Avaliação dos níveis sanguíneos do hormônio tireoidiano ativo (T3) e do estado nutricional... por Maritsa Carla de Bortoli - Versão HTML

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Revisão de Literatura

2.1 Mercúrio

O mercúrio existe naturalmente no meio ambiente e ocorre em várias formas químicas. Estas formas químicas podem ser organizadas em três grandes categorias: mercúrio metálico, também conhecido como mercúrio elementar, e expresso como Hg (0) ou Hg0; mercúrio inorgânico e mercúrio orgânico que podem ser formados pela associação a outras substâncias nas formas di- ou trivalente do metal (Hg2+ ou Hg3+). A alternância entre uma forma química e outra pode ocorrer sob a influência de fatores ambientais naturais ou mesmo pela ação de microorganismos (especialmente bactérias ou fungos) (UNITED STATES, 1999; UNEP, 2002).

O mercúrio metálico ou elementar representa o metal não ligado a

nenhuma outra substância, ou seja, puro. É líquido à temperatura ambiente e nestas condições pode formar vapores de mercúrio, que são incolores e inodoros, e cuja taxa de evaporação é diretamente proporcional à elevação da temperatura (UNITED STATES, 1999; UNEP, 2002).

Quando o mercúrio se combina a outras substâncias origina suas

formas orgânicas e não orgânicas. Na forma inorgânica ocorre a ligação com substâncias como cloro, enxofre e oxigênio. Os compostos formados são denominados sais de mercúrio e geralmente são encontrados na forma de pós brancos, exceto o sulfito de mercúrio ou cinabre, que é vermelho e oxida-se pela exposição à luz. Quando o metal se combina com carbono forma compostos orgânicos. Dentre todos os compostos orgânicos, o mais conhecido, estudado e potencialmente perigoso para a saúde dos seres humanos é o metilmercúrio (NATIONAL ACADEMIES PRESS, 2000; UNEP, 2002).

Dentre todas as formas químicas de mercúrio existentes, as mais

comuns, isto é que tem maior ocorrência naturalmente, são: o mercúrio elementar, o sulfito de mercúrio, o cloreto de mercúrio e o metilmercúrio (ATSDR, 1999; NATIONAL ACADEMIES PRESS, 2000).

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O mercúrio é empregado em diversas finalidades. O metal é extraído na forma de minério de cinabre, que contém sulfito de mercúrio. A forma metálica é refinada pelo aquecimento do minério a altas temperaturas que gera o vapor de mercúrio, este é então capturado e resfriado para formar o metal líquido. Existem muitos usos para o mercúrio metálico, como na produção de gás cloro e soda cáustica, na extração de ouro em garimpos e em joalherias, em termômetros, barômetros, baterias e em interruptores elétricos. Cerca de 50% das restaurações odontológicas metálicas contém mercúrio metálico, e em países asiáticos e latino-americanos algumas infusões e medicamentos herbais, principalmente os com fins religiosos, podem conter o metal. Alguns compostos inorgânicos do metal são utilizados como fungicidas ou agentes anti-sépticos e desinfetantes. No passado a utilização medicamentosa dos sais de mercúrio era maior, mas os produtos com o metal foram substituídos por outros livres de mercúrio e mais eficientes. No entanto, ainda hoje os sais inorgânicos de mercúrio são utilizados com finalidades antibacterianas. Além da utilização farmacológica, as formas inorgânicas do metal são utilizadas em tintas, inclusive naquelas destinadas a tatuagens (WHO, 2000; CLARKSON et al., 2003).

Até a década de 70, no século passado, compostos orgânicos de

mercúrio (metilmercúrio e etilmercúrio) eram utilizados para proteger sementes e grãos contra infecções fúngicas. Depois que ficaram conhecidos os efeitos adversos da utilização ou ingestão do metilmercúrio, o uso destes como fungicidas foi banido. Compostos de fenilmercúrio também foram utilizados como agentes anti-fúngicos em tintas de parede, mas seu uso também foi banido, por volta do início da década de 90, porque promovia a liberação de vapores do metal no ambiente (ATSDR, 1999).

O mercúrio ocorre naturalmente como um mineral e é distribuído no ambiente por meios naturais e antropogênicos. O ciclo bio-geoquímico global natural do mercúrio é caracterizado pela remoção dos vapores do elemento dos solos e águas de superfície, seguido pelo transporte atmosférico, deposição do mercúrio novamente na terra e na água, e absorção do metal pelo solo ou sedimentos. O mercúrio depositado é revolatilizado outra vez para a atmosfera. É importante ressaltar que as erupções vulcânicas também têm

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papel importante neste processo (UNITED STATES, 1997; ATSDR, 1999; WHO, 2000, CLARCKSON et al., 2003).

As maiores fontes antropogênicas de liberação do metal no ambiente incluem a mineração e a metalurgia, também os processos industriais como nas indústrias cloro-álcalis, a combustão de combustíveis fósseis, principalmente o carvão, a produção de cimento e a incineração industrial e hospitalar (UNITED STATES, 1997; ATSDR, 1999; WHO, 2000).

Na figura 1 está representado o ciclo global do mercúrio, ilustrando a ocorrência natural e a emissão antropogênica, bem como a metilação do composto.

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Figura 1 – Ilustração sobre o ciclo global do mercúrio. 1) emissões antropogências e naturais lançam o mercúrio na atmosfera; 2) metilação e emissão do mercúrio das águas de superfície; 3) oxidação do mercúrio na atmosfera; 4) deposição seca ou úmida do mercúrio.

Adaptado de SOUZA & BARBOSA (2000)

Sendo um elemento, o mercúrio não pode ser quebrado ou

degradado em substâncias inofensivas. Durante seu ciclo pode ter seu estado modificado pela adição ou remoção de outros elementos, mas seu estado mais simples, elementar, é prejudicial para o ambiente e para a saúde dos seres humanos. Uma vez liberado, seja dos minérios ou pela queima de combustível Revisão de Literatura 19

fóssil, e livre na atmosfera torna-se móvel, mantendo o ciclo entre a superfície terrestre e a atmosfera (UNEP, 2002).

2.1.1 Intoxicação por mercúrio

Tendo em vista o ciclo global do mercúrio e as emissões

antropogênicas, as principais fontes de exposição da população ao metal incluem a inalação dos vapores do elemento, inclusive aqueles liberados pelo amálgama dentário; a ingestão de água e alimentos contaminados; e o mercúrio utilizado em tratamentos médicos, como um composto de etilmercúrio utilizado como um preservante em algumas vacinas, o timerosal. A ingestão dietética é a mais importante forma de exposição não ocupacional, sendo os pescados as principais fontes de mercúrio na dieta e responsáveis pela ingestão de metilmercúrio (ATSDR, 1999; CLARKSON, 2003).

No início da década de 50, na região da baía de Minamata, Japão,

foram observados fenômenos estranhos que aconteciam inicialmente entre os peixes e moluscos da região. Sem explicação, os primeiros morriam e boiavam nas águas e as ostras tinham suas conchas abertas e o corpo decomposto.

Depois destes animais, os gatos começaram a ser afetados e também começaram a morrer (HARADA, 1995).

No final do ano de 1953, a doença misteriosa passou a afetar os

habitantes, principalmente os pescadores e suas famílias, que passaram a apresentar sintomas neurológicos, como tremores, desequilíbrio, ataxia e sintomas visuais e auditivos, e as crianças nascidas de mães contaminadas apresentavam graves problemas no desenvolvimento neural. Por volta do ano de 1956 o problema havia tomado proporções epidemiológicas e recebeu o nome de “Doença de Minamata”. Durante as investigações foi descoberto que a população era consumidora de grandes quantidades de peixes e produtos marinhos da região. Além disso, foram observadas concentrações elevadas de mercúrio em órgãos autopsiados. O mercúrio era proveniente dos dejetos de uma empresa, a Chisso Company, que produzia em larga escala fertilizantes, produtos químicos, resinas sintéticas e agentes para plastificação (HARADA, 1995; ETO, 1997; KOROGI et al., 1998).

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O resultado, até hoje chamado de “Doença de Minamata”, foi o

primeiro caso mundial descrito de contaminação por metilmercúrio (KOROGI et al., 1998).

Os sintomas decorrentes da “Doença de Minamata” nos adultos se

deviam principalmente a alterações cerebrais, cerebelares e nas inervações periféricas. Foram também observadas alterações patológicas em órgãos, com inflamações erosivas no trato gastrintestinal, redução da proliferação de células da medula óssea, degeneração gordurosa de fígado e rins, e nos casos fatais foram notados problemas pancreáticos. No entanto, o pior legado da contaminação em Minamata ocorreu com as crianças nascidas das mães contaminadas, ainda que estas não apresentassem sintoma algum. As crianças nasciam com mal desenvolvimento cerebral ou paralisia cerebral. Também foram relatados casos de distúrbios psicomotores e de personalidade, redução da capacidade intelectual, epilepsia e sintomas neurológicos semelhantes aos desenvolvidos pelos adultos (ETO, 1997; ETO, 2000; EKINO et al., 2007). A exposição pré-natal ao metilmercúrio interfere com o crescimento e migração dos neurônios e tem a potencialidade de causar defeitos no sistema nervoso central durante seu desenvolvimento (NATIONAL ACADEMIES PRESS, 2000).

Muitas pessoas morreram em decorrência da “Doença de Minamata”, no entanto, outras vivem até hoje, sujeitas às sequelas da contaminação.

Outro caso importante de contaminação por metilmercúrio ocorreu

no Iraque, na década de 70. Neste episódio a população consumiu pão feito à base de grãos tratados com metilmercúrio, usado como agente antifúngico. Os resultados foram semelhantes aos descritos em Minamata, e as crianças nascidas de mães contaminadas também sofreram as mesmas consequências (AMIN-ZAKI et al.,1974; NATIONAL ACADEMIES PRESS, 2000; UNEP, 2002; MURATA et al., 2007).

Estes exemplos demonstram o risco de intoxicação por

metilmercúrio, bem como a fragilidade do feto frente à contaminação materna ao composto, principalmente porque foi observado que em ambos os casos, a dose que provocava alterações nos fetos era menor do que aquela necessária para afetar os adultos (NATIONAL ACADEMIES PRESS, 2000).

A conversão de mercúrio inorgânico em metilmercúrio ocorre

primariamente em microorganismos de ambientes aquáticos. Uma vez na Revisão de Literatura 21

forma metilada, o mercúrio se bio-acumula na cadeia alimentar, pois os organismos microscópicos são consumidos por peixes, e dentre estes os menores são consumidos pelos maiores. Esta cadeia de bio-acumulação pode resultar em concentrações elevadas de metilmercúrio em algumas espécies de peixes, que se tornam as fontes principais de exposição ao mercúrio para os seres humanos (NATIONAL ACADEMIES PRESS, 2000).

Outro exemplo do risco de intoxicação pelo metilmercúrio diz

respeito à sua taxa absortiva. Após ingestão oral, a absorção do mercúrio metálico é irrelevante, a originária de formas inorgânicas varia entre 2 e 38% e é praticamente completa para as formas orgânicas. Além da capacidade de ser absorvido, o metilmercúrio distribui-se no organismo através do sangue e pode se acumular no cérebro. No feto (quando atinge a mãe) devido a sua habilidade em penetrar as barreiras placentária e sanguínea, é convertido nesses tecidos em um cátion inorgânico divalente do metal (UNITED STATES, 1997; ATSDR, 1999).

Após estes incidentes, muitas pesquisas foram realizadas para

avaliar os riscos de exposição ao metilmercúrio e, com base nesses estudos, órgãos internacionais estabeleceram limites de ingestão seguros do metal. A Organização Mundial da Saúde (WHO, World Health Organization) estabeleceu, em 1990, um limite de ingestão de 0,47 µg/kg de peso corpóreo/dia e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (1997) determinou que este limite não deveria ultrapassar 0,1 µg/kg/dia. Tendo em vista que estas recomendações já seriam ultrapassadas com a ingestão diária de 10 a 20g de pescado contaminado (IPCS, 1990), o relatório em conjunto da FAO/WHO (2007) propôs uma ingestão semanal tolerável de 1,6 µg de metilmercúrio/kg de peso corpóreo. De acordo com este relatório, o valor recomendado seria considerado suficientemente baixo para proteger os embriões e fetos, vistos como o grupo mais vulnerável da população à exposição ao metal.

Em consequência dessas recomendações surgiram outras que

propuseram as concentrações toleráveis de mercúrio e metilmercúrio em peixes comestíveis. Estas recomendações podem classificar como impróprias ao consumo amostras de pescados que ultrapassarem os valores

recomendados. A legislação brasileira prevê o limite máximo de 500 µg kg-1 de Revisão de Literatura 22

mercúrio total para espécies de peixes não predatórias e 1000 µg kg-1 para as predatórias (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA, 1998), no

entanto, não estabelece um limite para o metilmercúrio. Para este composto orgânico a FAO/WHO (2007) recomenda que os valores sejam de 500 µg kg-1

para as espécies herbívoras, e para as carnívoras de 1000 µg kg-1. Ambas as recomendações encontram-se muito próximas, visto que cerca de 90% do mercúrio total encontrado nos peixes está na forma de metilmercúrio (IPCS, 1990).

Para avaliar a exposição ao mercúrio, além do cálculo de ingestão alimentar, são empregados biomarcadores que podem determinar a exposição individual ou populacional, e entre os mais utilizados para a determinação das concentrações do mercúrio total ou do metilmercúrio, encontram-se os cabelos, a urina e o sangue.

Amostras de cabelo têm sido frequentemente utilizadas em diversos estudos como um biomarcador para a exposição ao mercúrio em populações.

Durante a formação do cabelo, o mercúrio presente no sangue entra no folículo capilar, e uma vez incorporado ao cabelo, permanece inalterado (ATSDR, 1999; DOLBEC et al., 2001). Este biomarcador também vem sendo utilizado para a análise sequencial do metal no cabelo, mostrando-se útil para identificar variações sazonais na exposição ao metal. Uma vez que o cabelo cresce cerca de 1 cm a cada mês a exposição ao mercúrio pode ser recapitulada em segmentos de fios de cabelo, sendo que aqueles mais próximos ao couro cabeludo refletem exposição mais recente e os mais distantes, exposições passadas. Dolbec et al. (2001) conduziram um estudo sobre a variação sazonal de mercúrio na bacia amazônica. A população do estudo foi composta de mulheres em idade fértil, cujas amostras de cabelo foram segmentadas e analisadas centímetro a centímetro. Os pesquisadores observaram que houve variação no teor de mercúrio em relação à época do ano, sendo maior a concentração nos segmentos de cabelo que representavam a época da seca e menor naquele da época das cheias. Ainda relataram que naquelas pessoas com relato de consumo diário de peixe os teores do metal eram mais altos. No entanto, a análise sequencial de exposição ao metal não é possível em todos os estudos, tendo em vista a quantidade de amostra necessária para proceder as análises.

Revisão de Literatura 23

A concentração de mercúrio em amostras de cabelo nas populações

não expostas ao metal, ou sem risco de exposição, deve situar-se abaixo do limite de 2000 mg kg-1, e para aquelas expostas admite-se valores de até 6000

mg kg-1 (IPCS, 1990).

2.1.2 Mercúrio no Brasil

No Brasil, especialmente na região amazônica, estudos têm sido

realizados para avaliar as concentrações de mercúrio em água, sedimento, peixes e nos seres humanos. Além das concentrações do metal em si, estuda-se também o impacto provocado nas populações expostas ao metal.

A região acima citada tem sido a mais estudada visto os altos teores do metal encontrados em diversas espécies de peixes, no entanto, outras regiões também despertam o interesse dos pesquisadores. A seguir serão descritos alguns estudos conduzidos nas duas regiões de interesse desta pesquisa: a região amazônica e a cidade de Cubatão.

2.1.2.1 Região Amazônica

No ano de 2008 veio a público uma revisão sobre as publicações

referentes à contaminação por mercúrio na região amazônica, principalmente sobre a região correspondente ao território brasileiro. Nesta revisão os autores observaram que desde 1990 até 2005 haviam sido publicados 455 trabalhos, entre teses e dissertações, relatórios, resumos, artigos e livros. Também observaram que os temas estavam distribuídos entre saúde, impacto ambiental, saúde e impacto ambiental, revisões e tecnologias. Relataram que o número de publicações cresceu de 20 ao ano no início da década de 90 para 30 ao ano em 2005 (HACON et al., 2008).

De acordo com os dados anteriores, nas últimas décadas houve

aumento nas observações de poluição por mercúrio da bacia amazônica e aumento na concentração do metal em amostras de cabelos de comunidades ribeirinhas, cuja dieta é baseada no consumo de pescados. O mercúrio proveniente da atividade garimpeira e da lixiviação é liberado no ecossistema Revisão de Literatura 24

aquático, e desta forma entra da cadeia alimentar, atingindo também os seres humanos (MALM, 1998; DOLBEC et al., 2001).

Tendo em vista a vasta extensão da bacia amazônica, muitos

estudos foram conduzidos em regiões distintas, mas de maneira geral, esta região é considerada como uma área com elevada emissão antropogênica de mercúrio especialmente pela grande quantidade de atividade garimpeira. No entanto, estudos mais recentes demonstraram que regiões identificadas como não impactadas pela interferência humana também apresentam concentrações elevadas do metal, evidenciando que este ocorre naturalmente nos solos da região (SILVA et al., 2006).

Na região do estado de Rondônia, na bacia do Rio Madeira, um

estudo conduzido para avaliar os teores de mercúrio no solo, sedimentos, água e peixes demonstrou que os teores do metal estavam elevados em toda a extensão do rio, e que o mercúrio derivado da atividade garimpeira concentrava-se em regiões localizadas. Este, portanto, é um dos estudos que corroboram com a hipótese de que o solo da região amazônica é um rico depósito do metal (LECHLER et al., 2000).

Na mesma região foi avaliado o teor de mercúrio total em cabelos de comunidades indígenas da etnia Pakaanóva. Neste estudo foram analisadas amostras de 910 índios, entre homens, mulheres e crianças, e a média total encontrada para a concentração do metal foi de 8,37 µg g-1. Quando foram separados por classes, as mulheres apresentaram teores de 8,91 µg g-1, e naquelas em idade fértil, com idades entre 14 e 44 anos, esses valores apresentaram média de 8,55 µg g-1, sendo que 25% delas obtiveram valores entre 10,88 µg g-1 e 39,4 µg g-1. Segundo os autores estes dados são preocupantes e indicam a necessidade de programas de vigilância ambiental em saúde, que considerem as peculiaridades dos sistemas de nutrição destes índios (SANTOS et al., 2003).

O mesmo grupo (SANTOS et al., 1999), em outro estudo desta vez

no estado do Pará, obteve valores médios para mercúrio em amostras de cabelo de 11,75 µg g-1 e 19,91 µg g-1 em duas populações distintas, Brasília Legal e São Luiz do Tapajós, que estavam expostas ao metal por localizarem-se em regiões com grande atividade mineradora, e em outra comunidade, Santana de Itaqui, onde não havia a atividade foram observaram valores de Revisão de Literatura 25

4,33 µg g-1. Neste estudo não foram separados os indivíduos da comunidade por gênero, mas foi realizada uma análise do teor de mercúrio em relação ao tempo de residência nas áreas pesquisadas. De acordo com esta análise, foi observado que para as comunidades expostas, os níveis de mercúrio eram elevados e pareciam ser maiores naqueles indivíduos com idade até 25 anos, enquanto que em Santana de Itaqui não foram observadas diferenças no teor de mercúrio em relação ao tempo de residência. A explicação sugerida pelos autores é de que os níveis de mercúrio foram maiores nos indivíduos de até 25

anos porque foi nesta época que teve início a atividade garimpeira, já os indivíduos maiores de 30 anos tiveram valores menores por não terem sofrido exposição intra-uterina ao mercúrio.

Sobre o teor do metal e seus compostos em peixes, numa avaliação

do teor de metilmercúrio no Tucunaré (uma espécie de peixe encontrada em praticamente toda a região amazônica) de amostras coletadas em três rios: Negro, Madeira e Tapajós (tributários do Rio Amazonas) foram encontrados valores variando entre 0,04 e 1,43 µg g-1, e apesar desta variação não houve diferença estatística significativa entre as concentrações do metal nos peixes encontrados nos três rios, apesar de o Rio Tapajós ser conhecido pela grande atividade garimpeira (KEHRIG et al., 2008).

Outro estudo, desta vez com espécies dos rios Madeira e Negro,

também observou que o teor de mercúrio em peixes não foi significativamente diferente entre os dois rios, apesar da diferença entre a atividade garimpeira em ambos (DÓREA & BARBOSA, 2006).

Numa pesquisa conduzida com populações ribeirinhas do Parque

Nacional do Jaú, Farias et al. (2006) observaram que o consumo de mercúrio por crianças encontrava-se próximo ou superior ao valor máximo permitido pela OMS (1996) (5µg de Hg/kg de peso corpóreo). Os dados encontrados, diferentes de outras regiões brasileiras, se deviam principalmente ao alto consumo de peixes pelos participantes da pesquisa. Além disso, relataram em seu estudo que a porcentagem de inadequação no consumo de selênio atingia 40% das crianças.

Silva et al. (2006) estudando a bacia do Rio Negro, uma das maiores reservas hidrográficas do planeta, representando cerca de 14% da bacia amazônica brasileira, observaram que a taxa de deposição de mercúrio, seja Revisão de Literatura 26

de ordem natural ou antropogênica, é mais elevada do que a taxa de evaporação do metal das águas de superfície, tornando esta bacia um depósito do metal. Estes resultados estão de acordo com uma observação anterior da mesma região, que apesar do pequeno impacto antropogênico, apresentou teores elevados do metal (FADINI &JARDIM, 2000).

Também no Rio Negro, em outro estudo, foram analisadas várias

espécies de peixes, e apesar da bacia deste rio não ter sofrido tanto o impacto das emissões antropogênicas do mercúrio, os níveis do metal encontrados nos peixes analisados apresentaram-se superiores a 0,5 ppm (ou 500 µg kg-1, conforme valores utilizados anteriormente). Ainda neste trabalho os autores recomendam cautela no consumo de peixes, e que uma ação de

conscientização para a população deveria acontecer, para que esta esteja ciente dos riscos de exposição ao metal com o consumo excessivo dos pescados (BELGER & FORSBERG, 2006). No entanto, apesar de obterem resultados semelhantes em peixes do Rio Negro, Barbosa et al. (2003) acreditam que o impacto de aconselhar as populações ribeirinhas sobre a redução no consumo de peixes pode ser negativo, tendo em vista que o pescado constitui uma importante fonte protéica da dieta desses indivíduos, e o consumo dos mesmos pode trazer mais benefícios do que riscos à saúde.

Muitos outros estudos poderiam ser citados, mas o que foi relatado até aqui pode contextualizar a região e o risco de exposição ao mercúrio que as populações, especialmente as ribeirinhas, estão expostas. Para concluir, Passos & Mergler (2008) em sua revisão caracterizam o problema da exposição ao mercúrio numa região tão vasta e tão abandonada pelas autoridades. De acordo com seu trabalho, as populações amazônicas já castigadas e desafiadas pela pobreza, pela falta de saneamento básico, pela alta prevalência de doenças tropicais e pelo acesso limitado a cuidados básicos de saúde, tem sua vulnerabilidade aumentada pelas consequências fisiológicas da exposição ao mercúrio. Os esforços na redução das atividades garimpeiras trouxeram benefícios para os mineradores e suas famílias, mas não refletiram em redução nas concentrações de mercúrio em peixes e nos seres humanos.

Na maioria dos países que compõem a região amazônica não foram

estabelecidos guias sobre o consumo de peixes pelas autoridades de saúde pública, possivelmente pela importância do valor nutricional dos pescados e Revisão de Literatura 27

também porque os efeitos adversos da exposição ao metal não parecem tão importantes quanto outros problemas de saúde pública já existentes. Relatam que existe a necessidade real de tratar o problema, e isto pode se dar com mais pesquisas e estudos que proponham soluções viáveis para a redução da exposição ao metal, mas que ao mesmo tempo mantenham as tradições e a biodiversidade alimentares, melhorando desta forma as condições de saúde das populações.

2.1.2.2 Cubatão

O município de Cubatão ocupa uma área de 148km2, localizada no

litoral sul do estado de São Paulo, cerca de 60km distante da capital. Estudos anteriores demonstraram níveis de contaminação por mercúrio nesta região, causada principalmente pelo descaso com os dejetos de indústrias do ramo petroquímico e siderúrgico, de refino de petróleo, de cimento, de fertilizantes e de metais não-ferrosos (BOLDRINI et al., 1990; LAMPARELLI et al., 1998).

Também foram observadas concentrações elevadas do metal em medições realizadas em estação de coleta do estuário de Santos (LAMPARELLI et al., 1998).

Quando as águas do Rio Cubatão chegam à Baía de Santos sofrem

diluição, no entanto, HORTELLANI et al. (2005), observaram teores elevados do metal na água e nos sedimentos no sistema estuariano de Santos, e FARIAS et al. (2005), observaram teores do metal em amostras de peixes consumidos na região. Ainda que os valores obtidos nos peixes não ultrapassassem os limites recomendados pela legislação brasileira para ingestão de mercúrio (500 µg kg-1) (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA, 1998), o consumo crônico das espécies poderia acarretar problemas com a exposição ao mercúrio. A presença de mercúrio na Bacia de Santos pode ser um indicador de que a contaminação ainda existe no município de Cubatão, e é um risco em potencial para a sua população, principalmente quando esta consome pescados.

Em 2005 foi detectada a presença de mercúrio no mangue de

Cubatão. Foram então analisados água e sedimentos desta região para Revisão de Literatura 28

observar o ciclo e a mobilidade do metal, e foi constatado que o mercúrio estava associado a outros metais em sua forma iônica e também à matéria orgânica, principalmente nos sedimentos. Estes dados são importantes porque o mangue da cidade de Cubatão é localizado nas circunvizinhanças do Complexo Industrial, e junto à foz do Rio Cubatão. Além disso, muitas famílias se instalaram nesta área (HIPÓLITO et al., 2005).

No entanto, poucos estudos foram realizados no município de

Cubatão. Na base de dados do NCBI ( National Center for Biotechnology Information), a busca com a palavra “Cubatão” refere 38 resultados, quando esta busca é modificada para “Cubatão e Mercúrio” somente 2 resultados são relatados.

Dentre os estudos conduzidos na cidade muitos se referem à

exposição ao benzeno e aos efeitos da poluição do ar, mas sobre a concentração de mercúrio no cabelo de seus moradores, apesar do histórico de poluição da cidade, somente uma pesquisa aparece nas bases de dados consultadas.

Neste estudo, realizado por Santos Filho et al. (1993), crianças de 1

a 10 anos de idade foram distribuídas em dois grupos para a pesquisa, grandes consumidoras de peixes e não consumidoras, e apesar de os pesquisadores não relatarem diferença estatística significativa entre os grupos quanto ao teor de mercúrio no cabelo, foram observados teores de metal entre 0 e 3 mg kg-1.

De acordo com estes dados, os valores superiores são mais elevados do que os recomendados pela OMS (1990), que é de 2 mg kg-1.

O outro estudo, realizado pelo mesmo grupo, refere-se aos teores do metal no sangue das mesmas crianças cujas amostras de cabelo foram analisadas. De acordo com os resultados, as crianças com maior consumo de peixe apresentaram também os maiores níveis do metal no sangue (SANTOS

FILHO et al., 1993).

2.1.3 Interação mercúrio e selênio

Apesar dos riscos de exposição ao mercúrio, existem interações

entre o metal e nutrientes que podem minimizar os problemas oriundos desta contaminação. Estas interações podem influenciar e alterar a absorção, Revisão de Literatura 29

distribuição, excreção e a toxicidade do mercúrio no organismo. No entanto, as evidências não são conclusivas e alguns trabalhos mostram incertezas sobre estes efeitos em relação à toxicidade do metal (UNITED STATES, 1997; UNEP, 2002).

Em estudos com animais, a administração simultânea de doses de

mercúrio e selênio resultou em diminuição da toxicidade de ambos os elementos em exposições crônicas e agudas (UNITED STATES, 1999).

Os complexos formados por mercúrio e selênio são menos

conhecidos do que aqueles formados com compostos sulfúricos, utilizados na terapia de quelação em casos de exposição aguda ao metal, mas não menos importantes, principalmente porque os compostos apresentam maior afinidade entre si. Quando mercúrio e selênio se ligam, formam selenido de mercúrio, que é insolúvel. Esta interação é considerada protetora, uma vez que o selênio liga-se ao mercúrio e reduz o risco do aparecimento de sintomas de toxicidade do mercúrio em animais (RAYMOND & RALSTON, 2004). A formação destes complexos poderia ocorrer tanto no trato gastrintestinal, formando complexos que não são absorvidos, como depois da absorção (GONZAGA et al., 2009).

O mecanismo protetor do selênio ainda não está completamente

elucidado, mas acredita-se que possa envolver a redistribuição do mercúrio, a competição entre os dois por sítios de absorção, a diminuição da sensibilidade do mercúrio a receptores quando complexado ao selênio, ou a prevenção dos danos oxidativos pelo aumento da quantidade de selênio disponível (quando suplementado) para a síntese da Glutationa Peroxidase (GPx). Animais tratados com selênio podem permanecer sem serem afetados pela toxicidade do mercúrio, apesar do acúmulo tecidual em doses que em outras condições seriam associadas aos efeitos tóxicos do metal (UNITED STATES, 1999).

No entanto, existem controvérsias sobre o efeito protetor do selênio contra a toxicidade do mercúrio. Um estudo conduzido com recém nascidos das Ilhas Faroe, conhecidas pelo alto teor de mercúrio no organismo dos indivíduos desta comunidade, não conseguiu comprovar a eficiência do selênio na redução da toxicidade por metilmercúrio, que era originário da dieta das mães (CHOI et al., 2007).

Alguns cientistas têm estudado esta relação com cautela, pois se um metal consegue ultrapassar a barreira hemato-encefálica, penetrar no cérebro Revisão de Literatura 30

e modificar a síntese de selenoproteínas, algum efeito prejudicial pode ser esperado. Sendo assim é plausível supor que nos casos de exposição ao mercúrio a síntese de selenoproteínas, especialmente no cérebro, esteja comprometida, e os danos causados por esta alteração no metabolismo das selenoproteínas seriam potencialmente mais graves nos indivíduos com estado nutricional relativo ao selênio inadequado (RAYMOND & RALSTON, 2004).

Segundo Watanabe (2002), do ponto de vista de saúde pública,

deveria ser dada maior importância aos estudos de interações entre selênio e mercúrio, principalmente quando relacionados a questões ambientais.

2.2 Selênio

2.2.1 Introdução

O selênio, em oposição ao mercúrio, é um nutriente essencial, e

apesar do foco inicial do estudo deste elemento ter sido sua toxicidade, em 1973 foi evidenciada sua importância como componente da GPx e mais tarde como parte importante das iodotironinas desiodases. Portanto, suas funções vão além da já referida potencialidade em modificar a toxicidade do mercúrio, e abrangem o sistema antioxidante, a proteção aos riscos de doenças crônicas não transmissíveis, a resposta do sistema imunológico e o sistema endócrino pela conversão da tiroxina (T4) em triiodotironina (T3) (THOMASSEN et al. , 1994; TINGGI, 2003; GONZAGA et al., 2009).

A ingestão inadequada ou excessiva do mineral depende de uma

série de fatores desde o teor do mesmo nos alimentos até sua forma química no início da cadeia alimentar. Estes fatores incluem a distribuição do elemento no solo, que é determinada pela natureza do mesmo, seu pH e a presença de metais pesados que possam quelar o mineral; de como é absorvido pelas plantas que o colocam na cadeia alimentar; e as vias de ingestão e absorção (REILLY, 1996; RAYMANN, 2000).

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