Aventura em Bagdá por Agatha Christie- - Versão HTML

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A Aventura em Bagdá

Título original:

The Came To Baghdad

Tradução:

Ary Blaustein

(c) 1951 by Agatha Christie

O CAPITÃO CROSBIE saiu do banco com o ar de quem tinha cobrado um cheque e

descoberto que havia um pouquinho mais em sua conta do que pensara.

O Capitão Crosbie freqüentemente parecia contente consigo mesmo. Era essa espécie

de homem. De aparência era baixo e atarracado, com um rosto extremamente

vermelho e um bigode militar de escovinha. Empertigava-se um pouco ao andar. Suas

roupas eram talvez um pouco berrantes demais e ele gostava de uma boa história. Era

popular entre outros homens. Um homem alegre, lugar-comum mas gentil, solteiro.

Nada notável a seu respeito. Há montes de Crosbies no Leste.

A rua na qual o Capitão Crosbie saiu era chamada Rua dos Bancos, pela excelente

razão de que a maioria dos bancos da cidade estava localizada nela. Dentro do banco

estava fresco e escuro e bastante bolorento. O ruído predominante era de grandes

quantidades de máquinas de escrever crepitando ao fundo.

Fora na Rua dos Bancos havia sol e poeira redemoinhante e os ruídos eram terríficos e

variados. Havia o persistente barulho de buzinas de automóvel, os gritos dos

vendedores de diversas espécies de mercadorias. Havia disputas acirradas entre

pequenos grupos de pessoas que pareciam a ponto de matar-se uns aos outros, mas

na realidade eram amigos íntimos; homens, meninos e meninas estavam vendendo

toda a sorte de árvores, doces, laranjas e bananas, toalhas de banho, pentes, lâminas

de barbear e outras mercadorias sortidas, carregados rapidamente pelas ruas em

travessas. Havia também um ruído perpétuo e perenemente renovado de pigarros ao

serem limpos e cusparadas e sôbre tudo isso o tênue lamento melancólico de homens

conduzindo asnos e cavalos pela torrente de carros e pedestres, gritando: "Balek-

Balek!"

Eram onze horas da manhã na Cidade de Bagdá.

O Capitão Crosbie parou um menino que passava correndo rapidamente com um

molho de jornais debaixo do braço e comprou um. Dobrou a esquina da Rua dos

Bancos e chegou a Rashid Street, que é a rua principal de Bagdá, que a percorre por

cerca de seis quilômetros, paralela ao Rio Tigre.

O Capitão Crosbie olhou as manchetes do jornal, caminhou uns duzentos metros e em

seguida dobrou para uma àleazinha que dava para um grande khan, ou pátio. Do

outro lado do mesmo, empurrou uma porta abrindo-a e encontrou-se num escritório.

Um empregado iraquiano bem arrumado deixou a sua máquina de escrever e veio ao

seu encontro sorrindo as boasvindas.

Bom dia, Capitão Crosbie. Em que lhe posso ser útil? O Sr. Dakin está na sua sala?

ótimo, vou passar.

Passou por uma porta, subiu uma escada de degraus bem inclinados e seguiu por uma

passagem bastante suja. Bateu na porta ao fundo e uma voz disse: "Entre!"

Era uma sala extremamente alta e vazia. Havia uma estufa a óleo com pires com água

colocado em cima, um assento longo almofadado e uma pequenina mesa de café na

sua frente e uma escrivaninha esmolambada. A luz elétrica estava acesa e a luz do dia

cuidadosamente excluída. Atrás da escrivaninha esmolambada estava sentado um

homem também esmolambado de rosto cansado e indeciso - o rosto de alguém que

não tinha progredido no mundo, sabe disso e deixou de preocupar-se com isso.

Os dois homens, o alegre e autoconfiante Crosbie e o melancólico e fatigado Dakin,

olharam um para o outro.

Dakin falou- Olá, Crosbie. Acaba de chegar de Kirkuk?

O outro assentiu com a cabeça. Fechou a porta cuidadosamente atrás de si. Era uma

porta de aspecto esmolambado, mal pintada, mas tinha uma qualidade inesperada;

ajustava-se bem, sem frestas e sem espaço por baixo.

Era, na realidade, à prova de som.

2

Com o fechar da porta as personalidades de ambos os homens mudaram apenas

perceptivelmente. O Capitão Crosbie tornou-se menos agressivo e determinado. Os

ombros do Sr. Dakin ficaram menos caídos e seus modos ficaram menos hesitantes.

Se alguém tivesse estado na sala ouvindo, poderia ter ficado surpreso ao constatar

que Dakin era o homem com autoridade.

- Alguma novidade? - perguntou Crosbie.

- Sim. - Dakin suspirou. Diante dele havia um papel que tinha estado a descodificar.

Rabiscou mais duas letras e disse:

- Terá lugar em Bagdá.

Em seguida riscou um fósforo, tocou fogo no papel e observou-o queimar. Quando

tinha sido reduzido a cinzas, soprou suavemente. As cinzas ergueram-se e se

dispersaram.

- Sim - comentou. - Decidiram que seria Bagdá. Dia vinte do mês que vem. Temos que

"guardar o maior segredo".

- Estiveram comentando isso no Suq... durante quatro dias - disse Crosbie secamente.

O homem alto sorriu seu sorriso cansado.

- Segredo máximo! Não há segredos máximos no Oriente, não é mesmo, Crosbie?

- Não senhor. Se quiser a minha opinião, não há segredos máximos em lugar algum.

Durante a guerra notei freqüentemente que um barbeiro de Londres sabia mais do

que o Alto Comando.

- Não tem muita importância neste caso. Se o encontro deve realizar-se em Bagdá, em

breve terá que ser tornado público. E depois a farra... a nossa farrinha particular...

começa.

- Acha que vai começar? - perguntou Crosbie ceticamente.

- O Grande Ditador acha (assim desrespeitosamente se referia Crosbie ao chefe de

uma grande potência européia) e pretende realmente vir?

- Acho que desta vez sim, Crosbie - disse Dakin pensativamente.

- Acho que sim. E se o encontro se realizar... se se realizar sem qualquer embaraço...

bem, pode ser a salvação

3

de tudo. Se apenas se pudesse chegar a qualquer espécie de entendimento... - e

interrompeu-se.

Crosbie ainda parecia ligeiramente cético.

- Existe... desculpe-me, senhor... existe a possibilidade de um entendimento de

qualquer espécie?

- No sentido que você quer dizer, Crosbie, provavelmente não! Se fosse apenas o

encontro de dois homens que representam ideologias completamente diferentes,

provavelmente a coisa toda terminaria como de costume... em suspeita e má

compreensão aumentadas. Mas há um terceiro elemento. Se aquela história fantástica

de Carmichael é verdadeira...

Interrompeu-se de novo.

- Mas certamente, senhor, não pode ser verdadeira. É fantástica demais!

O outro ficou em silêncio por alguns momentos. Estava vendo, bem vividamente, um

rosto sério, preocupado, escutando uma voz calma, indiferente, dizendo coisas

fantásticas e inacreditáveis. Estava dizendo a si mesmo, como então o tinha feito:

- Ou o meu melhor homem, o mais digno de confiança, ficou louco, ou então essa coisa

é verdadeira...

Disse, na mesma voz tênue e melancólica:

- Carmichael acreditava nisso. Tudo que ele fora capaz de descobrir confirmava-lhe

sua hipótese. Ele queria ir lá para descobrir mais, trazer provas... Se foi acertado eu tê-

lo deixado ir, eu não sei. Se ele não voltar é apenas a minha história do que ele me

contou, que por sua vez é a história do que alguém contou a ele. Isso é bastante? Eu

não penso assim. É, como você diz, uma história tão fantástica... Mas se o homem

mesmo estiver aqui em Bagdá, no dia vinte, para contar a sua história, a história de

uma testemunha ocular, e apresentar provas...

- Provas? - perguntou Crosbie asperamente.

O outro anuiu.

- Sim, ele tem provas.

- Como é que sabe?.

- A fórmula combinada. A mensagem veio por intermedio de Salah Hassan - citou

cuidadosamente: - Um camelo branco com uma carga de aveia está vindo por sobre o

Passo.

Fez uma pausa e continuou:

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- De modo que Carmichael, conseguiu o que veio procurar, mas não consegue escapar

sem suspeita. Estão na sua pista. Qualquer que seja o caminho que ele tomar, será

vigiado e, o que é muito mais perigoso, estarão à espera dele... aqui. Primeiro na

fronteira. E se ele conseguir passar pela fronteira, haverá um cordão estendido em

volta das embaixadas e dos consulados. Olhe para isso.

Mexeu em alguns papéis sobre a sua escrivaninha e começou a ler:

- Um inglês viajando em seu carro da Pérsia para o Iraque morto a tiros, supostamente

por bandidos. Um mercador curdo viajando colinas abaixo emboscado e morto. Outro

curdo, Abdul Hassan, suspeito de ser um contrabandista de cigarros, morto a tiros pela

polícia. Corpo de um homem, posteriormente identificado como um motorista de

caminhão armemo, encontrado na estrada de Rowanduz. Todos eles, preste atenção,

de aproximadamente a mesma descrição. Altura, peso, cabelo, corpo, corresponde a

uma descrição de Carmichael. Não estão se arriscando em nada. Estão dispostos a

pegá-lo. Uma vez que ele estiver no Iraque o perigo é ainda maior. Um jardineiro na

Embaixada, um empregado do Consulado, um funcionário no Aeroporto, na Alfândega,

na estação da Estrada de Ferro... todos os hotéis vigiados... Um cordão bem apertado.

Crosbie levantou as sobrancelhas.

Acha que é tão espalhado assim?

Não tenho a menor dúvida. Mesmo no nosso espetáculo têm havido vazamentos.

Como posso ter certeza de que as medidas que estamos adotando para trazer

Carmichael seguramente para Bagdá não são conhecidas já do outro lado? É um

dos movimentos elementares do jogo, como sabe, ter alguém na folha de

pagamento do campo oposto.

- Há alguém de quem suspeita?

Lentamente Dakin meneou a cabeça.

Crosbie suspirou.

- Enquanto isso - perguntou - nós continuamos?

- Sim.

- E com referência a Crofton Lee?

- Concordou em vir para Bagdá.

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- Todo mundo está vindo para Bagdá - disse Crosbie. Mesmo o Grande Ditador, de acordo

com o que diz, senhor. Mas se algo acontecesse ao Presidente - enquanto ele estiver aqui

- o foguete irá subir, com um estrondo.

- Nada deve acontecer - afirmou Dakin. - Essa é a nossa parte. Providenciar para que

nada aconteça.

Quando Crosbie tinha-se retirado, Dakin dobrou-se sobre a sua mesa. Estava

murmurando:

- Eles vieram para Bagdá...

Traçou um círculo no mata-borrão e escreveu embaixo Bagdá. - Em seguida fez

pontinhos em volta, esboçou um camelo, um avião, um navio, um pequeno trem de

chaminé bafejante, todos convergindo sobre o círculo. Em seguida no canto da folha

desenhou uma teia de aranha. No meio da teia escreveu um nome: Ana Scheele. Por

baixo colocou um grande ponto de interrogação.

Em seguida pegou seu chapéu e saiu do escritório. Ao passar por Rashid Street um

homem perguntou a outro quem era ele.

- Aquele? Oh, é Dakin. De uma das companhias de petróleo. Bom sujeito, mas não

chega a lugar nenhum. Letárgico demais. Dizem que bebe. Nunca chegará a ser nada.

É preciso ter energia para chegar a ser alguma coisa nesta parte do mundo.

- Está com os relatórios sobre a propriedade Krugenhorf, Srta. Scheele?

- Sim, Sr. Morganthal.

A Srta. Scheele, fria e eficiente, colocou os papéis à frente do seu empregador.

Este grunhiu enquanto lia.

- Satisfatório, acho eu.

- Eu certamente penso assim, Sr. Morganthal.

- Schwartz está aqui?

- Está esperando na ante-sala.

- Mande-o entrar agora.

A Srta. Scheele apertou uma campainha - uma das seis que havia.

- Ainda precisa de mim, Sr. Morganthal?

6

1

ì

- Não, acho que não Srta. Scheele.

Ana Scheele esgueirou-se silenciosamente para fora da sala.

Era uma loura platinada, mas não uma loura glamorosa. Seu cabelo pálido alourado

estava repuxado liso da sua testa para formar um rolo ordenado em seu pescoço. Seus

olhos azul-pálido, inteligentes, olhavam o mundo por detrás de lentes fortes. O rosto

tinha feições límpidas e miúdas, mas era bastante inexpressivo. Tinha subido na

carreira não pelos seus encantos, mas por simples eficiência. Era capaz de decorar

qualquer coisa, não importa quão complicada, e reproduzir nomes, datas e horas sem

consultar apontamentos. Era capaz de organizar a equipe de um grande escritório de

tal forma que tudo funcionava como uma máquina bem azeitada. Era a discrição em

pessoa e sua energia, embora controlada e disciplinada, nunca esmorecia.

Otto Morganthal, chefe da firma nova-lorquina de Morganthal, Brow & Shipperke,

banqueiros internacionais, estava bem consciente do fato de que devia a sua Scheele

mais do que simples dinheiro poderia pagar. Confiava plenamente nela. Sua memória,

sua experiência, seu julgamento e sua cabeça fria e equilibrada eram impagaveis. Êle

lhe pagava um alto salário e o teria aumentado se ela o tivesse pedido.

Ela conhecia não somente os detalhes do seu negócio, mas os detalhes de sua vida

particular também. Quando ele a tinha consultado no assunto da segunda Sra.

Morganthal, ela tinha aconselhado o divórcio e sugerido a importância exata dos

alimentos. Não expressara nem simpatia nem curiosidade. Não era, diria ele, essa

espécie de mulher. Ele não pensava que ela tivesse quaisquer sentimentos e nunca

lhe ocorreu pensar o que ela pensava a respeito. Na realidade teria ficado espantado

se lhe contassem que ela abrigava quaisquer pensamentos - a não ser, claro,

pensamentos ligados a Morganthal, Brown & Shipperke e aos problemas de Otto

Morganthal.

Assim foi com surpresa completa que ele a ouviu dizer ao sair do escritório:

- Eu gostaria de ter umas férias de três semanas fora de Nova York, se for possível, Sr.

Morganthal. A partir da próxima terça-feira.

Olhando para ela, falou, embaraçado:

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- Seria embaraçoso, muito embaraçoso.

- Não acho que seria difícil demais, Sr. Morganthal. A Srta. Wygate é perfeitamente

competente para tratar das coisas. Vou deixar-lhe minhas anotações e instruções

completas. O Sr. Cornwall pode se ocupar da Fusão Ascher.

Ainda embaraçado, ele perguntou:

- Não está doente, ou algo assim?

Não podia imaginar a Srta. Scheele estando doente. Mesmo os germes respeitavam

Ana Scheele e ficavam fora do seu caminho.

- Oh, não, Sr. Morganthal. Eu quero ir a Londres para ver minha irmã.

Sua irmã?

Ele não sabia que ela tivesse uma irmã. Nunca concebeu a Srta. Scheele como tendo

qualquer família ou parentes. Nunca mencionou tê-los. E aqui estava ela, casualmente

se referindo a Londres. No outono passado tinha estado em Londres com ele, mas

nunca havia mencionado ter uma irmã lá.

Com um sentimento de ofensa declarou:

- Nunca soube que tivesse uma irmã na Inglaterra.

A Srta. Scheele sorriu muito suavemente:

- Oh, sim, Sr. Morganthal. É casada com um inglês, ligado ao Museu Britânico. Ela terá

que se submeter a uma operação muito séria. Quer que eu esteja com ela. Eu gostaria

de ir.

Em outras palavras, viu o Sr. Morganthal, tinha resolvido ir.

Resmungou:

- Muito bem, muito bem... Volte logo que puder. Nunca vi o mercado tão variável. Todo

esse maldito comunismo. A guerra pode estourar a qualquer momento. Às vezes penso

que é a única solução. Todo o país está crivado com isso... crivado com isso. E agora o

Presidente decidiu ir a essa Conferência em Bagdá. É uma encenação na minha

opinião. Estão querendo pegá-lo. Bagdá! De todos os lugares o mais esquisito!

- Oh, tenho a certeza de que será bem guardado disse a Srta. Scheele

apaziguadoramente.

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- Apanharam o Xá da Pérsia o ano passado, não foi? Pegaram Bernadotte na Palestina.

É loucura... isso é o que é... loucura.

- Mas então - acrescentou o Sr. Morganthal pesadamente - o mundo todo está louco.

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II

VICTORIA JONES estava sentada cismadora numa cadeira nos Jardins Fitz James.

Estava completamente entregue a reflexões - ou poder-se-la dizer quase, moralizações

- sobre as desvantagens inerentes do emprego dos próprios talentos particulares no

momento errado.

VICTORIA era, como a maioria de nós, uma moça com qualidades tanto quanto

defeitos. Do lado do crédito era generosa, de coração quente e corajosa. A sua

inclinação natural para a aventura pode ser considerada ou como meritória ou o

contrário nesta idade moderna que avalia muito alto o valor de segurança. Seu defeito

principal era mentir tanto nos momentos oportunos quanto nos inoportunos. A

fascinação superior da ficção ao fato sempre tinha sido irresistível para VICTORIA.

Tinha mentido com fluência, facilidade e fervor artísticos. Se VICTORIA chegasse

atrasada a um encontro (o que freqüentemente era o caso), para ela não era o

bastante murmurar uma desculpa do seu relógio ter parado (o que realmente

acontecia com bastante freqüência) ou de um ônibus inexplicavelmente atrasado. Para

VICTORIA pareceria preferível fornecer a desculpa esfarrapada de que tinha sido

impedida por um elefante fugido, deitado atravessado na estrada principal do ônibus,

ou por um excitante reide relâmpago da polícia, na qual ela mesma tinha tomado

parte para ajudar a polícia. Para VICTORIA um mundo agradável seria aquele no qual

tigres estavam de atalaia no Strand e bandidos perigosos infestavam Tooting.

Uma moça magra, com uma figura agradável e pernas de primeira classe, as feições

de VICTORIA poderiam ser descritas na realidade como comuns. Eram miúdas e

línipidas. Mas havia

algo estimulante nela, pois a "carinha de borracha", como um dos seus admiradores a tinha

apelidado, podia destorcer aquela

expressão imóvel para um arremedo espantoso de praticamente qualquer pessoa.

Foi este seu talento mencionado por último que a levara à sua presente entalada.

Empregada como datilógrafa pelo Sr. Greenholtz de Greenholtz, Simmon &

Lederbetter, da Rua

Graysholme, de Londres, W.C. 2, VICTORIA tinha matado o tempo de uma manhã

paulificante entretendo três outras datilógrafas e o moço de recados com uma performance

vívida da

Sra. Greenholtz ao fazer uma visita ao escritório do seu marido. Segura no conhecimento

de que o Sr. Greenholtz tinha saído para visitar seus clientes, VICTORIA tinha deixado

arrebatar-se.

- Porque nós não podemos ter aquele banquinho Knole, paiée? - perguntava ela em voz

alta e lamurienta. A Sra. Dievatakis ela tem um em cetim azul elétrico.

Você diz que o dinheiro está curto? Mas quando você sai com aquela loura para jantar e

dançar - Ali! pensa que eu não sei - e se você sai com aquela pequena, então vou ter um

banquinho todo em cor de ameixa, de almofadas de ouro. E quando você diz que é um

jantar de negócios, voce é um trouxa perfeito - sim - e volta com batom na camisa. Então,

vou

ter o banquinho Knole e vou encomendar uma capa de pele -muito bonita - toda com

arminho, mas não realmente arminho e eu vou consegui-la muito barato e vai ser um bom

negócio.

A falha súbita do seu auditório - a princípio arrebatado, mas agora subitamente

voltado ao trabalho com concordância espontânea, fez VICTORIA interromper e voltar-

se para onde o Sr. Greenholtz estava de pé no umbral da porta, observando-a.

VICTORIA, incapaz de pensar em algo reievante para dizer, simplesmente exclamou:

- Oh!

O Sr. Greenholtz grunhiu.

Tirando seu casaco, o Sr. Greenholtz encaminhou-se para seu escritório particular e

fechou a porta com estrondo. Quase que imediatamente a campainha soou, dois

curtos e um longo. Era um chamado para VICTORIA.

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- É para você, Johnezinha - comentou uma colega desnecessàriamente, de olhos

brilhantes pelo prazer causado pela desgraça dos outros. As outras datilógrafas

colaboravam neste sentimento, ejaculando:

- É a sua vez, Jones.

- Para a berlinda, Joezinha.

O mensageiro, uma criança desagradável, contentou-se puxando o indicador diante do

pescoço e proferindo um som sinistro.

VICTORIA levantou seu caderno de apontamentos e lápis e foi para o escritório do Sr.

Greenholtz, com tanta segurança quanto conseguia reunir.

- Está me chamando, Sr. Greenholtz? - murmurou, fixando um olhar límpido nele.

O Sr. Greenholtz estava amarfanhando três notas de uma libra e procurando em seus

bolsos moedas do Tesouro.

- Ora, aí está você - observou ele. - Para mim chega de sua parte, minha jovem. Vê

alguma razão especial pela qual não lhe deva pagar uma semana de salário em lugar

de aviso prévio e mandá-la embora agora mesmo?

VICTORIA (uma órfã) tinha acabado de abrir a boca para explicar como a aflição de

uma mãe, neste momento sofrendo uma operação séria a tinha desmoralizado tanto

que tinha ficado de cabeça completamente aérea e como o seu salário minguado era

tudo que a mãe acima citada tinha para sustentar-se, quando, lançando um olhar de

soslaio para a face desagradável do Sr. Greenholtz, fechou a boca e mudou de

pensamento.

- Não poderia estar mais de acordo com o senhor disse ela aberta e agradávelmente.

- Penso que está absolutamente certo, se sabe o que quero dizer.

O Sr. Greenholtz parecia ligeiramente espantado. Não estava acostumado a ter suas

despedidas tratadas com esse espírito aprovador e congratulatório. Para esconder um

ligeiro mal-estar, remexeu a pilha de moedas à sua frente na escrivaninha. Em seguida

mais uma vez procurou pelos seus bolsos.

- Faltam nove pence - murmurou soturnamente.

- Não tem importância - disse VICTORIA gentilmente. Vá ao cinema ou compre umas

balas.

- Parece que não tenho nem selos.

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- Não importa. Eu nunca escrevo cartas.

- Poderia mandar pelo correio - disse o Sr. Grenholtz, mas sem muita convicção.

- Não se incomode. Que tal uma referência? - perguntou VICTORIA.

A cólera do Sr. Greenholtz voltou.

- Por que diabo deveria eu lhe dar uma referência? perguntou ele furiosamente.

- É costumeiro - retrucou VICTORIA.

O Sr. Greenholtz puxou de um pedaço de papel e rabiscou algumas linhas. Empurrou o

papel em sua direção.

- Está bom assim?

A Srta. Jones esteve comigo por dois meses como estenodatilógrafa. Sua taquigrafia e

inexata e náo sabe ortografia. Está saindo devido à perda de tempo durante o

expediente.

VICTORIA fez uma careta.

- Dificilmente uma recomendação - observou.

- Não pretendia que fosse - observou o Sr. Greenboltz.

- Acho - disse VICTORIA - que poderia pelo menos dizer que sou honesta, sóbria e

respeitável. Eu sou, como sabe. E talvez pudesse acrescentar que sou discreta.

- Discreta? - latiu o Sr. Greenholtz.

VICTORIA encontrou seu olhar com uma expressão inocente.

- Discreta - repetiu gentilmente.

Lembrando-se de diversas cartas que foram ditadas a VICTORIA e datilografadas por

ela, o Sr. Greenholtz decidiu que a prudência era a parte melhor do rancor.

Agarrou o papel de volta, rasgou-o e começou uma folha nova.

A Srta. Jones esteve comigo por dois meses como estenodatilógrafa. Está nos deixando

por estar sendo diminuído o pessoal de escritório.

- Que tal isso?

- Podia ser melhor - disse VICTORIA - mas servirá.

Foi assim com o salário de uma semana (menos nove pence) na bolsa que VICTORIA

estava sentada num banco nos Jardins Fitz James, que são uma plantação triangular de

arbustos extremamente tristes, ao lado de uma igreja e dominada por um armazém

alto.

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Era hábito de VICTORIA, em qualquer dia em que não estivesse realmente chovendo,

comprar um queijo e um sanduíche de alface e tomate numa lanchonete e comer esse

lanche simples nesta paisagem pseudo-rural.

Agora, ao mastigar meditativamente, estava dizendo a si mesma, não pela primeira

vez, que havia um tempo e um lugar para cada coisa - e que o escritório não era

certamente o lugar para imitações da mulher do patrão. No futuro teria que dominar a

sua exuberância natural que a levou a iluminar o desempenho de uma tarefa

paulificante. Enquanto isso, ela estava livre de GreenhoItz, Siminon & Lederbetter e a

perspectiva de conseguir um emprego em outro lugar enchia-a de antecipação

agradável. VICTORIA estava sempre deliciada quando estava em vias de assumir um

novo emprego. Nunca se sabia, sentia ela, o que poderia acontecer.

Tinha acabado de distribuir o último farelo de pão entre três pardais atentos, que

imediatamente começaram a brigar com fúria entre si pelo pão, quando se apercebeu

de um jovem que estava sentado na outra ponta do banco. VICTORIA o tinha notado já

vagamente, mas com a sua mente cheia de boas resoluções para o futuro, não o

observara atentamente até agora. Do que via (pelo rabo do olho) gostava muito. Era

um jovem de boa aparência, querubicamente bonito, mas com um queixo firme e

olhos extremamente azuis que tinham estado, ela gostava de imaginar, a examiná-la

com admiração encoberta por algum tempo.

VICTORIA não tinha inibições a respeito de fazer amigos com jovens estranhos e

lugares públicos. Considerava a si mesma um excelente juiz de caracteres e bem

capaz de controlar quaisquer manifestações de ousadia por parte de homens

desacompanhados.

Começou a sorrir francamente a ele e o jovem reagiu como um marionete quando se

puxa a corda.

- Olá - disse o jovem. - Bonito lugar este. Sempre vem para cá?

- Quase todos os dias.

- É bem a minha sorte que nunca vim para cá antes. Foi esse o seu almôço que estava

comendo?

- Sim.

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- Acho que você não come bastante. Eu morreria de fome se comesse apenas dois

sanduíches. Que tal vir comigo e comer uma lingüiça no SPO na estrada de Tottenham

Court?

- Não obrigada. Eu estou bem. Não poderia comer mais nada agora.

Ela quase que esperava que ele dissesse: "Outro dia, então", mas ele não o fez.

Simplesmente suspirou e em seguida falou:

- Meu nome é Edward, qual é o seu?

- VICTORIA.

- Por que é que seus pais a quiseram chamar por um nome de estação de estrada de

ferro?

- VICTORIA não é somente uma estação de estrada de ferro indicou a Srta. Jones. -

Também há a Rainha VICTORIA.

- MMM... hum, sim. Qual é o seu outro nome?

- Jones.

- VICTORIA Jones - disse Edward, experimentando o nome na língua. Meneou a cabeça.

- Não combinam.

- Você tem muita razão - disse VICTORIA com sentimento. - Se eu fosse Jenny seria

bem bonito... Jenny Jones. Mas VICTORIA requer algo com mais classe. VICTORIA

SackvilleWest, por exemplo. Essa é a espécie de coisa de que a gente precisa. Algo

para fazer rolar pela boca.

- Você poderia acrescentar algo ao Jones - sugeriu Edward com interesse simpatizante.

- Bedford Jones.

- Carisbrooke Jones.

- Sta. Clair Jones.

- Lonsdale Jones.

Êste jogo agradável foi interrompido pelo olhar de Edward ao seu relógio e sua

exclamação horrorizada.

- Tenho que correr de volta ao meu maldito patrão.. hem, e você?

- Estou sem emprego. Fui despedida hoje pela manhã.

- Oh, quero dizer, sinto muito - disse Edward com real preocupação.

- Não desperdice a sua simpatia, porque não estou nem UM pouquinho triste. Por um

lado, vou conseguir outro emprego com facilidade e, depois, tudo isso foi deveras

engraçado.

15

Da E, atrasando a volta de Edward ao dever ainda mais, ela lhe fez uma reprodução

espirituosa da cena de de manhã, reapresentando a sua personificação da Sra.

Greenholtz para imenso divertimento de Edward.

- Você é realmente maravilhosa, VICTORIA - disse ele. Você devia estar no palco.

VICTORIA aceitou este tributo com um sorriso agradecido e comentou que Edward

devia ir andando se não quisesse receber ele mesmo o bilhetinho azul.

- Sim, e eu não conseguiria um outro emprêgo com a mesma facilidade que você. Deve

ser maravilhoso ser uma boa estenodatilógrafa - disse Edward com inveja na voz,

- Bem, na realidade não sou boa estenodatilógrafa -admitiu VICTORIA francamente -

mas tenho sorte de que as piores estenodatilógrafas hoje em dia podem conseguir um

emprego de qualquer espécie - pelo menos um educacional ou de caridade - estes não

podem pagar muito, de modo que conseguem pessoal como eu. Prefiro a espécie de

emprego intelectual. Esses nomes e lugares e têrnos científicos de qualquer forma são

tão assustadores, mesmo quando não souber escrevê-los corretamente, na realidade

isso não lhe fará vergonha nenhuma, porque ninguém seria capaz. Qual é o seu

emprego? Presumo que você saiu de uma das armas da RAF??

-0 Bom palpite. –

- Piloto de caça?

Acertou de novo. São muito amáveis em nos conseguir emprego e tudo mais, mas, veja

você, o problema é que somos especialmente inteligentes. Quero dizer que não era

preciso ser muito inteligente na RAF. Eles me colocaram num escritório com um monte

de arquivos e números e algo em que pensar, e eu simplesmente entreguei os pontos.

Toda a coisa, de qualquer forma, parecia compeltamente sem propósito. Mas é isso.

Acho que deprime um pouco saber que você não serve absolutamente para nada.

VICTORIA anuiu solidária.

Edward continuou amargamente:

- Sem contato. Completamente fora do mapa. Estava tudo certo durante a guerra... era

possível a gente agüentar

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as pontas... eu por exemplo ganhei a DFC (cruz por serviços relevantes em vôo, nota do

tradutor)... mas agora, bem posso considerar-me muito bem fora do mapa.

Mas devia haver...

VICTORIA interrompeu-se. Sentia-se completamente incapaz de colocar em palavras a

sua convicção de que as qualidades que trouxeram uma DFC a seu proprietário de

algum modo deveriam ter seu lugar designado no mundo de 1950.

- Isso quase que me arrasou - disse Edward. - Não ser bom em nada, quero dizer.

Bem... melhor eu ir andando... quero dizer... você se importaria... não seria muita

presunção... se eu apenas pudesse...

Quando VICTORIA abriu olhos surpresos, um Edward balbuciante e de faces

repentinamente coradas tirou uma pequena càmera.

- Eu gostaria muito de ter um retrato seu. Você sabe, vou para Bagdá amanhã.

- A Bagdá? - exclamou VICTORIA com vivo desapontamento.

- Sim. Quero dizer, gostaria que não fosse... agora. Antes, pela manhã, eu estava

bastante animado com isso; foi a razão pela qual na realidade aceitei esse emprego...

para sair do país.

- Que espécie de trabalho é?

- Horroroso. Cultura, poesia, toda essa espécie de coisas. Um tal de Dr. Ratlibone é

meu chefe. Uma porção de títulos depois do none, olha a gente comoventemente por

um pince-nez. Ele é terrivelmente entusiasmado por instrução e espalha-a perto e

longe. Abre livrarias em lugares remotos. está começando uma em Bagdá. Faz traduzir

as obras de Shakespeare e Milton para o árabe e curdo, e persa e aririênio e tem todas

elas à mão. Bobagem, acho eu, porque temos o Conselho Britânico fazendo a mesma

coisa em todos os lugares. No entanto, aí está. A mim me da um emprego, de modo

que eu não devia reclamar.

- Que é que você faz na realidade? - perguntou VICTORIA.

Bem, no fim de contas tudo se resume em ser o puxasaco pessoal do velhote e

capachildo. Comprar os bilhetes, fazer

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as reservas, preencher os formulários de passaporte, conferir a embalagem de todos

aqueles pequenos manuais horrendos de poesia, correr para cá, para lá e para todo

lugar. Então, quando chegarmos lá devo fraternizar - uma espécie de movimento

glorificado de juventude - todas as nações juntas para uma campanha unida pela

instrução - o tom de Edward se tornou mais e mais melancólico. - Francamente, é bem

aterrador, não é?

VICTORIA foi incapaz de administrar qualquer confôrto.

- De modo que você vê - disse Edward. - Se você não se importar demais... uma de

lado e uma olhando de frente para mim... oh, assim está maravilhoso...

A câmera deu dois cliques e VICTORIA demonstrou aquela complacência ronronante

demonstrada por mulheres jovens que sabem que causaram uma impressão num

membro atraente do sexo oposto.

- Mas é bastante chato realmente ter que ir embora, justamente quando a encontrei -

disse Edward. - Eu tenho uma meia idéia de mandar tudo às favas... mas acho que não

poderia agora, no último momento, não depois de todos aqueles formulários

tenebrosos e vistos e tudo. Não seria um bom desempenho, não é?

- Pode sair melhor do que você pensa - disse VICTORIA consoladoramente.

- N-não - replicou Edward em dúvida. - A coisa mais gozada é - acrescentou - que tenho

um pressentimento de que há algo podre nisso tudo.

- Podre?

- Sim. Vigarice. Não me pergunte por quê. Não tenho motivo algum. É uma espécie de

palpite que a gente tem às vezes. Uma vez tive isso a respeito do meu óleo de

bombordo. Comecei a fuçar a maldita coisa e não é que havia uma arruela encravada

na bomba da cremalheira?

Os termos técnicos nos quais isso foi ministrado tornava tudo bastante ininteligível

para VICTORIA, mas conseguiu captar a idéia geral.

Acha que ele virou vigarista... Rathbone?

Não vejo como ele possa ser. Quero dizer, é assustadoramente respeitável e estudado e é

sócio de todas essas sociedades; e é uma espécie de chapa de arcebispos e diretores de

colégios. Não é apenas um palpite. Bem, o tempo mostrará. Até logo. Eu gostaria que você

viesse também.

- Eu também - disse VICTORIA.

- Que é que você vai fazer?

- ir para a Agência St. Guildric na Rua Gower e procurar outro emprego - disse

VICTORIA sombriamente.

- Adeus, VICTORIA. Partir, say mourir un peu - acrescentou Edward com um sotaque

muito britânico; - aquêles rapazes franceses sabem do que se trata. Nossos colegas

inglêses apenas vão se lamentando sobre a partida que é uma doce dorzinha...

asnáticos.

- Adeus, Edward. Boa sorte.

- Não creio que voce pensará em mim novamente.

- Sim, pensarei.

- Você é completamente diferente de qualquer moça que vi antes... eu apenas

gostaria. - O relógio -deu a badalada do quarto de hora e Edward disse:

- Diabo, tenho que ir voando...

Retirando-se rapidamente, foi engolido pelo grande bucho de Londres. VICTORIA,

ficando para trás em seu lugar absorta em meditação, estava consciente de duas

correntes distintas de pensamentos.

Uma tratava do tema de Romeu e Julieta. Ela e Edward, sentia ela, estavam de algum

modo na posição daquele casal infeliz, embora talvez Romeu e Julieta tivessem

expressado seus sentimentos em linguagem um pouco de classe mais elevada. Mas a

situação, pensava VICTORIA, era a mesma. Encontro, atração instantânea - frustração -

dois corações que se queriam separados à força. A lembrança de uma rima, há muito

tempo freqüentemente recitada pela sua babá velha lhe veio à mente.

Jumbo said to Alice "I love you". Alice said to Jumbo, "I dont believe you do, If you really

loved me, as you say you do, You wouldont go to America and leave me in the Zoo."

Substitua Bagdá no lugar de América e a coisa está aí! VICTORIA finalmente levantou-se,

escovando farelo do colo e andou decididamente para fora dos Jardins Fitz James na

direção

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da Rua Gower. VICTORIA tinha chegado a duas decisões: a primeira era que (como Julieta)

ela amava esse jovem e estava decidida a tê-lo.

A segunda decisão à qual VICTORIA tinha chegado era que, como Edward em breve

estaria em Bagdá, a única coisa para ela fazer seria ir a Bagdá também. O que agora

estava ocupando a sua mente era como isso poderia ser feito. Que isso pudesse ser

feito de um modo ou de outro, VICTORIA não duvidava. Era uma moça de otimismo e

força de caráter.

Parting is such sweet sorraw (Partir é uma dorzinha tão doce), como sentimento, a

atraía tão pouco quanto a Edward.

- De algum modo - VICTORIA estava dizendo para si mesma - tenho que ir a Bagdá!

20

III

O HOTEL SAvoy deu as boas-vindas a Ana Scheele com todo o emppenho devido a um

cliente antigo e valioso - perguntaram pela saúde do Sr. Morganthal - e lhe

asseguraram que, se a suite não estivesse ao seu gosto, ela somente teria de dizê-lo -

pois Ana Scheele representava dólares.

A Srta. Scheele tomou banho, vestiu-se, fez um chamado telefônico para um número

em Kensington e em seguida desceu pelo elevador. Passou pela porta giratória e pediu

um táxi. Este chegou e ela o encaminhou a Certier em Bond Street.

Quando o táxi saiu da entrada do Savoy para o Strand, um pequeno homem moreno,

que tinha estado a admirar a vitrina de uma loja, subitamente olhou seu relógio e fez

sinal a um táxi que estava passando convenientemente e que tinha estado

singularmente cego aos acenos de uma mulher agitada, cheia de embrulhos uns

momentos antes.

O táxi seguiu pelo Strand, não perdendo o primeiro táxi de vista. Quando ambos foram

detidos pelas luzes de tráfego circundando a Praça Trafalgar, o homem do segundo

táxi olhou pela janela da esquerda e fez um pequeno gesto com a mão. Um carro

particular que tinha estado parado na travessa ao lado do Arco do Almirante, acionou

seu motor e entrou na torrente de tráfego atrás do segundo táxi.

O tráfego tinha começado novamente a se movimentar. O táxi de Ana Scheele seguiu a

torrente de tráfego que ia para a esquerda para o Par Mall, o táxi no qual estava o pequeno

homem moreno dobrou à direita, continuando em volta da Praça Trafalgar. O carro

particular, um Standard cinza, agora estava bem perto, atrás do táxi de Ana Acheele.

Continha dois passageiros

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um jovem louro, de olhar bastante vácuo no volante e uma mulher jovem, elegantemente

vestida a seu lado. O Standard seguiu o táxi de Ana Scheele por Piccadilly e Bond Street

acima. Aqui por um momento, parou junto ao meio-fio e a mulher jovem saiu.

Gritou alegre e convencionalmente:

- Muito obrigada.

O carro seguiu viagem. A mulher continuava olhando de vez em quando para uma

vitrina. Um engarrafamento parou o tráfego. A mulher jovem passou tanto pelo

Standard quanto pelo táxi de Ana Scheele. Chegou a Certier e entrou.

Ana Scheele pagou o seu táxi e entrou na joalheria. Gastou algum tempo olhando para

diversas jóias. Finalmente escolheu um anel de safira e brilhante. Pagou por ele com

um cheque sôbre um banco de Londres. À vista do nome escrito nêle, um pouco mais

de urbanidade extra veio aos modos do assistente.

- Prazer em vê-la novamente em Londres, Srta. Scheele. O Sr. Morganthal veio?

- Não.

- Eu estava curioso. Temos uma linda safira-estrela aqui... eu sei que ele se interessa

por safiras-estrelas. Gostaria de vê-la?

A Srta. Scheele expressou seu desejo de vê-la, admiroudevidamente e prometeu

mencioná-la ao Sr. Morganthal.

Saiu novamente para Bond Street e a mulher jovem que tinha estado olhando clipes

de orelha, expressou-se incapaz de decidir e também saiu.

O carro Standard cinza, tendo virado na Rua Grafton e descido pelo Piccadilly, estava

justamente subindo novamente pela Bond Street. A mulher jovem não mostrou sinais

de reconhecimento.

Ana Scheele tinha entrado para a Arcada. Entrou na loja de um florista. Encomendou

três dúzias de rosas de cabos compridos, uma concha cheia de grandes e doces

violetas púrpuras, uma dúzia de brotos de lírios brancos e uma jarra cheia de

mimosas. Deu um endereço para a entrega.

- São doze libras e dezoito xelins, madame.

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Ana Scheele pagou e saiu. A jovem mulher que tinha acabado de entrar perguntou

pelo preço de um maço de primaveras, mas não as comprou.

Ana Scheele cruzou Bond Street, foi pela Rua Burlington e dobrou para Savile Row. Ali

entrou no estabelecimento de um dêsses alfaiates que, enquanto trabalham

exclusivamente para homens, ocasionalmente condescendem em cortar um tailleur

para certos membros favorecidos do sexo feminino.

O Sr. Bolford recebeu a Srta. Scheele com os cumprimentos concedidos a um cliente

apreciado e foram tomados em consideração os tecidos para um costume.

- Felizmente posso dar-lhe nossa qualidade de exportação. Quando vai voltar a Nova

York,, Srta. Scheele?

- No dia vinte e três.

- Dará bastante tempo. Pelo Cliper, suponho?

- Sim.

- E como estão as coisas na América? Aqui estão bastante tristes... bastante tristes na

verdade.

O Sr. Bolford meneou a cabeça como um médico descrevendo um paciente.

- O coração não está nas coisas, se é que me entende. E não aparece ninguém que

tenha prazer num bom trabalho. Sabe quem é que vai cortar o seu costume, Srta.

Scheele? O Sr. Lantwick - tem setenta e dois anos de idade e ele é o único em quem

posso realmente confiar para os nossos melhores fregueses. Todos os outros...

As mãos gorduchas do Sr. Bolford os varriam embora.

- Qualidade - disse ele. - É o que fez esta terra célebre. Qualidade! Nada barato, nada

gritante. Quando tentamos produção em massa não somos bons nisso, e isso é um

fato. Esta é a especialidade do seu país, Srta. Scheele. O que nos temos que defender,

e eu o digo de novo, é qualidade. Levar tempo e incômodo para as coisas e produzir

um artigo que ninguém no mundo pode superar. Agora, que dia vamos marcar para a

primeira prova. Daqui a uma semana? Às 11h30m? Muito obrigado.

Abrindo seu caminho pela claridade arcaica em volta de peças de tecido, Ana Scheele

chegou novamente à luz do dia.

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Parou um táxi e voltou ao Savoy. Um táxi que estava estacionado do lado oposto da rua e

continha um homenzinho moreno foi pelo mesmo caminho, mas não dobrou para o Savoy.

Seguiu para o lado do dique e ali apanhou uma mulher baixa e gorda que tinha

recentemente saído da entrada de serviço do Savoy.

- E a respeito de Luísa? Vasculhou o quarto dela?

- Sim. Nada.

Ana Scheele almoçou no restaurante do hotel. Uma mesa tinha sido reservada para ela

ao lado da janela. O maitre dh)lei tinha perguntado afetuosamente pela saúde de Otto

Morganthal.

Depois do almoço Ana Scheele tomou sua chave e subiu para a suite. A cama tinha

sido feita, toalhas frescas estavam no banheiro e tudo estava em excelente forma.

Dirigiu-se para as duas malas leves de avião que constituíam a sua bagagem, uma

estava aberta e a outra fechada, Passou o olhar pelo conteúdo da que estava aberta;

em seguida, tirando as chaves da bôlsa, abriu a outra. Tudo estava em ordem,

dobrado, como ela dobrava as coisas, nada tinha sido aparentemente tocado ou

perturbado. Uma pasta de couro encontrava-se em cima. Uma pequena câmera Leica

e dois rolos de filme estavam num canto. Os filmes estavam ainda colados sem terem

sido abertos. Passou uma unha sobre a dobra e puxou-a. Em seguida sorriu

gentilmente. O cabelo touro isolado que tinha estado ali, não mais estava.

Destramente polvilhou um pouco de pó-de-arroz sobre o couro luzidio da pasta e

soprou. A pasta permaneceu clara e lustrosa. Não havia impressões digitais. Mas esta

manhã, depois de ter passado um pouco de brilhantina sôbre a coberta suave de seus

cabelos louros, tinha manuseado a pasta. Devia haver impressões digitais sobre ela, as

suas próprias.

Sorriu novamente.

- Bom trabalho - disse para si mesma. - Mas não bastante bom...

Destramente fez a mala pequena de pernoite e dirigiu-se para baixo. Um táxi foi

chamado e ela novamente mandou o motorista tocar para os Jardins Elmsleig nº 1_7