Bazar no Campus por Arthur Conan Doyle - Versão HTML

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Sherlock Holmes

em:

Bazar no campus

Por Sir Arthur Conan Doyle

PDF por ZOHAR (zohar@bol.com.br)

CPTurbo.org

— Certamente ajudaria — disse Sherlock Holmes.

Assustei-me com a interrupção, porque meu companheiro estivera tomando café da manhã com a atenção inteiramente concentrada num jornal, que estava apoiado no bule de café. Olhei para ele e encontrei seus olhos fixos em mim com a expressão meio divertida, meio interrogativa, que em geral assumia quando sentia que marcara um tento intelectual.

— Ajudaria o quê? — perguntei.

Sorriu ao apanhar o chinelo no console da lareira e retirar dele suficiente fumo para encher o velho ca-chimbo de barro com que invariavelmente arrematava o café da manhã.

— Uma pergunta bem característica, Watson — respondeu. — Não se ofenderá, estou certo, se disser que qualquer fama de argúcia que eu possa ter foi inteiramente conquistada pela sua capacidade admirável de servir de espelho para me refletir. Já não ouviu falar de debutantes que insistem na feiúra de suas damas de companhia? Há uma certa analogia.

A nossa longa convivência em Baker Street criara essa intimidade despreocupada em que se pode dizer

muita coisa sem que o outro se ofenda. No entanto, reconheço que me senti mortificado com esse comentário.

— Posso ser muito obtuso — disse —, mas confesso que não consigo perceber como descobriu que fui... fui...

— Convidado para ajudar no Bazar da Universidade de Edinburgh.

— Precisamente. A carta acabou de chegar e não falei com você desde então.

— Contudo — disse Holmes, recostando-se na cadeira e juntando as pontas dos dedos —, me arriscaria a sugerir que a finalidade do bazar é ampliar o campo de críquete da universidade.

Encarei-o com tanto espanto que ele vibrou de riso silencioso.

— O fato é, meu caro Watson, que você é um excelente objeto de estudo.

Nunca é blasé. Reage instantaneamente a qualquer estímulo externo. Seus processos mentais podem ser lentos, mas não são nunca obscuros, e descobri durante o café da manhã que me proporcionava uma leitura mais fácil do que o editorial do Times diante de mim.

— Ficaria contente em saber como chegou às suas conclusões.

— Receio que a minha boa disposição em dar explicações tem comprometido seriamente a minha reputação. Mas neste caso o encadeamento de meu raciocinio baseou-se em fatos tão óbvios que nem posso atribuir qualquer crédito. Você entrou na sala com uma expressão pensativa, a expressão de um homem que debate alguma coisa mentalmente. Na mão, trazia uma carta. Ora, a noite passada você se recolheu no melhor dos humores, então ficou claro que era a carta em mão que provocara a mudança de ânimo.

— Isto é óbvio.

— Tudo se torna óbvio uma vez que é explicado. Naturalmente perguntei-me o que conteria a carta que pudesse afetá-lo dessa maneira. Quando você entrou segurava o envelope com o lado da aba voltada para mim e vi uma espécie de escudo que já observei no seu velho boné de críquete. Estava claro, portanto, que o pedido vinha da Universidade de Edinburgh, ou de algum clube ligado à universidade. Quando chegou à mesa pousou a carta junto ao prato com o endereço para cima e foi olhar a fotografia emoldurada do lado esquerdo do consolo da lareira.

Espantava-me ver a precisão com que observara os meus movimentos.

— E o que mais? - perguntei.

— Comecei por observar o endereço, e descobri, mesmo a uma distância de quase dois metros, que era uma comunicação não-oficial. Isso se depreende do uso da palavra "Doutor" no endereço, à qual, como bacharel de medicina, você não tem direito legal. Sei que os funcionários nas universidades são pedantes no uso correio dos títulos, e pude assim dizer com segurança que a sua carta não era oficial. Ao voltar à mesa virou a carta e me permitiu perceber que o anexo era impresso; ocorreu-me pela primeira vez a ideia de um bazar.

Já pesara a possibilidade de ser um comunicado político, mas me pareceu improvável devido ao marasmo das presentes condições políticas.

— Ao tornar à mesa seu rosto ainda guardava a mesma expressão e ficou evidente que o exame da fotografia não alterara a corrente de seus pensamentos. Nesse caso deviam prender-se ao assunto em questão. Voltei minha atenção para a fotografia, portanto, e vi imediatamente que o retratava como membro dos Onze da Universidade de Edinburgh, tendo ao fundo o pavilhão e o campo de críquete. Minha pequena experiência de clubes de críquete me ensinou que depois das igrejas e dos cavalarianos eles são a organização mais endividada do mundo. Quando já à mesa o vi tirar um lápis e desenhar no envelope, convenci-me de que estava procurando imaginar alguma obra projetada que deveria ser custeada pelo bazar. Seu rosto ainda demonstrava alguma indecisão, de modo que pude interrompê-lo para aconselhar que ajudasse numa causa tão meritória.

Não pude deixar de sorrir com a extrema simplicidade de sua explicação.

— Naturalmente, não podia ser mais fácil — comentei.

Meu comentário pareceu irritá-lo.

— Posso acrescentar que o auxílio que lhe pediram foi o de escrever no álbum deles e que já decidiu que o presente incidente será o assunto do seu artigo.

— Mas como...! — exclamei.

— Não podia ser mais fácil, e deixo a solução desse mistério à sua própria inventividade. Entrementes — acrescentou erguendo o jornal —, vai me desculpar se volto à leitura dessa notícia muito interessante sobre as árvores de Cremona e as razões exalas de sua superioridade na fabricação de violinos.

E um desses probleminhas estranhos à minha atividade aos quais por vezes me sinto tentado a voltar minhas atenções.

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