Caiu o Ministério por França Júnior - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
CAIU O MINISTÉRIO!

Comédia original de costumes em três atos

por

FRANÇA JÚNIOR

PERSONAGENS ATORES

Um vendedor de bilhetes de loteria

Primeiro vendedor de jornais

Segundo idem

Terceiro idem

Quarto idem

DR. RAUL MONTEIRO

Galvão

ERNESTO Melo

GOULARTE Peixoto

PEREIRA Mesquita

DESEMBARGADOR ANASTÁCIO FLORINDO FRANCISCO COELHO

Montani

BÁRBARA COELHO, sua mulher

Clélia

MARIQUINHAS, sua filha

FELICIANINHA

Tereza

FILOMENA

Luvini

BEATRIZ

Fanny

FILIPE FLECHA

Colás

MR. JAMES

Bahia

CONSELHEIRO FELÍCI0 DE BRITO, presidente do Conselho

Araújo

MINISTRO DA GUERRA

Peixoto

MINISTRO DO IMPÉRIO

Mesquita

MINISTRO DE ESTRANGEIROS

Reis

MINISTRO DA JUSTIÇA

Florindo

DR. MONTEIRINHO, ministro da marinha

Clairville

SENADOR FELIZARDO

Teixeira

PEREIRA

INÁCIO

ARRUDA

RIBEIRO

AZAMBUJA

ATO PRIMEIRO

O teatro representa parte da Rua do Ouvidor. Ao fundo a redação do Globo, a casa imediata, a confeitaria do Castelões e o armarinho vizinho. O interior destes estabelecimentos deve ser visto pelos espectadores. Ao subir o pano a escada que comunica o pavimento inferior do escritório do Globo com o superior deve estar ocupada por muitos meninos, vendedores de gazetas; algumas pessoas bem vestidas conversam junto ao balcão. Em casa do Castelões muita gente conversa e come. No armarinho grupos de moças, encostadas ao balcão, conversam e escolhem fazendas. Grande movimento na rua.

CENA I

Um vendedor de bilhetes de loteria, 1º, 2º, 3º e 4º VENDEDORES DE JORNAIS, DOUTOR RAUL MONTEIRO e ERNESTO

VENDEDOR DE BILHETES — Quem quer os duzentos contos? Os duzentos

contos do Ipiranga!

1º VENDEDOR DE JORNAIS — A Gazeta da Tarde, trazendo a queda do ministério, a lista da loteria, também trazendo a crônica parlamentar.

2º VENDEDOR — A Gazeta de Notícias. Traz a carta do doutor Seabra.

3º VENDEDOR — A Gazetinha.

4º VENDEDOR — A Espada de Dâmocles, trazendo o grande escândalo da Câmara dos Deputados, a história do ministério, o movimento do porto, e também trazendo o assassinato da rua do Senado.

3º VENDEDOR — A Gazetinha e o Cruzeiro.

RAUL MONTEIRO (Que deve estar parado à porta do Globo a ler os telegramas; voltando-se e vendo Ernesto, que sai do Castelões.) — Oh! Ernesto, como vais?

ERNESTO — Bem. E tu?

RAUL — Então? Nada ainda?

ERNESTO — Ouvi dizer agora mesmo no Bernardo que foi chamado para

organizar o ministério o Faria Soares.

RAUL — Ora! Ora! O Soares partiu ontem com a família para Teresópolis.

ERNESTO — É verdade; porém disseram-me que ontem mesmo recebeu o

telegrama e que desce hoje. Aí vem o Goularte.

RAUL — Homem, o Goularte deve estar bem informado.

CENA II

OS MESMOS e GOULARTE

RAUL — Oh! Goularte, quem foi o chamado?

GOULARTE — O Silveira d’Assunção.

RAUL — O que estás dizendo?

GOULARTE — A pura verdade.

ERNESTO — Com os diabos! Por esta não esperava eu. Estou aqui, estou demitido.

RAUL — Mas isto é de fonte pura?

GOULARTE — E até já está organizado o ministério.

RAUL — Quem ficou na Fazenda?

GOULARTE — O Rocha.

RAUL — E na Justiça?

GOULARTE — O Brandão. Para a Guerra entrou o Felício; para a Agricultura o Barão de Botafogo...

ERNESTO — O barão de Botafogo?

GOULARTE — Sim, pois não o conheces! É o Ladislau Medeiros.

ERNESTO — Ah! já sei.

GOULARTE — Para Estrangeiros o visconde de Pedregulho; para a pasta do Império o Serzedelo...

RAUL — Misericórdia!

GOULARTE — E para a Marinha o Lucas Viriato.

RAUL — Lucas Viriato?! Quem é?

ERNESTO — Não o conheço.

GOULARTE — Eu também nunca o vi mais gordo, mas dizem que é um sujeito muito inteligente...

CENA III

OS MESMOS e COMENDADOR PEREIRA

PEREIRA — Bom dia, meu senhores. (Aperta-lhes as mãos.)

RAUL — Ora viva, senhor Comendador.

PEREIRA — Então, já sabem?

RAUL — Acabamos de saber agora mesmo. O presidente do Conselho é o Silveira d’Assunção.

PEREIRA — Não há tal, foi chamado, é verdade, mas não aceitou.

GOULARTE — Mas, senhor Comendador, eu sei...

PEREIRA — Também eu sei que o homem esteve cinco horas em São Cristóvão, e que de lá saiu à meia-noite, sem se haver decidido coisa alguma.

RAUL (Vendo Anastácio entrar pela direita.) — Ora aí está quem nos vai dar notícias frescas.

ERNESTO — Quem é?

RAUL — O conselheiro Anastácio, que ali vem. (Seguem para a direita, e formam um grupo.)

GOULARTE — Chama-o.

CENA IV

OS MESMOS, ANASTÁCIO e vendedores

VENDEDOR DE BILHETES (Que juntamente com os outros tem passado pela rua, vendendo ao povo os objetos que apregoam durante as cenas anteriores.) — Quem quer os duzentos contos do Ipiranga!

1º VENDEDOR — A Gazeta da Tarde, a 40 réis.

2º VENDEDOR — A Gazeta de Notícias.

3º VENDEDOR — A Gazetinha. Traz a queda do ministério. (Saem os vendedores.)

RAUL — Senhor conselheiro, satisfaça-nos a curiosidade. Quem é o homem que nos vai governar?

ANASTÁCIO — Pois ainda não sabem?

GOULARTE — São tantas as versões...

ANASTÁCIO — Pensei que estivessem mais adiantados. Ora ouçam lá. (Tira um papelinho do bolso; todos preparam-se para ouvi-lo com atenção.) Presidente do Conselho, Visconde da Pedra Funda; ministro do Império, André Gonzaga.

GOULARTE — Bem bom, bem bom.

ANASTÁCIO — Da Marinha, Bento Antônio de Campos.

RAUL — Não conheço.

ERNESTO — Nem eu.

GOULARTE — Nem eu.

PEREIRA — Nem eu.

ANASTÁCIO — Eu também não sei quem seja. Ouvi dizer que é um sujeito dos sertões de Minas.

RAUL — E por conseguinte muito entendido em coisas de mar.

ANASTÁCIO — Ministro da Fazenda, o barão do Bico do Papagaio.

RAUL — Para a Fazenda?!

ANASTÁCIO — Sim, senhor.

RAUL — Porém este homem nunca deu provas de si. É pouco conhecido... Nas circunstâncias em que se acha o país...

GOULARTE — Não diga isto, e aquele aparte que ele deu ao Ramiro... Lembra-se, senhor Conselheiro?

ANASTÁCIO — Não.

GOULARTE — Um aparte dado na questão do Xingu.

RAUL — Era melhor que o tivessem deixado à parte. Vamos adiante.

ANASTÁCIO — Ministro da Guerra, Antônio Horta.

ERNESTO — Magnífico!

RAUL — Qual magnífico.

ANASTÁCIO — Da Agricultura, João Cesário, e fica na pasta dos Estrangeiros o presidente do Conselho.

RAUL — Lá estão pondo um telegrama na porta do Globo. Vamos ver o que é.

(Dirigem-se à porta do Globo, ao redor da qual reúnem-se todos que estão em cena, e depois retiram-se. Ernesto entra no Globo.)

CENA V

DONA BÁRBARA COELHO e MARIQUINHAS

DONA BÁRBARA (Entrando com Mariquinhas pela esquerda.) — Que maçada.

Se eu soubesse que esta maldita rua estava hoje neste estado, não tinha saído de casa.

MARIQUINHAS — Pois olhe, mamãe; é assim que eu gosto da rua do Ouvidor.

DONA BÁRBARA — Tomara eu já que se organize o ministério só para assim ver se teu pai sossega. Encasquetou-se-lhe na cabeça que há de ser por força ministro.

MARIQUINHAS — E por que não, mamãe? Os outros são melhores do que ele?!

DONA BÁRBARA — E vive há três dias encerrado em casa, como um verdadeiro maluco. Por mais que lhe diga — seu Chico, vá para a câmara, contente-se em ser deputado, que não é pouco, e o homem a dar-lhe. Já quando caiu o outro ministério foi a mesma coisa. Passa o dia inteiro a passear de um lado para o outro; assim que ouve o ruído de um carro, ou o tropel de cavalos corre para a janela, espreita pelas frestas da veneziana, e começa a dizer-me todo trêmulo: — É agora, é agora, Barbinha, mandaram-me chamar. De cinco em cinco minutos pergunta ao criado: — Não há alguma carta para mim? Que aflição de homem, Santo Deus! Aquilo já é moléstia! Parece que se ele não sair ministro desta vez, arrebenta!

MARIQUINHAS — Faz papai muito bem. Se eu fosse homem também havia de querer governar.

DONA BÁRBARA — Pois eu se fosse homem acabava com câmaras, com

governo, com liberais, conservadores e republicanos e reformava este país.

CENA VI

AS MESMAS e FELICIANINHA

MARIQUINHAS — Gentes, dona Felicianinha por aqui!

FELICIANINHA (Com embrulhos.) — É verdade. Como está, dona Bárbara?

(Aperta a mão de Bárbara e de Mariquinhas e beijam-se.)

MARIQUINHAS — Como vai a Bibi? A Fifina está boa? Há muito tempo que não vejo a Cocota.

FELICIANINHA — Todos bons. Eu é que não tenho andado muito boa. Só a necessidade me faria sair hoje de casa.

DONA BÁRBARA — É o mesmo que me acontece.

FELICIANINHA — Fui ao Palais-Royal experimentar um vestido, fui depois ao dentista, entrei no Godinho para ver umas fitas para o vestido da Chiquinha...

MARIQUINHAS — Nós também estivemos no Godinho. Não viu lá a Filomena Brito com a filha?

FELICIANINHA — Vi, por sinal que tanto uma como a outra estavam caiadas que era um Deus nos acuda.

DONA BÁRBARA — Andam constantemente assim. E a sirigaita da filha a estropiar palavras em francês, inglês, alemão e italiano, para mostrar aos circunstantes que já esteve na Europa.

FELICIANINHA — Eu acho uma coisa tão ridícula! E o que quer dizer vestir-se a mãe igual à filha!

DONA BÁRBARA — É moda cá da sua terra. Andam as velhas por aí todas pintadas, frisadas, esticadas e arrebicadas, à espera dos rapazes pelas portas dos armarinhos e das confeitarias. Cruz, credo, Santa Bárbara! Só se benzendo a gente com a mão canhota.

Olhe, lá em Minas nunca vi disto e estou com cinqüenta anos!

CENA VII

DONA BÁRBARA, MARIQUINHAS, FELICIANINHA, FILOMENA e BEATRIZ

MARIQUINHAS — Lá vem a Filomena com a filha.

DONA BÁRBARA — Olhem só que sirigaitas!

FILOMENA (Saindo com Beatriz do armarinho do fundo.) — Como está, dona Bárbara? (Cumprimentam-se todas, beijando-se.)

DONA BÁRBARA — Como está, minha amiga?

MARIQUINHAS (Para Beatriz.) — Sempre bonita e interessante.

DONA BÁRBARA (Para Filomena.) — E a senhora cada vez mais moça.

FILOMENA — São os seus olhos.

FELICIANINHA (Para Beatriz.) — Como tem passado?

BEATRIZ — Assim, assim. Çá vá doucement, ou como dizem os alemães: so, so.

DONA BÁRBARA (Baixo a Mariquinhas.) — Começa ela com a algaravia.

BEATRIZ — Não tive o prazer de vê-la no último baile do Cassino. Esteve ravissant, esplendide. O high-life do Rio de Janeiro estava representado em tudo quanto possui de mais recherchè. O salão iluminado a giorno, e a last fashion exibia os seus mais belos esplendores. Prachtvoll, ausgezeichnet, como dizem os alemães.

DONA BÁRBARA (Baixo a Mariquinhas.) — Olha só para aquilo. Ausgetz...

Parece que tem um pedaço de cará fervendo na boca.

FILOMENA — A Beatriz causou sensação. Não leram a descrição da sua toilette?

DONA BÁRBARA — Ouvi dizer alguma coisa a respeito.

FILOMENA — Pois saiu em todos os jornais, no Globo, na Gazetinha, na Gazeta da Tarde, na Gazeta de Notícias...

BEATRIZ — O corpinho estava come ci, come cá. A saia é que estava ravissant!

Era toda bouilloné, com fitas veill’or e inteiramente curta.

FELICIANINHA — Vestido curto para baile?

BEATRIZ — É a última moda.

MARIQUINHAS — Onde mandou fazê-lo?

FILOMENA — Veio da Europa.

BEATRIZ — E foi feito pelo Worth.

DONA BÁRBARA (Baixo a Mariquinhas.) — Com toda a certeza foi feito em casa, com aviamentos comprados em algum armarinho muito cangueiro.

FILOMENA — Mas não vale a pena mandar vir vestidos da Europa. Chegam por um dinheirão, e aqui não apreciam essas coisas.

BEATRIZ — O que aqui apreciam é muita fita, muitas cores espantadas... enfim, tout ce qu’il y a de camelote.

FELICIANINHA — Não é tanto assim.

BEATRIZ — Agora mesmo acabamos de encontrar com as filhas do Trancoso, vestidas de um modo...

FILOMENA — É verdade, vinham muito ridículas.

BEATRIZ — Escorridas, coitadas, que pareciam um chapéu de sol fechado.

Sapristi!

FILOMENA — E onde é que foi a mulher do Seabra buscar aquele vestido branco todo cheio de fofinhos e crespinhos!

BEATRIZ — Parecia que estava vestida de tripas. C’est incroyable.

DONA BÁRBARA — Deixe estar que na Europa também se há de ver muita coisa ridícula. Não é só aqui que...

BEATRIZ — Disto lá nunca vi; pelo menos em Paris.

DONA BÁRBARA (À parte.) — Desfrutável! (Para Mariquinhas, alto.) Menina, vamos embora, que já é tarde.

MARIQUINHAS — Adeus, dona Beatriz.

BEATRIZ — Addio. (Beijam-se todas reciprocamente.)

FILOMENA (Para dona Bárbara.) — Apareça; sabe que sou, fui e serei sempre sua amiga.

DONA BÁRBARA — Da mesma forma. E se assim não fosse também dizia-lhe logo; eu cá sou muito franca.

FILOMENA — E por isso é que a estimo e considero. (Saem dona Bárbara, Mariquinhas e Felicianinha.)

CENA VIII

BEATRIZ e FILOMENA

BEATRIZ (Vendo Mariquinhas.) — Olhe só como vai aquele chapéu especado no alto da cabeça.

FILOMENA — E a mãe cada vez se veste pior. Não parece que já tem vindo ao Rio. Viste o doutor Raul?

BEATRIZ — Não senhora.

FILOMENA — É singular! Por que desapareceu ele lá de casa?

BEATRIZ — Não sei! Alguma intriga talvez. Sou tão infeliz...

FILOMENA — Pois olha, aquele era um excelente partido. Moço, talentoso.

BEATRIZ — Tout a fait chique.

FILOMENA — E tout a fait, (Faz sinal de dinheiro.) que é o principal.

BEATRIZ — Se papai fosse chamado agora para o ministério...

CENA IX

AS MESMAS, RAUL e GOULARTE

RAUL (Entrando do fundo com Goularte e vendo Beatriz e Filomena.) — Oh!

diabo! lá está a mulher do conselheiro Brito com a filha... Se me descobrem estou perdido.

GOULARTE — Por quê?

RAUL — Por quê? Porque a filha namora-me, desgraçado, julga-me muito rico, e noutro dia no Cassino, caindo eu na asneira de dizer-lhe que era bela, encantadora, essas banalidades, tu sabes, que costumamos dizer às moças nos bailes, o diabinho da rapariga fêz-se vermelha, abaixou os olhos, e disse-me: — Senhor doutor Raul, por que não me pede a papai?

GOULARTE — Pois pede-lhe.

RAUL — Nessa não caio eu! É pobre como Jó, e mulher sem isto (Sinal de dinheiro.) está se ninando. Vamos embora. (Saem.)

CENA X

FILOMENA, BEATRIZ, MISTER JAMES e PEREIRA

FILOMENA — E Mister James? Não me disseste que ele também?...

BEATRIZ — Faz-me a corte, é verdade; porém aquilo é pássaro bisnau, e não cai assim no laço com duas razões.

FILOMENA — Dizem que é o inglês mais rico do Rio de Janeiro.

BEATRIZ — Isto sei eu.

MR. JAMES (Saindo do Castelões com Pereira e vendo as duas.) How? Mim não póde fica aqui; vai embora depressa, senhor comendador.

PEREIRA — Por quê?

MR. JAMES — Semana passada, mim estar na baile de Cassino, diz àquele menina, que ele estar bonita; menina estar estúpida, e diz a mim How? Por que voucê não mi pede a papai?

PEREIRA — Bravo! E por que não se casa com ela?

MR. JAMES — Oh! no; mim não estar vem a Brasil pra casa. Mim vem aqui pra faz negócia. Menina não tem dinheiro, casamento estar mau negócia. No, no, no quer. Eu vai embora. (Sai para um lado, e Pereira para outro.)

FILOMENA (Tirando uma carteirinha do bolso.) — Vejamos o que há ainda a fazer.

BEATRIZ — Vamos à Notre-Dame ver os colarinhos e ao Boulevard do Manuel Ribeiro.

FILOMENA — É verdade; vamos lá. (Saem.)

CENA XI

ERNESTO e FILIPE FLECHA

FILIPE (Saindo do armarinho com uma caixa de papelão debaixo do braço, a Ernesto, que sai do Globo.) — Senhor Ernesto, vê aquela mulher?

ERNESTO — Qual delas? Uma é a senhora do conselheiro Brito, a outra é a filha.

FILIPE — Aquela mulher é a minha desgraça.

ERNESTO — Quem?... A filha?

FILIPE — Ela sim! Por causa dela já não durmo, já não como, já não bebo. Vi-a pela primeira vez, há uma semana, no Castelões. Comia uma empada! Com que graça ela segurava a apetitosa iguaria entre o fura-bolo e o mata-piolho, assim, olhe. (Imita.) Vê-la e perder a cabeça foi obra de um momento.

ERNESTO — Mas, desventurado, não sabes?...

FILIPE — Já sei o que vai dizer-me. Que sou um simples caixeiro de armarinho e que não posso aspirar à mão daquele anjo. Mas dentro do peito deste caixeiro pulsa um coração de poeta. Não pode imaginar as torturas por que tenho passado desde o instante em que a vi... Vi-a pela primeira vez no Castelões...

ERNESTO — Comia uma empada. Já me disseste.

FILIPE — Mas o que ainda não lhe disse é que por causa dela tenho chuchado as maiores descomposturas dos patrões, e que em um belo dia ficarei na rua a tocar leques com bandurras. A sua imagem não me sai um só instante da cabeça. Estou no armarinho; se me encomendam linha dou marcas de lamparinas; se gritam retrós preto trago sabonetes; a um velho que me pediu ontem suspensórios meti-lhe nas mãos uma bisnaga! O homem gritou, o patrão chamou-me de burro, os fregueses tomaram pagode comigo. Estou desmoralizado.

ERNESTO — Está bom, já sei.

FILIPE — Não pode saber, seu Ernesto.

ERNESTO — Olha, se o patrão te vê de lá a conversar aqui, estás arranjado.

FILIPE — Noutro dia à noite, quando os outros caixeiros dormiam, eu levantei-me, acendi a vela, e escrevi este soneto. (Tira um papel do bolso e lê.) Ouça só o princípio: Quando te vejo radiante e bela,

Por entre rendas, filós e escumilha

Meu coração ardente se humilha,

E minha alma murmura: é ela!

ERNESTO — Magnífico! Está muito bom.

FILIPE — Mandei-o para a Gazetinha. Pois querem saber o que fizeram? (Tirando a Gazetinha do bolso e mostrando.) Leia. É aqui na correspondência.

ERNESTO (Lendo.) — “Sr. F. F.”.

FILIPE — Filipe Flecha, sou eu.

ERNESTO (Lendo.) — “Os seus versos cheiram a metro e a balcão; o poeta, não passa talvez de um caixeiro de armarinho.” (Rindo.) É boa! É boa!

FILIPE — O maldito filó e a escumilha comprometeram-me. Não leio mais este papelucho. (Sobe.) Lá está ela parada à porta do Farani.

CENA XII

OS MESMOS, 1º VENDEDOR, 2º VENDEDOR, 3º IDEM, 4º IDEM (Saindo do Globo.)

1º VENDEDOR — O Globo da tarde a 40 réis.

2º VENDEDOR — O Globo, trazendo o ministério e a lista da loteria.

3º VENDEDOR — O Globo.

4º VENDEDOR — O Globo a 40 réis.

ERNESTO — Vejamos se já há alguma coisa de novo. (Compra. Para Filipe.) Não queres saber quem foi chamado para o ministério?

FILIPE — Que me importa o ministério? O meu ministério é ela! Olhe, quando a vi pela primeira vez foi no Castelões. Ela comia...

ERNESTO — Uma empada, com os diabos, já sei; não me amoles. (Sai.)

CENA XIII

FILIPE e VENDEDOR DE BILHETES

VENDEDOR DE BILHETES — A sorte grande do Ipiranga!... Quem quer os

duzentos contos!

FILIPE — Oh! Como te amo!

VENDEDOR (Para Filipe.) — Não quer os duzentos contos?

FILIPE — Deixa-me.

VENDEDOR — Fique com este número que é o último.

FILIPE — Não quero.

VENDEDOR — Eu tenho um palpite de que o senhor apanha a taluda.

FILIPE — Homem, vá-se embora.

VENDEDOR — Veja só o número.

FILIPE (À parte.) — Quem sabe se não está aqui a minha felicidade?!

VENDEDOR — Então, não se tenta?

FILIPE (À parte, tirando dinheiro do bolso.) — Lá se vão os últimos vinte e cinco mil réis, que me restam do ordenado deste mês. (Alto.) Tome. Não quero ver o número. (Sai o vendedor.) Lá seguiu ela para a Rua dos Ourives. (Sai correndo.)

CENA XIV

MISTER JAMES e RAUL

RAUL (Saindo da direita e lendo o Globo.) — “À hora em que entrou a nossa folha para o prelo, ainda não se sabia...” (Continua a ler baixo.)

MR. JAMES (Que vem lendo também o Globo, entrando por outro lado.) — “Os últimos telegramas da Europa anunciam... (Continua a ler baixo, encontrando-se com Raul.)

RAUL — Oh! Mister James! Como está?

MR. JAMES — How, senhor Raul, como tem passada?

RAUL — Então sabe já alguma coisa acerca do ministério?

MR. JAMES — Não estar já bem informada. É difícil este crise. Neste país tem duas cousas que não estar bom; é criadas e ministéria. Criadas não quer pára em casa, e ministéria dura três, quatro meses, bumba! Vai em terra. Brasileira não pode suporta governo muite tempo. Quando ministra começa a faz alguma cousa, tudo grita No presta, homem estar estúpida, homem estar tratanta...

RAUL — Infelizmente é a pura verdade.

MR. JAMES — Quando outra sobe diz mesma cousa, muda presidenta de província, subdelegada, inspetor de quarteirão, e país, em vez de anda, estar sempre parada.

RAUL — A verdade nua e crua.

MR. JAMES — Voucê escusa, se mim diz isto. Tudo quanto faz neste terra não é pra inglês ver?

RAUL — Assim dizem.

MR. JAMES — Pois então mim estar inglês, mim estar na direita de faz crítica do Brasil.

RAUL — A maldita política é que tem sido sempre a nossa desgraça.

MR. JAMES — Oh! Yes. Vem liberal, faz couse boe, vem conservador desmanche couse boe de liberal.

RAUL — E vice-versa.

MR. JAMES — Oh! Yes.

RAUL — E os republicanos?

MR. JAMES — How! Não fala em republicanas. Estar gente toda very good. Mas mim não gosta de republicana que faz barulha no meio da rua; governo dá emprega e republicana cala sua boca.

RAUL — Mas no número destes que calam a boca com empregos não se

compreendem os republicanos evolucionistas; aqueles que, como eu, querem o ideal dos governos sem sangue derramado, sem comoções sociais.

MR. JAMES — Oh! Republicana evolucionista estar a primeira de todos republicanas. Espera de braço cruzado que república aparece; e enquanto república não aparece, republicana estar ministra, deputada, senador, conselheira, tuda. Republicana evolucionista estar partida que tem por partida tira partida de todas as partidas.

RAUL — Não é nos partidos que está o nosso mal.

MR. JAMES — Sua mal de voucês está no língua. Brasileira fala muito, faz discursa very beautiful, mas país não anda pra adiante com discursa.

RAUL — Tem razão.

MR. JAMES — País precisa de braças, de comércia, de indústria, de estradas de ferro...

RAUL — É verdade, e a sua estrada para o Corcovado?

MR. JAMES — Mim estar em ajuste com companhia. Mas quando pretende compra estrada e que tem promessa de governa pra privilégia, maldita governa cai, e mim deixa de ganha muita dinheira.

RAUL — Mas pode obter o privilégio com esta gente.

MR. JAMES — Oh! Yes! Para alcança privilégia em que ganha dinheira mim faz tudo, tudo.

RAUL — Se eu pudesse alcançar também...

MR. JAMES — Uma privilégia?

RAUL — Não; contento-me com um emprego.

MR. JAMES — Mas voucê estar republicana evolucionista, pode alcança. Estrada pra Corcovado vai felicita muito Rio de Janeiro.

RAUL — Dizem que o seu sistema é diverso do da empresa atual?

MR. JAMES — Oh! Yes!

RAUL — Como pretende subir?

MR. JAMES — É um segredo, que voucê depois há de sabe. Se mim não alcança privilégia estar perdida!

RAUL — Por quê?

MR. JAMES — Porque já tem empata muito dinheira, e agora é preciso ganha.

RAUL — Só eu não acho também em que ganhar dinheiro.

MR. JAMES — Voucê não estar rico?

RAUL — Assim dizem; mas só eu sei as linhas com que me caso. No Rio de Janeiro quando um sujeito possui cinqüenta contos, dizem todos, tem trezentos!

CENA XV

OS MESMOS e FILIPE

FILIPE — Sumiu-se pela rua dos Ourives. Não pude mais vê-la. Não há remédio senão levar esta caixa ao seu destino.

CENA XVI

FILIPE, MISTER JAMES, RAUL, ERNESTO e GOULARTE

ERNESTO (Correndo.) — Até que afinal.

FILIPE e RAUL — O que é?

ERNESTO — Foi chamado...

GOULARTE — O Conselheiro Felício de Brito!

RAUL — O pai da Beatriz de Brito?

ERNESTO — Isso mesmo.

FILIPE — Magnífico! Magnífico! Magnífico!

MR. JAMES — Conselheira de Brito, que estar pai de senhora Beatriz?

ERNESTO — Yes.

MR. JAMES (Sorrindo, à parte.) How!

FILIPE (À parte.) — O pai dela!

RAUL — Mas esta notícia é verdadeira?

ERNESTO — Está à porta de todos os jornais. Na Gazetinha, na Gazeta de Notícias...

GOULARTE — Na Gazeta da Tarde, no Cruzeiro... no Jornal do Commercio...

RAUL — Lá estão pregando um papel no Globo (Reúnem-se todos junto ao Globo, menos Raul, Filipe e mister James, que ficam no proscênio.)

RAUL (Á parte.) — Beatriz julga-me rico, ofereço-lhe a mão, que aliás ela já pediu, e apanho um emprego.

MR. JAMES (Á parte.) Filha de presidenta de conselha estar apaixonada por mim; mim com certeza apanha privilégia.

FILIPE (À parte.) — Eu amo-a, adoro-a cada vez mais. Ah! que se eu apanho a sorte grande!!

RAUL — Está chovendo. (Abre o guarda-chuva.)

MR. JAMES — É verdade. (Abre o guarda-chuva. Todos abrem guarda-chuvas, menos Filipe.)

FILIPE (À parte.) — Lá vem ela!

RAUL (À parte.) — Ela!

MR. JAMES (Vendo Beatriz.) How! (Ao entrar em cena Beatriz, acompanhada de Filomena, Raul dá-lhe o braço e cobre-a com o chapéu, James dá o braço a Filomena e cobre-a.)

RAUL — Dou-lhe os meus sinceros parabéns.

MR. JAMES — Minhas felicitações.

FILOMENA — Obrigada.

FILIPE (Tomando os embrulhos de Filomena e Beatriz.) — Façam o favor, minhas senhoras!

BEATRIZ — Não se incomode.

FILIPE (À parte.) — Que mão, Santo Deus! Estou aqui, estou-lhe em casa.

(Fim do primeiro ato.)

ATO SEGUNDO

Sala elegantemente mobiliada. Portas ao fundo e laterais.

CENA I

ERNESTO e FILIPE

ERNESTO (Entrando, a Filipe, que deve estar tomando notas em uma pequena carteira.) — Filipe?! Por aqui?!

FILIPE — E então?

ERNESTO — És também pretendente?

FILIPE — Não; sou repórter.

ERNESTO — Repórter?

FILIPE — É verdade. O amor ou é a minha perdição ou há de ser talvez a causa da minha felicidade. Venho aqui todos os dias, extasio-me diante daquelas formas divinas...

Olhe, quando a vi pela primeira vez foi no Castelões, ela...

ERNESTO — Comia uma empada.

FILIPE — Ah! Já lhe disse?

ERNESTO — Milhares de vezes; já sei esta história de cor e salteado. Mas como diabo te fizeste repórter?

FILIPE — Desde o dia em que tive a felicidade de encontrar essa mulher na estrada sinuosa, espinhosa, lacrimosa da existência, tornei-me completamente outro homem. A atmosfera do armarinho pesava-me, o balcão acachapava-me, o metro desmoralizava-me, e a idéia de ter um patrão encafifava-me... Eu sentia dentro de mim um não sei quê que me dizia: — Filipe Flecha, tu não nasceste para vender agulhas, alfazema e lamparinas marca de pau, ergue a cabeça...

ERNESTO — E ergueste-a.

FILIPE — Não, abaixei-a para evitar um cascudo que o patrão pretendia dar-me em um belo dia em que estava a olhar para a rua, em vez de servir as freguesas, e não voltei mais à loja. Achando-me só, sem emprego, disse com os meus botões: — é preciso que eu faça alguma coisa. Escrever para o público, ver o meu nome em letra redonda, o senhor sabe, foi sempre a minha cachaça. Fiz-me repórter, nas horas vagas escrevo versos, e daqui para jornalista é um pulo.

ERNESTO — És mais feliz do que eu.

FILIPE — Por quê?

ERNESTO — Porque não pretendes sentar-te a uma grande mesa que há neste país, chamada do orçamento, e onde, com bem raras exceções, todos têm o seu talher. Nesta mesa uns banqueteiam-se, outros comem, outros apenas lambiscam. E é para lambiscar um bocadinho, que venho procurar o ministro.

FILIPE — Ele não deve tardar.

ERNESTO — Fui classificado em primeiro lugar no último concurso da secretaria.

FILIPE — Então está com certeza nomeado.

ERNESTO — Se a isso não se opuser um senhor de baraço e cutelo, chamado empenho, que tudo ata e desata nesta terra, e a quem até os mais poderosos curvam a cabeça.

FILIPE — Aí vem o ministro.

CENA II

OS MESMOS, CONSELHEIRO FELÍCIO DE BRITO

ERNESTO (Cumprimentando.) — Às ordens de Sua Excelência.

FILIPE (Cumprimentando.) — Excelentíssimo.

BRITO — O que desejam?

ERNESTO — Vinha trazer esta carta para Sua Excelência e implorar-lhe a sua valiosa proteção.

BRITO (Depois de ler a carta.) — Sim, senhor. Diga ao senhor senador que hei de fazer todo o possível por servi-lo. Vá descansado.

ERNESTO — Eu tenho a observar a Sua Excelência...

BRITO — Já sei, já sei.

ERNESTO — Que fui classificado em primeiro lugar.

BRITO — Já sei, já sei. Vá. (Ernesto cumprimenta e sai. A Filipe, que deve estar a fazer muitos cumprimentos.) O que quer? Ah! É o senhor?

FILIPE — Humilíssimo servo de Sua Excelência. Desejava saber se já há alguma coisa de definitivo.

BRITO — Pode dizer na sua folha que hoje mesmo deve ficar preenchida a pasta da Marinha; que o governo tem lutado com dificuldades... Não, não diga isto.

FILIPE — E essas dificuldades devem ter sido bem grandes; porque há quinze dias que o ministério está organizado, e ainda não se pôde achar um ministro para a Marinha.

BRITO — O verdadeiro é não dizer nada. Venha cá logo, e comunicar-lhe-ei então tudo o que houver ocorrido.

FILIPE (À parte.) — Onde estará ela?

BRITO — Vá, vá, venha logo.

FILIPE (À parte.) — Se eu pudesse vê-la. (Alto.) Excelentíssimo. (Cumprimenta e sai.)

CENA III

BRITO, FILOMENA e BEATRIZ

BRITO (Toca a campainha; aparece um criado.) — Não deixe ninguém entrar nesta sala. (O criado inclina-se.)

FILOMENA (Que entra com Beatriz, pela esquerda.) — E as minhas visitas?

BEATRIZ — E as minhas, papai? Voyons. Ça ne se fait pas.

BRITO — Porém, minha querida Beatriz, espero aqui os meus colegas, temos que tratar de negócios do Estado, que são negócios muito sério.

BEATRIZ — Ça ne fait rien.

FILOMENA — Ao menos dê ordem para que deixem entrar mr. James.

BEATRIZ — E o Senhor Raul também.

BRITO — Valha-me Deus! Vocês alcançam de mim tudo o que querem. (Para o criado.) Quando o senhor James e o senhor Raul chegarem, manda-os entrar. (O criado cumprimenta e sai.) Estão satisfeitas?

BEATRIZ — I love you, meu querido papai.

FILOMENA (Reparando a sala.) — E então? A sala já não parece a mesma!

BEATRIZ — E as cortinas estão assorti com a mobília, mas este tapete é um escarro.

FILOMENA — É verdade. Felício, precisamos comprar um tapete. Vi ontem um muito bonito no Costrejean.

BRITO — Não compro mais coisa alguma, minha senhora. A senhora pensa porventura que eu aceitei esta prebenda para ainda em cima arruinar-me?

FILOMENA — Quando se está em certa posição, não se deve fazer figura ridícula.

BEATRIZ — Noblesse oblige, papai.

FILOMENA — Não sei o que quer dizer ser ministro e andar de bonde como os outros, ter uma casa modestamente mobiliada, como os outros, não receber, não dar bailes, não dar jantares, como os outros, vestir-se como os outros.

BEATRIZ — É verdade. C’est ridicule.

BRITO — Mas, minhas filhas, não há ninguém por aí que não saiba que tenho poucos recursos, que vivo apenas dos meus ordenados. A vida de um homem de Estado é devassada e esmerilhada por todos, desde os mais ínfimos até os mais elevados representantes da escala social. O que dirão se me virem amanhã ostentando um luxo incompatível com os meus haveres?

FILOMENA — Se a gente for dar satisfações a tudo o que dizem...

BRITO — E olha que aqui não se cochila para dizer que um ministro é ladrão. O

que mais querem vocês de mim? Já obrigaram-me a alugar esta casa em Botafogo...

FILOMENA — Devíamos ficar morando em Catumbi?

BRITO — E o que tem Catumbi?

BEATRIZ — Ora papai.

BRITO — Sim, o que tem?

BEATRIZ — Não é um bairro como il faut.

BRITO — Obrigaram-me a assinar o Teatro Lírico e... camarote.

FILOMENA — Está visto. Havia de ser interessante ver a família do presidente do Conselho sentada nas cadeiras.

BEATRIZ — Como qualquer sinhá Ritinha da Prainha ou da Gamboa... Dieu m’en garde! Eu preferiria lá não ir.

BRITO — Obrigaram-me mais a ter criados estrangeiros de casaca e gravata branca, quando eu podia perfeitamente arranjar a festa com o Paulo, o Zebedeu e a Maria Angélica.

BEATRIZ — Pois não, são frescos, sobretudo o Zebedeu. No outro dia, à mesa de jantar, mamãe disse-lhe: — Vá buscar lá dentro uma garrafa de vinho do Porto, mas tome cuidado, não a sacuda. Quando chegou com a garrafa, mamãe perguntou-lhe: — Sacudiu?

— Não senhora, diz ele, mas vou sacudir agora. E começa, zás, zás, zás. (Faz menção de quem sacode.) Quelle imbecile. Aquilo é que os alemães chamam — in Schafskopf!

BRITO— Até a minha roupa vocês querem reformar.

FILOMENA — Com franqueza, Felício, a tua sobrecasaca já estava muito sebosa!

BEATRIZ — Papai quer fazer a mesma figura que faz o ministro do Império?

BRITO — É um homem muito inteligente. Tem um grande tino administrativo.

BEATRIZ — Tem, sim, senhor; mas era melhor que ele tivesse um paletó na razão direta da inteligência. E depois, como come, Santo Deus! Segura na faca assim, olhe, (Mostra.) e mete-a na boca até o cabo, toda atulhada de comida. Choking.

BRITO — Em compensação o ministro de Estrangeiros...

BEATRIZ — É o melhorzinho deles. Mas não sabe línguas.

BRITO — Estás enganada, fala muito bem francês.

BEATRIZ — Muito bem, muito bem, lá para que digamos não senhor. Diz monsiù, negligè, bordó, e outras que tais.

BRITO — Enfim há quinze dias apenas que subi ao poder e já estou cheio de dívidas!

FILOMENA — Não é tanto assim.

BRITO — Só ao compadre Bastos devo dez contos de réis.

FILOMENA — E se não fosse ele, estaríamos representando um papel bem triste.

BEATRIZ — Não poderíamos receber às quintas-feiras o high life do Rio de Janeiro.

BRITO — Sim, esse high life que aqui vem dançar o cotillon, ouvir boa música, saborear-me os vinhos; e que abandonar-me-á com a mesma facilidade com que hoje me adula, no dia em que eu não puder mais dispor dos empregos públicos.

BEATRIZ — Papai não tem razão.

BRITO — Pois bem, minha filha, quer tenha ou não razão, só te peço uma coisa, e faço igual pedido à tua mãe. Não exijam de mim impossíveis. Vocês sabem que nada lhes posso negar. (Tirando o relógio e vendo as horas.) Os meus companheiros não tardam. Vou ao meu gabinete; já volto.

CENA IV

FILOMENA, BEATRIZ e MISTER JAMES

BEATRIZ (Sentando-se e lendo um livro, que deve trazer na mão.) — É muito bem escrito este romance de Manzoni.

FILOMENA — Um tapete novo aqui deve fazer um vistão. Não achas?

MR. JAMES (Com um rolo debaixo do braço.) Mim pode entra?

FILOMENA — Oh! Mr. James!

MR. JAMES — Como está, senhorra? (Para Beatriz.) Vosmecê vai bem?

FILOMENA — Pensei que não viesse.

MR. JAMES — Oh! mim dá palavra que vem; mim não falta sua palavra.

BEATRIZ — Assim deve ser.

FILOMENA — Trouxe os seus papéis?

MR. JAMES — Oh! Yes.

BEATRIZ — O seu projeto é a great attraction do dia.

MR. JAMES — Projeto estar muita grandiosa. (Desenrola o papel e mostra.) Carros sai daqui de Cosme Velha, e sobe Corcovada em vinte minutas.

BEATRIZ — E estes cachorros que estão aqui pintados?

MR. JAMES — Senhorras não entende deste cousa: mim fala com pai de vosmecê, explica o que é todos esses cachorras.

FILOMENA — Tudo quanto temos de bom devemos aos senhores estrangeiros.

BEATRIZ — C’est vrai. Os brasileiros, com raras exceções, não se ocupam destas coisas.

MR. JAMES — Brasileira estar muito inteligenta; mas estar também muito preguiça. Passa vida no Rua do Ouvidor a fala de política, pensa só de política de manhã até a noite. Brasileira quer estar deputada, juiz de paz, vereador... Vereador ganha dinheira?

FILOMENA — Não, senhor; é um cargo gratuito.

MR. JAMES — Então mim não sabe como tudo quer ser vereador. Senhorra já fala com sua marida a respeita de minha projeta?

FILOMENA — Não, senhor, mas hei de falar-lhe.

MR. JAMES — Sua marida estar engenheira ou agricultor?

BEATRIZ — Papai é doutor em Direito.

MR. JAMES — E ministra de Império?

BEATRIZ — Também doutor em Direito.

MR. JAMES — Ministra d’Estrangeiras?

FILOMENA — Doutor em Direito.

MR. JAMES — How! Toda ministéria estar doutor em direita?

BEATRIZ — Sim, senhor.

MR. JAMES — Na escola de doutor em direita estuda marinha, aprende planta batatas e café, e sabe todas essas cousas de guerra?

FILOMENA — Não, senhor.

BEATRIZ — Estudam-se leis.

MR. JAMES — No Brasil estar tudo doutor em direita. País no indireita assim.

Mim não sabe se estar incomodando senhora. (Sentam-se.)

BEATRIZ — Oh! o senhor nunca nos incomoda, dá-nos sempre muito prazer.

MR. JAMES — Pois mim tem também muito prazer em conversa com vosmecê; (Para Beatriz) pois eu gosta muito de brasileiras.

BEATRIZ — Mas as inglesas são very beautiful. Eu vi em Londres, no Hyde-Park, verdadeiras formosuras.

MR. JAMES — Oh! yes. Inglesas estar muito bonitas, mas brasileira tem mais...

tem mais... Como chama este palavra... Eu tem no ponta da língua... brasileira tem mais pasquim.

FILOMENA — Pasquim?!

MR. JAMES — No, no, como chama este graça de brasileira?

BEATRIZ — Ah! quindins.

MR. JAMES — Oh! yes, very well. Quindins.

FILOMENA — Muito bem, mr. James. Falta agora que o senhor confirme o que acaba de dizer casando-se com uma brasileira.

MR. JAMES — Mim no pode casa, por ora, porque só tem cinqüenta mil libras sterlinas; mas se mim arranja este privilégia, dá palavra que fica em Brasil e casa com brasileira.

FILOMENA — Pelo que vejo já está enfeitiçado pelos quindins de alguma?

MR. JAMES — Não duvida, senhora, e crê que feitiça não estar muito longe daqui.

(Olha significativamente para Beatriz.)

BEATRIZ — (À parte.) — Isto já eu sabia.

FILOMENA (À parte.) — É a sorte grande!

CENA V

OS MESMOS e BRITO

BRITO (Vendo o relógio.) — Ainda nada. Oh! Mister James. Como está?

MR. JAMES — Criada de Sua Excelência. (Conversa com Beatriz.)

FILOMENA (Levando Brito para um lado.) — Este inglês possui uma fortuna de mais de quinhentos contos, parece gostar de Beatriz... Se nós soubermos levá-lo, poderemos fazer a felicidade da menina.

BRITO — E o que queres que faça?

FILOMENA — Que lhe concedas o privilégio que ele pede.

BRITO — Mas, senhora, estas questões não dependem só de mim. Eu não quero comprometer-me.

FILOMENA — Então para que te serve ser presidente do Conselho?

BRITO — Mas eu não posso nem devo dispor das coisas do Estado para arranjos de família. A senhora já me endividou e quer agora desacreditar-me.

FILOMENA — Pois isto há de se fazer. Mr. James, meu marido quer conversar com o senhor a respeito do seu negócio.

BRITO — Estarei às suas ordens, senhor James; porém um pouco mais tarde.

Espero os meus colegas.

MR. JAMES — A que horas mim pode procura Sua Excelência?

BRITO — Às duas horas.

MR. JAMES — Até logo. (Cumprimenta e sai.)

CENA VI

OS MESMOS, menos MISTER JAMES

BRITO — A senhora ainda há de comprometer-me. (Sai.)

FILOMENA — Dizem todos que é um projeto grandioso.

BEATRIZ — Vou acabar a leitura deste romance.

FILOMENA — Eu vou dar as ordens para a partida desta noite.

CENA VII

DONA BÁRBARA, CRIADO e o DESEMBARGADOR FRANCISCO COELHO

CRIADO — Sua Excelência não está em casa.

COELHO — Quero falar com as senhoras. Aqui tem o meu cartão. (Criado cumprimenta e sai.)

DONA BÁRBARA — Está em casa com toda a certeza; mas negou-se.

COELHO — Isto sei eu; e por isso é que entrei.

DONA BÁRBARA — Eu não devia vir. Estas sirigaitas aborrecem-me