Belezas Perigosas por Libba Bray - Versão HTML

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“Belezas Perigosas”

The Great and Terrible Beauty

Libba Bray

*

Gemma Doyle não é como as outras moças. Moças de modos impecáveis, que

só falam quando alguém dirige a palavra a elas, que se lembram da sua

posição social, que dançam com graça e que são capazes de mentir em nome

da Inglaterra quando necessário.

Não, esta moça, Gemma, é única.

Ela foi mandada para a academia Spence em Londres depois da tragédia que

se abateu sobre sua família, na Índia. Solitária, esmagada pela culpa e

inclinada a visões do futuro que têm o desconfortável hábito de se tornarem

realidade, Gemma é recebida com frieza. Mas ela não está totalmente

sozinha... foi seguida por um jovem misterioso, enviado para avisá-la de que

deve fechar sua mente a essas visões.

Pois é em Spence que o poder de Gemma em atrair o sobrenatural se revela;

lá ela se envolve com as moças mais poderosas da escola e descobre a ligação

de sua mãe com um grupo muito antigo e misterioso chamado a Ordem. É lá

que o destino a aguarda... caso Gemma consiga acreditar nisso.

Belezas Perigosas é o primeiro volume da trilogia Gemma Doyle.

.

Libba Bray é autora de peças de teatro, contos, ensaios e outros textos que,

segundo ela, "jamais deveriam ver a luz do dia". Trabalhou em atividades

diversas, desde garçonete à revisora, mas hoje prefere o ofício de escritora,

pela simples necessidade de escrever. A juventude no Texas (EUA) sob uma

cultura underground rendeu-lhe a personalidade excêntrica e direta.

Atualmente, Libba mora no Brooklin, em Nova York, com o marido e o filho.

Para Barry e Josh

***

Lá ela tece noite e dia

Uma teia mágica de cores vistosas.

Ela ouviu um sussurro dizendo:

Uma maldição cairá sobre ela se continuar a

Olhar com desprezo para Camelot.

Ela não sabe qual é a maldição,

E assim ela tece continuamente,

E outro pouco cuidado ela tem,

A senhora de Shalott

E movendo-se através de um espelho

Que pende diante dela o ano todo,

Sombras do mundo aparecem.

Lá ela vê a estrada próxima

Que desce sinuosa até Camelot...

***

Mas em sua teia ela ainda se deleita

Em tecer as visões mágicas do espelho,

Pois frequentemente, nas noites silenciosas,

Um funeral, com plumas e luzes

E música, dirigia-se a Camelot;

Ou quando a lua brilhava no céu

Surgiam dois jovens amantes recém-casados.

“Eu estou cansada de sombras”, disse

A senhora de Shalott.

***

E descendo o vasto e turvo rio

Como um bravo vidente em transe,

Ao ver toda a sua infelicidade

Com um olhar opaco,

Ela contemplou Camelot.

E ao final do dia

Ela soltou a âncora e se deitou;

A correnteza carregou-a para bem longe,

A senhora de Shalott.

- “The Lady of Shalott”, de Alfred, Lord Tennyson

CAPÍTULO

UM

21 de junho de 1895

Bombaim, Índia

- Por favor, diga-me que isto não vai fazer parte do meu jantar de aniversário hoje à

noite.

Estou olhando para a cara de uma serpente. Uma língua surpreendentemente rosada

desliza para fora e para dentro de uma boca cruel enquanto um indiano cujos olhos

têm o azul da cegueira inclina a cabeça na direção da minha mãe e explica em hindi

que cobras são uma comida deliciosa.

Minha mãe estica um dedo enluvado de branco para acariciar as costas da cobra.

- O que você acha, Gemma? Agora que você já tem dezesseis anos, que tal jantar

uma cobra?

Aquela coisa rastejante me faz estremecer.

- Acho que não, obrigada.

O indiano velho e cego sorri desdentadamente e aproxima a serpente de mim. É o

suficiente pra me fazer recuar abruptamente e dar um encontrão numa estante de

madeira cheia de pequenas estátuas de divindades indianas. Uma das estátuas, uma

mulher cheia de braços e com o rosto crispado de raiva, cai no chão. Kali, a

Destruidora. Ultimamente, minha mãe tem me acusado de mantê-la extra-

oficialmente como minha santa padroeira. Ultimamente, mamãe e eu não temos nos

dado muito bem. Declaro enfaticamente para quem quiser ouvir que é tudo porque

ela se recusa a me levar para Londres.

- Eu soube que em Londres, você não tem que arrancar as presas da sua comida

antes de comer – digo. Nós passamos pelo homem com sua serpente e nos

misturamos com a multidão de pessoas que lota cada centímetro do frenético

mercado de Bombaim. Mamãe não responde, mas afasta com um gesto um tocador

de realejo e seu macaco. O calor é insuportável. Por baixo do meu vestido de algodão

e das minhas anáguas, o suor escorre pelo meu corpo. As moscas, as minhas mais

ardentes admiradoras, atacam o meu rosto. Tento matar um daqueles pequenos

animais alados, mas ele escapa e quase posso jurar que está debochando de mim. O

meu sofrimento está atingindo proporções epidêmicas.

No alto, as nuvens estão carregadas e escuras, avisando que esta é a estação das

monções, quando chuvas torrenciais podem cair do céu numa questão de minutos. No

bazar cheio de pó, um homem tagarela de turbante guincha e pechincha, erguendo

sedas de cores brilhantes na nossa direção com suas mãos morenas, queimadas de

sol. Por toda parte vêem-se carroças carregadas de cestas de vime oferecendo todo

tipo de utensílios e comidas – vasos de cobre, caixas de madeira entalhadas com

complicados desenhos florais e mangas amadurecendo no calor.

- Quanto falta ainda para chegar na casa nova da Sra. Talbot? Não podemos, por

favor, pegar uma carruagem? – pergunto com uma contrariedade que espero que

seja notada.

- Está um dia ótimo para uma caminhada. E eu agradeceria se você fosse mais gentil.

Meu aborrecimento foi realmente notado.

Sarita, nossa sofredora empregada, oferece romãs com suas mãos curtidas.

- Memsahib, estas estão muito boas. Talvez pudéssemos levar para o seu pai, sim?

Se eu fosse uma boa filha, levaria algumas para o meu pai, veria seus olhos azuis

brilharem quando ele abrisse a fruta vermelha e suculenta e depois comesse as

pequenas sementes com uma colher de prata, como convém a um cavalheiro inglês.

- Só vai servir para ele sujar seu terno branco – resmungo. Minha mãe começa a me

dizer alguma coisa, se arrepende no meio, suspira, como sempre. Nós costumávamos

ir a toda parte juntas, minha mãe e eu, visitar templos antigos, explorar os costumes

locais, assistir a festivais hindus, ficar acordadas até tarde para ver as ruas se

acenderem com a luz das velas. Agora, ela mal me leva para algumas visitas sociais.

É como se eu fosse uma leprosa sem uma colônia.

- Ele vai sujar o terno. Ele sempre suja – murmuro em minha defesa, embora

ninguém esteja prestando a menor atenção em mim, exceto o tocador de realejo e

seu macaco. Eles estão me seguindo, na esperança de conseguir algum dinheiro. A

gola alta da renda do meu vestido está empapada de suor. Anseio pelo verde

exuberante e fresco da Inglaterra, que só conheço das cartas da minha avó. Cartas

cheias de fofocas sobre chás dançantes e bailes e quem escandalizou quem do outro

lado do mundo, enquanto eu estou encalhada nesta Índia chata e poeirenta, vendo o

macaco de um tocador de realejo fazer um truque com tâmaras, o mesmo truque que

ele vem fazendo há um ano.

- Veja o macaco, memsahib. Veja como ele é adorável! – Sarita diz isso como se eu

ainda tivesse três anos e estivesse agarrada na barra da saia do seu sári. Ninguém

parece entender que tenho dezesseis anos e quero, não, preciso, ir para Londres,

onde posso estar perto dos museus, dos bailes e dos homens que têm mais de seis e

menos de sessenta anos.

- Sarita, esse macaco é um ladrão treinado que logo logo vai estar querendo o seu

dinheiro – eu disse com um suspiro. Dito e feito, o moleque peludo na mesma hora

pula no meu ombro com a pata estendida. – Que tal virar ensopado num jantar de

aniversário? – digo a ele trincando os dentes. O macaco guincha. Mamãe faz uma

careta ao ver minha falta de educação e deixa cair uma moeda na caneca do dono

dele. O macaco sorri em triunfo e pula por cima da minha cabeça antes de fugir.

Um vendedor estende uma máscara com dentes arreganhados e orelhas de elefante.

Sem uma palavra, mamãe põe a máscara na frente do rosto.

- Encontre-me se puder – ela diz. É uma brincadeira que ela faz comigo desde que

comecei a andar, uma espécie de esconde-esconde para me fazer sorrir. Uma

brincadeira de criança.

- Vejo apenas minha mãe – digo entediada. – Os mesmos dentes. As mesmas

orelhas.

Mamãe devolve a máscara ao vendedor. Atingi a vaidade dela, seu ponto fraco.

- Estou vendo que fazer dezesseis anos não cai muito bem na minha filha – ela diz.

- É, tenho dezesseis anos. Dezesseis. Uma idade em que a maioria das moças

decentes foi mandada para uma escola em Londres. – Enfatizo a palavra decentes, na

esperança de apelar para algum instinto maternal de vergonha e dignidade.

- Isto me parece um tanto verde – ela está examinando atentamente uma manga.

Esta inspeção é desgastante.

- Ninguém tentou manter Tom preso em Bombaim – digo, invocando o nome do meu

irmão como um último recurso. – Ele passou quatro anos inteiros lá! E agora está

começando a universidade.

- É diferente para os homens.

- Isso não é justo. Eu nunca vou ter uma oportunidade. Vou acabar sendo uma

solteirona com centenas de gatos que tomam leite em tigelas de porcelana.

Estou choramingando. É deselegante, mas não consigo parar.

- Compreendo – mamãe diz, finalmente. – Você gostaria de ser exibida nos salões de

Londres como um cavalo de raça para que avaliem suas capacidades reprodutoras?

Você ainda acharia Londres tão fascinante quando se tornasse objeto do mais cruel

falatório por ter quebrado alguma regra sem importância? Londres não é tão idílica

quanto as cartas de sua avó dão a entender.

- Eu não saberia dizer. Nunca estive lá.

- Gemma... – O tom de voz de mamãe é de advertência, embora continue a sorrir

para os indianos. Ela não pode permitir que eles pensem que nós, damas britânicas,

somos vulgares a ponto de discutir no meio da rua. Nós só falamos sobre o tempo, e

quando o tempo está ruim, fingimos não notar.

Sarita ri nervosamente.

- Como é possível que memsabih já seja uma moça? Parece que era ontem que ela

estava no berço. Ah, olhe, tâmaras! Suas favoritas. – Ela abre um sorriso de dentes

falhados que faz com que cada ruga do seu rosto sobressaia. Está calor e de repente

tenho vontade de gritar, de fugir de tudo e de todos.

- Essas tâmaras devem estar podres por dentro. Igualzinho à Índia.

- Gemma, agora chega – mamãe me fuzila com seus olhos verdes. Penetrantes e

sábios, como dizem as pessoas. Tenho os mesmo olhos verdes, grandes e puxados.

Os indianos dizem que eles são inquietantes, perturbadores. Como ser olhado por um

fantasma. Sarita sorri para os próprios pés, mantém as mãos ocupadas ajustando o

seu sári marrom. Sinto uma ponta de culpa por dizer uma coisa tão feia sobre a terra

dela. A nossa terra, embora eu não me sinta realmente em casa em lugar nenhum

esses dias.

- Memsahib, você não quer ir para Londres. Lá é frio e cinzento, e não tem ghee

(manteiga clarificada) para o pão. Você não vai gostar de lá.

Um trem apita ao entrar na estação próxima à deslumbrante baía. Bombaim. Quer

dizer boa baía, embora eu não consiga ver nada de bom nela neste momento. Uma

coluna escura de fumaça do trem sobe na direção das nuvens. Mamãe a observa

subir.

- Sim, fria e cinzenta. – Ela leva a mão à garganta e toca no colar que pende do seu

pescoço, um pequeno medalhão de prata com um olho por cima de uma lua

crescente. Um presente de um aldeão, segundo mamãe. Seu talismã. Eu nunca a vi

sem ele.

Sarita põe a mão no braço de mamãe.

- Está na hora de ir, memsahib.

Mamãe afasta os olhos do trem, larga o colar.

- Sim. Vamos. Vamos nos divertir muito na casa da Sra. Talbot. Tenho certeza de que

ela preparou bolos gostosos para o seu aniversário...

Um homem com um turbante branco e uma grossa capa preta de viagem dá um

encontrão nela por trás com toda a força.

- Mil perdões, ilustre senhora.

Ele sorri e faz um profunda reverência para se desculpar da sua grosseria. Ao fazer

isto, revela atrás de si um rapaz usando a mesma estranha capa. Por um momento,

meus olhos se cruzam com os do rapaz. Ele não é muito mais velho do que eu, não

deve ter mais de dezessete anos, é moreno, tem lábios grossos e os cílios mais

longos que já vi. Sei que não devo achar homens indianos atraentes, mas não

costumo ver muitos rapazes e me vejo ficando vermelha sem querer. Ele desvia os

olhos e estica o pescoço para olhar por cima da multidão.

- O senhor devia ter mais cuidado – Sarita diz para o homem, ameaçando-o com o

braço. – É melhor que o senhor não seja um ladrão, senão será punido.

- Não, não, memsahib, sou apenas muito desastrado. – Ele esquece o sorriso e o jeito

simplório. Murmura baixo para a minha mãe num inglês perfeito.

- Circe está perto.

Isto não faz sentido para mim, são apenas palavras ditas por um ladrão astuto para

nos distrair. Começo a dizer isso para minha mãe, mas a expressão de puro pânico

em seu rosto me deixa gelada. Seus olhos estão desvairados quando ela examina as

ruas apinhadas de gente como se estivesse procurando uma criança perdida.

- O que foi? O que aconteceu? – pergunto.

Os homens se foram. Eles desapareceram na multidão deixando apenas suas pegadas

na poeira.

- O que foi que o homem disse para você?

A voz da minha mãe é dura como aço:

- Não foi nada. Ele deve ser maluco. As ruas não são mais seguras hoje em dia.

Nunca ouvi minha mãe falar assim. Com tanta dureza. Com tanto medo.

- Gemma, acho melhor eu ir sozinha à casa da Sra. Talbot.

- Mas e o bolo? – É ridículo dizer isso, mas é meu aniversário, e embora eu não

queira passá-lo na sala de visitas da Sra. Talbot, certamente não quero desperdiçar o

dia sozinha em casa, só porque um doido de capa preta e seu bando assustaram a

minha mãe.

Mamãe aperta o xale ao redor dos ombros.

- Nós vamos comer bolo mais tarde...

- Mas você prometeu...

- Sim, bem, mas isso foi antes... – Ela não termina a frase.

- Antes do quê?

- Antes de você me irritar tanto! Francamente, Gemma, você não está com humor

para visitas hoje. Sarita vai levar você para casa.

- Estou de ótimo humor – protesto, demonstrando o contrário.

- Não está, não! – Os olhos verdes de mamãe fitam os meus. Existe alguma coisa

neles que nunca vi antes. Uma raiva enorme e aterradora que me deixa sem fôlego.

Com a mesma rapidez com que surgiu, ela desaparece, e mamãe volta a ser mamãe.

– Você está muito cansada, precisa de um descanso. Hoje à noite vamos comemorar

e vou deixar você beber um pouco de champanhe.

Vou deixar você beber um pouco de champanhe. Não é uma promessa – é uma

desculpa para se livrar de mim. Houve um tempo em que nós fazíamos tudo juntas, e

agora não podemos nem andar pelo mercado sem trocar alfinetadas. Sou motivo de

vergonha e decepção. Uma filha que ela não quer levar a lugar nenhum, nem a

Londres nem mesmo à casa de uma velhota que faz um chá fraco.

O trem torna a apitar, fazendo-a pular de susto.

- Olha, eu vou deixar você usar o meu colar, hummm? Toma, use o colar. Sei que

você sempre gostou dele.

Eu fico parada, muda, e deixo que ela pendure no meu pescoço um colar que sempre

desejei, é verdade, mas agora ele pesa em mim, uma coisa reluzente, odiosa. Um

suborno. Mamãe lança outro olhar rápido em direção ao mercado antes de me fitar

com seus olhos verdes.

- Pronto. Você parece... adulta. – Ela aperta o meu rosto com sua mão enluvada e se

demora, como se quisesse memorizar as minhas feições. Eu a vejo em casa.

Não quero que ninguém repare nas lágrimas que estão saltando dos meus olhos,

então tento pensar na pior coisa que poderia dizer e as palavras se formam nos meus

lábios quando estou saindo do mercado:

- Não me importo se você nunca mais voltar para casa.

CAPÍTULO

DOIS

Estou correndo no meio de uma multidão de vendedores e crianças mendigando

dinheiro entre camelos fedorentos, quase esbarrando em dois homens carregando

sáris pendurados num pedaço de corda amarrada em dois paus. Viro numa ruazinha

estreita e vou seguindo por becos sinuosos até ser obrigada a parar para recuperar o

fôlego. Lágrimas quentes descem pelo meu rosto. Eu me permito chorar agora que

não tem ninguém para ver.

Deus me livre das lágrimas de uma mulher, pois não tenho forças para resistir a elas.

Era isso que o meu pai iria dizer se estivesse aqui agora. Meu pai com seus olhos

cintilantes e seu bigode farto, sua gargalhada sonora quando eu o agrado e seu olhar

distante – como se eu não existisse – quando não me comporto como uma dama.

Imagino que ele não vá ficar feliz quando souber como me comportei. Dizer coisas

desagradáveis e sair correndo não é o tipo de comportamento capaz de conseguir

uma viagem para Londres. Meu estômago dói ao pensar nisso. O que foi que deu em

mim?

Agora só me resta engolir o meu orgulho, voltar e pedir desculpas. Se eu conseguir

achar o caminho de volta. Nada me parece familiar. Dois velhos estão sentados no

chão de pernas cruzadas, fumando pequenos cigarros marrons. Eles me vêem passar.

Percebo que estou sozinha na cidade pela primeira vez. Sem acompanhante. Sem

companhia. Uma dama desacompanhada. Isso é muito escandaloso. Meu coração

bate mais depressa e apresso o passo.

O ar está muito parado. A tempestade se aproxima. A distância, posso ouvir o

burburinho do mercado, as últimas ofertas do dia antes que tudo seja fechado devido

ao temporal da tarde. Sigo o som e chego onde estava antes. Os velhos sorriem para

mim, uma garota inglesa perdida e sozinha nas ruas de Bombaim. Eu poderia

perguntar a eles como voltar ao mercado, embora meu hindi não seja nem de longe

tão bom quanto o do papai, e é possível que Onde fica o mercado possa sair como Eu

invejo a bela vaca do seu vizinho. Ainda assim, vale a pena tentar.

- Com licença – digo para o homem mais velho, o que tem uma barba branca. – Acho

que estou perdida. O senhor poderia me dizer qual é o caminho para o mercado?

O sorriso do homem desaparece e é substituído por um olhar de medo. Ele fala com o

outro homem num dialeto que não entendo. Rostos espiam de janelas e portas,

tentando ver o que está causando problemas. O velho fica em pé, aponta para mim,

para o colar. Será que ele não gosta do colar? Alguma coisa em mim assustou-o. Ele

me enxota dali, entra e fecha a porta na minha cara. É revigorante saber que não só

minha mãe e Sarita que me acham intolerável.

Os rostos nas janelas continuam a vigiar-me. Caem as primeiras gotas de chuva. A

água molha o meu vestido. O céu vai desabar a qualquer momento. Tenho que voltar.

Não sei o que mamãe vai fazer se acabar encharcada por minha causa. Por que me

comportei como uma pirralha petulante? Agora ela nunca irá levar-me para Londres.

Vou acabar num convento austríaco, cercada por mulheres de bigode, estragando a

vista de tanta fazer rendas para o enxoval de outras moças. Não adianta amaldiçoar o

meu mau humor, isso não vai me levar de volta. Escolha uma direção, Gemma,

qualquer direção, e vá. Pego o caminho da direita. A rua desconhecida leva à outra e

à outra, e assim que viro uma curva eu o vejo vindo. O rapaz do mercado.

Não entre em pânico, Gemma. Afaste-se devagar, antes que ele a veja.

Dou dois passos rápidos para trás. Meu calcanhar pisa numa pedra escorregadia e

deslizo pela rua. Quando consigo me equilibrar, ele está olhando para mim, como um

olhar que não consigo decifrar. Por um segundo, nenhum de nós se mexe. Ficamos

tão imóveis quando o ar à nossa volta que está prometendo chuva ou ameaçando

uma tempestade.

Um medo súbito toma conta de mim, provocado por conversas ouvidas no gabinete

do meu pai – histórias acompanhadas de conhaque e charutos sobre a sorte de uma

mulher desacompanhada, subjugada por homens maus, sua vida arruinada para

sempre. Mas isso era apenas conversa. Ali estava um homem de verdade,

caminhando na minha direção, diminuindo a distância entre nós com passadas

vigorosas.

Ele quer me agarrar, mas eu não vou deixar. Com o coração aos pulos, levanto as

minhas saias, pronta pra correr. Tento dar um passo, mas minhas pernas estão

bambas. O chão treme e se ergue sobre mim.

O que está acontecendo?

Anda. Você tem que andar, mas não consigo. Sinto uma dormência estranha, que

começa nos meus dedos, sobe pelos braços até chegar no meu peito. Meu corpo

inteiro treme. Uma pressão terrível me impede de respirar, me faz cair de joelhos. O

pânico cresce como erva daninha em minha boca. Quero gritar. As palavras não

saem. Nenhum som. Ele me alcança quando caio no chão. Quero pedir a ele para me

ajudar. Focalizo o olhar no rosto dele, nos seus lábios grossos, que formam um arco

perfeito. Seus cachos caem sobre seus olhos, profundos, castanhos, de longos cílios.

Olhos assustados.

Ajude-me.

As palavras ficam presas dentro de mim. Não tenho mais medo de perder a minha

virtude; sei que devo estar ficando corada. Tento fazer a minha boca dizer isso a ele,

mas só consigo produzir um som estrangulado na garganta. Um cheiro forte de rosa e

especiarias me domina enquanto o horizonte se afasta, minhas pálpebras tremem e

luto para ficar acordada. São os lábios dele que se abrem, se movem, falam.

É a voz dele que diz:

- Está acontecendo.

A pressão aumenta até eu sentir que vou estourar, e aí estou caindo, um túnel

giratório de cor e luz ofuscantes puxando-me para baixo como uma corrente

marítima. Caio sem parar. Imagens se sucedem rapidamente. Passo por mim mesmo

aos dez anos, brincando com Julia, uma boneca de pano que perdi num piquenique

um ano depois; tenho seus anos, e Sarita está lavando o meu rosto para o jantar. O

tempo recua vertiginosamente, estou com três anos, com dois, sou um bebê, e

depois algo pálido e estranho, uma criatura do tamanho de um girino e tão frágil

quanto. A forte corrente me agarra com força, puxando-me através de um véu

escuro, até eu tornar a ver de novo aquela rua na Índia. Sou uma visitante,

caminhando como num sonho, sem ouvir nenhum som, exceto as batidas do meu

coração, o ar entrando e saindo dos meus pulmões, o sangue correndo pelas minhas

veias. Nos telhados acima de mim, o macaco do tocador de realejo escapa correndo,

mostrando os dentes. Tento falar mas não consigo. Ele pula para outro telhado. Uma

loja onde ervas secas pendem das calhas e um pequeno símbolo com um olho e uma

meia lua – igual ao do colar da minha mãe – está afixado na porta. Uma mulher sobe

rapidamente a rua inclinada. Uma mulher de cabelo castanho-dourado, vestido azul,

luvas brancas. Minha mãe. O que a minha mãe está fazendo aqui? Ela devia estar na

casa da Sra. Talbot, tomando chá e conversando sobre tecidos.

Meu nome flui dos seus lábios. Gemma. Gemma. Ela veio me procurar. O indiano de

turbante está logo atrás dela. Ela não percebe. Chamo por ela, mas minha boca não

emite nenhum som. Com uma das mãos, ela abre a porta da loja e entra. Vou atrás

dela, e o meu coração bate cada vez mais alto e depressa. Ela deve saber que o

homem está atrás dela. Ela deve estar ouvindo a respiração dele. Mas ela só olha

para frente.

O homem tira um punhal de dentro do casaco, mas ela não se vira. Sinto que vou

vomitar. Quero fazê-la parar, tira-la dali. Cada passo adiante é como empurrar o ar,

erguer as pernas, uma agonia em câmera lenta. O homem pára, escutando. Ele

arregala os olhos. Ele está com medo.

Tem alguma coisa enroscada, esperando nas sombras no fundo da loja. É como se a

escuridão começasse a se mover. Como ela pode estar se movendo? Mas está, com

um som gelado, deslizante, que faz a minha pele se arrepiar. Uma figura escura

estende-se para fora do seu esconderijo. Ela cresce até tomar todo o espaço. A

escuridão no centro da coisa está girando, e o som... os gritos e gemidos mais

medonhos vêm de dentro dela.

O homem avança e a coisa cai sobre ele. Ela o devora. Agora ela paira sobre a minha

mãe e fala num sibilo astuto:

Junte-se a nós, linda. Estávamos esperando...

O meu grito implode dentro de mim. Mamãe olha para trás, vê o punhal no chão,

agarra-o. A coisa uiva de raiva. Ela vai lutar. Ela vai ficar bem. Uma lágrima solitária

desce pelo seu rosto enquanto ela fecha os olhos em desespero, diz meu nome

baixinho com uma prece: Gemma. Com um movimento rápido, ela ergue o punhal e

enfia-o em si mesma.

Não!

Uma corrente forte me arranca de dentro da loja. Estou de volta às ruas de Bombaim,

como se nunca tivesse saído de lá, gritando feito louca enquanto o jovem indiano

aperta meus braços dos lados do meu corpo.

- O que você viu? Diga-me!

Chuto e me debato sob as mãos dele. Não há ninguém ali que possa me ajudar? O

que está acontecendo? Mamãe! Minha mente luta por controle, lógica, razão, e

consegue. Minha mãe está tomando chá na casa da Sra. Talbot. Vou até lá para

provar isto. Ela vai ficar zangada e me mandar para casa com Sarita e não haverá

champanhe mais tarde, nem Londres, mas isso não importa. Ela vai estar viva e bem,

e zangada, e eu vou ficar radiante de ser castigada por ela.

Ele ainda está gritando comigo:

- Você viu o meu irmão?

- Solte-me! – Eu o chuto com as minhas pernas que recuperaram as suas forças. E o

atinjo no mais sensível dos lugares. Ele desaba no chão, saio correndo às cegas pela

rua, dobro a esquina e continuo a correr, movida pelo medo. Uma pequena multidão

está parada na frente de uma loja. Uma loja com ervas secas penduradas no telhado.

Não. Isto tudo é um terrível pesadelo. Vou acordar na minha própria cama e ouvir a

voz alta e grossa do meu pai contando uma de suas piadas compridas, e a risada

delicada de mamãe soando em seguida.

Minhas pernas ficam duras e cheias de câimbras, vacilam quando eu me aproximo da

multidão e abro caminho no meio dela. O macaquinho do tocador de realejo pula para

o chão e inclina a cabeça de um lado para o outro, fitando o corpo com curiosidade.

As poucas pessoas que estão a minha frente se afastam. Minha mente assimila a

situação aos poucos. Um sapato virado, o salto quebrado. Uma mão estendida, com

os dedos ficando rígidos. O conteúdo de uma bolsa espalhado pelo chão. Um pescoço

nu saindo do corpete de um vestido azul. Aqueles famosos olhos verdes abertos sem

enxergar. A boca de mamãe entreaberta, como se ela estivesse tentando dizer

alguma coisa quando morreu.

Gemma.

Uma poça de sangue vermelho-escuro se espalha por baixo do seu corpo. Ele entra

pelas fendas da terra fazendo-me lembrar das pinturas que vi em Kali, a deusa

misteriosa que derrama sangue e esmaga ossos. Kali, a Destruidora. Minha santa

padroeira. Fecho os olhos, desejando que aquilo tudo desapareça.

Isso não está acontecendo. Isso não está acontecendo. Isso não está acontecendo.

Mas quando abro os olhos, ela ainda está lá, olhando fixamente para mim, acusadora.

Não me importo se você nunca mais voltar para casa. Foi a última coisa que eu disse

a ela. Antes de fugir. Antes de ele vir atrás de mim. Antes de eu a ver morrer numa

visão. Sinto uma dormência nas pernas e nos braços. Desabo no chão onde o sangue

da minha mãe toca a bainha do meu melhor vestido, manchando-o para sempre. E

então o grito que eu estava retendo sai de dentro de mim com a força e rapidez de

um trem noturno no momento em que o céu se abre e desaba o temporal, abafando

qualquer som.

Londres, Inglaterra. Dois meses depois.

***

CAPÍTULO

TRÊS

- Victoria! Esta é a Estação Victoria!

Um condutor forte, de uniforme azul, passa a caminho da parte traseira do nosso

trem, anunciando que cheguei, finalmente, em Londres. O trem está quase parando.

Grandes nuvens de vapor flutuam do lado de fora da janela fazendo com que tudo

pareça um sonho.

No assento em frente ao meu, meu irmão, Tom, está acordando, endireitando o

paletó preto, verificando se está tudo perfeito. Nos quatro anos em que estivemos

separados, ele ficou muito alto e com as costas mais largas, mas ainda é magro e

tem um topete que cai sobre seus olhos azuis e o faz parecer mais moço que os seus

vinte anos.

- Tente não parecer tão séria, Gemma. Você não está sendo mandada para a forca.

Spence é uma escola muito boa, com a reputação de formar jovens cativantes.

Uma escola muito boa. Jovens cativantes. Isso foi, palavra por palavra, o que minha

avó disse depois de passarmos duas semanas em Pleasant House, sua casa de

campo. Ela tinha me examinado atentamente, minha pele sardenta, minha indomável

cabeleira ruiva, minha fisionomia mal-humorada, e decidiu que eu precisava de uma

boa escola caso quisesse conseguir um casamento decente.

- É um espanto que você não tenha sido mandada para cá anos atrás - ela disse. -

Todo mundo sabe que o clima da Índia não é bom para o sangue. Tenho certeza que

era isto que sua mãe iria querer.

Eu teria que morder a língua para não perguntar como ela podia saber o que minha

mãe iria querer. Minha mãe queria que eu ficasse na Índia. Eu queria ir para Londres,

e agora que estou aqui, não podia estar mais infeliz.

Durante três horas, enquanto o trem atravessava pastagens verdes e montanhosas, e

a chuva batia nas janelas do trem, Tom tinha dormido. Mas eu só conseguia ver o

que tinha ficado para trás, o lugar de onde eu tinha vindo. As quentes planícies da

Índia. A polícia fazendo perguntas: Eu tinha visto alguém? Minha mãe tinha inimigos?

O que eu estava fazendo sozinha na rua?

E quanto ao homem que tinha falado com ela no mercado - um comerciante chamado

Amar? Eu o conhecia? Ele e minha mãe eram (e aqui eles ficaram sem jeito e

arrastaram os pés tentando encontrar uma palavra que não fosse muito indelicada)

"conhecidos"?

Como eu poderia dizer a eles o que tinha visto? Nem eu mesma conseguia acreditar.

Do lado e fora das janelas do trem, a Inglaterra ainda em flor. Mas a confusão do

carro de passageiros me fez lembrar do navio que nos trouxe da Índia através de

mares agitados. A costa da Inglaterra tomando forma diante de mim como um alerta.

Minha mãe enterrada no chão frio e implacável da Inglaterra. Meu pai olhando com

olhos vidrados a lápide - Virginia Doyle, amada esposa e mãe -, olhando através dela

como se pudesse mudar o que tinha acontecido por um ato de vontade. E como não

pôde, ele se retirou para o seu escritório e para a garrafa de láudano que se tornava

sua mais constante companhia. Às vezes eu o encontrava adormecido na cadeira,

com os cachorros a seus pés, a garrafa marrom ali perto, seu hálito forte e adocicado.

Antes um homem grande, ele tinha emagrecido, definhado de tristeza e ópio. E eu só

podia ficar ali ao lado ele, muda e impotente, a causa de tudo aquilo. A guardiã de

um segredo tão terrível que tinha medo de falar, tinha medo de que ele se

derramasse de mim como querosene, queimando todo mundo.

- Você está pensativa de novo - diz Tom, lançando um olhar desconfiado na minha

direção.

- Desculpe. Sim, desculpe, desculpe por tudo.

Tom suspira e diz:

- Não se desculpe. Simplesmente pare.

- Está bem, desculpe - eu torno a dizer sem querer. Toco no amuleto da minha mãe.

Ele agora está pendurado no meu pescoço, uma recordação da minha mãe e da

minha culpa, escondido por baixo do vestido de luto de crepe preto que vou usar por

seis meses.

Através da neblina cada vez mais espessa do lado de fora da nossa janela, posso ver

os carregadores acotovelando-se ao lado do trem, acompanhando o ritmo do trem,

prontos para colocar degraus de madeira sob as portas abertas para podermos descer

até a plataforma. Finalmente o nosso trem pára assobiando e soltando vapor.

Tom fica em pé e se espreguiça.

- Chegamos. Vamos logo, antes que ocupem todos os carregadores.

A Estação Victoria me deixa sem fôlego de tanta agitação. Hordas andam de um lado

para o outro na plataforma. Na extremidade do trem, os passageiros da terceira

classe desembarcam numa confusão de braços e pernas. Carregadores correm para

transportar as malas e embrulhos dos passageiros da primeira classe. Jornaleiros

erguem no ar os jornais do dia, anunciando aos berros as manchetes mais atraentes.

Floristas perambulam por ali com sorrisos tão duros e gastos quanto as bandejas de

madeira penduradas em seus pescoços delicados. Sou quase carregada por um

homem que passa apressado, com o guarda-chuva enfiado debaixo do braço.

- Perdão - murmuro aborrecida. Ele me ignora. Quando olho para a extremidade da

plataforma, vejo uma coisa estranha. Uma capa preta de viagem, que faz meu

coração bater mais depressa. Minha boca fica seca. É impossível que ele esteja aqui.

Entretanto, tenho certeza de que é ele desaparecendo atrás de um quiosque. Tento

me aproximar mas está cheio demais.

- O que você está fazendo? - Tom pergunta, enquanto eu me esforço para vencer a

multidão.

- Só estou olhando - digo, torcendo para ele não perceber o medo em minha voz. Um

homem sai de trás de um quiosque carregando no ombro um pacote de jornais. Seu

casaco, fino e preto e vários números acima do seu tamanho, cobre-o como se fosse

uma capa. Quase rio de alívio. Está vendo, Gemma? Você está imaginando coisas.

Pare com isso.

- Bem, se você vai dar uma olhada por aí, veja se consegue encontrar um carregador.

Não sei onde eles se enfiaram tão depressa.

Um jornaleiro mirrado aparece e se oferece para nos conseguir um trole por dois

pence. Ele carrega com dificuldade a mala com os meus poucos pertences: um

punhado de vestidos, o diário da minha mãe, um sári vermelho, um elefante branco

esculpido da Índia e o adorado bastão de críquete do meu pai, algo que o lembra em

dias melhores.

Tom me ajuda a entrar na carruagem, e o cocheiro se afasta da enorme dama

esparramada que é a Estação Victoria, trotando na direção do coração de Londres. A

atmosfera é sombria, coberta da fumaça dos lampiões e gás que ladeiam as ruas de

Londres. A neblina cinzenta dá a impressão de estar anoitecendo, embora sejam

apenas quatro horas da tarde. Qualquer coisa poderia arrastar-se atrás de você

nessas ruas escuras. Não sei por que penso nisso, mas penso, e na mesma hora

afasto esse pensamento.

As torres finas como agulhas do Parlamento erguem-se acima dos contornos escuros

das chaminés. Nas ruas, diversos homens cobertos de suor cavam buracos profundos

nas pedras do calçamento.

- O que eles estão fazendo?

- Colocando cabos de eletricidade - Tom responde, tossindo sobre um lenço branco

com suas iniciais bordadas no canto numa elegante letra preta. - Em breve esta luz a

gás sufocante será coisa do passado.