'Beleza, perversidade, vício e doença': um passeio pela literatura do mal de Mário de Sá-Carneiro por Maria Carolina Vazzoler Biscaia - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA PORTUGUESA

MARIA CAROLINA VAZZOLER BISCAIA

“BELEZA, PERVERSIDADE, VÍCIO E DOENÇA” — UM

PASSEIO PELA LITERATURA DO MAL DE MÁRIO DE

SÁ-CARNEIRO

São Paulo

2012

2

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA PORTUGUESA

“BELEZA, PERVERSIDADE, VÍCIO E DOENÇA” — UM

PASSEIO PELA LITERATURA DO MAL DE MÁRIO DE

SÁ-CARNEIRO

Maria Carolina Vazzoler Biscaia

Trabalho apresentado ao Programa de Pós-

graduação

em

Literatura

Portuguesa,

do

Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

da Universidade de São Paulo para obtenção do

título de Doutor em Letras.

Orientadora: Prof.ª Dra. Raquel de Sousa Ribeiro

São Paulo

2012

3

A Artur, Yolanda, Flávia, Maria Olímpia e Claudio.

4

Meus sinceros agradecimentos. .

Aos meus pais Artur Gildo Biscaia e Yolanda Vazzoler Biscaia.

À Flávia Vazzoler Biscaia e Regino Angel González Rodríguez.

Às famílias Biscaia e Vazzoler.

Ao Claudio José dos Santos.

Ao Leonardo Baptista Correia, Márcia Rodrigues Bio Araújo, Marta

Lúcia Corrêa, Sérgio Roberto Silveira e, principalmente, a todos de que eles

descendem.

Ao Alexandre Fernandes de Almeida, Paulo César Géglio e Tiago

Fernandes de Souza.

Ao Edson de Oliveira e Dumit Abbud.

À professora Dra. Maria Helena Nery Garcez e à Professora Dra. Aurora

Gedra Ruiz Alvarez.

Ao professor Dr. Carlos Alberto Véchi e à Prof.ª Dra. Maria Thereza

Martinho Zambonim.

À minha querida orientadora Prof.ª Dra. Raquel de Sousa Ribeiro por

todas as orientações e conversas francas.

5

RESUMO

BISCAIA, M.C.V.. “Beleza, perversidade, vício e doença.” — Um passeio pela

literatura do mal de Mário de Sá-Carneiro. Tese (Doutorado). Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2012.

Esta tese discorre sobre como a obra do escritor português Mário de Sá-

Carneiro apresenta uma ligação com o mal, tomando como sustentação teórica

as discussões propostas por George Bataille, Elizabeth Roudinesco e Martin

Heidegger. A tese aponta como as personagens e os eu líricos optam pelo

escapismo para outras realidades, para lugares míticos e para as múltiplas

identidades, como forma de serem mais livres e de burlarem as regras morais

que estão postas pela sociedade portuguesa da época. É por meio deste

escapismo que se tem a possibilidade de criar uma vida envolta em mistério e

repleta de momentos singulares. Com a ausência de uma moral que possa

tolher o indivíduo de seus mais íntimos segredos é que a literatura de Sá-

Carneiro envereda para a morte, o suicídio, o crime, o incesto, o

homossexualismo e outros comportamentos que podem sugerir sua ligação

com o mal. Com um universo deslocado do real, os textos têm como cena as

noites parisienses, os refinados e sofisticados artistas e a crença de que a arte

é sagrada e que, como tal, elege seus poucos representantes, e estes passam

a ter seus caminhos ungidos por tal distinção. São as relações entre o

escapismo, o mistério, a morte, as perversões e a arte que dão os subsídios

para a inscrição da obra de Mário de Sá-Carneiro como um receptáculo daquilo

a que chamamos de literatura do mal.

Palavras-chaves: Mário de Sá-Carneiro, mal, decadentismo, perversão, arte,

literatura portuguesa.

6

ABSTRACT

BISCAIA, M.C.V.. “Beauty, perversity, addiction and illness” — A promenade in

Mário de Sá-Carneiro’s literature of evil. Thesis (Doctoral). Faculty of

Philosophy, Letters and Human Sciences, University of São Paulo, 2012.

This paper describes how Mário de Sá-Carneiro’s works have a connection with

evil. The theory is supported by George Bataille, Elizabeth Roudinesco and

Martin Heidegger’s proposed discussions. The thesis notes how characters and

poetic personae choose escaping to other realities, mythical places and multiple

personalities as means of setting free or bending the moral rules which the

Portuguese society held during that period. This escapism enables a

mysterious, particular lifestyle. By lacking morals that may curb people’s most

secret desires, Sá-Carneiro’s literature trails towards death, suicide, crime,

incest, homosexuality and other unrighteous behaviors. By detaching from

reality, the texts portray Parisian nights and sophisticated artists. It was believed

that art was sacred and for that reason few were chosen to represent it. As a

result, artists were allegedly annointed for such a distinction. The relationship

between escapism, mystery, death, perversions and art shapes Mário de Sá-

Carneiro’s work into what we call literature of evil.

Keywords: Mário de Sá-Carneiro, evil, decadence, perversiveness, art,

portuguese literature.

7

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...................................................................................................09

CAPÍTULO 1 – ESCAPISMOS: UMA VEREDA PARA O MAL.......................18

1.1 – Um olhar sobre o Mal................................................................................19

1.2 – A identidade e a alteridade.......................................................................24

1.3 – As muitas formas de representação do real.............................................37

1.4 – Do desalento pelo espaço português a outros espaços ..........................42

CAPÍTULO 2 – ALGUMAS FACES DO MISTÉRIO.........................................55

2.1 – O mistério..................................................................................................56

2.2 – O “momento luminoso”.............................................................................64

2.3 – A presença do duplo na manifestação do “eu” e dos “outros”..................69

2.4 – As mulheres..............................................................................................81

CAPÍTULO 3 – O CAMINHO DAS RUPTURAS...............................................91

3.1 – A morte, o suicídio e o crime....................................................................92

3.2 – As perversões.........................................................................................107

3.2.1 – O incesto e o sadismo...............................................................109

3.2.2 – O travestismo............................................................................112

3.2.3 – A homossexualidade.................................................................113

3.3.4 – O voyeurismo...........................................................................117

3.2.5 – Outros interditos........................................................................117

3.3 – O vício.....................................................................................................119

CAPÍTULO 4 – A ARTE COMO SOPRO DE VIDA........................................121

CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................135

BIBLIOGRAFIA...............................................................................................139

ANEXOS..........................................................................................................148

index-8_1.jpg

8

TOULOUSE-LAUTREC, Henri de. No Moulin Rouge.

“São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos

martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar!

Com vinho, com poesia, ou com virtude, a teu gosto.”

Charles Baudelaire, Pequenos poemas em prosa.

9

INTRODUÇÃO

Mário de Sá-Carneiro, ao lado de Fernando Pessoa e outros, foi um dos

responsáveis pelo surgimento da Revista Orpheu, no primeiro trimestre do ano

de 1915. Periódico que, com o advento da Modernidade nas letras

portuguesas, foi a expressão mais fiel do ideário esotérico que atingia seu

grupo idealizador, cujo grande mérito foi propor “[...] o rompimento com o

passado [...].” (MOISÉS, 1994, p.239).

Foi pelas mãos de Luís de Montalvôr, Alfredo Guisado, Almada Negreiros,

Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, que Portugal despertou para a

necessidade de inovação, e Orpheu cumpriu muito bem esse papel. Segundo

Moisés (1994), a revista ganhou repercussão e foi bastante escandalosa,

gerando a reviravolta cultural que seus fundadores tanto desejavam.

Embalados pela obra de António Nobre, Fernando Pessoa e sua geração

insistiram na criação de uma revista que fosse acessível aos novos poetas, e

que oportunizasse a criação de espaço para uma proposta inovadora. O desejo

dos autores era produzir uma revista em que a poesia substituísse “[...] os

mitos, transformando-se, ela própria, num mito.” (MOISÉS, 1994, p. 240).

A edição número “1” teve direção de Luís de Montalvôr e, como conteúdo, os

lendários poemas de Álvaro de Campos, “Opiário” e “Ode Triunfal”, e “Indícios

10

de Oiro”, “Apoteose” e “Nossa Senhora de Paris”, de Mário de Sá-Carneiro,

além de outros.

A edição número “2” contou com a colaboração de Santa-Rita Pintor e direção

de Pessoa e Sá-Carneiro e, deste último, foi ofertada a publicação de

“Manucure”. Álvaro de Campos continuou publicando e, nesta edição, escreveu

uma série de poemas dedicados a amigos, dentre eles “Ao Sr. Mário de Sá-

Carneiro”.

Através da figura de Sá-Carneiro, mais precisamente com o sustento monetário

de seu pai, que Orpheu ganhou as ruas, porém, com a decadência financeira

em que a família de Sá-Carneiro se envolveu, o financiamento foi rareando a

ponto de não ser mais possível manter o jovem rebento morando em Paris com

suas regalias, tampouco custear o terceiro número da publicação. Assim, a

terceira edição, embora pensada e elaborada, nunca chegou às ruas, pois, sem

o financiamento e com a morte do jovem Sá-Carneiro, em 26 de abril de 1916,

não logrou o êxito esperado.

Contrariamente a tudo que a tradição portuguesa literária fazia no momento,

Sá-Carneiro negava o modelo, chamado por Leodegário A. de Azevedo Filho

(Semana de Estudos SC, p.109), romântico-realista, instaurado por Eça de

Queirós e Camilo Castelo Branco que, segundo Sá-Carneiro, era calcado na

tríade “princípio, meio e fim”. Ordem que perdeu completamente o sentido no

conjunto carneiriano, sobretudo na obra A confissão de Lúcio.

Mário de Sá-Carneiro teve vida curta, com poucos momentos de real alegria,

superados por muitas fases de profunda insatisfação consigo e com o rumo de

sua existência. A profunda infelicidade fez com que ele adentrasse num

universo de turbulências e conhecesse a fundo a existência infeliz e a

degradação humana.

Dotado de uma capacidade imaginativa eficiente, mas sem grande

reconhecimento no mundo pragmático, o autor foi se ensimesmando

gradativamente e pôs fim ao seu sofrimento aos vinte e seis anos de idade,

sem deixar para trás amores, filhos, família, trabalho. O muito que construiu foi

11

dotado de alguns poucos laços com amigos que puderam conhecer a gênese

de sua criação.

Filho único de um pai ausente, órfão de mãe, financeiramente abastado por

quase toda a vida, mas falido no final dela. Estudante de um curso nunca

frequentado, artista amante de Paris, mas oficialmente residente em Lisboa,

obeso e sexualmente não realizado. Todos estes fatores contribuíram para sua

entrada em uma literatura voltada para o lado mais obscuro da existência

humana: o mal.

Com as considerações acima, apresentamos a proposta do nosso trabalho,

cujo objetivo é investigar como a “literatura do mal” é representada pelas

personagens e eus da obra carneiriana. Nossa análise da obra de Sá-Carneiro,

na perspectiva de perceber a representação do mal, tem como referência as

contribuições apresentadas por Martin Heidegger (1889 – 1976), na obra Ser e

Tempo; George Bataille (1897 – 1962) em A literatura e o mal; e Elizabeth

Roudinesco (1944) em A parte obscura de nós mesmos — Uma história dos

perversos.

Iniciamos o trabalho com a perspectiva de uma busca pelo que chamamos de

mal e suas possíveis acepções, sempre deixando clara a dificuldade de

conseguirmos chegar definitivamente a uma definição, mas baseados nos

apontamentos de George Bataille configuramos a ideia de mal na perspectiva

de verificar suas consequências no comportamento humano.

Nesta seara adentramos à ideia de que a massificação cultural do final do

século XIX impôs ao homem da época uma dificuldade de se reconhecer como

indivíduo, numa sociedade que crescia a olhos vistos e que estava imersa na

mecanização oriunda dos avanços tecnológicos. Nesta crise de identidade e na

sua multifacetação, em virtude do novo contexto político-econômico, é que está

inserida a obra de Mário de Sá-Carneiro.

Martin Heidegger, em sua obra Ser e Tempo, de 1927, aponta alguns dos

principais problemas no que tange aos estudos do homem e suas relações com

12

o mundo, consigo mesmo e com os outros homens. Nesta perspectiva,

Heidegger relata que, historicamente, o homem apresentou o que ele

denomina de esquecimento do ser. Com esse entendimento, o autor faz

referencia à necessidade de se retomar os estudos sobre homem pela vertente

da sua relação com o objeto. Uma forma de relação que foi relegada a segundo

plano por quase toda a história ocidental.

Inserido na sociedade europeia do final do século XIX e início do XX, Martin

Heidegger (2011) apontou em suas reflexões como o homem, cada vez mais

inserido na sociedade que valoriza a posse material, na qual o pragmatismo é a

filosofia que move o mundo, agia, percebia e constituía sua individualidade.

Dotado de um sentimento de preocupação1, a vida em uma sociedade de

massa se mostrava impetuosamente marcada pela impessoalidade. A

sociedade passou a consumir produtos fabricados em série, as pessoas eram

vistas pela óptica de sua capacidade de produção, pelo que eram capazes de

oferecer socialmente e não pelas suas idiossincrasias. Todas estas situações,

somadas a uma rotina cada vez mais extenuante de trabalho e horários rígidos,

uma busca pela eficiência e acúmulo de produção, fizeram com que o homem

do final do século XIX desse sinal de significativa perda de individualidade.

A belle époque, segundo Kujawski (1991), com todos os seus progressos, o

advento da luz elétrica, o transporte de massa e o incentivo ao consumo, deu

ao homem da época uma falsa sensação de completude, pois o indivíduo

passou a ser caracterizado por sua capacidade de ter e adquirir bens e não

mais por suas particularidades. Naquele período, ficou clara a transferência da

representação da individualidade da interioridade do ser para o acúmulo das

coisas. Nesse contexto, Heidegger afirma que o indivíduo deixou de se mostrar

de dentro para fora, para executar exatamente uma ótica oposta, a que vai do

objeto para o ser e não a do ser para o objeto (“ente”).

1 A preocupação não é bem vista por Heidegger (2011) na medida em que ele a vê como uma

forma hipócrita de se colocar no papel de outro, o que nesta medida é uma impessoalidade,

pois se preocupar demasiadamente com os outros, com o que as pessoas sentem e pensam, é

uma maneira de abandonar seu projeto e, assim, sua própria existência.

13

Considerando o homem como único ser que pensa em sua condição de ser,

Heidegger (2011) debruça-se na relação do “ser” e do “ente” e na sua

consequência mais evidente: a de que a vida do homem perdeu sua condição

de autenticidade, ao ceder espaço para uma vida banal, inautêntica em virtude

da alienação, da falta de consciência.

A vida inautêntica, a que se refere Heidegger, está ligada aos seres que, por

meio das pressões e ações cotidianas, sufocaram seus projetos existenciais.

Ela se dá pelo excesso de compromissos e obrigações impostos pelo cotidiano,

que conduzem o homem a uma vida repleta de tarefas e obrigatoriedades, o

que faz com que ele não seja capaz de voltar-se para si mesmo, mas, que se

distancie de seu ser e passe a ser tratado por si mesmo como mais um “ente”

posto no mundo. Esse tipo de sociedade é aquela que privilegia o homem visto

dentro de um processo de massificação e nivelamento.

A reificação do homem é fruto desta cotidianidade, pois suas características

individuais têm menos espaço neste novo mundo, um mundo em que as

pessoas acabam, por força das circunstâncias, se comportando de maneira

semelhante. É a cotidianidade que imprime ao homem a inautenticidade,

afastando-o de seu “ser” pela ocupação com os “entes”.

A existência humana acaba revelada socialmente, muitas vezes, de maneira

bem homogênea, mascarando desejos, características, intenções. Os poucos

seres que são sensíveis à necessidade de se afastarem deste tipo de vida são

aqueles tocados pela angústia. Uma sensação de desconforto, que Heidegger

define como:

A angústia não deixa mais surgir uma tal confusão. Muito antes,

perpassa-a uma estranha tranquilidade. Sem dúvida, a angústia é

sempre angústia diante de..., mas não angústia diante disto ou

daquilo. A angústia diante de... é sempre angústia por..., mas não

por isto ou aquilo. O caráter de indeterminação daquilo diante de e

por que nos angustiamos, contudo, não é apenas uma simples

falta de determinação, mas a essencial impossibilidade de

determinação. Um exemplo conhecido nos pode revelar esta

impossibilidade. (HEIDEGGER, 1969, p.31)

14

Como aponta o autor, o ser angustiado, embora sempre manifeste sua

“angústia por...” não é capaz de pontuar exatamente sua origem e nem

tampouco seu objeto em si. Sabe-se apenas angustiado por algo que não é

possível entender. Em geral, o resultado dessa angústia é o tédio, um não

saber bem o porquê do desconforto sentido. Esta é a diferença entre o que o

autor aponta como angústia e o temor. O “temor” é um medo de algum ente

específico, já a angústia não. Essa angústia é a presença do “nada” para o ser,

“A angústia manifesta o nada.” (HEIDEGGER, 1969, p.32).

Característica de poucos, a angústia, oriunda da consciência de si mediante

um mundo de não valorização das individualidades, em que as relações

estavam centradas na figura do “ente” e não do “ser”, é vista pelo autor não

como algo negativo, como é tomada pelo senso-comum, mas como uma força

capaz de levar a possibilidades. É a consciência que proporciona a angústia,

pois é ela que faz com que o homem perceba que é um “ser” e não um “ente”,

que possibilita sua retirada da condição de “coisa” para a de “ser”, a sua

inserção na ideia de que é um sujeito e não um objeto. É por meio dela que o

homem é capaz de se libertar da alienação que lhe é imposta, pois o mesmo se

desvincula das suas obrigações cotidianas e passa a se voltar para si e fazer

uso da sua liberdade, liberdade esta que pode transformar sua existência em

uma vida autêntica.

É através da angústia e da preocupação que o homem “[...] localiza a

verdadeira possibilidade da virada da existência humana, a possibilidade do

homem sair da inautenticidade, na qual ele geralmente vive, e assumir a

autenticidade.” (WERLE, 2003, p. 110).

Os poucos que são tocados pela angústia são aqueles capazes de se voltarem

para si e perceberem sua necessidade de se libertarem da banalização. Ao

realizarem isso, vão em busca de uma vida mais autêntica, mais original,

singular, ainda que esta singularidade esteja presente na morte pois, para o

autor, a única verdade inquestionável na existência humana é a morte. É na

morte que a liberdade plena se configura, pois ela é o momento mais singular e

individualizado que acomete o homem. Não há como vivenciar a morte de

15

outro, não há como prever e experimentar a sensação da morte e depois refletir

sobre ela, não há representação. É por ser uma condição irrefutável que ela

propicia a ação do homem. Sua possibilidade gera pressão para a execução de

um projeto existencial que faça com que o homem escape da banalidade, pois,

se o mesmo se mantiver intrincado no cotidiano, sua tendência é a da pura

negação da mesma ou a aceitação resignada de que nada se pode fazer

perante ela.

Quando o homem se coloca no mundo, Heidegger (2011) denomina este

homem como um “ser-no-mundo” e, dessa maneira, passa a apontar que este

ser é o responsável por seu “projeto”. A criação e realização do projeto são, em

última instância, as tarefas centrais de realização do ser, pois é através da

realização de seu projeto existencial que o homem existe, não apenas como

um “ente”, uma coisa posta no mundo, mas sim como um ser que é capaz e

consciente de sua vida no mundo.

Os estudos das relações ontológicas e ônticas são ferramentas para uma

melhor compreensão da obra de Mário de Sá-Carneiro, uma vez que esta

apresenta algumas das aflições estudadas pelo filósofo alemão como a

presença da angústia e da consciência que o impulsiona a sair em busca de

uma vida autêntica, desta forma enveredamos pelo conceito de maldade e

suas implicações.

O primeiro capítulo desta tese identifica questões que se referem ao mal, no

que tange à necessidade que este tem de uma ambientação diferenciada para

se configurar. Dotados de consciência, alguns homens vivem a angústia de se

questionarem a todo instante sobre sua própria existência e sobre a

necessidade de se manterem fieis aos seus próprios projetos de vida e não às

leis e ações cotidianas que lhe são atribuídas e que muitas vezes são

formuladas apenas tomando como base a tradição social. Dotados da

consciência desta situação, uma das possibilidades de suportar a vida é a

criação de situações evasivas, em que o real e o ideal passam a caminhar lado

a lado, sendo impossível a determinação exata de onde está um ou o outro. É

possível verificar na obra de Sá-Carneiro meios de evadir-se para outras

16

esferas. O escapismo, por ela apresentado, se dá pela manifestação da crise

da identidade e seus desdobramentos, pela criação de outras realidades e pela

idealização de espaços, pois estas criações possibilitam a concretização de

ações que se caracterizam como más.

No segundo capítulo, o tema passa a ser o mistério, pois este é o tom dado a

muitas das narrativas e dos poemas carneirianos. Nele, nos detemos a

encontrar as marcas que nos remetem a esse universo. Partindo das palavras

de Charles Baudelaire (1997), que não acreditava ser adequado tentar explicar

o que vinha a ser o próprio mistério, buscamos perceber como as ações das

personagens nos remetem a essa esfera e como dentro dela estas ações se

configuram como ações do mal. Temos, nesta perspectiva, o mistério

manifestado pela busca de momentos luminosos e singulares na vida, pelo

duplo, que a toda hora nos coloca o questionamento quanto à existência (ou

não) de personagens, ou ainda, na recorrência de tipos recorrentes nos

poemas. O mistério manifesta-se também nas mulheres sensuais e exóticas

que surgem por toda parte, com suas danças de serpente trazendo a dor, a

traição, a doença e a morte, sendo elas o retrato feminino da mulher fatal, da

mulher maléfica.

No terceiro capítulo, a abordagem recai na questão da morte e suas variáveis,

como o suicídio e o crime, mas estes ligados principalmente à perversidade e a

sua relação com o mal. A perversidade aqui se mostra pelo uso do escapismo

e do mistério como formas de configurar a vida pela ausência de uma moral

que possa tolher o homem, fazendo com que este use de sua liberdade para

viver o que preciso fosse em busca de instantes singulares, vidas repletas de

artificialismo, sem temer as consequências, cabendo uma reflexão sobre a

morte, o suicídio, o crime, o incesto, o homossexualismo e outros interditos que

podem sugerir uma ligação com o mal.

No quarto e último capítulo, terminamos com a junção das ideias apresentadas

nos capítulos anteriores, da fragmentação da identidade, da duplicação, da

fuga para outra realidade, da criação de uma vida de mistério, da presença da

morte e das perversões como geradores de um ideário artístico criado por Sá-

17

Carneiro, um ideário artístico que, entre tantas características, se configura

como um depositário do mal. O capítulo versa sobre a arte e sua função dentro

desta realidade maléfica e singular apresentada na poética carneriana.

As relações entre o escapismo, o mistério, a morte, as perversões e a arte são

os subsídios para a inscrição da obra de Mário de Sá-Carneiro como um

receptáculo daquilo a que chamamos de “literatura do mal” e que vem a ser o

objeto de análise desta tese.

index-18_1.jpg

18

CAPÍTULO 1 – ESCAPISMOS: UMA VEREDA PARA O MAL

MAGRITTE, René. Os sinais da noite.

“Que valor teria um deus que não conhecesse a ira, a vingança, a inveja, o desdém, a

trapaça, a violência?”

Friedrich Nietzsche, O Anticristo.

19

1.1 – Um olhar sobre o Mal

Na obra de Mário de Sá-Carneiro podemos encontrar poemas, contos, novelas,

peças de teatro, além de textos de outros gêneros, como cartas, rascunhos de

críticas, entrevistas etc. Através desses escritos, o autor nos possibilita o

acesso a uma esfera de mistério, profanação, dúvida, multiplicidade, além...

Um exame desses textos revela uma forte recorrência de Sá-Carneiro a

assuntos como, por exemplo, o suicídio, a morte, o amor não realizado, a arte,

a fé, a violência e o erotismo.

Sobre os temas acima, George Bataille (1998) afirma que se configuram como

manifestações do mal na literatura, e consideramos um estudo sobre isso

bastante desafiador, até pela própria complexidade que envolve o conceito da

palavra mal e suas várias conotações. O Dicionário Houaiss da Língua

Portuguesa, por exemplo, atribui mais de trinta acepções à palavra, sendo

uma delas a de que o mal é aquilo “[...] que prejudica ou fere; o que concorre

com o dano ou a ruína de alguém ou de algo; o que é nocivo, desastroso para

a felicidade ou o bem-estar físico ou moral; infelicidade”. (HOUAISS, 2004, p.

1815-1816).

Podemos afirmar, portanto, que o mal está em oposição ao bem que, por sua

vez, é relativo à virtude, à honra, à moral. O mal é aquilo que gera ruína, que

prejudica, que é nocivo, que traz o infortúnio, a doença, a desgraça. Pode ser

ainda aquilo que ataca os que sofrem a perda de um amor ou a maledicência,

ou, ainda, o mal é o maligno personificado.

A dificuldade que percebemos em entender o mal está menos em sua definição

do que no significado que ele pode assumir no âmbito da subjetividade. Como

determinar aquilo que machuca ou fere, alguém que causa infelicidade nas

pessoas, mas que não tem fonte objetiva? Assim, a questão é menos sobre o

que é o mal, em face do que causa o mal ao ser humano.

O mal é um assunto que sempre esteve presente na pauta das discussões

filosóficas. Desde Sócrates até os dias atuais, se discute na filosofia, na

20

literatura e em muitas outras áreas do saber questões relativas ao bem e ao

mal, seja de maneira direta ou pelo caminho da ética. O que percebemos no

exame histórico dessas discussões é que, sob o ponto de vista da objetividade

que envolve a vida dos seres humanos, a discussão sobre o mal é feita em

comparação com o conceito do bem, e está sujeita à variação temporal e

cultural. Esta contingência sobre o conceito e a fonte de mal revela sua gênese

necessariamente humana.

Segundo Ullmann (2010), historicamente o mal, ação que afeta o ser humano,

é visto com origem em três vieses: mal físico, moral e metafísico. O mal físico

pode ser desencadeado de duas maneiras: objetiva — por enfermidade ou

perda de bens — e de modo subjetivo — por sentimentos oriundos de

situações vividas, males como decepção amorosa, raiva, frustração, medo,

ansiedade e que se revelam nas emoções (tremor, sudorese, agitação

corporal, rubor, aumento de frequência cardíaca, choro). O mal moral “[...]

reside no desvio voluntário da norma de moralidade, que é a razão, nas ações

livremente postas.” (ULLMANN, 2010, p.11). Neste aspecto, ele é a negação às

regras construídas pelos homens. E, por fim, o mal metafísico é aquele cuja

gênese está nas manifestações da natureza, mas “[...] não representa

nenhuma injustiça da parte de Deus.” (ULLMANN, 2010, p.11).

Em relação à literatura, o mal surge associado à ideia de liberdade,

intimamente ligado à vontade, vontade esta que “[...] é uma faculdade, capaz

de produzir uma ação; sendo livre, pode igualmente não produzi-la.”

(ULLMANN, 2010, p.18). Desta forma, cabe ao homem, em suas ações,

escolher entre o bem ou o mal.

Como considera Platão (1983), o ser humano é responsável por tudo o que faz,

pois ele sempre pode decidir fazer o bem ou o mal. O filósofo ainda acredita

que o bem e o mal são intrínsecos ao sujeito, não é algo derivado do meio

externo. O entendimento deste é o de que o homem é naturalmente dotado de

capacidade para saber o que é o bem e o que é o mal, podendo escolher entre

um e outro em suas ações. Nesse sentido, a capacidade superior do indivíduo

está em superar seu instinto de ser mau, de optar por fazer o bem (e não o

21

mal), pois ele possui o controle sobre suas decisões — assim como a

consciência de que seus atos podem ser bons e resultar em consequências

boas, ou serem maus e resultar em desdobramentos desagradáveis aos

outros. Platão concebe o homem com liberdade para decidir de que forma

atuar na sociedade e, consequentemente, mostra que este é responsável pelas

suas ações.

Embora o homem seja apontado como um ser gregário, que deseja viver em

sociedade, ele, naturalmente, na ausência da lei, tende a satisfazer suas

vontades, em detrimento do bem alheio. Assim, podemos considerar que a

liberdade gera possibilidades de escolhas particulares e elas podem conduzir

ao mal de outrem, desta maneira, George Bataille (1998) considera que o

homem é um ser descontínuo no que tange à sua existência. A

descontinuidade para ele é a consciência do homem quanto a sua

individualidade, unicidade e solidão. Percebendo-se um ser individual, que é

único e sozinho em suas necessidades, Bataille aponta que a angústia de não

termos a possibilidade de nos ver espelhados nos outros ou de nos sentir

confortáveis com a presença do grupo ou, ainda, de perceber que a solidão é

um sentimento persistente é que faz o autor concluir que o homem tende à

“busca da continuidade perdida”. Essa busca nada mais é que a tentativa de

superação da descontinuidade, ou seja, a busca pela formação de vínculos

com seus pares na ilusão de ser menos individualista, só e diferente. Posto

isto, o problema se dá pela luta travada pelo indivíduo para ser um ser contínuo

em meio a uma vontade maior de saciar seus desejos, pois os valores

individuais costumam vir em primeiro plano e, segundo o autor, todos os atos

que neguem esta assertiva são artificiais. Quando o homem age de maneira a

colocar o valor individual antes das necessidades coletivas, ele promove uma

mudança, uma revolução e, é a partir disso que a vida ganha uma dimensão

diferenciada que, genericamente, é vista como uma dimensão sublime.

É pela busca do sublime, do grandioso, do magnífico que, muitas vezes, as

ações humanas se manifestam pelo viés maléfico, pois a descontinuidade

acaba prevalecendo e emergindo e, desta forma, possibilitando uma demanda

pelo prazer, pela satisfação de um gosto.

22