Cante Para Eu Dormir por Angela Morrison - Versão HTML

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Nossa, como é feia

As primeiras palavras do meu pai biológico quando me viu. É a

única imagem que tenho dele. Uma figura indistinta debruçada sobre

minha mãe, que vestia uma camisola de hospital e segurava um

pacotinho embrulhado em flanela nos braços.

Ela é muito feia, Tara. O que foi que você fez?

Como se ela tivesse comido ou bebido alguma coisa estranha

que me fez nascer vermelha, empolada e com uma mancha roxa na

testa. Sem cabelo. Cabeça cônica, por causa do parto. Meu rosto de

bebê contorcido e gritando para ele.

Mamãe não o odiava tanto a ponto de contar-me essa história.

Ela não fala sobre ele — não comigo. Ele tocava em uma banda de

rock. Não dessas famosas. É tudo que sei. Mas vi a foto. Está em nosso

álbum de família, com minhas outras fotos de bebê. A única em que

ele aparece. Mas o ódio da minha mãe era suficiente para contar a

história inúmeras vezes para a irmã dele, sua melhor amiga desde o

segundo grau, sempre que o nome do meu pai vinha à tona.

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É minha primeira lembrança nítida. Estava empilhando potes de

creme chantilly e margarina no chão da cozinha e ouvindo mamãe

falar ao telefone, sintonizando na intensidade silenciosa de sua voz.

— Nossa, como é feia. Nosso lindo bebê. Foi só o que ele disse.

Eu era o lindo bebê dela. Chamava-me assim o tempo todo.

Linda? Agora eu sabia a verdade. Eu era feia. Muito feia. Não me

admira que ele tenha ido embora. Nem olhou para trás. Não viu sua

filha feia construindo uma torre de contos de fadas com potes de

plástico brancos e amarelos, e cantando baixinho a primeira música

que ela mesma compôs.

Co-omo é feia, co-omo é feia.

Ao menos sei cantar. Puxei ao lado da mamãe. Posso não ter a

aparência de um pássaro canoro — pareço mais uma cegonha —, mas

se você fechar os olhos, vai achar lindo.

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A oferenda

Droga. Tem um calouro nu, acorrentado ao meu armário.

Não. Não está nu. De cueca.

Uma cena nada bonita, garoto. Pernas finas e brancas, peito

magro, braços tremendo. Meias pretas. Talvez sua mãe não tenha

lavado as roupas durante as férias de primavera, e ele só tinha isso

para vestir hoje.

Uma corrente de bicicleta coberta por um plástico verde-limão

passa pela maçaneta do armário, desce pela cueca do pobre garoto até

a perna e sobe, prendendo-se com força. Ele podia escapar se quisesse

correr despido na frente de todos.

Risos abafados atrás de mim. Eu não me viro. É o que eles

querem. Os sons multiplicam-se. Amplificam-se. Ganham a dimensão

de uma plateia.

Eu não desconfiei de nada ao andar curvada pelo corredor,

afundada em uma calça Levi’s e um blusão de moletom largos, os

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olhos acompanhando as linhas regulares do piso, escondida atrás da

minha cabeleira castanha e crespa, com uma expressão rígida no

rosto, só para garantir.

Meu percurso estava estranhamente calmo. Nenhum garoto

apareceu de repente para mandar-me “tirar minha cara horrível” do

caminho. Ninguém gritou: “Protejam-se. A Fera está solta”. Nenhum

gemido de animal agonizante ecoou dos armários enquanto eu

passava. Só silêncio. Um silêncio mortal. Pensei que hoje tinha

escapado. Devia saber. Os caçadores estavam preparando o ataque.

Mas não fui à única que atacaram desta vez. Olho para o garoto

trêmulo.

— Eles o machucaram? — Sem querer, toco seu braço de leve.

Ele recua, olha para o ponto em que encostei como se fosse

explodir em chamas ou transformar-se em pedra e virar poeira. Não

posso culpá-lo. Afinal, sou Beth, a Fera. Alta demais para ter uma

postura ereta. Pele e osso. Rosto cheio de espinhas. Olhos saltados e

aumentados pelas lentes “fundo de garrafa”. Tirei o aparelho há três

anos, mas nunca mostro meus dentes brancos e alinhados. Só os

caninos, compridos e amarelos. Pingando sangue.

— Eles mandaram — o garoto estremece e engole em seco —

dizer a você que eu sou a oferenda.

Eles. Ambos sabemos quem são eles. Colby Peart, Travis Steele,

Kurt Marks. Os Cavaleiros. Não devia ter quatro? Acho que está na

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Bíblia. Irônico. Não há nada bíblico em Colby e seu séquito de atletas

veteranos que mantêm o colégio Port High School sob seu domínio.

Apocalípticos? Funciona. Mas o fim do reinado está próximo. Os

veteranos vão se formar. A não ser que, por um movimento doentio

dos dados e do destino eles sejam reprovados, no próximo ano

estaremos livres. Os Cavaleiros vão cavalgar em direção ao pôr do sol.

Espero que os guerreiros ocultos atrás das colinas os alcancem e

acabem com eles.

O garoto está falando de novo. A turma atrás de mim, perto o

bastante para ouvir.

— Disseram que a Fe..., que você exige um sacrifício —

estremece novamente e olha para o chão. — Toda lua cheia.

A multidão urra. O riso deve ser saudável, edificante. Mas não

em Port, Michigan.

— Tudo bem. Ia dar uma tapinha no ombro dele, mas me

contive. — Vamos pedir ao Sr. Finnley que corte a corrente.

Ele não cala a boca. Levanta a cabeça e faz uma careta para

mim.

— Falaram que você me arrastaria para sua toca.

Mais risos.

O calor toma conta do meu rosto, e eu resmungo:

— Não como calouros no café da manhã.

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— Comer? — confuso, ele chega a juntar as sobrancelhas. —

Não é isso que eles disseram que você faria.

A baderna aumenta atrás de nós. Parece que metade da escola

está abarrotando o corredor.

Não virei para olhar.

— Não vou machucá-lo.

— Pode me nocautear primeiro?

As risadas cruéis e escarnecedoras ricocheteiam pelo corredor,

batendo nos armários de metal.

O garoto deve ter engolido cada palavra da lenda da Fera. Sou

um gigante. Abominável. Mas uma besta enlouquecida que violenta

calouros esqueléticos?

Levanto as mãos e recuo.

— Pegaram você, tudo bem. — Meus olhos ardem. — Eles me

pegaram também. Você está salvo. — Viro para trás e tento abrir

caminho entre a muralha de corpos inflexíveis para procurar o

zelador. Meus olhos estão embaçados. Droga.

Não se descontrole. Não se descontrole. Não se descontrole.

— Com licença. Por favor.

A parede ondulante de gargalhadas continua firme.

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Então vejo a cabeça do senhor Finnley. Scott está lá também,

conduzindo-o em meio à aglomeração de alunos. Engulo com

dificuldade.

— Sinto muito, Beth. — Scott morde o lábio. — Eu queria

acabar com isso antes que você chegasse, mas o garoto não quis deixar

a cueca.

— Tem gente demais aqui. Vocês não tinham que estar em suas

classes? — o senhor Finnley olha furioso e todos voltam correndo para

as fendas e os bueiros de onde saíram. O “Finnster” balança a cabeça e

começa a cortar a corrente. — Terei que fazer um relatório.

Era só o que me faltava. Outra sessão na diretoria. Perguntas

que não sei responder. “Quem fez isso?” Silêncio. “Quem você acha

que fez isso?” Quem você acha que fez isso? Todos sabem. Colby e seus

clones estão por trás de toda a imundície que acontece aqui. Ninguém

diz nada. Temos mais uma palestra sobre bullying. E tudo continua

igual.

Olho para baixo e vejo o fichário que estava levando para a

primeira aula. Rabisquei as palavras, mas sei o que está escrito:

Suas palavras

Por que elas me definem?

Por que acredito em você?

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Seu rosto,

Seus lábios e seus dedos

Não os despeje em mim.

Sou de carne, osso e sangue,

Não de barro para ser triturada

E queimada no fogo

Que seu ódio faz arde,

Assim como as garotas bonitas,

Precisa de um refrão mais otimista. Não consigo criar nenhum

grunhido assim para completar a equação. Nem a melodia. Só essas

poucas linhas que me fazem soar tão zangada. Acho que estou

zangada. Mas não quero que todos saibam. Estou acostumada a

apagar, queimar, rasgar, esconder, sofrer. Sempre volto para o “Co-

omo é feia, co-orno é feia” e permaneço lá.

O fim do ano não chega rápido o suficiente. Se andar na ponta

dos pés no ano que vem, conseguirei respirar. Como quando eles

terminaram o ensino fundamental.

Scott lê meus pensamentos.

— Faltam só três meses, oito dias, treze horas e vinte e nove

minutos para a formatura deles.

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— Por que você me ajuda? — Scott e eu éramos grandes amigos

na pré-escola, e ficamos na mesma classe novamente na terceira série.

Ele era magrinho, e no almoço tinha que ir à enfermaria para tomar

um remédio contra a hiperatividade. Eu já era mais alta que os outros

e usava óculos redondos e grossos, que me faziam parecer um bebê

cabeludo que crescera demais. Meu cabelo era curto na época. Cortá-

lo agora? De jeito nenhum. Onde eu me esconderia?

Scott não tem que se esconder. Não precisa me ajudar e

condenar-se a pertencer eternamente ao grupo dos perdedores. Ele é

bonitinho desde que ficou livre das espinhas. Acho que ele não

percebe. Continua baixinho, capitão nos concursos de perguntas e

respostas, enfim, um nerd. Ainda é meu amigo.

Ele dá uma risadinha, indiferente, abnegado, um perfeito Clark

Kent.

— Não faço mais Educação Física. Não podem roubar minhas

roupas e jogá-las na privada.

— Mas podem machucá-lo.

— Você está preocupada? — Ele dá um tapinha em meu ombro.

— É muito gentil, Beth. Vejo você no coro.

Coro. Coro da escola. Não o meu verdadeiro coro, em Ann

Arbor. Não o coro para o qual implorei que mamãe me deixasse fazer

um teste quando tinha 13 anos. Não o coro só de meninas que

participa de competições, no qual me sento discretamente no fundo e

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acompanho os contraltos. Não aquele que me faz dirigir cento e

sessenta quilômetros, atravessando o trânsito de Detroit no horário de

pico pela 1-94 todas as terças e quintas, para ensaiar em uma igreja

gelada. Não é as Cantoras da Juventude Bem-Aventurada de Ann

Arbor. O coro para o qual vivo. O coro que me afasta do que sou e me

leva para o que desejo ser. Bonita? Acho que sim. Não é o que todos

querem? Provavelmente querem amor, também. Vivo com tanto ódio

que nem sei ao certo o que é o amor. Não vejo nenhuma dessas

possibilidades em meu horizonte.

Scott está falando do coro esforçado de nossa escola. Uma

espécie de piada. A Banda Marcial é a toda-poderosa aqui. Mas o coro

faz sua parte. Nota A, sem dificuldades. Música é música. Cantar é

cantar. Uma trégua na loucura. Atletas veteranos não são permitidos.

Em uma escola de quase dois mil alunos, há apenas oito meninos no

grupo, por isso fico ao lado de Scott e canto com os tenores. Minha voz

baixa é muito boa e eu tenho a audição aguçada, portanto as partes da

leitura à primeira vista saem naturalmente. Consigo cantar alto

também. Posso cantar tão alto quanto qualquer pessoa se quiser. Ajudo

os sopranos e contraltos quando passamos as vozes. Eles ficam

desolados quando volto para os tenores.

Scott não sabe cantar, mas tenta. Uma vez perguntei por que ele

participava do coro. Todo garoto que se inscreve é instantaneamente

rotulado de gay por Colby e seus “soldados”; e pelo resto da escola.

Scott ficou meio vermelho.

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— Para ouvir você cantar.

Essa provavelmente foi à frase mais amável que um garoto já me

disse. Não que ele estivesse sendo sincero.

Entrei na brincadeira.

— Tenha cuidado. — dei um cutucão em seu braço. — Você vai

destruir sua reputação.

Ele ficou sério.

— Não sou gay, Beth.

— Eu sei, claro que não.

Ele ia dizer mais alguma coisa, mas apenas balançou a cabeça e

foi embora.

Eu o desafio a dizer que não sou feia.

Bom, voltando a esta manhã. Scott já está na metade do

corredor, mas eu o alcanço com facilidade. As pernas compridas das

bestas avançam rapidamente.

— Obrigada, Scott. De verdade. A escola seria um inferno sem

você.

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Ele estica o braço como se estivesse acompanhando uma é

princesa em um baile.

— Foi um prazer, madame.

Uma risada fraca e trêmula sai da minha boca. Ponho o braço

em cima do dele e deixo-o conduzir-me pelo corredor, grata pelo

apoio.

Ele sorri para mim. Também está sem aparelho. Dentes recém-

branqueados. Um pouco ofuscantes.

— Imagino o que as pessoas pensam ao ver-nos andando juntos.

— eu rio, com mais força desta vez.

— O Belo e a Fera. O doutor Namar fez um ótimo trabalho em

seu rosto — vamos ao mesmo dermatologista. Até agora o milagre da

pele lisa não aconteceu para mim. Mas o doutor Namar continua

tentando. Diz que ficarei com poucas marcas. Mas eu tenho olhos.

Scott para e olha para mim. Tem uma expressão sonhadora no

rosto.

— O Belo e a Fera? Então se dançarmos a luz da lua...

— É melhor você trazer um banquinho.

— Como aqueles de rodinha, da biblioteca?

Perfeito. Importa-se se eu conduzir? Então me sinto urna boba.

Uma menina gigante estorvando o doce e pequeno Scott. Solto seu

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braço e sigo em frente, cabeça baixa e introspectiva mais uma vez. Os

ombros curvados como sempre.

Scott abre caminho aos empurrões para alcançar-me.

— O que quero saber é — ele segura meu cotovelo para

impedir- me de continuar andando — se eu a beijar quando a música

parar, — fica na ponta dos pés e sussurra em meu ouvido — você será

minha princesa encantada?

Solto um muxoxo.

— Continue sonhando. Nenhuma mágica pode consertar isso.

— recolho-me ainda mais em minha caverna bestial.

Scott sorri.

— Não me importaria em fazer uma experiência.

Não gosto quando ele age assim.

— Você não vai querer desperdiçar seus lábios virgens comigo.

Pode arranjar coisa melhor para dar uns beijos. Vou para a aula. —

olhe-se no espelho.

Ele vem correndo ao meu lado, com cara feia.

— Queria que você esquecesse essa coisa de aparência.

Faço cara feia também.

— Olhe para mim, Scott. — divido meu cabelo com as duas

mãos e afasto-o do rosto o bastante para proporcionar-lhe uma boa e

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assustadora visão. — Como eu poderei algum dia, esquecer essa coisa

de aparência? Sou a Fera.

— Se acreditar nisso, eles terão vencido.

— Acorde. Olhe em volta — cruzo os braços, tentando controlar

a reação atrasada que me faz estremecer — eles já venceram há muito

tempo.

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A feiosa do contralto

Scott não está no coro,

Procuro por ele depois da aula.

Sem sorte. Tenho prática no Cantoras da Juventude em Ann

Arbor, não posso perder tempo. Mas preciso falar com ele. Sei que ele

está tentando ser simpático, mas ouvi-lo dizer coisas sobre beijos e

danças dói mais que ver “A Fera” pintado, com spray verde-claro no

porta-malas do meu Ford laranja.

Queria ser beijada tanto quanto qualquer outra garota de 17

anos. O gênio da feiura deu-me uma grande quantidade de

hormônios. Mas por que vou pensar nisso? Quando tiver 40 anos,

algum careca cego pode apaixonar-se por mim. Minha visão é

péssima, então teríamos isso em comum, algo em que poderíamos

basear nosso relacionamento. Sou repugnante demais até para ser

tocada por um cara que enxerga. Li em algum lugar que o pico sexual

das mulheres ocorre aos 38, portanto vai dar certo para mim.

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Podemos nos casar e ter filhos feios e cegos. Nem me importarei se ele

for gordo.

Gosto de crianças. É triste que mamãe não tenha se casado

novamente e tido mais filhos. Às vezes fico pensando se ela ainda ama

meu pai depois de tanto tempo, de tanto sofrimento. A única coisa que

lhe restou em tudo isso fui eu. Não foi um prêmio muito bom. Uma

irmãzinha para cuidar teria sido legal. Trabalho na biblioteca durante

o verão. Um monte de bebês e mães exaustas. Tentei ajudar algumas

vezes, mas as crianças se assustaram. Seria melhor se fossem cegas.

Eu podia procurar uma escola de cegos para trabalhar como

voluntária e dar uma chance ao amor. Ou talvez eu apenas vá para

casa, engula um sanduíche e pegue a estrada para não me atrasar

para a aula.

Agora vou de carro sozinha. Mamãe sempre odiou levar-me até

lá. Tinha que sair do trabalho mais cedo toda terça-feira. Dava para

aguentar quando ensaiávamos apenas uma vez por semana, mas no

outono passado nossa diretora, Terry, decidiu que tentaria inscrever-

nos na Olimpíada de Coros este ano e aumentou para duas práticas

semanais. Mamãe decidiu que minhas habilidades de motorista eram

excelentes e comprou-me um Ford velho para que eu fosse dirigindo.

Ao menos o laranja não é muito reluzente. Parece uma abóbora

apagada. Perfeito para ser a carruagem da meia-irmã feia. Chamo-a

de Jeannette, um nome bonito e agradável, para não ferir seus

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sentimentos. A desgraça adora companhia. Veja Scott e eu, por

exemplo.

A chuva e a neve me perseguem enquanto atravesso Detroit.

Estou muito atrasada. Odeio o clima de março. A primavera aqui é

escura, fria e suja. Montes de neve podre e cinza que perduram o

máximo possível. Granizo e gelo, não a neve branquinha do inverno.

O trânsito está caótico esta noite, e a pobre e velha Jeannette tem

medo. Todos cortam nossa frente. Nunca ouso fazer isso. Aqui é

Detroit. Posso ser feia, mas ainda quero viver para cantar mais uma

canção.

Finalmente, fico livre do trânsito da metrópole e entro na

tranquila Ann Arbor, cidadezinha elegante de universitários,

adormecida às margens de um silencioso riacho. A igreja de pedra em

que cantamos, a que é tão velha quanto à cidade. Entro sutilmente no

santuário, no meio do aquecimento.

Não tem problema. Já estou aquecida. Pratiquei as canções da

lista durante todo o trajeto. Cantei do começo ao fim. Todas as

músicas. Baixei todas as partes, não apenas meu contralto. Adoro o

solo de tomo soprano da canção gospel que usamos no teste da

Olimpíada de Coros; Leve-me para casa. Girei a manivela do aparelho

de CD moribundo de aula. Jeannette até que os alto falantes

estourassem e cantei o solo. Era uma até verdadeira estrela no carro.

Adoro quando podemos cantar músicas gospel. Nenhuma de

nós é tão purista a ponto de preferir as peças religiosas clássicas.

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Todos imploraram à Terry por mais Broadway. É o que há de melhor

para cantar. A maioria das meninas fica entusiasmada com as

bobagens de pop que Terry inclui nas apresentações para alegrar o

público. Eu não admito que tenho minhas divas contemporâneas

favoritas gravadas no iPod. Quem não tem? Mas quando estou me

apresentando, quero mais que isso. Quero que a música tenha corpo e

alma, desolação e alegria. Algum sentido, pelo amor de Deus. É tão

difícil encontrar algo que signifique alguma coisa. Terry está meio

deslumbrada com a Olimpíada. Não tem como sermos convidadas.

Arrasamos na peça clássica quando gravamos para o teste, mas Leve-

me para casa é muito difícil. Até o contralto é incrível. Todas aquelas

coisas lindas sobre o doce, doce Rio Jordão. Tem um clímax incrível

com todas cantando algo diferente em uma espécie de roda.

Celebração e angústia ao mesmo tempo. Fantástico. Mas Meadow,

nossa solista soprano, engasgou. Ela fez aula de canto à vida inteira e

aproveita ao máximo o fôlego e a voz pop que tem. Mas Leve-me para

casa exige força e emoção. Terry tentou fazer com que Meadow

conseguisse inúmeras vezes, até que todas estivéssemos irritadas e

esgotadas. Meadow ficou aos prantos, e simplesmente desapareceu.

Terry teve que emendar alguma coisa para enviar ao comitê.

A Olimpíada de Coros é em Lausana, Suíça, em julho. Terry fica

colocando fotos dos Alpes e lagos e castelos e casas suíças cheias de

gerânios vermelhos e bandeiras no site. Será tão deprimente quando

ela receber a notícia. A resposta deve chegar esses dias. Também nos

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candidatamos a um festival perto de Vancouver, Canadá. Entramos

fácil. Melhor que nada.

Mas a Suíça é outra história.

Pego um lugar no final da fileira de contraltos e entro no ritmo

dos oohs e aahs, que ficavam cada vez mais altos. Que bom. Perdi os

agudos.

— Ótimo, meninas. Continuem cantando. Ah-ah-ah-ah-ahhh.

— o piano dá o tom para a elevação da próxima nota. — Virem-se

todas para a direita. Ponham a mão no ombro da menina a sua frente.

Viro-me e começo a massagear Sarah, a garota ao meu lado. Seu

cabelo loiro natural, não tingido, desce até as costas. Liso como seda.

Nem sinal de ondulação. Mataria por um cabelo assim. Não há

ninguém atrás de mim. Terry se adianta e massageia meu pescoço e

meus ombros.

— Estou feliz que tenha vindo. Estava preocupada com você.

— O tempo está feio lá fora.

— Tenha cuidado, Beth.

— Mais algumas semanas e será só chuva.

— E você consegue dirigir em qualquer situação?

— Mais ou menos. Mamãe não me deixou vir umas duas vezes

no mês passado. Tempestades horríveis. Esta noite não é nada.

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— Talvez as ruas fiquem cobertas de gelo mais tarde — eu sei

que posso ficar no lugar dela. Ela oferece o tempo todo. Nunca tive

coragem o bastante para assumir o posto. — Eees, meninas. E não

quero ouvir nenhuma bruxa. — o coro continua subindo a escala.

— Comprei pneus novos. A interestadual deve estar boa.

Terry aperta meus ombros uma última vez e grita:

— Agora todas para a esquerda! — corre até o outro lado da

sala para massagear a menina na outra ponta da fila.

Cantamos algumas peças. A primeira é uma daquelas canções

pop antigas usadas como “tapa-buracos”. Chato. Há um coro de

meninas na Europa que canta músicas loucas de rock. Parece

estranho, mas elas são um sucesso. Gostaria de experimentar um

desses números.

A segunda canção é nossa terceira peça na competição.

Dá destaque aos contraltos, e nós participamos da música

inteira.

Carregamos toda a apresentação.

— Excelente. — Terry sorri em direção a minha seção. — Foi

maravilhoso, contraltos. Bom trabalho — põe a mão na testa. —

Sopranos. Vocês não estão acertando a harmonia.

— Não sei por que temos que cantar a harmonia — conheçam

Meadow. Linda. Graciosa. Uma pele tão perfeita que você tem vontade

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de tocar para ver se tem alguma cobertura. Olhos grandes e escuros,

cílios pretos e longos, sobrancelhas desenhadas com primor, lábios

rosados sempre com brilho. Cabelo loiro com luzes, comprido, em

camadas perfeitas. Nem um sinal de raízes negras. Seios pagos pela

mãe. Jeans de marca, tamanho trinta e seis. Saltos o tempo todo. Jeito

de Diva. — Primeiro as sopranos têm que cantar a melodia.

Terry é paciente demais com ela.

— Os contraltos carregam a melodia nessa seção. São apenas

oito compassos. Vamos repetir.

Os pais da Meadow são ricos. Mantêm as finanças do coro em

dia. Terry tem que ser paciente.

— Estou cansada desta música — Meadow folheia as partituras

em sua pasta.

Terry morde o lábio inferior.

— Você gostaria de praticar Leve-me para casa?

Um burburinho de aprovação espalha-se entre as meninas.

Todas ficam eufóricas com essa canção, e não a cantamos mais desde

aquela sessão de gravação desastrosa. Ela faz o sangue fluir. Batemos

palmas e os pés no chão. Algumas tocam instrumentos de ritmo e

percussão. Uma menina até grita “Aleluia”. Um coro de meninas não

fica mais selvagem que isso.

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Meadow balança a cabeça e tenta retratar-se o mais rápido

possível.

— Não precisa. É melhor acertarmos esta primeiro.

Devo concordar com Meadow. Cantar Leve-me para casa agora

seria uma tortura. Não entraremos na Olimpíada, e Meadow não

consegue cantar essa música. É estranho que Terry tenha tocado no

assunto.

Terry tira o cabelo da testa. O que eu não daria por aquelas

maçãs do rosto.

— Se prefere assim. Quando nos apresentarmos na Olimpíada

de Coros, sua parte deve estar perfeita — ela sorri para encorajar

Meadow. — Os contraltos estão fazendo um trabalho sensacional. As

sopranos precisam melhorar.

— Certo meninas. — Terry amplia o sorriso para incluir as

outras sopranos. — Vamos treinar essa parte.

É tão fácil. Posso cantar dormindo. Elas finalmente conseguem,

mas erram quando juntamos as vozes. Sopranos podem ser tão

irritantes. Cantamos essa parte vinte vezes. Apenas oito compassos

chatos. Agora são elas que podem cantá-la dormindo.

— Excelente. — Terry faz as sopranos comemorarem com

aqueles cumprimentos do tipo “toca aqui”. Não consigo entender por

que ela mantém a Meadow como solista. Quem se importa se a mãe

dela prometeu comprar figurinos novos se entrarmos na Olimpíada?

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Nossos velhos ponchos ainda dão para o gasto. O meu está um pouco

curto, mas eu fico no fundo, bem no fundo. Olho para as outras

meninas. Acho que Meadow é a melhor que temos.

— Descansem um pouco, meninas. — Terry olha para Meadow.

— Vamos praticar Leve-me para casa em seguida — soa meio

frustrada. Ela sabe que Meadow canta muito mal essa música. Sabe

que a Olimpíada de Coros é uma ilusão, mas não pode deixar que as

meninas vejam sua preocupação. Eu vejo. Uso óculos megagrossos.

Vejo tudo.

Pego minha garrafinha de água, bebo metade, espreguiço e

afundo no banco de madeira atrás de mim. Nós ensaiamos em pé

entre os bancos da igreja. São oitenta meninas, portanto não cabemos

no tablado próprio para o coro. O santuário é repleto da boa e velha

madeira. Ótima acústica. Perfeita para Leve-me para casa.

Principalmente quando todas começamos a agitar. Então, Meadow se

perde e temos que voltar ao início.

Terry se agacha na frente da Meadow para conversar e tentar

animá-la. Então se levanta novamente.

— Leah, distribua os instrumentos.

Leah é a presidente do coro. Garota simpática. Seu cabelo longo

e liso é castanho escuro, quase preto. Combina com os cílios e o rosto

de bailarina.

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Confusão e falatório. O tinido do triângulo. Alguém bate no

tambor. Sarah empurra para mim o chocalho de som áspero que

costumo tocar. Terry olha zangada pedindo silêncio, levanta as mãos e

faz sinal para a pianista. As notas voam pelo ar, absorvendo-nos com

seu som triste. Oitenta pares de olhos fixos em cada movimento de

Terry.

Agora é o solo da Meadow, na abertura. Terry abaixa a mão

para fazê-la começar e...

Nada.

Meadow corre até a frente da sala e sai pela porta lateral.

— Leah, vá atrás dela.

Terry cruza os braços, estuda a música, batendo o pé no chão.

Estou paralisada, assim como o restante do coro. Não se ouve

nem o chocalho.

Leah volta com seu rosto de boneca, sem fôlego.

— Ela está vomitando.

Gemidos e confusão. Todas estão desapontadas. Terry parece

muito chateada.

Minha mão sobe lentamente. Não sei muito bem o que ela está

fazendo. Nunca tinha levantado a mão no coro antes.

— Beth?

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Engulo em seco e olho para os contraltos, buscando força. Posso

fazer isso. Eu posso.

— Eu sei o solo.

Meu murmúrio se perde na desordem das garotas ao meu redor.

— Silêncio, meninas. O que você disse?

Agora todas estão ouvindo, encarando, questionando. Obrigo-

me a endireitar apostura, puxo os ombros para trás tentando ganhar

coragem e respiro fundo.

— Posso cantar se você quiser. A parte da Meadow. Para

ensaiarmos.

— Você é um contralto.

— Mas eu sei o solo.

— Consegue alcançar as notas?

Dou de ombros.

— É claro — um sorriso brota do poço turbulento de covardia

em meu estômago.

Terry me olha por um instante e sorri.

— Está bem, então. Obrigada, Beth.

Sarah pega meu instrumento. Seus olhos estão arregalados —

assustados em solidariedade a mim.

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Fecho os meus. Respiro fundo. Inspiro e expiro. Estou no carro.

Sozinha. Aquela não é nossa pianista acariciando delicadamente as

teclas que iniciam a música. É apenas o CD de prática. Fiz isso cem

vezes.

É minha deixa, e começo a cantar:

Vou descendo o rio,

O doce, doce rio Jordão,

Olho para a água turva

E anseio chegar ao outro lado.

Minha voz flui pura e forte em toda a estrofe andante do solo de

abertura. Tenho um refrão só para mim, lento e triste. Várias

passagens maravilhosas.

Leve-me para casa, doce, doce Jesus.

Envolva-me em seu abraço,

Onde meu amo não possa encontrar-me.

Senhor eu anseio chegar ao outro lado.

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Então o coro entra: “Leve-me para casa, Leve-me para casa,

Leve-me para casa”. Minha voz voa alto acima delas.

Estrofe dois. Sem solo nesta seção. Abro os olhos e canto com os

contraltos.

Deito-me na margem do rio,

O doce, doce rio Jordão,

Meus dedos tocam a água turva.

Á grama é farta do outro lado.

O andamento acelera no refrão. As coisas começam a esquentar.

Estamos cantando com toda a energia, dando o máximo de nossas

vozes, fazendo tremer as vidraças.

Ah, a glória daquele dia lindo

Em que cruzei o rio Jordão.

Os anjos tocando banjo

E o bom Senhor no violino.

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Terry é toda sorrisos. Nunca esteve tão feliz. Está pulando,

transmitindo sua energia a todas. Ai, droga, sou eu de novo. Alta e

fluida sobre o emaranhado harmônico do resto do coro.

Lá estão meu pai e minha mãe...

Cantando como nunca cantaram antes...

Fico de olhos abertos desta vez. O coro responde. Eu me solto e

insiro outra passagem no final do verso.

O rapaz moreno que disse que me amava

E preenche meus sonhos à noite.

O lugar está fervendo, chegando ao clímax. Todas, a plena voz,

cantam: “Leve-me para casa, Leve-me para casa, Leve-me paracasa”,

como nós nunca fizemos antes. Som mágico e eletrizante. Música

pairando em todo o ambiente. O tom muda e entramos na ponte entre

as estrofes:

Mas meu bebê, Senhor minha doce criança, que usa os olhos do

meu mestre,

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Envolve meu coração em seus doces, doces dedos com tanta

força...

Cada seção desvia para um caminho próprio e intricado, até que

nos juntamos novamente em um acorde perfeito: “ele não está pronto

para o Jordão!”

Sentimos a dor daquela menina tão distante no tempo e no

espaço. Um monte de garotas brancas encontrando suas almas.

Terry pede calma para que possamos reverenciar o próximo

verso.

Ás mães respiram porque precisam.

Como minha mãe, que seguiu em frente quando meu pai partiu.

Por mim. Ela continuou respirando, continuou trabalhando, magoada

demais para conseguir amar de novo. E eu olho para ela com os olhos

dele, a altura dele, o rosto dele, as espinhas dele. Todos os dias, estou lá

para lembrá-la. A Fera encarnada.

As meninas ao meu redor cantam “Puxa-me de volta, puxa-me

de volta, puxa-me de volta”.