri minha boca quando minha mãe abriu a tampa

da panela.

— Sopa de cabeça de peixe de novo?

— Não reclame! — disse meu pai em tom severo acompanhado de uma sonora tapa

na minha cabeça. Servi-me à contra gosto do caldo.

— Faça a oração antes de comer! — mandou meu pai. (Diga-se de passagem,

nesse quesito “mandar” ele era imbatível). De qualquer maneira, baixei a cabeça e de

mãos cruzadas comecei a orar.

— Senhor... Obrigada por nossa refeição. Obrigada pelo peixe que comemos hoje

que é o mesmo que comemos ontem... Antes de ontem... Antes de ontem de ontem e

antes de ontem de ontem de ontem e do mês passado.

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Patrícia Franconere

Só me lembro de ter terminado a oração quando senti um soco do meu pai afundar no

meu crânio.

Após me golpear sem indício nenhum de remorso meu pai levantou-se abruptamente

fazendo sua cadeira ir de encontro ao chão. Ele abriu a porta do pequeno armário acima

da pia e pegou um saco plástico. Após jogar o conteúdo no chão (que eu já sabia

exatamente qual era) me puxou pelo braço e atirou-me com violência sobre o milho seco.

— Agora é meio dia. Você vai ficar aí ajoelhado até as três e não quero ouvir um pio

seu. Entendeu?

Eu não respondi da primeira vez. Estava furioso demais para dar atenção aquele

homem ensandecido,

— Entendeu? — insistiu.

— Eu entendi pai. — respondi enquanto encarava meu carrasco de frente.

— Madona da Achiropita! Vamos parar com isso? Esse menino não pode ficar no

milho por tanto tempo!

_ Ele vai ficar aí até quando eu quiser!

— Não vai não! — disse minha mãe num breve momento de valentia. — Ferdinando

pode sair do castigo. Eu to mandando! — explodiu minha mãe.

Meu pai como de costume a esbofeteou. Ela se pôs a chorar.

— Vou sair. Não agüento ficar dentro dessa casa por muito tempo. Você me irrita!

— Vai para onde? Atrás da puta jovem?

Meu pai não respondeu. Simplesmente saiu e bateu a porta.Apesar da minha mãe

odiar a Amparo eu não conseguia entender muito bem o porque.Na minha cabeça meu pai

era apenas amigo dela assim como eu era amigo das meninas da escola e da igreja.

Minha mãe aproximou-se de mim.

— Saia do milho meu filho.

_Não mãe. Se o pai voltar vai bater na senhora se eu não estiver aqui ajoelhado.

— Eu queria ter mantimentos o suficiente para fazer uma refeição descente. Mas

estamos enfrentando tempos difíceis.

Aquilo me cortou o coração.

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Atormentado

— Mãe, não precisa se explicar. Eu sei que a culpa não é sua.

Minha mãe não era exatamente uma mãe carinhosa. Ela não era dada a abraços nem

beijos,no entanto eu nunca duvidei do amor que ela nutria por mim.Isso eu sentia em

pequenos gestos como por exemplo quando ela se levantava bem cedo nos dias frios

para passar minha roupa de escola para que eu não as colocasse frias no corpo

quente,quando cuidava de mim quando eu estava doente ou quando ela deixava de

comer para sobrar pra mim.Já meu pai...

Por várias vezes eu o ouvi atirar na cara da minha mãe a sua incapacidade para

procriar. Dizia que queria ter uma família numerosa, mas casou-se com uma mulher seca e

defeituosa. Que tinha a barriga boa para encher de comida e inútil para segurar uma

criança. Nos meus pensamentos mais íntimos eu me perguntava por que meu pai queria

uma família numerosa se ele não conseguia sustentar ou oferecer amor nem mesmo a

uma família pequena.

—Vai Ferdinando..Levanta daí.

Eu me levantei devagar. Os milhos já estavam me machucando. Foi um alivio sair do

calvário. Mas o alivio durou bem pouco. Meu pai devia estar espreitando atrás da porta. No

momento em que me pus de pé ele entrou e me colocou de volta ao castigo. Não antes de

dar uns safanões na minha mãe. Fiquei ali durante horas olhando para a mesa de fórmica

verde e suas cadeiras de napa colorida. Apesar de tudo eu gostava do meu pai. Eu tentava

entender o porquê, mas amor não se explica. No entanto quando ele batia na minha mãe

eu desejava do fundo do meu coração que ele morresse. Minha mãe não merecia ser mal

tratada por ele. Mas sempre que eu pensava isso logo em seguida fazia o sinal da cruz e

pedia perdão a Deus. Como eu era mau e indigno, pensava.

Francesca, esse era o nome da minha mãe. Ela nasceu em Paola também na região

da Calábria. A cidade é banhada pelo Mar Tirreno que também deságua no Mar

Mediterrâneo. Paola é conhecida por ser o destino turístico religioso mais importante da

Calábria. Minha mãe era católica fervorosa e devota de Nossa Senhora da Achiropita. E

seu maior sonho era poder conhecer a Catedral em Rossano.Ainda criança ela perdeu

seus pais e sua única irmã tragicamente em julho de 1943 num bombardeio aéreo lançado

pelas forças aliadas anglo-americanas que devastaram boa parte do centro histórico de

Paola.Órfã minha mãe foi morar com uma tia velha em Crotone.Tempos depois conheceu

e casou-se com meu pai.Ele também era só.Nunca soubemos direito a sua história,ele

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Patrícia Franconere

contava que seus pais morreram cedo e que seus cinco irmãos três homens e duas

mulheres se distanciaram dele e estavam espalhados por todo canto da península

Itálica.Mas ele nunca contou o por que do distanciamento,mas conhecendo ele como eu o

conhecia não era difícil imaginar. Eu cresci vendo minha mãe apanhar. Tudo era motivo de

briga em casa. As vezes eu me achava um covarde por não enfrentar meu pai.Mas o que

eu poderia fazer? Eu era apenas um menino fraco e franzino, enquanto ele era quase um

gigante com um metro e noventa de altura. Mas mesmo assim envergonho-me das vezes

que fiquei tremendo na cama enquanto ele a espancava. Minha mãe era uma bela mulher

quando jovem. Sei por que vi muitas fotos delas no álbum de família. Ela era magra de

quadris largos e cintura fina.Tinha cabelos castanhos claros bem tratados e usava

penteados estilo Brigitte Bardot.Ela tinha um brilho de esperança no olhar.Depois de

alguns anos engordou,usava os cabelos grisalhos sempre presos com um coque no topo

da cabeça e com o opaco da tristeza pesando em seu olhar.

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Era domingo quase oito horas da manhã. Os sinos da Igreja de Santo Afonso de

Ligório começaram a soar. Era um aviso de que a missa estava prestes a começar. Eu

estava chegando acompanhado de minha mãe. Todos os domingos íamos juntos a missa.

Depois ela voltava só enquanto eu ia para meu curso gratuito de violino em uma das

muitas salas da igreja. Quem ministrava o curso era o Padre Batistine que a muito não

celebrava uma missa. Devido a um problema de gota não conseguia permanecer por muito

tempo de pé. Eu e minha mãe estávamos atrasados por esse motivo entrei quase correndo

na igreja sem me importar com os fieis que já lotavam os assentos. Antes de ir até a

sacristia me dirigi até o genuflexório do altar e fiz minhas orações na expectativa de

terminar a tempo de iniciar os preparos para missa. Após o sinal da cruz percebi que

alguém me observava atrás da cortina da sacristia. Marcello, outro coroinha e colega do

curso de violino, fez sinal com as mãos para que eu me apressasse. Levantei,limpei meus

joelhos e fui rapidamente ao seu encontro enquanto minha mãe se acomodava no primeiro

banco da igreja juntando-se a outras beatas.

— Mas onde você estava? O padre Enzo já perguntou por você várias vezes. —

perguntou-me após um bocejo costumeiro.

— Minha mãe se atrasou lavando roupa.

— Mas em pleno domingo? Ela não podia lavar roupa outra hora?

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Atormentado

— Ela precisa ajudar meu pai a pagar as contas. — respondi enquanto vestia minha

sobrepeliz branca sobre a tradicional batina vermelha. Mas ao mesmo tempo me perguntei

quem o Marcel o pensava que era para dizer o que minha mãe podia ou não fazer.

— Ele ainda ta sem trabalhar é?

— Está sim. Emprego hoje em dia ta muito difícil. — principalmente para que gosta

de viver encostado, pensei com meus botões. Depois me dei conta que estava na igreja,

olhei automaticamente para a imagem de Jesus Cristo crucificado no altar fiz o sinal da

cruz e pedi em silencio perdão por mais esse pecado.

— Meu pai disse que ouviu um comentário do bar do Pepe que seu pai vai para o

Brasil é verdade? — perguntou o moleque gordo ávido por uma resposta.

O quê? — perguntei atônito.

—Meu pai disse que o Pepe tem um irmão que trabalha num navio e um amigo que

mora no Brasil e que está ganhando muito dinheiro por lá.

— E daí? — perguntei curioso.

— E daí que parece que seu pai vai tentar a vida por lá.

—Isso só pode ser invenção do Pepe. Meu pai não tem dinheiro nem para levar

minha mãe até Paola que dirá ir para o Brasil.

— Só estou passando pra frente o que eu ouvi. — defendeu-se Marcello na tentativa

de não parecer fofoqueiro o que era fato.

— Pelo que entendi o irmão do Pepe vai colocar seu pai dentro do navio como

clandestino e esconde-lo até chegar a águas Brasileiras. Chegando lá ele vai procurar por

esse amigo do Pepe que é quem vai recebê-lo no porto.

Naquele momento, mas só naquele momento entendi que o Marcello não era gordo

apenas por comer demais, mas certamente por acumular notícias demais naquele

emaranhado de banhas. Eu não tinha grandes amigos quando criança apenas colegas. Eu

era um garoto solitário. Preferia muitas vezes a companhia das minhas bolas de gude ou

de um livro à companhia de outras pessoas.

A missa começou seguindo seu ritual:

1 -Entrada

2_Ato Penitencial

3_Glória

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Patrícia Franconere

4_Rito da Palavra

5_Credo ou profissão de fé (era a parte que eu mais gostava da missa, pois nós

rezávamos o credo em latim).

“...CREDO in unum Deum, Patrem.

Omnipotentem, factorem coeli et terræ,

Visibilium omnium et invisibilium.

Et in unum Dominum

Jesum “Christum, Filium Dei...”

6_Oração comunitária

7_Ofertório

8_Oração eucarística

9_A consagração

10_Oração dos Fiéis

11_Pai Nosso

12_Saudação da Paz

13_Piedade

14_Comunhão

15_Despedida

16_Encerramento

Devo confessar que naquele dia não me concentrei exatamente na missa. Outro

assunto invadiu a minha mente e ficou martelando por horas a fio. Meu pai no Brasil? Será

que minha mãe sabia disso? Será que eu e ela iríamos também? Eu tinha ouvido falar

muito no Brasil. Desde o final do século passado os italianos estavam imigrando par o

Brasil em busca de uma oportunidade melhor. Depois da segunda guerra muitos dos

italianos pobres migraram para o Brasil. Diziam que era a terra das oportunidades. Só

consegui me desligar deste assunto quando entrei na sala de aula e peguei meu violino

Stradivarius.

Stradivarius? Sim.Um Stradivarius legítimo eu possuia.Você deve estar se

perguntando como um menino pobre conseguiu um violino artesanal que apenas poucos

milheunáreus possuem.Esse instrumento tão raro pertence ao chamado período dourado

de Stradivarius que vai de 1700 a 1720.São os Stradivárius mais cobiçados pelos

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Atormentado

coleceunadores de instrumentos musicais.Pois eu vou contar como consegui.Quando eu

tinha apenas oito anos eu caminhava pela praia em busca de conchas. Ví a distancia

um casal de jovens discutindo em voz alta.Acho que eram namorados ou coisa assim.A

mulher chorava muito e puxava o homem pela camisa.Percebi que ele falava muitos

palavrões.Não se pareciam com ninguém do povoado,pois seus trajes eram finos e apesar

da discussão tinham um certo ar de refinamento.Tive medo de me aproximar.Mas fiquei

escondido atrás de um rochedo vendo o desenrolar da cena.Num determinado momento a

moça que por sinal era muito bonita pegou uma caixa e tirou de dentro o violino.Imaginei

na hora que ela fosse tocar mas para minha surpresa ela golpeou a cabeça do homem

jogou o violino no chão e saiu correndo.O homem curvou-se para frente desorientado com

uma das mãos sobre a cabeça.Algumas pessoas que passavam pelo local foram auxiliar o

rapaz.Nesse momento eu também me aproximei.Percebi que ele estava com um ferimento

na cabeça.Sangrava um pouco mas não parecia ser nada grave.Um homem que estava de

carro saiu com ele para um hospital.As pessoas foram se dispersando.E eu continuei atrás

do rochedo e o Stradivarius danificado sobre a areia quente da praiaMinha primeira

reação foi pegar o violino.Verifiquei se não havia ninguém por perto.Saí correndo.Peguei o

violino rapidamente e o depositei na caixa sem me dar conta do valor incalculável do

instrumento.Em poucos minutos estava eu na porta da minha casa analisando o dano do

violino.Ele estava com uma rachadura de ponta a ponta provavelmente provocado pela

colisão entre madeira e crâneu.Levei o instrumento para dentro de casa contei aos meus

pais o que havia acontecido e pedi que meu pai concertasse.

— Porca miséria! Só me traz trabalho e dor de cabeça este impiastro! — resmungou

meu pai.Depois de uma saraivada de palavrões ele deixou o violino em perfeito estado.

(apesar da aversão ao trabalho meu pai era caprichoso e os poucos móveis que tínhamos

em nosa casa eram de carvalho construidos por ele)

Minha sorte era que meu pai não entendia nada de violino na época assim como

eu,caso contrário teria vendido imediatamente se soubesse o seu valor.Meu curso de

violino durou pouco tempo.Com a evasão dos alunos a igreja resolveu extinguir o curso.Foi

uma pena,eu já conseguia tirar algumas notas de grandes nomes como Bach,Strauss,Villa

Lobos,Mozart.Eu adorava música clássica.Me relaxava e me fazia refletir.

— Isso é coisa de bicha — dizia me pai.

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Patrícia Franconere

Lamentavelmente meu pai era um homem grosseiro,egoísta,insensível preguiçoso e

covarde.Sim,pois só um covarde bate em mulher,só um covarde vive as custas delas e só

um covarde chama um filho de bicha.Acho que sua intenção era a de pulverizar a minha

dignidade.As vezes eu me questeunva se meu pai gostava de mim.Eu sentia falta de um

aprofundamento maeur da nossa relação de pai e filho.Mas cada vez que eu tentava me

aproximar ele me enxotava de perto sumariamente.Cada vez que eu abria a minha boca

que eu queria conversar,jogar conversa fora até mesmo para fazer um agrado ele me

afastava com retórica.

“— É melhor ficar de boca fechada e parecer um idiota,do que abri-la e retirar

totoalmente a dúvida.”_Essa era a frase que eu mais ouvi na minha vida.E era a frase que

meu pai mais gostava de dizer.E acho que foi por causa dessa frase que me tornei um

homem econômico nas palavras.

3

Creio em Deus-Pai, todo poderoso,

criador do céu e da terra

e em Jesus cristo seu único filho, Nosso Senhor

que foi concebido pelo poder do Espírito Santo

nasceu da Virgem Maria

Padeceu sob Poncio Pílatos

Foi crucificado, morto e sepultado

desceu a mansão dos mortos

ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus

está sentado à direita de Deus Pai todo poderoso

de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos

Creio no Espírito Santo,

na Santa Igreja Católica

na comunhão dos Santos

Na remissão dos pecados

na ressurreição da carne

na vida eterna

Amém.

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Atormentado

Eu estava de joelhos ao lado da minha cama fazendo minha oração antes de dormir.

Havia passado duas semanas do dia em que Marcello me confidenciou a respeito da

suposta viagem do meu pai ao Brasil. Eu preferi não contar nada a minha mãe afinal eu

não sabia se era verdade ou fruto da imaginação fértil do Marcello.Mas naquela

noite,quando me deitei na cama ouvi gritos de minha mãe que vinha da cozinha.

— Seu maldito! Como ousa me falar uma coisa dessas com esta cara deslavada?

Não me dei ao trabalho de escutar a discussão atrás da porta visto que meus pais

gritavam para o Vaticano ouvir.

— Mas como você vai para o Brasil? Sozinho ainda por cima! Com que dinheiro?

Meu pai engoliu a seco e tentou se explicar sem muito êxito.

— Aqui eu não tenho trabalho porca miséria! Eu quero dar uma vida melhor para

minha família entendeu?

Se algum estranho entrasse naquela cozinha naquele exato instante e ouvisse o

discurso improvisado de meu pai poderia até pensar que ele estava sendo sincero.

— Quem não te conhece que te compre seu vagabundo! (parece que minha mãe

ouviu meus pensamentos).

Meu pai começou a elevar mais a voz. Eu o conhecia o suficiente para saber que

faltava muito pouco para começar as agressões. Minhas pernas começaram a tremer e eu

comecei a suar frio. Não demorou para que eu ouvisse o som da pancadaria.Me enchi de

coragem e fui até a cozinha.Assim que entrei só tive tempo de ver o clássico arremesso de

chinelo do meu pai na rota da minha testa.Foi certeiro.O galo se fez na hora.Como

sempre meu pai saiu batendo a porta.E eu com a testa ardendo tentei consolar a massa de

material humano que se esparramava no chão e que habitualmente eu chamava de mãe.

— O maldito do seu pai disse que vai para o Brasil para trabalhar e acha que eu

acredito. O maldito quer mesmo se livrar da gente.

— Não fala assim mãe. Quem sabe não é verdade?

Ela invocou a santa.

_Madona da Achiropita! Suplico-lhe que interceda a meu favor e não permita que meu

marido se vá para terras estrangeiras!

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Patrícia Franconere

Pela primeira vez na minha vida minha mãe me envolveu nos seus braços. Confesso

que não me senti muito confortável, afinal de contas aquele tipo de demonstração de afeto

não fazia parte do nosso cotidiano. Fiquei arisco e me desvencilhei dos seus braços com

certo alivio e uma pitada de repugnância. Meu Deus, que pecado pensei. Mas não pude

evitar. Era um sentimento intrínseco. Fiz o sinal da cruz sem que ela percebesse. Senti-me

mal naquela noite. Poderia ter contado a minha mãe a respeito da viagem, mas não o fiz.

Acho que errei por omissão.Talvez se eu a tivesse alertado essa briga toda teria sido

evitada.Mas como na maioria das vezes eu nunca sei o que é certo e o que é errado.Omitir

ou fazer intriga.É difícil.

Os dias foram se arrastando. Minha mãe inconsolável e inconformada mal olhava

para o meu pai. Quando por algum momento seus olhares se cruzavam pareciam sair

faíscas.Ele por sua vez não se preocupava sequer em disfarçar que estava ansioso.Estava

estampado em sua cara a felicidade de ir para o Brasil.Apesar de dizer que sua ida ao

Brasil era meramente em busca de trabalho e novas oportunidades, quem o conhecia bem

como eu e minha mãe sabíamos que no fundo a ida dele ao Brasil não passava de

turismo.

Já era tarde da noite. Eu estava em meu quarto deitado, mas o sono não vinha. Da

cama vi minha mãe entrar no quarto dela. As portas dos nossos quartos davam uma de

frente com a outra por isso pude ver tudo o que acontecia.

Meu pai organizava pela “centelhonésima” vez a mala de viagem.

— Onde foi que você conseguiu essa mala? — perguntou minha mãe na tentativa de

iniciar uma conversa civilizada.

— O Pepe me emprestou.

Minha mãe ficou de pé olhando para a mala velha de material acartonado e ferragens

oxidadas. Ela parecia querer se atirar dentro dela sem que meu pai visse para ser mais

uma clandestina. Ele o clandestino do navio e ela a clandestina da mala.

Vá,vá,vá, vá. Fala logo o que você quer! perguntou meu pai impaciente.

— Eu quero saber para onde você vai. — perguntou minha mãe com voz chorosa.

_Porca miséria! Já não disse que vou para o Brasil?

— Mas o Brasil pelo que eu vi no mapa do Ferdinando é muito grande. Quero saber

em que cidade você vai ficar!

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Atormentado

— E quem foi que mandou você olhar no mapa? Quantas vezes vou ter que dizer

para você cuidar da tua vida e não se meter na minha? (minha mãe se corroia por dentro

cada vez que ele dizia para cada um cuidar da sua vida).

— Eu não posso fazer isso porque sua vida faz parte da minha! Você é meu marido

e me deve respeito e satisfação. Você não pode decidir sozinho que vai morar em outro

país. Somos casados!

— Sou eu quem paga as contas aqui dessa casa por isso eu decido o que se deve

fazer.

— Faz muito tempo que você não paga as contas. Você não quer e não gosta de

trabalhar.Que balela é essa agora? Está bancando o homem responsável só para poder

se aventurar num país estranho. Se quer tanto trabalhar arrume um emprego por aqui

mesmo. Não abandone sua mulher e filho. Não temos com que contar.

Assim que eu arranjar um maldito emprego mando dinheiro para vocês. Se é com

isso que está preocupada. Depois que eu conseguir guardar uma boa quantia mando as

passagens de navio para vocês dois.

— Mas eu quero ir agora com você!

— Agora é impossível.

— Impossível por quê? Se você pode entrar no navio como clandestino eu e o

Ferdinando também podemos. Ficaremos quietos escondidos dentro de uma caixa de

madeira se for preciso,mas queremos ir com você...Por favor!

— Não! Já disse que não! Vou para São Paulo se é isso que tanto quer saber. O

Navio vai aportar no Porto de Santos de lá vou cidade deT São Paulo, para o Bairro do

Bexiga onde mora o amigo do Pepe. Ele mora em uma pensão e provavelmente vou me

instalar por lá.

— Eu não acredito que você virá nos buscar. — revelou minha mãe desanimada.

— Cazzo! O que eu preciso fazer para você acreditar em mim?

As pernas de minha mãe cambalearam e ela sentou-se na cama.

É difícil de admitir, mas minha mãe estava sofrendo por ter que se separar de meu

pai. Quem pode explicar o amor? Apesar dos maus tratos ela ainda o amava. Eu as vezes

ficava sentado num canto qualquer da casa de pedra olhando para minha mãe.Sua tristeza

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Patrícia Franconere

emoldurava seu rosto.Daí então eu me perguntava: Porque ela ainda gosta do meu pai? O

que leva uma mulher apanhar do marido e continuar a gostar dele? Que mistérios do

coração são esses que não conseguimos desvendar?

— Já faz tanto tempo que você não me procura... Sinto falto do seu cheiro..Do seu

corpo no meu...

— Eu não tenho tempo para isso agora! Preciso terminar de arrumar essa mala!

— Mas que tanto você tem para arrumar? Você só tem meia dúzia de ceroulas

velhas! O que tanto tem para arrumar?

Acho que minha mãe queria que ele se preocupasse com ela. Mas ele se mantinha

impassível.

Meu pai por algum motivo que desconheço ocultava a data da partida. Isso irritava

ainda mais a minha mãe. Se sentindo sem chão ela tornou-se uma pessoa mais irritadiça

que o de costume. Qualquer zumbido de mosca a tirava do sério por esse motivo passei a

ficar mais tempo tocando meu violino.Minha mãe vez ou outra entrava sorrateira no meu

quarto de paredes verdes e ficava encostada no batente da porta vendo eu tocar.Por

várias vezes percebi as lágrimas correndo de seus olhos,mas eu fingia que não via e

continuava a tocar.Minha mãe sentia orgulho de ter um filho músico.As vezes acontecia de

irmos a alguma festa e sempre que possível ela pedia que eu tocasse para as pessoas

presentes.Apesar de gostar muito de tocar meu violino me sentia constrangido,mas não

tinha coragem de negar nada a minha mãe.

— O dia que eu tiver muito dinheiro pago um curso de violino, o melhor que tiver para

você. _dizia minha mãe com a esperança de dias melhores.— Quem sabe não te mando

para Roma para estudar num conservatório!

Cada vez que ela dizia isto eu me enchia de esperanças, mas a realidade foi muito

diferente muito mais dura que eu podia imaginar.

4

Eu e minha mãe estávamos fazendo compras no centro de Crotone. Para aumentar a

economia doméstica e principalmente para esquecer e aliviar a dor que provocava a ida de

meu pai ao Brasil ela passou a fazer conservas de berinjela para vender e a freguesia

para nosso espanto aumentava a cada dia.Minha mãe como a maioria das mães italianas

tinha o dom para a culinária que era a receita do sucesso.Por esse motivo o dinheiro

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Atormentado

entrava um pouco mais na nossa casa.Deixamos de comer peixe todos os dias.Vez ou

outra minha mãe me surpreendia com um polpetone suculento ou irresistíveis

bracholas.Acho que no fundo ela queria segurar meu pai pelo estômago mas se essa era

realmente sua intenção não provocou alteração alguma.Ele continuava se planejando para

viagem e ainda por cima confiscava uma boa soma em dinheiro que ela guardava dentro

de uma lata de biscoitos sobre o armário de carvalho da cozinha.

Estávamos andando pela rua do comércio onde se espalhavam pequenas quitandas

e mercadinhos. As frutas frescas eram postam em bancadas nas portas das quitandas e o

mercadinhos estavam lotados de pessoas.Eu tocava mentalmente a Nona Sinfonia de

Beethoven quando senti que minha mãe puxava meu braço.

— Olha só quem está ali!

Olhei mas não consegui identificar ninguém entre a multidão de pessoas que

passavam pela rua.

— Que vagabunda! Olha só como se veste a biscate!

— Quem mãe? Perguntei enquanto olhava para os lados.

_Aquela vagabunda da Amparo. — minha mãe tremia feito vara verde. Não sei se

olhar que ela lançava a Amparo era de ódio ou de inveja.A mulher era realmente linda e

naquele dia ensolarado estava simplesmente divina dentro de um vestido vermelho tomara

que caia colado ao corpo com uma fenda generosa atrás .Seus seios quase pulavam par

fora do decote e um lenço branco protegia sua cabeça do sol.Tudo isso se equilibrava

sobre uma sandália vermelha de salto Luiz XV.Enquanto minha mãe como sempre se

vestia com vestidos puídos do tempo sempre em tons fechados e sandália rasteira com as

unhas por fazer.

— Onde essa vaca pensa que vai desse jeito? Para um matadouro?

Minha mãe levantou o tom da voz e os transeuntes começavam a olhar para ela.

— Mãe, fala mais baixo! — pedi.

— Falar mais baixo por quê? É uma biscate mesmo?

Nesse momento Amparo viu minha mãe e começou a rebolar para provocá-la. Entrou

em seguida numa farmácia de balcões e armários de madeira escurecidos.Sem perder

tempo minha mãe me puxou e antes que eu pudesse respirar já estávamos dentro da

farmácia.

— Isso daqui virou um bordel! Qualquer puta entra e sai.

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Patrícia Franconere

O farmacêutico que estava no balcão quase engoliu a Amparo com os olhos e sequer

deu atenção a minha mãe.

— Precisa de algo minha senhora? — perguntou o solícito farmacêutico a bela

Amparo.

— O que essa aí precisa está no meio das suas pernas! — informou minha mãe.

Não entendi muito bem o que ela queria dizer, mas senti que não era nada bom.

— Como ousa se referia a mim desta maneira? — perguntou a Amparo visivelmente

irritada.

— E como acha que eu deveria me referia a uma vagabunda que anda por aí se

deitando com homens casados?

— Por favor, minhas senhoras... Isto aqui é uma farmácia! Tenham compostura! —

pediu o farmacêutico educadamente.

_Deveriam proibir mulheres como essa aí de andar pelas ruas misturadas com gente

de bem! — disse minha mãe enquanto apontava para Amparo. Para minha infelicidade as

pessoas que passavam pela rua perceberam a tensão e foram se amontoando na calçada

para ver do que se tratava. Um a um foi entrando.Homens,mulheres,crianças...

— Mulheres como essa aí o quê? Bela você quer dizer? — perguntou Amparo com

sarcasmo.

— Não, puta eu quis dizer! — respondeu minha mãe sem papas na língua._Diga-me

uma coisa farmacêutico; a Mercedes sabe que esse tipo de mulher anda freqüentando a

sua farmácia?

O homem deu de ombros sem saber o que responder.

— Escuta aqui minha senhora, se a senhora não é capaz de segurar o seu homem

dentro

de casa isso é problema seu não meu. Não tenho culpa se os homens se sentem

atraídos por mim.

— Com essas tetas para fora qualquer homem se sente atraído. Você não passa de

uma prostituta

— Isso é inveja sua ciscranna velha! Teu marido não agüenta mais esse teu cheiro

de cebola e esse teu corpo roliço de batata holandesa!

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Atormentado

—Sua bagaça!

—É a tua mãe!

Eu começava a me sentir como se estivesse no epicentro de um terremoto. Os abalos

sísmicos se aproximavam e eu não tinha para onde correr já que minha mãe me segurava

com força pelo pulso. Não saberia dizer qual das duas tinha a língua mais afiada ou

lançava mais impropérios. A única coisa que eu sabia era que estava com medo e

vergonha do que estava prestes a acontecer. Dentro da minha cabeça eu continuava a

ouvir a nona sinfonia de Beethoven.

— Mulher que só corre atrás do cazzo de homem casado é puta! PUTA!

— Você vai ver quem é a puta sua vaca gorda!

Dona Amparo atirou-se violentamente para cima de minha mãe que por sua vez

soltou rapidamente meu pulso para se atracar ferozmente com a Amparo.

— Pare com isso mãe, por favor! — eu gritava encostado no balcão.

A luta durou poucos rounds. As duas mulheres maduras rolaram no chão. Cabelos

foram puxados, tapas foram trocados e vestidos foram rasgados. Ninguém apartava a

briga. Estavam todos apreciando a briga das duas mulheres iradas. A briga só foi

interrompida quando num último gesto de fúria minha mãe puxou violentamente o vestido

da dona Amparo. Seus seios fartos e rijos saltaram para fora e assim ficaram

esplendorosos por algum tempo até o farmacêutico quase sem fôlego oferecer-se para

ajudá-la a tampá-los com a ajuda de uma toalha. Nunca me esquecerei daquele dia, mas

não por causa da vergonha que minha mãe me fez passar, mas por ser a primeira vez que

vi um par de seios nus bem na minha frente e a primeira vez que senti desejos por uma

mulher. Minha santa mãe que me perdoe esteja ela onde estiver, mas naquele dia descobri

porque meu pai gostava tanto da presença daquela mulher; com certeza por causa do

desejo incontrolável que ela despertava nos homens de tocar e ser tocado por uma

mulher.E eu quis naquele momento ser tocado por ela e poder tocar em seus seios firmes