Caiu o Ministério por França Júnior - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

extraordinariamente.

COELHO — Mas, minha filha, tu pensas que em política a gente sobe unicamente por seus belos olhos? Não sou rico, já estou velho, não tenho pai alcaide, se deixar fugir as ocasiões, quando serei ministro?

DONA BÁRBARA — E para que você quer ser ministro, seu Chico?

COELHO — Ora, tens às vezes certas perguntas? Para quê? Para governar, para fazer o que os outros fazem.

DONA BÁRBARA — Você não tem sabido governar a fazenda, e quer governar o Estado!

COELHO — A senhora não entende destas coisas.

DONA BÁRBARA — Ora, diga cá! Suponha que você é nomeado ministro.

COELHO — Sim, senhora.

DONA BÁRBARA — Perde a cadeira na Câmara. Tem de sujeitar-se a uma nova eleição...

COELHO — E o que tem isto?

DONA BÁRBARA — O que tem?! É que se você cair nesta asneira, seu Chico, toma uma derrota, tão certo como eu chamar-me Bárbara Benvinda da Purificação Coelho.

COELHO — Eu, ministro, derrotado?

DONA BÁRBARA — E por que não? Você é melhor do que os outros?

CENA VIII

OS MESMOS, RAUL, BEATRIZ e FILOMENA

RAUL — Senhor desembargador.

COELHO — Senhor doutor.

RAUL — Minha senhora.

FILOMENA — Fiz-lhe esperar muito?

BEATRIZ (Para Raul.) — Não sabia que estava também aqui.

COELHO — O conselheiro não está em casa?

FILOMENA — Está no seu gabinete.

DONA BÁRBARA (Baixo.) — O que te dizia eu?

FILOMENA — Quer falar-lhe?

COELHO — Se fosse possível...

FILOMENA — Entre.

COELHO — Com licença. (Sai.)

CENA IX

RAUL, BEATRIZ, DONA BÁRBARA e FILOMENA

DONA BÁRBARA — Como vão os seus pequenos?

FILOMENA — O Chiquinho vai bem; a Rosinha é que tem passado mal.

BEATRIZ (A Raul.) — Por que não tem aparecido?

RAUL — Sabe que o meu desejo era viver sempre a seu lado.

BEATRIZ — Está nas suas mãos.

RAUL — Se fosse possível...

DONA BÁRBARA — Quem sabe se ela não sofre de vermes?

FILOMENA — O próprio médico não sabe o que é. Sente umas coisas que sobem e descem; às vezes fica meio apatetada.

DONA BÁRBARA — Querem ver que é mau olhado!

FILOMENA — Ora, a senhora acredita nessas coisas?!

DONA BÁRBARA — É porque a senhora ainda não viu o que eu presenciei com estes que a terra há de comer.

FILOMENA— Ah! ah! ah! O senhor crê em mau olhado, senhor Raul?

RAUL — Não, minha senhora; apenas no bom olhado de uns olhos feiticeiros.

(Olha para Beatriz significativamente.)

DONA BÁRBARA — Pois eu vi lá em Minas uma criatura, que estava bem

atacada. E em dez minutos ficou boa.

FILOMENA — Com a homeopatia?

DONA BÁRBARA — Com uma oração.

FILOMENA — Ah! E como é esta oração?!

DONA BÁRBARA — A mulher chamava-se Francisca. Molharam um ramo de

arruda em água benta e rezaram-lhe o seguinte: “Francisca, se tens mau olhado, ou olhos atravessados, eu te benzo em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Deus te olhe e Deus te desolhe, e Deus te tire essa mau olhado, que entre a carne e os ossos, tens criado; que saia do tutano e vá para os ossos, que saia dos ossos e vá para a carne, que saia da carne e vá para a pele, e que daí saia, e vá para o Rio Jordão, onde não faça mal a nenhum cristão.” É infalível. Experimente.

BEATRIZ (Baixo a Raul.) Quelle bêtise.

RAUL — Não acredita na influência dos olhos?

BEATRIZ — Sim; mas não creio na eficácia daquelas orações.

RAUL — E sabe ler neles?

BEATRIZ — Quelque chose.

RAUL — O que lhe dizem os meus?

BEATRIZ — Que o senhor é um grande bandoleiro.

RAUL — Não, não é isto o que eles dizem.

BEATRIZ — O que dizem então? Voyons.

RAUL — Que aqui dentro há um coração que pulsa pela senhora e só para a senhora.

BEATRIZ— Non lo credo.

RAUL — Dona Beatriz, se estivesse em condições de fazê-la feliz, hoje mesmo dirigia-me a seu pai, e pedia-lhe o que mais ambiciono neste mundo — a sua mão.

BEATRIZ — E o que lhe falta para tornar-me feliz?

RAUL — Uma posição social.

BEATRIZ— O senhor não é bacharel em Direito?

RAUL — É verdade.

BEATRIZ — Alors...

RAUL — Porém, se o ser bacharel em Direito fosse um emprego, haveria muito pouca gente desempregada no Brasil. Seu pai está hoje no governo, poderia lançar as suas vistas sobre mim... Como seríamos felizes um ao lado do outro.

BEATRIZ — Eu vou falar com mamãe. Comunicar-lhe-ei as suas intenções a meu respeito, e dar-lhe-ei a resposta.

RAUL — Advogue bem a minha causa, ou antes a nossa causa.

BEATRIZ — Sim. ( À parte.) E eu que o julgava desinteressado. Oh! les hommes!

Les hommes!

FILOMENA — Por que não veio à nossa última partida, senhor Raul?

BEATRIZ (Para Raul.) — Dançamos um cotillon que durou quase duas horas.

RAUL — Quem marcava?

BEATRIZ — O ministro da Bélgica. Oh! que j’aime le cotillon.

DONA BÁRBARA — O que vem a ser isto de cotião?

BEATRIZ — Uma dança arrebatadora.

CENA X

OS MESMOS e COELHO

COELHO (Zangado.) — Vamos embora.

FILOMENA — Já?!

DONA BÁRBARA (Baixo a Coelho.) — Então; o que arranjaste?

COELHO (Baixo.) — O que arranjei?! Nada; mas ele arranjou uma oposição de arrancar couro e cabelo. Hei de mostrar-lhe o que valho. Estão aqui estão na rua.

DONA BÁRBARA (Baixo.) — Bem feito.

COELHO (Baixo.) — Vamos embora.

FILOMENA (Para Coelho e Bárbara, que se despedem.) — Espero que apareçam mais vezes.

COELHO — Obrigado, minha senhora. (Saem.)

RAUL — Há de permitir-me também...

FILOMENA — Então até a noite.

RAUL — Até a noite. (Sai.)

CENA XI

FILOMENA e BEATRIZ

BEATRIZ — O senhor Raul acaba agora mesmo de pedir-me a mão.

FILOMENA — Agora mesmo?

BEATRIZ — Mas sob uma condição.

FILOMENA — Qual é?

BEATRIZ — De arranjar-lhe com papai um emprego. Veja só a senhora o que são os homens de hoje!

FILOMENA — E que lhe respondeste?

BEATRIZ — Que havia de falar com vosmecê e que dar-lhe-ia depois a resposta.

FILOMENA — Muito bem. Não lhe digas nada, por ora, enquanto não se decidir o negócio do inglês. Tenho mais fé em mr. James. Aquilo é que se pode chamar um bom partido.

BEATRIZ — E ele quererá casar comigo?

FILOMENA — Ora, não quer ele outra coisa.

CENA XII

CRIADO, MINISTRO DA GUERRA, MINISTRO DA JUSTIÇA, MINISTRO DO

IMPÉRIO, MINISTRO DE ESTRANGEIROS, FILOMENA e BEATRIZ

CRIADO (Na porta.) — Sua excelência o senhor ministro da Guerra.

MINISTRO DA GUERRA — Minhas senhoras. (Cumprimenta Beatriz.)

FILOMENA (Para o criado.) — Vá chamar seu amo. (O criado sai pela porta da esquerda.)

BEATRIZ — Como está sua senhora?

MINISTRO DA GUERRA — Bem, obrigado, minha senhora.

FILOMENA (Despedindo-se.) — Com licença. (Sai com Beatriz.)

CENA XIII

OS MESMOS e BRITO, menos FILOMENA e BEATRIZ

BRITO — Meu caro conselheiro. Os outros colegas ainda não vieram?

MINISTRO DA GUERRA — Aí está o ministro da Justiça.

MINISTRO DA JUSTIÇA — Conselheiro...

MINISTRO DA GUERRA — E do Império. (Entra o ministro do Império.) MINISTRO DA JUSTIÇA — O nosso colega de Estrangeiro aí vem.

BRITO — Ei-lo. (Entra o ministro de Estrangeiros.) Meus senhores, precisamos conjurar seriamente as dificuldades que nos cercam.

MINISTRO DA GUERRA — Apoiado.

BRITO — Há quinze dias apenas que subimos ao poder, e já se notam muitos claros nas fileiras da maioria.

MINISTRO DA JUSTIÇA — A oposição se engrossa a olhos vistos.

BRITO — Agora mesmo acaba de sair daqui o desembargador Coelho. É mais um descontente que passa para o outro lado.

MINISTRO DA JUSTIÇA — O Coelho? Ainda ontem, pode-se dizer, aspirava a ser o líder da maioria.

BRITO — É verdade! Porém suspira por uma pasta, e nas circunstâncias atuais não é possível.

CENA XIV

O CRIADO, BRITO, MINISTRO DA GUERRA, MINISTRO DA JUSTIÇA, MINISTRO

DO IMPÉRIO, MINISTRO DE ESTRANGEIROS, CONSELHEIRO FELIZARDO e

DOUTOR MONTEIRINHO

CRIADO ( À parte.) — O senhor conselheiro Felizardo.

BRITO — Oh! Senhor conselheiro. (Cumprimentam-se todos.) Esperava ansiosamente por Vossa Excelência.

FELIZARDO — Estou às ordens de Vossa Excelência.

BRITO — O seu nome, o prestígio de que goza, a sua dedicação às idéias dominantes, são títulos que muito o habilitam.

FELIZARDO — Bondade de meus correligionários.

MINISTRO DO IMPÉRIO — Pura justiça.

BRITO — Precisamos do apoio de Vossa Excelência, como do ar que respiramos.

A pasta da Marinha ainda está vaga...

FELIZARDO — Já estou velho...

BRITO — Não nos animamos a oferecê-la. Longe de nós semelhante pensamento!

O lugar de Vossa Excelência é na presidência do Conselho.

FELIZARDO — Se Vossas Excelências permitem, dou um homem por mim.

MINISTRO DO IMPÉRIO — Basta ser de sua confiança...

BRITO — Para ser recebido de braços abertos.

FELIZARDO (Apresentando o doutor Monteirinho.) — Aqui está o homem, o doutor Monteiro, meu sobrinho, filho de minha irmã Maria José; e que acaba de chegar da Europa, razão pela qual ainda não tomou assento na Câmara.

BRITO (Admirado.) — Senhor doutor, folgo muito de conhecê-lo. (Baixo a Felizardo.) Acho-o, porém, tão mocinho.

FELIZARDO — Formou-se o ano passado em São Paulo. (Baixo.) Que inteligência, meu amigo!

DR. MONTEIRINHO — Saí apenas dos bancos da academia, é verdade, meus senhores; mas tenho procurado estudar com afinco todas as grandes questões sociais que se agitam atualmente. A minha pena já é conhecida no jornalismo diário e nas revistas científicas. Na polêmica, nas questões literárias, nos debates políticos, nas diversas manifestações, enfim, da atividade intelectual, tenho feito o possível por criar um nome.

FELIZARDO (Baixo.) — É muito hábil.

BRITO (Baixo.) — É verdade.

FELIZARDO (Baixo.) — É um canário.

DR. MONTEIRINHO — Se não fossem as influências mesológicas assaz

acanhadas, em que vivem nesta terra as inteligências que procuram abrir a corola aos raios ardentes da luz, eu já teria talvez aparecido, a despeito dos meus verdes anos.

BRITO (Baixo a Felizardo.) — Que idade tem?

FELIZARDO — Que idade tens, Cazuza?

DR. MONTEIRINHO — Vinte e dois anos.

MINISTRO DA JUSTIÇA — O senhor doutor Monteiro não é...

FELIZARDO — Chame-o doutor Monteirinho. É o nome por que ele é conhecido.

MINISTRO DA JUSTIÇA — O doutor Monteirinho não é o autor da célebre poesia O grito da escravidão, que veio publicada no Correio Paulistano?

DR. MONTEIRINHO — E que foi transcrita em todos os jornais do Império. Um seu criado. Já cultivei a poesia em tempos que lá vão. Hoje, em vez de tanger a lira clorótica do romantismo ou de dedilhar as cordas, afinadas ao sabor moderno, dos poetas realistas, leio Spencer, Schopenhauer, Bückner, Littré, todos esses grandes vultos, que constituem o apostolado das sociedades modernas.

FELIZARDO (Baixo, a Brito.) — Este rapaz vai fazer um figurão no ministério.

BRITO — Creio. Terá, porém, ele a experiência dos negócios públicos?

FELIZARDO — Não lhe dê cuidado. Fica sob as minhas vistas: eu saberei guiá-lo.

DR. MONTEIRINHO — A grande naturalização é uma das questões atuais mais importantes para o Brasil.

BRITO — Podemos contar, portanto, com o apoio decidido de Vossa Excelência.

FELIZARDO — Se até aqui eu quebrava lanças por este ministério...

BRITO — Lá isso é verdade.

FELIZARDO — Imagine agora... (Olhando para Monteirinho.) O meu Cazuzinha!

DR. MONTEIRINHO — E a questão das terras? Já leram a Questão Irlandesa, de Henry George? É um livro admiravelmente escrito. Um livro do futuro!

BRITO — Senhor doutor Monteirinho, temos a honra de considerar Vossa Excelência no número dos nossos colegas.

DR. MONTEIRINHO — Oh! Senhor conselheiro.

FELIZARDO — Cazuza, faz por seguir o caminho de teu tio. Vou correndo para a casa. Que alegrão vai ter a Maria José. (Sai.)

CENA XV

OS MESMOS e JAMES, menos FELIZARDO

BRITO — Vamos para o gabinete.

MR. JAMES (Aparecendo na porta.) Duas horas em ponta.

BRITO ( À parte.) — Que maçada. Não me lembrava mais dele. (James entra.

Alto.) Meus senhores, apresento-lhes mr. James, que requer um privilégio que parece ser de grande utilidade.

DR. MONTEIRINHO — Vejamos.

MR. JAMES (Desenrolando o papel e mostrando.) Aqui tem, senhoras.

DR. MONTEIRINHO — O que vem a ser isto?

BRITO — Uma estrada especial para o Corcovado.

MR. JAMES — Maquinisma estar muito simples. Em vez de duas trilhas, ou de três trilhas, como tem sistema adotada, mim coloca uma só trilha larga, de meu invenção.

DR. MONTEIRINHO — É bitola estreita?

MR. JAMES — Oh! estreitíssima! É bitola zero.

DR. MONTEIRINHO — E como se sustém o carro?

MR. JAMES — Perfeitamente bem.

DR. MONTEIRINHO — O sistema parece ser facílimo.

MR. JAMES — E estar muito econômica, senhorr.

MINISTRO DA JUSTIÇA — Mas não vejo máquina, vejo apenas cachorros. O que quer dizer isto?

MR. JAMES — Aí é que está tuda.

BRITO — Não compreendo. Tenha a bondade de explicar-me.

MR. JAMES — Idéia estar aqui completamente nova. Mim quer adota sistema cinófero. Quer dizer que trem sobe puxada por cachorras.

DR. MONTEIRINHO — Não era precisa a explicação. Nós todos sabemos que cinófero vem do grego cynos, que quer dizer cão, e feren, que significa puxar, etc.

MR. JAMES — Muito bem, senhorr.

DR. MONTEIRINHO — Agora o que se quer saber é como é que os cachorros puxam.

MR. JAMES — Cachorra propriamente no puxa. Roda é oca. Cachorra fica dentro de roda. Ora, cachorra dentro de roda, no pode estar parada. Roda ganha impulsa, quanto mais cachorra mexe, mais o roda caminha!

DR. MONTEIRINHO — E de quantos cachorros precisa o senhor para o tráfego dos trens diários do Cosme Velho ao Corcovado?

MR. JAMES — Mim precisa de força de cinqüenta cachorras por trem; mas deve muda cachorra em todas as viagens.

MINISTRO DA JUSTIÇA — Santo Deus! É preciso uma cachorrada enorme.

MR. JAMES — Mas eu aproveita todas as cachorras daqui e faz vir ainda muitas cachorras de Inglaterra.

BRITO — Mas se estes animais forem atacados de hidrofobia não há perigo para os passageiros?

DR. MONTEIRINHO — Eu entendo que não se pode conceder este privilégio, sem se ouvir primeiro a junta de higiene.

MR. JAMES — Oh! senhorr, não tem a menor periga. Se cachorra estar danada, estar ainda melhor, porque faz mais esforça e trem tem mais velocidade.

BRITO — Em resumo, qual é a sua pretensão?

MR. JAMES — Mim quer privilégia para introduzir minha sistema em Brasil, e estabelecer primeira linha em Corcovada, com todas as favores de lei de Brasil para empresa de caminha de ferro.

BRITO — Mas o cachorro não está ainda classificado como motor na nossa legislação de caminhos de ferro.

DR. MONTEIRINHO — Neste caso deve levar-se a questão ao poder legislativo.

BRITO — Está bem: nós vamos ver e resolveremos como for de justiça.

MR. JAMES — Em quanto tempa decide este negócia?

DR. MONTEIRINHO — Vamos resolver.

MINISTRO DO IMPÉRIO — Tenha paciência, espere.

BRITO — Às suas ordens. (Despede-se, os outros despedem-se de James e saem pela esquerda.)

CENA XVI

JAMES,

MR. JAMES — Tem paciência, espera! Sistema de brasileira. Time is money. Eu fala com mulher, e arranja tuda. (Sai.)

CENA XVII

BEATRIZ e depois FILIPE

BEATRIZ — Vejamos se aqui posso concluir sossegada a leitura deste romance.

(Lê.)

FILIPE — Ela?! Oh! Eu atiro-me e confesso tudo. Ora adeus! (Tropeça em uma cadeira.)

BEATRIZ (Revolvendo-se.) — Quem é?

FILIPE — Filipe Flecha, um criado de Vossa Excelência. Sou repórter.

BEATRIZ — Papai está agora em conselho com os outros ministros.

FILIPE — Como é bela! (Beatriz continua a ler.)

BEATRIZ (À parte.) — Este estafermo pretenderá ficar aqui. Que bruta faccia.

FILIPE — Eu atiro-me-lhe aos pés. Coragem! (Encaminha-se para Beatriz.) BEATRIZ — Quer alguma coisa?

FILIPE (Tirando uma carteira.) — O senhor seu pai onde nasceu, minha senhora?

BEATRIZ — No Pará.

FILIPE (Escrevendo na carteira.) — Onde formou-se?

BEATRIZ — Em Pernambuco.

FILIPE (Escrevendo.) — Que empregos tem exercido? Que condecorações tem?

BEATRIZ — Mas para que o senhor quer saber tudo isto? Oh! qu’il est drole!

FILIPE — É que quando ele morrer a notícia para o jornal já está pronta. (À parte.) Oh! que diabo de asneira!

BEATRIZ — O senhor está doido?

FILIPE (Ajoelhando-se.) — Sim, doido, minha senhora, doido varrido. Quando a vi pela primeira vez foi no Castelões. A senhora comia uma empada... (Beatriz procura tocar a campainha.) O que vai fazer?

BEATRIZ — Chamar alguém para pô-lo daqui para fora.

FILIPE — Pelo amor de Deus, não faça escândalo. (Levantando-se.) Eu vou, eu vou, mas creia que ninguém no mundo a idolatra como eu! (Sai olhando amorosamente para Beatriz.)

BEATRIZ — Pobre louco! Mas este ao menos não me falou em emprego nem em privilégio! (Senta-se e continua a leitura.)

(Cai o pano.)

ATO TERCEIRO

Sala de espera em casa do conselheiro Brito

CENA I

BRITO e FILOMENA

FILOMENA — Podias ter decidido o negócio perfeitamente sem levá-lo às câmaras.

BRITO — Como?

FILOMENA — Como? Colocassem-me na presidência do Conselho, que eu te mostraria.

BRITO — Mas, Filomena, tu não sabes que se tratava de uma espécie

completamente nova, que o governo...

FILOMENA — Tanto melhor! Se a espécie era completamente nova, o governo devia resolver por si e não abrir o mal precedente de consultar a Câmara.

BRITO — Olha, queres saber de uma coisa? Eu merecia que me vestissem uma camisola de força, por me haver metido em semelhante entrosga.

FILOMENA — Ora, qual entrosga! O negócio era muito simples. Tratava-se de uma estrada para o Corcovado.

BRITO — Mas de uma estrada especial, com carros movidos por cachorros...

FILOMENA — E o que tem os cachorros?

BRITO — É que levantou-se a dúvida se o cachorro podia ser considerado motor, se a estrada estava nas condições da lei.

FILOMENA — Pois eu presidente do Conselho cortava a dúvida, dizendo: — o cachorro é motor, e concedia o privilégio.

BRITO — Tu não entendes destas coisas.

FILOMENA — E o que se lucrou em consultar a Câmara? Em assanhar a oposição, e formar no seio do parlamento dois partidos, o dos cachorros e o dos que se batem, como leões, contra os cachorros.

BRITO — E que partidos!

FILOMENA — E lá se vai o privilégio, falto à palavra que dei ao inglês, e o casamento da menina, víspora!

BRITO — Mas o que queres que faça?

FILOMENA — Que envides todos os esforços para que o projeto passe! Hoje é a última discussão.

BRITO — E o último dia talvez do ministério.

FILOMENA — Quais são os deputados que votam contra?

BRITO — Uma infinidade.

FILOMENA — O Elói é cachorro?

BRITO — Sim, senhora.

FILOMENA — O Azambuja?

BRITO — Cachorro.

FILOMENA — O Pereira da Rocha?

BRITO — Este é de fila.

FILOMENA — O Vicente Coelho?

BRITO — Era cachorro; mas passou anteontem para o outro lado.

FILOMENA — E o Barbosa?

BRITO — Está assim, assim. Talvez passe hoje para cachorro.

FILOMENA — Ah! Que se as mulheres tivessem direitos políticos e pudessem representar o país...

BRITO — O que fazias?

FILOMENA — O privilégio havia de passar, custasse o que custasse. Eu é que devia estar no teu lugar, e tu no meu. És um mingau, não nasceste para a luta.

BRITO — Mas com a breca! Queres que faça questão de gabinete?

FILOMENA — Quero que faças tudo, contanto que o privilégio seja concedido.

BRITO (Resoluto.) — Pois bem; farei questão de gabinete, e assim fico livre mais depressa desta maldita túnica de Nessus.

CENA II

OS MESMOS e o DOUTOR MONTEIRINHO

DR. MONTEIRINHO (Cumprimentando Filomena.) — Minha senhora. (Para Brito.) Vamos para a Câmara, conselheiro. É hoje a grande batalha.

BRITO — Estou às suas ordens.

DR. MONTEIRINHO — Havemos de vencer, custe o que custar.

FILOMENA — Doutor Monteirinho, empregue todo o fogo de sua palavra.

DR. MONTEIRINHO — Fique descansada, minha senhora. Levo o meu discurso na ponta da língua. Hei de tratar a parte técnica, sobretudo, com o maior cuidado. Na discussão deste projeto ou conquisto os foros de estadista, ou caio para nunca mais erguer a fronte.

FILOMENA — Bravo! Bravo!

BRITO — Vamos, conselheiro, são horas.

FILOMENA (Para Brito.) — Vai. Que Deus te inspire. (Saem Monteiro e Brito.)

CENA III

FILOMENA e BEATRIZ

FILOMENA — Que boa madrugada! Onze horas!

BEATRIZ (Beijando Filomena.) — Não posso acordar-me cedo, por mais esforços que faça. Vosmecê não sai hoje?

FILOMENA — Não. Estou muito nervosa.

BEATRIZ — É mais uma razão para sair.

FILOMENA — Se cai o projeto e com ele o ministério...

BEATRIZ — Estamos arranjadas.

FILOMENA — Lá se vai o inglês.

BEATRIZ — E o Sr. Raul também. (À parte.) Se ao menos aquele pobre doido que ofereceu-me o coração... (Alto.) Ora, será o que Deus quiser. (Mirando-se ao espelho, canta.)

La donna é mobile

Qual piuma al vento.

Muta d’accento

E di pensiero.

O paquete francês deve chegar hoje?

FILOMENA — Creio que sim.

BEATRIZ — Estou ansiosa por ver os vestidos de verão que encomendamos.

CENA IV

BEATRIZ, FILOMENA e CRIADO

CRIADO (Com uma gaiola com papagaio.) — Veio da parte do senhor Tinoco, com esta carta. (Entrega a carta a Filomena.)

FILOMENA (Depois de ler a carta.) — Estes pretendentes entendem que devem encher-me a casa de bichos. Leva para dentro. (O criado sai.)

BEATRIZ — E coisa célebre, pelos presentes pode-se conhecer a que província ou a que lugar pertencem os pretendentes. Os do Ceará mandam corrupiões; os do Pará redes, paus de guaraná e macacos de cheiro; os de Pernambuco, cajus secos e abacaxis; os de São Paulo, formigas vestidas, figos em calda...

FILOMENA — E arapongas. Se o pretendente é do Maranhão, a mulher do ministro não passa sem lenço de labirinto.

BEATRIZ — E se é da Bahia, lá vêm as quartinhas, o azeite de cheiro e os sagüis.

FILOMENA — Os do Rio Grande do Sul exprimem a gratidão com línguas

salgadas e origones.

BEATRIZ — E os de Minas com queijos e rolos de fumo. Mas, coitados! Muito sofrem! Só a lida em que eles vivem — Venha hoje, venha amanhã, espere um pouco, agora não é possível!

FILOMENA — É para admirar que a esta hora já não esteja a sala cheia deles.

BEATRIZ — É verdade.

CENA V

FILOMENA, BEATRIZ e DONA BÁRBARA

DONA BÁRBARA — Desculpe-me se fui entrando sem anúncio prévio.

FILOMENA — A senhora dona Bárbara é sempre recebida com prazer a qualquer hora.

DONA BÁRBARA — E é por saber disto que vim vê-la, apesar do que se tem passado.

FILOMENA — Creio que entre nós nada se tem passado que possa porventura interromper, sequer de leve, as nossas relações amistosas.

DONA BÁRBARA — Quero dizer do que se tem passado entre os nossos maridos.

FILOMENA — Também não sei o que possa ter havido entre eles. Pertencem ao mesmo credo político, ainda ontem para bem dizer, eram amigos...

DONA BÁRBARA (À parte.) — Se não digo na bochecha desta emproada tudo quanto sinto, estouro. (Alto.) Eram amigos, é verdade, porém... meu marido tem razões especiais... Ele está na Câmara cumprindo o seu dever.

FILOMENA — Faz muito bem.

DONA BÁRBARA — Não é hoje que se discute um célebre privilégio de uma estrada para o Corcovado?

FILOMENA — Creio que sim.

DONA BÁRBARA — Não sabia; passando por acaso pela Rua do Ouvidor...

BEATRIZ — Como é fingida esta vecchia strega!

DONA BÁRBARA — Ouvi os garotos apregoarem a Gazeta da Tarde, traz a notícia da grande patota dos cachorros! E por entre os grupos dos indivíduos que conversavam no ponto dos bondes, pude distinguir estas frases, cujo sentido não compreendi bem: arranjos de família, ministro patoteiro, casamento da filha com inglês.

FILOMENA — É verdade, minha senhora; mas o que não sabe é que por entre aqueles grupos estava a mulher despeitada de um ministro gorado e que era esta a que mais gritava.

DONA BÁRBARA — Um ministro gorado?!

BEATRIZ — Sim. Un ministre manqué.

DONA BÁRBARA (Para Beatriz.) — Minha senhora, tenha a bondade de falar em português, se quer que a entenda.

FILOMENA — Eu falarei português claro. O ministro gorado é...

BEATRIZ — Seu marido... voila tout.

FILOMENA — E a mulher despeitada...

DONA BÁRBARA — Sou eu?!

BEATRIZ — Sans doute.

DONA BÁRBARA ( À parte.) Eu arrebento. (Alto.) Pois já que as senhoras são tão positivas dir-lhes-ei que meu marido nunca teve a idéia de fazer parte de semelhante ministério. Ele é um homem de muito bom senso e sobretudo de muita probidade.

FILOMENA — Observo à senhora que estou em minha casa.

BEATRIZ (À parte.) C’est incroyable! Dreadful.

DONA BÁRBARA — Foi a senhora a primeira que esqueceu esta circunstância.

FILOMENA — Não me obrigue...

DONA BÁRBARA — Eu retiro-me para nunca mais pôr os pés aqui.

FILOMENA — Estimo muito.

DONA BÁRBARA — E fique sabendo que o Chico...

FILOMENA (Com dignidade.) — Minha senhora. (Cumprimenta e sai.) BEATRIZ — Au revoir. (Sai.)

DONA BÁRBARA — Emproada, sirigaita, patoteira! Hei de tomar uma desforra.

(Sai zangada.)

CENA VI

PEREIRA, INÁCIO, ARRUDA, RIBEIRO, AZAMBUJA, mais pessoas e o CRIADO

CRIADO — Sua Excelência não está. Os senhores que quiserem esperar podem ficar nesta sala.

PEREIRA — O homem está em casa.

INÁCIO — Eu cá hei de falar-lhe hoje, por força, haja o que houver.

ARRUDA — E eu também. Só se ele não passar por aqui.

RIBEIRO — O que é bem possível, porque a casa tem saída para outra rua.

AZAMBUJA — Há quatro meses que ando neste inferno.

RIBEIRO — Console-se comigo, que ando pretendendo um lugar há cinco anos, e ainda não mo deram.

ARRUDA — Há cinco anos?!

RIBEIRO — Sim, senhor.

AZAMBUJA — E tem esperanças de obtê-lo?

RIBEIRO — Olé! Já atravessei seis ministérios. Venho aqui duas vezes por dia.

INÁCIO — E eu que vim dos confins do Amazonas; e aqui estou há seis meses a fazer despesas, hospedado na casa do Eiras, com uma numerosa família, composta de mulher, seis filhos, duas cunhadas, três escravas, quatorze canastras, um papagaio e um corrupião!

CENA VII

OS MESMOS e ERNESTO

ERNESTO — Meus senhores.

PEREIRA — Oh! Senhor Ernesto.

ERNESTO — Como está, senhor Pereira?

PEREIRA — O seu negócio? Ainda nada?

ERNESTO — Qual! Trago agora aqui uma carta... Vamos ver se com esta arranjo o que quero. É de um deputado mineiro governista.

PEREIRA — É bom empenho?

ERNESTO — Quem me arranjou foi um negociante da Rua dos Beneditinos, em cuja casa acha-se hospedado o tal deputado.

RIBEIRO — Meu amigo, vá à fonte limpa, procure um deputado da oposição e digo-lhe desde já que está servido.

ERNESTO — Muito se sofre!

AZAMBUJA — É verdade.

CENA VIII

OS MESMOS e FILIPE

FILIPE — Adeus, senhor Ernesto.

ERNESTO — Adeus, Filipe.

FILIPE — Ainda perde seu tempo em vir por aqui?

ERNESTO — Por quê?

FILIPE — Porque o ministério está morto!

PEREIRA — Caiu?!

FILIPE — A esta hora já deve ter caído. A Rua do Ouvidor está assim. (Fechando a mão.) Não se pode entrar na Câmara. Há gente nas galerias como terra.

ERNESTO — O partido dos cachorros está bravo?

FILIPE — Os cachorros?! Estão danados! A tal estrada não passa, não, mas é o mesmo. O doutor Monteirinho levantou-se para falar...

ERNESTO — Ah! Ele falou hoje?

FILIPE — Qual! Não pôde dizer uma palavra. Rompeu uma vaia das galerias, mas uma vaia de tal ordem, que foi preciso entrar a força armada na Câmara.

PEREIRA — Lá se vai o meu lugar da Alfândega.

AZAMBUJA — E o meu.

RIBEIRO — E o meu.

FILIPE (Levando Ernesto para um lado.) — Ainda não a vi hoje.

ERNESTO — Mas é verdade tudo isto?

FILIPE — Como é bela!

ERNESTO — Com os diabos! que transtorno!

FILIPE — Quando a vi pela primeira vez foi no Castelões...

ERNESTO — Comia uma empada, comia uma empada...

FILIPE — É isso mesmo.

ERNESTO — Irra! Não me amoles.

PEREIRA (Para Ernesto.) — O senhor quer saber onde está a minha esperança?

ERNESTO — Onde?

PEREIRA (Tirando um bilhete de loteria do bolso.) — Aqui neste bilhete do Ipiranga.

FILIPE — Eu também tenho um. (Vendo na carteira.) Querem ver que o perdi!

Não, cá está. A esta hora já deve ter andado a roda. Com a breca, nem me lembrava!

(Olhando para dentro.) Se pudesse ao menos ver-lhe a pontinha do nariz.

PEREIRA — Vou ver o que tirei. (Sai.)

FILIPE — E eu também. Mas qual! Sou de um caiporismo horrendo. Adeus, senhor Ernesto. (Olhando para todos os lados.) Onde estará ela?! (Sai.) CENA IX

OS MESMOS, menos PEREIRA e FILIPE e DOUTOR RAUL

ERNESTO — Esta notícia veio transtornar-me os planos.

AZAMBUJA — Talvez seja mentira.

ERNESTO — As más novas são sempre verdadeiras.

RAUL — Ora, vivam, meus senhores!

ERNESTO — Doutor Raul, o que há acerca do ministério?

RAUL — Dizem que está em crise.

ERNESTO — Mas há esperanças?

RAUL — Hum!... Não sei. Vejo as coisas muito embrulhadas.

CENA X

OS MESMOS e MISTER JAMES

RAUL — Oh! Mr. James! Fazia-o pela Câmara.

MR. JAMES — Mim só sai de casa hoje pra vem aqui...

RAUL — Os negócios estão feios.

MR. JAMES — Oh! Yes, muito feias.

RIBEIRO (A Ernesto.) — Este é o tal inglês da patota de que os jornais falam hoje?

ERNESTO — É o bicho.

MR. JAMES — Você quer sabe de uma cousa. Mim estar muito stupide.

RAUL — Por quê?

MR. JAMES — Eu já deve saber que este ministéria não pode dura muite tempo, e mim cai na asneira de faz negócia com ele.

RAUL — Mas em que se fundava para saber disto?

MR. JAMES — Ora escuta vosmincê, presidenta de Conselho onde estar nascida?

RAUL — No Pará.

MR. JAMES — Ministra de Império?

RAUL — Em São Paulo.

MR. JAMES — Ministra de Justiça?

RAUL — Creio que é de Piauí.

MR. JAMES — No senhor; de Paraíba.

RAUL — Ou isso.

MR. JAMES — Ministra de Marinha estar de Alagoas, ministra de Estrangeiros..

RAUL — Este é do Paraná.

MR. JAMES — Yes. Ministra de Guerra estar de Maranhão, de Fazenda, Rio de Janeiro.

RAUL — Mas o que tem isto?

MR. JAMES — Não tem uma só ministra de Bahia. E ministéria sem baiana

estar defunta logo, senhor.

RAUL — Tem razão.

MR. JAMES — Baiana estar gente muito poderosa. Não se pode esquece dela.

RAUL — O ministério estava fraco, lá isso é verdade.

MR. JAMES — E tem inda mais; ministra da Marinha...

RAUL — O doutor Monteirinho?

MR. JAMES — Yes. Ministra da Marinha estar muito pequenina.

RAUL — Muito moço é que o senhor quer dizer?

MR. JAMES — All right. No pode ser estadista e governa país logo que sai de escola. É preciso aprende primeiro, aprende muito, senhor. Todo mundo estar caçoanda, e chama ministra de Cazuzinhe. O senhor sabe dizer o que é Cazuzinhe?

RAUL — É um nome de família.

MR. JAMES — How? Mas família fica em casa, e no tem nada com ministéria.

Vosmecês aqui têm costume de chama homem de estado de Juquinha, Lulu, Fernandinha.

Governa estar muito sem-cerimônia.

CENA XI

OS MESMOS, BEATRIZ e FILOMENA

MR. JAMES — Como está, senhorra?

RAUL — Minhas senhoras.

FILOMENA — Veio da Câmara?

MR. JAMES — No senhorra.

FILOMENA — Pois não foi lá? No dia em que se deve decidir o seu negócio...

BEATRIZ (A Raul.) — Mamãe ainda não teve tempo de falar com papai acerca da sua pretensão.

MR. JAMES — Meu negócia estar perdida.

FILOMENA — Tenho fé que não.

MR. JAMES — Oh! Yes.

CENA XII

OS MESMOS e FELIZARDO

FELIZARDO (Entrando apressado.) — Caiu o ministério!

FILOMENA — Caiu! Ai! Falta-me a luz! (Cai desmaiada em uma cadeira.) BEATRIZ (Correndo.) — Mamãe.

RAUL — Dona Filomena!

MR. JAMES (Para todos.) Ó no incomoda! Vai passa já.

ERNESTO — Ora sebo! (Sai.)

INÁCIO — Ora bolas. (Sai.)

ARRUDA — Ora pílulas. (Sai.)

RIBEIRO — Ora, com os diabos. (Sai.)

AZAMBUJA — Ora... (Sai.)

MR. JAMES (Vendo Filomena levantar-se.) Estar pronta, passou.

FELIZARDO — E o pobre do Cazuzinha que tinha tanta coisa que fazer! Também lhes digo, que se ele consegue falar, a despeito das vaias da galeria, o ministério tinha vida por cinco anos, pelo menos.

RAUL — Deveras?

FELIZARDO — É um rapaz muito hábil. O senhor não imagina que discurso tinha ele preparado. Ontem recitou-mo todo. Sabia-o na ponta da língua.

RAUL — Foi uma pena! ( À parte.) E lá se foi o meu emprego, que é o que mais sinto.

FELIZARDO — Como não vai ficar a Maria José quando souber da notícia!

RAUL (A Beatriz.) — Minha senhora; creio estar desligado dos compromissos que contraí para com Vossa Excelência.

BEATRIZ — Eu já o sabia; não era preciso mo dizer. O que o senhor doutor queria era uma posição social e não a minha mão!

RAUL ( À parte.) — Façamos cara de não ter compreendido.

CENA XIII

FELIZARDO, RAUL, BEATRIZ, FILOMENA, MISTER JAMES, BRITO e DOUTOR

MONTEIRINHO

BRITO (Abraçando Filomena.) — Minha Filomena, tenho necessidade de abraçar-te. Vem cá, Beatriz, abraça-me também. (Beatriz abraça.) Foram vocês que me perderam; mas como isto é bom.

MR. JAMES — Mim sente muito derrota de Vossa Excelência; agradece tudo que faz pela minha privilégia e pede desde já a Vossa Excelência um apresentação para nova ministéria que tem de subir.

FELIZARDO (Que deve estar abraçado com Monteirinho.) —Ah! Cazuza! Não há gosto perfeito neste mundo!

DR. MONTEIRINHO — E mamãe, que não teve a ventura de me ver de fardão!

FELIZARDO — Mas há de tê-la muito breve; eu te prometo.

CENA XIV

OS MESMOS e CRIADO

CRIADO — Trouxeram estes jornais e esta carta. (Sai.)

BRITO — O que será? (Vendo o sobrescrito da carta, para Filomena.) É para ti.

FILOMENA (Abrindo a carta e lendo.) — “Minha senhora, tenho a honra de enviar a Vossa Excelência o último número da Espada de Dâmocles, que acaba de sair agora mesmo e de chamar a atenção de Vossa Excelência para a notícia, publicada sob o título À

última hora. Sua veneradora e criada, Bárbara Coelho.” (Fecha a carta.) Que infame!

BRITO — Lê. (Filomena quer rasgar o jornal.) Lê, eu terei a coragem de ouvir.

FILOMENA (Lendo.) — “Caiu finalmente o ministério das patotas. Parabéns aos nossos concidadãos, estamos livres do homem que mais tem sugado os cofres públicos em proveito dos seus afilhados.”

BRITO — Saio do ministério mais pobre do que entrei, porque estou crivado de dívidas, e com a pecha de ladrão!

FILOMENA — E o que pretendes fazer?

BRITO — Nada: neste país, infelizmente, esta é a sorte de quase todos que descem do poder.

CENA XV

FILOMENA, RAUL, DOUTOR MONTEIRINHO, BEATRIZ, MISTER JAMES,

FELIZARDO, BRITO e FILIPE

MR. JAMES (A Filipe que entra às carreiras, ofegante, e cai-lhe desmaiado nos braços.) How! Tudo estar desmaia nesta casa!

FILOMENA — Vão ver depressa vinagre. (Raul corre para dentro.)

BEATRIZ — Como ele está pálido! Vou buscar água de Colônia. (Corre para dentro.)

MR. JAMES — Oh! nó, nó, é melhor traz cognac.

DR. MONTEIRINHO — Vou buscá-lo. (Sai correndo.)

BRITO (Batendo-lhe nas mãos.) — Senhor, senhor! É o pobre do repórter!

BEATRIZ — Aqui está. (Põe água de Colônia no lenço e chega-lhe ao nariz. Filipe abre os olhos.) Ça y est! Il est gueri!

FILIPE — Onde estou? Ah! (Sai dos braços de Mister James.)

DR. MONTEIRINHO — Cá está o conhaque. Já não é preciso?

BRITO — O que tem?

FILIPE (Não podendo falar.) — Comprei este bilhete. (Mostra-o, tirando-o do bolso.) Vou ver a lista...

MR. JAMES — Branca.

FILIPE — E tirei duzentos contos!

FILOMENA — Duzentos contos!

BEATRIZ — Ah! Bah!

FILIPE (Ajoelhando-se aos pés de Beatriz.) — Minha senhora, eu adoro-a, idolatro-a. Quando a vi pela primeira vez foi no Castelões, a senhora comia uma empada. Quer aceitar a minha mão?

BEATRIZ — De tout mon coeur.

MR. JAMES — All right! Boa negócia.

( Cai o pano)