Autobiografia por Agatha Christie - Versão HTML

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Autobiografia

Agatha Christie

Autobiografia

CÍRCULO DO LIVRO

CÍRCULO DO LIVRO S.A.

Caixa posta 7413

01051 São Paulo, Brasil

Edição integral

Título do original: “An autobiography”

Copyright © 1977 by Agatha Christie Limited

Tradução: Maria Helena Trigueiros

Layout da capa: Natanael Longo de Oliveira

Foto: Thor Crespi

Licença editorial para o Círculo do Livro

por cortesia da Editora Nova Fronteira S.A.

Venda permitida apenas aos sócios do Círculo

Composto pela Linoart Ltda.

Impresso e encadernado pelo Círculo do Livro S.A.

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Introdução

Nimrod, Iraque, 2 de abril de 1950.

Nimrod é o nome moderno da antiga cidade de Calach, a

capital militar dos assírios. Nossa casa da expedição é construída

com tijolos de lama. Ela estende-se para o lado leste da colina

artificial1, e é constituída por uma cozinha, uma sala de estar e

uma de jantar, uma pequena copa, uma sala de trabalho, outra de

desenho, um galpão grande, uma sala para guardar as cerâmicas

e uma minúscula câmara escura para as fotografias (nós todos

dormíamos em tendas de campanha). Este ano foi acrescentado

mais um quarto à casa da expedição, um cômodo que mede

aproximadamente três metros quadrados. O teto é de gesso, com

esteiras de junco e alguns alegres tapetes rústicos. Na parede está

suspenso um quadro de um jovem artista do Iraque,

representando dois burros caminhando através do suq2, tudo isso

pintado como um labirinto de cubos de intenso colorido. Há uma

janela que dá para leste, para as montanhas do Curdistão, cujos

píncaros se cobrem de neve. Na parte exterior da porta acha-se

afixado um cartão quadrado onde se lê, impresso em caracteres

cuneiformes, BEIT AGATHA (Casa de Agatha).

Esta, portanto, é “minha casa”, e é minha intenção usufruir

dentro dela de uma privacidade absoluta para poder dedicar-me à

importante tarefa de escrever.

1 Colina artificial feita pelo acúmulo de terra e detritos, ao longo dos séculos, em

ruínas de antigas cidades ou povoados. (N. da T.)

2 “Mercado.” Em árabe no original. (N. do E.)

Pelo ritmo em que a escavação prossegue, provavelmente não terei

tempo. Terei que limpar e reconstituir objetos. Terei que revelar

fotografias, rotulando-as, catalogando-as e empacotando-as. Mas,

na primeira semana ou nos primeiros dez dias, devo dispor de

algum tempo.

É verdade que existem alguns empecilhos à minha

concentração...

No telhado, por cima de mim, os trabalhadores árabes se

movem aos pulos, gritando alegremente uns para os outros e

alterando a posição de escadas inseguras... Há cachorros latindo,

perus que não param de fazer gluglu. O cavalo do policial faz

tilintar a corrente que o prende, e a janela e a porta recusam-se a

ficar fechadas, abrindo-se alternadamente, com grande ruído.

Estou sentada diante de uma mesa de madeira razoavelmente

firme, e a meu lado tenho uma caixa de lata, pintada em cores

alegres, das que os árabes costumam levar consigo quando

viajam. É dentro dela que me proponho guardar minhas páginas

datilografadas, à medida que meu trabalho progredir.

Deveria estar escrevendo um romance policial; no entanto,

com aquela natural tendência do escritor para escrever seja o que

for, exceto aquilo que deveria estar escrevendo, inesperadamente

senti vontade de escrever minha autobiografia. Esse anseio de

escrever a própria biografia, ouço dizer, tarde ou cedo se apossa

da gente. Subitamente, tomou conta de mim.

Pensando melhor, a palavra “autobiografia” é por demais

pomposa. Sugere o propósito de elaborar um estudo acerca da

própria vida. Implica escrever nomes, datas e lugares em

cuidadosa ordem cronológica. Porém, o que desejo mesmo é

mergulhar minha mão em uma espécie de caverna maravilhosa e

daí extrair um punhado das mais diversas recordações.

Em meu entender, a vida consiste em três partes: o presente,

absorvente e habitualmente agradável, que corre minuto a minuto

com velocidade fatal; o futuro, obscuro e incerto, para o qual

podemos fazer inúmeros planos interessantes, e tanto melhor se

forem insólitos e improváveis — afinal, nada virá a ser como

esperávamos que fosse, e ao menos nos divertimos enquanto

planejávamos; e a terceira parte, o passado, as recordações e as

realidades que são os alicerces da vida presente e que nos surgem

de repente, trazidas por um perfume, pela forma de uma colina,

qualquer canção antiga, trivialidades que nos fazem de súbito

murmurar: “Eu me lembro...”, com um peculiar e quase

inexplicável prazer.

Esta é uma das compensações que a idade nos dá e,

certamente, é muito agradável: recordar.

Infelizmente, muitas vezes não só desejamos recordar como

também desejamos falar de nossas recordações. E isso, há que

repetirmos a nós próprios, é maçante para os outros. Por que

deveriam estar interessados, afinal, em recordações alheias, se se

trata de nossa vida, e não da vida deles? Porém, quando são

jovens, eles costumam conceder às nossas recordações certa

curiosidade histórica.

“Suponho”, diz demonstrando interesse uma moça bem-

educada, “que se lembra de tudo acerca da Guerra da Criméia,

não?”

Um pouco melindrada, replico que não sou assim tão velha

que me lembre da Guerra da Criméia. Também nego ter

conservado qualquer lembrança da Revolta dos Sipaios. Mas

admito vagas recordações da Guerra dos Bôeres — coisa

inevitável, pois meu irmão participou de seus combates.

A primeira lembrança que surge na minha memória é uma

visão-clara de mim mesma caminhando pelas ruas de Dinard em

dia de feira, com minha mãe. Um moço que carregava um grande

cesto, cheio de variadas coisas, esbarrou violentamente em mim,

machucando um pouco meu braço e quase me jogando ao chão.

Meu braço doeu. Comecei a chorar. Creio que tinha então

aproximadamente sete anos de idade.

Minha mãe, que gostava de comportamentos estóicos em

lugares públicos, chama minha atenção:

“Pense”, diz ela, “em nossos bravos soldados na África do

Sul!”

Respondi, indignada: “Não quero ser um bravo soldado.

Quero ser uma covarde!”

Que fatores governam a escolha de nossas recordações?

Viver é como estar sentado em um cinema. Clique! Aqui estou eu,

criança ainda, comendo doces de creme no dia de meu

aniversário. Clique! Passaram-se dois anos, e estou nos joelhos de

minha avó, no ato de ser solenemente amarrada com um barbante

como um frango chegado da loja do sr. Whiteley, e quase histérica

de tanto rir com essa brincadeira.

São apenas momentos que nos chegam do passado — e

entre eles imensos espaços vazios, de meses ou até de anos. Onde

estamos, então? Isso nos leva à pergunta de Peer Gynt: “Onde

estava eu, eu próprio, o homem total, o homem verdadeiro?”

Jamais conhecemos o ser total, embora às vezes, com a

rapidez do relâmpago, possamos conhecer o ser verdadeiro. Acho

que nossa memória nos apresenta momentos que, apesar de

parecerem insignificantes, representam o verdadeiro ser interior

de uma pessoa, aquilo que ela é em sua realidade.

Hoje, sou a mesma pessoa que era, a menina solene com

cachos louros, de um louro muito claro, que desciam até os

ombros como salsichas. A morada onde a mente habita cresce,

desenvolve instintos e gostos, emoções e capacidades intelectuais,

mas eu própria, a verdadeira Agatha, continuo a mesma. Não

conheço a Agatha total. A Agatha total, acredito, apenas Deus a

conhece.

Portanto, aqui estamos, todas nós, a pequena Agatha Miller

e a Agatha Miller já crescida e a Agatha Christie e a Agatha

Mallowan, seguindo nosso caminho — para onde? Isso nós não

sabemos, mas é o que torna a vida interessante. Sempre achei a

vida interessante, e ainda a acho.

Como sabemos muito pouco da vida — apenas nossa ínfima

parte —, cada um de nós é como um ator que tem algumas falas

para dizer no primeiro ato. Ele dispõe de um script datilografado

com suas deixas, e isso é tudo quanto sabe. Não leu a peça

inteira. Por que iria lê-la? Terá apenas que dizer: “O telefone está

enguiçado, minha senhora”, e depois retirar-se para a

obscuridade.

Quando, porém, o pano subir, ele escutará a peça à medida

que ela for sendo representada, e terá que contracenar com todos

os outros atores e falar quando escutar sua deixa.

Participar de algo que não entendemos totalmente é, penso,

uma das coisas mais interessantes da vida.

Gosto de viver. Tenho, por vezes, experimentado violentos

desesperos e sofrido desgostos brutais, tenho me sentido

destroçada pela tristeza, mas, em meio a tudo isso, ainda guardo a

certeza de que o simples fato de estar viva é uma grande coisa.

Por isso, meu plano é gozar os prazeres que a memória me

proporciona, não me apressando — escrevendo algumas páginas

de vez em quando. É uma tarefa que provavelmente levará anos.

Mas por que lhe chamarei eu uma tarefa? É um privilégio! Uma

vez vi um antigo rolo de pergaminho chinês de que gostei muito.

Representava um ancião sentado sob uma árvore, brincando com

um pedaço de barbante. Chamava-se Homem velho gozando os

prazeres do ócio. Jamais o esqueci.

Já que decidi divertir-me, talvez fosse melhor começar logo.

E, apesar de não me sentir capaz de manter uma continuidade

cronológica, posso tentar começar do princípio.

Primeira parte

ASHFIELD

“Ô ma chère maison; mon nid, mon gîte,

le passé 1’habite... Ô ma chère maison.” 1

1 “Minha querida casa, meu ninho, meu abrigo. O passado a habita, minha

querida casa.” Em francês no original. (N. da T.)

I

Uma das melhores coisas que nos podem acontecer na vida é

ter uma infância feliz. Eu tive uma infância feliz. Possuía uma

casa e um jardim que eu amava; uma babá sábia e paciente; meu

pai e minha mãe eram duas pessoas que se amavam ternamente,

e tornaram o casamento e a paternidade verdadeiros êxitos.

Olhando para o passado, sinto que nossa casa era de fato

um lar feliz. Isso se devia largamente a meu pai, pois tratava-se de

um homem muito agradável — qualidade, aliás, pouco apreciada

hoje em dia. Atualmente, as pessoas se interessam mais em saber

se um homem é inteligente, se é trabalhador, se contribui para o

bem-estar da comunidade, se ele “conta” no esquema geral.

Charles Dickens, porém, trata esse assunto de uma maneira

deliciosa em David Copperfield:

“— Seu irmão é um homem agradável, Peggotty? — inquiri

cautelosamente.

— Oh! Meu irmão é um homem muito agradável! —

exclamou Peggotty”.

Pergunte a si próprio se a maioria de seus amigos e pessoas

conhecidas são agradáveis, e ficará surpreso porque raramente

sua resposta poderá ser igual à de Peggotty.

Pelos padrões modernos, meu pai provavelmente não seria

uma pessoa bem-conceituada. Era um homem preguiçoso.

Naquele tempo existia gente que vivia de rendas, e quem possuía

rendas não trabalhava. Nem ficava bem trabalhar. Tenho fortes

suspeitas de que meu pai não teria sido muito bem sucedido no

trabalho, caso o tentasse.

Saía todas as manhãs de casa, em Torquay, e encaminhava-

se para seu clube. Regressava de táxi para almoçar, e de tarde ia

de novo para o clube, jogava uíste a tarde toda e só vinha para

casa a tempo de se vestir para o jantar. Durante a temporada,

passava os dias no clube de críquete, do qual era presidente.

Ocasionalmente, também organizava grupos de teatro amador.

Tinha uma imensa turma de amigos, e adorava convidá-los à sua

casa. Todas as semanas havia em nossa casa um grande jantar, e

habitualmente meu pai e minha mãe saíam para jantar com

amigos duas ou três vezes por semana.

Só mais tarde entendi o quanto meu pai era amado. Depois

de sua morte, chegaram cartas de todos os cantos do mundo. E

repetidas vezes apareciam comerciantes locais, motoristas de táxi,

empregados antigos e velhotes, que me diziam: “Ah! Recordo-me

muito bem do sr. Miller. Jamais o esquecerei. Não existem pessoas

como ele nos dias de hoje”.

Todavia, ele não exibia características fora do comum. Não

era especialmente inteligente. Acho que seu coração era simples e

cheio de amor, e que realmente se interessava pelo próximo.

Possuía agudo senso de humor, e facilmente fazia as pessoas

rirem. Não havia nele mesquinhez alguma, nem inveja, e era

quase inacreditavelmente generoso. Possuía também uma

serenidade e uma alegria como que inatas.

Minha mãe era inteiramente diferente. Sua personalidade

era enigmática e cativante — mais poderosa do que a de meu pai

—, extremamente original em suas idéias. No entanto, sua falta de

confiança em si própria era terrível; era tímida e, no fundo, creio,

sofria de uma melancolia congênita.

Empregados e crianças eram-lhe dedicados, e a menor de

suas ordens era prontamente cumprida. Era uma educadora de

primeira categoria. Qualquer coisa que dissesse se tornava

imediatamente interessante e significativa. A rotina a entediava, e

freqüentemente pulava de um assunto para outro, de tal maneira

que sua conversa por vezes se tornava desconcertante. Como meu

pai costumava dizer-lhe, ela não possuía senso de humor. Contra

essa acusação, minha mãe protestava com voz magoada: “Só

porque não acho algumas de suas histórias engraçadas, Fred...”, e

então as risadas de meu pai retumbavam pela sala.

Minha mãe era uns dez anos mais jovem que meu pai, e

amava-o devotadamente desde os dez anos de idade. Durante todo

o tempo em que ele fora um jovem que preferia se divertir,

movimentando-se constantemente entre Nova York e o sul da

França, minha mãe, uma menininha tímida, ficara em casa

pensando nele, escrevendo ocasionalmente um poema em seu

diário, bordando uma bolsinha para ele — a propósito, ela

guardou essa bolsinha por toda a vida.

Um romance tipicamente vitoriano, mas enraizado em

sentimentos profundos.

Interesso-me por meus pais não apenas porque eram meus

pais, mas porque conseguiram obter êxito nessa obra rara que é

um casamento feliz. Até hoje só conheci quatro casamentos

completamente bem-sucedidos. Será que existe uma fórmula para

o êxito? Não creio. Dos quatro exemplos que citei, um era o de

uma moça de dezessete anos, casada com um homem quinze anos

mais velho. A princípio, ele protestara que ela não poderia ter

certeza do que queria. Ela replicou que sabia perfeitamente o que

queria, pois havia já três anos decidira casar-se com ele. Sua vida

de casados foi complicada porque se mudaram para a casa deles,

primeiro uma, depois a outra sogra — motivo bastante para fazer

soçobrar a maior parte dos matrimônios. Essa mulher tem um

temperamento calmo e de profunda intensidade. Lembra-me um

pouco minha mãe, não fosse pela ausência de brilho e interesses

intelectuais. O casal tem três filhos, todos eles já espalhados pelo

mundo. Esse casamento dura há mais de trinta anos, e eles

permanecem devotados um ao outro. Outro dos casamentos felizes

que conheci foi o de um jovem casado com uma mulher quinze

anos mais velha que ele, uma viúva. A princípio, ela recusou-o por

vários anos; finalmente, aceitou-o, e viveram felizes até a morte

dela, trinta e cinco anos mais tarde.

Minha mãe, Clara Bohemer, foi muito infeliz quando criança.

Seu pai, oficial do Regimento de Argyll Highlanders, foi derrubado

pelo cavalo e morreu em conseqüência disso; minha avó ficou

viúva ainda jovem e bonita, com quatro filhos, aos vinte e sete

anos de idade, contando, para manter toda a família, apenas com

a pensão. Foi por essa época que sua irmã mais velha, recém-

casada com um americano rico, de quem era a segunda esposa,

lhe escreveu, oferecendo-se para adotar uma das crianças e criá-la

como se fosse sua.

Aquela

jovem

e

angustiada

viúva,

que

trabalhava

desesperadamente com costuras para alimentar e educar quatro

crianças, achou que não tinha o direito de recusar. Dos quatro

filhos — três meninos e uma menina —, escolheu a menina; em

primeiro lugar, porque lhe parecia que os rapazes podiam mais

facilmente lutar pela vida, ao passo que uma menina necessitava

das vantagens de uma vida mais confortável. Em segundo, como

minha mãe sempre acreditou, essa escolha se devia ao fato de que

minha avó gostava mais dos rapazes. Minha mãe partiu de Jersey

e foi morar no norte da Inglaterra, em uma casa estranha. Penso

que o ressentimento que sentiu, a profunda ferida por se julgar

rejeitada, sempre impregnou sua atitude perante a vida. Foi essa a

causa de sua falta de confiança em si própria e de suas suspeitas

quanto ao afeto dos outros para com ela. Sua tia era uma mulher

boa, bem-humorada e generosa, mas sem o menor talento para

compreender os sentimentos de uma criança. Minha mãe usufruía

as chamadas vantagens de morar em uma casa confortável e

receber uma boa educação — mas o que perdera, e nada poderia

substituir, era a vida despreocupada com seus irmãos, em sua

própria casa. Muitas vezes tenho visto, nas colunas de cartas ao

redator dos jornais, pais ansiosos perguntando se deveriam

entregar seus filhos a outras pessoas, porque “não podem

proporcionar-lhes certas vantagens — uma educação de primeira

categoria, por exemplo”. Sempre sinto irreprimível vontade de

gritar: “Não deixe partir seu filho. O que vale a melhor educação

comparada ao sentimento de segurança que dá a própria casa, a

família, o amor dos seus e a sensação de pertencer a tudo isso?”

Minha mãe foi profundamente infeliz em sua nova vida.

Todas as noites chorava quando ia se deitar, acabou ficando

magra e pálida, e por fim tão doente que sua tia chamou o médico.

Esse médico, homem já de certa idade, com vasta experiência,

depois de conversar um pouco com a menina, falou à tia: “A

criança está sofrendo de saudades de casa”. A tia ficou espantada

e descrente. “Oh! não”, respondeu, “Clara é uma menina muito

boa e muito quieta, não dá trabalho algum, e acredito que se sente

muito feliz aqui.” O velho doutor foi de novo conversar com Clara.

Ela tinha irmãos, não tinha? Quantos? Quais eram os nomes

deles? E, subitamente, a criança rompeu em prantos e contou a

história toda. Falar do que a atormentava abrandou-lhe a tensão,

mas o sentimento de “não ser querida” permaneceu para sempre.

Creio que conservou esse ressentimento toda a vida em relação a

minha avó, até a sua morte. Por outro lado, porém, minha mãe

ficou muito ligada a seu “tio” da América. Era então um homem

doente; gostava muito da pequena e tranqüila Clara, e ela

costumava ler-lhe seu livro preferido, The king of the golden river.

Mas naquele tempo, o verdadeiro consolo para minha mãe eram

as visitas do enteado de sua tia — Fred Miller —, o chamado

“primo Fred”, rapaz de aproximadamente vinte anos e sempre

inexcedivelmente amável com sua “priminha”. Um dia, tinha ela

onze anos, ele disse à madrasta:

“Como são lindos os olhos de Clara!”

Clara, que sempre se considerara muito feia, subiu para o

quarto da tia e foi mirar-se no grande espelho do toucador. Talvez,

realmente, seus olhos fossem bonitos... Sentiu-se muito animada.

Desde então, seu coração entregou-se irrevogavelmente a Fred.

Nos Estados Unidos, um velho amigo da família disse ao

despreocupado rapaz: “Freddie, um dia você se casará com sua

priminha inglesa”.

Espantado, ele replicou: “Clara? Mas ela é uma criança!”

Contudo, ele sempre manteve um sentimento especial por

essa criança que o adorava. Guardava suas cartas infantis e os

poemas que ela lhe escrevia e, depois de uma longa série de

namoros com as beldades sociais e as espirituosas moças de Nova

York (entre as quais Jenny Jerome, mais tarde Lady Randolph

Churchill), regressou à Inglaterra e pediu à sua priminha para ser

sua mulher. Como era de esperar do caráter de minha mãe, a

princípio recusou firmemente.

“Por quê?”, perguntei-lhe uma vez.

“Porque eu era uma pessoa melancólica”, respondeu.

Uma razão extraordinária, mas para ela suficientemente

válida.

Meu pai, no entanto, não se deu por vencido. Voltou a pedi-

la em casamento, minha mãe superou suas apreensões e, apesar

de continuar com dúvidas e ainda convencida de que o

“decepcionaria”, consentiu em casar-se com ele.

Casaram-se, portanto, e o retrato que guardo dela vestida de

noiva mostra um lindo e sério rosto, de cabelos negros e olhos cor

de avelã.

Antes do nascimento de minha irmã, foram para Torquay,

local então na moda para passar o inverno, e que gozava do

prestígio mais tarde concedido à Riviera; alugaram ali um

apartamento mobiliado. Meu pai ficou encantado com Torquay.

Amava o mar. Muitos de seus amigos moravam ali, e outros,

alguns americanos, vinham passar o inverno. Minha irmã Madge

nasceu em Torquay, e pouco depois minha mãe e meu pai foram

para a América, onde pensavam fixar residência. Os avós de meu

pai ainda viviam; depois da morte de sua mãe, na Flórida, ele fora

criado por eles na tranqüila região da Nova Inglaterra. Meu pai era

muito dedicado a seus avós, e sentia-se ansioso para que eles

conhecessem sua mulher e o bebê. Meu irmão nasceu quando

ainda se encontravam na América. Algum tempo depois, meu pai

decidiu regressar à Inglaterra. Mal chegado, porém, complicações

de negócios fizeram com que voltasse a Nova York. Sugeriu então

a minha mãe que alugasse permanentemente um apartamento

mobiliado em Torquay e nele se instalasse, até que ele pudesse

regressar definitivamente.

De acordo com essa decisão, minha mãe passou a procurar

casas mobiliadas em Torquay, até que anunciou triunfalmente:

“Fred, comprei uma casa!”

Meu pai quase caiu de espanto. Ele ainda não desistira de

morar na América.

“Mas por que você fez isso?”, perguntou.

“Porque gostei da casa”, respondeu minha mãe.

Ela visitara, parece, aproximadamente trinta e cinco casas;

só gostara de uma, e esta estava para vender, não para alugar.

Então minha mãe, a quem a tia do marido deixara de herança

duas mil libras, apelara para minha tia, que era a depositária, e

comprou a casa.

“Mas só iremos morar lá um ano”, resmungou meu pai, “um

ano no máximo.”

Minha mãe, a quem sempre consideramos quase vidente,

replicou que poderiam então vendê-la de novo. Quem sabe ela não

previa, confusamente, que sua família viveria naquela casa ainda

por muitos anos?

“Adorei essa casa logo que entrei nela”, insistia minha mãe.

“Ela possui uma atmosfera maravilhosamente pacífica.”

A casa pertencia a certas pessoas de nome Brown, que eram

quacres; quando minha mãe, hesitante, manifestou à sra. Brown

seu pesar pelo fato de que eles iriam abandonar a casa, a velha

respondeu gentilmente:

“Fico feliz pensando em você e em seus filhos morando aqui,

minha querida”.

Na verdade, creio que essa casa recebera uma bênção. Era

do tipo villa italiana, bastante comum, e não ficava na parte mais

elegante de Torquay — em Warberrys ou Lincombes —, mas no

outro extremo da cidade, na parte velha de Tor Mohun. Nesse

tempo, a estrada junto à qual se situava conduzia quase

imediatamente para a rica região de Derby, com suas pradarias e

seus campos cultivados. O nome da casa era Ashfield, e foi meu

lar, desde sempre, toda a minha vida.

Isso porque meu pai não mais quis morar na América. Ele

gostava tanto de Torquay que decidiu não sair mais de lá.

Instalou-se em seu clube, jogando uíste com seus amigos. Minha

mãe odiava morar junto do mar, não apreciava as reuniões

sociais, e era incapaz de jogar qualquer jogo de cartas. Mas vivia

feliz em Ashfield, e oferecia grandes jantares, cumprindo com suas

obrigações sociais; além disso, nos serões tranqüilos que

passavam em casa, costumava perguntar a meu pai, com ávida

impaciência, quais eram os acontecimentos locais e o que havia

sucedido durante o dia no clube.

“Nada”, respondia meu pai, bem feliz por isso.

“Mas certamente, Fred, alguém deve ter dito algo de

interessante, não?”

De boa vontade, meu pai vasculhava sua mente, mas não

encontrava nada. Contava então que M. era tão somítico que não

comprava o jornal, indo lê-lo no clube e, pior, sempre contava as

notícias aos outros membros: “Vocês viram que na fronteira do

noroeste...” Todo mundo ficava aborrecido com ele, porque M. era

um dos sócios mais ricos.

Minha mãe, que já escutara antes tudo isso, não ficava

satisfeita. Meu pai recaía em seu tranqüilo e silencioso

contentamento. Aconchegava-se em sua cadeira, estendia as

pernas para o fogo e cocava suavemente a cabeça (um passatempo

proibido por minha mãe).

“Em que está pensando, Fred?”, perguntava ela.

“Em nada”, respondia meu pai, com absoluta sinceridade.

“Não é possível pensar em nada!”

Muitas vezes essa declaração desconcertava minha mãe.

Para ela, era inadmissível. Em sua própria mente, os pensamentos

surgiam com a velocidade de andorinhas em pleno vôo. Jamais

estivera pensando em nada; pelo contrário, freqüentemente

pensava em três coisas ao mesmo tempo.

Como verifiquei anos depois, as idéias de minha mãe eram

sempre ligeiramente diferentes da realidade. Ela via o universo

com cores mais brilhantes do que as reais, as pessoas, melhores

ou piores do que realmente eram. Talvez por ter sido tranqüila

demais na infância, retraída, com as emoções trancafiadas em seu

íntimo, ela tendia a encarar o mundo em termos dramáticos, por

vezes até melodramáticos... Sua imaginação era tão forte que

jamais a deixava ver as coisas de um ângulo vulgar ou incolor.

Também tinha curiosos rasgos de intuição — por exemplo, sabia,

de repente, o que as outras pessoas estavam pensando. Quando

meu irmão ainda era moço e estava no exército, encontrou-se em

dificuldades financeiras que não desejava revelar aos pais, e ela

um dia, olhando-o, sobressaltou-se, vendo-o cabisbaixo e

preocupado. “Monty, você andou pedindo dinheiro aos agiotas?

Andou levantando dinheiro sobre o testamento de seu avô? Não

devia fazer uma coisa dessas. É melhor falar com seu pai e contar

tudo a ele.”

Essa sua faculdade de fazer tal gênero de declarações

sempre surpreendeu nossa família. Minha irmã, um dia, disse:

“Quando não quero revelar algum assunto a mamãe, sequer penso

nele em sua presença”.

II

É difícil saber qual é nossa primeira recordação. Lembro

distintamente o dia em que completei três anos. Lembro-me de

quanto me senti importante. Tomávamos o chá no jardim — uma

parte do jardim em que, anos mais tarde, uma rede balançava,

suspensa entre duas árvores. A mesa estava repleta de doces, o

bolo de aniversário era coberto de glacê e exibia as tradicionais

velas. Três Velas. E uma excitante ocorrência — uma minúscula

aranha vermelha, tão pequena que eu mal podia enxergá-la,

surgira correndo pela toalha. E minha mãe dissera: “É uma

aranha que sorte, Agatha, um bom augúrio para seu

aniversário...”

Depois, a memória se esvai, guardando apenas as

reminiscências fragmentárias de uma interminável discussão

mantida com meu irmão, relacionada com o número de doces de

creme que ele tinha licença de comer.

Encantador, seguro e, no entanto, excitante mundo da

infância! Em meu mundo, talvez a coisa mais absorvente fosse o

jardim. Cada ano que passava, esse jardim significava mais para

mim. Conhecia cada árvore, e a cada uma delas atribuía um

significado especial. Desde muito cedo, em meu pensamento, o

jardim se dividia em três partes.

Existia a horta, limitada por um muro alto, que confinava

com a estrada. Não despertava o menor interesse em mim, exceto

como manancial de framboesas e maçãs verdes, que eu comia em

grandes quantidades. Era a horta e nada mais. Não oferecia

possibilidades mágicas.

Depois existia o jardim propriamente dito, um trecho de

gramado que descia a encosta, repleto de coisas interessantes: a

azinheira, o cedro, a wellingtônia (que me entusiasmava por ser

tão alta). Podia-se subir na árvore de Monty. (Isto é, podíamos

suspender-nos cautelosamente em três de seus galhos.) A árvore

de Madge, depois de nos entocarmos com muita precaução nela,

possuía um lugar para nos sentarmos, num galho curvado de

forma convidativa, e daí, sem sermos vistos, olhávamos para o

mundo exterior. Existia aquela a que chamo a árvore da

terebintina, que segregava uma substância pegajosa, de aroma

forte, que eu colhia cuidadosamente e guardava em folhas, e que

eu chamava de “precioso bálsamo”. Finalmente, o ápice de toda

essa glória, a faia — a maior árvore do jardim, e que espalhava

uma agradável quantidade de sementes, que eu comia deliciada.

Havia também uma faia acobreada, mas, por uma razão qualquer

que hoje desconheço, jamais teve importância no mundo de

minhas árvores.

Terceiro: o bosque. Em minha imaginação — e, na verdade,

ainda hoje me parece assim — era tão grande quanto New Forest.

Composto em sua maioria por freixos, era percorrido por uma

senda sinuosa. Possuía tudo o que habitualmente está

relacionado com bosques: mistério, terror, encanto secreto,

inacessibilidade e distância...

O atalho através do bosque levava ao campo de tênis e ao

gramado onde se jogava croqué, no cimo de uma pequena elevação

de terreno, bem em frente à janela da sala de jantar. Quando se

emergia à altura da janela, terminava o encanto. Estávamos de

volta ao mundo de todos os dias, e uma vez mais as senhoras,

com as saias levemente arregaçadas e seguras por uma das mãos,

estavam jogando croqué, ou então, portando enormes chapéus de

palha, jogavam tênis.

Exauridos os encantos de “brincar no jardim”, eu regressava

à nursery1 , onde se achava a nursie 2 , um ponto de referência inalterável. Talvez por ser uma mulher de certa idade e reumática,

eu brincava junto e ao redor da nursie, mas não “com” a nursie.

1 “Nursery”: quarto de crianças, aposento onde as crianças brincam. (N. do E.)

2 “Nursie”: diminutivo carinhoso de nurse, “ama-seca”. (N. do E.)

Todas as minhas brincadeiras eram de faz-de-conta. Desde que

me lembro, tive vários companheiros que eu própria inventava. Os

primeiros, de quem já mal me recordo, exceto do nome que lhes

dava, eram os “gatinhos”. Nem sei mais como eram os “gatinhos”,

nem se eu própria era uma “gatinha”, mas recordo seus nomes:

Clover, Blackie e três outros. O nome da mãe deles era sra.

Benson.

A nursie era sábia demais para conversar comigo a respeito

deles, ou para tentar entrar em nossas conversas murmuradas,

enquanto caminhávamos à roda dela. Provavelmente, ficava até

agradecida por eu me entreter tão facilmente.

No entanto, foi um choque horrível para mim, um dia em

que eu subia as escadas do jardim, escutar Susan, a empregada,

dizendo:

“Não parece ligar muito para brinquedos, não é mesmo?

Com o que ela brinca, afinal de contas?”

E a voz da nursie explicou:

“Oh! Costuma fazer de conta que é uma gatinha brincando

com outros gatinhos”.

Por que será que existe no espírito de toda criança uma

necessidade inata de segredo? Saber que alguém, mesmo a nursie,

tinha conhecimento da existência dos “gatinhos” perturbou-me

profundamente. A partir desse dia, tive o cuidado de jamais fazer-

me audível em minhas brincadeiras. Os gatinhos eram meus

gatinhos, e somente meus. Ninguém deveria saber nada a respeito

deles.

Certamente, devo ter possuído brinquedos. Fui uma criança

mimada e querida, e devo ter tido grande quantidade deles, mas

não me lembro de nenhum, exceto, vagamente, de uma caixa de

contas variadas que eu enfiava, fazendo colares. Lembro também

uma prima muito maçante, já adulta, que me arreliava, insistindo

que minhas contas azuis eram verdes, e que as verdes eram azuis.

Meu modo de sentir em relação a ela era o de Euclides: “É uma

lógica absurda”; cortesmente, porém, não a contradizia. A

implicância acabava por si própria.

Recordo algumas de minhas bonecas: Phoebe, de que eu não

gostava muito, e uma chamada Rosalind, ou Rosy: de cabelos

longos e louros, eu a admirava imensamente, embora não

brincasse muito com ela. Preferia os “gatinhos”. A sra. Benson era

muito pobre, e sua vida era muito triste. O capitão Benson, o pai

dos gatinhos, fora capitão de marinha e afogara-se no mar — por

isso, ficaram em tão grande penúria. Era nisso, mais ou menos,

que consistia a “saga” dos gatinhos, mas devo dizer que existia,

em minha mente, um final glorioso, que seria o retorno do capitão

Benson, o qual na verdade não morrera, e voltava com grandes

riquezas justamente quando no lar dos gatinhos já se instalara o

desespero.

Dos gatinhos passei para a sra. Green. A sra. Green tinha

uma centena de filhos, dos quais os importantes eram Poole,

Squirrel e Tree. Esses três acompanhavam-me em todas as

minhas expedições pelo jardim. Não eram bem crianças nem

cachorros, e sim criaturas indeterminadas entre essas duas

naturezas.

Um dia, como toda criança bem-educada, fui “dar um

passeio”. Isso era coisa que eu detestava, especialmente por ter de

abotoar minhas botas — requisito absolutamente necessário.

Demorava-me, ficando para trás e arrastando os pés, e a única

coisa que me salvava do tédio total eram as histórias da nursie.

Seu repertório constava de seis histórias, todas centradas nas

várias famílias das crianças com quem havia morado. Não me

recordo agora de nenhuma, mas sei que uma delas tinha algo a

ver com um tigre na Índia, outra era sobre macacos, e outra,

acerca de uma cobra... Eram emocionantes, e eu podia escolher

qual delas preferia escutar. A nursie contava-as sem parar e sem o

menor sinal de enfado.

Algumas vezes, como grande favor, era-me permitido tirar a

touca da nursie, uma touca de babados, alva como neve. Sem ela,

a nursie parecia ingressar na vida normal e perder seu status

oficial. Então, com meticuloso cuidado, atava uma fita de cetim

azul na cabeça dela — com enorme dificuldade e sustendo minha

respiração, porque atar um laço não é tarefa fácil para alguém

com quatro anos de idade, Depois, dava um passo para trás e

exclamava em êxtase: “Oh! nursie, você está linda!”

Ela sorria e dizia com sua voz suave: “Estou mesmo, meu

amor?”

Depois do chá, vestiam-me de musselina engomada, e

aparecia na sala para que minha mãe brincasse comigo.

Se o encanto das histórias que a nursie contava consistia em

serem sempre as mesmas, de tal modo que ela representava um

rochedo de estabilidade em minha vida, o encanto de minha mãe

se devia a que suas histórias eram sempre diferentes, e

praticamente jamais fizemos qualquer jogo duas vezes. Uma das

histórias, recordo-me, era acerca de um camundongo chamado

Olhos Brilhantes. Olhos Brilhantes teve várias aventuras, mas

subitamente, um dia, para meu desespero, minha mãe declarou

que não tinha mais histórias de Olhos Brilhantes para contar.

Estava a ponto de chorar quando minha mãe disse: “Mas vou

contar-lhe uma história a respeito da Vela Curiosa”. Fui brindada

com dois capítulos da história da Vela Curiosa, que era, creio,

uma espécie de romance policial, quando, desgraçadamente,

vieram hóspedes para nossa casa e nossas brincadeiras e

histórias ficaram temporariamente suspensas. Tão logo os

hóspedes partiram, perguntei pelo final da história da Vela

Curiosa, interrompida no momento mais palpitante, quando o

vilão lentamente esfregava veneno na vela; minha mãe, porém

aparentemente não lembrava mais nada acerca do assunto. Essa

série inacabada ainda assedia minha mente. Outro jogo delicioso

era o das “casas”, em que apanhávamos toalhas de banho por

toda a casa e com elas cobríamos as cadeiras e as mesas, de modo

a fazermos sob elas nossas residências, das quais emergíamos

andando de gatinhas.

Pouco me lembro acerca de meu irmão e de minha irmã, e

presumo que seja porque eles estavam no colégio. Meu irmão

encontrava-se em Harrow, e minha irmã, em Brighton, no colégio

da srta. Lawrence, que depois se tornou o Colégio Roedean. Minha

mãe era considerada muito avançada por mandar sua filha para

um colégio interno, e meu pai um espírito muito aberto por ter

consentido nisso. Mas minha mãe encantava-se com tudo o que

significasse novas experiências.

Suas principais experiências ocorriam em matéria de

religião. Ela era, creio, de natureza mística. Tinha o dom da

oração e da contemplação, embora para sua fé ardente e sua

devoção fosse difícil selecionar uma forma conveniente de

adoração. Meu pobre e sofredor pai consentia em segui-la nesta

ou naquela nova forma de culto.

Muitos desses flertes religiosos deram-se antes de minha

vinda ao mundo. Minha mãe quase se tornara uma católica

romana; passou depois para o unitarismo (por isso meu irmão

nunca foi batizado) e, em seguida, tornou-se teosofista

embrionária, mas não gostou da sra. Annie Besant quando ouviu

uma das suas conferências. Depois de breve mas intenso interesse

pelo zoroastrismo, regressou, para grande alívio de meu pai, ao

porto seguro da Igreja da Inglaterra, embora com certa preferência

pela Católica Romana. Junto de sua cama existia um quadro que

representava São Francisco, e ela lia a Imitação de Cristo à noite e

pela manhã. Esse livro jamais saiu de junto de minha cama.

Meu pai era homem de coração simples e cristão ortodoxo.

Dizia suas orações todas as noites, e ia à igreja todos os domingos.

Sua religião era prática e sem as inquietações de minha mãe, mas,

se minha mãe gostava de elaborar seus sentimentos religiosos, ele

não via por que discordar: meu pai, como já disse, era um homem

muito agradável.

Acredito que se sentiu aliviado quando minha mãe regressou

à Igreja da Inglaterra a tempo para que eu fosse batizada na igreja

da paróquia. Fui chamada Mary, porque era o nome de minha

avó; Clarissa, porque era o nome de minha mãe; e Agatha surgiu

posteriormente, sugerido já a caminho da igreja por uma amiga de

minha mãe, apenas porque o achava bonito.

Minhas próprias idéias a respeito de religião derivam

principalmente da nursie, que era uma cristã afeiçoada à Bíblia.

Não ia à igreja, mas lia a Bíblia em casa. Guardar o dia de sábado

era-lhe muito importante, e ser apegado aos prazeres do mundo

constituía grave ofensa aos olhos do Todo-Poderoso. Eu própria

era insuportavelmente presunçosa em minha certeza de ser uma

das almas que se “salvaria”. Recusava participar dos jogos aos

domingos, ou cantar, ou tocar piano, e sentia terríveis temores

quanto à salvação final de meu pai, que jogava croqué jovialmente

nas tardes de domingo e contava piadas a respeito de padres —

uma vez, até acerca de um bispo!

Minha mãe, que fora entusiasta da instrução das moças,

havia agora, segundo sua maneira típica de ser, mudado para

opinião oposta. Achava que não se deveria permitir que criança

alguma aprendesse a ler até ter atingido os oito anos de idade: era

muito mais saudável para os olhos, e também para a mente.

Quanto a isso, todavia, as coisas não se passaram segundo

seus planos. Quando alguém me lia uma história e eu gostava,

pedia o livro e estudava as páginas dele, que, a princípio, não

tinham para mim o menor significado; gradualmente, porém, elas

começaram a ganhar sentido. Quando saía com a nursie,

perguntava-lhe que palavras estavam escritas por cima das lojas

ou dos armazéns. O resultado foi que, um dia, descobri que estava

lendo um livro chamado The angel of love, sozinha e com muito

bons resultados. Continuei lendo em voz alta para a nursie.

“Receio, minha senhora”, disse a nursie quase pedindo

desculpas, no dia seguinte, “que a srta. Agatha já saiba ler.

Minha mãe ficou muito abalada, mas não havia mais nada a

fazer. Eu não tinha ainda cinco anos, e o mundo dos livros de

histórias já se abrira para mim. A partir daí, como presente de

Natal e de aniversário, sempre pedi livros.

Meu pai disse que, como eu já sabia ler, seria melhor

aprender também a escrever — coisa que não era tão agradável.

Cadernos cobertos com letras trêmulas e garranchos ainda

aparecem de tempos a tempos, em velhas gavetas, cheios de

linhas de letras B e R, que, segundo parece, era-me difícil

distinguir, visto que aprendera a ler decorando as palavras, e não

as letras.

Então, meu pai declarou que eu devia começar a aprender

aritmética; todas as manhãs, depois do café, sentava-me junto da