Belezas Perigosas por Libba Bray - Versão HTML

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Nas ruas, vendedores apregoam as mercadorias que carregam em carroças, cada um

com seu grito característico: - Afiador de facas; vendem-se peixes; comprem maçãs -

maçãs aqui! Leiteiras entregam o último leite do dia. Estranhamente, tudo isso me faz

lembrar a Índia. Há vitrines tentadoras com tudo o que se posso imaginar - chá,

roupas de cama, porcelanas e lindos vestidos copiados dos melhores estilistas de

Paris. Uma placa pendurada numa janela do segundo andar anuncia que ali existem

escritórios para alugar, informações no local. Bicicletas passam zunindo no meio dos

troles nas ruas. Eu me seguro com medo de o cavalo se assustar com elas, mas a

égua que nos conduz parece totalmente desinteressada. Ele já viu tudo isso antes, ao

contrário de mim.

Um ônibus cheio de passageiros passa por nós, puxado por uma parelha de cavalos

magníficos. Há um grupo de senhoras empertigadas nos assentos de cima do ônibus,

com os guarda-sóis abertos para protegê-las das forças da natureza. Uma longa tira

de madeira anunciando o sabonete Pear esconde engenhosamente os tornozelos

delas, em nome da decência. É uma visão extraordinária, e a vontade que eu tenho é

de continuar a percorrer as ruas de Londres, respirando a poeira da história que só

conheço de fotografias. Homens de ternos escuros e chapéus-coco deixam seus

escritórios, marchando confiantemente para casa depois de um dia de trabalho. Vejo

a cúpula branca da Catedral de St. Paul erguendo-se acima dos telhados sujos de

fuligem. Um cartaz pendurado anuncia uma produção de Macbeth estrelada pela atriz

americana Lily Trimble. Ela está encantadora com seu cabelo castanho solto e

selvagem, um vestido vermelho com um decote ousado. Eu me pergunto se as

garotas no Spence serão tão bonitas e sofisticadas.

- Lily Trimble é linda, não é? – digo, tentando uma conversa fútil e agradável com

Tom, tarefa aparentemente impossível.

- É uma atriz – Tom diz com desprezo. – Que tipo de vida é essa para uma mulher,

sem um lar sólido, marido, filhos? Andando por aí como se fosse seu dono e senhor.

Ela jamais será aceita na sociedade como uma dama.

E foi nisso que deu a minha conversa fútil.

Em partes tenho vontade de dar um chute em Tom por sua arrogância. Mas tenho

que confessar que, por outro lado, estou louca para saber o que os homens procuram

numa mulher. Meu irmão pode ser afetado, mas ele sabe certas coisas que podem ser

úteis para mim.

- Entendo – digo com naturalidade, como se quisesse saber o que torna um jardim

bonito. Eu me mostro controlada. Educada. Elegante. – E quais são os atributos de

uma dama?

Ele dá a impressão de que deveria estar com um cachimbo na boca quando diz:

- Um homem quer uma mulher que torne a vida fácil para ele. Ela deve ser atraente,

bem-educada, conhecer música, pintura, saber dirigir uma casa, mas acima de tudo

ela deve manter o nome dele livre de qualquer escândalo e nunca chamar atenção

para si mesma.

Ele deve estar brincando. Daqui a um minuto vai rir e dizer que era só uma

brincadeira, mas não muda o seu sorriso presunçoso. Não vou aceitar este insulto.

- Mamãe tinha o mesmo valor que papai – digo friamente. – Ele não esperava que ela

andasse atrás dele como uma imbecil.

O sorriso de Tom murcha.

- Exatamente. E veja o que isso nos causou. – Outro silêncio. Do lado de fora das

janelas do trole, Londres vai passando, e Tom vira a cabeça para acompanhá-la. Pela

primeira vez, percebo sua dor, vejo-a no modo como ele passa de dedos pelo cabelo,

sem parar, e compreendo o quanto é difícil para ele ocultar tanto sofrimento. Mas não

sei como quebrar aquele silêncio pesado, então nós prosseguimos, olhando tudo,

vendo muito pouco e não dizendo nada.

- Gemma... – A voz de Tom falseia e ele pára por um momento. Está lutando contra

algo que borbulha dentro dele. – Aquele dia com mamãe... por que diabos você

fugiu? O que foi que deu em você?

Minha voz é um sussurro:

- Eu não sei. – Pois a verdade não seria um consolo.

- A falta de lógica das mulheres.

- Sim – digo, não porque eu concordo com ele, mas porque quero dar alguma coisa

para ele, qualquer coisa. Digo isso porque quero que ele me perdoe. E aí talvez eu

consiga perdoar a mim mesma. Talvez.

- Você conhecia aquele – ele trinca os dentes ao dizer a palavra – homem que

encontraram morto junto com ela?

- Não – sussurro.

- Sarita disse que você estava histérica quando ela e a policia a encontraram. Falando

de um rapaz indiano e uma visão de... uma coisa qualquer. – Ele faz uma pausa,

esfrega as palmas das mãos nos joelhos das calças. Ele ainda não está me

encarando.

Minhas mãos tremem. Eu podia contar a ele. Eu podia contar a ele o que estava

trancado dentro de mim. Neste momento, coma aquela mecha de cabelo caindo nos

olhos, ele é o irmão de quem eu tinha mais saudade, aquele que em dia me trouxe

pedrinhas do mar e me disse que elas eram jóias do rajá. Quero dizer a ele que estou

com medo, enlouquecendo aos poucos e que nada mais me parece real. Quero contar

a ele sobre a visão, quero que ele me dê um tapinha na cabeça daquele seu modo

irritante e forneça uma explicação perfeitamente lógica para o fato. Quero perguntar

a ele se é possível que uma garota já nasça com uma incapacidade de se fazer amar

ou se ela apenas desenvolve essa característica. Quero contar tudo a ele e fazer com

que compreenda.

Tom pigarreia.

- O que quero dizer é... aconteceu alguma coisa com você? Ele... você está bem?

Minhas palavras nos empurram de volta a um silêncio pesado e profundo.

- Você quer saber se eu sou casta.

- Se você quer ser assim tão direta, sim.

Agora vejo que fui ridícula em pensar que ele queria saber o que tinha realmente

acontecido. Ele só está preocupado em saber se não envergonhei a família.

- Sim, eu estou, conforme suas palavras, perfeitamente bem.

Isto é uma mentira tão grande que tenho vontade de rir – é claro que eu não estou

nada bem. Mas conforme eu esperava, funciona. Viver no mundo deles é isto – uma

grande mentira. Uma ilusão em que todo mundo olha para o outro lado e finge que

não existe nada que seja desagradável, nem demônios da escuridão nem fantasmas

da alma.

Tom endireita os ombros, aliviado.

- Certo. Muito bem. – O momento humano passou e ele está perfeitamente

controlado de novo. – Gemma, o assassinato de mamãe é um golpe para esta família.

Séria um escândalo se os fatos verdadeiros fossem conhecidos. – Ele olha para mim.

– Mamãe morreu de cólera – ele diz enfaticamente, como se até ele acreditasse

naquela mentira. – Sei que você não concorda, mas como seu irmão estou lhe

dizendo que quanto menos for dito a respeito, melhor. Isto é para a sua própria

proteção.

Ele só se importa com fatos, não com sentimentos. Isto vai ser bom para ele como

médico algum dia. Sei que o que ele está me dizendo é verdade, mas não consigo

deixar de odiá-lo por isso.

- Você tem certeza de que é com a minha proteção que está preocupado?

Ele torna a trincar os dentes.

- Vou ignorar esse último comentário. Se você não quer pensar em mim, em si

mesma, então pense em papai. Ele não está bem, Gemma. Você pode ver isso. As

circunstâncias da morte de mamãe arruinaram com ele. – Tom brinca com os punhos

da camisa. – É bom que você saiba que papai adquiriu alguns péssimos hábitos na

Índia. Partilhar o houkah com os indianos pode tê-lo tornado um empresário popular,

alguém que eles consideravam como um deles, mas não ajudou muito a sua saúde.

Ele sempre gostou dos seus prazeres. Dos seus escapes.

Papai às vezes chegava em casa tarde e exausto do trabalho. Vi mamãe e os

empregados ajudando-o a ir para a cama mais de uma vez. Ainda assim, dói ouvir

isso. Odeio Tom por me contar.

- Então, por que você continua a conseguir o láudano para ele?

- Não há nada errado como o láudano. É medicinal – ele diz, ofendido.

- Se usado com moderação...

- Papai não é nenhum viciado. Não papai – ele diz, como se quisesse convencer um

júri. – Ele vai ficar bem agora que está de volta a Inglaterra. Apenas lembre-se do

que eu disse. Você pode ao menos prometer isso? Por favor?

- Sim, está bem – respondi, sentindo-me morta por dentro. Spence não imagina o

péssimo negócio que fez ao me aceitar, o fantasma de uma garota que vai balançar a

cabeça, sorrir e tomar seu chá, mas que não está realmente aqui.

O cocheiro dirige-se a nós:

- Senhor, vamos ter que passar pelo East caso queria fechar as cortinas.

- O que ele está dizendo? – pergunto.

- Vamos passar pelo East End. Whitechapel? Ora, pelo amor de Deus, as favelas,

Gemma – ele diz, fechando as cortinas para bloquear a visão da miséria e da sujeira.

- Eu vi as favelas na Índia – digo, deixando minhas cortinas abertas. A carruagem

segue aos solavancos pelo calçamento de pedras, passando por ruas estreitas e

sujas. Dúzias de crianças sujas e magras correm para olhar para nós na nossa bela

carruagem. Diversas mulheres estão reunidas debaixo de um lampião, costurando.

Faz sentido elas usarem a luz da cidade, em vez de gastar suas preciosas velas para

esse trabalho ingrato. O cheiro nas ruas, uma mistura de lixo, bosta de cavalo, urina

e desespero, é realmente terrível, e sinto vontade de vomitar. Música alta e gritos

invadem a rua vindo de dentro de uma taverna. Um casal embriagado sai aos

tropeções. A mulher tem cabelo da cor do pôr-do-sol e um rosto duro, pintado. Eles

estão discutindo com o nosso cocheiro, segurando-nos ali.

- O que houve agora? – Tom bate na carroceria da carruagem para apressar o

cocheiro. Mas a dama está dando uma espinafração em regra no cocheiro. É capaz de

ficarmos presos aqui a noite inteira. O bêbado dá um sorriso debochado na minha

direção, pisca um olho e faz um gesto obsceno com o dedo médio.

Enjoada, eu me viro e olho para um beco vazio. Tom está debruçado para fora da

janela. Eu o ouço falar, conciliador e impaciente, tentando argumentar com o casal na

rua. Mas alguma coisa deu errado. Sua voz fica abafada, como sons ouvidos através

de uma concha encostada no ouvido. E então ouço apenas o meu sangue correndo

rápido nas veias. Uma pressão tremenda no meu peito tira todo o ar dos meus

pulmões.

Está acontecendo de novo.

Quero chamar Tom, mas não consigo, e então estou caindo por aquele túnel de cor e

luz outra vez, enquanto o beco se entorta e brilha. E com a mesma rapidez flutuo

para fora da carruagem, pisando de leve no beco escuro com suas bordas faiscantes.

Uma menina de uns oito anos está sentada no chão coberto de palha, brincando com

uma boneca de pano. O rosto dela está sujo, mas a não ser por isso ela parece

deslocada ali, com sua fita cor-de-rosa no cabelo e seu avental branco engomado,

grande demais para ela. Ela está cantando um fragmento de canção, algo que

identifico vagamente como uma velha canção folclórica inglesa. Quando me

aproximo, ela ergue os olhos.

- A minha boneca não é linda?

- Você pode me ver? – pergunto.

Ela balança a cabeça afirmativamente e volta a passar os dedos sujos pelos cabelos

da boneca.

- Ela está procurando você.

- Quem?

- Mary.

- Mary? Que Mary?

- Ela me mandou aqui para procurar você. Mas temos que ter cuidado. Isso também

está procurando você.

O ar muda e fica frio e úmido. Estou tremendo incontrolavelmente.

- Quem é você?

Atrás da garotinha, percebo um movimento no escuro. Pisco para clarear os olhos,

mas não é nenhum truque – as sombras estão se movendo. Rápido como prata

líquida, a escuridão toma uma forma medonha, ossos brilhando numa caveira,

buracos pretos onde devia haver olhos. O cabelo um emaranhado de cobras. A boca

se abre e lança o seu gemido rouco. Venha para nós, minha linda, linda...

- Corra. – A palavra é um sussurro estrangulado em minha língua. A coisa está

crescendo, deslizando na minha direção. Os urros e gemidos dentro dela deixaram

cada célula do meu corpo fria como gelo. Um grito tenta escapar pela minha

garganta. Se eu o deixar sair, nunca mais vou parar de gritar.

Com o coração disparado, torno a dizer, desta vez mais forte:

- Corra!

A coisa hesita, recua. Fareja o ar como se estivesse seguindo um cheiro. A

meninazinha me fita com seus olhos castanhos e sem expressão.

- Tarde demais – ela diz, no mesmo momento em que a criatura vira os seus olhos

cegos na minha direção. Os lábios apodrecidos se abrem, revelando dentes como

pregos. Meu Deus, a coisa está sorrindo para mim. Ela abre aquela horrível boca e

berra. Um som que solta finalmente a minha língua.

- Não! – Num instante estou de volta dentro da carruagem, debruçada na janela,

gritando com o casal:

- Saiam do maldito caminho, agora! – grito, batendo no traseiro do cavalo com meu

xale. A égua relincha e dá um salto para a frente, fazendo o casal correr para dentro

da taverna.

O cocheiro domina o cavalo, enquanto Tom me puxa de volta para o assento.

- Gemma! O que foi que deu em você?

- Eu...

No beco, procuro a coisa e não consigo encontrá-la. É apenas um beco, com uma

iluminação fraca e várias crianças sujas tentando roubar o chapéu de um menino

menor, suas gargalhadas ecoando nas cocheiras e cabanas em ruínas. A cena fica

para trás e se perde na noite.

- Gemma, você está bem? - Tom está genuinamente preocupado.

Eu estou ficando louca, Tom. Ajude-me.

- Eu só estava com pressa.

O som que sai da minha boca é uma mistura de riso e uivo, o som típico de uma

louca.

Tom olha pra mim como se eu sofresse de uma doença rara que ele não fosse capaz

de tratar.

- Pelo amor de Deus! Controle-se. E, por favor, modere sua linguagem no Spence.

Não quero ter que voltar para buscá-la horas depois de tê-la colocado lá.

- Sim, Tom – digo enquanto a carruagem volta à vida sobre as pedras, levando-nos

para longe de Londres e de fantasmas.

CAPÍTULO

QUATRO

- Ali está a escola, senhor – O cocheiro anuncia.

Nós estivemos viajando uma hora por colinas pontilhadas de árvores. O sol já se pôs,

o céu tem aquele azul enevoado do crepúsculo. Quando olho pela minha janela, só

consigo ver uma cobertura de galhos no alto, e através do rendado das folhas,

enxergo a lua, madura como um melão. Estou começando a achar que o nosso

cocheiro está imaginando coisas também, mas alcançamos o alto de uma colina e

Spence aparece em todo o seu esplendor.

Eu tinha esperado um pequeno chalé, do tipo descrito em folhetos baratos onde

garotas de bochechas rosadas jogam tênis em gramados verdes e bem tratados. Não

há nada de aconchegante em Spence. O lugar é enorme, um castelo esquecido com

enormes torres e pináculos finos e pontudos. Seria preciso pelo menos um ano para

eu conhecer cada aposento do castelo, sem dúvida.

- Oa! – O cocheiro pára abruptamente. Tem alguém na estrada.

- Quem está ai? – Uma mulher vem para o meu lado da carruagem e espia para

dentro. Uma velha cigana. Ela tem um xale ricamente bordado amarrado na cabeça e

suas jóias são de ouro puro, mas fora isso ela está totalmente desgrenhada.

- O que foi agora? – Tom diz, suspirando.

Estico a cabeça para fora. Quando o luar ilumina o meu rosto, a expressão da cigana

se suaviza.

- Ah, mas é você. Você voltou para mim.

- Desculpe, madame. A senhora deve ter me confundido com outra pessoa.

- Ah, mas onde está Carolina? Onde ela está? Você a levou? – Ela começa a gemer

baixinho.

- Por favor, senhora, agora nos deixe passar – o cocheiro diz. – Muito bem.

Com um estalo de rédeas, a carruagem avança novamente, enquanto a mulher grita

atrás de nós:

- Mãe Elena vê tudo. Ela conhece o seu coração! Ela conhece!

- Meu Deus, eles têm seu próprio eremita – Tom diz debochando. – Que chique!

Tom pode rir, mas não vejo a hora de sair da carruagem e da escuridão.

O cavalo nos conduz por baixo de uma arcada de pedra e através de portões que vão

dar num belo jardim. Consigo distinguir um gramado maravilhoso, perfeito para jogar

tênis ou croqué, e jardins exuberantes. Um pouco mais adiante fica um bosque de

árvores enormes, fechado como uma floresta. Além das árvores há uma capela no

alto de uma colina. A paisagem parece estar ali intocada há séculos.

A carruagem sobe a colina que vai dar na porta principal de Spence. Estico a cabeça

para fora da janela para olhar o enorme edifício. Tem alguma coisa se projetando do

telhado. É difícil distinguir o que é naquela luz fraca do anoitecer. A lua sai de trás

das nuvens e eu as vejo claramente: gárgulas. O luar passeia sobre o telhado,

iluminando pedaços das figuras – dentes afiados, uma boca arreganhada, olhos

raivosos.

Bem-vinda á escola para moças, Gemma. Você vai aprender a bordar, a servir chá, a

fazer reverência. Ah, por falar nisso, você corre o risco de ser exterminada no meio

da noite por uma das terríveis criaturas aladas do telhado.

A carruagem pára com um solavanco. Minha mala é colocada na enorme escadaria de

pedra que vai dar nas amplas portas de madeira. Tom bate na porta com a imensa

aldrava de latão, que é do tamanho da minha cabeça. Enquanto esperamos, ele não

resiste e me dá mais um conselho fraternal:

-É muito importante que você se comporte de acordo com a sua posição social aqui

em Spence. Está bem que você seja gentil com as moças de posição inferior, mas

lembre-se de que elas não estão no mesmo nível que você.

Posição social. Moças de posição inferior. Não estão no mesmo nível que você. É

realmente uma piada. Afinal de contas, sou a responsável indireta pelo assassinado

da própria mãe, aquela que tem visões. Finjo endireitar o chapéu no reflexo do metal

da aldrava. Qualquer mau pressentimento que eu possa ter provavelmente irá

desaparecer assim que a porta se abrir e uma bondosa governanta aparecer para me

dar um braço e um largo sorriso.

Certo. Dou mais uma batida na porta para mostrar que sou uma garota boa e firme,

do tipo que todo colégio interno gostaria de ter em seus quadros. As pesadas portas

de carvalho de abrem, revelando a fisionomia dura e a figura pesadona de uma

governanta que tem o calor do País de Gales em pleno inferno. Ela me lança um olhar

zangado, enxugando as mãos no seu aventar branco engomado.

- A senhora deve ser Miss Doyle. Nós esperávamos que chegasse há meia hora. A

senhorita está fazendo a diretora esperar. Vamos. Siga-me.

A governanta nos manda esperar um instante numa sala grande e fracamente

iluminada, cheia de livros empoeirados e samambaias ressecadas. A lareira está

acesa. Ela cospe e chia enquanto devora a lenha. Risos soam através das portas

duplas abertas e, logo em seguida, vejo diversas garotas de aventais brancos

passando pelo hall. Uma delas espia para dentro, me vê e prossegue como se eu

fosse apenas um móvel. Mas logo depois ela volta com outras. Elas se derretem para

Tom, que se assanha para elas, inclinando-se, o que as faz corar e dar risinhos.

Deus nos ajude.

Tenho ímpetos de dar com o atiçador de lareira na cabeça do meu irmão para acabar

com este espetáculo. Felizmente, sou poupada destes impulsos assassinos. A

governanta mal-humorada está de volta. Está na hora de Tom e eu nos despedirmos,

despedida esta que consiste principalmente em nós dois olhando fixamente para o

tapete.

- Bem. Acho que verei você no próximo mês do Dia da Assembléia, junto com as

outras famílias.

- Suponho que sim.

- Seja motivo de orgulho para nós, Gemma – ele diz finalmente. Nenhuma palavra de

conforto: Eu amo você, tudo vai dar certo, você vai ver. Ele torna a sorrir para o

grupo embevecido de garotas que ainda está escondido no hall, e então sai. Eu fico

sozinha.

- Por aqui por favor, senhorita – a governanta diz. Eu a acompanho até um vestíbulo

incrivelmente grande, com uma enorme escadaria dupla. A escadaria se divide tanto

para a esquerda quanto para a direita. Um sopro de vento que entra por uma janela

aberta balança os cristais de um lustre no teto. É fantástico. Cristais delicados presos

em serpentes de metal.

- Vá com cuidado, senhorita – a governanta avisa. – A escada é íngreme.

A escadaria parece não acabar nunca. Por cima do corrimão, posso ver o mármore

preto-e-branco formando losangos no chão lá embaixo. O retrato de uma mulher de

cabelos brancos usando um vestido que devia estar no auge da moda uns vinte anos

atrás nos dá as boas-vindas no alto da escadaria.

- Essa é a Sra. Spence – a governanta me informa.

- Ah – digo. – Encantadora.

O quadro é enorme – é como ter o olho de Deus vigiando você.

Percorrermos um longo corredor, até um conjunto imponente de portas duplas. A

governanta bate à porta e espera. Uma voz responde de dentro:

- Entre. – E entro num aposento com paredes forradas de papel verde-escuro modelo

penas de pavão. Uma mulher um tanto pesadona com uma vasta cabeleira castanha

já meio grisalha está sentada a uma larga escrivaninha, com um par de óculos de aro

de metal no nariz.

- Isso é tudo, Brigid – ela diz, dispensando a simpática e carinhosa governanta. A

diretora continua a tratar da correspondência enquanto fico ali parada no tapete

persa, fingindo que estou absolutamente fascinada pela estátua de uma

empregadinha alemã carregando baldes de leite nos ombros. O que quero mesmo

fazer é dar meia-volta e sair correndo dali.

Desculpe, o erro foi meu. Acho que eu deveria ter me apresentado em outro colégio

interno, dirigido por seres humanos que fossem capazes de oferecer um chá ou pelo

menos uma cadeira a uma moça. Um relógio marca os segundos, e seu ritmo me faz

mergulhar num cansaço contra o qual eu vinha lutando.

Finalmente, a diretora pousa a sua pena. Ele aponta para uma cadeira do outro lado

da escrivaninha.

- Sente-se.

Ela não diz “por favor”. Nem “faça a gentileza”. Eu me sinto tão bem-vinda quanto

uma dose de óleo de fígado de bacalhau. O monstro tenta um olhar beatífico que

poderia ser confundindo com uma rajada de vento.

- Sou a Sra. Nigthtwing, diretora da Academia Spence. Espero que tenha feito boa

viajem, Miss Doyle.

- Ah, sim, obrigada.

Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque.

- Brigid deixou-a à vontade?

- Sim, obrigada.

Tique, tique, tique, taque.

- Normalmente não aceitamos alunas novas de idade tão avançada. Acho que é mais

difícil para elas se acostumarem com o estilo de vida em Spence. – Isso já é um

ponto negativo para mim. – Mas nestas circunstancias, acho que é nosso dever

cristão abrir uma exceção. Sinto muito por sua perda.

Eu não digo nada e fixo o meu olhar naquela tola leiteirinha alemã. Ela tem

bochechas rosadas e sorri, e deve estar percorrendo o caminho de volta para uma

pequena aldeia onde sua mãe está esperando por ela e não há nenhum monstro

espreitando nas sombras.

Como não respondo, a Sra. Nigthtwing continua:

- Sei que a tradição prevê um período de luto de pelo menos um ano. Mas não acho

saudável este lembrete persistente. Ele nos mantém centrados nos mortos, e não nos

vivos. Reconheço que isto é pouco convencional. – Ela me lança um longo olhar por

cima dos óculos para ver se vou discordar. Eu não discordo. – É importante que você

fique na mesma situação das outras meninas. Afinal de contas, algumas delas estão

conosco há anos, muito mais do que ficaram com suas próprias famílias. Spence é

como uma família, onde existe afeição e honra, regras e consequências. – Ela enfatiza

esta última palavra. – Portanto, você vai usar o mesmo uniforme que todas usam.

Está bem assim pra você?

- Sim – digo. E embora me sinta um tanto culpada por abandonar o luto tão cedo, na

verdade agradeço a chance de ficar igual às outras. Isso vai me ajudar a passar

despercebida, espero.

- Esplêndido. Bem, você vai ficar na primeira série, com seis mocinhas da sua idade.

O café-da-manhã é servido pontualmente às nove horas. Você terá aulas de francês

com Mademoiselle LeFarge, desenho com Miss Moore, música com o Sr. Grunewald.

Eu me encarreguei das suas aulas de comportamento. As orações são feitas todas as

noites, às seis horas, na capela. De fato – Ela olha para o relógio – iremos para a

capela daqui a pouco. O jantar é servido em seguida, às sete horas. Depois tem-se

um tempo livre no salão e todas as meninas devem estar na cama às dez horas.

Ela tenta dar um daqueles sorrisos confessionais, do tipo que se vê geralmente em

retratos a óleo de Florence Nightingale. Na minha experiência, esses sorrisos

significam que a verdadeira mensagem – aquela que está oculta por trás das boas

maneiras – precisará ser traduzida.

- Acho que vai ser muito feliz aqui, Miss Doyle.

Tradução: isto é uma ordem.

- Spence já formou jovens maravilhosas que conseguiram ótimos casamentos.

Nós não esperamos muito mais de você. Por favor, não nos envergonhe.

- Ora, um dia você poderá estar sentada aqui nesta cadeira.

Se você não conseguir arranjar nenhum marido e não terminar num convento

austríaco fazendo camisolas de renda.

O sorriso da Sra. Nigthtwing treme um pouco. Sei que ela está esperando que eu diga

alguma coisa encantadora, alguma coisa que a convença de que não cometeu um

erro ao aceitar uma garota deprimida que parece totalmente inadequada para

Spence. Vamos, Gemma. Atire um osso para ela – diga-lhe o quanto se sente feliz e

orgulhosa em fazer parte da família Spence. Eu simplesmente balanço a cabeça. O

sorriso dela desaparece.

- Enquanto você estiver aqui, posso ser uma sólida aliada, desde que você siga as

regras. Ou a espada que irá moldá-la caso não o faça. Estamos entendidas?

- Sim, Sra. Nigthtwing.

- Excelente. Vou mostrar-lhe a casa e depois você pode ir se vestir para as orações.

*

- Seu quarto é aqui.

Estamos no terceiro andar, caminhando por um corredor com muitas portas. Retratos

de diversas turmas de alunas do Spence estão pendurados nas paredes – rostos

granulosos mais difíceis ainda de ver na luz fraca dos poucos lampiões a gás.

Finalmente, chegamos a um quarto no final do corredor, do lado esquerdo. A Sra.

Nigthtwing abre a porta e mostra um quarto apertado, com cheiro de mofo, que

poderia ser descrito, de forma otimista, como triste e, de forma realista, como

desmazelado. Tem uma escrivaninha e uma cadeira com manchas de umidade e um

lampião. Duas camas de ferro estão encostadas nas paredes do lado direito e do lado

esquerdo. Uma das camas parece usada e está coberta com uma colcha. A outra, a

minha cama, está encaixada sob um teto inclinado que provavelmente quebraria o

meu crânio caso eu me levantasse depressa demais. É um quarto de dormir projetado

do lado do edifício como algo que não havia sido previsto antes – perfeito para uma

aluna inesperada, acrescentada à lista no último minuto.

A Sra. Nigthtwing passa o dedo no tampo da escrivaninha e franze a testa ao

descobrir a existência de poeira.

- É claro que nós damos preferência às meninas que já estiveram conosco no ano

passado – ela diz, desculpando-se pelo meu novo lar. – Mas creio que você vai achar

o seu quarto alegre e bastante prático. Ele tem uma vista maravilhosa.

Ela tem razão. Parada em frente à janela, vejo o gramado dos fundos iluminado pelo

luar, os jardins, a capela sobre a colina e um grande muro de árvores.

- É uma linda vista – digo, tentando ser ao mesmo tempo alegre e prática.

Isto agrada a Sra. Nigthtwing, que sorri.

- Você vai dividir o quarto com Ann Bradshaw. Ann é muito prestativa. Ela é uma das

nossas alunas com bolsa de estudo.

Essa é uma maneira simpática de dizer “um dos nossos casos de caridade”, alguma

pobre menina despachada para a escola por um parente distante ou ganhadora de

uma bolsa de estudos por parte de um dos benfeitores de Spence. A colcha de Ann

está perfeitamente lisa e enfiada sob o colchão, e imagino qual será a situação dela,

ou se nos daremos bem o suficiente para que ela queira me contar.

A porta do armário está aberta. Tem um uniforme pendurado lá dentro - uma saia

branca, reluzente; blusa branca com enfeites de renda na frente e mangas bufantes

que se estreitam em punhos apertados; botas brancas com ganchos e cadarços, e

uma capa de veludo azul-escuro com capuz.

- Você pode se vestir para as orações. Vou dar-lhe alguns minutos. - Ela fecha a porta

e visto o uniforme, fechando os diversos botõezinhos. A bainha está curta demais,

mas fora isso o uniforme cabe bem em mim.

A Sra. Nigthtwing nota a saia curta demais e franze a testa.

- Você é bem alta. – Exatamente o que uma garota quer ouvir. – Bem, Brigid vai

descer a bainha. – Ela se vira e vou atrás dela.

- Onde vão dar estas portas? – pergunto, apontando para a ala escura do outro lado

do hall guardada por duas portas maciças com grandes ferrolhos. É o tipo de ferrolho

que serve para impedir a entrada de pessoas. Ou para prender alguma coisa lá

dentro.

A Sra. Nigthtwing franze as sobrancelhas e aperta os lábios.

- Essa é a Ala Leste. Ela foi destruída por um incêndio há muitos anos. Nós não a

usamos mais, então a desativamos. Poupa aquecimento. Vamos embora.

Ela passa por mim. Sigo atrás dela, depois olho para trás e vejo uma réstia de luz por

baixo daquelas portas trancadas. Talvez seja o adiantado da hora ou a longa viagem,

mas posso jurar que estou vendo uma sombra mover-se pelo chão atrás das portas.

Não. Vá embora.

Eu me recuso a deixar o passado me encontrar ali. Preciso me controlar. Então, fecho

os olhos por um segundo para fazer uma promessa a mim mesma.

Não há nada ali. Eu estou cansada. Vou abrir os olhos e ver apenas uma porta.

Quando olho, não vejo nada.

CAPÍTULO

CINCO

Quando chego de volta no salão, há cerca de cinqüenta garotas ali reunidas, todas

com suas capas de veludo. A noite cai, banhando a sala com uma luz arroxeada. O

murmúrio de vozes, quebrado por uma risada ocasional, ecoa no teto baixo e cai ao

meu redor como se fosse vidro. Um sino anuncia que está na hora de deixar a escola

e subir a colina na direção da capela.

Lanço um olhar rápido em volta para ver se consigo achar garotas da minha idade.

Reunidas na frente da fila estão algumas garotas que parecem ter dezesseis ou

dezessete anos. Elas estão paradas, com as cabeças juntas, confabulando e rindo.

Uma delas é incrivelmente bonita, com cabelos castanho-escuros e um rosto de

marfim que parece saído de um camafeu. Ela é provavelmente a moça mais linda que

eu já vi. Há outras três que são praticamente iguais – narizes aristocráticos, bem-

arrumadas, com uma travessa ou um broche caro para distingui-las e mostrar sua

posição.

Umas das garotas atrai a minha atenção. Ela parece diferente das outras. Seu cabelo

louro-branco esta preso num coque, como convém a uma jovem dama, mas mesmo

assim ele parece um tanto selvagem, como se os grampos fossem incapazes de

contê-lo. Sobrancelhas arqueadas emolduram pequenos olhos cinzentos num rosto

tão pálido que é quase uma opala. Ela está achando graça de alguma coisa, e joga a

cabeça para trás e ri abertamente, sem tentar disfarçar. Embora a moça morena seja

linda e perfeita, é a loira que atrai a atenção de todas na sala. Ela é claramente a

líder.

A Sra. Nightwing bate palmas e o murmúrio de vozes vai sumindo aos poucos.

- Meninas, eu gostaria de apresentar-lhes a mais nova aluna da Academia Spence.

Esta aqui é Gemma Doyle. Miss Doyle acabou de chegar de Shropshire e vai

freqüentar a primeira série. Ela passou a maior parte de sua vida na Índia, e tenho

certeza de que terá prazer em lhes contar seus curiosos hábitos e costumes. Sei que

vocês irão recebê-la com a cordialidade típica de Spence e familiarizá-la com os

procedimentos adotados aqui.

Quase morro de vergonha quando cinqüenta pares de olhos me fitam e me avaliam

como algo que deveria estar pendurado sobre a lareira do escritório de um

cavalheiro. Qualquer esperança de me misturar e passar despercebida foi anulada

pelo pequeno discurso da Sra. Nightwing. A garota loura inclina a cabeça de lado,

avaliando-me. Ela disfarça um bocejo e volta a fofocar com as amigas. Talvez eu

consiga me misturar, afinal.

A Sra. Nightwing aperta mais a capa ao redor do pescoço e aponta o caminho com o

braço estendido.

- Vamos às orações, meninas.

As outras saem em fila pela porta enquanto a Sra. Nightwing vem na minha direção

com uma garota atrás dela - Miss Doyle, essa é Ann Bradshaw, a sua nova colega de

quarto. Miss Bradshaw tem quinze anos e também esta na primeira série. Ela irá

acompanhá-la esta noite para orientá-la.

- Muito prazer – ela diz, e seus olhos inexpressivos e aquosos não revelam nada.

Penso na sua colcha bem esticada e não tenho esperança de que ela seja do tipo que

gosta de se divertir.

- Prazer em conhecê-la – respondo. Nós ficamos ali paradas por um segundo, sem

dizer nada. Ann Bradshaw é uma garota comum, sem graça, o que é duplamente

condenável. Uma garota sem dinheiro, mas que se fosse bonita poderia ter a chance

de melhorar sua posição na vida. O nariz dela está escorrendo. Ela o enxuga com um

lenço de renda surrado.

- Não é horrível ficar resfriada? – digo, tentando ser amável.

Seu olhar permanece inexpressivo.

- Eu não estou resfriada.

Certo. Ainda bem que eu perguntei. Começamos bem, Miss Bradshaw e eu. Sem

dúvida, seremos como irmãs amanhã de manhã. Se eu pudesse dar meia-volta e

desaparecer naquele instante, eu o faria.

- A capela é por aqui – ela diz, quebrando o gelo com esta frase brilhante. - Não

devemos chegar atrasadas nas orações.

Seguimos atrás do grupo, subindo a colina no meio das árvores, em direção à capela

de pedra e madeira. Começa a baixar uma espessa neblina. Ela se instala na

paisagem, dando ao lugar uma qualidade misteriosa.

À frente, as capas azuis das meninas tremulam na noite antes que a densa neblina

apague tudo, menos o eco de suas vozes.

- Por que sua família mandou-a para cá? – Ann pergunta de uma maneira

desconcertante.

- Para civilizar-me, eu suponho – respondo rindo. Está vendo como sou divertida? Rá-

. Ann não acha graça.

- Meu pai morreu quando eu tinha três anos. Minha mãe teve que trabalhar, mas,

então, ela adoeceu e morreu. A família dela não queria ficar comigo, mas também

não queria me mandar para um orfanato. Então me mandaram para cá, para ser

treinada como governanta para os netos, um dia.

Esta franqueza é estarrecedora. Ela nem mesmo pisca. Eu não sei o que responder.

- Ah, sinto muito – digo, quando torno a recuperar a fala.

Aqueles olhos inexpressivos me fitam.

- Sente mesmo?

- Bem... sim. Por que não sentiria?

- Porque as pessoas geralmente dizem isso para se livrar de alguém. Sem

sinceridade.

Ela tem razão, e fico vermelha. É só um comentário, e quantas vezes tive que

aguentar as pessoas dizendo a mesma coisa a respeito da minha própria situação. No

meio da neblina, tropeço numa raiz de árvore e solto a impressão favorita de meu

pai:

- Maldição!

Ann me olha espantada. Sem dúvida ela é do tipo pudico, que vai correr para a Sra.

Nightwing toda a vez que eu olhar atravessado para ela.

- Perdoe-me, não sei como pude ser tão grosseira – digo, tentando consertar a

situação. É claro que não quero ser repreendida no meu primeiro dia.

- Não se preocupe – diz Ann, olhando em volta para ver se alguém estava ouvindo.

Como estávamos no final da final da fila, não havia ninguém – As coisas por aqui não

são tão certinhas quanto a Sra. Nightwing dá a entender que são.

Esta é com certeza uma notícia interessante.

- É mesmo? Como assim?

- Isso eu não posso dizer – ela responde.

O som do sino ecoa na neblina junto com as vozes abafadas. Fora isso, o silencio é

absoluto. A neblina é realmente impressionante.

- Este seria um ótimo lugar para um passei à meia-noite – digo, tentando parecer

jovial. Ouvi dizer que as pessoas gostam de garotas joviais. – Talvez os lobisomens

saiam para brincar mais tarde.

- Exceto pelas vésperas, nós não temos permissão para sair depois que escurece –

Ann responde com naturalidade.

A jovialidade não funcionou.

- Por que não?

- É contra as regras. Eu não gosto muito da noite. – Ela faz uma pausa, enxuga o

nariz. – às vezes há ciganos no bosque.

Penso na velha que se aproximou da minha carruagem mais cedo.

- Sim, acho que conheci uma. Ela disse chamar-se Mãe qualquer coisa...

- Mãe Elena?

- Isso mesmo.

- Ela é completamente louca. Fique longe dela. Ela é capaz de ter uma faca e enfiá-la

em você quando estiver dormindo – Ann diz, ofegante.

- Ela me pareceu inofensiva...

- Mas nunca se sabe, não é?

Não sei se é a neblina, o sino ou o nervosismo de Ann, mas começo a andar mais

depressa. Uma garota que tem visões junto com outra que é guia ambulante de

coisas que atacam durante a noite. Talvez este seja o critério de Spence para

combinar pessoas.

- Você está na primeira série comigo.

- Sim – digo – Quem são as outras?

Ela vai dizendo os nomes, um por um.