Bodas de Sangue por Federico García Lorca - Versão HTML

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BODAS DE SANGUE

de

F. Garcia Lorca

TRAD: ANTONIO MERCADO

2

QUADRO I

Casa pintada de amarelo

NOIVO ( entrando) – Mãe.

MÃE

Que é?

NOIVO

Já vou.

MÃE

Aonde?

NOIVO

Para a vinha. ( Vai sair.)

MÃE

Espere.

NOIVO

Quer alguma coisa?

MÃE

Filho, o almoço.

NOIVO

Deixa. Vou comer uvas. Me dá a navalha.

MÃE

Para quê?

NOIVO ( rindo) –

Para cortar as uvas.

MÃE ( entre dentes e procurando-a) A navalha, a navalha... Malditas sejam todas as navalhas, e o canalha que as inventou.

NOIVO

Vamos mudar de assunto.

MÃE

Não sei como você se atreve a levar uma navalha no corpo, nem

sei como ainda deixo essa serpente dentro do baú.

NOIVO

Ora!

MÃE

Como é possível que uma coisa tão pequena como uma pistola ou

uma navalha possa dar cabo de um homem? Um homem bonito,

com sua flor na boca, que vai para as vinhas ou para os olivais que

tem, porque são dele, herdados...

NOIVO ( baixando a cabeça) Chega, mãe.

MÃE

... e esse homem não volta.

NOIVO ( forte) –

Vamos parar?

MÃE

Não. Não vamos parar. Alguém pode me trazer seu pai de volta? E

seu irmão? Dois homens que eram dois gerânios... sem fala,

viraram pó. E os assassinos, no presídio, folgados, olhando a

paisagem...

NOIVO

Já não chega?

MÃE

Não vou me calar nunca. Os meses passam e o desespero me

perfura os olhos e pica até nas pontas do cabelo.

NOIVO

E o que você quer, que eu os mate?

MÃE

Não.. Eu falo só porque... É que não gosto que você leve a navalha. É que... que não queria que você saísse para o campo.

NOIVO ( rindo) –

Ora!

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MÃE

Como eu gostaria que você fosse mulher! Agora, nós duas

ficaríamos aqui bordando cortinas e cachorrinhos de lã.

NOIVO ( pega a MÃE pelo braço e ri) – Mãe, e se eu levasse você comigo para as vinhas?

MÃE

Que é que uma velha vai fazer nas vinhas?

NOIVO ( levantando-a nos braços) Velha, revelha, requitivelha!

MÃE

Seu pai, sim, é que me levava. Boa casta. Sangue. Seu avô deixou

um filho em cada esquina. Assim é que eu gosto. Os homens,

homens; o trigo, trigo.

NOIVO

E eu, mãe?

MÃE

Você, o quê?

NOIVO

Preciso dizer tudo de novo!

MÃE ( séria)

Ah!

NOIVO

Você acha ruim?

MÃE

Não.

NOIVO

E então?...

MÃE

Nem eu mesma sei. Assim, de repente, me assusta. Eu sei que a

moça é boa. Não é mesmo? Comportada. Trabalhadeira. Amassa

seu pão, costura os vestidos, e mesmo assim, quando falo nela, é

como se me dessem uma pedrada na testa.

NOIVO

Bobagem.

MÃE

Bobagem, mesmo. É que eu vou ficar só. Agora já não tenho mais

ninguém, só você, e me dói que vá embora.

NOIVO

Mas você vem conosco.

MÃE

Não. Não posso deixar seu pai e seu irmão aqui, sozinhos. Tenho

que ir lá todas as manhãs, e se eu for embora pode ser que morra

um dos Félix, um da família dos assassinos, e seja enterrado junto

deles. E isso nunca! Não! Isso nunca! Porque eu o desenterro com

as minhas próprias unhas, sozinha, e esmago na parede.

NOIVO ( forte) Já começou de novo.

MÃE

Desculpe. ( Pausa.) Faz quanto tempo, esse namoro?

NOIVO

Três anos.

MÃE

Três anos…

NOIVO

Até que enfim, consegui comprar a vinha.

MÃE

Ela teve um noivo antes, não teve?

NOIVO

Não sei. Acho que não. As moças têm que saber com quem se

casam, olhar bem.

MÃE

Eu não olhei para ninguém. Olhei para seu pai, e quando o

mataram olhei para a parede em frente. Cada mulher com seu

homem, e pronto!

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NOIVO

Você sabe que minha noiva é séria.

MÃE

Não duvido. Mesmo assim, sinto não saber como foi a mãe dela.

NOIVO

Para quê?

MÃE ( olhando-o)

– Filho.

NOIVO

Que é?

MÃE

Você tem razão! Quando quer que eu vá pedir a moça?

NOIVO ( alegre)

– Domingo, está bem?

MÃE

Isso, isso, e tomara que você me alegre com uns seis netos, ou

mais, se tiver gana, que seu pai não teve tempo de me fazer outros

filhos.

NOIVO

O primeiro é seu.

MÃE

Bom, mas que haja meninas. Pois eu quero bordar e fazer renda e

ficar tranqüila.

NOIVO

Tenho certeza de que vai gostar da minha noiva.

MÃE

Vou gostar, sim. ( Vai beijá-lo e reage.) Vá, você Já está muito grande para beijos. Guarde os beijos para a sua mulher.

( Pausa. A parte) Quando já for sua.

NOIVO

Vou indo.

MÃE

E cavem bem aquela parte junto do moinho, que anda meio

descuidada.

NOIVO

Pode deixar.

MÃE

Vá com Deus. ( O NOIVO sai. A MÃE fica sentada de costas para a porta. aparece na porta uma VIZINHA

vestida de escuro, com um lenço na cabeça. ) Entre.

VIZINHA

Corno vai?

MÃE

Assim.

VIZINHA

Fui até o armazém e passei para ver você. Vivemos tão longe!

MÃE

Faz vinte anos que não subo até o alto da rua.

VIZINHA

Você está bem.

MÃE

Acha?

VIZINHA

As coisas passam. Há dois dias trouxeram o filho da minha

vizinha com os dois braços cortados pela máquina. ( Senta-se.)

MÃE

Rafael?

VIZINHA

É. E lá está ele. Às vezes fico pensando que o seu filho e o meu

estão melhor onde estão, dormindo, descansando, e não expostos a

ficar inúteis.

MÃE

Fica quieta. Tudo isso são bobagens, não consolam ninguém.

VIZINHA

Ai!

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MÃE

Ai! ( Pausa.)

VIZINHA ( triste)

E seu filho?

MÃE

Saiu.

VIZINHA

Já comprou a vinha!

MÃE

Teve sorte.

VIZINHA

Agora vai se casar.

MAE ( como que despertando e aproximando sua cadeira da VIZINHA)

Escute.

VIZINHA ( em tom confidencial) – Diga.

MÃE

Você conhece a noiva de meu filho?

VIZINHA

Boa moça!

MÃE

É, mas...

VIZINHA

Mas conhecer, mesmo, a fundo... ninguém conhece. Vive sozinha

lá com o pai, tão longe, a dez léguas da casa mais próxima. Mas é

boa. Acostumada à solidão.

MÃE

E a mãe dela?

VIZINHA

Essa, eu conheci. Bonita. Tinha uma cara que brilhava como a de

um santo; mas nunca me agradou nem um pouco. Não gostava do

marido.

MÃE ( forte)

Mas que gente para saber das coisas.

VIZINHA

Perdão. Não queria ofender; mas a verdade é essa. Agora, se ela

foi honesta ou não, ninguém sabe. Nunca se falou nisso. Ela era

orgulhosa.

MÃE

Sempre a mesma coisa!

VIZINHA

Você é que me perguntou.

MÃE

É que eu queria que ninguém conhecesse as duas, nem a viva e

nem a morta. Que fossem como dois cactos, de que ninguém fala,

e que espetam se for preciso.

VIZINHA

Tem razão. Seu filho vale muito.

MÃE

Vale. Por isso é que tomo cuidado. Me disseram que a moça teve

um noivo, tempos atrás.

VIZINHA

Quando tinha uns quinze anos. Ele se casou já faz dois anos – com

uma prima dela, por sinal. Ninguém lembra mais do noivado.

MÃE

E como é que você se lembra?

VIZINHA

Você me faz cada pergunta!...

MÃE

E quem não se interessa por suas próprias dores? ( Pausa.) Quem

era o noivo?

VIZINHA

Leonardo.

MÃE

Que Leonardo?

6

VIZINHA

O Leonardo dos Félix.

MÃE ( levantando-se)Dos Félix!

VIZINHA

Mulher, que culpa tem Leonardo? De que? Ele tinha oito anos no

tempo das brigas.

MÃE

É verdade... Mas é só ouvir falar em Félix e é como – ( entre

dentes) Félix! – como se me enchessem a boca de lama

( cospe) e tenho que cuspir, tenho que cuspir para não matar.

VIZINHA

Calma! Que é que você ganha com isso?

MÃE

Nada. Mas você compreende.

VIZINHA

Não vá contra a felicidade do seu filho. Não diga nada a ele. Você

está velha. Eu também. As duas, caladas; assim é que deve ser.

MÃE

Não vou dizer nada.

VIZINHA ( beijando-a) Nada.

MÃE ( serena) –

As coisas!...

VIZINHA

Vou indo, que daqui a pouco a minha gente chega do campo.

MÃE

Já viu que dia mais quente?

VIZINHA

Iam negros os meninos que levam água para os segadores. Adeus,

mulher.

MÃE

Adeus. ( Dirige-se para a porta da esquerda. No meio

do caminho pára e benze-se lentamente.)

CAI O PANO

7

QUADRO II

Casa pintada de cor-de-rosa. É de manhã. Sogra de Leonardo

embalando uma criança nos braços. A mulher faz tricô.

Nana meu menino

com o rio morto

do cavalo grande

na sua garganta.

que não quis a água.

A água era negra

Ai, cavalo grande

por dentro das ramas!

que não quis a água!

Quando chega à ponte,

Ai, ai, dor de neve,

ali para e canta.

Corcel da alvorada!

Quem dirá, menino,

Não venhas, não. Pára!

o que tem a água

Cerra esta janela

de tão longa cauda

com ramas de sonho

em tão verde sala?

E sonhos de hera.

Meu menino dorme.

Dorme cravo meu,

Meu menino cala.

que o cavalo não quer mais beber,

Cavalo, meu filho

Dorme, dorme meu rosal,

tem a sua cama.

que o cavalo começa a chorar.

Um berço de ferro,

e colcha de Holanda.

As patas feridas,

a crina gelada,

Nana, nana, nana.

e dentro dos olhos

um punhal de prata.

Ai, cavalo grande

Entravam no rio,

que não quis a água!

ai, tão fundo entravam!

o sangue corria

Não venhas, não entres!

Mais forte que a água..

Vai para a montanha,

por vales de sombra

Dorme cravo meu,

onde a égua pasta.

que o cavalo não quer mais beber,

Dorme, dorme meu rosal,

Meu filho adormece.

que o cavalo começa a chorar.

Menino, descansa.

Não quis nem tocar

as margens molhadas

Dorme cravo meu,

o focinho ardendo

que o cavalo não quer mais beber,

com moscas de prata.

Dorme, dorme meu rosal,

Para os montes duros

que o cavalo começa a chorar.

é que relinchava

(Levam o menino para dentro. Entra Leonardo)

LEONARDO

E o menino?

MULHER

Já dormiu.

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LEONARDO

Ontem não, passou bem. Chorou, de noite.

MULHER ( alegre) – Hoje está que parece urna dália. E você? Foi à casa do ferreiro?

LEONARDO

Estou vindo de lá. Parece incrível! Faz mais de dois meses que

fico pondo ferraduras novas no cavalo, e elas vivem caindo. Pelo

jeito, arranca todas nas pedras

MULHER

Não será porque você abusa?

LEONARDO

Não. Quase não saio com ele.

MULHER

Ontem as vizinhas me contaram que você esteve na divisa dos

campos.

LEONARDO

Quem foi que disse?

MULHER

As mulheres que colhem alcaparras. Eu estranhei, é claro. Era

você?

LEONARDO

Não. Que é que ia fazer por lá, naquele deserto?

MULHER

Foi o que eu disse. Mas o cavalo estava se desfazendo, em suor.

LEONARDO

Você foi ver?

MULHER

Eu, não; minha mãe.

LEONARDO

Ela está com o menino?

MULHER

Está. Quer uma limonada?

LEONARDO

Com água bem fria.

MULHER

E você nem veio comer!

LEONARDO

Fiquei com os medidores do trigo. Demorados como sempre.

MULHER ( fazendo a limonada, e muito terna) E o preço é bom?

LEONARDO

É o justo.

MULHER

Estou precisando de um vestido, e o menino de um gorro com

laços.

LEONARDO (levantando–se) – Vou ver o garoto

MULHER

Cuidado, que ele está dormindo.

SOGRA ( entrando) – Mas quem anda correndo desse jeito no cavalo? Está lá em baixo, exausto, de olhos esbugalhados, como se tivesse chegado

do fim do mundo.

LEONARDO

Eu.

SOGRA

Então desculpe; é seu, mesmo.

MULHER ( tímida) – Estava com os medidores do trigo.

SOGRA

Para mim tanto faz… Que arrebente! ( Senta–se. Pausa.)

MULHER

A limonada. Está fria?

LEONARDO

Está.

MULHER

Sabe que vão pedir minha prima?

9

LEONARDO

Quando?

MULHER

Amanhã. As bodas serão daqui a um mês. Espero que venham

convidar a gente.

LEONARDO ( sério) – Não sei

SOGRA

Acho que a mãe dele não estava lá muito satisfeita com o

casamento.

LEONARDO

E talvez tenha razão. Ela é danada.

MULHER

Não gosto que você pense essas coisas de uma moça direita.

SOGRA

Mas se ele diz isso é porque sabe. Você esqueceu que ela foi sua

noiva por três anos? ( Com intenção.)

LEONARDO

Mas larguei dela. ( Para sua mulher) Vai chorar, agora?

Chega! ( Arranca–lhe bruscamente as mãos do rosto.)

Vamos ver o menino. ( Saem abraçados.)

(Aparece a Menina, alegre. Entra correndo.)

MENINA

Senhora.

SOGRA

Que é?

MENINA

O noivo chegou na loja e comprou tudo o que havia

SOGRA

Veio sozinho?

MENINA

Não, com a mãe dele. Séria, alta. ( Imita–a.) Mas que luxo!

SOGRA

Eles têm dinheiro.

MENINA

E compraram umas meias rendadas! Ai. Que meias Toda mulher

sonha com meias assim! Olhe só! Uma andorinha aqui ( aponta

o tornozelo), um barco aqui ( aponta a barriga da perna),

e aqui uma rosa ( aponta a coxa).

SOGRA

Menina!

MENINA

Urna rosa com os botões e o cabo. Ah! E toda de seda!

SOGRA

Vão se juntar dois bons capitais.

( Aparecem Leonardo e a Mulher.)

MENINA

Vim contar o que eles estão comprando.

LEONARDO ( forte) – Não interessa!

MULHER

Mas deixe

LEONARDO

Fora daqui!

SOGRA

Leonardo, não é para tanto.

MENINA

Com licença. ( Sai chorando)

SOGRA

Por que essa mania de brigar com as pessoas?

LFONARDO

Não pedi a sua opinião. ( Senta–se.)

SOGRA

Muito bem.( Pausa.)

10

MULHER ( a Leonardo)

O que há com você? Que idéia está remoendo

nessa cabeça? Não me deixe assim, sem saber de nada.

LEONARDO

Chega.

MULHER

Não. Quero que olhe para mim, e me diga o que e.

LEONARDO

Me deixe em paz. ( Levanta–se.)

MULHER

Aonde vai, meu filho?

LEONARDO ( áspero) – Quer calar a boca?

SOGRA ( enérgica, para sua filha) – Quieta! ( Leonardo sai) O menino! ( Sai e torna a entrar com ele nos braços. A Mulher

permanece de pé, imóvel)

MULHER ( voltando-se lentamente e como que sonhando, cantarola a

Nana) – Dorme, cravo meu….

CAI O PANO

QUADRO III

Interior da cueva onde mora a noiva. No fundo, uma cruz de grandes flores cor-de–rosa. Portas redondas, com cortinas de renda e

laços cor–de–rosa. Nas paredes, de material branco e duro, leques

redondos, jarros azuis e pequenos espelhos.

CRIADA

Entrem… ( Muito amável, cheia de hipocrisia

humilde. Entram o Noivo e sua Mãe. A Mãe de

cetim preto, com mantilha de renda. O Noivo,

de algodão listrado de preto, com uma grande

corrente de ouro.) Não querem sentar? Eles vêm já-já.

( Sai.)

(A Mãe e o Filho ficam sentados - imóveis como estátuas. Longa

pausa.)

MÃE

Trouxe o relógio?

NOIVO

Trouxe. ( Tira-o e olha.)

MÃE

Temos que voltar a tempo. Como mora longe, esta gente

NOIVO

Mas as terras são boas.

MÃE

Boas, mas muito desertas. Quatro horas de viagem e nem

uma casa, nem uma árvore.

NOIVO

É que as terras são secas.

MÃE

Seu pai teria coberto tudo isto de árvores.

NOIVO

Sem água?

MÃE

Já teria arranjado. Nos três anos que ficou casado comigo,

plantou dez cerejeiras. ( Recordando.) As três nogueiras

do moinho, uma vinha inteira e uma planta que se chama

Júpiter, que dá flores encarnadas, e secou.

(Pausa.)

NOIVO ( pela Noiva) –

Deve estar se vestindo.

(Entra o Pai da noiva. É velho. com o cabelo branco e reluzente.

Vem de cabeça inclinada. A Mãe e o Noivo levantam-se e ficam de

mãos dadas, em silêncio)

PAI

Muito tempo de viagem?

MÃE

Quatro horas. ( Sentam–se.)

PAI

Vieram pelo caminho mais longo.

MÃE

Já estou velha demais para andar pelos barrancos do rio.

NOIVO

Tem tontura. ( Pausa)

PAI

Boa colheita de rami.

NOIVO

Boa, mesmo.

PAI

No meu tempo, nem rami dava esta terra. Foi preciso

castigá-la e até chorar sobre ela para que nos desse algo que

prestasse.

MÃE

Mas agora dá. Não se queixe. Eu não vim lhe pedir nada.

PAI ( sorrindo) –

Você é mais rica do que eu. As vinhas valem uma fortuna.

Cada ramo, uma moeda de prata. Só me dá pena é que as

terras, entende? … fiquem separadas. Eu gosto é de tudo

junto. Tenho um espinho no coração: é aquela hortazinha

encravada no meio das minhas terras, que não querem me

vender nem por todo o ouro do mundo.

NOIVO

É sempre assim.

PAI

Se a gente pudesse, com vinte juntas de bois, trazer suas

vinhas para cá, estendê–las lá na encosta! Que alegria!

MÃE

Pra quê?

PAI

O que é meu é dela. E o que é seu é dele. Por isso. Para ver

tudo junto: junto é que dá gosto!

NOIVO

E dava menos trabalho;

MÃE

Quando eu morrer, vendam aquilo, e comprem aqui ao lado.

PAI

Vender, vender! Bah! Comprar, filha, comprar tudo! Se eu

tivesse tido filhos tinha comprado este monte inteiro, até a

beira do riacho. Porque não é boa terra, não; mas havendo

braços, fica boa, e como não passa ninguém, não roubam os

frutos da gente, e dá para se dormir tranqüilo. ( Pausa.)

MÃE

Sabe por que vim.

PAI

Sei.

MÃE

E então?

PAI

Acho bom. Eles já se entenderam.

MÃE

Meu filho tem e pode.

PAI

Minha filha também.

MÃE

Meu filho é bonito. Nunca conheceu mulher. Tem a honra

mais limpa que um lençol estendido no varal.

PAI

Da minha, digo o mesmo. Prepara o mingau às três, com a

estrela da manhã. Não fala nunca; suave como a lã, borda

todo tipo de bordados e pode cortar uma corda com os

dentes.

MÃE

Que Deus abençoe sua casa.

PAI

Que Deus a abençoe.

(Aparece a Criada com duas bandejas. Uma com taças e a outra

com doces.)

MÃE ( ao Filho)–

Pra quando quer as bodas?

NOIVO

Quinta–feira que vem.

PAI

Dia em que ela faz vinte e dois anos justos

MÃE

Vinte e dois anos! A idade do meu filho mais velho, se

estivesse vivo. Vivo, sim, valente e macho como era, se os

homens não tivessem inventado as navalhas.

PAI

É melhor não pensar nisso!

MÃE

Cada minuto. Trago a mão apertada no peito.

PAI

Então, quinta-feira. Certo?

NOIVO

Certo.

PAI

Os noivos e nós vamos de coche até a igreja, que é muito

longe, e os convidados vão nos carros e nas montarias que

trouxerem.

MÃE

De acordo.

(Entra a Criada.)

PAI

Diga a ela que já pode vir! ( Para a Mãe). Vai ser urna

grande alegria para mim, se gostar dela.

(Aparece a Noiva. Tem as mãos caídas em atitude modesta e a

cabeça baixa.)

MÃE

Venha cá. Está contente?

NOIVA

Sim, senhora

PAI

Não precisa ficar tão séria. Afinal de contas, ela vai ser sua

mãe.

NOIVA

Estou contente. Se dei o sim é porque eu quis.

MÃE

Naturalmente. ( Segura–lhe o queixo.) Olhe para mim.

PAI

É igualzinha à minha mulher.

MÃE

É? Que olhar bonito! Sabe o que é casar, criatura?

NOIVA (séria)

Sei.

MÃE

Um homem, uns filhos e uma parede de duas varas de

largura, pra todo o resto.

NOIVO

E é preciso mais?

MÃE

Não. Que vivam todos, isso sim! Que vivam!

NOIVA

Vou cumprir com a minha parte.

MÃE

São presentes, para você.

NOIVA

Obrigada.

PAI

Aceita alguma coisa?

MÃE

Eu não quero. ( Ao Noivo) E você?

NOIVO

Aceito. ( Pega um doce. A Noiva pega outro.)

PAI ( ao Noivo) –

Vinho?

MÃE

Ele não bebe.

PAI

Melhor! ( Pausa. Todos estão de pé.)

NOIVO ( para a Noiva)

Amanhã eu venho.

NOIVA

A que horas?

NOIVO

Às cinco

NOIVA

Fico esperando

NOIVO

Quando saio de perto de você sinto um abandono tão grande

que me dá um nó na garganta.

NOIVA

Quando for meu marido, não vai mais sentir.

NOIVO

Isso eu garanto.

MÃE

Vamos. O sol não espera. ( Ao Pai) De acordo, em tudo?

PAI

De acordo.

MÃE ( À criada)

– Adeus, mulher.

CRIADA

Vão com Deus.

(A Mãe beija a Noiva e vão saindo em silêncio)

MÃE ( da porta)

– Adeus, filha ( A Noiva responde com a mão.)

PAI

Acompanho vocês. ( Saem.)

CRIADA

Estou louca para ver os presentes!

NOIVA ( áspera)

– Pára com isso.

CRIADA

Ah, menina, deixa eu ver!

NOIVA

Não quero.

CRIADA

Só as meias. Dizem que são todinhas de renda. Vamos!

NOIVA

Já disse que não!

CRIADA

Meu Deus do céu! Está bem. Até parece que você não tem

vontade de casar!

NOIVA ( mordendo a mão, com raiva) – Ah!

CRIADA

Menina, minha filha, o que é que você tem? É pena de deixar

sua vida de rainha? Não pense em coisas tristes. Tem algum

motivo? Nenhum. Vamos ver os presentes. ( Pega caixa.)

NOIVA ( agarrando-a pelos pulsos) – Larga!

CRIADA

Ai, mulher!

NOIVA

Larga, já disse.

CRIADA

Você tem mais força que um homem.

NOIVA

Já não fiz trabalhos de homem? Tomara que fosse mesmo!

CRIADA

Não diga isso!

NOIVA

Já mandei ficar quieta! Vamos mudar de assunto.

(A luz vai sumindo de cena. Pausa longa.)

CRIA DA

Você ouviu um cavalo, ontem à noite?

NOIVA

A que horas?

CRIADA

Às três.

NOIVA

Devia ser um cavalo desgarrado.

CRIA DA

Não. Tinha cavaleiro

NOIVA

Como é que você sabe?

CRIADA

Porque eu vi. Ficou parado na sua janela. Achei muito

esquisito.

NOIVA

Não podia ser meu noivo? De vez em quando ele vem a essa

hora.

CRIADA

Não era seu noivo.

NOIVA

E viu quem era?

CRIADA

Vi.

NOIVA

Quem era?

CRIADA

Era Leonardo.

NOIVA ( forte) –

Mentira! Mentira! Pra que ele viria aqui?

CRIADA

Veio.

CRIADA

Cala a boca! Maldita seja essa tua língua!

(Ouve-se o galopar de um cavalo.)

CRIADA (à janela) – Vem ver. Não era ele?

NOIVA

Era!

CAI O PANO RAPIDAMENTE.

ATO II

QUADRO 1

Pátio da casa da Noiva. É noite. A Noiva entra vestida com anáguas brancas pregueadas) cheias de entremeios e bicos de renda, e um corpete branco, com os braços nus. A Criada, com a mesma roupa.

CRIADA

Vou acabar esse penteado aqui fora.

NOIVA

Não dá pra ficar lá dentro, de tanto calor.

CRIADA

Esta terra é abafada até de madrugada.

(A Noiva senta-se em uma cadeira baixa e olha se num espelhinho de mão. A Criada

a penteia)

NOIVA

Minha mãe era de um lugar onde havia muitas árvores. De

terra rica.

CRIADA

Ela era assim. Tão alegre!

NOIVA

Mas se consumiu aqui.

CRIADA

O destino.

NOIVA

Como nos consumimos todas. Sai fogo dessas paredes. Ai.

Não puxa tanto!

CRIADA

É pra ajeitar melhor esta onda. Quero que fique caída na

testa. (A Noiva olha-se no espelho.) Você ‘tá tão linda! Ah!

(Beija-a carinhosamente.)

NOIVA (séria) –

Penteia mais.

CRIADA (penteando-a)– Você é que é feliz: vai abraçar um homem, e beijar, e sentir o peso dele!

NOIVA

Cala a boca!.

CRIADA

E o melhor vai ser quando acordar, e sentir que ele esta bem

ao seu lado, com a respiração roçando os seus ombros, como

se fosse uma peninha de rouxinol.

NOIVA (forte)

Quer ficar quieta?

CRIADA

Mas menina! As bodas, o que são? As bodas são isso, e nada

mais. São os doces, por acaso? São os ramos de flores? Não.

É uma cama brilhando, um homem e uma mulher.

NOIVA

Não se deve falar nisso.

CRIADA

Bom, isso é outra coisa. Mas que é bem gostoso, é!

NOIVA

Ou bem amargo.

CRIADA

Vou pôr as flores de laranjeira daqui até aqui. pra que a

grinalda apareça mais no penteado. (Experimenta um, ramo

de flores de laranjeira.)

NOIVA (olha-se no espelho)– Dá aqui. (Pega o ramo, olha-o e deixa cair a cabeça.

abatida.)

CRIADA

Que foi, agora?

NOIVA

Me deixa

CRIADA

Não é hora de ficar triste. (Animada) Me dá aqui esse ramo.

(A Noivo joga-o fora.) Menina! Quer chamar desgraça,

jogando a grinalda no chão? Levanta essa cara! Não quer se

casar? É isso? Então fala. Ainda é tempo de se arrepender

(Levanta se)

NOIVA

São nuvens. Um mal-estar que vem de dentro. Quem nunca

sentiu?

CRIADA

Você gosta do seu noivo.

NOIVA

Gosto.

CRIADA

Gosta, sim, que eu sei.

NOIVA

Mas este é um passo muito grande.

CRIADA

Que é preciso dar.

NOIVA

Já me comprometi.

CRIADA

Agora vou pôr a grinalda.

NOIVA (senta-se)–

Depressa, que já devem estar chegando

CRIADA

Já devem ter saído há duas horas, pelo menos.

NOIVA

Daqui até a igreja. é longe?

CRIADA

Cinco léguas pelo riacho; mas pelo caminho é o dobro. (A

Noiva levanta-se e a Criada se entusiasmo ao vê-la.)

Despertem a noiva

na manhã de suas bodas.

Que os rios do mundo

tragam a coroa

NOIVA (sorrindo)–

Vamos.

CRIADA (beija-a entusiasmada. e dança ao.seu redor)

Que desperte

Com o ramo verde

do loureiro-em-flor

Que desperte pelo tronco e pelos ramos dos loureiros.

(Ouvem-se pancadas fortes na porta.)

NOIVA

Vai abrir. Devem ser os primeiros convidados. ( Sai.)

(A Criada abre, surpresa.)

CRIADA

Você?

LEONARDO

Eu mesmo. Bom dia..

CRIADA

O primeiro!

LEONARDO

Não me convidaram?

CRIADA

É.

LEONARDO

Então eu vim.

CRIADA

E a tua mulher?

LEONARDO

Vim a cavalo. Ela deve estar chegando pelo caminho.

CRIADA

Não encontrou ninguém?

LEONARDO

Passei por eles a cavalo.

CRIADA

Vai acabar matando o animal de tanta correria.

LEONARDO

Se morrer, morreu.

CRIADA

Sente-se. Ninguém se levantou ainda.

LEONARDO

E a noiva?

CRIADA

Vou vesti-Ia agora mesmo.

LEONARDO

A noiva! Deve estar contente!

CRIADA (mudando de assunto) – E o menino?

LEONARDO

Qual?

CRIADA

Seu filho.

LEONARDO (recordando, meio sonolento)– Ah!

CRIADA

Vem com a mãe?

LEONARDO

Não.

(Pausa. Vozes cantando, muito longe.)

VOZES

Despertem a noiva / Na manhã de suas bodas!

LEONARDO

Despertem a noiva. / Na manhã de suas bodas.

CRIADA

São os convidados. Mas ainda estão longe.

LEONARDO (levantando-se.)– A noiva vai usar urna grinalda bem grande. Não devia ser tão grande. Uma pequena, assim ficaria melhor. E

o noivo? Já trouxe as flores de laranjeira que ela deve pôr no

peito?

NOIVA (aparecendo, ainda de anáguas e grinalda na cabeça)

Trouxe.

CRIADA (forte) –

Não saia desse jeito.

NOIVA

Que é que tem? (Séria) Por que pergunta se trouxeram as

flores de laranjeira? É com intenção?

LEONARDO

Nenhuma. Que intenção podia ter? (Aproximando-se) Você

me conhece bem, e sabe que não tenho intenção alguma. Me

diz: quem fui eu pra você? Refresca essa memória. Mas dois

bois e uma choça é quase nada. Isso é que dói.

NOIVA

O que veio fazer aqui?

LEONARDO

Ver o seu casamento.

NOIVA

Eu também vi o seu!

LEONARDO

Amarrado por você, feito pelas tuas mãos. Podem me matar,

se quiserem, mas não podem me cuspir. E o ouro, que brilha

tanto, algumas vezes cospe.

NOIVA

Mentira!

LEONARDO

Não quero falar, porque sou homem de sangue e não quero

que todos estes montes escutem a minha voz.

NOIVA

A minha seria mais forte

CRIADA

Parem com isso! Você não tem nada que falar do passado!

(A Criada olha para a porta, inquieta.)

NOIVA

Tem razão. Eu não devia nem falar com ele. Mas a minha

alma incendeia porque vem me ver. Vai embora, e espera tua

mulher lá na porta.

LEONARDO

Será que você e eu não podemos falar?

CRIADA (com raiva) – Não, não podem falar.

LEON ARDO

Depois do meu casamento, tenho pensado noite dia de quem

era a culpa e cada vez que penso vem uma culpa nova, que

engole a outra mas sempre há culpa!

NOIVA

Um homem com seu cavalo sabe muito e pode muito pra

abusar de uma moça metida num deserto. Mas eu tenho o

orgulho. Por isso me caso E vou viver encerrada com meu

marido, a quem tenho que amar acima de tudo.

LEONARDO

O orgulho não vai te adiantar nada. (Aproxima-se).

NOIVA

Não se aproxime!

LEONARDO

Calar e queimar por dentro é o maior castigo que a gente

pode sem impor. De que me serviu ter orgulho ? De nada! Só

serviu pra atear meu fogo. Porque você acha que o tempo

cura e que as parede tampam e não é verdade. Não é

verdade! Quando as coisas chegam ao fundo, não se

arrancam mais

NOIVA (tremendo) – Não posso ouvir você. Não posso ouvir tua voz É como se eu bebesse uma garrafa de anis e adormecesse numa colcha de

rosas. E me arrasta e sei que me afogo, mas vou atrás.

CRIADA (agarrando Leonardo pela lapela)– Você tem que ir embora já!

LEONARDO

É a última vez que vou falar com ela. Não tenha medo.

NOIVA

E sei que estou louca. sei que o meu peito não agüenta mais.

E fico aqui parada, ouvindo o que ele diz vendo o seu jeito

de andar, os seus braços.

LEONARDO

Não ficava tranqüilo enquanto não te dissesse essas coisas.

Eu me casei. Casa você agora!

CRIADA (a Leonardo) –

E casa, mesmo!

VOZES (cantando mais perto)– Desperte a noiva / Na manhã de suas bodas

NOIVA

Desperte a noiva! (Sai correndo para o quarto.)

CRIADA

Já estão aqui ( A Leonardo) Nunca mais chegue perto dela

LEONARDO

Não se preocupe. (Sai pela esquerda.)

(Começa a clarear o dia. Entra a Primeira Moça.)

CORO

Desperte a noiva

na manhã de suas bodas

Que rodem as rondas,

e nas sacadas, mil coroas.

Despertem a noiva!

Que desperte com o ramo verde do loureiro em flor

Que desperte pelos troncos e os ramos dos loureiros!

Que desperte, cabelos compridos,

Vestida de neve,

Botas de verniz e prata

Ramos de jasmins na testa.

Ai pastora,

Vai nascendo a lua!

Ai, rapaz,

Deixa o teu sombreiro lá nos olivais!

Desperte a noiva!

A noiva já pôs sua branca coroa

E o noivo a enfeita com laços de ouro.

CRADA

A noiva, tão branca noiva.

hoje, donzela.

amanhã, senhora.

PAI (entrando) –

A mulher de um capitão

Vai levar consigo o noivo

Que já vem com seu gado, pelo tesouro!

CORO

O noivo parece a flor do ouro.

Quando caminha,

a seus pés nascem ramos de cravinas.

Ai, menina de sorte!

Que desperte a noiva!

Ai minha bela!

A boda te chama

pela janela!

Que venha essa noiva!

Que venha, que venha!

CRIADA

Que toquem e repiquem

as campanas!

Que venha aqui, que saia já!

Como um touro, as bodas se elevam no ar!

(Aparece a Noiva. Vem com um vestido preto à moda de mil e novecentos, com anquinhas e cauda longa rodeada de gaze plissada e renda duras. Sobre o penteado. na testa traz a grinalda de flores de laranjeira As guitarras tocam. As moças beijam a noiva.)

TERCEIRA MOÇA

Que perfume você pôs no cabelo?

NOIVA (rindo) –

Nenhum.

SEGUNDA MOÇA (olhando o vestido) – Que fazenda mais linda!

PRIMEIRO MOÇO – E aqui está o noivo!

NOIVO

Salve!

PRIMEiRA MOÇA (pondo-lhe uma flor na orelha)

O noivo parece a flor do ouro.

SEGUNDA MOÇA Brisas de sossego emanam seus olhos!

(O Noivo vai para o lado da Noiva.)

NOIVA

Por que pós esses sapatos?

NOIVO

São mais alegres do que os pretos.

MULHER DE LEONARDO (entrando e beijando a Noiva) – Salve!

(Falam todos em algazarra.)

LEONARDO (entrando, como quem cumpre um dever)

Na manhã do casamento

A grinalda te poremos.

MULHER

Para que o campo se alegre

nas águas do teu cabelo.

MÃE

Mas esses também vieram?

PAI

São da família. Hoje é dia de perdoar!