Auto Da Compadecida por Ariano Suassuna - Versão HTML

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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por

dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.

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O grande acontecimento do Primeiro Festival de Amadores Nacionais, realizado em janeiro de 1957, no Rio de Janeiro, por iniciativa da Fundação Brasileira de Teatro, foi a

representação pelo Teatro Adolescente do Recife, sob a direção de Clênio Wanderlei, do

Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Se a interpretação era boa, considerado aquilo que se pode exigir de um grupo amador novo e constituído de elementos jovens e, portanto, até certo ponto inexperientes, o que, por outro lado, tinha a vantagem de dar ao espetáculo um tom de simplicidade, de despojamento, de espontaneidade, que correspondia ao espírito da peça e se enquadrava, no estilo de apresentação que mais lhe convinha, a verdade é que foi o texto em si o causador do entusiasmo despertado.

Suassuna diz que sua obra se baseia nos romances e histórias populares do Nordeste, os quais, devemos confessar, desconhecemos totalmente. Por nosso lado, encontramos em “A

Compadecida” um parentesco com gêneros mais antigos, de outras épocas e regiões que,

todavia, devem ter sido de algum modo a origem remota daqueles que a inspiraram.

Enquadramo-la, inicialnente, na tradição das peças da Alta Idade Média, geralmente

designadas como Milagres de Nossa Senhora (do séc. XIV), em que, numa história mais ou

menos - e às vezes muito - profana, o herói em dificuldades apela 9

para Nossa Senhora que comparece e o salva tanto no plano espiritual como temporal.

Quanto à forma e ao tratamento, nossa tendência é para aproximar a obra dos autos de Gil e do teatro espanhol do séc.XVII. Também lhe encontramos algo em comum com a commedia

dell’arte, tanto no desenvolvimento da ação como ‘na concepção das personagens,

particularmente na figura de João Grilo, que lembra muito as características do “arlequim”, embora seja um tipo autenticamente brasileiro e não copiado da tradição ita liana, mesmo porque é figura lendária da literatura popular nordestina, tanto que é herói de dois romances intitulados As Proezas de João Grilo.

Desta vez, porém, a aproximação de um texto brasileiro com formas e até temas dos grandes gêneros da história do teatro não é apontada como defeito, pois não houve cópia, imitação servil ou mera transposição, mas autêntica recriação em termos brasileiros, tanto pela

ambientação como pela estruturação, sendo uma obra inédita em suas características, nova e, portanto, absolutamente original.

O seu encanto está nesse ar de ingenuidade que a caracteriza, na singeleza dos recursos empregados, ‘no primarismo do argumento, tudo a nosso ver perfeitamente dentro do espírito popular em que a obra se inspira e que quer manter.

A linguagem desabrida não deve chocar ninguém. É a das personagens e do ambiente

retratados. Em Gil Vicente encontramos coisas muito piores. Com expressões por vezes rudes e outras pitorescas, o autor conseguiu um diálogo eminentemente teatral, vivo e saboroso, colorido e descritivo, popular sem ser vulgar e paradoxalmente literário, nada tendo de precioso ou alentejouloso. E essa pseudogrosseria e o jeito direto de indicar situações ou comenta-las não lhe tiram o sentido cristão que lhe encontramos. É preciso não esquecer que se quis evocar uma representação de circo, uma farsa muito marcada, portanto, em que a

caricatura tinha de ser forte. Quanto à maneira como são apresentados o bispo e o padre, além do que ficou dito acima, forçoso é reconhecer não ser absurdo admitir a existência de maus sacerdotes. O próprio autor, ao agradecer as manifestações que lhe foram feitas no fim da última representação de sua peça, no Teatro Dulcina, reafirmou o sentido católico da mesma, lembrando, a propósito de sua personagem, o famoso bispo Cauchon, que se fez instrumento da política dos ingleses, queimando na fogueira sua compatriota Joana d’Arc, do que resultou venerar a igreja uma santa por ela própria martirizada. E foi, até falando dessa figura, se não nos enganamos, que Georges Bernanos disse que a Igreja eram os seus santos e não os seus padres...

Além do mais, no julgamento - verdadeira chave para a compreensão do sentido da peça -

Nossa Senhora explica que a visão que dessas figuras nos é dada é a da língua do mundo, portanto piorada, do mesmo modo que pela acusação do diabo.

E um ponto importante, nesse particular, é o fato de ao lado dos dois maus padres, ser

colocado um bom, o frade, secretário do bispo, cujo processo de santificação se anuncia. A apresentação da figura

De modo um tanto caricatural não nos deve fazer incidir em equívoco. O tom é o da peça e -

note-se - dele são excluídos o Cristo e Nossa Senhora. No mais, o frade sugere, um pouco à maneira como Roberto Rosseilini concebeu São Francisco e seus companheiros no famoso

filme Francisco, Arauto de Deus, a pureza angelical, a santidade, o desligamento das coisas do mundo, do modo como é indicado no v. 8 do cap. 18 do Evangelho segundo São Mateus:

tornar-se igual às crianças para poder entrar no reino do céu.

O sentido moralizante, moralizantes do ponto de vista cristão, da obra, está, aliás, presente tanto na linha geral, como em inúmeros de seus pormenores, que não seria possível evocar aqui. É lógico, porém, que não contém profundas discussões teológicas, nem faz propriamente apologética, o que seria absurdo, O seu apostolado é feito através da sugestão de um espírito cristão, de uma visão cristã da vida, apresentada com a simplicidade do espírito popular, da fé simples, sem complicações, do povo, quase sempre a mais autêntica.

Não queremos silenciar sobre uma fala que tem sido muito discutida. Quando João Grilo se espanta ao ver o Cristo negro, este responde que veio assim para mostrar que para ele tanto faz ser branco como preto, uma vez que não é “americano para ter preconceito de cor”.

Ora, em primeiro lugar, durante a guerra houve bases americanas no Nordeste, cujo ambiente e mentalidade a peça evoca. Possivelmente seus ocupantes, com a inabilidade característica que manifestam no trato com outros povos, deram abundantes provas desse seu lamentável

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sentimento. Portanto, a repulsa pode ali ser suficientemente forte, para que o autor se sentisse levado a trazê-la para sua peça.

Em segundo lugar, esse preconceito realmente revolto, como um dos sentimentos mais

anticristãos que possam existir; a sua presença - com a sabida intensidade - num povo que é ou pelo menos pretende ser um paladino da liberdade e da democracia é

algo que clama ao céus.

Noutro trecho da cena do julgamento, quando João Grilo procura recorrer a mais uma

esperteza, para livrar-se da acusação do diabo, Cristo o adverte: “Deixe de chicana, João.

Você pensa que isto aqui é o Palácio da Justiça?”.

Tanto pois dessa réplica, como da referente ao preconceito de cor - das três vezes em que vimos a peça no Dulcina - o povo prorrompia em aplausos. Era a emoção irresistível de sentir o Cristo do seu lado, pois a Justiça, infelizmente como é praticada, sufocada por formalismos e complicações que possibilitam a deturpação de seus verdadeiros objetivos, é antes uma ameaça que uma garantia aos olhos do povo.

Acusa ainda o Cristo o diabo de ser “meio espírita” e conseqüentemente de ter a “mania de ser mágico”. Esses e outros trechos do Cristo e de Nossa Senhora dão uma concepção da

religião como algo simples, agradável, doce e não como uma coisa formal, solene, difícil e mesmo penosa. Essa intimidade com Deus, e a idéia da simplicidade nas relações dele com os homens, essa compreensão da vida e fé na misericórdia, nos parecem aspectos primordiais no sentido religioso da obra, sobre o qual muito haveria que dizer, não nos tivéssemos já

alongado demais. Por isso, limitemo-nos a lembrar a compreensão das faltas humanas,

atribuída a Nossa Senhora, que, como mulher, simples e do povo, as explica e pede para elas a compaixão divina. Mesmo para aqueles que “praticaram atos vergonhosos”, pois “é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem”. “A carne implica todas essas coisas turvas e mesquinhas”. Levados pelo medo, “os homens terminam por fazer o que não presta, quase sem querer”. E como o diabo - por nunca ter sido homem - não entende o que é o medo, as personagens explicam que é o medo da fome, do sofrimento, da morte e da solidão. Por medo desta o padeiro tudo perdoava à

mulher. Essa solidão que o próprio Cristo viveu em Getsêmani e a sensações de abandono que sentiu na Cruz.

De tudo o que ficou dito, o leitor concluirá que é um programa da humanidade, com suas

misérias, suas fraquezas, mas também suas razões de consolo e esperança, que “A

Compadecida”

evoca. É esse, justamente, o grande mérito do autor e a evidência da qualidade de sua obra: ter conseguido, a partir de uma situação local, regional, típica mesmo, compor um quadro de significação universalmente válida.

HENRIQUE OSCAR.

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EPÍGRAFES

O DIABO

Lá vem a compadecida! Mulher em tudo se mete!

MARIA

Meu filho perdoe esta alma,

Tenha dela compaixão

Não se perdoando esta alma,

Faz-se é dar mais gosto ao cão:

Por isto absolva ela,

Lançai a vossa bênção.

JESUS

Pois minha mãe leve a alma,

Leve em sua proteção,

Diga às outras que recebam,

Façam com ela união.

Fica feito o seu pedido,

Dou a ela a salvação.

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O Castigo da Soberba, auto popular, anônimo, do romanceiro nordestino.

*

Mandou chamar o vigário:

Pronto! - o vigário chegou.

- Às ordens, Sua Excelência!

O Bispo lhe perguntou:

Então, que cachorro foi que o reverendo enterrou?

- Foi um cachorro importante,

Animal de inteligência:

Ele, antes de morrer,

Deixou a Vossa Excelência

Dois contos de réis em ouro.

Se eu errei, tenha paciência.

- Não errou não, meu vigário,

Você é um bom pastor.

Desculpe eu incomodá-lo,

A culpa é do portador!

Um cachorro como esse,

Se vê que é merecedor!

O Enterro do Cachorro, romance popular anônimo do Nordeste.

Foi na venda e de lá trouxe

Três moedas de cruzado

Sem dizer nada a ninguém

*

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Para não ser censurado:

No fiofó do cavalo

Fez o dinheiro guardado.

Disse o pobre: - “Ele está magro”,

Só tem o osso e o couro,

Porém, tratando-se dele,

Meu cavalo é um tesouro.

Basta dizer que defeca

Níquel, prata, cobre e ouro.

História do Cavalo que Defecava Dinheiro, romance popular anônimo do Nordeste.

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O Auto da Compadecida foi encenado pela primeira vez a 11 de setembro de 1956, no Teatro Santa Isabel, pelo Teatro Adolescente do Recife, sob direção de Clênio Wanderley, sendo os papéis criados pelos seguintes atores:

PALHAÇO-José Pinheiro

JOÃO GRILO -Ricardo Gomes

CHICÓ-Clênio Wanderley

PADRE JOÃO- Sandoval Cavalcânti

ANTÔNIO MORAIS-José de Sonsa Pimentel

SACRISTÃO-Alberique Farias

PADEIRO-Luís Mendonça

MULHER DO PADEIRO-Nina Elva

BISPO-Eutrópio Gonçalves

FRADE- Mário Boavista

SEVERINO DO ARACAJU-Otávio Catanho

CANGACEIRO- Artur Rodrigues

DEMÓNIO- Mário Boavista

O ENCOURADO (O DIABO)- José de Sonsa Pimentel MANUEL (Nosso SENHOR JESUS

CRISTO)- José Gonçalves A COMPADECIDA (NOSSA SENHORA)- Maria do Socorro

Raposo Meira.

A 11 de março de 1967, a peça foi encenada em São Paulo pelo

“Studio Teatral”, sob direção de Hermilo Filho, no Teatro Natal, sendo os papéis

representados pelos seguintes atores: PALHAÇO- José Pinheiro

JOÃO GRILO-Armando Bagos

CHICÓ-Nélson Duarte

PADRE JOÃO-Felipe Cafuné

ANTÔNIO MORAIS-Teotônio Pereira

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SÁCRISTÃO-Samuel dos Santos

PADEIRO-Taran Dach

MULHER DO PADEIRO-Cici Pinheiro

BISPO-Thales Maia

FRADE-Ângelo Diaz

SEVERINO DO ARACAJU-Renato Master

CANGACEIRO-Jorge Nader

DEMÓNIO-Mílton Gonçalves

O ENCOURADO (O DIABO)-Dalmo Ferreira

MANUEL (Nosso SENHOR JESUS CRISTO)-Mílton Ribeiro A COMPADECIDA (NOSSA

SENHORA)-Córdula Reis O Auto da Compadecida foi escrito com base em romances e

histórias populares do Nordeste. Sua encenação deve, portanto, seguir a maior linha de

simplicidade, dentro do espírito em que foi concebido e realizado. O cenário (usado na

encenação como um picadeiro de circo, numa idéia excelente de Clênio Wanderley, que a

peça sugeria) pode apresentar uma entrada de igreja à direita, com uma pequena balaustrada ao fundo, uma vez que o centro do palco representa um desses pátios comuns nas igrejas das vilas do interior.. A saída para a cidade é à esquerda e pode ser feita através de um arco.

Nesse caso, seria conveniente que a igreja, na cena do julgamento, passasse a ser entrada do céu e do purgatório. O trono de Manuel, ou seja, Nosso Senhor, Jesus Cristo, poderia ser colocado na balaustrada, erguida sobre um praticável servido por escadarias. Mas tudo isso fica a critério do ensaiador e do cenógrafo, que podem montar a peça com dois cenários, sendo um para o começo e outro para a cena do julgamento, ou somente com cortinas, caso em que se imaginará a igreja fora do palco, à direita, e a saída para a cidade à esquerda, organizando-se a cena para o julgamento através de simples cadeiras de espaldar alto, com saída para o inferno à

esquerda e saída para o purgatório e para o céu à direita.

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Em todo caso, o autor gostaria de deixar claro que seu teatro é

mais aproximado dos espetáculos de circo e da tradição popular do que do teatro moderno.

Agradece ainda o autor a seus amigos Jean Louis Marfaing, José Paulo Moreira da Fonseca e Henrique Oscar as críticas que fizeram ao quadro final da peça e que resultaram em sua

modificação para a forma em que vai finalmente escrita aqui.

Ao abrir o pano, entram todos os atores, com exceção do que vai representar Manuel, como se tratasse de uma tropa de saltimbancos, correndo, com gestos largos, exibindo-se ao público.

Se houver algum ator que saiba caminhar sobre as mãos, deverá entrar assim. Outro trará uma corneta, na qual dará

um alegre toque, anunciando a entrada do grupo. Há de ser uma entrada festiva, na qual as mulheres dão grandes voltas e os atores agradecerão os aplausos, erguendo os braços, como no circo. A atriz que for desempenhar o papel de Nossa Senhora deve vir sem caracterização, para deixar bem claro que, no momento, é somente atriz. Imediatamente após o toque de

clarim, o Palhaço anuncia o espetáculo.

PALHAÇO, grande voz

Auto da Compadecida! O julgamento de alguns canalhas, entre os quais um sacristão, um

padre e um bispo, para exercício da moralidade.

Toque de clarim.

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PALHAÇO

A intervenção de Nossa Senhora no momento propício, para triunfo da misericórdia.

Auto da Compadecida!

Toque de clarim

A COMPADECIDA

A mulher que vai desempenhar o papel desta excelsa Senhora, declara-se indigna de tão alto mister.

Toque de clarim.

PALHAÇO

Ao escrever esta peça, onde combate o mundanismo, praga de sua igreja, o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém, que sua alma é um velho catre, cheio de insensatez e de solércia. Ele não tinha o direito de tocar nesse tema, mas ousou fazê-lo, baseado no espírito popular de sua gente, porque acredita que esse

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povo sofre, é um povo salvo e tem direito a certas intimidades.

Toque de clarim.

PALHAÇO

Auto da Compadecida! O ator que vai representar Manuel, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo, declara-se também indigno de tão alto papel, mas não vem agora, porque sua aparição

constituirá

um grande efeito teatral e o público seria privado desse elemento de surpresa.

Toque de clarim.

PALHAÇO

Auto da Compadecida! Uma história altamente moral e um apelo à misericórdia.

JOÃO GRILO

Ele diz “à misericórdia”, porque sabe que, se fôssemos julgados pela justiça, toda a nação seria condenada.

PALHAÇO

Auto da Compadecida! (Cantando.) Tombei, tombei, mandei tombar!

ATORES, respondendo ao canto

Perna fina no meio do mar.

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PALHAÇO

0i, eu vou ali e volto já.

ATORES, saindo

Oi, cabeça de bode não tem que chupar.

PALHAÇO

o distinto público imagine à sua direita uma igreja, da qual o centro do palco será o pátio. A saída para a rua é à sua esquerda.

(Essa fala dará idéia da cena, se adotar uma encenação mais simplificada e pode ser

conservada mesmo que se monte um cenário mais rico.) O resto é com os atores.

Aqui pode -se tocar uma música alegre e o Palhaço sai dançando. Uma pequena pausa e

entram Chicó e João Grilo.

JOÃO GRILO

E ele vem eu Estou desconfiado,

Chicó. Você é tão sem confiança!

CHICÓ

Eu, sem confiança? Que é isso, João, está me desconhecendo?

Juro como ele vem. Quer benzer o cachorro da mulher para ver se o bicho não morre. A

dificuldade não é ele vir, é o padre benzer. O bispo está aí e tenho certeza de que o Padre João não vai querer benzer o cachorro.

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JOÃO GRILO

Não vai benzer ? Por quê? Que é que um cachorro tem de mais?

CHICÓ

Bom, eu digo assim porque sei como esse povo é cheio de coisas, mas não é nada de mais.

Eu mesmo já tive um cavalo bento.

JOÃO GRILO

Que é isso, Chico? (Passa o dedo na garganta.) Já estou ficando por aqui com suas histórias. É

sempre uma coisa toda esquisita.

Quando se pede uma explicação, vem sempre com “não sei, só

sei que foi assim”.

CHICÓ

Mas se eu tive mesmo o cavalo, meu filho, o que é que eu vou fazer? Vou mentir, dizer que não tive?

JOÃO GRILO

Você vem com uma história dessas e depois se queixa porque o povo diz que você é sem

confiança.

CHICÓ

Eu, sem confiança? Antônio Martinho está para dar as provas do que eu digo.

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JOÃO GRILO

Antônio Martinho? Faz três anos que ele morreu.

CHICÓ

Mas era vivo quando eu tive o bicho

JOÃO GRILO

Quando você teve o bicho? E foi você quem pariu o cavalo, Chico?

CHICÓ

Eu não. Mas do jeito que as coisas vão, não me admiro mais de nada. No mês passado uma

mulher teve um, na serra do Araripe, para os lados do Ceará.

JOÃO GRILO

Isso é coisa de seca. Acaba nisso, essa fome: ninguém pode ter menino e haja cavalo no

mundo. A comida é mais barata e é

coisa que se pode vender. Mas seu cavalo, como foi?

CHICÓ

Foi uma velha que me vendeu barato, porque ia se mudar, mas recomendou todo cuidado,

porque o cavalo era bento. E só podia ser mesmo, porque cavalo bom como aquele eu nunca tinha visto. Uma vez corremos atrás de uma garrota, das seis da manhã até as seis da tarde, sem parar nem um momento, eu a cavalo, ele a pé. Fui derrubar a novilha já de noitinha, mas quando acabei o serviço e enchocalhei ares, olhei ao redor, e não conhecia o lugar onde estávamos. Tomei uma vereda que havia assim e aí tangendo o boi...

JOÃO GRILO

O boi? Não era uma garrota?

CHICÓ

Uma garrota e um boi.

JOÃO GRILO

E você corria atrás do dois de uma vez?

CHICÓ, irritado

Corria, é proibido?

JOÃO GRILO

Não, mas eu me admiro é eles correrem tanto tempo juntos, sem me apertarem. Como foi isso?

CHICÓ

Não sei, só sei que foi assim. Saí tangendo os bois e de repente avistei uma cidade. É uma história que eu não goste nem de contar.

JOÃO GRILO

Conte, conte sempre, você está em casa.

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CHICÓ

Você sabe que eu comecei a correr da ribeira do Taperoá, na Paraíba. Pois bem, na entrada da rua perguntei a um homem onde estava e ele me disse que era Própria, de Sergipe.

JOÃO GRILO

Sergipe, Chicó?

CHICÓ

Sergipe, João. Eu tinha corrido até lá no meu cavalo. Só sendo bento mesmo.

JOÃO GRILO

Mas Chicó, e o rio São Francisco?

CHICÓ

Lá vem você com sua mania de pergunta, João.

JOÃO GRILO

Claro, tenho que saber. Como foi que você passou?

CHICÓ

Não sei, só sei que foi assim. Só podia estar seco nesse tempo, porque não me lembro quando passei...E nesse tempo todo o cavalo ali comigo, sem reclamar nada!

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JOÃO GRILO

Eu me admirava era se ele reclamasse.

CHICÓ

É por causa dessas e de outras que eu não me admiro mais de nada, João. Cachorro bento, cavalo bento, tudo isso eu já vi.

JOÃO GRILO

Quer dizer que você acha que o homem vem?

CHICÓ

Só pode vir. É o único jeito que ele tem a dar. A mulher disse que o larga se o cachorro morrer. O doutor diz que não sabe o que é que o bicho tem, o jeito agora é apelar para o padre. Hora de se chamar padre é a hora da morte, de modo que ele tem de vir. Padre João!

Padre João!

JOÃO GRILO, ajoelhando-se, em tom lamentoso Lembra-te de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Chicó. Chicó, Jesus vai contigo e tu vais com Jesus. Lembra-te de Nosso Senhor Jesus Cristo, Chicó.

CHICÓ

Que latomia é essa para o meu lado? Você quer me agourar?

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JOÃO GRILO, erguendo-se

Ah, e você está vivo?

CHICÓ

Estou, que é que você está pensando? Não é besta não?

JOÃO GRILO

Você disse que hora de chamar padre era a hora da morte, começou a gritar por Padre João, eu só podia pensar que estava lhe dando a agonia.

CHICÓ, depois de estender-lhe o punho fechado Padre João!

JOÃO GRILO

Padre João! Padre João!

PADRE, aparecendo na igreja

Que há? Que gritaria é essa?

Fala afetadamente com aquela pronúncia e aquele estilo que Leon Bloy chamava

“sacerdotais”.

CHICÓ

Mandaram avisar para o senhor não sair, porque vem uma pessoa aqui trazer um cachorro que está se ultimando para o senhor benzer.

PADRE

Para eu benzer?

CHICÓ

Sim.

PADRE, com desprezo

Um cachorro?

CHICÓ

Sim.

PADRE

Que maluquice! Que besteira!

JOÃO GRILO

Cansei de dizer a ele que o senhor benzia. Benze porque benze, vim com ele.

PADRE

Não benzo de jeito nenhum.

CHICÓ

Mas padre, não vejo nada de mal em se benzer o bicho.

JOÃO GRILO

No dia em que chegou o motor novo do major Antônio Morais o senhor não o benzeu?

PADRE

Motor é diferente, é uma coisa que todo mundo benze. Cachorro é que eu nunca ouvi falar.

CHICÓ

Eu acho cachorro uma coisa muito melhor do que motor.

PADRE

É, mas quem vai ficar engraçado sou eu, benzendo o cachorro.

Benzer motor é fácil,

todo mundo faz isso, mas benzer cachorro?

JOÃO GRILO

É, Chicó, o padre tem razão. Quem vai ficar engraçado é ele e uma coisa é o motor do major Antônio Morais e outra benzer o cachorro do major Antônio Morais.

PADRE, mão em concha no ouvido

Como?

JOÃO GRILO

Eu disse que uma coisa era o motor e outra o cachorro do major Antônio Morais.

PADRE

E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais?

JOÃO GRILO

É. Eu não queria vir, com medo de que o senhor se zangasse, mas o major é rico e poderoso e eu trabalho na mina dele. Com medo de perder meu emprego, fui forçado a

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obedecer, mas disse a Chicó: o padre vai se zangar.

PADRE, desfazendo-se em sorrisos

Zangar nada, João! Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar? Falei por falar, mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro!

JOÃO GRILO, cortante

Quer dizer que benze, não é?

PADRE, a Chicó.

Você o que é que acha?

CHICÓ

Eu não acho nada de mais.

PADRE

Nem eu. Não vejo mal nenhum em abençoar as criaturas de Deus.

JOÃO GRILO

Então fica tudo na paz do Senhor, com cachorro benzido e todo mundo satisfeito.

PADRE

Digam ao major que venha. Eu estou esperando.

Entra na igreja.

CHICÓ

Que invenção foi essa de dizer que o cachorro era do major Antônio Morais?

JOÃO GRILO

Era o único jeito de o padre prometer que benzia. Tem medo da riqueza do major que se péla.

Não viu a diferença? Antes era

“Que maluquice, que besteira!”, agora “Não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas de Deus!”.

CHICÓ

Isso não vai dar certo. Você já começa com suas coisas, João. E

havia necessidade de inventar que era empregado de Antônio Morais?

JOÃO GRILO

Meu filho, empregado do major e empregado de um amigo do major é quase a mesma coisa. O

padeiro vive dizendo que é

amigo do homem, de modo que a diferença é muito pouca. Além disso, eu podia perfeitamente ter sido mandado pelo major, porque o filho dele está doente e pode até precisar do padre.

CHICÓ

João, deixe de agouro com o menino, que isso pode se virar por cima de você.

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JOÃO GRILO

E você deixe de conversa. Nunca vi homem mais mole do que você, Chicó. O padeiro mandou você arranjar o padre para benzer o cachorro e eu arranjei sem ter sido mandado. Que é que você quer mais?

CHICÓ

Ih, olha como isso está pegado com o patrão! Faz gosto um empregado dessa qualidade.

JOÃO GRILO

Muito pelo contrário, ainda hei de me vingar do que ele e a mulher me fizeram quando estive doente. Três dias passei em cima de uma cama para morrer e nem um copo dágua me

mandaram. Mas fiz esse trabalho somente porque se trata de enganar o padre. Não vou com aquela cara.

CHICÓ

Com qual? Com a do padre?

JOÃO GRILO

Com as duas. Estou acertando as contas com o padre e a qualquer hora acerto com o patrão.

Eu conheço o ponto fraco do homem, Chicó.

CHICÓ

Qual é? É a besteira?

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JOÃO GRILO

Nada disso, se o ponto fraco das pessoas daqui fosse somente a besteira, ninguém estava livre de mim. Você mesmo é um leso de marca, Chicó. Só não boto você no bolso por que sou seu amigo.

CHICÓ

E qual é o ponto fraco do patrão?

Estas duas últimas falas são cortáveis, a critério do encenador.

JOÃO GRILO

Chicó, deixe de ser hipócrita, que você sabe.

CHICÓ

Juro que não sei, João.

JOÃO GRILO

É a mulher, Chicó, e você sabe muito bem disso. Você mesmo sabe que a mulher dele...

CHICÓ

João, fale baixo, que o padre pode ouvir. Essas coisas num instante se espalham.

JOÃO GRILO

Deixe de besteira, Chicó, todo mundo já sabe que a mulher do padeiro engana o marido.

CHICÓ

João, danado, ou você fala baixo ou eu o esgano já, já.

JOÃO GRILO

Mas todo mundo não sabe mesmo?

CHICÓ

Sabe, mas não sabe que foi comigo, entendeu? E mesmo ela já

me deixou por outro. Uma vez, João, e não posso me esquecer dela. Mas não quer mais nada comigo.

JOÃO GRILO

Nem pode querer, Chicó. Você é um miserável que não tem nada e. a fraqueza dela é dinheiro e bicho.

CHICÓ

Dinheiro e bicho?

JOÃO GRILO

Sim. Tenho certeza de que ela não o teria deixado se você fosse rico. Nasceu pobre,

enriqueceu com o negócio da padaria e agora só pensa nisso. Mas eu hei de me vingar dela e do marido de uma vez.

CHICÓ

Por que essa raiva dela?

JOÃO GRILO

Ó homem sem vergonha! Você inda pergunta? Está esquecido de que ela o deixou?

Está esquecido da exploração que eles fazem conosco naquela padaria do inferno? Pensam

que são o cão só porque enriqueceram, mas um dia hão de me pagar. E a raiva que eu tenho é porque quando estava doente, me acabando em cima de uma cama, via passar o prato de

comida que ela mandava para o cachorro. Até carne passada na manteiga tinha. Para mim,

nada, João Grilo que se danasse. Um dia eu me vingo.

CHICÓ

João, deixe de ser vingativo que você se desgraça. Qualquer dia você inda se mete numa

embrulhada séria.

JOÃO GRILO

E o que é que tem isso? Você pensa que eu tenho medo? Só

assim é que posso me divertir. Sou louco por uma embrulhada.

CHICÓ

Permita então que eu lhe dê meus parabéns, João, porque você

acaba de se meter numa danada.

JOÃO GRILO

Eu? Que há?

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CHICÓ

O major Antônio Morais vem subindo ladeira. Certamente vem procurar o padre.

JOÃO GRILO

Ave-Maria! Que é que se faz, Chicó?

CHICÓ

Não sei, não tenho nada a ver com isso. Você, que inventou a história e que gosta de

embrulhada, que resolva.

JOÃO GRILO

Cale a boca, besta. Não diga uma palavra e deixe tudo por minha conta. (Vendo Antônio

Morais no limiar, esquerda.) Ora viva, seu major Antônio Morais, como vai Vossa Senhoria?

Veio procurar o padre? (Antônio Morais, silencioso e terrível, encaminha-se para a igreja mas João toma-lhe a frente.) Se Vossa Senhoria quer, eu vou chamá-lo. (Antônio Morais afasta João do caminho com a bengala, encaminhando-se de novo para a igreja. João, aflito, dá a volta, tomando-lhe a frente e fala, como último recurso.) É que eu queria avisar para Vossa Senhoria não ficar espantado: o padre está meio doido.

ANTÓNIO MORAIS, parando

Está doido? O padre?

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JOÃO GRILO, animando-se

Sim, o padre. Está dum jeito que não respeita mais ninguém e com mania de benzer tudo. Vim dar um recado a ele, mandado por meu patrão, e ele me recebeu muito mal, apesar de meu

patrão ser quem é.

ANTÓNIO MORAIS

E quem é seu patrão?

JOÃO GRILO

O padeiro. Pois ele chamou o patrão de cachorro e disse que apesar disso ia benzê-lo.

ANTÔNIO MORAIS

Que loucura é essa?

JOÃO GRILO

Não sei, é a mania dele agora. Benze tudo

e chama a gente de cachorro.

ANTÓNIO MORAIS

Isso foi porque era com seu patrão. Comigo é diferente.

JOÃ GRILO

Vossa Senhoria me desculpe, mas eu penso

que não.

ANTÓNIO MORAIS

Você pensa que não?

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JOÃO GRILO

Penso, sim. E digo isso porque ouvi o padre dizer: “Aquele cachorro, só porque é amigo de Antônio Morais, pensa que é

alguma coisa”.

ANTÔNIO MORAIS

Que história é essa? Você tem certeza?

JOÃO GRILO

Certeza plena. Está doidinho, o pobre do padre.

ANTÓNIO MORAIS

Pois vamos esclarecer a história, porque alguém vai pagar essa brincadeira. Quanto à mania de benzer, não faz mal, ele me será

até útil. Meu filho mais moço está doente e vai para o Recife, tratar-se. Tem uma verdadeira mania de igreja e não quer ir sem a bênção do padre. Mas fique certo de uma coisa: hei de esclarecer tudo e se você está com brincadeiras para meu lado, há de se arrepender. Padre João! Padre João!

Sai pela direita. No mesmo instante, CHICÓ tenta fugir, mas João agarra-o pelo pescoço.

JOÃO GRILO

Não, você fica comigo. Vim encomendar a bênção do cachorro por sua causa e você tem

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de ficar. E mesmo, Chicó, você já está acostumado com essas coisas, já teve até um cavalo bento!

CHICÓ

É, mas acontece que o major Antônio Morais pode ter alguma coisa de cavalo, de bento

é que ele não tem nada.

JOÃO GRILO

Deixe de ser frouxo e fique aqui.

ANTÔNIO MORAIS, voltando

Ah, padre, estava aí? Procurei-o por toda parte.

PADRE, da igreja.

Ora quanta honra! Uma pessoa como Antônio Morais na igreja!

Há quanto tempo esses

pés não cruzam os umbrais da

casa de Deus!

ANTÔNIO MORAIS

Seria melhor dizer logo que faz muito tempo que não venho à

missa.

PADRE

Qual o que, eu sei de suas ocupações, de sua saúde...

ANTÔNIO MORAIS

Ocupações? O senhor sabe muito bem que não trabalho e que minha saúde é perfeita.

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PADRE, amarelo

Ah,é?

ANTÔNIO MORAIS

Os donos de terras é que perderam hoje em dia o senso de sua autoridade. Vêem-se senhores trabalhando em suas terras como qualquer foreiro. Mas comigo as coisas são como

antigamente, a velha ociosidade senhorial.

PADRE

É o que eu vivo dizendo, do jeito que as coisas vão, é o fim do mundo. Mas que coisa o trouxe aqui? Já sei, não diga, o bichinho está doente, não é?

ANTÓNIO MORAIS

É, já sabia?

PADRE

Já, aqui tudo se espalha num instante. Já está fedendo?

ANTÓNIO MORAIS

Fedendo? Quem?

PADRE

O bichinho

ANTÓNIO MORAIS

Não. Que é que o senhor quer dizer?

PADRE

Nada, desculpe, é um modo de falar.

ANTÔNIO MORAIS

Pois o senhor anda com uns modos de falar muito esquisitos.

PADRE

Peço que desculpe um pobre padre sem muita instrução. Qual é a doença? Rabugem?

ANTÔNIO MORAIS

Rabugem?

PADRE

Sim, já vi um morrer disso em poucos dias. Começou pelo rabo e espalhou-se pelo resto do corpo.

ANTÔNIO MORAIS

Pelo rabo?

PADRE

Desculpe, desculpe, eu devia ter dito “pela cauda”. Deve-se respeito aos enfermos, mesmo que sejam os de mais baixa qualidade.

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ANTÔNIO MORAIS

Baixa qualidade? Padre João, veja com quem está falando. A igreja é uma coisa respeitável, como garantia da sociedade, mas tudo tem um limite.

PADRE

Mas o que foi que eu disse?

ANTÓNIO MORAIS

Baixa qualidade! Meu nome todo é Antônio Noronha de Brito Morais e esse Noronha de Brito veio do Conde dos Arcos, ouviu? Gen te que veio nas caravelas, ouviu?

PADRE

Ah bem e na certa os antepassados do bichinho também vieram nas galeras, não é isso?

ANTÔNIO MORAIS

Claro! Se meus antepassados vieram, é claro que os dele vieram também. Que é que o senhor quer insinuar? Quer dizer por acaso que a mãe dele...

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PADRE

Mas, uma cachorra!...

ANTÓNIO MORAIS

O quê?

PADRE

Uma cachorra.

ANTÓNIO MORAIS

Repita.

PADRE

Não vejo nada de mal em repetir, não é uma cachorra mesmo?

ANTÔNIO MORAIS

Padre, não o mato agora mesmo porque o senhor é um padre e está louco, mas vou me queixar ao bispo. (A João.) Você tinha razão. Apareça nos Angicos, que não se arrependerá.

Sai.

PADRE, aflitíssimo

Mas me digam pelo amor de Deus o que foi que eu disse.

JOÃO GRILO

Nada, nada, padre. Esse homem só pode estar louco com essa mania de ser grande. Até ao

cachorro ele quer dar carta de nobreza!

PADRE

Faço tudo para agradá-lo e vai-se queixar ao bispo. Ah se fosse no tempo do outro! Aquele, sim, era um santo, a coisa mais fácil do mundo era satisfazê-lo. Esse dagora é uma águia, um verdadeiro administrador. Será que vai me suspender?

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JOÃO GRILO

Que nada, padre, antes disso eu vou aos Angicos e arranjo tudo.

PADRE

Arranja mesmo, João? Como?

JOÃO GRILO

Deixe comigo. Antônio Morais começou a ser meu amigo de repente. Não viu como me

convidou para ir aos Angicos? Agora é assim, João Grilo pra lá, Antônio Morais pra cá... Está completamente perturbado.

PADRE

Pois arranje as coisas, João, que você não se arrepende.

JOÃO GRILO

Chama-se já está arranjado. Agora, eu queria um favorzinho do senhor padre.

PADRE

Eu já estava esperando por uma dessas. Nessa minha profissão a gente se acostuma de tal modo com isso de dar e tomar... O

próprio direito à graça só se consegue cumprindo os mandamentos

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JOÃO GRILO

O que eu vou pedir é coisa muito mais fácil do que cumprir os mandamentos.

PADRE

Diga então o que é!

JOÃO GRILO

O cachorro de meu patrão está muito mal e eu queria que o senhor benzesse o bichinho.

PADRE

De novo? Mas é possível?

JOÃO GRILO

É mais do que possível. O senhor não ia benzer o do major Antônio Morais?

PADRE

E de quem é que você está falando?

JOÃO GRILO

De meu patrão.

PADRE

E seu patrão não é Antônio Morais?

JOÃO GRILO

Não.

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PADRE

Mas você ainda agora disse isso aqui, João.

JOÃO GRILO

Eu? Quem disse isso foi Chicó.

Chicó dá um grande salto de surpresa.

PADRE

E quem é seu patrão?

JOÃO GRILO

O padeiro.

PADRE

E o cachorro dele também está doente?

JOÃO GRILO

Está.

PADRE

Também, oh terra para ter cachorro doente só é essa!

JOÃO GRILO

E a mania agora é benzer, benzer tudo quanto é de bicho, Ouvem-se, fora, grandes gritos de mulher.

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JOÃO GRILO

É a velha, com o cachorro. Como é, o senhor benze ou não benze?

PADRE

Pensando bem, acho melhor não benzer. O bispo está aí e eu só

benzo se ele der licença. (À esquerda aparece a mulher do padeiro e o padre corre para ele.) Pare, pare! (Aparece o padeiro.) Parem, parem! Um momento. Entre o senhor e entre a

senhora: o cachorro fica lá!

MULHER

Ai, padre, pelo amor de Deus, meu cachorro está morrendo. É o filho que eu conheço neste mundo, padre. Não deixe o cachorrinho morrer, padre.

PADRE, comovido

Pobre mulher! Pobre cachorro!

João Grilo estende-lhe um lenço e ele se assoa ruidosamente.

PADEIRO

O senhor benze o cachorro, Padre João?

JOÃO GRILO

Não pode ser, O bispo está aí e o padre só benzia se fosse o cachorro do major Antônio

Morais, gente mais importante, porque senão o homem pode reclamar.

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PADEIRO

Que história é essa? Então Vossa Senhoria pode benzer o cachorro do major Antônio Morais e o meu não?

PADRE, apaziguador

Que é isso, que é isso?

PADEIRO

Eu é que pergunto: que é isso? Afinal de contas eu sou presidente da Irmandade das Almas, e isso é alguma coisa.

JOÃO GRILO

É, padre, o homem aí é coisa muita. Presidente da Irmandade das Almas! Para mim isso, é um caso claro de cachorro bento.

Benza logo o cachorro e tudo fica em paz.

PADRE

Não benzo, não benzo e acabou-se! Não estou pronto para fazer essas coisas assim de repente.

Sem pensar, não.

MULHER, furiosa

Quer dizer, quando era o cachorro do major, já estava tudo pensado, para benzer o meu é essa complicação! Olhe que meu marido é

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presidente e sócio benfeitor da Irmandade Almas! Vou pedir a demissão dele!

PADEIRO

Vai pedir minha demissão!

MULHER

De hoje em diante não me sai lá de casa nem um pão para a Irmandade!

PADEIRO

Nem um pão!

MULHER

E olhe que os pães que vêm para aqui são de graça!

PADEIRO

São de graça!

MULHER

E olhe que as obras da igreja é ele quem está custeando!

PADEIRO

Sou eu que estou custeando!

PADRE, apaziguador

Que é isso, que é isso!

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MULHER

O que é isso? É a voz da verdade, padre João. O senhor agora vai ver quem é a mulher do padeiro!

JOÃO GRILO

Ai, ai, ai e a Senhora, o que é que é do padeiro?

MULHER

A vaca...

CHICÓ

A vaca?!

MULHER

A vaca que eu mandei para cá, para fornecer leite ao vigário tem que ser devolvida hoje mesmo.

PADEIRO

Hoje mesmo!

PADRE

Mas até a vaca? Sacristão, sacristão!

JOÃO GRILO

A vaca também é demais. (Arremedando o padre.) Sacristão, sacristão! O Sacristão aparece à porta. É um sujeito magro, pedante, pernóstico, de óculos azuis que ele ajeita com as duas mãos de vez em quando, com todo cuidado. Pára no limiar da cena, vindo da igreja, e examina todo o pátio.

JOÃO GRILO

Sacristão, a vaca da mulher do padeiro tem que sair!

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SACRISTÃO

Um momento. Um momento. Em primeiro lugar, o cuidado da casa de Deus e de seus ar

redores. Que é isso? Que é isso?

Ele domina toda a cena, inclusive o Padre que tem Uma confiança enorme na empáfia)

segurança e hipocrisia do secretário.

MULHER E PADEIRO, ao mesmo tempo, em resposta pergunta do Sacristão

É o padre...

SACRISTÃO, afastando os dois com a mão e olhando para a direita

Que é aquilo? Que é aquilo?

Sua afetação de espanto é tão grande, que todos se voltam para direção em que ele olha.

SACRISTÃO

Mas um cachorro morto no pátio da casa de Deus?

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PADEIRO

Morto?

MULHER, mais alto

Morto?

SACRISTÃO

Morto, sim. Vou reclamar à Prefeitura.

PADEIRO, correndo e voltando-se do limiar verdade, morreu.

MULHER

Ai, meu Deus, meu cachorrinho morreu.

Correm todos para a direita, menos João Grilo e Chicó.

Este vai para a esquerda, olha a cena que se desenrola lá fora, e fala com grande gravidade na voz.

CHICÓ

É verdade, o cachorro morreu. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal

irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.

JOÃO GRILO, suspirando.

Tudo o que é vivo morre. Está aí uma coisa que eu não sabia!

Bonito, Chicó, onde foi que você ouviu isso? De sua cabeça é

que não saiu, que eu sei.

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CHICÓ

Saiu mesmo não, João. Isso eu ouvi um padre dizer uma vez.

(Esta cena, a partir daqui, é cortável, a critério do encenador, até

a frase “Mas deixe de agonia, que o povo vem aí”.) Foi no dia em que meu pirarucu morreu.

JOÃO GRILO

Seu pirarucu?

CHICÓ

Meu, é um modo de dizer, porque, para falar a verdade, acho que eu é que era dele.

Nunca lhe contei isso não?

JOÃO GRILO

Não, já ouvi falar de homem que tem peixe, mas de peixe que tem homem, é a primeira vez.

CHICÓ

Foi quando eu estive no Amazonas. Eu tinha amarrado a corda do arpão em redor do corpo, de modo que estava com os braços sem movimento. Quando ferrei o bicho, ele deu um puxavante maior e eu caí no rio.

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JOÃO GRILO

O bicho pescou você!...

CHICÓ

Exatamente, João, o bicho me pescou. Para encurtar a história, o pirarucu me arrastou rio acima três dias e três noites.

JOÃO GRILO

Três dias e três noites? E você não sentia fome não, Chicó?

CHICÓ

Fome não, mas era uma vontade de fumar danada. E o engraçado foi que ele deixou para

morrer bem na entrada de uma vila, de modo que eu pudesse escapar. O enterro foi no outro dia e nunca mais esqueci o que o padre disse, na beira da cova.

JOÃO GRILO

E como o avistaram da vila?

CHICÓ

Ah, eu levantei um braço e acenei, acenei, até que uma lavadeira me avistou e vieram me soltar.

JOÃO GRILO

E você não estava com os braços amarrados, Chicó?

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CHICÓ

João, na hora do aperto, dá-se um jeito a tudo.

JOÃO GRILO

Mas que jeito você deu?

CHICÓ

Não sei, só sei que foi assim. Mas deixe de agonia, que o povo vem aí.

MULHER, entrando.

Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai,ai,ai!

JOÃO GRILO, mesmo tom

Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai!

Dá uma cotovelada em CHICÓ.

CHICÓ, obediente

Ai, ai, ai, ai, ai, Ai, ai, ai, ai, ai!

Essa lamentação deve ser um mal entendido a representada de propósito, ritmada como choro de palhaço de circo.

SACRISTÃO, entrando com o padre e o padeiro Que é isso, que é isso? Que barulho é esse na porta da casa de Deus?

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PADRE

Todos devem se resignar.

MULHER

Se o senhor tivesse benzido o bichinho, a essas horas ele ainda estava vivo.

PADRE

Qual, qual, quem sou eu!

MULHER

Mas tem uma coisa, agora o senhor enterra o cachorro.

PADRE

Enterro o cachorro?

MULHER

Enterra e tem que ser em latim. De outro jeito não serve, não é?

PADEIRO

É, em latim não serve.

MULHER

Em latim é que serve!

PADEIRO

É, em latim é que serve!

PADRE

Vocês estão loucos! Não enterro de jeito nenhum.

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MULHER

Está cortado o rendimento da irmandade.

PADRE

Não enterro.

PADEIRO

Está cortado o rendimento da irmandade!

PADRE

Não enterro.

MULHER

Meu marido considera-se demitido da presidência.

PADRE

Não enterro.

PADEIRO

Considero-me demitido da presidência!

PADRE

Não enterro.

MULHER

A vaquinha vai sair daqui imediatamente.

PADRE

Oh mulher sem coração!