Bell-y por Belisario Retto de Abreu - Versão HTML

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Autor: Belisario Retto de Abreu

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Bell-Y

Capítulo I

Paraquedas

Chuva torrencial na madrugada de domingo, outono em 2075,

uma névoa densa encobria as montanhas da serra do mar. George empurrava seu carro até o acostamento da rodovia, ouvindo dos que ali trafegavam, os mais intensos e delicados estímulos verbais que só os pecadores, abaixo do Equador, são capazes de proferir.

Irritado, concentrou suas últimas energias, naquele declive, na tentativa de segurar o automóvel que há muito saíra do estado de inércia se lançando contra o poste “SOS” estrada.

Observador como é, reparou que sua pasta ficara no meio da pista com todos os documentos e ações, deixando-o confuso quanto à atitude a ser tomada diante daquele quadro infeliz; chuva, neblina, palavrões, ruídos, o carro batido e quebrado e a mala na pista.

Naquela hora desejou ao mundo toda sorte de sofrimento e

angústia. Tarde de mais, o “SOS” estrada jazia debaixo do carro e a mala recebia todo tipo de abraço sintético: desde os "Pirellis"

até os "Goodyears". Os papéis... que desgraça!, retornaram ao estado celulósico.

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Seu pensamento despia todas as imagens desagradáveis daquele quadro na tentativa de compreender o motivo de tudo aquilo.

Será que a conspiração do universo havia iniciado e esquecera-se de avisá-lo, pensava George.

Qual seria o verdadeiro motivo daquela seqüência de catástrofes executada com tanto sincronismo.

O raciocínio individual dos humanos e suas respectivas atitudes colidiam com a pregação da ajuda mútua, tanta gente e nenhuma solidariedade.

George absorvido pelos pensamentos foi surpreendido por uma grande explosão provocada por um motorista que jogou

acidentalmente sua bituca de cigarro acesa debaixo do seu ex-carro justamente no epicentro do vazamento do combustível.

- Dr. Mesquita, anuncia o alto-falante do Hospital Santista.

- Dr. Mesquita, emergência, bisava o equipamento.

- Clarice, traga o paciente ao centro cirúrgico do terceiro andar que já estou me preparando, declara pelo Walkie-Talk o DR.

Mesquita à sua mais que assistente.

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Clarice, 24, quintanista de medicina, morena, alta de pernas esguias e torneadas por um excelente estilista genético, com seu avental, touca e luvas empurrava a cama-móvel pelo corredor até a porta do elevador que dá acesso ao centro cirúrgico. Por mais que apertasse o botão de chamada do sobe/desce os segundos de espera pareciam horas. George desfalecendo na maca murmurava e gemia de fortes dores no corpo principalmente na região facial.

Clarice injetava no soro uma mistura de anestésico importado com um resto nacional na tentativa de reduzir o sofrimento do seu compulsório paciente.

No quinto andar a ascensorista, buscando atenção de um

segurança e transgredindo sua função solidária narrava sua

experiência noturna que passara no sábado com um rapaz no Baile do Forró.

- Inesquecível! Jamais conheci alguém assim. Amanhã vou me

encontrar novamente com ele e espero que seja tão bom quanto no sábado. A descrição nervosa do encontro oscilava entre a

responsabilidade de atender os chamados e a necessidade de sair do isolamento.

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- Lídia tenho que ir, o chefão deve chegar a qualquer momento e não posso ficar aqui parado conversando com você. Se ele me pega... adeus emprego.

Clarice apertava desesperadamente o botão de chamada e Lídia mantinha a porta aberta no quinto andar para escutar a conversa do segurança com o chefão. Foi então que Clarice resolveu

esmurrar a porta do elevador na tentativa de chamar sua atenção.

Quando o elevador se preparava para chegar ao segundo andar, local onde estava Clarice, a crise energética toma conta do hospital e uma escuridão negra invade todas as instalações

exatamente no momento em que Clarice se posicionava para

colocar a maca-móvel no elevador. Num impulso desconhecido e extremamente raivoso Clarice empurra a maca contra a porta e não se sabe como, esta se abriu lançando George ao fundo do poço e ao final de sua trajetória terrestre.

Clarice, ouvindo o tremendo barulho provocado pela maca-móvel, em queda livre, e seu conseqüente impacto no fim do poço,

começou a tremer e a suar frio, mas..., ironicamente veio à mente a esperança do paciente ter sobrevivido. Clarice era experiente em quedas, como “hobby” fazia pára-quedismo e já tinha visto muitas quedas piores que aquela. De imediato uma visão do seu instrutor 5

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ocupa espaço na sua mente cantarolando o refrão do hino ao pára-quedismo:

“Um bom companheiro pára-quedista,

dista do chão quando no ar,

mas quando o ar não o segura,

dura queda vai encontrar.”

A lembrança do hino de certa forma a reconfortou e então decidiu, pela primeira vez, enfrentar o seu problema aliado à

responsabilidade médica de averiguar o estado de George lá bem no fundo. Inesperadamente cruzou as mãos às costas, ajeitou seu pseudo pára-quedas e lançou-se no buraco negro. A sensação de leveza que jamais havia sentido tomou conta de seus sentimentos, toda angústia, medo, sofrimento e infelicidade que sempre a acompanhava como mágica desapareceram. Durante a queda,

sentiu a real sensação de liberdade e sua mente ejaculou pelo corpo cenas de imenso prazer e a partir daí compreendeu em

analogia à espera do elevador que um segundo desta sensação vale mais que a vida em duração.

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Capítulo II

Efeitos do ácido

Clarice se vê ao lado de George. Olha para si e de imediato compreende aquela sensação de paz indefinida e profunda, de tamanha leveza, que sua imagem como num holograma, se projeta de acordo com o seu desejo despertando em si uma nova

dimensão da realidade.

- O que será isso - refletiu sua energia. Como num suspirar, uma série de imagens contínuas e logicamente dispostas se projetou novamente induzindo Clarice a entender o processo da vida após a morte. A sensação de leveza e de conforto, nunca em toda vida experimentada, deixava Clarice à mercê dos acontecimentos.

Mais uma vez, lutava para entender aquela nova situação, onde as imagens revelavam o sofrimento dos que ainda vivos e prostrados velavam e ao mesmo tempo, como num comportamento humano-mecânico entristeciam o ambiente onde o corpo de Clarice era exposto em reverência ao masoquismo humano.

Nada daquilo fazia sentindo e como em toda sua vida nada fez sentido concluiu que o melhor para si e pela primeira vez, era seguir aquele desejo insuportavelmente agro-doce até a revelação final. Sem hesitação desferiu um raciocínio puro em que a vida é 7

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uma mera interpretação holográfica presa a uma conduta

comportamental inversamente proporcional ao sentimento.

Resumiu sabiamente que o que se quer e o que se deseja são a resultante do equilíbrio entre o que se pode e o que se é. Ser é o todo, ter é o lodo. Essa incoerência no pensamento de Clarice cada vez mais era evidente. Tentava fundamentar a teoria de Laquesse, nobre filósofo seu, que nunca existiu, mas que

convivera com ela a vida toda, de que a vida era um fragmento do universo e que todos tinham um papel a cumprir, matando ou

gerando, roubando ou doando. Nesta fase compreendeu que o

equilíbrio das forças não podia ser desigual e quando isto ocorria um Juiz natural desencadeava algo incompreensível restaurando os pesos na humilde balança. Lembrou-se do professor de física onde o equilíbrio dos corpos está na manutenção das forças ora positivas, negativas e nulas.

O féretro marcado para as nove horas corria com religiosidade humano-teatral em que alguns observadores discutiam a

obviedade do evento sob o ponto de vista comportamental. Nada mais do que um ambiente triste com seqüências preestabelecidas no âmbito emocional do ritual. Todos os que ali velavam tinham em mente o script sócio-posicional que a cenografia ambiental lhes impunha. Representar naquele cenário era nato e dispensava ensaios.

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O comportamento era igual e de tamanho adivinho que até as

crianças mantinham atitudes perceptivas e coerentes com o mais maduro mortal. Clarice definitivamente energizou que o

sentimento alheio ao cenário social é o verdadeiro pilar do humano. Edificou que a estrutura do ensinamento que obtivera jazia consigo e por um instante sentiu profunda angústia em ter vivido num mundo clássico onde a irreverência dos sabidos era tão morta e descabida quanto o que estava sentindo.

De súbito a imagem da má vontade de ir à escola se socializar, se comprometer, se entregar, se estabelecer, se encontrar, se revelar, se prostituir intelectualmente desencadeou uma epopéia de

argumentos revolucionários totalmente contraditórios aos

preceitos senis e molambos que apregoava o mais nasal

algodoeiro filósofo pré-pentecostal.

De duas uma, ou o sistema se adapta à partícula ou ela desprende sua mais feroz energia resultando na mais excêntrica explosão.

Toda confusão daqueles momentos, na clareza do espírito de

Clarice, sinalizavam estar ela experimentando e se preparando para o ingresso em uma outra dimensão. Toda base de

conhecimento, sensações e experimentos colecionados por Clarice ao longo dos seus 24 anos foram organizados cronologicamente e projetados holograficamente numa espécie de moldura gasosa e à 9

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medida que as cenas eram expostas, um intervalo negro era

inserido entre elas dando a impressão à Clarice que tudo aquilo estava sendo apagado e excluído do seu domínio reduzindo

significativamente sua quantidade de energia. Um estranho

sentimento de fraqueza dominou Clarice.

Toda imagem de uma vida foi exposta em poucos segundos e

eliminada simultaneamente. Uma ruptura enorme do cenário se consolidou, trazendo Clarice definitivamente à outra dimensão.

Nela a energia transitava entre os diversos campos ionizados destinados ao aprendizado quântico onde o desequilíbrio e o caos eram variáveis importantes no modelo da sustentação universal. A superficialidade e o profundo em uma verdadeira análise

convergiam num único ponto, que tendia sempre a um imenso

vazio.

Aprendendo

Clarice aprendia a conduzir esta análise, de forma a se assegurar que produzisse um desequilíbrio nas forças, penetrando em um novo campo de ensinamento. Desta forma conseguiu transitar, sorver e doar preciosos filamentos de energia que na troca se transformavam em novas holografias alternando as dimensões

numa total desorganização e ausência de lógica. Dependendo de 10

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sua variação luminosa, a energia era aspirada e processada dentro do campo de ensinamento produzindo formas diversas de cores que se intensificavam à medida que o discípulo absorvesse um quantum de luz. Este processo se manifestava em todos os

campos de ensinamento até que o mestre, fraquejado, fosse

dominado pelo discípulo produzindo uma enorme explosão

resultando na formação de um novo campo e no envio do antigo para outra dimensão. Tudo naquele plano se transformava.

O novo aprendia e o velho era liberado para uma nova missão. A sensação de conforto e de identidade tomou conta do filamento de Clarice que agora desfrutava de um privilegiado lugar no cosmo, irradiando poderosos fechos de luz, atraindo a curiosidade dos novatos. Paralelamente a todos estes acontecimentos estavam George brilhando ao lado de Clarice e é claro que um não sabia do outro.

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Capítulo III

Uma nova linguagem

Uma nova identidade foi assumida por Clarice já que nesta

dimensão, o passado que era a vida jazia por completo e o futuro sem base nenhuma se constituía apenas em ser não humano, mas divinamente “star”. Uma linguagem dimensional de extrema

lógica era o elo de comunicação entre as energias. A mágica era assumida sem contestação ou repulsa simplesmente acontecia. A estrutura da linguagem era focada na dualidade das forças

universais. Não havia força positiva sem a correspondente

negativa. Tudo era par, binário e conclusivo. O verbo possuía duas pessoas “I+” e “I-” e é claro, os seus respectivos plurais. O

tempo verbal era classificado em dois estados, Presente

Energizado com o sinal positivo e o Negativo Presente

adicionando-se um sinal negativo entre a pessoa e o verbo.

O filamento de George era ao mesmo tempo atraído e expelido pelo de Clarice mantendo-se neste estado de alta e baixa

luminosidade de acordo com o fluxo e refluxo das forças dos dois campos. Utilizando-se da linguagem quântica George tentou sua primeira comunicação com Clarice que imediatamente entendeu e passou a responder às indagações do vizinho.

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- Estou muito atraído por você. Disse George.

- Eu também. Respondeu Clarice.

- Você está anulando o meu desejo de liberdade. Afirmou Clarice.

- Aprendi que a verdadeira liberdade está em outra dimensão. Não dá para perceber que estamos presos um ao outro e que nossa liberdade depende da anulação das forças que nos cercam?

Questiona George.

- Não sei ainda como fazer isso. Responde Clarice.

- É muito simples basta você atrair um novato, deixá-lo te

consumir e aguardar a viagem para a dimensão que lhe falei.

Explica George.

- Como posso atrair um novato se acabo de debutar aqui neste lugar? Indaga Clarice.

- Você ainda não percebeu que para se locomover nesta dimensão basta desejar algo ilógico que as forças politicamente corretas passam por um estado de desorganização tamanho, que o

dispêndio de energia reguladora do campo é fortificado sendo atraído por outras medidas quânticas. Explica George

entusiasmado.

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- Parece simples, para quem acabou de chegar. – Retruca Clarice -

O difícil é desejar algo ilógico. Desde os primórdios de minha energia tudo o que aprendi foi estabelecer o desequilíbrio através da lógica e agora vem você me pedir para que faça o contrário.

- Exatamente. - Concorda George- Repare que esta dimensão em que estamos representa o “caos”. É ele o responsável pela

evolução cósmica. É o contestador universal obrigando os outros estados quânticos a perder ou reforçar energias em busca do equilíbrio. A diminuição de um campo gera em contrapartida o aumento de outro, resultando simplesmente na locomoção. Nesta dimensão, a missão é se mover ao máximo extraindo toda energia possível da confrontação entre o poder de uma partícula excitada e os diversos íons conformados. Aqui, o infinitamente pequeno pode tornar-se monstruosamente grande num piscar de luz. Tome cuidado, pois as diminuições das forças desorganizadoras nos remetem ao ciclo vital do qual emergimos.

- Me desculpe. Mas ainda não compreendi como retirar energia dos novatos, revela Clarice.

- Se você projetar o que restou daquele outro mundo holográfico –

explica George - , com isto perderá energia, compreenderá que a evolução é cíclica e definida como a exploração dos novatos.

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Quando você se reintegrou de forma física, naquela outra

passagem que nos dá a oportunidade de conhecer a dor somática entre a forma e o espírito (forma de energia deles), teve

oportunidade de ser simplesmente. Mas o que realmente

aconteceu foi uma experiência entre a ficção do desejo e a

realidade das forças condutoras e organizadas daquele portal. Os novatos dirigidos, acreditando serem condutores, acabavam com o passar do tempo conduzindo os debutantes a condutores. Nesta condução e direção dos novatos pelos velhos, jaz e nasce a raiz da mesmice humana. A grande missão daquele portal é a

construção de modelos vitais baseados no poder de posse e

destruição, onde a ilusão da evolução está centrada na

quantificação material conhecida como riqueza. Um disfarce

fenomenal aceito pela espécie, é a anulação do instinto corpo-espiritual. A nulidade se qualifica com base na projeção material.

Ter e não ser é a máxima daquele portal.

- Ah! Estou começando a entender. – Diz Clarice - Quer dizer então que lá é apenas uma passagem bestial e sem razão alguma.

- Isso mesmo. –Afirma George- No momento em que nossa

locomoção no cosmo é lenta e a absorção nos campos de

conhecimento é nula, ou seja, nossa força é reduzida ao “mícron”, aquele portal é o único lugar do cosmo que nos recebe e nos 15

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configura através da ejaculação de um micro-organismo vital que durante um tempo conhecido como “a passagem” ficamos

envoltos em um líquido nobre, cuja missão é reiniciar a zero nosso plano de ascensão cósmica. Por isso, que quando obtemos a forma física, depois da passagem, somos simplesmente. O

objetivo desta fase é o quanto você acumula de forças com vistas à desorganização. As forças reguladoras daquele holograma

impõem ao passageiro a ilusão de que a organização é a máxima para se alcançar a plenitude e, no entanto, sem saber,

desorganizam o sistema harmônico natural, inserindo elementos estranhos à composição primal daquela holografia. Lá o conflito entre o ser e o ter é o responsável pelo acúmulo energético que nos remete onde estamos. Aqueles que foram e não tiveram não passam por aqui. Aqueles que foram e tiveram, tem a graça de conhecer outros campos de aprendizado e aqueles que não foram e só tiveram, viram lixo cósmico não reciclável. Repare a

paridade desta conclusão. Só os que foram, neste caso “2”, é que permanecem. O terceiro some, vira lixo porque no cosmo a

junção da paridade é a única capaz de produzir o “caos”,

responsável pela evolução. Aqui não existem terceiros. O terço é um sinal de fraqueza onde a indecisão entre um e outro é delegada ao verbo divino. O verbo, por sua vez, emite ondas sonoras

carregadas de “Íons” positivos e/ou negativos que iniciam sua 16

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longa trajetória através dos portais na busca de uma força

contrária e aderente capaz de inverter o eu sentido, devolvendo ao emissor toda carga energética que desejou. O destino, como

rotulam, nada mais é do que a conspiração dessas forças.

Enquanto o indivíduo não compreender a sistemática do sistema homeostático o ciclo se repete nas mais variadas formas de ser.

- Continua confuso. –Revela Clarice- Acho que não dá para

entender. Você está dizendo que aquele holograma é o início de tudo?

Mais uma tentativa

- Absolutamente. –Afirma George- O conceito sobre início e fim é holográfico e particular, ou seja, o “caos” se manifesta quando o fim se aproxima exigindo um novo começo. O fim sempre será

precedido pelo começo, que por sua vez será precedido pelo fim.

Resolver é temporário, ser é absoluto. Aliás, o absolutismo é um vazio imenso. Dele se escolhe um começo e um fim. No entanto, a lógica desorganizada produz novos conceitos que dão início ao fim dos velhos. Este jogo de palavras faz parte do imenso jogo cósmico, que com sabedoria nada sabe e está sempre aprendendo uma nova razão para firmar o teorema “vivendo e aprendendo”, aliás, de cunho binário sem início ou fim. É o gerúndio verbal 17

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responsável pela desorganização. Nele não há o sujeito. O sujeito é o cosmo.

- Espera um pouco. – Interrompe Clarice - A tua conclusão é essa: A essência vital das forças não precisa de aprendizado. Quando você diz “Ser” está se referindo a elas e quando diz “Ter” está se referindo ao “caos”. É isso?

- Puxa! – Desdenha George- você demorou muito para

compreender que o “caos” é uma força motora do processo

evolutivo, onde o ter espiritual, naquela holografia, se manifesta materialmente. É uma contradição positivamente cósmica. A

paridade material x espiritual é exógena em relação ao ter em si, na alma e ao ser em si mesmo. A condução daquele portal é uma grande indução ao material. Uma disfunção nata provocada pelo

“caos”. Não é compreensível e muito menos arrazoada. A razão é a contramão da evolução. Ela é capaz de estabelecer um início e fim fictícios. Claro, para que haja outros fins e inícios a razão deve ser fictícia. Ficção é a lógica do desconhecido baseada na projeção verbal, imaginária e ambígua, onde as forças do desejo se consolidam em imagens absolutas que depois de excitadas

resolvem. Na resolução, novas ambigüidades e projeções verbais se manifestam e nessa manifestação nova excitação e resolução. O

ciclo é o mesmo desde o início e o fim precedendo um ao outro.

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Enfim a paridade é absoluta. Procure o seu par e seja. Evolua sendo e tendo para si a certeza incerta do “caos” organizado, que primará para induzi-lo à dúvida, que é a falta de opção entre isto ou aquilo que por sua vez é binário, não conclusivo e

transformador.

A cilada

- Nossa como esta dimensão é confusa! –reflete Clarice- Minhas forças estão se esgotando na tentativa de compreendê-lo.

- Sua compreensão, - Mostra George- será maximizada quando

ingressar no campo do conhecimento global, onde toda a força iniciante do universo faz o seu primeiro estágio, orientando-se para o processo evolutivo. Lá a matéria atrai tanta matéria, que a consumação é total e a resultante é um enorme buraco negro que dá abertura para um novo holograma. Neste holograma estão

dispostas informações preciosas sobre ciência e filosofia. É a grande verdadoteca do Universo. Para alcançá-la, você precisará de muita energia extraída dos velhacos, libertando-os para uma nova dimensão.

Clarice por um breve momento sentiu uma grande ansiedade para se lançar ao tal campo do conhecimento global, mas sua energia estava debilitada, impossibilitando-a de qualquer movimento.

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Toda conversa com George na tentativa de compreender estes

novos conceitos, exigiram do filamento de Clarice muita energia e agora aquele desejo de movimento não era satisfeito. Clarice precisava encontrar um grande filamento, atraí-lo, aspirá-lo e aí sim desejar algo ilógico para movimentar-se. Naquele instante, a única hipótese de Clarice era George.

- Agora você é capaz de identificar um novato? Indagou George.

Repare que sua luminosidade diminuiu. Estou aspirando-a desde o início, se é que assim podemos classificá-lo. Toda sua revelação levou-a a um imenso vazio. Agora tenho certeza que você é capaz de compreender o que estou tentando lhe dizer. Minha energia depende da tua. Ou eu te consumo ou você. A dependência é

universal. Não há nada que possa desafiá-la. É a simples premissa da lei cósmica. A independência, palavra de junção binária, é resultante do processo da desorganização e é ilógica. O sufixo agregado à palavra visa introduzir a contestação desta lei, objetivando o caos. A satisfação daquele mundo é rápida e fugaz, daí este hiato entre nós.

A consumação final é o início de uma nova dimensão e de um

novo aprendizado coerentemente desorganizado. A energia que ora extraio a remeterá àquele enorme buraco, lançando-a em uma nova dimensão onde depois de processada, toda a posse material 20

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obtida no portal primal é convertida em força negativa e subtraída da posse espiritual. Quanto mais negativo for o resultado, mais profundo será o seu mergulho, tornando-a menos iluminada e

atraente. Contudo e em contrapartida você terá acesso ao

holograma da verdade.

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Capítulo IV

No buraco

O filamento de Clarice aos poucos e lentamente foi sendo

conduzido àquele enorme buraco de aparência estranha e

incompreensível e de uma escuridão jamais vista. Na viagem o filamento foi tomando forma circular e girando ora no sentido horário e ora neste mesmo sentido, porém horizontalmente. A velocidade de locomoção aumentava em progressão geométrica, na razão de 2 elevado à N+1. (2, 4, 8, 16, 32, 64...). O movimento circular, devido à alta velocidade, era imperceptível. O filamento tangenciava o enorme círculo daquele buraco, procurando atingir a mesma velocidade de rotação deste, equilibrando as forças no sentido de orbitá-lo. Uma vez em órbita, poder-se-ia visualizar sua profundidade infinita e os enormes conjuntos de buracos que compunham aquele estranho portal.

Era o “caos” absoluto e sem nenhuma leitura capaz de identificar o sentido da próxima etapa. A fila de filamentos para ingressar naquele portal era enorme, possibilitando a todos presenciar o espetáculo luminoso, alternado de escuridões vazias, indicando a finalização do processo inicial da conversão energética dos filamentos que nele se lançavam. Dependendo da massa quântica (MQ) obtida na equação (MQ=Tenho - Sou) o filamento, tal qual 22

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como dito por George, era aspirado por um determinado buraco, irradiando muita luz ou simplesmente desaparecendo. A vez de Clarice se aproximava e uma enorme ansiedade cósmica tomou

conta do seu filamento. Seria este o juízo final? George havia dito que o final sempre era precedido pelo começo, portanto não havia nada o que temer uma vez que filamento não teme. Esta

contradição aspirou Clarice que ficou flutuando entre uma série de buracos até a finalização do processo de avaliação das forças que culminou numa enorme explosão luminosa introduzindo-a a outro portal muito semelhante ao primal.

O holograma

Um holograma gasoso surgiu à frente de Clarice, com diversas palavras dispostas em frases distintas, seguido alternadamente por imagens simbólicas totalmente incompreensíveis. A primeira

delas dizia:

“Todo o universo é vivo”

“A vida é dependente”

“A dependência é cósmica e de transformação”

“A transformação é a passagem de um estado para outro”

“A passagem é o equilíbrio da desorganização”

“A terceira força desorganiza - Pai, filho e Espírito”

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“O espírito equilibra”

“O equilíbrio é ambíguo”

“A ambigüidade é par”

“A paridade é binária”

“O universo permite apenas dois estados”

“Não há lugar para o terceiro”

“O terceiro desequilibra”

“O desequilíbrio transforma”

“A transformação gera a passagem”

“A passagem é a transformação de um estado para outro”

“A vida é cósmica e de transformação”

“Todo o universo é vivo”

“A vida é indivisível, dependente e perene”

Clarice compreendia que aquelas palavras indicavam um ciclo, talvez vital, de todo Universo, mas ainda não entendia totalmente o verdadeiro significado. Várias projeções foram se intercalando no holograma revelando verdades absolutas, indiscutíveis e

óbvias.

O filamento de George por sua vez trafegava à sombra de Clarice que ao senti-lo indagou:

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- George, não compreendi ainda, depois da passagem naquele

buraco, o sentido daquelas frases.

Explicando

-Sob o ponto de vista da ciência, inicia George, o Universo é um imenso inferno, com enormes explosões nucleares e sempre em mutação. Já no âmbito etéreo da ignorância humana é a casa de repouso de alguns privilegiados. Contudo é a paz absoluta. O

processo de absorção e doação de energia que move o universo é extremamente relaxante. Fazer parte da explosão de um núcleo do átomo com vistas ao deslocamento para outras dimensões é

inimaginável e incompreensível no portal primal. Não queima, não arde e o silêncio é astronômico. A velocidade é indescritível e o tempo inexistente. O universo está sempre em constante

expansão e evolução. Assim como um animal que mata, para

transformar massa em energia alimentando sua evolução, o

universo,conceitualmente, destrói para construir, transformando com harmonia formas em energia e esta em novas formas.

Clarice registrava cada palavra proferida por George e desta vez disse a ele que achava aquilo um enorme mistério, mas que a sensação, vivida por seu filamento, era idêntica ao que acabara de relatar.

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- Esta é a grande ignorância dos humanos, zomba George. A

palavra mistério é atribuída sempre que a falta de conhecimento aparece. Muitos tentaram revelar os mistérios de milênios, no entanto, só deixaram mais mistérios nas explanações, lei da transformação. A força do mistério é a terceira no universo. O

desejo de encerrá-la é o motor da transformação e do movimento.

Sua singularidade está em sempre completar a lacuna deixada pela ignorância. Toda atividade física, mental e intelectual, desenvolvida no portal primal tem como objetivo a resolução dos mistérios. Por mais paradoxal que seja as grandes certezas

daquele portal, como o nascimento e a morte, foram também

transformadas em mistério. A grande massa do conhecimento

humano acumulada desde os primórdios há milhões de anos atrás, é infinitamente pequena e de certa forma com um alto grau de atrofia, se comparada à idade e quantidade dos mistérios. Assim, como o mundo holográfico é indivisível, onde uma pequena fatia contém o todo e se fatiarmos mais, o todo permanece nas fatias e assim sucessivamente e infinitamente, cada descoberta é coroada de novos mistérios, que por sua vez geram outros mistérios e assim sucessivamente. A cadeia dos mistérios tal qual a do

conhecimento é transformativa e, portanto evolutiva. É um ciclo sem um início e um fim estabelecidos. O fim da descoberta é o início de um mistério que quando descoberto desencadeia novos 26

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mistérios. Por mais micro ou macro que seja uma análise, outros micros e macros estarão lutando por aparecer no campo das

descobertas. Naquele portal o saldo do conhecimento sempre será deficitário. Não há como anular a força motora da mutação.

Haverá sempre muitas interrogações para uma única descoberta.

Entender a simplicidade desta poderosa força é descobrir o seu valioso papel na evolução do universo.

Clarice, imóvel, percebia a verdade daquelas palavras. Sua tensão se redobrou quando George disparou novamente desta vez sobre a vida:

-A vida não é apenas o ato de respirar. Estar vivo também não é presente de ninguém nem mesmo uma dádiva dos deuses. A vida é um microorganismo multicelular dentro da cadeia da evolução cósmica, considerada na macro-análise como bactéria nociva e ao mesmo tempo propulsora do sistema endógeno evolutivo do

planeta. A desorganização e o desequilíbrio são funções quânticas delegadas ao seres vivos. Toda espécie tenderá a se organizar na tentativa de dominar e harmonizar o seu sistema. A terceira força, exógena, infiltrar-se-á, conspirando e quebrando a hegemonia sistêmica, gerando novos subsistemas que atuarão na ruptura da base de sustentação harmônica, trazendo aquelas forças

novamente ao rumo evolutivo. A terceira força conhecida como a 27

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grande perturbadora ambiental e responsável por catástrofes, nada mais é, que a corregedora do processo de mutação. Tem ela como objetivo principal, provocar o “caos”, estimulando o cosmo a se reorganizar. Todo ser habitante do universo tem em si esta força invisível, denominada pelos do portal primal como sensação.

Esta força misteriosa que se manifesta em todos indistintamente é responsável pela desorganização das forças do equilíbrio, dando a sensação ao indivíduo de estar em um vazio angustiante. Os

depressivos, os drogados, os sensíveis, as crianças e os artistas, são os que mais experimentam a energia desta força. Os

espiritualistas são capazes de perceber sua presença e até mesmo, simbolicamente, ensaiar sua manifestação através da massa

corpórea. Quando o corpo descansa, como no sonho, as forças positivas e negativas que mantêm o equilíbrio do indivíduo têm o seu menor valor energético registrado, contribuindo para que a terceira força se manifeste holograficamente através de visões por ela energizadas. O sonho é o registro vivo da manifestação desta força. A sensação também se constitui na manifestação desta força. A palavra, que é a expressão energética do pensamento, produz ondas sonoras que excitam o ambiente e viajam através do tempo, sendo interceptadas pela terceira força de alguns

indivíduos, principalmente quando do sono. O som, um conjunto de partículas organizadas, e a luz se constituem na matéria-prima 28

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holográfica. O pensamento expressado pela real vontade é a

energia responsável pela intensificação da terceira força. Querer é poder, é a expressão sintética do poder desta força. A terceira força nos humanos é binária, isto é, o desejo e a vontade real são vias de mão-dupla. A força emanada a terceiros volta na mesma intensidade, seja boa ou ruim. A terceira força é alimentada pela vontade e/ou pelo equilíbrio. Toda vez que um equilíbrio é

registrado, a terceira força tem a missão de provocar o “caos”

contribuindo para o processo evolutivo que é a busca do

equilíbrio na desorganização. Uma busca sem início ou fim

estabelecido.

Clarice, não acreditava que aquilo estava acontecendo. George simplesmente se transformara. Sua energia ficava cada vez mais forte à medida que ia se aproximando da saída daqueles buracos.

- Mas se a vida é como você diz então a morte é apenas um

estágio da vida? Questionou Clarice.

-A morte é uma viagem que a vida não pode ter e nem

experimentar. Quando vivos, continua George, os seres daquele portal, experimentam o sofrimento da carne, através das doenças, e o da “alma” através dos sentimentos. O equilíbrio da energia corpórea com a da vida é sempre interrompido pela terceira força, 29

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que ora age no físico provocando a mutação e a produção de

defesas doloridas e ora age na força vital, provocando um

sentimento de angústia demasiadamente superior à dor sofrida pelo corpo. A terceira força será sempre vencedora nesta luta promovida pela força vital. A morte é o troféu simbólico desta real conclusão. O momento preciso deste acontecimento se dá quando a terceira força absorve por completo a força vital. Não há como revertê-la sem a projeção holográfica manifestada pela vontade de rever o portal primal, vontade esta, extremamente pequena diante da imensidão das outras dimensões

experimentadas pelos filamentos resultantes da passagem do

estado físico para o energético. Todo filamento neste estado, viaja pelo cosmo a uma velocidade superior à da luz, trocando energia com os diversos campos do conhecimento espalhados pelo

universo. O sono é a experiência viva da morte. O branco, a paz, a felicidade relatada por vários seres em estado terminal é a prova contundente de que a passagem é maravilhosa e indescritível. A dimensão a que submete os sonhos é a confirmação da existência dos portais holográficos, experimentados por todos os seres vivos dentro da micro-visão a que está classificada a humanidade

celular. A morte é a fase de mutação dos estados das forças energéticas. Assim como o conceito científico da reprodução é meramente a fecundação de um óvulo, onde a paridade é impar, 30

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ou seja, é preciso um pouco da matéria do oposto para se gerar o terceiro no primeiro.

A reprodução

A união física dos órgãos reprodutores da paridade macho x

fêmea, tendem ao surgimento do terceiro(s), que representa a trindade e a desorganização para o processo evolutivo. As forças do “caos” exercem tremenda influência neste processo, utilizando o gozo etéreo como isca à sua causa. No portal primal, o amor e o prazer se constituem na maior obra desenvolvida pela terceira força, na preservação e manutenção do continuísmo. O

ilusionismo é um grande testemunho da existência do que

estamos relatando. Receber um “espírito”, ressuscitar ou ter a presença da imagem de um ser morto é factível quando a vontade desejada superar a dimensão real, provocando a ilusão. Esta, por sua vez rompe a dimensão crítica, projetando e energizando

holograficamente imagens ou sons distorcidos, com muitos

filamentos brancos. A vontade tende ao equilíbrio. Consumá-la ou satisfazê-la será sempre via projeção. A terceira visão se

manifesta no sono, na morte, na grande vontade (fé) e na

ingenuidade. Os ingênuos e os de muita credulidade são os que mais experimentam este fenômeno.

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-Você está me dizendo que a terceira força que age entre a vida e a morte é o amor? Que coisa mais louca, despacha Clarice.

-Exatamente. A terceira força motora da transformação e

desorganização. Sua intensidade é inversamente proporcional ao desenvolvimento e a consumação é indutiva, corpórea e ambígua.

Seu objetivo é a paridade no êxtase. O amor é reprodutor e breve.

O terceiro é a resultante que desorganiza, separa e transforma. No ódio está o seu equilíbrio. Sentimento reverso e intenso que se manifesta em quem ama. O universo ama e conspira. O ódio

paralelamente ao amor induz ao “caos” que é verdadeiro e natural.

O amor também verdadeiro organiza e equilibra. São forças

idênticas de mesmo propósito, transformar e mover.

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Capítulo V

Produzindo a espécie

Tudo ali era totalmente familiar ao filamento de Clarice que aos poucos ia passando do estado energético para o gasoso e deste para o líquido infinitamente microscópico que ao se chocar com uma espécie de alcatéia de “girino” fez vários deles saltarem por sobre uma membrana circular onde todos furiosamente lutavam para rompê-la. O líquido de Clarice, substância conhecida como DNA - Desorganização Natural e Ambígua -, como terceiro

naquele conjunto binário, tinha a grande função de desorganizar aquela trilogia fundindo-a em um par. Para um “par ir” é preciso

“três par”, pensava Clarice, que imediatamente compreendeu todo o ciclo evolutivo e esclarecedor difundido por George.

O fim era precedido pelo começo. Copular lembrava Clarice era um tritongo formado por “Co”nceber “Pu”ramente um “Lar”.

Clarice viu ainda uma paridade impar no ato lembrando-se dos girinos pulando. A palavra poderia significar “Co” de cooperação e “pular” de saltar na membrana. Todo o significado da ciência, da filosofia, das artes, da religião e da sociedade estava resumido nesta simples palavra misteriosa e desorganizadora. O

componente resultante da prática desta palavra motivou todos nós a buscar respostas à revelação do mistério da produção. Produzir é 33

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gerar. "Ger" de gerino e "ar" de vida. O “V”, de vida, representa a vitória, a paridade, dois traços unindo-se no vértice, um convite à posição copular e “ida” que induz a ir ao ato. O verbo depois do sujeito, pois não haveria verbo sem ele daí sua condição de segundo de depois. Clarice estava definitivamente convencida que tinha descoberto a razão de tanto mistério. Fazer da trindade a paridade é desorganizar conceitos incluindo no binário um terço que será rezado e rotulado como mistério. O ministério, que atualmente é reconhecido como ministro do mistério é a mais absurda das fecundações humanas. O amor, binário, é a mais

singular indicativa de ser. O ter é a materialização deste singular, senão a palavra “meter” não significaria outra coisa além do seu sentido duplo, par e binário da concepção, que, aliás, se

separarmos entenderemos a conceituação de conceber.

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Capítulo VI

A posse da mente

Clarice acorda suada e muito cansada.

- “Graças a Deus não passou de um sonho”, pensou, enquanto sua mão procurava pelo corpo de seu companheiro. Eram 04h00min

da madrugada de um sábado chuvoso, com muita neblina, que

Clarice observava pela fresta da janela do quarto do hotel em que se hospedara. O vento soprava com fúria trazendo um ar frio sobre o seu corpo descoberto e desprotegido. O quarto de paredes forradas com papel decorativo imitando madeira mogno

contrastava com o branco do teto. A cama era imensa e alta dando a sensação de se levitar. O sonho atormentava Clarice, que imóvel nem se apercebia que a chuva agora mais intensa entrava pela janela. Qual seria o significado de tudo aquilo? Indagava a si mesma. Desta vez parecia real e conseguia lembrar-se de todas as imagens e sons. Pensou em acordar seu marido para contar o que havia sonhado, mas ficou indecisa diante da profundeza do sono dele e de sua possível reação. Tentou por várias vezes dormir novamente sem resultado algum. Resolveu então levantar-se e ir até a banheira preparar um banho morno e relaxante.

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George, marido de Clarice, era um alto executivo de uma

poderosa empresa de informática americana, a Bell

Telecomunication. Sua missão era instalar uma subsidiária no Brasil e estava viajando pelo litoral a procura de uma cidade que subsidiasse seu empreendimento, já que a política daquela

empresa era aproveitar-se dos benefícios cedidos por países em desenvolvimento. A escolha pelo Brasil em primeiro lugar tinha sido determinada em função do mercado emergente revelado por pesquisas encomendadas pela matriz e em segundo pelos baixos salários e enormes benefícios oferecidos pelos governos locais.

Hospedado no Guarujá, George procurava em Santos um imóvel

disponível para fundar sua filial. A cidade de Santos tinha características e o perfil ideal para o empreendimento. Situada próxima à São Paulo, com excelente qualidade de vida, Santos oferecia além de seu enorme porto, toda infra-estrutura necessária para a condução da filial além de excelentes recursos humanos. O

cenário era perfeito e casava com as premissas da organização. A empresa desenvolvia programas para automação de máquinas e

equipamentos voltados para o segmento de telecomunicações.

George jamais viajava sem a companhia de Clarice. Ela possuía um dom especial quanto ao tema conhecimento humano. Era

impressionante como ela era capaz de olhar para uma pessoa e imediatamente identificar sua personalidade, orientando e

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alertando George quanto a um provável relacionamento

profissional. Sempre acertava em suas previsões. George a usava descaradamente.

No caminho entre o Guarujá e Santos George comentou com

Clarice que as 13h00min haveria um almoço em Itanhaém com o prefeito, o secretário de finanças e o presidente da câmara de vereadores. Pediu então que ela dissesse ao secretário de finanças, quando fosse possível, que na próxima semana estariam, a convite do prefeito de São Paulo, naquela cidade apresentando o projeto de instalação da subsidiária. Clarice entendeu perfeitamente o objetivo de George que como sempre blefava, através de terceiros, obtendo vantagens para sua empresa. Compreendia que se São

Paulo queria aquela subsidiária, Santos faria concessões além do que já havia feito. Era um jogo muito conhecido por Clarice que acompanhou George por toda América Latina fundando

subsidiárias.

Itanhaém

Itanhaém, a 60 km de Santos, era uma daquelas cidades em que o tempo se permitira um pequeno descanso. Sua beleza singular residia na manutenção das formas arquitetônicas originárias do século XVI. A imagem refletida por aquele dia de sol escaldante 37

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tinha um frescor de difícil compreensão. Talvez as enormes árvores da praça central conspirassem com a sabedoria ignorando e anulando as radiações emitidas pelo astro-rei. A sensação de calor intenso se transformava num refrescante dia de outono. Uma grande sombra insistia em proteger os cidadãos naquela praça. O

som e a brisa do mar a 200 metros da praça completavam aquele cenário interpretado por Clarice que, ainda imersa nas razões do sonho, conseguia captar o fluído ambiental produzido com

tamanha beleza como num quadro de Arruda Paes.

- Esta cidade possui uma energia mágica, comentou Clarice.

- Impressionante como a beleza se perpetuou, completou George.

- Lá estão os nossos convidados, avistou Clarice.

- Não se esqueça de comentar com o secretário de finanças,

lembrou George a Clarice.

O prefeito, o presidente da câmara e o secretário de finanças aguardavam na entrada do restaurante em forma de círculo

conversando e gesticulando espalhafatosamente de acordo com o manual de conduta política dos homens públicos.

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A fachada da cantina enfeitada com azulejos portugueses de

fundo branco com desenhos em azul. Um arco também na cor

azul identificava a porta principal de entrada. Do lado esquerdo havia três janelas com "vitrais" coloridos de motivos sacros. As paredes internas eram de pedras rústicas dispostas umas sobre as outras de maneira não uniforme. O teto, extremamente baixo, revestido de palha grossa traspassada entre os caibros de

sustentação do telhado, lembrava as enormes cordas do caís do porto. O piso de paralelepípedo possuía desníveis tão acentuados, dando a impressão de que aquele imóvel fora construído às

pressas sobre uma antiga rua. As mesas de formas indefinidas sugeriam que a madeira in-natura fora apenas envernizada,

sustentada por pequenos troncos de eucaliptos. A estrutura das cadeiras também formadas por pequenos troncos de eucaliptos amarrados por palha seca e revestidas com folhas de bananeira. A cenografia como em qualquer cantina da espécie, contava com enormes âncoras, remos, bússolas e timão espalhados pelas

paredes além de fotos antigas dos ilustres fregueses. Os pratos de barro cru imitavam um peixe gordo que combinavam, sobre a

mesa sem toalha, com os copos do mesmo material. O que

chamava a atenção eram os talheres. Todos de estanho puro com as extremidades niqueladas lembrando os pára-choques dos carros antigos.

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Clarice adorava as coisas do mar e aquele cheiro vindo da cozinha atormentava seu delgado estômago que clamava por alimento.

Experiente nestas ocasiões pegou imediatamente, um pedaço de pão e sem qualquer constrangimento passou-o sobre uma pasta elaborada com aliche, pimenta, óleo, azeitonas e maionese,

minimizando seu sofrimento.

A reunião

- Como é do conhecimento dos senhores, descreve George, nossa organização está procurando um local para instalar sua subsidiária aqui no Brasil e para ser bem objetivo e ir direto ao ponto gostaríamos de ter a aprovação das autoridades de Santos para nos instalar naquela ilhota da praia de José Menino, a ilha das cobras.

Sabemos que isto depende da Marinha e esta é a razão deste

almoço. Nossa política é bem clara quanto ao relacionamento com militares, por isso estou necessitando dos vossos serviços para dar andamento ao projeto.

- Você me desculpe, mas ainda não tive a oportunidade de ler o projeto como um todo, mas estamos aqui justamente para discuti-lo, pondera o prefeito.

- Pretendemos construir naquela ilha 16 suítes de madeira e vidro, sem qualquer espécie de alvenaria. As suítes estarão dispostas em 40

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forma de “U” voltadas para o alto mar. Cada unidade será

montada em estrutura de madeira com a frente em vidro

temperado. Dentro, uma mini cozinha com armário, geladeira, microondas, forno e fogão, televisão, mesa, duas cadeiras,

microcomputador, telefone, cama de casal e banheiro com

hidromassagem. A divisão entre uma unidade e outra será de

madeira. No centro do “U” será construído uma sala de reunião com 28 lugares, uma piscina natural e uma biblioteca técnica.

Tudo para deixar os 16 profissionais que trabalharão no projeto de comunicação BELL-Y com todo o conforto possível. A infra-estrutura como água, esgoto, eletricidade e telefonia deverão ser fornecidas por via subterrânea para não alterar o ambiente.

- Quer dizer que vocês vão confinar 16 pessoas naquela ilha. Não parecerá aos olhos da população um “Alcatraz” de luxo? Indaga Rufino, presidente da câmara.

Dependerá de como for vendida para a imprensa, explica George.

A idéia básica é dar todo o conforto e recursos necessários para que os profissionais desenvolvam em um ambiente com qualidade de vida. Ademais o perfil dos verdadeiros profissionais dessa área é o do isolamento, solidão e descompromisso com horários. As pesquisas indicam a necessidade de um ambiente desta natureza, já que eles sonham com um local com muito verde, lagos e

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isolamento. É claro que as esposas poderão freqüentar o local. No entanto, estamos dando preferência aos solteiros.

- Acho que este tipo de projeto não vai dar certo aqui no Brasil.

Acredito que essa permissividade de horários afetará o andamento do projeto já que o nosso povo é meio indolente e folgado. Sem falar dos sindicatos. Nossa sociedade é do direito e não da obrigação. Posso estar errado, mas vai virar bagunça. Contesta Cláudio, secretário de finanças, político de carreira e sobrevivente a todos os movimentos partidários.

- Nós já efetuamos algumas pesquisas com profissionais da região e foi unânime a aprovação da idéia. Os mais novos foram os que mais gostaram, indicando que há uma mudança de

comportamento na sociedade talvez invisível ao campo político.

Outra questão da nossa pesquisa aponta os políticos da região em total decadência e descrédito. Fiquei impressionado com este item já que mostrou uma divisão bem clara e estruturada da existência de duas sociedades distintas. As dos políticos e servidores públicos e o “resto”. Segunda a pesquisa, o “resto” é que ampara os servidores e na ausência deste amparo reside o perigo da extinção da classe pública, haja vista o enorme crescimento de entidades não-governamentais no mundo todo. O termo não-governamental é o ícone dessa nova classe que solenemente

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desfila em paralelo à corrente política, com resultados

surpreendentes. Desculpe minha ousadia é que o óbvio tem de ser praticado e não discutido já que este encerra discussões em si mesmo. Não é de o nosso interesse contrariar o desejo revelado pelas pesquisas nem tampouco usá-la para ofensas. No entanto são os fatos expressos em opiniões que levamos em consideração.

- Talvez o Senhor não saiba, argumenta o prefeito, mas nas

últimas eleições tivemos problemas com os institutos de

pesquisas. Acredito que haja por parte deles um movimento

político para desprestigiar nossa classe, toda pesquisa que se faz hoje no país sobre o assunto tem como resultante um grande

descrédito por parte dos entrevistados. A ação da oposição tem influenciado em muito estes institutos. Tudo o que é do governo é ruim e precisa ser privatizado. Uma enorme campanha, vinda do teu país, está sendo responsável pela contaminação da nossa sociedade acerca dos serviços públicos. Os interesses externos estão guiando nossa mídia que por sua vez influencia o povo.

Acredito que mais dois anos serão o bastante para ver o Brasil como uma imensa colônia norte-americana. A maioria dos nossos homens públicos é e sempre foi dirigida e financiada por grupos americanos. Este domínio é muito antigo. Creio que a vossa

pesquisa tenha refletido o que acabo de explicar. Reparem na coincidência, vocês estão aqui pedindo favores aos homens

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públicos em troca de empregos e impostos. Claro que neste

momento é o que estamos precisando. Mas... Convenhamos.

- O meu objetivo não foi ofendê-los e sim retratar a realidade mostrada por nossas pesquisas. Como o Senhor acabou de dizer nosso empreendimento gerará empregos e muito impostos para o governo local e federal. Este nosso encontro visa acharmos uma solução onde nossa subsidiária possa ser instalada de acordo com nossa política e da vontade da sociedade local. Existe o interesse de nos instalarmos em Santos, caso isto não seja possível,

procuraremos outro local. Nossa matriz em hipótese alguma

deseja influenciar o governo local, apenas precisamos da vossa colaboração para solicitar à Marinha a liberação da ilha.

- George, você me desculpe, mas o seu projeto vai gerar apenas 16 empregos e nessa proporção será difícil algum órgão federal se sensibilizar. Sem menosprezá-lo acredito que a vossa solicitação será negada. Como convencê-los?

- Muito simples, o projeto BELL-Y gerará uma receita anual

equivalente aos orçamentos dos estados de São Paulo e Minas Gerais. Será uma revolução nas comunicações que provocará a quarta onda, no momento não posso revelar o produto final por questões óbvias. Eu sei que no nível de empregos o número é 44

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desprezível, mas se for levado em consideração o que estes