Axiomata Sive Leges Motus: a mecânica racional newtoniana sob a ótica da metodologia dos programas.. por Emerson Ferreira de Assis - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Filosofia

Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Ciência

Emerson Ferreira de Assis

AXIOMATA SIVE LEGES MOTUS:

A mecânica racional newtoniana sob a ótica da metodologia dos

programas de pesquisa científica.

São Paulo

2008

Emerson Ferreira de Assis

AXIOMATA SIVE LEGES MOTUS:

A mecânica racional newtoniana sob a ótica da metodologia dos

programas de pesquisa científica.

Dissertação apresentada ao programa de

Pós-Graduação em Filosofia do

Departamento de Filosofia da Faculdade

de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

da Universidade de São Paulo, para

obtenção do título de Mestre em

Filosofia, sob a orientação do Prof. Dr.

Caetano Ernesto Plastino.

São Paulo

2008

2

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem;

não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que

se defrontam diretamente, ligadas e transmitidas pelo passado. A tradição

de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos

vivos.

MARX, K. : O 18 Brumário de Luís Bonaparte in Obras Escolhidas,

vol. 1, pág. 203.

3

Agradecimentos

A meu orientador, professor Doutor Caetano Ernesto Plastino, pela condução rigorosa da

pesquisa, grande companheirismo e paciente compreensão de minhas limitações.

Aos professores Osvaldo Pessoa e Pablo R. Mariconda, pelas valiosas sugestões no

momento do exame de qualificação e durante os cursos que ministraram no departamento.

Aos colegas do departamento, em particular aos da pós-graduação, pela oportunidade de

discutir coletivamente os primeiros resultados e as dificuldades no desenvolvimento do

projeto.

Aos funcionários do departamento de pós-graduação do departamento de Filosofia, da

secretaria e da biblioteca, pela presteza nas inúmeras solicitações.

À Comissão Nacional de Pesquisa (CNPq), pela bolsa concedida durante o

desenvolvimento do trabalho na pós-graduação.

Á Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, pela oportunidade de realização do

trabalho de mestrado.

4

Resumo

Assis, Emerson Ferreira de. AXIOMATA SIVE LEGES MOTUS: A mecânica racional

newtoniana sob a ótica da metodologia dos programas de pesquisa científica.

2008.186f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

O objetivo deste trabalho é investigar o desenvolvimento da mecânica racional newtoniana,

particularmente acompanhar sua inauguração com os Philosophiae Naturalis Principia Mathematica

e a subseqüente recepção do programa pela filosofia continental, no século XVIII, por alguns

intelectuais e cientistas. Utiliza-se a metodologia dos programas de pesquisa científica como

referencial epistemológico na caracterização e descrição do programa, e também a abordagem

historiográfica que ela implica.

Epistemologicamente, procura-se escrutinar e precisar o sentido da noção de núcleo duro, em

particular sua aplicação ao programa newtoniano de mecânica racional, mediante a análise detida do

que Lakatos concebeu como o núcleo duro do mencionado programa, as leis dinâmicas e da

gravitação apresentadas nos livros I e III dos Principia. O núcleo do programa da mecânica racional

newtoniana é pensado por Newton como axiomas ou leis do movimento (Axiomata sive leges

motus). Essa caracterização das hipóteses fundamentais da mecânica newtoniana aponta para sua

centralidade, o que aparentemente confirma a idéia fundamental de Lakatos de que um programa de

pesquisa é caracterizado pelo seu núcleo duro.

A questão que motiva este ensaio pode ser formulada nos seguintes termos: dado que,

segundo Lakatos, o núcleo duro é o componente conceitual (caracterizado metodologicamente) que

define os contornos da prática científica em determinado campo, primeiro, não seria o núcleo duro

estruturado através da correlação com outros componentes da teoria de racionalidade de Lakatos, em

particular da heurística positiva? Segundo, as suposições compartilhadas pelos partidários de um

programa de pesquisa possuirão alguma característica distintiva (epistemológica) que legitime sua

proteção em relação à refutação? Por fim, aplicada à história da ciência, esta noção metodológica

resiste a um escrutínio historiográfico?

Palavras - chave: Programa de pesquisa. Núcleo duro. Leis de Newton. Lei da gravitação.

5

Abstract

Assis, Emerson Ferreira de. AXIOMATA SIVE LEGES MOTUS: The Newtonian rational

mechanics on the views of methodology of scientific research programmes.

2008.186f.Dissertation (Master degree) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

Humanas. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

The aim of this paper was to investigate the development of Newtonian rational mechanics,

in special to analyze our rise with the publication of Philosophiae Naturalis Principia Mathematica

and the consequent program reception by the continental philosophy. Was used the methodology of

scientific research programs like epistemological framework in the program’s characterization and

description, and too the historiography approach entangled by it.

Epistemologically the aim is to scrutiny and to particularize the notion of hard core, specially

in your application to Newtonian rational mechanics program, through the analyze of Lakatos

conception of referred program’s hard core: the dynamics laws of motion and the law of gravitation ,

presented in books I and III of Principia. To summarize, the question which motive this paper can be

formulated in the following way: accepted the supposition that the hard core is the conceptual

component which define the demarcation of the scientific practice in a established scope stability,

first, the hard core will be not reducible to the others components of Lakatos´ theory of scientific

rationality, like a face of positive heuristics? Second, will have the shared suppositions in a scientific

program any distinctive characters (epistemological) which legitimate the protection of them face the

refutation? At last, applied to the History of Science, this epistemological notion resist against a

historic scrutiny?

Key Words : Research Programs. Hard Core. Newton’s laws of motion. Gravitation Law

6

Sumário

Resumo ..............................................................................................................................................05

Abstract............................................................................................................................................. 06

Introdução ........................................................................................................................................ 09

Capítulo 1

Do método. Referencial epistemológico e suposições iniciais

1.1 Lakatos e a metodologia dos programas de pesquisa científica........................................19

1.2 Programas de Pesquisa.......................................................................................................... 20

1.3 Racionalidade científica e História da Ciência..................................................................... 24

1.4 Revisão da literatura: A aproximação de Lakatos do programa newtoniano de mecânica

racional................................................................................................................................................26

1.5 Indução versus método das hipóteses: refinamento epistemológico na interpretação

historiográfica do programa de pesquisa da mecânica racional.................................................. 32

1.6 Indução: lógica da descoberta, psicologia da invenção ou teoria da

justificação?...................................................................................................................................... 38

Capítulo 2

Aspectos epistemológicos da investigação histórica

2.1 O conceito de núcleo duro e suas relações com a noção de lei científica.............................. 47

2.2 Caracterizando a noção de Lei Natural .................................................................................. 50

2.3 O Núcleo duro de um programa e as leis naturais ................................................................. 54

2.4 A noção de lei natural no nascimento da modernidade.......................................................... 55

2.5 A matematização da filosofia natural como aspecto infra-estrutural da atividade científica

no início da modernidade................................................................................................................. 58

Capítulo 3

Programas de Pesquisa

Uma visão geral do programa cartesiano de pesquisa................................................................ 65

7

Capítulo 4

Ontogênese da mecânica racional newtoniana: as leis dinâmicas

newtonianas como núcleo duro do programa................................................................................75

4.1 Os Principia como um programa...............................................................................................78

4.2 As leis do movimento: o núcleo duro da mecânica racional newtoniana.............................. 82

4.3 Lei da inércia ..............................................................................................................................85

4.4 A segunda lei de Newton ou princípio dinâmico fundamental ............................................ 92

4.5 A lei de ação e reação e sua relação com os dois primeiros axiomas do

movimento....................................................................................................................................... 100

4.6 Das leis do movimento à gravitação universal: caracterizando o sub-programa da

mecânica racional............................................................................................................................ 110

4.7 Confirmação do núcleo do programa..................................................................................... 119

Capítulo 5

O legado newtoniano e sua recepção no continente europeu no século

XVIII: o “núcleo duro” da mecânica racional newtoniana nas obras de Euler e

d’Alembert........................................................................................................................................125

Considerações Finais.......................................................................................................................144

Bibliografia.......................................................................................................................................152

Anexo 1 :

Teorias relacionais e teorias absolutistas do espaço e do tempo nos

primórdios da física clássica...........................................................................................................157

Anexo 2 :

Uma análise externalista do programa newtoniano da mecânica racional

newtoniana: Filogênese................................................................................................................... 172

Anexo 3 :

Das leis de Kepler à gravitação universal..................................................185

8

Introdução

O estudo intenso dos pensadores clássicos ingleses logo me ensinou

que não se pode esperar compreender as motivações subjacentes às suas obras

sem reconhecer integralmente a filosofia de um inglês cuja autoridade e

influência nos tempos modernos rivalizam com a que Aristóteles exercia no final

da Idade Média – Isaac Newton.

BURTT, E. As Bases Metafísicas da Ciência Moderna; Prefácio.

As idéias de progresso e de revolução científica são centrais nos estudos metodológicos

da prática científica, seja por adesão às mesmas ou por oposição a elas. Como conceito, a idéia de

revolução científica é central à história e à filosofia da ciência, certamente a ponte que liga estas

duas disciplinas e lhes permite trabalhar em conjunto. Em particular, a revolução científica que se

processou entre os séculos XVI e XVII apresenta-se à história e à filosofia (geral e da ciência) como

o episódio central no desenvolvimento da cultura e do pensamento modernos. O surgimento da

ciência moderna tornou-se um ponto de referência que guia historiadores e filósofos na reflexão

sobre os sentidos da modernidade, apresentando-lhes questões a respeito do que ela foi como

movimento científico, histórico e social, o que exatamente aconteceu, e quais foram os seus

determinantes (OSLER, M. J.: 2000; pág.3).

Por um lado, os comentadores da filosofia do século XVII são quase unânimes em

apresentar a “matematização” da filosofia natural como o ponto de inflexão que caracterizou o

pensamento científico (talvez todo o pensamento filosófico) no início da modernidade, fruto de uma

reorganização ontológica fundamental e, em especial, uma reconfiguração da idéia de natureza em

relação à tradição antiga e medieval. Essa reconfiguração tem sua representação na oposição entre a

idéia de natureza como uma “cadeia do ser” e a idéia moderna de que a natureza pode ser reduzida,

pelo menos em seus elementos fundamentais, ao peso e à medida.

Esse caráter inovador do pensamento do século XVII é assinalado há muito tempo,

contudo, não é tão antiga a tentativa de sua explicação, articulando-se investigações no âmbito da

filosofia geral e os elementos mais restritos da filosofia da ciência, dos fatores que condicionaram

histórica e filosoficamente o processo de reestruturação da linguagem científica e a postulação da

capacidade epistêmica da atividade científica de desvelar o mundo de maneira realista1.

1 O termo aqui obviamente não pretende apontar para o ‘realismo científico’ como escola filosófica, mas antes uma

acepção bastante geral, relacionada com a crença de que a ciência pode atingir a verdadeira estrutura do mundo, em

algum nível fundamental, para além da mera observação/experimentação ingênua por meio dos sentidos. Esta

9

Por outro lado, está estabelecida há alguns anos uma cerrada polêmica entre as

interpretações tradicionais e aquelas mais próximas à sociologia da ciência (ou, se se quiser, uma

historiografia menos ortodoxa, representada, no caso dos estudos newtonianos, pelo debate entre

Betty DOBBS e Richard WESTFALL), que parece apoiar-se essencialmente em duas concepções

radicalmente distintas da racionalidade científica.

A “nova” historiografia científica acusa os intérpretes ortodoxos de assumirem que o

modelo de pensamento dos 'pais' da ciência moderna é essencialmente o mesmo daquele da ciência

contemporânea (OSLER, M. J.: 2000; pág.5). Historiograficamente, tal tipo de afirmação guia

invariavelmente a construção de quadros do desenvolvimento científico permeados por ‘heróis’ cuja

imagem não raro dificulta a interpretação das motivações racionais que levaram homens como

Newton a interessar-se pela alquimia ou o pitagorismo místico de Kepler. Em contraste,

interpretações contemporâneas têm ressaltado que os autores do passado não articulavam suas

concepções sobre o mundo como as do presente, sendo necessária a interpretação de suas obras nos

termos pertinentes ao momento histórico particular que lhes deram origem.

É sobre este pano de fundo que se procura o filósofo e cientista Newton para além do mito

que os séculos XVIII e XIX construíram (THUILLIER, P.:1988 [1994]). Seguramente Newton foi o

autor de uma nova física, um programa de pesquisa que revolucionou como nunca antes visto a

ciência tal o seu poder teórico, de previsão e resolução de problemas. Associada intimamente ao

cálculo diferencial e integral (fluxões), por si só um avanço sem precedentes na matemática e, em

conseqüência, na filosofia natural do período em seu esforço de matematização, a mecânica racional

newtoniana realiza uma sistematização da dinâmica significativamente importante para o

desenvolvimento da ciência na modernidade: unificando a física celeste e a física terrestre num

único, simples e poderoso conjunto de leis - as três leis do movimento e a lei da gravitação, ela não

só se torna o campo de atividade científica mais bem-sucedido de seu tempo, mas o modelo de

prática científica a ser seguido.

Dadas as limitações deste ensaio, das muitas questões filosoficamente interessantes a serem

discutidas da metodologia científica de Lakatos, nos propomos centrar a atenção apenas sobre o

conceito estrutural desta perspectiva analítica do desenvolvimento científico, qual seja, a noção de

núcleo duro. A filosofia da ciência de Lakatos, a partir do ensaio Falseacionismo e a metodologia

perspectiva será esclarecida no decorrer deste trabalho.

10

dos programas de pesquisa científica, claramente oscila entre o domínio historiográfico e o

epistemológico. Mais precisamente, os conceitos da teoria de racionalidade corporificados pela

M.P.P.C (Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica), estabelecidos de um ponto de vista

epistemológico, pretendem fornecer o substrato analítico para o historiador da ciência.

É bastante evidente, e ressaltado por Lakatos no ensaio História da Ciência e suas

reconstruções Racionais, que a metodologia dos programas de pesquisa científica constitui um

modelo de racionalidade científica com implicações historiográficas. Mais precisamente, o

historiador (da ciência em particular) utiliza na análise dos fatos, aos quais procura estabelecer um

nexo de inteligibilidade, um modelo de racionalidade que o orienta a julgar sobre o progresso das

teorias científicas, sua justificação em relação ao conhecimento de fundo estabelecido e, em especial,

da legitimidade de um corpo de conhecimento ser pensado como científico (Lakatos, 1974 (a) e (b)).

Assim sendo, propondo Lakatos sua teoria de racionalidade (ou metodologia científica), especifica

ele um âmbito de aplicação, qual seja, a (re)construção da história da ciência (que, segundo sua

perspectiva, também seria o campo de teste das diferentes metodologias científicas).

É interessante lembrar que a metodologia lakatosiana inspira-se fundamentalmente na

obra de Popper. Mesmo provindo de uma perspectiva geral popperiana, a metodologia de Lakatos

entende ser necessária a reforma do critério de honestidade intelectual, ou melhor, dos critérios de

racionalidade científica. Critica-se, sob a ótica da investigação histórica, o critério negativo da

falseabilidade presente na obra popperiana, e elege-se um critério fundado no aspecto convencional,

hipotético e falível da ciência, cuja demarcação coloca-se no progresso teórico (descoberta de fatos

novos) associada a instâncias de corroboração, preferencialmente espetaculares (confirmação de

previsões de fatos novos, o que se pode chamar critério positivo de cientificidade).

É importante compreender que tal deslocamento de critérios metodológicos deverá vir

acompanhado de uma reconfiguração dos conceitos de análise; em especial, não serão teorias

isoladas que devem ser avaliadas em sua cientificidade, mas antes séries de teorias nas quais cada

uma suplanta teórica e empiricamente (num caso ideal) a anterior.

Essa perspectiva popperiana remodelada impõe que se explicitem as unidades de

continuidade científica que permitem o progresso, seja isto dito de outro modo, as razões que

11

autorizam a inferência de que certo conjunto de n teorias corporificam uma unidade

metodologicamente organizada de pesquisa.

Tais suposições aparentemente parecem captar a continuidade conceitual e a

racionalidade presentes na prática científica de uma maneira razoavelmente adequada e é realizada,

epistemológica e metodologicamente, pela noção de núcleo duro. Mais precisamente, um programa

de pesquisa consiste essencialmente em duas regras (e logo da decisão de segui-las) metodológicas:

uma heurística positiva, que indica os caminhos a serem trilhados pela pesquisa, e a heurística

negativa, que proíbe dirigir o modus tollens para o núcleo do programa. Entretanto, uma decisão

metodológica – que é tomada em vista de certos fins a serem alcançados – não se auto-justifica e,

mais ainda, não explica o êxito alcançado na realização de seus fins.

No entanto, o conceito de núcleo duro, por assim dizer o elemento estrutural desta teoria

de racionalidade, na medida em que estabelece os contornos da unidade básica de desenvolvimento

científico, que Lakatos defende ser o programa de pesquisa, apresenta-se, segundo nossa

interpretação, de uma maneira exógena em relação a este modelo de racionalidade, mais

precisamente uma variável exógena corroborada pela informação historiográfica mais ou menos

bruta o que, aparentemente, é uma inversão da ordem que o autor mesmo estabeleceu para a relação

entre epistemologia e historiografia. Mais precisamente, a noção de núcleo duro é um conceito

metodológico da dinâmica científica, que se correlaciona com a investigação da história da ciência

na medida em que esta parece desenvolver-se por meio de estratégias de preservação de certos

conceitos.

Entretanto, a caracterização puramente metodológica não explica o êxito da atividade

científica, mais precisamente dos programas de pesquisa bem sucedidos. Sem avançar em direção à

análise epistemológica da construção (ou surgimento) do núcleo duro dos programas de pesquisa, a

afirmação (metodológica) de sua existência não indica as razões para a mesma, nem os critérios

epistemológicos de identificação do núcleo duro, nem o critério de aceitação de um programa

baseado na análise do núcleo do programa, o que motiva severas críticas à perspectiva da

metodologia dos programas de pesquisa científica, em particular por Feyerabend. Lakatos afirma que

o núcleo duro é um conjunto de proposições protegidas da refutação por decisão metodológica; no

entanto por que não seriam protegidas da refutação – ou desqualificação – não proposições teóricas,

mas métodos experimentais, conhecimento de fundo (proposições do cinto de proteção, na

12

metodologia de Lakatos), etc.. No contexto específico da investigação do programa da mecânica

racional newtoniana essas questões apresentam maior determinação.

Philosophiae Naturalis Principia Mathematica justificadamente ocupa a posição de um dos

mais influentes textos científicos da cultura ocidental. A filosofia natural de Newton apresentada

nesse livro articulou, no final do século XVII, o horizonte de questões a partir do qual boa parte da

filosofia e ciência modernas se constituiu (aliás, diga-se, não só na Grã Bretanha como afirma

BURTT, mas em toda a Europa e América anglofônica). De fins do século XVII até o início do

século XX, seja por oposição àquela filosofia e à metafísica geral que ela implicava (por exemplo,

como Leibniz e os românticos alemães, em especial Goethe), seja por adesão a ela (como em Kant,

ainda que essa adesão se dê a partir de reformulações e reinterpretações da obra que implicavam a

recusa de certas teses centrais presentes na ‘ordem das razões’ newtoniana), a presença das idéias do

professor lucasiano de matemática no desenvolvimento da modernidade (científica e filosófica) se

fez sentir incontestável2.

A principal justificação para investigar Newton e sua obra repousa essencialmente nesta

posição central do pensamento newtoniano para a filosofia moderna e, em especial, o papel que os

Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (geralmente referido simplesmente como

Principia’) desempenharam para a consolidação da mecânica racional não só como ciência madura,

mas como o modelo de prática científica, ultrapassando fronteiras disciplinares, permeando a

filosofia, a religião e a literatura modernas. Talvez sobretudo, pela posição central da obra no

desenvolvimento da filosofia e de vários setores da cultura a partir do século XVIII, percebe-se que,

por diversas razões, a interpretação de seu significado, tal como idealizados pelo próprio autor,

tenham sido distorcidos em vista das apropriações particularizadas do pensamento newtoniano (em

especial pelos iluministas do século XVIII3).

Assim sendo, o objetivo deste ensaio será recuperar os fragmentos mais salientes da filosofia

e da ciência de Newton, o sentido da mecânica racional em seu nascimento (via a leitura dos

Principia) a partir da utilização das ferramentas epistemológicas e historiográficas propostas pela

metodologia dos programas de pesquisa de Imre Lakatos. Seguindo Lakatos, a unidade básica de

avaliação do desenvolvimento da ciência não é a teoria, mas séries de teorias compondo um

programa de pesquisa.

2 Somente para citar alguns autores cujas obras corroboram tal perspectiva: Hume, Kant, Berkeley, Voltaire, Diderot

(epistemólogo), DÁlembert, Whewell, entre muitos outros.

3 P. ex, pode-se ver essas apropriações em VOLTAIRE: Letters on England, cartas XII e XIV; FONTENELLE: The life

of Sir Isaac Newton.

13

Um programa de pesquisa é construído a partir da união entre um conjunto de suposições ou

hipóteses compartilhadas pelos defensores de uma série de teorias, convencionalmente aceitas e por

decisão metodológica (provisória) irrefutáveis, o que é nomeado 'núcleo duro' do programa, e uma

'heurística positiva' que define problemas, indica caminhos a serem trilhados para a construção do

conjunto de hipóteses auxiliares, para afastar as anomalias e as converter em exemplos positivos de

fenômenos explicados, tudo de acordo com um plano pré-concebido (LAKATOS in HOWSON:

1976, p.9). Investigar a mecânica racional com as ferramentas conceituais da metodologia dos

programas de pesquisa científica significa, portanto, primeiramente aceitar que esta disciplina

constitui não só uma especialidade teórica, mas um programa de pesquisa (programa newtoniano de

pesquisa) bem caracterizado pelo 'núcleo duro' do mesmo e seu aparato heurístico.

É preciso atentar, no entanto, para o fato de que a noção de núcleo duro corporifica, por

assim dizer, a 'essência' de um programa de pesquisa. Nos termos de Lakatos, o núcleo duro de um

programa de pesquisa é um conjunto de suposições compartilhadas pelos defensores de certa

perspectiva científica, tornadas irrefutáveis por decisão metodológica (temporária) e que articulam

os conceitos fundamentais de um programa.

Não se encontra, contudo, formulado explicitamente nas obras de Lakatos e de seus

seguidores uma justificação explícita, ou melhor, uma inferência baseada em critérios

epistemológicos, para essa afirmação (pelo menos que tenha chamado a atenção do autor deste

ensaio), qual seja, a de que epistemologicamente a estratégia de manutenção a todo custo de um

conjunto de hipóteses organiza a pesquisa no decorrer do tempo, mediante os programas de pesquisa.

Em particular, do ponto de vista filosófico, não há razão para supor que um programa de pesquisa

deva ser caracterizado por um 'núcleo duro' e não pelo compartilhamento de outras suposições, tais

como métodos experimentais, conhecimento de fundo, etc.4, como acima mencionado. Seguindo

Lakatos:

Mas se a história da ciência – como parece ser o

caso [ em relação ao falseacionismo popperiano]- não confirma nossa teoria da

racionalidade científica, temos duas alternativas. Uma delas é abandonar os esforços

para dar uma explicação racional do êxito da ciência ...A outra alternativa é tentar,

ao menos , reduzir o elemento convencional do falseacionismo e substituir as

versões ingênuas do falseacionismo metodológico por uma versão sofisticada que

4A questão é obviamente bastante mais complexa na medida em que as suposições teóricas influenciam as teorias

observacionais, os métodos, etc. A idéia central é de que não é inequívoca e inapelável, do ponto de vista lógico,

epistemológico e historiográfico a afirmação deste componente conceitual estruturante da prática científica que Lakatos

nomeia núcleo duro.

14

daria um novo fundamento lógico ao falseacionismo e, por esse modo, salvaria a

metodologia e a idéia de progresso científico.

LAKATOS (1970[1979]): pp. 140-141.

A justificativa mais explicitamente elencada na defesa do conceito de núcleo duro geralmente

recorre à informação historiográfica. Esse fato em particular não chega a ser espantoso, pois o autor

pretendia construir uma filosofia da ciência pautada pela interação dialética entre a filosofia e a

história, ideal desenhado desde suas primeiras obras (Provas e Refutações). No entanto,

filosoficamente, mesmo que a observação de que uma série de autores e cientistas compartilham

certas proposições possa justificar um conceito analítico historiográfico, ela não justifica

epistemologicamente a afirmação do mesmo em uma teoria da racionalidade científica.

Em outros termos, a observação (ou se se quiser a prova empírica de existência) de que a

prática científica se faz pelo trabalho colaborativo de indivíduos compartilhando um conjunto de

suposições - protegidas de refutação – em séries de teorias ao longo do tempo não informa nada em

relação às características epistemológicas destas suposições. A observação histórica não diz nada

sobre o estatuto epistemológico e racional desta estratégia (pensada aqui, sob a ótica de uma teoria

da racionalidade fundada nomologicamente, como parece ser o caso da metodologia de Lakatos),

embora possa trazer indícios interessantes sobre sua gênese e desenvolvimento.

Assim sendo, mesmo que o conceito de núcleo duro apresente uma justificativa

historiográfica razoavelmente pungente (embora a inalterabilidade do núcleo duro de um programa

de pesquisa seja freqüentemente colocada em questão em ensaios historiográficos fora do programa

lakatosiano, por exemplo por Laudan), pois, sob qualquer ótica de racionalidade, é possível

facilmente estabelecer conexões entre o trabalho de diferentes cientistas atuando em um mesmo

campo de investigação por meio da afirmação explícita de leis, princípios e métodos (o que se

apresenta como o cerne da noção de núcleo duro de um programa tal como caracterizado por

Lakatos), a questão filosófica ou, antes, epistemológica, permanece em aberto.

Essa distinção entre historiografia apoiada em uma teoria da racionalidade científica e a

própria teoria da racionalidade é que motiva a seguinte questão : aceito o pressuposto de que o

núcleo duro é o componente conceitual de um programa que estrutura a prática científica em

determinado campo (ou seja, estabelece a identidade de um modelo de trabalho científico), terão as

suposições compartilhadas pelos defensores de um programa de pesquisa alguma característica

distintiva (epistemológica)? Esta noção metodológica, quando aplicada à historiografia, resiste a um

15

escrutínio historiográfico? ou, em outros termos, a teoria da racionalidade na qual ela aparece

representa satisfatoriamente a racionalidade científica atual, reconstruindo coerentemente a história

da ciência?

Sucintamente, o objetivo deste ensaio é tornar endógena a noção de núcleo duro, o que

significa a tentativa de que ela decorra de suposições epistemológicas já presentes na filosofia da

ciência de Lakatos. Mais precisamente, pensamos que a análise epistemológica do surgimento do

núcleo duro do programa da mecânica racional pode indicar uma estrutura para este conceito, que é

metodológico e historiográfico, mostrando que o núcleo de um programa não se justifica apenas

metodologicamente (o compartilhamento de certas hipóteses por convenção), mas

epistemologicamente, o que indicaria as razões de porque tais proposições que caracterizam o núcleo

foram escolhidas e porque estas proposições levam ao progresso do programa. Notavelmente

conceitos como de 'heurística positiva' e 'progresso' destacam-se na filosofia e nos ensaios

historiográficos patrocinados pela metodologia lakatosiana. Correlacionar a noção de núcleo duro e

estes conceitos claramente epistemológicos (além de outros já sedimentados, como suporte

empírico) parece ser uma alternativa filosófica interessante na manutenção e no desenvolvimento

deste modelo de racionalidade, daí o interesse em abordar o tema.

Do ponto de vista do método de tratamento do tema neste trabalho, supondo que a noção

de núcleo duro permite identificar um programa de pesquisa, no caso o programa newtoniano de

mecânica racional, investigaremos atentamente a gênese do programa nos Principia (através de sua

ontogênese – a lógica particular de funcionamento dos conceitos produzidos e incorporados no

programa) e sua recepção no século XVIII por filósofos e cientistas no continente europeu, em

particular Euler e d’Alembert. Infelizmente, as limitações inerentes a este ensaio permitem apenas

tocar as questões mais relevantes no que diz respeito a esta recepção, sendo impossível um escrutínio

pormenorizado de todos os autores, ou pelo menos o conjunto dos mais relevantes.

Assim, seguindo a interpretação de uns poucos autores, procurar-se-á identificar as

questões mais salientes e o debate suscitado entre os maiores intelectuais e cientistas do Iluminismo

francês. Este tema também aparece neste ensaio como conseqüência necessária do modelo de

racionalidade que orienta a investigação histórica. Um programa de pesquisa é feito pelo

compartilhamento de certas suposições (hipóteses) no decorrer do tempo. Se a mecânica racional

newtoniana constituiu um programa de pesquisa, ela deve ter sido recepcionada e aceita por

cientistas além do próprio Newton. Em particular, os autores acima mencionados parecem

16

candidatos interessantes a partidários da mecânica racional newtoniana, dado que contribuíram

fundamentalmente para o desenvolvimento da dinâmica e não raro mencionam a obra máxima do

professor lucasiano, os Principia.

A perspectiva é de que o tipo de análise proposto, fortemente relacionado à história,

possa apontar certas características epistemológicas das proposições compartilhadas, componentes

do núcleo duro do programa newtoniano de mecânica racional, características estas que deverão ser

posteriormente discutidas sob a ótica epistemológica, com o objetivo último de correlacionar a noção

de núcleo duro com elementos epistemológicos. Nesse sentido, a atenção despendida na análise

(histórica e filosófica) dos Principia será predominante, sendo seguida pela avaliação

epistemológica. Após a análise da recepção do programa por cientistas do continente, tentaremos

articular e estruturar os resultados sob a ótica dos objetivos acima mencionados.

Um primeiro aspecto filosófico interessante a ser notado é de que a investigação da

mecânica racional newtoniana (aqui proposta) e de outros estudos já realizados sob o patrocínio da

perspectiva lakatosiana (HOWSON: 1976) parece indicar a existência de uma associação íntima

entre a noção de núcleo duro e de lei científica. Isto implica a necessidade de uma incursão prévia ao

debate que procura estabelecer o sentido deste último conceito (em particular a concepção corrente

no século XVII, já que a semântica do termo sofreu profundas alterações frente às ideologias

científicas que se sucederam na modernidade (CANGUILHEM: 1970)) para estabelecer as

correlações possíveis entre as noções de núcleo duro e lei natural e como estas podem auxiliar na

compreensão histórica do programa newtoniano e, em particular, do significado de explicação

científica dentro da mecânica racional. Tais questões serão discutidas em maior pormenor nos

capítulos 2 e 3.

Após a breve incursão à temática do conceito de lei científica e sua construção no início

da ciência moderna (em particular no âmbito da mecânica racional newtoniana durante sua

constituição), apresentaram-se na monografia os aspectos mais salientes do que se poderia nomear o

“programa cartesiano de pesquisa”, antecessor e rival no século XVII do programa newtoniano.

Procurou-se explicitar as razões que levaram a mecânica racional newtoniana a superar o programa

cartesiano (sob a ótica da metodologia dos programas de pesquisa científica e portanto, tendo como

parâmetros os critérios estabelecidos pela mesma).

Incursionou-se posteriormente sobre o programa newtoniano de pesquisa, sob a ótica do

funcionamento particular dos conceitos (incorporados e criados) no sistema de Newton, para a

17

explicação do movimento dos corpos sob quaisquer condições dadas (que é por assim dizer a própria

definição de mecânica racional segundo Newton). Destaca-se sua primeira e mais bem-sucedida

aplicação, a teoria da gravitação. Tais questões serão discutidas nos capítulos 3 e 4 da monografia e

são o cerne deste ensaio, além de algumas questões epistêmicas preliminares, como o papel e o

sentido da “filosofia indutiva” (e sua correlação com o conceito de 'análise') na construção e

justificação da mecânica de Newton.

Como já mencionado, uma implicação natural de um estudo historiográfico baseado na

metodologia dos programas de pesquisa científica, será investigar a continuidade de um programa de

pesquisa mediante a recepção do mesmo por cientistas externos ao núcleo criativo (admite-se a

possibilidade de criação de um programa por mais de um cientista, por exemplo, uma escola).

Assim, uma questão que está sempre no horizonte da investigação é se efetivamente os autores que

trabalharam no âmbito da mecânica racional pensavam (e constituíam) sua prática científica

tomando as leis do movimento como 'núcleo duro' de seu programa de pesquisa, tal como supunha

Lakatos.

Mais precisamente, se procura com esta investigação avaliar em que medida as leis do

movimento e da gravitação funcionam como o componente conceitual estrutural da prática científica

no âmbito das investigações dinâmicas e, portanto, em que medida as leis do movimento e da

gravitação funcionam como um elemento estrutural (em algum sentido) que possibilite apoiar a

explicação da continuidade (mas também da inovação, que é representada pelos fatos novos

descobertos pelo programa) científica sob algum quadro de inteligibilidade racional. No capítulo 1

retomaremos os conceitos da metodologia dos programas de pesquisa científica com maior atenção

para, só então, a partir do esclarecimento do modo como estão sendo interpretados os mesmos pelo

autor desta monografia, proceder à reconstrução do programa da mecânica racional newtoniana.

18

Capítulo 1

Do método. Referencial epistemológico e suposições iniciais

1.1 Lakatos e a metodologia dos programas de pesquisa científica

É um ponto pacífico entre historiadores e filósofos contemporâneos que, seja a história

da ciência ou outra atividade humana qualquer, é indispensável a utilização de um quadro geral de

conceitos (sincrônica ou previamente estabelecidos) que oriente a investigação e a construção do

quadro explicativo filosófico ou historiográfico de uma certa realidade. Seja isto, o investigador da

história e da filosofia não pode operar sem pré-concepções a respeito do que é essencial ao “fato”

analisado, se objetiva dar alguma inteligibilidade racional ao mesmo. O papel de uma reflexão

consciente sobre tal referencial é de suma importância no âmbito da filosofia e da história da ciência,

pois estas pré-concepções irão determinar aquilo que, na análise histórica será “interno” ou

“externo”, em um sentido lakatosiano5 (KUHN: 1970[1979]; pág. 138) o que corresponde

indiretamente ao que será ‘racional’ ou puramente ‘ideológico’ para a filosofia.

A metodologia da ciência de Imre LAKATOS (que pode ser entendida como uma teoria

da racionalidade científica) provém de uma orientação epistemológica geral popperiana. São centrais

a esta tradição (e ao trabalho de Lakatos em particular) a convicção de que todas as pretensões ao

conhecimento são falíveis, de que a atividade científica como empreendimento cognitivo é distinta

das pretensões cognitivas de outros setores de atividade intelectual e de que o problema central da

5 A história interna, especificamente da ciência, é aquela associada ao desenvolvimento das teorias normativamente

entendidas como científicas, isto é, aquelas teorias que satisfazem certos requisitos de racionalidade impostos pela

metodologia sobre a qual o historiador assenta sua investigação. Como complemento desta, história externa é a história

dos fatos extra-científicos que influenciaram os rumos da atividade científica, isto é, os fatos que, desprezando os valores

(cognitivos, sociais, etc.) e objetivos (auto-regulamentados de direito) desta prática, cercearam-lhe o desenvolvimento,

como é o caso da submissão da genética mendeliana na União Soviética nos anos 50. Sucintamente, a história interna é a

reconstrução racional da história do desenvolvimento científico, orientada pela filosofia da ciência que providencia os

critérios metodológicos (isto é, os critérios de racionalidade) que explicam (racionalmente) o avanço do conhecimento

objetivo. Quanto mais interna for a reconstrução da história promovida por uma metodologia científica, isto é, quanto

mais eventos pensados pelos cientistas como racionais forem incorporados pelos critérios metodológicos de uma

filosofia da ciência, tanto maior será o seu valor como teoria da racionalidade científica (segunda a perspectiva de

Lakatos). A história externa, nesse sentido, é um complemento necessário às reconstruções racionais, face à dimensão

multifacetada e complexa da atividade científica, onde os passos criativos não podem remeter inequivocamente aos

planos racionais pré-concebidos.

19

epistemologia é a investigação objetiva do crescimento do conhecimento (LAUDAN: 1993; pág.

63).

Um resultado largamente reconhecido das investigações de Kuhn e Lakatos é que o

critério de honestidade intelectual proposto pelo falseacionismo popperiano (recusar teorias vítimas

de falsificações), em confronto com a historiografia científica, parece implicar que muitas decisões

de cientistas reconhecidos por seus trabalhos e mesmo teorias inteiras foram (e são) irracionais (dado

o não estabelecimento imediato ou em qualquer tempo de falseadores potenciais, da contínua defesa

de um corpo teórico mesmo após um dito experimento crucial negativo - ou seja, domínios

científicos refutados - etc.).

A perspectiva geral da epistemologia (e da historiografia) corporificada pela metodologia

dos programas de pesquisa científica resume-se nas seguintes características gerais: adota-se um

referencial epistemológico que informa essencialmente o que constitui o progresso científico e as

condições em que a afirmação de que uma teoria científica é mais adequada que uma rival é

racionalmente justificável. Estes critérios, que corporificam o essencial da racionalidade da ciência,

permitem a constituição de uma história interna da mudança científica6.

1.2 Programas de Pesquisa

A unidade organizada de pesquisa na metodologia de Lakatos deixa de ser a teoria e

passa a ser o programa de pesquisa. Um programa de pesquisa se constitui em uma série de teorias

sucessivas que se ligam umas às outras pelo compartilhamento de proposições ou hipóteses, o núcleo

duro do programa que, por decisão metodológica dos seus defensores, são tornadas irrefutáveis (pelo

menos por um período). Tal decisão determina a heurística negativa do programa e se traduz no

imperativo de não apontar o modus tollens para as suposições nucleares a partir das quais se erige o

programa, durante seu desenvolvimento. Estes são os componentes conceituais que garantem a

6 A defesa filosófica da idéia de que a mudança científica se dá por motivos (tipicamente) racionais

demandaria uma investigação particular e sua ausência nesta monografia certamente enfraquece o desencadeamento

filosófico do trabalho, mas que se aceitará como um ônus intangenciável dadas as limitações inerentes deste ensaio.

20

unidade teórica e que permitem a delimitação e o desencadeamento de articulações e rearticulações

progressivas de um programa de pesquisa.

Estas articulações e rearticulações, que constituem a pesquisa propriamente dita7,

dependem de teorias auxiliares, dados observacionais, etc. (tomadas em conjunto como “cinto de

proteção” do programa) e indicações metodológicas. Esse conjunto e suas inter-relações é chamado

por Lakatos de heurística positiva. A heurística positiva é somente um conjunto parcialmente

articulado de sugestões ou palpites sobre como mudar e desenvolver as variantes refutáveis do

programa, e sobre como modificar e sofisticar o cinto de proteção “refutável”8.

Quadro Resumo dos conceitos da metodologia dos programas de pesquisa científica

a) Programa de Pesquisa: série de teorias ligadas conceitualmente pela aceitação

comum de proposições tornadas irrefutáveis por decisão metodológica.

b) Núcleo duro: Conjunto de proposições irrefutáveis por decisão metodológica. A

heurística negativa consiste no imperativo de não apontar o modus tolles para as proposições

do núcleo duro, o que equivale a dizer que estas proposições são tomadas como irrefutáveis.

7 Sob esta ótica, o conceito de núcleo duro se aparenta um pouco com a idéia kuhniana de paradigma ou exemplar, na

medida em que é, por fim, uma ferramenta para solução de enigmas (embora exemplar não se reduza à um conjunto de

leis, mas seja constituído pelas leis e métodos de resolução, que em Lakatos são elementos distintos). Note-se, no

entanto, que este processo de resolução no caso kuhniano não tem maiores implicações para a ciência, já para Lakatos

eles devem se submeter a certos padrões de validade e justificação que imporão a marcha progressiva da ciência, como

se verá adiante.

8 Algumas considerações devem ser tecidas em vista de uma melhor compreensão da proposta metodológica lakatosiana.

Em primeiro lugar, o núcleo duro de um programa de pesquisa não surge pronto e acabado como Atenas armada da

cabeça de Zeus. Como se vê mencionado na nota 163 de Lakatos: 1970[1979], o núcleo duro possui um processo de

formação. Como este aspecto nunca foi muito atentado pelos críticos e Lakatos não se dedicou explicitamente ao assunto

nas obras posteriores (também seus seguidores não o fizeram), esta é uma das grandes lacunas da sua proposta. Pode-se é

claro estabelecer certas conjecturas pautados no ensaio “Provas e Refutações” onde é apontado, por meio da idéia de

método de anti-monstro e anti-exceção, um interessante caminho de manutenção, no âmbito da matemática, de

proposições frente à crítica. Mais ainda, no escrito observa-se que é no ensaio e erro cotidiano que certos lemas e

proposições se apresentam mais fecundos, que apresentam menos casos de incongruência (ou mesmo de refutação) e

estas proposições e lemas passam a adquirir “status” de núcleo duro de um programa – nesse caso matemático. É preciso

lembrar que se trata antes de uma hipótese de leitura, mas não parece tão ilegítimo imaginar que proposições simples,

instrumentalmente adequadas e conceitualmente produtivas ao longo do tempo acabem por afigurarem-se como núcleo

duro de um programa, mesmo que não seja apontado desde o início do mesmo. De algum modo nos parece que no caso

dos Principia de Newton as três leis do movimento foram sendo formuladas pelos estudos e de ensaios preliminares de

Newton (por exemplo em De motu corporum) e só passaram a se constituir em núcleo duro do programa nos Principia,

onde a mecânica racional alcançou maturidade científica. De certo modo o que se percebe é que a metodologia científica

de Lakatos tem como objetivo a reconstrução racional dos episódios históricos e, portanto, a racionalização destes em

vistas de seu critério de progresso. Não é particularmente central a este objetivo a análise detida do que pode-se chamar o

‘contexto da descoberta’. Por outro lado, o conceito de núcleo duro, central à análise histórica que é implicada pela

metodologia dos programas de pesquisa científica, perde sua ‘concretude histórica’ se desconsiderada sua formação. Seja

isto, as reconstruções racionais da história da ciência que desconsideram a formação dos conceitos apresentam-se de

maneira bastante artificial, mais como um exercício de imaginação em vez de uma análise histórica. Para exemplos

concretos da historiografia baseada na metodologia dos programas de pesquisa científica, conf. HOWSON 1976.

21

c) Heurística positiva: Conjunto parcialmente articulado de sugestões ou palpites

sobre como mudar e desenvolver as variantes do programa, e sobre como modificar e

sofisticar o cinto de proteção refutável. São estas indicações que impedem que o cientista

particular se confunda no mar interminável de casos recalcitrantes. A heurística positiva se

liga essencialmente ao Cinto de proteção do programa, que é um conjunto de teorias

auxiliares, conhecimento de fundo, instrumentação, grandezas e constantes, aparato

matemático que, em articulação com o núcleo duro, permite a previsão (explicação) de fatos

novos ou a conversão de um problema recalcitrante em instância confirmadora. O progresso

do programa de pesquisa deve necessariamente ser acompanhado pelo refinamento das teorias

auxiliares e outros elementos do cinto de proteção, para permitir a previsão de fatos novos e

surpreendentes. O refinamento das proposições do cinto de proteção e de suas indicações

metodológicas constitui o progresso heurístico do programa.

Parte fundamental do desenvolvimento de um programa de pesquisa são os seus modelos.

Os modelos articulam seus elementos em um movimento dinâmico cujo resultado é o

desenvolvimento efetivo do programa (e constitui propriamente o motor do progresso científico).

Um modelo é um conjunto de condições iniciais (possivelmente junto com algumas teorias

observacionais e o que se poderia chamar de “concepção metafísica influente” – idéias como a de

simetria, elegância teórica, etc.) que apresenta uma realidade “concreta” para o exercício

investigativo (a maioria dos modelos de uma teoria, no início, é bastante abstrato ou, mais

freqüentemente, toscos o bastante para não se aproximarem significativamente da realidade). Com o

passar do tempo e com o desenvolvimento teórico (cinto de proteção e heurística positiva) os

modelos se refinam e passam a se aproximar cada vez mais dos fatos analisados (interpretados pelo

programa), correspondendo progressivamente à fenômenos que exemplificam as hipóteses que

compõe o núcleo duro.

No entanto, segundo Lakatos, dado o modo próprio de efetivação e concretização da

pesquisa científica, todo modelo sabe-se de antemão condenado a ser substituído durante o

subseqüente desenvolvimento do programa. Um exemplo historicamente interessante são os

sucessivos modelos aos quais Newton aplica suas leis dinâmicas para a construção da teoria da

gravitação. Passando de um modelo simples (basicamente matemático) de encarar o movimento de

um ponto sob ação de uma força central até os sofisticados modelos planetários geodésicos afetados

por perturbações interplanetárias, muitos outros foram construídos e derrubados, além é claro do

imenso esforço matemático (que constitui progresso heurístico) levado à frente como desdobramento

necessário a essa evolução (sem falar obviamente na ampliação do conhecimento de fundo

22

disponível, substancializado pelas sucessivas correções dos dados empíricos disponíveis –

LAKATOS:1974, p.167).

Estas observações indicam que a refutação de qualquer variante específica de um

programa de pesquisa é irrelevante, aliás é antes a continuidade da pesquisa sob um conjunto único

de suposições diretivas o motor do progresso. Sobretudo, isso aponta para a impossibilidade de

avaliar-se o progresso científico tomando como unidade conceptual teorias isoladas. São os

programas de pesquisa, por meio da articulação sucessiva de seu núcleo duro com o cinto de

proteção (alterado constantemente), os componentes indispensáveis e mínimos do progresso

científico.

A refutação de variantes específicas de um programa de pesquisa não implica problema

maior ao próprio programa, sendo até mesmo desejável tal refutação, na medida em que ela catalisa

a mudança da variante do programa, seja em direção ao seu progresso heurístico, teórico e empírico,

ou para a exposição do mesmo à crítica pelos programas rivais. Isto significa também que o núcleo

duro nunca será afetado pelo desacordo entre experimento e expectativa teórica; somente as

proposições do cinto de proteção serão afetadas e deverão se conformar ao caso recalcitrante.

Entretanto , essa conformação não pode ser ad-hoc, deve ser ela permeada por valores

epistêmico-pragmáticos tais como adequação ao núcleo do programa, possibilidade de articulação

em vista de previsões (explicações) de fatos anteriormente desconhecidos ou inexplicados etc. A

reconfiguração constante do cinto de proteção deve vir acompanhada de corroborações tanto das

proposições eventualmente introduzidas em vista da adequação empírica do programa quanto dos

casos recalcitrantes que visam solucionar.

Entre outros aspectos, esta perspectiva questiona um conceito importante para a proposta

epistemológica kuhniana: o de ciência normal. Esta se caracterizaria, sobretudo, pelo amplo acordo

entre a comunidade científica sobre o paradigma vigente (métodos, soluções aceitáveis, objetos de

pesquisa, etc.). A noção de ciência normal orientada por um paradigma implica o predomínio mono-

teórico através de amplos períodos (paradigma aristotélico, ptolemaico, newtoniano, etc.). Embora

não seja diretamente implicado pelo modelo epistemológico de Lakatos tal como apresentado acima,

uma das idéias chave em sua metodologia é o de pluralismo teórico.

Esse pluralismo, que sob a ótica de Lakatos caracteriza a empreitada científica, torna-a

uma atividade cognitiva essencialmente crítica, em que a competição entre programas de pesquisa

demanda um constante jogo de afastamento e aproximação entre as unidades teóricas presentes em

23

cada tempo, visto que a competição é efetivada pela crítica –construtiva, pois supõe, se real, mútua

compreensão - de métodos, soluções, objetos de pesquisa relevantes, prioridade de descoberta,etc.

entre os programas rivais. Essa concepção de pluralismo teórico é admitida por Lakatos como uma

observação direta da história da ciência e uma mostra cabal do destacado papel que a história da

ciência desempenha na produção de uma teoria da racionalidade científica9.

1.3 Racionalidade Científica e História da Ciência

A abordagem metodológica de Lakatos nos oferece uma concepção da atividade

científica orientada pelo falseacionismo cujo critério de cientificidade é porém deslocado do caráter

negativo da falseabilidade para o critério positivo do progresso. A atividade científica, segundo a

metodologia dos programas de pesquisa, é desenrolada não só sob o estigma da lógica (coerência,

consistência, proficuidade, etc.), mas também da história (diacronia dos conceitos, métodos, base

experimental, etc.). Seja isto, a metodologia lakatosiana abandona uma peça do “folclore” das

interpretações metodológicas da atividade científica; a idéia de racionalidade instantânea (a-

temporal) :

a racionalidade trabalha muito mais devagar do que a maioria das

pessoas tende a pensar e, mesmo assim, falivelmente. A coruja de Minerva

somente voa ao cair da noite.

LAKATOS:1970[1979], p. 216.

A observação do caráter histórico do pensamento científico permite divisar a

continuidade estabelecida entre o ensaio “O falseacionismo e a metodologia dos programas de

Pesquisa Científica” (1970) e “A história da Ciência e suas reconstruções racionais” (1971). O

intuito deste último era aclarar as posições defendidas no artigo anterior e explicitar quais os modos

de inter-relação entre a história e a filosofia da ciência.

Isso significa que a teoria da racionalidade científica de Lakatos pretende constituir-se a

partir de um movimento dialético entre a investigação empírica (historiográfica) da ciência tal como

9 Sobre as relações entre a metodologia científica e história da ciência nos trabalhos de Lakatos, cabe indicar aqui, a

título de evocação, o importante texto “A história da ciência e suas reconstruções racionais”.

24

foi desenvolvida, mas consolidando-se sob o patrocínio de uma ordenação hierárquica e estrutural

dos conceitos meta-teóricos (e historiográficos, pois se pretendem aplicar à reconstrução racional da

história da ciência), seus métodos e objetivos (o que se poderia chamar 'componentes conceituais' de

sua metodologia científica, expressos pelas idéias de heurística, núcleo duro, cinto de proteção, etc.)

apresentados pela filosofia.

Em termos gerais, a filosofia da ciência proporcionaria metodologias normativas cujos

critérios de racionalidade constituem instrumentos conceituais para o historiador que permitirão (re)

construir a “história interna” do desenvolvimento científico, ou seja, uma explicação racional (a

construção de um quadro organizado dos eventos “conceituais” e “históricos” a partir de intenções

“programáticas” dirigidas a certos fins), do conhecimento científico como realizado na história.

Desdobra-se de tal posição que duas metodologias (filosóficas) rivais poderiam ser

avaliadas com a ajuda da história da ciência, na medida em que esta história, normativamente

interpretada, apresentará mudanças “legítimas” ou “ilegítimas”, segundo a definição de ciência e

progresso propostos. Quanto mais “interna” for a história promovida pela metodologia (ou seja,

quanto mais propostas teóricas que foram admitidas como tais pelos cientistas de uma época possam

ser normativamente incorporadas pela teoria de racionalidade que constitui o arcabouço do

historiador), tanto mais adequada ela será.

Por outro lado, é óbvio que qualquer história reconstruída pelos elementos normativos de

uma metodologia (reconstrução racional) necessitará ser complementada por uma “história externa”,

empírica, sócio-psicológica. A razão é evidente: nem todas as mudanças teóricas são motivadas por

razões internas à ciência, e seguramente nem todas as ações humanas são racionais, mesmo entre os

cientistas. Nesse sentido, privilegia-se na historiografia orientada pela metodologia dos programas

de pesquisa científica o contexto da justificação, sendo atribuído ao contexto da descoberta um papel

secundário, idealmente dispensável para a compreensão da atividade científica como

empreendimento cognitivo racional.

Nesse sentido, uma metodologia seria simplesmente um conjunto de regras (ainda que

não necessariamente inter-relacionadas de maneira dedutiva, muito menos mecânicas) para a

aceitação e organização historiográfica de teorias já elaboradas10, sendo os critérios normativos

10 Vários autores criticarão esta posição, entre eles Kuhn, Feyerabend, Chalmers e Popper. A razão é que, assim

colocada, a metodologia de Lakatos não fornece critérios objetivos que auxiliem o cientista ou a sociedade a escolher

racionalmente entre programas rivais atualmente disponíveis e logo tal metodologia se querendo racionalista é por fim

um anarquismo metodológico, pois se não são fornecidos os critérios objetivos de escolha teórica, permitem-se quaisquer

que sejam, afinal quem cala deve consentir (Feyerabend : 1975 [1977]). Efetivamente, esta é uma leitura deveras severa

das perspectivas lakatosianas.

25

metodológicos aplicados apenas retrospectivamente. Assim sendo, as definições de ciência e os

critérios de aceitação e refutação de teorias (entendidas, sob a ótica de Lakatos, como programas de

pesquisa) propostos pelas diferentes metodologias devem explicitar o “código de honestidade

científica”, isto é, as ações que legitimamente devem ser incorporadas historicamente como

representativas da prática científica e, em particular, constituem-se como o núcleo duro de

programas de investigação historiográfica, núcleo que, como é obvio, se identifica aos critérios

normativos da metodologia.

Como um instrumento epistemológico e historiográfico bastante sofisticado, a

metodologia dos programas de pesquisa parece apresentar as fundações de uma historiografia ao

mesmo tempo contextualizada e precisa, dados os elementos conceituais que a orientam. Como

dístico desta perspectiva epistemológica se poderia afirmar que:

Devemos investigar quais são suas metas [ da prática

científica], os métodos empregados para alcançá-las, a extensão na qual essas

metas foram alcançadas e as forças ou fatores que determinaram o seu

desenvolvimento.11

Assim sendo, estão postos os substratos mínimos para a avaliação do desenvolvimento

histórico de um programa particular, neste caso, a mecânica racional newtoniana. É necessário

salientar, entretanto, que a metodologia dos programas de pesquisa científica produz, enquanto

programa de pesquisa historiográfico, reconstruções racionais da história da ciência, seja isto,

histórias “internalistas” (no sentido acima evocado) pautadas no critério de racionalidade da teoria

metodológica. Antes de avançar, passe-se à revisão da literatura disponível sobre o tema, em

particular as posições de Lakatos sobre o programa da mecânica racional newtoniana.

1.4 Revisão da literatura: A abordagem de Lakatos do programa newtoniano de mecânica

racional

As reflexões de Lakatos mais diretamente relacionadas ao programa newtoniano da mecânica

racional, objeto de investigação deste ensaio, encontram-se no artigo “Newtonś effect on scientific

standards”, publicado postumamente no volume 1 de seus Philosophical Papers.

11 Chalmers : 1976 [2000].

26

Não há aí uma tentativa sistemática de caracterizar e investigar o núcleo duro do programa de

pesquisa newtoniano (uma das preocupações centrais da análise a seguir proposta), sendo seu alvo

contrapor os padrões de avaliação metodológica cartesianos e o impulso de Newton e seus

seguidores em constituir novos referenciais epistemológicos que permitiriam o desenvolvimento do

programa nascente (programa da mecânica racional). Indiretamente, contudo, as partes mais

salientes de sua interpretação do programa newtoniano de pesquisa podem ser captadas, o que, em

conjunção com os elementos dispersos pela obra, permite compor as linhas gerais de sua

interpretação do programa de pesquisa da mecânica racional newtoniana.

Já na segunda metade do século XVII, a filosofia cartesiana era o maior referencial não

escolástico no campo do pensamento e, em particular, no âmbito da teoria do método científico, este

se constituindo em um assunto de grande interesse e debate então. As contribuições de outros autores

do século XVII, as obras já difundidas de Grosseteste (1168-1253), J. Buridan (1300-1358) e Francis

Bacon (1561-1626) notavelmente enriqueciam as discussões em torno do que se poderia chamar

“lógicas da descoberta”.

A teoria do método cartesiana era intimamente soldada à sua filosofia mecanicista. A idéia

fundamental desta filosofia era a de que o mundo poderia ser explicado pelas relações de choques

entre partículas materiais simples e fundamentais (corpuscularismo), relações estas descritíveis a

partir dos primeiros princípios de sua mecânica.

A metáfora fundamental que capta a essência da teoria da racionalidade científica do

programa de pesquisa cartesiano de pesquisa poderia ser nomeada “metáfora do relógio” : a relação

do filósofo com a natureza no que concerne à investigação é a mesma de um engenhoso artesão e um