Cantos da Solidão por Bernardo Guimarães - Versão HTML

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LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obras de Bernardo Guimarães

Texto-fonte:

Vida e obra do poeta e romancista brasileiro Bernardo Guimarães Canto da Solidão

Prefácio da 2ª edição de Cantos da Solidão

Prefácio dos editores da 1ª edição de Cantos da Solidão Prelúdio

Amor ideal

Hino à aurora

Invocação

Primeiro sonho de amor

À uma estrela

O Ermo

O Devanear de um cético

Desalento

No meu aniversário

Visita à sepultura de meu irmão

À sepultura de um escravo

O destino do vate

Esperança

Prefácio da 2ª edição de Cantos da Solidão

Advertência da segunda edição

Grande número das poesias que agora ofereço ao público já foram publicadas em S.

Paulo em 1852 sob o título de Cantos

da Solidão: essa edição porém, além de muito escassa quanto ao número de exemplares, foi por demais incorreta; e como o

público parece-me ter dado algum apreço a essas produções de minha primeira mocidade, isso me anima a dar-lhe esta

segunda edição muito mais correta, e seguida de grande número de poesias diversas.

Cumpre-me aqui dizer algumas palavras a respeito de algumas alterações e adições que fiz nos Cantos da solidão.

Quando, ao terminar meus estudos acadêmicos, me dispunha a retirar-me de S. Paulo, grande número de amigos e colegas

mostraram desejos de possuir impressas aquelas poesias; existiam elas pela maior parte em seu primeiro esboço tais quais me

tinham saído da pena no primeiro jacto, e os manuscritos se achavam em deplorável desordem; o tempo de que dispunha era

muito limitado para eu poder coligi-las, e limá-las convenientemente; com a tal ou qual ordem e correção que a pressa me

permitiu dar-lhes, deixei-as em S. Paulo em poder daqueles amigos, a fim de dá-las ao prelo; deixei-as mais como um fraco

penhor de amizade e gratidão, como um eco de meu coração, que eu queria deixar ressoando entre aqueles bons amigos, de

muitos dos quais eu me ia separar talvez para sempre, do que como um título com que me apresentasse ao público para

conquistar o glorioso nome de poeta.

A vista disso deve-se relevar o muito que há de desleixo e e incorreção nessas composições; desleixo e incorreção que

procurei eliminar o mais que me foi possível na presente edição; muitas alterações e adições fiz em algumas poesias; e mesmo

uma ou outra refundi completamente; outras porém ficaram assim mesmo mal acabadas, com o pensamento incompleto, a

frase mal polida, porque não foi mais possível evocar de novo inspirações há tanto tempo adormecidas. Alterei também um

tanto a ordem em que vinham na primeira edição, a fim de engrupar debaixo do título de -

Inspirações da tarde - certo número

de poesias em que o quadro nelas debuxado se emoldura nos encantadores relevos dessa hora de remanso que serve de

transição da luz e bulício do dia para o silencio e trevas da noite.

Vão portanto estes versos nesta segunda edição corretos de muitos descuidos de metrificação e de estilo, e limpos de

inúmeros e graves erros tipográficos que desfiguravam a primeira.

Quanto ao valor literário que porventura possam ter estes versos, o público e a critica o decidirão; lembrem-se somente

aqueles que lançarem os olhos sobre estas páginas, que são elas produto de uma musa que tem constantemente sofrido o

embate de todo o gênero de contrariedades, e que conhece por experiência quanto é verdadeiro o que diz Chateaubriand: -

C'est un sophisme digne de la dureté de notre siècle, d'avoir avancé que les bons ouvrages se font dans le malheyr: il

n'est pas vrai qu'on puisse bien écrire quand on souffre. Les hommes qui se consacrent au culte des muses se laissent

plus vite submerger à la douleur que les esprits vulgaires.

Rio de Janeiro, 14 de abril de 1858

O AUTOR

Prefácio dos editores da 1ª edição de Cantos da Solidão AO LEITOR

Temos o prazer de oferecer ao público, e particularmente à mocidade acadêmica, as produções poéticas de um de nossos

irmãos de letras, que ao separar-se de nós legou-nos esses cantos melodiosos, como se fosse um adeus de despedida, e uma

última lembrança de seu viver de outrora; - é o testamento do coração ao terminar-se a vida descuidosa de mancebo; - é o

derradeiro olhar do viajante ao deixar as praias deleitosas de um país encantado, para expor-se aos azares de uma longa

peregrinação por mares tempestuosos; - é a baliza que servirá de assinalar-lhe essa quadra risonha da existência, que, ainda

depois de volvida, inspira~nos recordações tão deliciosas, como os aromas da pátria que auras propícias levassem aos ermos

do exilado.

Para nós os - Cantos da solidão - significam alguma cousa mais: - a naturalidade com que são escritos e esse perfume de

tristeza e sentimentalismo que eles exalam bem provam não serem essas poesias uma criação puramente artística; - elas são a

linguagem harmoniosa de uma alma poética e inspirada, que se expande Prelúdio

Neste alaúde, que a saudade afina,

Apraz-me às vêzes descantar lembranças

De um tempo mais ditoso;

De um tempo em que entre sonhos de ventura

Minha alma repousava adormecida

Nos braços da esperança.

Eu amo essas lembranças, como o cisne

Ama seu lago azul, ou como a pomba

Do bosque as sombras ama.

Eu amo essas lembranças; deixam n'alma

Um quê de vago e triste, que mitiga

Da vida os amargores.

Assim de um belo dia, que esvaiu-se,

Longo tempo nas margens do ocidente

Repousa a luz saudosa.

Eu amo essas lembranças; são grinaldas

Que o prazer desfolhou, murchas relíquias

De esplêndido festim;

Tristes flores sem viço! - mas um resto

Inda conservam do suave aroma

Que outrora enfeitiçou-nos.

Quando o presente corre árido e triste,

E no céu do porvir pairam sinistras

As nuvens da incerteza,

Só no passado doce abrigo achamos

E nos apraz fitar saudosos olhos

Na senda decorrida;

Assim de novo um pouco se respira

Uma aura das venturas já fruídas,

Assim revive ainda

O coração que angústias já murcharam,

Bem como a flor ceifada em vasos d'água

Revive alguns instantes.