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Autódromo dos desejos por L P Baçan - Versão HTML

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Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Copyright © 2007 L P Baçan

Pérola — PR — Brasil

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

CAPÍTULO 1

Na suíte presidencial do mais luxuoso hotel de Mônaco, um homem olhava fixamente a tela colorida do televisor. Não havia tensão alguma em seu rosto, nenhuma emoção parecia viver naqueles olhos absolutamente frios.

Na tela, um homem vestido como um astronauta chutava e esmurrava sua maquina reduzida a pedaços, esbravejando, gritando, atirando longe o capacete.

Diversas vezes a cena foi repetida, enquanto o comentarista, com um tom irônico, falava de uma criança grande, cujo brinquedo se estragara.

— Bastardo! — resmungou Chapp Bright, sem desviar os olhos da tela, e sem alterar aquela fisionomia impassível.

Sharlene Bright surgiu à porta do quarto, terminando de fechar o negligé sobre o corpo moreno e escultural. Seus olhos se moveram na direção de Chapp.

Por instantes ela ficou ali, parada, depois começou a rir baixinho. Havia ironia mais alívio também naquele seu desabafo.

Caminhou na direção de Chapp, os pés descalços deslizando suavemente sobre os tapetes felpudos. Passou diante do televisor, e Chapp pareceu nem a notar.

Sharlene abriu as janelas. O calor escaldante era agora amainado por uma brisa refrescante. Olhou Chapp. Era incrível como um homem podia se submeter àquele tipo de prova a cada duas semanas. Era preciso um físico perfeito, nervos de aço, saúde a toda prova.

Sabia que não adantaria falar com ele. Chapp estava deprimido, terrivelmente deprimido.

Deixara os Estados Unidos cotado como a mais recente revelação da Fórmula Um, na qual acabara de ingressar. Cinco corridas mais tarde, era o azarão explosivo, o homem-show que nunca chegava ao fim, e que ainda não provara a visão de uma bandeira quadricular cortar o ar à sua frente.

Era difícil para Chapp, reconhecia ela. Queria entendê-lo, mas em pouco menos de três meses, muita coisa mudara entre ele.

Chapp já não era o mesmo de antes, já não vivia só para ela. Ter de dividi-lo daquela forma era terrível, principalmente correndo o risco de perdê-lo a qualquer momento.

Talvez tivesse sido um pouco ingênua no principio, julgando que nada poderia separá-los.

Aquele circo colorido e barulhento, no entanto, os envolvia cada vez mais, comprometendo suas vidas, ameaçando-os.

Chapp era um bom piloto. Fizera carreira nas pistas mais incríveis, nas corridas mais arriscadas. Sempre fora um vencedor, nas corridas amadoras. A fórmula Um, no entanto, reservara-lhe muitas surpresas.

Sharlene foi até o bar e serviu-se de uma dose de gin-tônica, com bastante gelo. Caminhou pelo aposento. Não muito longe dali, luzes brilhavam, e havia muita agitação. No casino, vivia-se.

Depois de uma semana sem vê-lo praticamente, sem saber o que era uma caricia, sem poder dar vazão a toda aquela sensualidade que o calor punha em seu corpo, Sharlene experimentava uma tensão insuportável, inquietante, perigosa.

Na tela, encerrava-se o resumo da corrida, com a apresentação dos vitoriosos, banhando-se, divertidos, em champanha, atirando seus bonés para os fãs mais afoitos.

Chapp desviou, então, os olhos para Sharlene, olhando-a sem nenhuma significação, distante.

— Em que pensa agora? — indagou ela, irritada.

— Na pequena.

— Ao diabo com a pequena.

— Eu ainda vou segurá-la em minhas mãos, vou abri-la, vou me banhar inteiro com ela, vou quebrá-la e atirar seus pedaços de vidro...

— Quanta emoção por uma simples garrafa de champanha — ironizou ela.

— Não é uma simples garrafa, Sharlene. É a garrafa, é a pequena... Você viu que azar o meu? Eu estava em terceiro. Atrás de mim, ninguém. A minha frente a menos de três segundos, o próprio campeão mundial. Eu poderia ultrapassá-lo se...

— Se não fosse tão afoito e não fizesse rodar o seu carro, não é?

Chapp calou-se, revivendo aquele momento. Entrara certo na curva. Usara o freio, engatara a marcha certa, mas pisou fundo demais, na saída, tentando ganhar terreno. O carro avançou num salto, uma das rodas saiu da pista e tudo girou em ferragens se desmantelando.

Mais cinco voltas e a corrida terminaria. Dez minutos, nem isso, o separavam do pôdium.

Falhara estupidamente. Poderia ter mantido o mesmo ritmo, e seria o segundo. Na volta seguinte o campeão tivera de abandonar com o motor arrebentado.

Por mais que tentasse amenizar aquela derrota, ela pesava sobre ele. Chapp queira uma vitória a todo custo, queria calar aqueles comentários irônicos, afastando de si a marca de inexperiência.

Conhecia carros, sabia tudo sobre eles, sabia como ganhar uma corrida. Então o que estava acontecendo, afinal? Por que, sistematicamente, vinha cometendo aqueles erros estúpidos?

Levantou-se e foi até a janela. Olhou a rua logo abaixo. Havia marcas de pneus enegrecendo-a. Chapp podia se recordar de cada uma das vezes que passara ali em frente, desde os treinos até a corrida.

Mas o que lhe adiantava isso? A festa não era dele. Apenas o cansaço, o terrível cansaço de um fim de prova, o físico desgastado, a mente querendo apenas distanciar-se, alhear-se, fugir, refugiar no silêncio do capacete protetor.

Sharlene terminou sua bebida e depositou o copo, com força, sobre um móvel, caminhando para o quarto.

— Onde vai? — indagou ele.

— Tomar um banho, esse calor me sufoca.

— Vou também — disse ele.

Sharlene deu mais alguns passos, depois parou. Voltou-se lentamente, olhando-o. Tentou ler desejo no solhos de Chapp, mas sabia que ele nunca a desejava após uma corrida daquelas.

Seus nervos estavam em frangalhos. ainda estremecia quando vira, a menos de duzentos metros dos boxes, o carro de Chapp derrapar, atirando ferragens e pedaços para cima.

Viu-o morto, despedaçado, fugindo dela para sempre. Depois, quando ele deixou o carro, aturdido, e começou a chutar e esmurrar os pedaços fumegantes, Sharlene desejou fazer o mesmo com ele.

— O que houve? — indagou Chapp, diante dela.

— Eu não agüento mais, Chapp. Não tenho nervos para isso — soluçou ela.

— De que está falando, afinal?

— Pergunta cretina, Chapp. Do que poderia ser? Dessa vida de loucos, de me sentir ameaçada de perdê-lo a qualquer momento, na pista ou para uma daquelas sirigaitas que freqüentam os boxes.

— Ninguém vai perder ninguém — disse ele, cansado.

— Não esteja certo disso. Chapp. E quer saber de uma coisa, vá tomar seu banho sozinho!

— explodiu ela.

— Hei, venha cá! — disse ele, segurando-a pelos ombros e puxando-a para si.

Sharlene relutou, mas acabou cedendo e se atirando de encontro a ele, apertando-se contra aquele corpo cansado. Suspirou fundo. Definitivamente não tinha nervos para aquilo, era totalmente diferente do que esperava.

Nos Estados Unidos, ao menos, ela o tinha sempre. Aquelas corridas eram brincadeiras, Chapp ganhava sempre, era feliz, era o vencedor.

Derrotas não lhe faziam bem. Isso o alterava, tirava-lhe o ânimo, mudava-o completamente.

Sharlene tinha um temperamento ardente, inquieto, fogoso.

— Acho que precisamos conversar muito, amor — disse ele, acariciando-a lentamente.

— Não agora, Chapp, não hoje. Eu preciso sair, preciso me divertir, preciso me recuperar de hoje à tarde.

— Está bem, saia então, nunca a proibi. Sabe que não posso acompanhá-la, não hoje.

— É isso que me aborrece, Chapp. Sempre aqueles malditos carros, aquelas malditas reuniões, os treinos...

— Você sabia de tudo isso... Sabia que não seria fácil...

— Eu não sei, preciso pensar, preciso sair mesmo...

Chapp a soltou, abrindo lentamente os braços. Sharlene olhou-o de frente, mordeu o lábio inferior, pensativa e em dúvida.

O que estava querendo, afinal? De onde vinha aquela inquietação que punha seu corpo em frebilidade e confusão? Para onde iria? O que pretendia fazer?

Não sabia. Sabia apenas que estava cansada, terrivelmente cansada de ser posta de lado por Chapp, de ser menos importante que a maldita pequena, a garrafa de champanha dos vencedores, que ele tanto desejava.

Isso não era algo repentino. Crescera pouco a pouco, cada vez mais rapidamente nos últimos tempos. Os momentos com Chapp já não satisfaziam. Sharlene queria uma exclusividade impossível, e isso a torturava terrivelmente.

Talvez fosse cansaço, talvez fosse dúvida. Fosse o que fosse, Sharlene queria lutar contra, queria saber qualquer coisa para esclarecer-se, para entender-se, para recuperar tudo aquilo que vinha perdendo a cada novo dia.

Precisava das atenções de Chapp. Uma mulher como ela não podia viver sem isso.

Precisava de um estímulo, de carinhos, de sensualidade, explodindo solta e despreocupada.

Queria viver aquele circo sem preocupações, queria estar nele e, ao mesmo tempo, alheia a ele, longe de sua influência perniciosa.

Talvez devesse voltar para os Estados Unidos por algum tempo. Possivelmente aquela sua mudança pudesse influenciar Chapp, forçando-o a perseguir a vitória, como um modo de se refazer diante dela.

Talvez fosse isso realmente. Seu desejo de atenções, sua frustração, afinal, poderiam provocar em Chapp aquela necessidade imperiosa de vencer e redimir-se, de valorizar-se e recuperar a velha admiração, o velho respeito.

Sim, Chapp estava perdendo tudo naquelas corridas. Seu orgulho próprio estava abalado, sua confiança também. Sharlene tentou descobrir qual seria a melhor maneira de ajudá-lo, mas também estava confusa.

— O que vai ser? — indagou ele, ainda de braços abertos.

— Eu vou sair, Chapp — disse ela, num fio de voz.

Os braços do piloto caíram pesadamente ao lado do corpo, e ele deu de ombros, cansado demais para discutir, deprimido demais para tentar resolver o problema.

Queria um pouco de compreensão de Sharlene, mas reconhecia que lhe impunha um sacrifício talvez excessivo. Sharlene adorava agitação, mas quando essa agitação girava em torno dela.

Desde que Chapp mudara para a Fórmula Um, nunca mais tiveram aquilo. Era o azarão e o azarado. As coisas mais incríveis aconteciam com ele, desde perder um segundo lugar garantido, até ver seu carro simplesmente apagar-se num treinamento onde poderia quebrar um recorde.

Chapp tinha seu problemas, tinha em que pensar. Numa noite em que não poderia pensar em nada, exigir dele uma definição era algo cruel e impossível.

— Ok, Sharlene! Você merece isso realmente. Vá, divirta-se, eu sinto não poder acompanhá-la.

— Eu também, Chapp. Eu também — repetiu ela, querendo chorar, não por sentimento mas por puro nervosismo.

— O dinheiro está na mala menor, peque o que precisar — disse ele, caminhando para o quarto.

* * *

Fora assim em toda parte. Sharlene se sentia distanciada de Chapp, longe, longe demais para poder voltar atrás. Mesmo ali, em Nova Iorque, agora, aquele ar de familiaridade não a fazia se sentir a mesma.

Chapp fora um fracasso na fórmula Um. O que foi mais incrível, no entanto, era que Chapp não desistira. Mesmo de volta aos Estados Unidos, com ofertas interessantes a serem estudadas ele não desistia da idéia.

Naquele tarde após receber aquele telefonema, Chapp se aproximou dela, no luxuoso apartamento de cobertura, onde viviam.

— Vou sair, não sei quando volto.

— O que vai fazer agora?

— Estão construindo um carro, querem que eu o veja.

— Fórmula Um?

— Sim, talvez eu corra com ele na Argentina.

Sharlene conteve-se para não rir. Nada poderia ser mais cruel para com Chapp que sua ironia, mas ela simplesmente não podia evitar.

Não via mais nada de importante a salvar naquele relacionamento. Ao mesmo tempo, aquele desencontro habitual a pusera numa posição de alheamento, tirando-lhe toda a iniciativa, deixando-a sem planos.

Não podia deixar Chapp simplesmente apesar de reconhecer que isso lhe faria muito mais bem que permanecer com ele. Mas o que faria em seguida?

De alguma forma estava mais presa a ele do poderia imaginar. Era lógico, era sem sentido, era absurdo, mas era também, muito cômodo.

— Não vai dizer nada? — indagou ele, friamente.

Aquela sensação de que a perdera era demais, mas Chapp ainda não podia aceitá-la. Nada era fácil para ele. Estava desacreditado, ironizado, quase falido.

Aquela aventura na Fórmula Um fora um desastre completo. Não fora procurado por nenhuma das equipes, seu empresário não conseguia renovar nenhum contrato de publicidade. Suas reservas financeiras desciam perigosamente.

Chapp estava à beira de desespero. Sharlene era, talvez, o último vestígio de um tempo de glórias que passara, mas não podia ser esquecido.

Conservá-la era estar junto dos velhos tempos, das pistas menos famosas, mas lucrativas, das pequenas estouradas com alegria, das bandeiras quadriculadas se repetindo vertiginosamente.

— O que posso lhe dizer que você já não saiba? — respondeu ela, olhando-o ferinamente.

Já não eram amigos, já não eram amantes, já não eram mais nada, nem a sombra do que havia sido um dia. E, como fora maravilhosos...

Sharlene adorava tudo aquilo, adorava cada dia, adorava cada momento. Tinham tempo, o dinheiro era mais curto, mas era constante. E agora...

Chapp não sabia o que fazer. Aquele novo carro talvez fosse sua última esperança, algo a que precisava se agarrar febrilmente, desesperadamente.

Todo seu futuro estava em jogo. Desde que voltara ao seu país, nada mais fizera que estudar seus erros, analisá-los, e buscar encontrar a sua solução.

Tivera muito azar. Isso ninguém podia negar. Passada aquela fase de inexperiência, tivera bons momentos, mas seu carro um modelo já ultrapassado, começou a apresentar problema de todos os tipos.

Mas quem podia apagar aquela imagem inicial? Para todos, Chapp era o fracasso, o último lugar, quando conseguia terminar a prova.

Dia a dia as coisas pioravam, tanto em seu relacionamento com a equipe quanto com Sharlene. Um novo carro estava sendo construído, mas Chapp fora preterido.

Não podia culpá-los. A fórmula Um era um investimento vultoso. Ninguém se dispunha a arriscar em um perdedor. Era assim que ele se sentia.

Se ao menos Sharlene tivesse compreendido. Precisava muito dela, mas como exigir qualquer coisa se nunca lhe dera nada, além daquelas viagens cansativas, dos dias monótonos no hotel, do sofrimento dos boxes?

Ele necessitava, porém, de um estimulo, de algo que pudesse elevar seu moral, fazendo-o se sentir disposto a lutar por alguma coisa.

Poderia esperar isso de Sharlene?

— O que houve conosco, Sharlene? — indagou ele, desconsolado.

— Acho que perdemos, Chapp — respondeu ela.

— E o que estamos fazendo aqui, à beira da pista, então?

— Talvez esmurrando nossos destroços inutilmente, Chapp — respondeu ela, ironizando a imagem que ficara na sua mente.

— Por que não reconhecemos nossa derrota, então?

— Por quê, Chapp? — retrucou ela, sem saber o que dizer.

CAPÍTULO 2

Para um homem como Chapp Bright, que já tivera tudo, era difícil recomeçar, mas ele estava tentando. Sharlene o deixara definitivamente, ele não a via há pouco mais de um mês.

Estiveram juntos na ação de divorcio, durante a audiência, depois separaram-se. Pouco houve a ser repartido. Sharlene levou em consideração a derrota financeira de Chapp, deixando-o, sem exigências.

Restou para ele o apartamento pequeno, onde se instalara, algumas economias, uma porção de troféus e seu capacete especial, inconfundível. Com ele Chapp ainda queria brilhar.

Sua esperança era aquele carro. Um modelo especial americano, fora dos padrões europeus, mas com enormes possibilidades de revolucionar.

Ainda não entendia como fora chamado para pilotá-lo, na fase de teste, e supervisionar sua construção. Seu nome era motivo de risos, mas alguém confiava nele.

Nenhuma marca especial, nenhum detalhe que pudesse esclarece. Apenas aquela lataria negra com cromados, dando ao carro a aparência estranha de uma grande aranha.

Apesar do mistério, Chapp se concentrava em seu trabalho com todas as suas forças.

Havia muito a ser esquecido, havia muito em que não pensar, e a única maneira de fugir a tudo isso era desviando sua atenção até o cansaço extremo.

Naquela noite, Chapp já havia despedido a equipe. Estava só, no box de montagem, junto à pista de River Side. O carro estava montado, e dentro de mais alguns dias os testes principais seriam iniciados.

Qualquer coisa, porém, ainda o preocupavam quanto ao motor. Chapp queria averiguar isso, mas precisava de calma e solidão. Assim, após a saída da equipe, apanhou as ferramentas e acendeu o holofote sobre o carro.

Para um homem em fuga de si mesmo, o tempo não importava. A vida era feita de objetivos a serem vencidos, gradativamente, um após o outro, sem pausa para pensar.

Era preciso buscar o cansaço, e alguma forma de gratificação própria para evitar as longas noites de insônia e tédio. Estava conseguindo descobrir o que o incomodava, quando o barulho de um carro lá fora chamou sua atenção.

Irritado, deixou o carro e foi até a porta. Possivelmente algum garoto querendo se exibir na pista, mas isso poderia ser muito perigoso à noite.

Quando abriu a porta, porém, a uma réstia de luz bateu em cheio sobre aquele corpo de mulher, caminhando em sua direção, Chapp sentiu dentro de si agitar-se qualquer coisa há muito esquecida.

A garota era belíssima e, ao ver Chapp, demonstrou surpresa e espanto.

— Olá! — disse ele, esfregando as mãos sujas de graxa e óleo em seu macacão.

— Olá! — respondeu ela, após certa hesitação.

— Procura alguém?

— Sim, é que... Procuro o Bernie — disse ela, referindo-se ao chefe dos mecânicos.

— Ele já foi... Acho que há umas duas ou três horas.

— Bem, nesse caso... — comentou ela, torcendo o chaveiro em suas mãos.

Chapp também não soube como agir. Era uma bela garota, e estava muito nervosa. Havia agitação dentro dela. Havia solidão em sua alma.

— Você é Chapp Bright, não? — disse ela, em seguida, como que desejando vencer aquela barreira de embaraço que se estabelecera entre eles.

— Sim, eu mesmo.

— Lembro-me de você.

— Lembra-se? De onde?

— Dos jornais, da televisão...

— Oh, sim! Quem não se lembra de Chapp Bright? — comentou ele, com certa ironia.

— Você foi muito famoso — arriscou ela, com a timidez de quem deseja conversar um pouco mais, mas não sabe como fazer isso.

— É, fui sim — concordou ele, sentindo-se da mesma forma. — Você é amiga do Bernie?

— Sim, somos amigos. Eu fiquei de apanhá-lo aqui, mas acho que me atrasei. De qualquer modo...

Chapp pareceu sentir, então, que aquela garota fora ali com uma intenção definida, e isso nada tinha a ver com o Bernie. A principio julgou estar diante de "um" espião, mas no momento seguinte, achou estranho que o vigia não a tivesse barrado.

A construção daquele carro vinha sendo mantida em segredo. Havia muito comentário a respeito dele, mas nada de positivo fora revelado ainda.

Alguém não queria se arriscar a fazer propaganda de um fracasso, e isso era muito natural.

Muitos carros surgiam e desapareciam na Fórmula Um, sempre frustrando as idéias revolucionárias de seus construtores.

Examinou com atenção a garota. Sim, aquele nervosismo parecia muito significativo.

Poderia ter subornado o guarda, mas não percebeu, com ela, nada parecido com uma máquina fotográfica.

— Escute — pediu ele, quando ela fazia menção de retornar ao carro.

— Sim?

— Você é jornalista?

— Eu? Jornalista? Não, não sou.

— Como entrou aqui?

— Eu? Bem, sou amiga do Bernie, o vigia me conhece...

— Sim, há lógica...

— Como disse?

— Nada. Quer deixar algum recado para o Bernie?

— Não, eu falo com ele amanhã — respondeu ela, entrando no em seu carro.

Nada tirava da mente de Chapp que havia qualquer coisa errada no comportamento daquela garota.

— Espere — pediu ele novamente, antes que ela pusesse seu carro em funcionamento.

A garota abriu o vidro lateral e esperou pela chegada dele. Chapp debruçou-se, olhando-a de perto. Era bonita, realmente, muito bonita. Isso o fazia se lembrar de que ainda estava vivo, e de que parecia estar deixando muita coisa para trás.

— Sim? — indagou ela, incapaz de disfarçar certa emoção que tornava seus olhos brilhantes.

— Você... Sabe alguma coisa sobre o carro?

— Fala do carro lá dentro?

— Sim...

— Bem, tanto como qualquer um outro. Sei apenas que estão fazendo um carro de corrida, nada mais. Algum problema?

— Não, nenhum — disse ele, sentindo que, de alguma forma, precisava saber um pouco mais sobre aquela garota.

Talvez suspeitasse dela, talvez ela lhe provocasse alguma lembrança, talvez ela sugerisse um tipo de coisa que lhe fazia falta, não sabia explicar.

Havia qualquer coisa atraente e fascinante naqueles olhos que o fitavam de perto, iluminados pela luz do painel do veículo.

— Vai para a cidade agora? — indagou ele.

— Sim...

— Acha que poderia me dar uma carona? Só agora descobri que estou a pé...

— Para um corredor, isso deve ser torturante, não?

— Sim, muito — sorriu ele.

— Está bem, mas... — sugeriu ele, dando uma olhado nas mãos e roupas de Chapp.

— Oh, não se preocupe. Se me dar cinco minutos, sou capaz de tomar um banho e me trocar...

— Cinco minutos, nem um minuto a mais.

— Você me espera aqui?

— Sim, claro.

— Ok! Volto em cinco minutos — disse ele, começando a recuar na direção da porta.

Tinha quase que certeza de que a garota iria embora, tão logo ele entrasse. Era algo que ele não queria vê-la fazer, e não soube explicar-se por que motivo.

Havia um novo mistério no ar, uma nova sugestão de acontecimentos, e Chapp sentiu que não poderia perder isso. Desde que se separara de Sharlene, nada de mais emocionante acontecera em sua vida.

Fizera de seu trabalho uma espécie de eclusão. Aquela garota, no entanto, tinha todos os requisitos necessários para fazê-lo pensar duas vezes antes de voltar a trabalhar no carro, Fechou a porta atrás de si e prestou atenção. Esperou ouvir o barulho do carro se distanciando, mas tudo continuava em silencio lá fora.

Consultou o relógio. Perdera quase dois minutos. Talvez a garota estivesse falando sério.

Sem pensar duas vezes, Chapp correu para o chuveiro nos fundos e, apesar de ultrapassar os cincos minutos prometidos, foi com grande alivio que a viu esperando por ele ao lado do carro.

— É um segredo muito bem guardado, não? — comentou ele, após observar Chapp trancar a porta principal do stand.

— Tem que ser assim.

— Gostaria de ver esse carro...

— Você o verá, talvez na Argentina.

— Na Argentina? Então logo estará pronto...

— Logo.

— Pode me contar alguma coisa a respeito dele? — indagou ela, entrando em seu carro.

Chapp acomodou-se do outro lado. Olhou-a demoradamente, perturbando-a.

— Acho que você é uma jornalista...

— E se fosse? — sorriu ela, com uma espécie de alivio.

— Eu saberia como tratá-la.

— Chapp Bright, o azarão das pistas... Deve ter muito a desforrar dos jornalistas, não?

— Você é um deles, então?

— Não, juro-lhe como não — respondeu ela, sorrindo misteriosamente, e pondo seu veiculo em movimento.

Chapp deu-lhe o endereço de seu apartamento. Enquanto ela dirigia, ele prestou atenção, então, ao carro usado por ela. Era um modelo famoso, muito caro. Detalhes requintados e luxuosos não esparam à sua observação.

Definitivamente, aquela garota não era uma jornalista, concluiu ele. Sendo assim, quem era ela? Uma amiga de Bernie? Não! Conhecia Bernie; jamais ele conseguiria apanhar alguém como ela.

Mas, se afastasse aquela hipótese, quem seria aquela garota? O que ela fazia ali? Como conseguira passar pela vigilância?

Sua curiosidade se acentuo. Desejou saber mais sobre ela. Essa nova preocupação parecia preencher um espaço até então vazio em sua vida, depois de Sharlene.

— Você não me disse seu nome — Lembrou ele.

— Susy So... Susy Sommers — corrigiu ela, com precipitação.

— Susy Sommers... Bonito nome!

— Também gosto dele — acrescentou ela, olhando-o rapidamente.

Havia um sorriso nos lábios dela, que atraia satisfação, diversão e uma ponta de malícia.

Aquela situação o divertia, emocionando-o. Estar ao lado de uma bela garota, afinal, trazia-lhe a ligeira sensação de que os velhos tempos ainda não haviam morrido.

Desejou, então, não deixar passar aquela oportunidade, percebendo, de repente como sua reclusão voluntária era tão difícil.

Era um homem habituado a emoções a movimento, a agitação, ao mundo girando com um objetivo. O que havia feito para si, então, nos últimos tempos, a não ser atirar-se ao trabalho, como um desesperado?

Era um homem, ainda. Havia muita coisa que um homem não podia deixar adormecida por muito tempo, dentro de si. Aquela garota ao seu lado, misteriosa e bela, parecia um presente no meio da noite, jogando um pouco de luz naquele seu mundo falido.

Vinha trabalhando demais. Se continuasse naquele ritmo, talvez acabasse se comprometendo no momento mais importante. Não podia se cansar ao extremo, precisava começar a pensar nos treinos de pista, quando teria de estar realmente preparado para provar que não era mais o Chapp Bright do ano passado, inexperiente, desesperado, frustrado.

Mas quem era aquela garota? O que ela tinha a oferecer a ele, realmente? Haveria uma chance? Para um homem com sua confiança abalada não era fácil responder a essas perguntas.

Desde que perdera Sharlene, Chapp vinha pensando muito em sua participação na culpa pelo rompimento. Nada fizera, realmente, vendo-a se afastar dia a dia.

Os problemas se somavam, acumulando-se e pesando sobre seus ombros. Os problemas com o carro, suas falhas nas corridas, as primeiras rugas com a equipe, o desencontro total, afinal.

Quando dera por si, os problemas já haviam se tornado insolúveis, e nada mais havia a não ser renunciar a tudo, inclusive a ela.

Sharlene fora especial em sua vida. Talvez ela tivesse falhado também. Enquanto tudo fora maravilhas, Sharlene se esforçava para entender Chapp, compreendê-lo, ajudá-lo.

Depois, quando a crise se acentuara, ela quase que fugira a toda espécie de tentativa em reaproximação . Sem o incentivo dela, Chapp desistira, entregando-se a um torpor desanimado, a não se importar com mais nada.

Mergulhou fundo na frustração, nadou na escuridão do isolamento, sufocando seus sentimentos, autopunindo-se, e analisando-se, para poder se refazer.

Não estava muito longe do que estivera ao fim da temporada. Sua esperança era aquele carro, mas, além dele, Chapp sentia a falta de algo mais.

O que lhe faltava era humano, ligado aos sentimentos, aos anseios de seu corpo, a seus instintos. A aparição daquela garota no meio da noite possivelmente lhe trouxera de volta coisas que julgara perdidas, abandonadas, mas ainda importantes para ele.

Mas quem era ela, realmente? Vestia-se bem, seus cabelos bem cuidados, sua maquilagem impecável, as jóias em suas mãos, o carro, as roupas caras, tudo indicava que Susy era uma garota rica.

Poderia ser. Talvez alguém cansada da monotonia de sua riqueza, tentando encontrar emoções fortes num meio onde essas emoções eram fáceis.

— O que o faz pensar tanto? — indicando ela, observadora.

— Você — respondeu ele, procurando um cigarro.

Havia deixado no stand. Apanhou sua bolsa no console a seu lado, abriu-a e retirou uma cigarreira.

— Poderia acender dois?

— Claro — concordou ele, apanhando a cigarreira.

Abriu-a. havia um isqueiro dourado e minúsculo no interior do objeto. Chapp acendeu dois cigarros e passou um para a garota.

Ao fechar a cigarreira, seus dedos sentiram uma saliência. À luz da rua, Chapp observou as letras iniciais do nome dela, gravadas no metal.

— Susy Sommers...

— Sim?

— Eu... Eu gostaria de tomar alguma coisa. Você não?

— É um convite?

— Sim, é um convite.

— Aceito. Em meio apartamento ou no seu? — retrucou ela, pegando-o de surpresa.

Olhou-a com cuidado. Já não havia a menor sobra daquele nervosismo inicial. Susy parecia sentir que sua presença o fascinava, que seu mistério se impunha sobre ele.

Sorriu ligeiramente, percebendo o interesse e o embaraço no rosto dele.

— Poderíamos colocar isso de outro modo. Que tal você me mostrar sua coleção de troféus? — sugeriu ela, realmente segura, surpreendentemente segura agora.

— Como sabe que tenho uma?

— Você já foi grande, Chapp. eu sei disso.

— Parece saber muito sobre mim, Susy.

— Muito mais do que sobre mim, Susy.

— Muito mais do que possa imaginar, Chapp — sorriu misteriosa.

CAPÍTULO 3

Quando Sharlene se sentou no aconchegante estofamento do Mercedes último tipo reluzente e do ano, teve a nítida sensação de que um abraço quente e sensual parecia envolver todo o seu corpo.

Conhecia aquela sensação, conhecia e adorava. Ela a fazia se lembrar de Chapp, e dos bons tempos, mas isso passara. O seu interesse estava todo voltado, agora, para a brilhante e misteriosa figura de Joshua Tembley.

Ele possuía, inegavelmente, todos os ingredientes que Sharlene apreciava num homem, além de muito dinheiro. Era absolutamente imprevisível, carinhoso ao extremo, firme quando necessário, elegante e sempre cheio de idéias a respeito da vida e dos prazeres.

Estava com ele há coisa de três semanas. Fora um encontro casual e muito excitante numa discoteca. Passaram a se encontrar com certa freqüência.

Parecia haver um ímã no corpo de Sharlene que o atraia para ela. Em sua presença, Joshua sentia, acima de seus interesses pessoais, o envolvimento cada vez mais forte que ela provocava.

— Vamos comemorar a nossa noite — disse ela, lentamente, palavra por palavra, cabisbaixa, dando a entender que aquela decisão viera de um esforço tremendo de parte da parte dela.

Joshua desejou gritar imediatamente que aceitava a oferta. Afinal, além de um propósito já definido, todos aqueles jantares, aqueles passeios, aqueles progressos e, agora, aquele colar, visavam também a conquista-la.

Precisava, porém, fazê-la ver nele o homem mais carinhoso e gentil do mundo, conquistando sua confiança inteiramente. Precisaria disso para o que viria mais tarde.

De certa forma, no entanto, estava seguro a respeito do que agradava ou não àquela mulher. Sharlene não escondia sua satisfação com a ostentação, com o bom e o melhor.

Joshua poderia lhe oferecer tudo isso. Era uma questão de oportunidade. Era um trabalho que, nem por isso, deixaria de ser uma diversão, uma excitante e inesquecível diversão.

— Não quero forçar nada, Sharlene. Quero apenas alegrá-la, vê-la feliz, devolver aquele sorriso que as fotos que possuo de você nunca negaram. Quero-a muito, muito mesmo —

disse ele, num tom levemente melodramático, mas que agradou terrivelmente à garota.

Sabia que tudo aquilo era um jogo. Sharlene não era nenhuma ingênua. Mas agradou-a, assim mesmo. Aquela manifestação da parte dele. Tornava tudo mais interessante e fácil de aceitar.

— Eu desejo isso, Joshua, desejo muito também — disse ela, levantando seus belos olhos para ele.

— Sharlene — exclamou ele, num suspiro, abraçando-a gentilmente e apertando-a contra o peito. — eu tinha certeza de que não me enganara...

— De que está falando? — indagou ela, vibrando sensações fortes e deliciosas ao se sentir de encontro àquele peito másculo e protetor.

— Há uma champanha no gelo em meu apartamento. qualquer coisa me dizia que você corresponderia a meus sentimentos — disse ele, segurando-a pelos ombros e afastando-a um instante para olhá-la.

— Convencido — respondeu ela, fechando lentamente os olhos e entreabrindo os lábios com sensualidade e provocação.

Os lábios dele cobriam os de Sharlene com avidez, num beijo fogoso e demorado. As mãos do homem se soltaram sobre o corpo macio e provocante da garota, buscando seus contornos mais íntimos e excitantes.

Sharlene ofegou, dominada por uma emoção arrebatadora. O caminhar apressado e possessivo daquelas mãos sobre seu corpo a fazia reviver sensações que, por algum tempo, estiveram adormecidas dentro dela.

Não fora fácil fazer isso Sharlene, porém, queria senti-las novamente, no momento adequado, com o homem certo, com a perspectiva de ver-se, novamente, como centro de atenções, segura quanto a sua vida, livre de coisas tão triviais e deprimentes como problemas financeiros.

Aquele colar de esmeralda em seu pescoço era a melhor prova disso. Um homem que fazia aquilo com uma garota que ainda não levara para a cama e que só conhecia há três semanas, sem sombra de dúvidas, poderia fazer ainda muito mais por ela.

Apertou-se a ele, esfregando seu rosto ao dele, acariciando-o, provocando-o, oferecendo-se, reagindo, com estudadas atitudes, ao momento tão intimo.

Os bancos envolventes de uma Mercedes, no estacionamento de uma discoteca sugeriam ações fortes como o gatilho de uma arma poderosa, capaz de deflagrar a mais fulminante explosão.

Sharlene, porém, queria o momento completo, a liberdade de ações, a sensualidade libertando-se sem repressão ou sustos.

— Sabia que adoro champanha gelada? — disse ela numa pausa, enquanto ele a beijava no pescoço e suas mãos resvalavam pelos seios da garota.

— Eu adoro garotas que gostam de champanha — respondeu ele, mordiscando levemente aquele pescoço torneado e sedutor.

— O que estamos esperando, então, para unir nossas preferencias — desafiou ela, sabendo que, a partir daquele momento, o jogo deveria ser agressivo, declarado, livre.

Joshua ainda a beijou nas faces, nos lábios, enquanto suas mãos resvalavam sobre as coxas da garota, até deslizarem pelos seus joelhos.

Afastou-se lentamente, afogueado, excitado ao extremo. Naqueles breves instantes tivera uma interessante e convincente amostra do que poderiam ser os momentos seguintes.

Olhou-a demoradamente, saboreando-a antecipadamente, dando asas a suas fantasias, despindo-se, devorando-a, sentindo-a inteiramente sua.

— Não sabe como esperei ansiosamente por sua resposta positiva, Sharlene — disse ele, girando a chave no contato.

Sharlene, não sem emoção, reclinou-se em seu assento, deixando que o roncar do motor da Mercedes soasse como a mais promissora e deliciosa música a seus ouvidos.

* * *

O presidente da Reunião Semanal de Stock-Cars, carros preparados para serem autênticos bólidos na pista, entrou apressado no gabinete do chefe dos pilotos.

— O que houve, Charlie?

— O diabo, Hank! O diabo!

— Como assim, homem? Não vai me dizer que a reunião de amanhã vai ser prejudicada.

Vendemos vinte e cinco mil ingressos. qual é o problema?

— Collins! — respondeu Charlie, com desalento total nos olhos.

— Collins? O que houve com aquele maníaco?

— Telefonou-me agora há pouco. Disse que acabou de se casar, e que vai passar a lua-de-mel em Las Vegas.

— Las Vegas? E a corrida de amanhã? Como pôde deixá-lo fazer isso? — explodiu Hank O’Malley.

— Como eu poderia retê-lo pelo telefone? — retrucou Charlie Calino, esmurrando sua mesa.

Os dois homens se olharam, cada um entendendo perfeitamente o motivo do nervosismo do outro. Collins era a atração da semana. Um piloto arrojado, destemido, capaz de empolgar a platéia, de arrancar até aplausos, de levar emoção pura à pista.

Sem ele, não haveria como remediar a situação. Vinte e cinco mil ingressos haviam sido vendidos por causa de sua participação.

Cinqüenta mil dólares estavam em jogo, além do prestígio da comissão. ao se entreolharem, Charlie e Hank sabiam que não adiantava reclamar ou maldizer, que havia dinheiro em jogo, que precisavam encontrar uma solução.

Hank caminhou de um lado a outro da sala, as mãos cruzadas às costas, a cabeça baixa.

Charlie sentou-se e apanhou uma lista de pilotos famosos, olhando-a detidamente.

De um dia para outro, era difícil resolver aquele problema. Havia prestigio em jogo, além do dinheiro. Não podiam impingir qualquer nome ao publico.

Quase sem perceber, Charlie apanhou uma caneta e, ainda sem compreender bem o que fazia, traçou um circulo ao redor do último nome da lista.

Hank estava parado diante dele, observando-o. Aquele movimento de Charlie significava uma resposta salvadora. Inclinou-se sobre a mesa.

— Chapp Bright? — indagou ele, entre surpreso, em dúvida, e seguro de que ali estava a solução.

— Sim, Chapp Bright, um nome que sempre causou furor...

— Mas isso antes...

— Depende da propaganda, Hank. Imagine só, se divulgarmos que Collins deu no pé, ao saber que Chapp Briht voltaria às pistas de stock-cars.

— Deixe-me ver — falou Hank, caminhando alguns passos pela sala, pensando na idéia.

Estacou, voltando-se para Charlie.

— Mas Chapp participará?

— E por que não? a não ser aquele misterioso carro de corrida que ninguém viu ainda, ninguém mais ofereceu estar sedento por uma vitória que o reabilite.

— Está bem, não temos muita escolha mesmo. Seu plano pode ser bom, vamos tentar.

você fala com Chapp, vamos aumentar a bolsa pelo primeiro prêmio. cinco mil, que acha?

— Excelente! Pelo que sei, Chapp não anda bem de finanças. Esses cinco mil deverão tentá-lo o bastante. Eu o procuro amanhã bem cedo. Tenho o endereço dele aqui, em alguma parte. qual carro ele pilotará?

— O carro de Collins, é claro. Se Chapp vencer, vamos ter a maior publicidade do mundo.

Acho que Collins nos fez um favor, afinal.

— Resolvido! — suspirou Charlie, levantando-se.

Deixaram o escritório. Charlie apagou as luzes. Por instantes olhou a enorme pista lá embaixo, após as arquibancadas.

Ainda tinha claramente na memória aqueles momentos fantásticos, quando Chapp cruzava a linha final, e o público, de pé gritava seu nome.

Reviver tudo aquilo seria emocionante e muito lucrativo, o que era essencial.

* * *

Somente agora Chapp percebia como estava cansado. O uísque que lhe descia lento pelo garganta parecia ressaltar todo o seu cansaço.

Mas ali, diante dele, aquela imagem delicada e, ao mesmo tempo, provocante, mexia com seus nervos e com suas emoções, obrigando-o a se sentir atento a todas as nuances daquele fascínio.

Susy tinha o riso fácil, envolvente, e um modo delicado e cativante de ser. sua espontaneidade divertia Chapp, fazendo-o sentir recuperado de uma espera forçada.

Havia se poupado quanto a sentimentos fortes, havia fugido daquilo, ainda amedrontado com o que poderia lhe acontecer se tivesse de enfrentar duas desilusões em pouco tempo.

Susy, porém, inspirava-lhe uma nova dimensão de fascínio, algo que vinha da camaradagem, da amizade pura, e se mesclava a ingredientes fortes e emocionantes como o desejo, a excitação, a ação insubstituível num leito nupcial.

— O que houve com seu carro? — indagou ela, enquanto o barman depositava a segunda rodada sobre a mesa ocupada por eles.

— Perdi-o.

— Bateu?

— Não, perdi-o simplesmente. Tive de resolver entre alguns compromissos inadiáveis e a necessidade incomum de me sentir ao volante.

— Não deve ter sido fácil, não?

— Não, pode apostar que não. Espero voltar em breve às emoções antigas... Se tudo der certo... Ainda não sei bem.

— Refere-se ao novo carro?

— Sim, a ele mesmo.

— E como ele é? Como você o sentiu?

— Bem, acho que... Você! — repreendeu-a ele, sorrindo divertido.

Ainda temia, lá dentro, a respeito daquela garota. Se ela fosse uma repórter, a mais deliciosa e adorável de todas elas, Chapp nem deveria estar ali, dividindo seu tempo com ela.

Muito sutil e envolvente, Susy poderia arrancar a qualquer momento alguma informação significativa, da parte dele.

Chapp sabia quão rigorosas haviam sido as ordens. O carro era um segredo absoluto.

Alguns componentes inovadores poderiam interessar em muito aos concorrentes rivais.

— Curiosidade, apenas — descartou ela, convincente.

— Acho que pode entender minha posição, não?

— Nem se discute, Chapp.

Olharam-se. Havia qualquer coisa, além de seus segredos íntimos, brilhando em seus olhos. Havia qualquer coisa que poderia ser considerada uma ameaça, mas que ambos desejavam, consciente ou inconscientemente, tornar um ponto em comum a uni-los.

Susy consultou discretamente o relógio.

— É tarde, não? — Observou ele.

— Quer que lhe dê uma carona até sua casa?

— Claro que sim. Talvez eu possa lhe mostrar minha coleção de troféus — disse ele, com seriedade.

— Talvez seja muito cedo, não acha? — retrucou ela, com a mesma seriedade e com a mesma emoção.

Olharam-se nos olhos. Tudo que viram foi indisfarçável. A resposta estava visível demais.

Por mais que tentassem fugir àquilo, sob o pretexto que fosse, saberiam que estariam mentindo a si mesmos.

Poderia ser cedo, mas quem poderia determinar isso? Que critérios alguém poderia seguir, quando tão subjetiva era a atração, o fascínio, o encontro?

Chapp queria algo, Susy também. Por mais desencontradas que pudessem ser suas vidas e seus objetivos, aquele traço de união era indelével, indicando o mútuo consentimento e o mútuo convite irrecusável.

CAPÍTULO 4

Apartamento de cobertura sempre fascinaram Sharlene, principalmente aqueles que ficavam nos prédios altos da Quinta Avenida, dominando elegantemente a vista da cidade.

Ao entrar, reviveu momentos de puro prazer e encanto. A decoração de luxo, os detalhes caros, a elegância requintada impondo-se diante de seus olhos.

Joshua percebeu aquele interesse maravilhado da garota, certo de que tudo aquilo era um bom sinal, que as coisas não seriam, afinal, tão difíceis.

Toda e qualquer dúvida que ainda pudesse ter desaparecia ali, diante da reação comprovodora da garota. ela se voltou para ele.

Com displicência e esnobismo, Joshua girou no indicador o seu chaveiro, depois atirou-o sobre um móvel. Sorriu para Sharlene, enquanto soltava o último botão de seu paletó esporte, muito bem talhado.

— Tem um belo apartamento aqui, Joshua. Tudo isso é seu?

Ele riu, como se a tolice deslumbrada de Sharlene não o afetasse.

— Tudo nosso agora, querida — responde ele, abrindo os braços e esperando por ela.

Não havia como recusar, não havia como fugir àquela entrega tão desejada por ela, principalmente agora, quando comprovava que todas as suas soluções estavam naquele homem que a queria.

Então, por que não agradá-lo e não ser boazinha com ele? Já o prendera com sutilezas, poderia conquistá-lo definitivamente com seu desempenho fogoso, arrebatador, apaixonado.

Enlaçou-o pela cintura, olhando-o de frente. Seus olhos brilhavam de volúpia e cobiça. O

luxo ao seu redor parecia contribuir inegavelmente em sua excitação.

Seus lábios sensuais e mornos tocaram o pescoço de Joshua. Suas mãos finas e carinhosas soltaram-lhe alguns botões da camisa, acariciando-lhe a pele com provocação.

Joshua deixou que suas mãos escorregassem gostosamente pelos flancos da garota, sentindo a curva acentuada de sua cintura e os contornos firmes e tentadores de seus quadris.

A respiração forte da garota contra seu pescoço, subindo lentamente numa escada de beijos eficientes, incendiava sua pele, confundia seus sentidos, pondo febrilidade em seu corpo.

Suas mão subiram junto aos seios da garota, soltando botões. Sharlene não reagiu, apenas facilitou. Quando a blusa deslizou para o tapete, Joshua segurou-a delicadamente pelos ombros e afastou-se um instante para olhá-la.

O colar de esmeralda, contrastando com a beleza da pele de Sharlene, produzia um efeito estonteante, como uma espécie de coros pairando acima daqueles seios redondos e firmes, pequenos, mas tentadores.

Dos ombros, suas mãos saltaram para o pescoço de Sharlene, deslizando, a seguir, pelo colar, até lhe tocarem os seios.

Sharlene se retraiu num estremecimento, sensações irresistíveis agitando-se em seu intimo.

— Você deveria viver coberta de jóias e coisas caras que façam justiça à sua beleza —

murmurou ele, enrouquecido e sensual.

— Faça isso, Joshua. Faça isso — provocou ela, olhando-o cheia de mistério e fascínio.

— Aquela champanha...

— Por que não vai buscá-la?

— Sim, e você me espera ... Ali — apontou ele, segurando-a pelos ombros e levando-a pelo apartamento.

Deixou-a diante de uma porta. Antes de se afastar, beijou-a nos ombros, no pescoço, nos lábios entreabertos e úmidos.

Sharlene, emocionada, abriu a porta e entrou. O bom gosto imperava em todo o quarto.

Cada detalhe, por menor que fosse, fazia parte insubstituível do requinte e do luxo.

A enorme cama atraiu-a. a garota foi se estender sobre ela, enrodilhando-se como uma gata assanhada, olhando fixamente a porta.

Examinou por instantes o colar que pendia de seu pescoço. Era uma jóia maravilhosa e cara. Joshua deveria ser um milionário. Pouco sabia sobre os negócios dele, mas, fossem quais fossem, Sharlene os aprovava. Joshua sabia viver, e isso o identificava com ela.

— Demorei? — indagou ele, surgindo à porta, com duas taças e o balde de gelo.

Sharlene apenas sorriu, olhando-o com seus olhos de pura sensualidade. Detidamente ele a examinou, dos cabelos que pendiam, aos seios nus; das formas tentadoras dos quadris às pernas que se flexionavam com elegância e graça.

— Maravilhosa, simplesmente maravilhosa! — exclamou ele, avançando.

Não havia pressa. Aquele corpo deveria ser saboreado lentamente. Aquela noite deveria ser gozada pouco a pouco, degustada como um vinho ou uma boa champanha.

Abriu a garrafa e, antes que o precioso liquido borbulhasse impetuosamente, despejou-o nas taças. Sentou-se na cama e passou uma delas para Sharlene.

— Deliciosa! — exclamou ele, deliciando-se em provar de novo a maravilhosa sensação de uma excelente champanha borbulhante em sua boca, provocando cócegas que se assemelhavam a caricias intimas e ardentes.

Joshua estendeu-se sobre a cama, apoiando-se à cabeceira. Lençóis de cetim eram excelente pano de fundo para o corpo inquieto e tentador de Sharlene. Joshua suspirou a maravilha e o prazer daquele trabalho.

A garota aconchegou-se a ele, terminando de soltar-lhe os botões restantes da camisa. Sua mão passeou provocante sobre o peito dele.

Estava vibrando, o cenário perfeito, os detalhes completos, sua fantasia maior se realizando novamente com a volta aos bons tempos de luxo e agitação.

Um apartamento excelente, o luxo carinhoso e quente das coisas caras fazendo arder sua pele, um homem carinhoso e rico, uma noite perfeita para um inicio promissor.

Era chegado o momento de retribuir a tudo que poderia obter dele. Uma de suas pernas se acomodou sobre as dele. O sapato pendeu de seu pé, e Sharlene deixou-o cair para fora da cama. Unhas bem cuidadas davam charme àquele pé, detalhe que não escapou à atenção de Joshua.

Sim, aquela mulher era dinamite pura, perfeita e ambiciosa. Juntos poderiam lucrar muito, cinqüenta mil dólares para ser exato, dinheiro o bastante para dar-lhe o conforto até o próximo trabalho.

Poderia entrar imediatamente nos detalhes, mas havia algo mais importante a ser feito antes. Primeiro fazer baixar o nível daquela garrafa deliciosa. Depois bem... a noite sugeria tudo.

* * *

Susy passeou diante da enorme prateleira onde se alinhavam magníficos troféus, marcas de um tempo importante para Chapp, lembranças de um passado de glórias que ele esperava repetir, a todo custo.

Enquanto ela ficava ali, Chapp foi procurar nos armários qualquer coisa para que pudessem tomar. Encontrou apenas uma velha garrafa de uísque pela metade. Serviu dois copos e foi ao encontro dela.

— O que achou? — indagou ele, passando os copos para ela.

— Grande Chapp! — exclamou ela.

— Sim, grande realmente! — murmurou ele, olhando, pensativo e sonhador, os troféus.

Susy olhou-o disfarçadamente, enquanto tomava um gole de seu uísque. Depois examinou o apartamento. Sentiu pena de Chapp, mas um tipo perigoso de pena.

Parecia ver dentro dele a terrível máquina de sucesso sufocada por uma grande mágoa, mas capaz de explodir a qualquer momento, desde que tocada por mão hábeis.

Compreendeu a solidão dele e se sentiu solidária. algo, porém, valorizava-o a seus olhos: Chapp não desistira. Caíra muito, tornara-se uma piada de mau gosto, mas mostrando confiança em si mesmo, e segurança de tudo que lhe dizia respeito.

Um homem assim deveria ser amado intensamente, pois só no amor poderia reencontrar seu caminho perdido. Susy julgou-se uma apressada, mas seus sentimentos eram seguros também, ainda tímidos, mas promissores.

Deixou o copo de uísque e, levada por um impulso irresistível, abraçou Chapp, apertando-o firme contra o peito.

— Hei, o que foi?! — indagou ele, surpreso e enternecido, grato por aquela espontaneidade que o tocava profundamente.

— Não diga nada, apenas me beijo — pediu ela, levantando os olhos úmidos pela ternura.

— Susy! Susy, sua maluca! — exclamou ele, descobrindo, de repente, toda aquela vontade de amar que estivera contida dentro de si.

Acertou-a entre seus braços, beijando-a avidamente, provando um sabor que o entonteceu e embriagou, como o roncar alucinado de motores na linha de partida, antecipando a velocidade vertiginosa e o prazer de atingir a linha oposta.

Suas mãos, embrutecidas pelo trabalho duro dos últimos tempos, pareceram reencontrar emoções novas e sensíveis. Todo o seu corpo estremeceu. Seus lábios escorregaram para o pescoço da garota. Ela ofegou, olhos fechados, boca entreaberta numa deliciosa imagem de entrega e paixão.

Aquela garota o confundia e fascinava. Tinha medo dela e a desejava. Sabia do risco que corria, mas não podia fugir aos apelos de seu corpo, ao fascínio que o envolvia, às emoções que brotavam avassaladoras.

Seus corpos foram se acomodar, ainda unidos no mesmo abraço, sobre o amplo sofá.

Olharam-se demoradamente, maravilhados pela descoberta.

Tudo ainda era incerto, apressado, mas espontâneo, natural, nascido de dentro deles.

Chapp a desejou ardentemente, quis aquele corpo como nunca quisera outro em sua vida.

Era seu momento, um momento importante para ele, talvez decisivo, talvez passageiro, mas importante ainda assim.

Seu lábios espalharam, sofregadamente, beijos pelo rosto de Susy, enquanto suas mãos buscavam o corpo dela com ansiedade, vencendo barreiras de tecido, sentindo-lhe a pele macia e sedosa.

O corpo dela, pendeu, estendendo-se solto e inquieto à espera de Chapp. Ele olhou-a demoradamente. Suas mãos subiram pelo ventre da garota, soltando botões, desnudando-lhe os seios.

Ela quis protestar, quis evitar, quis esconder-se, mas o desejo dentro de si era mais forte.

Carinhosamente as mãos dele afagaram-lhe os seios.

As mãos de Susy retribuíram na mesma medida, livrando-o da camisa, apertando-lhe os músculos delineados e fortes, beliscando-o com volúpia e provocação.

Chapp inclinou-se sobre ela, e seu hálito quente arrepiou o corpo da garota. Seus lábios febris avançaram sobre ela, buscando-lhe os seios agressivos e redondos.

Susy enterrou suas mãos nos cabelos dele, apertando-o contra si, temendo e desejando que ele devorasse seu corpo com suas caricias alucinantes.

As mãos dele lançaram-se numa outra excitante e tentadora aventura, buscando o fecho da saia usada por Susy, soltando-o, livrando-a, tento-a mais nua ao alcance de suas caricias.

Firmes e carinhosas suas mão deslizaram, então, pelos quadris da garota.

Ensaiaram caricias mais ousadas, fazendo-a estremecer e ofegar, apertando-o contra si, beijando-o no pescoço, mordiscando-o no queixo, avançando pelo corpo dele e procurando despí-lo também.

Momentos de louca arrebatação e movimentos furtivos, apressados, divertidos, patéticos, mas sempre emocionantes, até que as peles se tocassem e se esfregassem com volúpia acentuada.

Por momentos, Chapp parou para olhar aquele corpo sedutor e ardente junto do seu .

Havia proporção e graça em cada curva, fascínio em cada centímetro daquela pele macia e aveludada.

Olhando-se nos olhos, Susy sentiu crescer assustadoramente a sua volúpia sensual. Seus olhos passearam, a seguir, pelo corpo másculo viril de Chapp, gerando uma tensão deliciosamente excitante.

As mãos dele voltaram a se perder na inquietação, que as dominava, enquanto seus lábios deslizaram pelo pescoço da garota, caminhando apressados na direção daqueles seios provocantes.

Susy suspirou forte, estremecida por espasmos que ganhavam intensidade em seu corpo e faziam toda ela se abalar gostosamente.

O hálito quente de Chapp, pairando acima de seu seios, a fez se sentir em brasa. Susy se sentiu explodir em paixão, acariciando-lhe o corpo, acrescentando descobertas à sua paixão.

Mal conhecia aquele homem, mas queria amá-lo, queria entregar-se, e dar a ele muito mais que simples momentos de amor.

Susy queria descobrir seu próprio orgulho em reerguer aquele homem, em fazê-lo se sentir bem, confiante, reconquistando seu lugar merecido entre os vencedores.

Havia uma enorme certeza dentro dela gritando-lhe que Chapp nunca poderia fazer parte da galaria dos perdedores. Ele era um vencedor por natureza. Talvez deslocado, talvez enganado, talvez iludido quanto a sua real situação, mas um competidor aguerrido.

Despertá-lo daquela forma, tirar a tristeza dos olhos dele, devolver-lhe a inquietação e o gosto da vitoria, tudo isso era um desejo compartilhado por cada detalhe de seu corpo em chamas.

Entregue às caricias dele, Susy ganhava a certeza de que isso aconteceria, facilitando sua entrega, tornando-a bela e embaçada em algo sólido.

Apertou-se contra ele, suplicando por seus beijos, aceitando os lábios dele, inquietos e sôfregos, para sugá-los e mordiscá-los apaixonadamente.

Na volúpia crescente, na sensualidade desenfreada que se anunciou, Susy e Chapp se convenceram de um grande encontro, e buscaram se certificar ainda mais disso numa entrega total e arrebatada.

Mão e lábios esmeraram-se em caricias intimas e avassaladoras. Deslumbrado e tonto com todas aquelas emoções despertadas por Susy, Chapp queria senti-la totalmente.

Dos cabelos sedosos e perfumados, aos lábios mornos e delirantes; do pescoço torneado e sedutor aos seios agressivos, sempre pedindo e oferecendo paixão; do ventre delicado às coxas inquietas e sedutoras: tudo deveria ser tocado e acariciado.

Em seu arrebatamento, Chapp ainda indagou-se a respeito daquela misteriosa mulher.

Quem seria ela, rica e tão natural? Alguém tão só como ele? Uma repórter bisbilhoteira e perigosa?

Não havia resposta convincentes para essas perguntas, porque, ali, naqueles momento, Susy não era nada disso. Era apenas uma mulher.

Algo simples e misterioso assim não admitia perguntas, apenas ações, divisão de emoções, buscas incessantes e insaciáveis de parte a parte.

Susy fremia apaixonada. O desejo atingia proporções alucinantes. Mais e mais os lábios e as mãos de Chapp deslizavam pelo seu corpo, brincando-a com a mais tentadora das louvações.

Tudo estava esquecido para ela. Nada havia a ser indagado ou descoberto. Descobria um novo homem e se sentia orgulhosa e feminina, disso.

Retribuiu cada caricia, beijando, mordiscando, sugando, apalpando, extravasando toda aquela mescla de sensações alucinantes e contraditórias que tiravam-lhe a respiração, estremeciam seu corpo, arrancavam suspiros e gemidos sinceros de seus lábios.

Coordenando a ação de suas mãos e lábios, Chapp dominou todo o corpo de Susy, conduzindo-a à entrega total, brindando-a com o desvario dos sentidos e a condução das emoções.

Tocou, sentiu e mediu aqueles seios. Acariciou aquele ventre em convulsões. Inquietou ainda mais aquelas coxas nuas e macias.

Caricias mais intimas fizeram-na se contorcer, abalada por espasmos de pura delicia.

Suplicante e delirante, Susy implorou por ele, ansiosa pelo hálito dele junto de seu pescoço, por seus beijos desvairados, por seus movimentos alucinantes...

CAPÍTULO 5

As mãos de Joshua ainda deslizavam suavemente sobre a pele de Sharlene, provocando-lhe arrepios que se somavam às últimas sensações daqueles momentos de amor.

Joshua fora maravilhoso, brindando-a com a maior das sensações, apossando-se de seu corpo com uma frebrilidade que agradava violentamente à garota.

Sentindo-se, agora totalmente segura quanto àquele homem, Sharlene relaxava totalmente o corpo e entreabria os olhos para fitá-lo.

Seus olhos se cruzaram com os dele. Joshua olhava-a detidamente. Um colar de esmeraldas era toda a roupa que deveria haver sempre sobre um corpo tão perfeito, conclui ele.

— Mais champanha? — ofereceu ele, provando que a noite mal começara.

— Eu gostaria de um cigarro primeiro.

Joshua inclinou o corpo e apanhou sua cigarreira e o isqueiro. Acendeu um cigarro e depositou-o entre os lábios de Sharlene.

A garota aconchegou seu corpo contra o dele, esfregando-se lânguida e apaixonada.

Joshua ficou brincando com a cigarreira em suas mãos.

Sharlene tomou-a, examinando-a com olho clínico. O ouro maciço exercia um fascínio enorme sobre ela.

Joshua acariciou-a no pescoço, acompanhando o colar com uma das mãos.

— Gostou do presente?

— Adorei — sorriu ela.