Avaliação das usinas de compostagem do estado de São Paulo em função da qualidade dos compostos e... por Luciana Pranzetti Barreira - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

Universidade de São Paulo

Faculdade de Saúde Pública

Avaliação das usinas de compostagem do

estado de São Paulo em função da qualidade

dos compostos e processos de produção

Luciana Pranzetti Barreira

Tese apresentada ao Programa de

Pós-Graduação em Saúde Pública

para obtenção do título de

Doutor em Saúde Pública

Área de Concentração: Saúde Ambiental

Orientador: Prof. Dr. Arlindo Philippi Jr.

São Paulo

2005

Avaliação das usinas de compostagem do

estado de São Paulo em função da qualidade

dos compostos e processos de produção

Luciana Pranzetti Barreira

Tese apresentada ao Programa de

Pós-Graduação em Saúde Pública da

Faculdade de Saúde Pública da

Universidade de São Paulo

para obtenção do título de

Doutor em Saúde Pública

Área de Concentração: Saúde Ambiental

Orientador: Prof. Dr. Arlindo Philippi Jr.

São Paulo

2005

Dedico este trabalho aos meus pais

e ao meu avô Antônio Pranzetti (in

memoriam).

AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Dr. Arlindo Philippi Junior, um grande estudioso das questões ambientais, pela oportunidade de estudo e orientação.

Ao Prof. Dr. Mario Sergio Rodrigues, que acreditou no meu trabalho e fez com que eu mantivesse a minha perseverança mesmo nos momentos mais difíceis.

Ao Prof. Dr. Jorge Alberto Soares Tenório pela permissão concedida para a realização das análises físicas no laboratório do Departamento de Metalúrgica e Materiais da Escola Politécnica/USP e ao Danilo Augusto Filho por toda a colaboração na sua realização.

À Profa. Dra. Maria Olímpia Rezende, Maria Diva Landgraf e Jussara Aparecida de Oliveira Cotta do Departamento de Química Ambiental do Instituto de Química/USP –

São Carlos pelas análises químicas deste trabalho.

Ao Paulo Cordeiro e a equipe do Laboratório de Análises Químicas da EESC/USP, pelas análises de metais pesados.

Ao Fábio Fernando da Silva do Instituto de Matemática e Estatística da USP, pelas análises estatísticas.

À Profa. Dra. Wanda Maria Risso Günther, grande conhecedora das questões ambientais, por toda a consideração e amizade durante estes anos.

Ao Dr. Jorge Toshiyuki Ogata, engenheiro do Setor de Resíduos Domiciliares e de Serviços de Saúde da CETESB, à Profa. Dra. Hellma Hermann e ao Prof. Dr. Fábio César Da Silva da Embrapa/Campinas.

Às funcionárias da Seção de Pós-Graduação Angela, Silvia, Marilene, Márcia e Renilda.

Aos colegas do Departamento de Saúde Ambiental, principalmente à Tami, Dona Vanda e Sérgio.

Aos gestores das Usinas de Compostagem do estado de São Paulo que não mediram esforços em prol do trabalho, fornecendo todos os subsídios para a coleta de dados e informações necessárias, contribuindo de forma efetiva e imprescindível para essa pesquisa: Sr. Valdir Ramos de Azevedo (Adamantina), Sr. Gilberto Luis Bertolucci (Assis), José Renato Landgraf (Bocaina), Sr. Valter Claudino de Oliveira Filho (Garça), Sr. Ag-naldo de Oliveira e Antônio Paulo Silveira (Itatinga), A Sra. Margareth Tomazini e Sr.

Carlos Alberto Moreira Feni (Martinópolis), Sr. Valdomiro Segateli e Sr. Luiz Pinto Gaudio (Oswaldo Cruz), Sr. Álvaro Rodrigues (Parapuã), Sr. Inacio Makiama (Presidente Bernardes), Sr. José Roberto Braulio de Melo (São Jose dos Campos), Sr. Aviemar Filho (São José do Rio Preto), Sr. Valter José de Lima (São Paulo), Sr. José Siqueira Campos (Tarumã), Sr. Antonio Capossi (Uru)

À Dirce Pranzetti e Marcos Matsukuma, não só pela diagramação da tese mas, principalmente, pelo carinho e força nos momentos finais e mais difíceis.

Ao Ronaldo Montalvão e Jelanie Mahiri.

Aos amigos, principalmente Cecília Toloza e Maria Donizeti de Brito pela paciência, força e amizade.

A todas as pessoas que colaboraram de alguma forma nesse trabalho em especial a grande amiga Izabela Oliveira pela participação imprescindível em todo o período da tese.

À Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), pela bolsa de estudo concedida.

RESUMO

Barreira LP. Avaliação das Usinas de Compostagem do Estado de São Paulo em Fun-

ção da Qualidade dos Compostos e Processos de Produção. São Paulo; 2004. [Tese de Doutorado – Faculdade de Saúde Pública da USP].

Aliado à geração constante de resíduos estão as dificuldades nas formas de disposição e tratamento, muitas vezes custosas e que não levam em consideração suas características básicas.

No Brasil, 60% da composição dos resíduos é matéria orgânica passível de reciclagem por meio do processo de compostagem, um método simplificado e sem custos elevados para o seu tratamento sanitariamente adequado. No entanto, as usinas de compostagem são vistas somente como grandes obras de engenharia, capazes de reduzir o volume de resíduos, produzindo um composto de baixa qualidade e vendido a preços irrisórios. Objetivo. Avaliar as usinas de compostagem do estado de São Paulo em função da qualidade dos compostos e processos de produção. Métodos. Pesquisou-se 14 usinas de compostagem do Estado de São Paulo com diferentes processos de produção. O estudo incluiu 3 fases: 1) caraterização da matéria-prima e do material-base e o estudo dos processos de produção, 2) análise dos compostos: física (densidade real e aparente, granulometria e conteúdo total de contaminantes) e química (micro e macronutrientes e metais pesados), e 3) análises estatísticas. Resultados. Os resultados foram avaliados levando-se em conta as usinas separadamente e o agrupamento realizado de acordo com suas estruturas. As usinas que utilizam os processos com peneiras rotatórias apresentaram melhores resultados quanto ao conteúdo de contaminantes e granulometria. Nos resultados quí-

micos, as estruturas das usinas não tiveram influência direta. Conclusões. Os compostos não apresentaram alta qualidade mas podem ser considerados como condicionadores de solo. O

problema com as usinas não está na sua estrutura mas sim na falta de acompanhamento dos fatores que regem a compostagem no pátio.

Descritores: Resíduos, usinas de compostagem, qualidade de compostos, processos de produção.

SUMMARY

Barreira, LP. Evaluation of the Composting Plants in the State of São Paulo in Function of the Quality of the Composts and Production Processes.

Related to the constant generation of waste are the difficulties in the form of their placement and treatmente, many times very costly and often not takinginto consideration its basic charactteristics. In Braszil, 60% of waste composition is organic material which could be recycled by means of a composting process, a simple method and without high costs for adequate sanitary treatment. However, the composting plants are seen only as great engineering feats, capable of reducing the volume of waste, producing a low-quality compost that is sold at ridiculous prices. Objetive. To evaluate the composting plants in the state of São Paulo in function of the quality of the composts and production processes. Methods. Fourteen composting plants in the state of São Paulo with different production processes were investigated. The study includes three phases: 1) characterization of raw materials and of base materials and the study of production processes; 2) composto analysis, both physical (real and apparent densities, granulometry and total contaminat contente) and chemical (micro and macro nutrients and heavy metals); and 3) statistical analysis. Results. The results were evaluated taking into account the composting plants separately as well as by grouping them according to their structural characteristics. The plants utilizing processes with rotating sieves presented better results in relation to both contaminat content and granulometry. For the chemical results, the structural characteristics of the composting plants did not have a direct influence.

Conclusions. The composts were not of high quality but could be considered as soil conditioners. The problem with the composting plants was not in their structure but in the lack of accompanying factors that govern the process in the composting area.

Keywords. Waste, composting plants, composto quality, production processes.

LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Modelo de desenvolvimento atual e suas implicações.

Figura 2. Vias de acesso de agentes patogênicos para o homem através dos resíduos

“in natura”.

Figura 3: A umidade no processo de compostagem e no produto acabado.

Figura 4: Mudanças na temperatura até a cura total do composto Figura 5: Fluxo de materiais em uma usina de triagem e compostagem Figura 6: Pátio de descarga de resíduos sólidos urbanos (Município de Tarumã) Figura 7: Pátio de descarga de resíduos com funcionário alimentando manualmente a esteira (Município de Uru)

Figura 8: Esteira de triagem dos materiais recicláveis (Município de São José do Rio Preto) Figura 9: Peneira rotatória para beneficiamento do composto (Município de Tarumã) Figura 10: Bioestabilizador do processo Dano (Município de São Paulo) Figura 11: Pátio de compostagem com leiras piramidais (Município de Garça) Figura 12: Lagoas de tratamento de chorume (Município de Parapuã) Figura 13: Recirculação de chorume nas pilhas de compostagem (Município de Parapuã) Figura 14: Aterro de rejeitos juntamente com depósito de outros materiais (Município de Itatinga)

Figura 15: Materiais recicláveis armazenados nas usinas de compostagem (Município de Adamantina)

Figura 16: Caracterização da matéria-prima destinada à usina de compostagem (Município de São José dos Campos)

Figura 17: Fração orgânica presente na caracterização dos resíduos Figura 18: Caracterização do material-base

Figura 19: Condições das usinas de compostagem do estado de São Paulo, de acordo com os enquadramentos da pesquisa realizada pela CETESB

Figura 20: Esquema de uma usina do processo Dano Figura 21: Modelo de Usina Gavazzi

Figura 22: Modelo de Usina Maqbrit

Figura 23: Modelo de Usina Stollmeier sem trituração de resíduos.

Figura 24: Modelo de Usina Stollmeier com trituração de resíduos.

Figura 25: Visão geral da usina de compostagem de Adamantina Figura 26: Novo pátio de compostagem do município de Adamantina Figura 27: Lagoa de tratamento de chorume de Adamantina Figura 28: Peneira giratória (Município de Adamantina) Figura 29: Visão geral da usina de Assis

Figura 30: Visão geral do pátio de compostagem (Município de Assis) Figura 31: Peneira para beneficiamento do composto (Município de Assis) Figura 32: Composto pronto para o uso

Figura 33: Rejeitos retirados dos resíduos na triagem (Município de Bocaina) Figura 34: Detalhe do triturador de resíduos (Município de Bocaina) Figura 35: Peneira rotatória (Município de Garça) Figura 36: Rejeito após a saída da peneira (Município de Garça) Figura 37: Lagoas de tratamento de chorume (Município de Garça) Figura 38: Esteira de triagem (Município de Itatinga) Figura 39: Detalhe da peneira (Município de Itatinga) Figura 40: Lagoas de tratamento de chorume (Município de Itatinga) Figura 41: Detalhe da peneira com saída de rejeito (Município de Martinópolis) Figura 42: Pátio de compostagem (Município de Martinópolis) Figura 43: Saída de material-base após esteira de triagem (Município de Osvaldo Cruz) Figura 44: Peneira para beneficiamento do composto ( Município de Osvaldo Cruz) Figura 45: Pátio de compostagem com recirculação de chorume (Município de Parapuã) Figura 46: Peneira de pré e pós tratamento (Município de Parapuã) Figura 47: Peneira para beneficiamento de composto não instalada (Município de Presidente Bernardes)

Figura 48: Bioestabilizador (Município de São José dos Campos) Figura 49: Captação de chorume no bioestabilizador (Município de São José dos Campos) Figura 50: Separadores balísticos (Município de São José dos Campos) Figura 51: Peneira de pré-composto A (Município de São Paulo) Figura 52: Venda de pré-composto (Município de São Paulo) Figura 53: Pátio de recepção de resíduos (Município de São José do Rio Preto) Figura 54: Saída de material-base da peneira (Município de São José do Rio Preto) Figura 55: Moinho de pré tratamento de resíduos (Município de Tarumã) Figura 56: Visão geral da usina de Uru

Figura 57: Composto pronto para o uso (Município de Uru) Figura 58: Presença de inertes no composto

Figura 59: Conteúdo total de inertes nos diferentes grupos de usinas Figura 60: Visão geral da horta comunitária (Município de Tarumã) LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Resíduos sólidos urbanos divididos por tipo, composições e fontes Tabela 2: Resíduos domésticos potencialmente perigosos Tabela 3: Quantidade de resíduos coletados diariamente no Brasil e suas unidades de destino final

Tabela 4: Principais doenças transmitidas por vetores presentes em locais de disposi-

ção inadequada de resíduos.

Tabela 5: Diferenças entre composto maduro e o composto cru Tabela 6: Relação de alguns elementos potencialmente tóxicos Tabela 7: Limites de metais pesados (mg/kg) para países com normas de certificação para composto

Tabela 8: Valores máximos para conteúdo de inertes nos compostos Tabela 9: Valores estabelecidos para o composto orgânico no Brasil Tabela 10: Especificações para granulometria segundo a Legislação Brasileira Tabela 11: Estimativa de valores para umidade, pH e relação C/N para compostos Tabela 12: Resumo das usinas de compostagem operantes nos Estados Unidos Tabela 13: Municípios do estado de São Paulo, os índices de qualidade de suas usinas de compostagem (IQC) e a situação encontrada na época do levantamento e seleção das amostras.

Tabela 14: Características locacionais e socioambientais dos municípios estudados Tabela 15: Evolução dos IQCs das usinas de compostagem do estado de São Paulo –

Período de 1997 a 2002

Tabela 16: Características das usinas de compostagem estudadas Tabela 17: Agrupamento das usinas estudadas conforme suas estruturas de pré-tratamento dos resíduos enviados ao pátio de compostagem

Tabela 18: Caracterização dos resíduos dos municípios com usinas de triagem e compostagem do estado de São Paulo (Médias dos períodos do inverno/2003 e verão/2004) Tabela 19: Caracterização do material-base (Médias dos períodos) Tabela 20: Comparação entre os grupos de usinas com relação ao material-base Tabela 21: Médias para a quantidade de compostos retidos nas peneiras Tabela 22: Granulometria por grupos de usinas Tabela 23: Médias de densidade real e aparente nas amostras de compostos Tabela 24: Densidades real e aparente por grupos de usinas Tabela 25: Médias para conteúdo de inertes nas amostras de compostos Tabela 26: Conteúdo total de inertes comparando os grupos de usinas Tabela 27: Médias para as análises químicas para a maturação dos compostos das usinas de compostagem do estado de São Paulo (Períodos inverno/2003 e verão/2004) Tabela 28: Parâmetros de maturação do composto comparando os grupos de usinas.

Tabela 29: Médias para nutrientes nos compostos das usinas de compostagem do estado de São Paulo

Tabela 30: Valores para nutrientes comparando os grupos de usinas.

Tabela 31: Médias para metais pesados nos compostos Tabela 32: Valores para metais considerando os diferentes grupos de usinas Tabela 33: Usos dos compostos produzidos nas usinas de compostagem ÍNDICE

1 INTRODUÇÃO

1

1.1 Resíduos Sólidos Urbanos Inseridos na Questão Ambiental 4

1.1.1 Modelo de Desenvolvimento Econômico Atual e suas Implicações Ambientais

4

1.1.2 Evolução na Geração de Resíduos e a Problemática Ambiental e de Saúde Pública

12

1.1.3 Formas de Tratamento e Disposição Final de Resíduos Sólidos Urbanos 26

1.2 Compostagem como Método de Tratamento dos Resíduos Sólidos Urbanos 32

1.2.1 Fatores que Regem o Processo

36

1.3 Composto como Produto do Processo de Compostagem 43

1.3.1 Qualidade do Composto

44

1.3.2 Mercado para o Composto

59

1.4 Usinas de Compostagem: Panoramas Mundial e Brasileiro 62

1.4.1 Panorama Mundial

62

1.4.2 Panorama Brasileiro

69

2 OBJETIVOS

86

2.1 Geral

86

2.2 Específicos

86

3 METODOLOGIA

87

3.1 Levantamento Bibliográfico

87

3.2 Levantamento, Seleção e Contato com as Usinas em Estudo 87

3.3 Instrumento de Coleta de Dados

89

3.3.1 Elaboração e Aplicação do Questionário

89

3.3.2 Coleta de Amostras

89

3.3.2.1 Caracterização dos Resíduos Sólidos Urbanos e do Material-Base 89

3.3.2.1.1 Resíduos Sólidos Urbanos

89

3.3.2.1.2 Material-base

92

3.3.2.2 Coleta de Compostos

93

3.3.3 Análises Físicas e Químicas nos Compostos

94

3.3.3.1 Análises Físicas

94

3.3.3.2 Análises Químicas

96

3.4 Análises Estatísticas

97

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

98

4.1 Características Locacionais e Socioambientais dos Municípios Estudados 98

4.2 Características e Processos Utilizados nas Usinas de Compostagem Estudadas

100

4.3 Caracterização da Matéria-Prima

137

4.4 Caracterização do Material-Base

139

4.5 Qualidade dos Compostos

143

4.5.1 Análises Físicas

143

4.5.1.1 Granulometria

143

4.5.1.2 Densidade Real e Aparente

146

4.5.1.3 Conteúdo Total de Inertes

148

4.5.2 Análises Químicas

152

4.5.2.1 Maturação do Composto

153

4.5.2.2 Nutrientes

158

4.5.2.3 Metais Pesados

162

4.6 Utilização dos Compostos e Aspectos Positivos e Negativos em Relação às Usinas

165

5 CONCLUSÕES

170

6 RECOMENDAÇÕES

172

7 REFERÊNCIAS

173

8 ANEXOS

A1

1

1 INTRODUÇÃO

Os problemas ambientais de maior relevância na atualidade são facetas de uma crise que engloba diversos condicionantes. A noção por parte dos cientistas, pesquisadores, governo e sociedade civil que as questões ambientais, sociais, culturais, políticas e econômicas estão intimamente relacionadas é extremamente recente, forçando a uma discussão mais aprofundada e interdisciplinar que contemple todos esses temas. Contudo, não basta apenas estabelecer metas e discussões. Supomos que a melhor maneira de modificar o estado atual da qualidade de vida das pessoas e a do planeta é agir, atuando de forma mais consciente e responsável.

Considerando que o ambiente não é só o que nos cerca, mas, principalmente o meio de onde subtraímos todos os recursos necessários para a continuidade das nossas gera-

ções e das futuras, torna-se cada vez mais urgente a necessidade de rever o nosso modelo de vida atual e buscar alternativas que integrem esse modelo ao sistema econômico vi-gente com produção de menos impactos negativos possíveis.

No entanto, a sociedade atual é marcada pelo aumento da demanda de bens de consumo que pressupõe cada vez mais o desenvolvimento de tecnologias de produção. Infelizmente, a maneira como isso vêm ocorrendo, baseado em modelos capitalistas sem restrições aos ganhos econômicos em face à destruição da natureza, têm trazido conseqüências negativas à sadia qualidade de vida do planeta e da sociedade como um todo e devem ser revistos o mais rápido possível.

Face ao problema vivido e sentido por uma grande parcela da população mundial que sofre as conseqüências de ações irresponsáveis por parte dos grandes governantes, a busca por uma melhor qualidade de vida nos traz à luz a necessidade de entendermos e modificarmos nosso momento atual ao menos localmente.

Assuntos como escassez de água, áreas contaminadas e passivos ambientais, polui-

ção do solo, da água e do ar e aumento da temperatura global, são temas cada vez mais corriqueiros na vida cotidiana principalmente nas duas últimas décadas e notícias de 2

catástrofes ambientais podem ser acompanhadas diariamente por intermédio dos meios de comunicação. O que é de desconhecimento da grande maioria da população mundial é que essas conseqüências são frutos da maneira como o ser humano se relaciona com o ambiente, suas atitudes, ações e modo de vida.

Explorando essas questões mais profundamente, encontramos um arcabouço de ações e atitudes que se configuram muitas vezes em caráter corretivo e emergencial não evitando, assim, conseqüências adversas à sadia qualidade de vida da população.

A ação antrópica sobre a Terra tem se revelado muitas vezes de modo irreversível e a questão ambiental, com todas as suas implicações, são palco de grandes discussões em todo o mundo, visto que, atualmente, alguns segmentos da sociedade sentem a necessidade de mudanças de atitudes. Esse cenário é, atualmente, caracterizado pelo des-cuido e pela falta de conhecimento das gerações passadas em relação ao ambiente e que deixaram de herança enormes passivos ambientais, comprometendo de forma definitiva a biodiversidade que compõe a vida no planeta.

Os resíduos sólidos, sejam eles urbanos, industriais, agrícolas ou especiais, configuram atualmente essa necessidade de mudança. A partir do momento que a natureza humana pressupôs a sua sobrevivência por meio da satisfação das necessidades básicas de cada indivíduo, vem gerando, portanto, técnicas cada vez mais avançadas de manuseio de recursos naturais produzindo, assim, resíduos diversos e impactos ambientais. Consequentemente, a geração de resíduos é hoje um dos maiores problemas enfrentados pela civilização moderna, a falta de locais para sua disposição e técnicas cada vez mais onerosas para seu tratamento estão gerando o que chamamos

“colapso do lixo”.

Nesse sentido, a produção de estudos e pesquisas na área de resíduos sólidos é cada vez mais necessária, principalmente os que englobam as questões ambientais e de saúde pública. Além disso, deve-se analisar formas de tratamento mais simplificadas e eficientes que levam em consideração as características básicas dos resíduos, evitando assim, custos elevados para seu tratamento sanitariamente adequado.

3

O processo de decomposição aeróbio da matéria orgânica em condições específicas é um bom exemplo a ser citado. A compostagem, como é chamado esse processo, é realizado com a finalidade de se obter um produto sanitariamente seguro, quimicamente rico em nutrientes para as plantas e extremamente eficiente e rápido quando comparado à decomposição na natureza.

O escopo desse estudo é analisar a questão dos resíduos sólidos urbanos, com o referencial teórico centrado no processo de compostagem, com o intuito de trazer à tona algumas dificuldades (falta de infra-estrutura adequada, matérias-primas utilizadas, processos mal gerenciados) que assolam esse processo nas usinas de compostagem do estado de São Paulo. O presente trabalho objetiva a melhoria da qualidade do composto, a mudança cultural em relação ao tema e espera contribuir de forma efetiva para a melhoria do sistema, oferecendo subsídios para o fortalecimento do processo de compostagem como alternativa eficiente no tratamento da parcela orgânica do resíduos sólidos urbanos.

Para tanto, foram estudadas as usinas de compostagem do estado de São Paulo com seus respectivos processos de tratamento da fração orgânica dos resíduos sólidos domiciliares. Diversos fatores foram analisados com o intuito de verificar a real situação dessa forma de tratamento, como por exemplo, suas vantagens e limitações sob o ponto de vista de cada gestor da usina. Dessa forma, o estudo em questão tenta de alguma forma englobar a visão das pessoas que trabalham dia a dia com o processo, suas dificuldades e seus sucessos em relação às usinas de compostagem.

O processo de compostagem e, consequentemente, as usinas que processam os materiais e os compostos produzidos são vistos, ainda, com muita ressalva pela maioria dos pesquisadores e a população em geral, muitas vezes, devido ao desconhecimento do processo, dos benefícios advindos da utilização dos compostos e das melhorias das condições ambientais que essa forma de tratamento pode oferecer.

A revisão bibliográfica a seguir concentrou-se nos problemas ambientais e de saúde pública advindos de um modelo insustentável de consumo, em um breve histórico em relação aos resíduos sólidos urbanos e os processos de compostagem no Brasil e no 4

mundo, além de experiências reais sobre essa forma de tratamento, principalmente na Europa e Estados Unidos. Conceitos de sustentabilidade e educação ambiental foram utilizados para estabelecer um paralelo entre as condições atuais de desenvolvimento e suas implicações concretas nas saúdes humana e ambiental.

1.1 Resíduos Sólidos Urbanos Inseridos na Questão Ambiental 1.1.1 Modelo de Desenvolvimento Econômico Atual e suas Implicações Ambientais

As últimas duas décadas de nosso século vêm registrando um estado de profunda e complexa crise mundial, afetando todos os aspectos de nossa vida – a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, tecnologia e política (CAPRA 1982).

Segundo CAPRA (1982), a causa dessa crise é, dentre outros fatores, o enorme distanciamento criado pelo homem em relação ao ambiente em que vive e da qual depende, indiscutivelmente, sua complexa sobrevivência.

A postura do homem diante da natureza demonstra o grau de superioridade em rela-

ção aos demais seres vivos, interferindo de modo irracional no ambiente e sem nenhuma preocupação com as conseqüências que podem advir de suas atitudes e ações.

Levando-se em conta os modelos clássicos de desenvolvimento, esse distanciamento e superioridade em relação ao ambiente foi otimizado pelo conhecimento técnico cientí-

fico, instrumento essencial para se conhecer o meio ambiente e assim colocá-lo a servi-

ço do homem, na convicção de que a civilização ocidental é superior às demais, entre outras razões, devido ao domínio sobre a natureza (CAPRA 1982; DIEGUES 1992).

Para um melhor entendimento da situação em que a sociedade atual encontra-se, há a necessidade de se rastrear o conceito de desenvolvimento até a obra de Adam Smith (século XVIII), onde a riqueza material surge como indicador do potencial produtivo das nações (DIEGUES 1992) e de onde surge a idéia e os conceitos de progresso e desenvolvimento a qualquer custo, caracterizados pela obtenção cada vez 5

maior de riqueza, não importando de que forma ela seria adquirida e quais seriam suas implicações posteriores.

Segundo CAPRA (1982), essa atitude caracteriza-se por uma tendência auto-afirmativa da nossa sociedade que fez com que a competição passasse a ser vista como a força propulsora da economia. Nesse contexto, a abordagem agressiva tornou-se um ideal no mundo capitalista, combinando-se a exploração dos recursos naturais com o objetivo de criar padrões de consumo competitivos.

Aliado a este conceito, supõe-se que os seres humanos direcionaram suas atividades à satisfação das suas necessidades básicas. Segundo JACOBI (1997), a complexidade dessa questão vem à tona quando nos defrontamos com a atuação de dois atores: de um lado, os consumidores, que mantém seus hábitos de consumo e des-perdício e, de outro, os produtores que os estimulam, garantindo assim, a rápida obsolência dos materiais.

Segundo esse modelo clássico, a ação cíclica desses atores tem como mola propulsora a industrialização, que baseada na competitividade e aliada ao crescimento econô-

mico, reforçou um modelo de desenvolvimento do descartável, da concentração de riqueza, do alto dinamismo econômico acompanhado de uma elevada desigualdade social, dos conflitos sociais e, principalmente, da imperícia ambiental.

Desta forma, o modelo de produção e consumo predominante nas sociedades indus-trializadas ocidentais caracteriza-se, primordialmente, pela sua irracionalidade quanto ao conceito de desenvolvimento sustentável, com grande rapidez na troca de matéria e energia, com uso ilimitado de recursos naturais e, consequentemente, altos índices de degradação ambiental.

Infelizmente, suas conseqüências não são sentidas apenas pela perda significativa de espécies animais e vegetais (biodiversidade), causando, certamente, distúrbios e desequilíbrios em todo o sistema. A degradação ambiental também interfere na degrada-

ção social do indivíduo, que por sua vez causa o aumento da pobreza e das desigualdades influenciando diretamente na diminuição da qualidade ambiental, fechando um ciclo 6

vicioso e negativo, onde todas as espécies, sejam elas vegetais ou animais, incluindo o homem, sofrem conseqüências negativas diretas.

Além disso, muitas vezes os problemas ambientais não se restringem apenas aos locais onde são gerados, mas podem eventualmente serem exportados para outras cidades – como no caso dos recursos hídricos –, outros estados – como por exemplo, as chuvas ácidas – e até outros países – considerando o efeito estufa -, representando um ônus global. Exemplos como estes podem ser facilmente identificados pela irresponsabilidade dos países mais industrializados frente aos distúrbios causados pelas suas ações. Esse descaso pode ser visto também quando da migração de indústrias para países onde a legislação ambiental é menos rígida e severa (CARVALHO e TELLA 1997).

Desta maneira, GUIMARÃES (1999) traduz de forma brilhante o pensamento capitalista atual:

Se há uma síntese possível para este final de século* ela pode ser caracterizada pelo esgotamento de um estilo de desenvolvimento que se mostrou ecologicamente predatório (no uso de recursos naturais), socialmente perverso (na geração de pobreza e desigualdade), poli-ticamente injusto (na concentração do poder), culturalmente alie-nado (em relação à natureza) e eticamente censurável (no respeito aos direitos humanos e aos das demais espécies). (p. 1) Portanto, a questão ambiental deve ser tratada de forma multidisciplinar onde todos os fatores, não só ambientais, mas socio-econômicos, culturais, políticos e de saúde pública façam parte de uma rede ampla e complexa de discussões sobre causas e efeitos, na tentativa de buscar soluções conjuntas e integradas.

Enquanto sustentabilidade pode significar a prerrogativa de manutenção, ou de re-produção, de uma dinâmica qualquer em um tempo e espaço definido (FIGUEIREDO

* Esse pensamento ainda é extremamente atual e deve ser considerado, infelizmente, para esse novo século.

7

2001), constatamos que a dinâmica imposta pelo homem no planeta não se sustenta a longo prazo, havendo a necessidade urgente de se buscar modelos compatíveis com os limites ambientais (DIEGUES 1992).

Segundo LEAL et al (1992), “um novo modelo de desenvolvimento não pressupõe a ausência de crescimento econômico, mas o seu direcionamento para atender às necessidades das pessoas em termos de qualidade de vida”.

Sendo assim, a partir das décadas de 60-70, as revisões das idéias, até então nunca discutidas, de progresso e desenvolvimento sustentável começaram a surgir e o conceito de sustentabilidade tornou-se mais forte e discutido em todos os âmbitos da sociedade humana e em todas as partes do mundo, principalmente na Europa.

Embora o termo “desenvolvimento sustentável” tenha surgido em 1980 e ter sido consagrado apenas em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente (conhecido como Comissão Brundtland), os diferentes interesses econômicos das nações ainda perpetuam e o desejado êxito nessa questão ainda está longe de ser atingido. Entretanto, segundo PELICIONI (1998), embora não esteja alcançado, o consenso do que se tornou insustentável atinge igualmente países ricos e pobres, desenvolvidos e subdesenvolvidos.

A exploração predatória dos recursos naturais, a perda de fauna e flora numa rapidez nunca vista anteriormente, o lançamento de esgotos e dejetos em quantidades alarmantes, a crescente produção de resíduos, o aumento progressivo da população mundial, dos níveis de pobreza e exclusão e as grandes catástrofes ambientais são faces de uma mesma crise que tem como base em comum um desenvolvimento a qualquer custo.

No caso dos resíduos sólidos, por exemplo, a sociedade moderna rompeu com os ciclos naturais de transformação e decomposição dos materiais que se reintegravam de forma natural pela ação de microorganismos decompositores. Além disso, não só a quantidade exerce influência direta na quebra desse ciclo, mas principalmente a atual composição dos resíduos que são formados, muitas vezes, por materiais que não são absorvidos naturalmente pelo meio.

8

Entretanto, CAVALCANTI (1996) sugere que

são visíveis os sinais de que o processo econômico global tende a esbarrar em restrições ambientais”. Em outras palavras, “a escassez ambiental termina por se fazer sentir com intensidade as-cendente, seja porque o meio ambiente limita a atividade econô-

mica como fornecedor de recursos (matéria e energia), seja porque sua capacidade de absorção de lixo é ultrapassada em muitas direções” (p. 320).

Na Figura 1 é demonstrado sucintamente o modelo de desenvolvimento utilizado pelo homem moderno e consequentemente algumas implicações ambientais. Esse modelo é determinado pela entrada de matéria e energia e a saída de resíduos – geralmente acompanhados de impactos ambientais –, caracterizando assim, um sistema aberto, com fluxo unidirecional, com uso de recursos e geração de resíduos ilimitados.

Figura 1. Modelo de desenvolvimento atual e suas implicações.

ENERGIA

Uso de

Processamento

Recursos

Modificação de

Transporte

Consumo

Recursos

Resíduos

Resíduos

Resíduos

Resíduos

Impactos

Impactos

Impactos

Impactos

Adaptado de BRAGA et al (2002)

9

Da maneira como é apresentado, segundo BRAGA et al (2002), esse modelo, para garantir a sobrevivência das espécies como um todo, deveria partir das seguintes premissas: 1) um suprimento inesgotável de energia; 2) um suprimento inesgotável de maté-

ria e 3) capacidade infinita do meio de reciclar matéria e absorver os resíduos. Segundo estes autores, considerando o primeiro ponto, podemos admitir que o Sol, como fornecedor de energia é uma fonte inesgotável mas, quanto a matéria, a premissa não se verifica, já que sua quantidade é finita e limitada. Nesse mesmo patamar podemos considerar a limitação do meio ambiente na capacidade de absorver e reciclar a matéria e os resíduos, causando um grave problema ambiental (poluição do ar, da água e do solo) e, conseqüentemente, a deterioração da qualidade de vida.

Esse tipo de modelo de desenvolvimento é seguido, na sua grande maioria, por paí-

ses subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, que acompanham àqueles que detém o poder, representados pelo alto nível econômico. Desta forma, o controle econômico global concentrado nos países desenvolvidos e de certa forma intransigentes quanto a questão ambiental, dificultam as discussões que permeiam o tema.

Entretanto, segundo dados recentes, por motivos estritamente ligados à política externa assumida pelo atual governo americano, cresce no mundo uma onda de antiamericanismo, cercada por consumidores que assumem posições políticas, sociais e ambientais. Ou seja, segundo John Quelch, reitor da Escola de Administração de Empresas de Harvard, há o “...surgimento de um estilo de vida para os consumidores que tem grande apelo internacional e se baseia na rejeição do capitalismo americano, da política externa dos EUA e, consequentemente, das marcas americanas”.

De acordo com o autor significa que é a primeira vez que se nota um queda vertiginosa no poder de marca dos produtos e serviços americanos (USBORNE 2003), demonstrando uma mudança de pensamento ante ao imperialismo americano exercido de modo agressivo principalmente em países em desenvolvimento como no caso do Brasil.

Na tentativa de se modificar o estado atual do planeta, surge uma mudança de valores ainda que tímida mas de extrema importância, que considera a reformulação de al-10

guns hábitos de consumo, um exercício maior da cidadania e a busca por um desenvolvimento mais sustentável. Este papel é exercido brilhantemente pela Educação Ambiental, mesmo que a “passos lentos” – já que a educação deve ser contínua com resultados a médio e longo prazos – mas que começa a surtir efeito em algumas sociedades.

A Educação Ambiental propõe tratar o homem como parte integrante do seu meio, exercendo de modo contínuo sua cidadania, com mudanças radicais no seu estilo de vida, buscando cada vez mais e efetivamente uma melhor qualidade de vida, garantindo-a também às gerações futuras.

Além disso, diversos autores sugerem que a Educação Ambiental deve incorporar todas as dimensões, não só ambientais, mas sociais, econômicas, culturais, ecológicas e éticas para transformar-se em ação, com comportamentos ambientalmente adequados visando a melhoria do sistema atual de vida não só da população como um todo assim também como do planeta (DIAS 1994; REIGOTA 1994; PELICIONI 1998; PHILIPPI JUNIOR e PELICIONI 2000). Considerada ainda por muitos uma utopia, a introdução da Educação Ambiental no ensino Médio e Fundamental por meio dos temas transversais tem transformado essa atividade em um importante instrumento de educação de crianças, jovens e adultos.

Portanto, consideramos hoje a Educação Ambiental um forte aliado e um instrumento indispensável para a mudança de valores e atitudes em relação ao meio ambiente e as desigualdades sociais, e em relação aos resíduos sólidos seu papel é extremamente importante, na tentativa de inserir o homem no ambiente em que vive, fornecendo-lhe base e diretrizes para a discussão e intervenção, dando-lhe direitos e cobrando deveres no cuidado com o planeta.

Sendo assim, as práticas de coleta seletiva, compostagem caseira, oficinas e feiras com sucatas, reciclagem de papel, palestras e discussões educativas, permeiam o trabalho de educação ambiental na temática dos resíduos, onde são colocadas as responsabilidades de cada indivíduo como parte integrante de uma sociedade que necessita rever, urgentemente, seus padrões de consumo e suas relações com o meio ambiente e com outros seres, sejam eles humanos ou não.

11

Entendemos, portanto, que os problemas debatidos na nossa atualidade poderão encontrar alternativas e/ou soluções à luz dos conceitos de educação ambiental, por ser esse um dos melhores caminhos de contribuir para a melhoria das condições socioambientais, políticas e culturais da sociedade como um todo.

Contudo, para que essa melhoria seja efetiva, não só a educação basta, mas deve ser acompanhada pela tomada de decisão política, visando o interesse comum, com ações concretas e mais responsáveis.

Entretanto, a política e seus instrumentos que deveriam servir como base e diretrizes para as práticas de gestão, gerenciamento e educação da população, em geral, ainda encontram-se muito escassos no Brasil, prejudicando sobremaneira as práticas de melhoria da questão ambiental e qualidade de vida dos cidadãos (JACOBI e TEIXEIRA 1998).

Quanto aos resíduos, além da falta de uma política específica (a Política Nacional de Resíduos Sólidos encontra-se em fase de ante-projeto), existe ainda a necessidade de investimentos emergenciais que incentivem formas de tratamento alternativas que gerem menos impactos possíveis e sejam eficientes e ambientalmente seguros. Além disso, a sociedade como um todo deveria arcar com a responsabilidade sobre a geração e o tratamento dos resíduos, repensando suas atitudes e modificando hábitos nocivos a sua própria qualidade de vida.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos visa definir, entre outros temas, a responsabilidade dos diferentes setores da sociedade e mesmo dos indivíduos quanto à geração de resíduos com a aplicação de programas que visem estimular a redução, reutilização e reciclagem dos resíduos. Além disso, a Política, por meio de diretrizes e normas, destaca a adoção de sistemas de gestão ambiental, a universalização do acesso e a auto-sustentabilidade dos serviços de limpeza urbana. Entre os fundamentos da Política Nacional estão: a descentralização político e administrativa; a integração das ações nas área de saneamento, meio ambiente, saúde pública e ação social; a participação da sociedade; a responsabilidade dos geradores no gerenciamento dos resíduos sólidos além da 12

responsabilização pós-consumo do fabricante e/ou importador pelos produtos e respectivas embalagens ofertados ao consumidor final (HAMADA 2004).

Desta forma, cabe a nós, cidadãos, cooperarmos para a melhoria da situação dos resíduos sólidos no nosso país, cobrando das autoridades públicas o seu papel e exercendo com mais cidadania o nosso.

1.1.2 Evolução na Geração de Resíduos e a Problemática Ambiental e de Saúde Pública

O homem atual modifica seu ambiente nas mais variadas formas de vida. Inicialmente, quando as comunidades eram menores, essas mudanças eram pouco significativas, o ser humano vivia em pequenas comunidades, retiravam insumos somente para sua sobrevivência e os resíduos produzidos eram praticamente orgânicos, o que não causavam o desgaste do solo e a poluição das águas e da atmosfera. Além disso, os resíduos eram devolvidos à natureza de forma lenta e em pequenas quantidades (GONÇALVES 1997).

Do ponto de vista histórico, os problemas relacionados aos resíduos surgiram a partir do momento em que o homem passou a viver em grupos, fixando-se em determinados lugares, abandonando, assim, seu hábito nômade (SCHALCH e MORAES 1988).

A solução adotada antigamente para o descarte de resíduos era o transporte para os locais mais afastados das aglomerações humanas, o enterramento e até o uso do fogo como método de destruição de restos inaproveitáveis. Até hoje, após séculos de “evolução” humana, esses métodos ainda são utilizados, com a diferença primordial que o primitivo cedeu lugar ao tecnológico e a natureza, que antes era protegida, hoje é ameaçada.

Um exemplo simples encontrado na literatura sobre a disposição de resíduos, foi durante a existência da civilização Minoan, em Creta (3000 a 1000 a.C.), onde os resí-

duos sólidos na capital de Knossos eram depositados em grandes covas com intervalos de cobertura de terra. Em contrapartida, os romanos não possuíam um sistema organizado de remoção de resíduos, sendo a sua disposição em ruas e ao redor de cidades e vilas, prática esta persistindo até o século XIX (WILSON 1976).

13

Segundo WILSON (1976), as mudanças mais expressivas que ocorreram em re-lação aos resíduos sólidos foram em torno de suas características físicas, sendo que estas não foram acompanhadas da evolução nos métodos de tratamento e gerenciamento. Além disso, os problemas de disposição de resíduos tornaram-se cada vez mais difíceis com o aumento da densidade populacional. Semelhantemente aos dias de hoje, há maior geração de resíduos por unidade de área e a diminuição proporcional dos locais disponíveis para sua deposição. Portanto, segundo o autor, a história do gerenciamento dos resíduos sólidos é amplamente conectada ao desenvolvimento das grandes cidades.

Analisando esse fato nos últimos três séculos (principalmente desde os meados do séc. XVIII até os dias atuais), nota-se a concomitância de causas e efeitos entre o aumento populacional e as questões ambientais mais relevantes, principalmente após o iní-

cio da Revolução Industrial.

Historicamente, a Revolução Industrial tornou-se uma era sem precedentes para os meios de produção, influenciando de forma definitiva a geração de capital, afetando diretamente os modelos econômicos e sociais. Três fatores foram essenciais para sua sustentação: a existência de mão-de-obra disponível, o acúmulo de capital e o fácil acesso aos recursos naturais (BENIGNO 2003; GALVÊAS, 2003). Aliado a esses fatores, e sem menos importância, temos o conhecimento científico e a descoberta de novos materiais, que proporcionou o início do fenômeno da industrialização mundial.

Segundo DIAS (2000), é justamente com a Revolução Industrial que os problemas com a produção de resíduos intensificaram-se, além da geração de subprodutos tóxicos dos processos de produção. Nessa época, a falta de conhecimento sobre o potencial poluidor dos resíduos sólidos urbanos e industriais geraram os primeiros casos de polui-

ção e degradação ambiental.

Além disso, a Revolução Industrial e sua conseqüente “era do consumo”, caracterizado principalmente pelos tempos atuais, privilegiou a produção em massa de produtos com grande rapidez de troca, aumentando exageradamente a produção de resíduos.

14

Notadamente, os métodos de tratamento de resíduos não evoluíram na mesma intensidade e os pequenos avanços ocorreram apenas no século passado.

GOLUEKE e DIAZ (1996), por meio de uma revisão histórica identificaram três períodos básicos sobre o gerenciamento de resíduos urbanos, dividindo-os entre os anos 1930-40, 1950-60 e 1970 até os dias atuais.

Segundo esses autores, no período de 1930-40, destacou-se a pequena prioridade dada ao processo de disposição e gerenciamento de resíduos sólidos. Muitos fatores contribuíram para essa situação, dentre eles encontram-se três principais: 1) a percep-

ção dos impactos negativos da sua disposição era altamente localizada (pontual), ou seja, sentida apenas por uma pequena parcela da população; 2) embora os resíduos aparen-tassem um aspecto repulsivo, o nível de exigência da população era muito menor do que nos tempos atuais e 3) os recursos naturais renováveis eram considerados abundantes, moderadamente acessíveis e praticamente inesgotáveis.

Nesse período, apesar de algumas oposições, o método de disposição a céu aberto era comumente empregado. Embora apresentasse uma tecnologia primitiva, o custo dessa disposição convencional estava bem abaixo daquela apresentada pela compostagem, que já era utilizada por poucos, principalmente àqueles preocupados com a qualidade do meio ambiente e a conservação e proteção dos recursos. Uma característica do manejo dos RSU, que poderia ter sido benéfica a compostagem, era a separação do “lixo úmido” do “lixo seco”, uma prática tanto quanto comum naquele tempo. O principal motivo, segundo GOLUEKE e DIAZ (1996), era econômica já que o “lixo úmido” era vendido aos criadores de porcos como fonte de alimentos a esses animais.

Entre as décadas de 40 e 50, de acordo com CARVALHO e TELLA (1997), ocorreram mudanças profundas no comportamento consumista dos indivíduos devido a um rápido desenvolvimento capitalista no pós-guerra, principalmente nos países industrializados. Nessa época, os EUA internacionalizaram suas indústrias e juntamente seus pa-drões de consumo, incentivando a produção de descartáveis.

15

O período de 1950-60, apresentou significativos desenvolvimentos na indústria alimentícia nos EUA ocasionando conseqüências no gerenciamento dos resíduos sólidos. A rápida mudança da chamada “comida enlatada” para a congelada tornou-se um meio mais eficiente de preservação e distribuição dos alimentos, reduzindo bruscamente a produ-

ção dos resíduos orgânicos. Outros motivos que levaram a diminuição da produção dos resíduos orgânicos foram, primeiramente, a expansão no número dos moedores de lixo instalados logo abaixo da pia e a proibição pelas agências regulatórias do uso de materiais crus como fonte de alimentos para animais, contribuindo para o desaparecimento da separação dos resíduos iniciada na década passada (GOLUEKE e DIAZ 1996).

Quanto aos avanços na tecnologia do manejo dos RSU nesse período introduziu-se o veículo de coleta com compartimento fechado, substituindo o caminhão aberto. Em contrapartida, a disposição a céu aberto continuou sendo o método mais usual de deposição dos resíduos, embora tivesse havido um aumento da consciência do impacto perigoso tanto na saúde pública, quanto na qualidade do meio ambiente e conservação dos recursos. Apesar da principal razão dessa atividade ser econômica, o reconhecimento que a questão monetária era somente ilusória teve como repercussão algumas medidas

– ao menos paliativas –, que proibiam a queima a céu aberto, além da imposição de alguns locais que restringiam a disposição dos resíduos (GOLUEKE e DIAZ 1996).

O terceiro período apresentado pelos autores GOLUEKE e DIAZ (1996) considera a década de 1970 até os dias atuais. Esse intervalo de tempo foi marcado por avanços significativos quanto ao manejo dos resíduos sólidos municipais. Dentre as mudanças apresentadas, a principal foi a apreciação dos inerentes perigos impostos pelos resíduos sólidos municipais, levando-se em conta a qualidade do meio, o bem estar público e a proteção da água, do ar, do solo e dos recursos naturais. Essas mudanças foram tão significativas que a chamada “engenharia sanitária” cedeu lugar ao que denominamos hoje de “engenharia ambiental”, um modo mais completo e holístico de interpretar os impactos advindos da atividade humana. Desta maneira, percebeu-se o real custo dos impactos da explosiva expansão urbana e os efeitos a longo prazo da poluição do ar, da água e do solo.

16

A disposição a céu aberto cedeu lugar aos aterros sanitários e nesse período houve um drástico aumento na produção de biosólidos, que por sua vez, contribuiu para uma expansão na prática da compostagem (GOLUEKE e DIAZ 1996).

Embora a mudança para os aterros sanitários tenha se tornado algo extremamente positivo no gerenciamento dos resíduos sólidos, medidas de precaução deveriam ser tomadas para evitar as contaminações, principalmente das águas subterrâneas (GOLUEKE e DIAZ 1996). Desde então, as medidas de manutenção e monitoramento dos aterros sanitários servem como uma barreira para regularizar legalmente a sua utilização e evitar que possíveis danos ao ambiente sejam efetivados.

Outro fator de importância no gerenciamento dos resíduos durante esse período foi a crise energética que assolou o mundo. Como conseqüência, os resíduos sólidos come-

çaram ser vistos, por muitos especialistas, como uma fonte em potencial de energia, principalmente nos Estados Unidos, culminando em quantidades expressivas de pesquisas ao redor desse tema. A incineração, a pirólise e a produção de combustível a partir do resíduo (RDF) eram considerados sistemas em potencial para serem estudados (DIAZ

et al. 1982, GOLUEKE e DIAZ 1996).

Nos dias atuais, os resíduos são produzidos em grandes quantidades, com composi-

ção variada e a introdução de moléculas produzidas sinteticamente pelo homem, por um lado provocando uma evolução sem precedentes nos padrões de consumo, por outro, provocando um efeito avassalador no seu tratamento e disposição, demonstra o grau de complexidade do tema.

Considerando que a grande quantidade de resíduos está intimamente associada a uma enorme variabilidade da sua composição, em nenhuma fase do desenvolvimento humano produziu-se tanto material a ser disposto e que não deve mais ser abandonado ou enter-rado sem tratamento.

Portanto, os resíduos sólidos são um complexo emaranhado de tipos, composições e fontes de geração como pode ser analisado na tabela 1, necessitando de disposições e/

ou tratamentos diferenciados. Além disso, existem outros tipos de classificação dos re-17

síduos que podem ser divididos por sua natureza física, química e pelos riscos potenciais ao meio ambiente (DÁLMEIDA e VILHENA 2000):

· Por sua natureza física: seco e molhado

· Por sua composição química: matéria orgânica e matéria inorgânica

· Pelos riscos potenciais ao meio ambiente: perigosos, não inertes e inertes (ABNT 1987).

Tabela 1. Resíduos sólidos urbanos divididos por tipo, composições e fontes.

Tipo

Componente

Fontes Primárias

Resíduos Orgânicos

Resíduos de alimentos, de

Domicílios, mercearias,

supermercados, de estoques

supermercados,

restaurantes, feiras livres

Resíduos de

Resíduos de poda e de

Parques, jardins,

Jardinagem

jardinagem

domicílios

Resíduos Industriais

Resíduos tóxicos, altamente

Indústrias e fábricas em

inflamáveis, materiais radioativos geral, incineradores e explosivos, efluentes, cinzas

Resíduos patogênicos,

Resíduos de Serviços

radioativos, químicos,

Hospitais, clínicas médicas

de Saúde

quimioterápicos, infectantes,

e veterinárias, laboratórios

equipamentos médicos

de análises clinicas,

descartados, restos de animais

farmácias, postos de

saúde

Cães, gatos, cavalos e outros

Animais Mortos

Ruas, clínicas veterinárias

Resíduos de varredura, pó,

Ruas e calçadas dos

Resíduos de Limpezas

folhas, conteúdos de lixeiras

municípios

de Ruas

Sobras de madeiras, canos de

Locais de demolição,

Resíduos de

plásticos, tubos, blocos de

reformas e construções em

Construção e

concreto e argamassas

geral

Demolição

Móveis, madeiras, restos de

Domicílios, centros

Entulho

construção, materiais plásticos

comerciais e indústrias

Fonte: Modificado DIAZ, L. F. et al., 1993.

18

SCHALCH et al. (nd) apresentam um outro tipo de classificação segundo o grau de biodegradabilidade dos resíduos:

· Facilmente Degradáveis: matéria orgânica

· Moderadamente Degradáveis: papel, papelão e outros produtos celulósicos

· Dificilmente Degradáveis: trapo, couro, borracha e madeira

· Não-Degradáveis: vidro, metal, plástico, pedras, terra e outros.

Além da composição, a complexidade dos diferentes tipos de resíduos que necessitam ser tratados diariamente, deve-se ainda levar em conta os graus de periculosidade e toxicidade. No caso dos resíduos sólidos urbanos, mesmo sendo definidos como classe II* pela NBR 10004 (ABNT 1987), podem eventualmente produzir percolados potencialmente perigosos trazendo prejuízos ambientais.

Segundo FERREIRA (2000), até poucos anos atrás, os resíduos sólidos domiciliares (RSD) eram considerados como de pequeno risco para o ambiente, pois continham basicamente resíduos orgânicos e outros materiais pouco impactantes. Entretanto, a introdução de novos produtos de composição variada em quantidade crescente no mercado e o desconhecimento dos impactos decorrentes de sua disposição, pode-se considerar que os RSD representam, atualmente, um potencial poluidor já que apresentam itens classificados como perigosos, como por exemplo, os citados na tabela 2.

O que torna esses materiais potencialmente perigosos é a presença de quantidades significativas de substâncias químicas nocivas ao meio ambiente e aos seres vivos, substâncias essas que podem se acumular nos tecidos vivos, atingindo níveis perigosos para a saúde. Alguns exemplos são o mercúrio, encontrado em produtos farmacêuticos e lâmpadas fluorescentes, o cádmio em pilhas e baterias e o chumbo em inseticidas e tintas.

Esses metais, como são denominados, podem surtir efeitos deletérios como lesões neu-

*Classe II (Não inertes): podem apresentar propriedades como: combustibilidade, biodegradabilidade ou solubilidade, porém não se enquadram como resíduos classe I ou III.

19

Tabela 2. Resíduos domésticos potencialmente perigosos.

Tipos

Produtos

Material para Pintura

Tintas, Solventes, Pigmentos e Vernizes