Caramuru por José de Santa Rita Durão - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
index-1_1.png

www.nead.unama.com.br

Universidade da Amazônia

Caramuru

de Frei José de Santa Rita

NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Av. Alcindo Cacela, 287 – Umarizal

CEP: 66060-902

Belém – Pará

Fones: (91)210-3196 / 210-3181

www.nead.unama.br

E-mail: uvb@unama.br

1

www.nead.unama.com.br

Reflexões prévias e argumentos

Os sucessos do Brasil não mereciam menos um Poema que os da Índia.

Incitou-me a escrever este o amor da Pátria. Sei que a minha profissão exigiria de mim outros estudos; mas estes não são indignos de um religioso, porque o não foram de bispos, e bispos santos; e, o que mais é, de Santos Padres, como S.

Gregório Nazianzeno, S. Paulino, e outros; maiormente, sendo este poema ordenado a pôr diante dos olhos aos libertinos o que a natureza inspirou a homens que viviam tão remotos das que eles chamam preocupações de espírito débeis.

Oportunamente o insinuamos em algumas notas; usamos sem escrúpulo de nomes tão bárbaros; os Alemães, Ingleses, e semelhantes, não parecem menos duros aos nossos ouvidos, e os nossos aos seus. Não faço mais apologias da obra, porque espero as repreensões, para, se for possível, emendar os defeitos, que me envergonho menos de cometer que de desculpar.

A ação do poema é o descobrimento da Bahia, feito quase no meio do século XVI por Diogo ÁIvares Correia, nobre Vianês, compreendendo em vários episódios a história do Brasil, os ritos, tradições, milícias dos seus indígenas, como também a natural, e política das colônias.

Diogo Álvares passava ao novo descobrimento da capitania de São Vicente, quando naufragou nos baixos de Boipebá, vizinhos à Bahia. Salvaram-se com ele seis dos seus companheiros, e foram devorados pelos gentios antropófagos, e ele esperado, por vir enfermo, para melhor nutrido servir-lhes de mais gostoso pasto.

Encalhada a nau, deixaram-no tirar dela pólvora, bala, armas, e outras espécies, de que ignoravam o uso. Com uma espingarda matou ele caçando certa ave, de que espantados, os bárbaros o aclamaram Filho do trovão, e Caramuru, isto é, Dragão do mar. Combatendo com os gentios do sertão, venceu-os, e fez-se dar obediência daquelas nações bárbaras. Ofereceram-lhe os principais do Brasil as suas filhas por mulheres; mas de todas escolheu Paraguassu, que depois conduziu consigo à França, ocasião em que outras cinco Brasilianas, seguiram a nau francesa a nado, por acompanhá-lo, até que uma se afogou, e, intimidadas, as outras se retiraram.

Salvou um navio de Espanhóis, que naufragaram, com o que mereceu que Ihe agradecesse o Imperador Carlos V com uma honrosa carta. Passou à França em nau que ali abordou daquele reino, e foi ouvido com admiração de Henrique II, que o convidava para em seu nome fazer aquela conquista. Repugnou ele, dando aviso ao Senhor D. João III por meio de Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo da Bahia.

Cometeu o Monarca a empresa a Francisco Pereira Coutinho, fazendo-o donatário daquela Capitania. Mas êste, não podendo amansar os Tupinambás, que habitavam o Recôncavo, retirou-se à Capitania dos ilhéus; e, pacificando depois com os Tupinanbás, tornava à Bahia, quando ali infaustamente pereceu em um naufrágio.

Entanto Diogo Álvares assistiu em Paris ao batismo de Paraguassu sua esposa, nomeada nele Catarina, por Catarina de Médicis, Rainha Cristianíssima, que Ihe foi madrinha, e tornou com ela para a Bahia, onde foi reconhecida dos Tupinanbás como herdeira do seu Principal, e Diogo recebido com o antigo respeito. Teve Catarina Álvares uma visão famosa, em que a Virgem Santíssima, manifestando-se lhe cheia de glória, Ihe disse que fizesse restituir uma imagem sua roubada por um Selvagem. Achou-se esta nas mãos de um Bárbaro; e Catarina Álvares com exclamações de júbilo se lançou a abraçá-la, clamando ser aquela a imagem mesma que lhe aparecera: foi colocada com o título de Virgem Santíssima da Graça em uma igreja, que é hoje Mosteiro de S. Bento, celebre por esta tradição. Chegou entanto de Portugal Tomé de Sousa com algumas naus, famílias e tropas para povoar a 2

www.nead.unama.com.br

Bahia. Sebastião da Rocha Pita, Autor da Historia Brasílica, e natural da mesma cidade, assevera que Catarina Alvares renunciara no Senhor D. João III os direitos que tinha sobre os Tupinambás, como herdeira dos seus maiores Principais; ele mesmo atesta que aquele Monarca mandara aos seus Governadores que honrassem e atendessem Diogo Álvares Correia, Caramuru pelos referidos serviços; e foi com efeito ele o tronco da nobilíssima casa da Torre na Bahia; e Catarina Álvares sua mulher foi honrada por aquela metrópole com um seu retrato sobre a porta da casa da pólvora, ao lado das armas reais. Leia-se Vasconcelos na História do Brasil, Francisco de Brito Freire, e Sebastião da Rocha Pita.

O AUTOR.

Caramuru

de Frei José de Santa Rita

CARAMURU POEMA ÉPICO DO DESCOBRIMENTO DA BAHIA CANTO I

I

De um varão em mil casos agitados,

Que as praias discorrendo do ocidente

Descobriu recôncavo afamado

Da capital brasílica potente;

Do filho do trovão denominado,

Que o peito domar soube à fera gente,

O valor cantarei na adversa sorte,

Pois só conheço herói quem nela é forte.

II

Santo Esplendor, que do Grão Padre manas

Ao seio intacto de uma Virgem bela,

Se da enchente de luzes soberanas

Tudo dispensas pela Mãe donzela

Rompendo as sombras de ilusões humanas,

Tudo do grão caso a pura luz revela;

Faze que em ti comece e em ti conclua

Esta grande obra, que por fim foi tua.

III

E vós, príncipe excelso, do céu dado

Para base imortal do luso trono;

Vós, que do áureo Brasil no principado

Da real sucessão sois alto abono:

3

www.nead.unama.com.br

Enquanto o império tendes descansado

Sobre o seio da paz com doce sono,

Não queirais designar-vos no meu metro

De pôr os olhos e admiti-lo ao cetro.

IV

Nele vereis nasce es desconhecidas,

Que em meio dos sertões a fé não doma,

E que puderam ser-vos convertidas

Maior império que houve em Grécia ou Roma:

Gentes vereis e terras escondidas,

Onde, se um raio da verdade assoma,

Amansando-as, tereis na turba imensa

Outro reino maior que a Europa extensa.

V

Devora-se a infeliz mísera gente;

E, sempre reduzida a menos terra,

Virá toda a extinguir-se infelizmente,

Sendo em campo menor maior a guerra;

Olhai, senhor, com reflexão clemente

Para tantos mortais, que a brenha encerra,

E que, livrando desse abismo fundo.

Vireis a ser monarca de outro mundo.

VI

Príncipe, do Brasil futuro dono,

À mãe da pátria, que administra o mando,

Ponde, excelso senhor, aos pés do trono

As desgraças do povo miserando;

Para tanta esperança é o justo abono

Vosso título e nome, que invocando,

Chamará, como a outro o egípcio povo,

D. José salvador de um mundo novo.

VII

Nem podereis temer que ao santo intento

Não se nutram heróis no luso povo,

Que o antigo Portugal vos apresento

No Brasil renascido, como em novo.

Vereis do domador do Índico assento

Nas guerras do Brasil alto renovo,

E que os seguem nas bélicas idéias

Os Vieiras, Barretos e os Correias.

4

www.nead.unama.com.br

VIII

Daí, portanto, senhor. potente impulso,

Com que possa entoar sonoro o metro

Da brasílica gente o invicto pulso,

Que aumenta tanto império ao vosso cetro;

E, enquanto o povo do Brasil convulso (1)

Em nova lira canto, em novo plectro,

Fazei que fidelíssimo se veja

O vosso trono em propagar se a igreja.

IX

Da nova Lusitânia o vasto espaço

Ia a povoar Diogo, a quem bisonho

Chama o Brasil, temendo o forte braço,

Horrível filho do trovão medonho,

Quando do abismo por cortar lhe o passo

Essa fúria saiu como suponho,

A quem do inferno o paganismo aluno,

Dando o império das águas, fez Netuno.

X

O grão tridente. com que o mar comove,

Cravou dos Órgãos na montanha horrenda (2)

E na escura caverna, a onde Jove

(Outro espírito) espalha a luz tremenda,

Relâmpagos mil faz, coriscos chove;

Bate-se o vento em hórrida contenda,

Arde o céu, zune o ar, treme a montanha,

E ergue-lhe o mar em frente outra tamanha.

XI

O filho do trovão, que em baixel ia

Por passadas tormentas ruinoso,

Vê que do grosso mar na travessia

Se serve o lenho pelo pego undoso.

Bem que, constante, a morte não temia,

Invoca no perigo o Céu piedoso,

Ao ver que a fúria horrível da procela

Rompe a nau, quebra o leme e arranca a vela.

XII

Lança-se ao fundo o ignívomo instrumento,

Todo o peso se alija; o passageiro,

Para nadar no túmido elemento,

A tábua abraça que encontrou primeiro;

Quem se arroja no mar temendo o vento;

5

www.nead.unama.com.br

Qual se fia a um batel, quem a um madeiro,

Até que sobre a penha, que a embaraça,

A quilha bate e a nau de despedaça.

XIII

Sete somente do batel perdido

Vem à praia cruel, lutando a nado;

Oferece-lhes socorro fementido

Bárbara multidão, que acode ao brado;

E, ao ver na praia o benfeitor fingido,

Rende-lhe as mãos o náufrago enganado.

Tristes! que a ver algum qual fim o espera

Com quanta sede a morte não bebera!

XIV

Já estava em terra o infausto naufragante,

Rodeado da turba americana;

Vem-se com pasmo ao porem-se diante,

E uns aos outros não crêem da espécie humana: Os cabelos, a cor, barba e semblante

Faziam crer aquela gente insana

Que alguma espécie de animal seria

Desses que no seu seio o mar trazia.

XV

Algum, chegando aos míseros, que à areia

O mar arroja extintos, nota o vulto;

Ora o tenta despir e ora receia

Não seja astúcia com que o assalte oculto.

Outros, do jacaré, tornando a idéia, (3)

Temem que acorde com violento insulto

Ou, que o sono fingindo, os arrebate

E entre presas cruéis no fundo os mate.

XVI

Mas, vendo a Sancho, um náufrago que expira, Rota a cabeça numa penha aguda,

Que ia trêmulo a erguer-se e que caíra,

Que com voz lastimosa implora ajuda;

E vendo os olhos, que ele em branco vira,

Cadavérica a face, a boca muda,

Pela experiência da comua sorte

Reconhecem também que aquilo é morte.

6

www.nead.unama.com.br

XVII

Correm, depois de crê-lo, ao pasto horrendo, E, retalhando o corpo em mil pedaços,

Vai cada um famélico trazendo,

Qual um pé, qual a mão, qual outros os braços; Outro na crua carne iam comendo,

Tanto na infame gula eram devassos;

Tais há que as assam nos ardentes fossos,

Alguns torrando estão na chama os ossos.

XVIII

Que horror da humanidade! ver tragada

Da própria espécie a carne já corruta!

Quando não deve a Europa abençoada

A fé do Redentor, que humilde escuta!

Não era aquela infâmia praticada

Só dessa gente miseranda e bruta:

Roma e Cartago o sabe no noturno

Horrível sacrifício de Saturno. (4)

XIX

Os sete, entanto, que do mar com vida

Chegaram a tocar na infame areia

Pasmam de ver na turba recrescida

A brutal catadura, hórrida e feia:

A cor vermelha em si mostram tingida

De outra cor diferente, que os afeia;

Pedras e paus de embirras enfiados, (5)

Que na face e nariz trazem furados.

XX

Na boca, em carne humana ensangüentada,

Anda o beiço inferior todo caído,

Porque a têm toda em roda esburacada,

E o labro de vis pedras embutido;

Os dentes (que é beleza que lhe agrada)

Um sobre outro desponta recrescido;

Nem se lhe vê nascer na barba o pêlo

Chata a cara e nariz, rijo o cabelo.

XXI

Vê-se no sexo recatado o pejo,

Sem mais que antiga gala que Eva usava

Quando por pena de um voraz desejo

Da feia desnudez se envergonhava;

7

www.nead.unama.com.br

Vão sem pudor com bárbaro despejo

Os homens, como Adão sem culpa andava;

Mas vê-se, alma Natura, o que lhe ordenas,

porque no sacrifício usam de penas.

XXII

Qual das belas araras traz vistosas

Louras, brancas, purpúreas, verdes plumas

Outros põem, como túnicas lustrosas,

Um verniz de balsâmicas escumas.

Nem temem nele as chuvas procelosas,

Nem o frio rigor de ásperas brumas;

Nem se receiam do mordaz besouro,

Qual anta ou qual tatu dentro em seu couro. (6) XXIII

Por armas frechas, arcos pedras, bestas,

A espada do pau ferro; e por escudo

As redes de algodão, nada molestas,

Onde a ponta se embace ao dardo agudo;

Por capacete nas guerreiras testas

Cintos de penas com galhardo estudo;

Mas o vulgo no bélico ameaço

Não tem mais que unha ou dente, ou punho ou braço.

XXIV

Desta arte armada, a multidão confusa

Investe o naufragante enfraquecido,

Que, ao ver-se despojar, nada recusa

Porque se enxugue o mádido vestido,

Tanto mais pelo mimo, que se lhe usa,

Quando a bárbara gente o vê rendido:

Trouxeram-lhe a batata, o coco, o inhame; (7) Mas o que crêem piedade é gula infame.

XXV

Cevavam desta forma os desditosos

Das fadigas marítimas desfeitos,

Por pingues ter os pastos horrorosos,

Sendo nas carnes míseras refeitos.

Feras! mas feras não, que mais monstruosos

São da nossa alma os bárbaros efeitos,

E em corruta razão mais furor cabe,

Que tanto um bruto imaginar não sabe.

8

www.nead.unama.com.br

XXVI

Não mui longe do mar, na penha dura,

A boca está de um antro mal aberta,

Que. horrível dentro pela sombra escura,

Toda é fora de rama encoberta.

Ali com guarda à vista se clausura

A infeliz companhia, estando alerta;

E, por cevá-los mais, dão-lhe o recreio

De ir pela praia em plácido passeio.

XXVII

Diogo então, que à gente miseranda

Por ser de nobre sangue precedia,

Vendo que nada entende a turba infanda,

Nem do férreo mosquete usar sabia,

Da rota nau, que se descobre à banda,

Pólvora e bala em copia recolhia;

E, como enfermo que no passo tarda,

Serviu-se por bastão de uma espingarda.

XXVIII

Forte sim, mas de têmpera delicada

Aguda febre traz desde a tormenta;

Pálido o rosto, e a cor toda mudada,

A carne sobre os ossos macilenta;

Mas foi-lhe aquela doença afortunada,

Porque a gente cruel guardá-lo intenta,

Até que, sendo a si restituído,

Como os mais vão comer, seja comido.

XXIX

Barbária foi (se crê) da antiga idade

A própria prole devorar nascida.

Desde que essa cruel voracidade

Fora ao velho Saturno atribuída,

Fingimento por fim, mas é em verdade

Invenção do diabólico homicida,

Que uns cá se matam, e outros lá se comem:

Tanto aborrece aquela fúria ao homem.

XXX

Mas já três vezes tinha a lua enchido

Do vasto globo o luminoso aspecto,

Quando o chefe dos bárbaros temido

Fulmina contra os seis o atroz decreto:

9

www.nead.unama.com.br

Ordena que no altar seja oferecido

O brutal sacrifício em sangue infecto, (8)

Sendo a cabeça às vítimas quebrada

E a gula infanda de os comer saciada.

XXXI

Entanto que se ordena a brutal festa,

Nada sabiam na marinha gruta

Os habitantes da prisão funesta,

Que ardilosa lho esconde a gente bruta;

E, enquanto a feral pompa já se apresta,

Toda a pena em favor se lhe comuta,

Nem parecem ter dado a menor ordem,

Senão que comam e comendo engordem.

XXXII

Mimosas carnes mandam, doces frutas,

0 araçá, o caju, coco e mangaba;

Do bom maracujá lhe enchem as grutas

Sobre rimas e rimas de goiaba;

Vasilhas põem de vinho nunca enxutas, (9)

E a imunda catimpoeira, que da baba (10)

Fazer costuma a bárbara patrulha,

Que só de ouvi-lo o estômago se embrulha.

XXXIII

Um dia. pois, que à sombra desejada

Se repousam, passando a calma ardente,

Por dar alívio à dor reconcentrada

De ver-se escravos de tão fera gente,

Fernando, um deles, diz, que aos mais agrada Por cantigas que entoa docemente,

Que em cítara, que o mar na terra lança,

Se divirtam da fúnebre lembrança.

XXXIV

Mancebo era Fernando mui polido,

Douto em letras e em prendas celebrado,

Que, nas ilhas do Atlântico nascido,

Tinha muito coas musas conversado;

Tinha ele os rumos do Brasil seguido

Por ver o monumento celebrado

De uma estátua famosa que num pico (11)

Aponta do Brasil ao país rico.

10

www.nead.unama.com.br

XXXV

Pedira-lhe Luís, que isto escutara,

De profética estátua o conto inteiro,

Se foi verdade, se invenção foi clara

De gente rude ou povo noveleiro.

Fernando então, que em metro já cantara

O sucesso, que atesta verdadeiro,

Toma nas mãos a cítara suave

E, entoando, começa em canto grave.

XXXVI

Oculto o tempo foi, incerta a era,

Em que o grão-caso contam sucedido;

Mas em parte é sem dúvida sincera

A bela história, que a escutar convido.

Feliz foi o ditoso, e feliz era

Quem tanto foi do céu favorecido,

Pois em meio ao corruto gentilismo

Merecer soube a Deus o seu batismo.

XXXVII

Incerto pelas brenhas caminhava

Um varão santo, que perdera a via,

Quando pelos cabelos o elevava

O anjo a onde o sol já se escondia;

E um selvagem lhe mostra, que se achava (12) Quase lutando em última agonia:

Ouve (lhe diz) o justo agonizante,

E uma estrada de luz tomou brilhante.

XXXVIII

Auréo (que assim se chama o sacro enviado),

Encostando-se ao velho titubeante,

Por ignorar-lhe o idioma não falado,

No seu diz, de que o enfermo era ignorante;

E ouve-se responder (caso admirado!)

Numa língua de todo extravagante,

Que, sendo em tudo extraordinária e bruta,

Faz-se entender, e entende-o no que escuta.

XXXIX

Do grande Criador por mensageiro

A bênção (diz) te ofereço, homem ditoso;

Neste mundo ignorado em o primeiro

Quer que o seu nome escutes glorioso;

11

www.nead.unama.com.br

Do Eterno pai, de um filho Verdadeiro,

Do Espirito também, laço amoroso,

Quer que o mistério saibas da verdade

São três pessoas numa só Unidade.

XL

Um só Senhor, que todo o ser governa,

Que só com dizer seja o fez de nada,

Que à natureza desde a idade eterna

Certa época fixou de ser criada;

Que, abrindo liberal a mão paterna,

Toda a coisa abençoa que é animada;

Que sua imagem nos fez, e, sem segundo,

Quer que o homem reine sobre o vasto mundo;

XLI

Que, havendo em mil delícias colocado

Nossos primeiros pais num paraíso,

Por homenagem desse império dado,

Privou de um pomo com severo aviso;

Que, vendo o seu respeito profanado

E igual satisfação sendo preciso,

No duro lenho a pôs, no férreo cravo,

E deu o filho por salvar o escravo:

XLII

Este no seio, pois, de Virgem pura,

Invocada no nome de Maria,

Redentor, mestre, e luz da criatura,

Nasceu, pregou, morreu na cruz ímpia;

Rompeu do abismo a imóvel fechadura;

Depois ressurge no terceiro dia;

E, ao céu subindo enfim, donde comanda,

Aos fins da terra os mensageiros manda.

XLIII

Um destes vendo a ti: lavar-te intento,

Se queres aceitar meu catecismo;

E, servindo de porta o sacramento,

Incorporar-te ao cristianismo.

Purga o teu coração, teu pensamento,

Por chegar puro às águas do batismo,

Onde, se entras com dor do mal primeiro,

De Jesus Cristo morrerás co-herdeiro.

12

www.nead.unama.com.br

XLIV

Aos primeiros acentos que escutara,

Guaçu (que este é seu nome) a frente empena; Atenda ao que ouve a orelha e fixa a cara,

Senão que coa cabeça a tudo acena;

Dos olhos mal se serve, que cegara,

Bem que a vista pareça ter serena;

As mãos de quando em quando estende, e toca, E pende atento da sagrada boca.

XLV

«Bom ministro (responde) do Piedoso,

Excelso grão-Tupá, que o céu modera, (13)

ao me vens novo, não, que tive o gosto

De ouvir-te em sonho já, quem ver pudera!

Se a imagem tens, que o sono fabuloso

Há muito que de ti na mente gera!

Serás, disse (e na barba o vai tocando),

Homens com barbas, branco e venerando.

XLVI

Louvores a Tupá, que enfim chegaste;

Que o caminho me ensinas, donde elejo

Buscar logo o gão-Deus, que me anunciaste,

Que desde a infância com ardor desejo.

Nunca soube, assim é, quanto contaste;

Mas, não sei como, o que ouço e quase vejo

Sentia, como em sombra mal formada;

Não que o cresse ainda assim, mas por toada.

XLVII

Vendo desse universo a mole imensa,

Sem ser de ainda maior entendimento,

Fabricada a não cri; que ele o dispensa,

Tem, rege e guarda, infere o pensamento.

Que repugna à criatura estar suspensa,

Sem ultimo fim ter, notava atento.

E este ente, que me fez um Deus segundo,

o grão-Tupá, fabricador do mundo.

XLVIII

Vi as chagas da própria natureza,

A ignorância, a malícia, a variedade,

E bem reconheci que esta torpeza

Nascer não pode da eternal bondade,

13

www.nead.unama.com.br

Onde, sem o saber, cri que era acesa

Neste incêndio comum da humanidade

Antiga chama, donde o mal nos veio:

Crer que tais nos fez Deus... eu tal não creio.

XLIX

Também vi que o grão-Deus, que o mundo cria, Deixar nunca quisera em tanto estrago

A humana natureza; e que a mão pia

De tais misérias ao profundo lago

Havia de estender: como o faria?

Suspenso fiquei sempre incerto e vago;

Mas nunca duvidei que alguém se visse

Que de tantas misérias nos remisse.

L

E como era a maior que experimentava

O ver que livremente o mal seguia;

Que a suprema Bondade se agravava

Donde um homem de bem se agravaria;

Vendo que a afronta, que esta ação causava,

Só se houvera outro Deus, se pagaria;

E impossível mais de um reconhecendo...

Daqui não passo, e cego me suspendo. (14)

LI

Agora sim, que entendo a grã-verdade,

Que um só Deus se fez homem sem defeito;

E, sendo três pessoas na Unidade,

Do Filho ao Pai podia haver respeito.

A pessoa segunda da Trindade,

Novo homem, como nós, de terra feito,

A paz do homem com Deus fundar procura,

Redentor pio da mortal criatura.

LII

Este creio, este adoro, este confesso;

E esta santa mensagem venerando

Por meu Deus e Senhor firme o conheço,

A quem da terra e céu pertence o mando.

Deste o batismo santo hoje te peço,

Onde, na porta celestial entrando,

Suba o espírito à glória que deseja

E com estes meus olhos ainda o veja.?

14

www.nead.unama.com.br

LIII

Disse o ditoso velho; e, acompanhando

Com devoto suspiro a voz que exprime,

Bem mostra que no peito o está tocando

A oculta unção do Espirito sublime,

As mãos ao céu levanta lagrimando;

E tanto ardor na face se lhe imprime,

Que acompanhar parece o humilde rôgo

Um dilúvio de água, outro de fogo.

LIV

Então o bom ministro:«É justo, amigo,

Que chores (lhe dizia) o teu pecado,

Por não amar a Deus; ser-lhe inimigo,

Se o blasfemaste: de o não ter honrado;

De não servir teus pais; de um ódio antigo;

E se não foste honesto, ou tens roubado;

Se em mulher, bens ou fama em caso feio

Fizeste dano, ou cobiçaste o alheio.

LV

Esta a lei santa é, que em nós impressa

Ninguém ofende que mereça escusa,

Onde no que faltaste a Deus confessa,

Que tanto deve quem pecando abusa.

Quer se a satisfação com a promessa

De melhor vida, no que a lei te acusa;

Pois quem quer que pecou, que assim não faça, Recebe o sacramento, mas não graça.?

LVI

«Eu, disse o americano, antes de tudo,

Amei do coração quem ser me dera:

Seu nome ignoro, mas honrá-lo estudo,

E com fé o adorei sempre sincera;

Em certos dias, recolhido e mudo,

Cuidava em venerar quem tudo impera;

Matar não quis, nem morto algum comia,

Pois que a mim mo fizessem não queria.

LVII

Mulher tive, mas uma, persuadido

Que com uma se pode; ação impura

Meteu-me sempre horror, tendo entendido

Que só no matrimônio era segura;

15

www.nead.unama.com.br

Qualquer outro prazer fora proibido,

Porque, se entanto abuso se conjura,

Quem, seguindo esse instinto do demônio,

Se pudera lembrar do matrimônio?

LVIII

Nunca roubei, temendo ser roubado;

Por conservar a fama, honrei a alheia;

Não me lembra de ter caluniado,

Nem de outrem disse mal, que é coisa feia:

E quem houvesse de outro murmurado

Que outro tanto lhe façam certo creia;

Não tive inveja do que alguém consiga,

Por ver que quem a tem seu mal castiga.

LIX

Enfim, corri meus anos desde a infância

Sem ofender (que eu saiba) esta lei justa,

Sem ter à coisa boa repugnância,

Tudo mercê da mão de Deus augusta.

Nos meus males somente a tolerância

Mas fazia passar a menor custa:

Esta a minha ânsia foi, este o meu zelo,

Saber quem era Deus, tratá-lo e vê-lo.?

LX

Dizendo o velho assim, tanto se acende,

Como se n’alma se lhe ateara um fogo.

Reclina a humilde fronte e a voz suspende,

E, caindo em delíquio neste afôgo,

Corre o ministro, que ao sucesso atende,

E buscando água que o batize logo;

Apenas «Félix, diz, eu te batizo?,

Partiu feliz dum vôo ao paraíso.

LXI

Cuidava em sepulta-lo Auréo saudoso;

Porém de espessa névoa, que o ar condensa,

Ouve um coro entoando harmonioso

Louvor eterno majestade imensa;

E na atmosfera ali do ar nebuloso

Luz arraiando, que a alumia intensa

Viu Félix, que na gloria que o vestia

A graça batismal lhe agradecia.

16

www.nead.unama.com.br

LXII

«Que te conceda Deus, ministro justo,

(Diz-lhe a alma venturosa) o prêmio eterno;

Pois vens do antigo mundo a tanto custo

A libertar-me do poder do inferno.

Dos céus entanto o Dominante augusto

Que tornes manda ao ninho teu paterno,

E sobre a névoa em nuvem levantada

Vás navegando pela aérea estrada.

LXIII

E quer na nuvem própria, que te indico

Que esse cadáver meu vá transportado,

E na ilha do Corvo, de alto pico

O vejam numa ponta colocado.

Onde acene ao pais do metal rico,

Que o ambicioso europeu vendo indicado

Dará lugar que ouvida nele seja

A doutrina do céu e a voz da igreja.?

LXIV

Disse, e, cessando a voz e a visão bela,

Viu da nuvem Auréo, que o rodeava,

Transformar-se a bela alma em clara estrela, E viu, que a nuvem sobre o mar voava;

O cadáver também sublime nela

Ao cume do grão-pico já chegava,

Onde a névoa, que no alto se sublima,

Depõe como uma estátua o corpo em cima.

LXV

Ali batido do nevado venta,

De sol, de gelo e chuva penetrado,

Efeito natural, e não portento,

É vê-lo, qual se vê, petrificado.

Um arco tem por bélico instrumento, (15)

De pluma um cinto sobre a frente ornado,

Outro onde era decente, em cor vermelho,

Sem pêlo a barba tem, no aspecto é velho.

LXVI

Voltado estava às partes do ocidente,

Donde o áureo Brasil mostrava a dedo,

Como ensinando à lusitana gente

Que ali devia navegar bem cedo.

17

www.nead.unama.com.br

Destino foi do Céu onipotente,

A fim que sem receio, ou torpe medo,

A piedosa empresa o povo corra,

E que quem morrer nela alegre morra.?

LXVII

Calou então Fernando, mas não cala

Na cítara dourada outra harmonia,

Onde parece a mão que também fala,

E que quanto a voz disse repetia.

Saíra entanto um bárbaro a escutá-la,

Que, encantado da doce melodia,

Toma nas mãos o músico instrumento,

Toca-o sem arte e salta de contento.

LXVIII

Não pode ver dos nossos o congresso

Tanta rudeza sem tentar-se a riso,

Que, por mais que um pesar se tenha impresso, Não da lugar a prevenção ao siso;

E, sendo inopinado algum sucesso,

Onde é nos homens quase o rir preciso,

Tal pessoa há que chora apaixonada

E passa do gemido a uma risada.

LXIX

Diogo então, que dentro em si media

Da cruel gente a condição danosa,

Não sossega de noite nem de dia,

Antevendo a desgraça lastimosa;

E, vendo rir os mais com alegria,

Pela ação do selvagem graciosa,

Estranhou-lhe o prazer mal concebido,

Arrancando do peito este gemido:

LXX

«Oh triste condição da humana vida,

Que tanto em breve do seu mal se esquece!

Pois vendo a liberdade enfim perdida,

Sentimos menos quando a dor mais cresce!

Vemos desde a água às praias despedida

A Infeliz gente que no mar perece,

E que o brutal gentio na mesm’hora,

Ainda bem os não vê, logo os devora.

18

www.nead.unama.com.br

LXXI

Quem sabe se o cuidado que destina

Pôr-nos assim mimosos de sustento

Não é por ter de nós grata chacina

Nesse horrível, barbárico alimento?

Tanta atenção que têm mal se combina,

Sem mostrar-se o maligno pensamento;

Que quem os próprios mortos brutal come

Como é crível que aos vivos mate à fome?

LXXII

Tempo fora, afligidos companheiros,

De levantar dos céus ao Rei supremo

Humildes vozes, votos verdadeiros,

Como quem luta no perigo extremo.

Mas vós que agora rides prazenteiros,

Oh quanto, amigos meus, oh quanto temo

Que essa gente cruel só nos namore,

Por cevar mais a presa que devore!

LXXIII

Voltemos antes com fervor piedoso

Os tristes olhos ao etéreo espaço,

Esperando de Deus um fim ditoso,

Onde a morte se avista a cada passo.

Contrito o peito, o coração choroso,

Implore a proteção do excelso braço;

Que o coração me diz que, por desdita,

O cruel sacrifício se medita.?

LXXIV

Enquanto assim dizia, o herói prudente,

Comovido qualquer do temor justo,

Levanta humilde as mãos ao céu clemente,

Vendo o futuro com pressago susto:

Já cuida a cruel morte ver presente;

Já vê sobre a cabeça o golpe injusto;

Batem no peito e, levantando as palmas,

Fazem vítima a Deus das próprias almas.

LXXV

Já numerosa turba às praias vinha

E os seis levam ao corro miserando,

Onde a plebe cruel formada tinha

A pompa do espetáculo execrando;

19

www.nead.unama.com.br

E mal a gente bruta se continha,

Que. enquanto as tristes mãos lhe vão ligando, No humano corpo pelo susto exangue

Não vão vivo sorvendo o infeliz sangue.

LXXVI

Qual se da Libia pelo campo estende

O mouro caçador ton leão vasto,

Em longs nuvern devorá-lo emprende

O sagaz corvo, sempre atento ao pasto,

Negro parece o chão, negro, onde pende

A planta, em que do sangue explora o rasto,

Até que avista a presa e em chusma voia,

Nem deixa parte que voraz não roa:

LXXVII

Tal do caboclo foi a fúria infanda,

E o fanatismo, que na mente o cega,

Faz que, tendo esta ação por veneranda,

Invoque o grão-Tupá que o raio emprega.

No meio vê-se que em mil voltas anda

O eleito matador, como quem prega

A brados, exortando o povo insano

A ensopar toda a mão no sangue humano.

LXXVIII

A roda, à roda! a multidio fremente

Com gritos corresponde à infaine idéia,

Enquanto o fero em gesto de valente

Bate o pé, fere o ar e um pau maneia,

Ergue-se uin e outro lenho, onde o paciente Entre prisões de enibira se encadeia;

Fogo se acende nos profundos fossos,

Em que se torrem com a carne os ossos.

LXXIX

Dentro de uma estacada extensa e vasta,

Que a numerosa plebe em torno borda,

Entram os principais de cada casta

Com belas plumas, onde a cor discorda;

Outros, que a grenha têm com feral pasta

Do sangue humano, que ao matar transborda;

Os nigromantes são, que em. vão conjuro

Chamam as sombras desde o Avemo escuro.

20

www.nead.unama.com.br

LXXX

Companheiras de ofício tão nefando

Seguem de um cabo a turma e de outro cabo

Seis torpíssimas velhas, aparando

O sangue sem um leve menoscabo.

Tão feias são, que a face está pintando

A imagem propriíssinia do diabo:

Tinto o corpo em verniz todo amarelo,

Rosto tal, que a Medusa o faz ter belo.

LXXXI

Têm no colo as cruéis sacerdotisas,

Por conta dos funestos sacrificios,

Fios de dentes, que lhes são divisas

De mais ou menos tempo em tais ofícios.

Gratas ao céu se crêem de que indivisas

Se inculcam por tartáreos malefícios;

E um testemunho do mister nefando,

Nos seus cocôs com facas vêm tocando.

LXXXII

Quem pode reputar que dor traspassa

A miseranda infausta companhia,

Vendo tais feras rodear a praça,

Que o sangue com os olhos lhe bebia?

Ver que os dentes lhe range por negaça,

Senão é que os agita a fome ímpia,

E dizer la consigo. Em poucas horas

Sou pasto destas feras tragadoras.

LXXXIII

Mas põe-lhe a vista o Padre Onipotente,

Da desgraça cruel compadecido,

E envia um anjo desde o céu clemente,

Que deixe tanto horror desvanecido

E faça que o espetáculo presente

Venha por fim a ser sonho fingido:

Que quem recorre ao céu no mal que geme,

Logo que teme a Deus, nada mais teme.

LXXXIV

Seis então dos infames nigromantes

Lançarai mão das vítimas pacientes,

E a seis lenhos fatais, que ergueram dantes, Atam cruéis as mãos dos inocentes;

21

www.nead.unama.com.br

Postos no céu os olhos lacrimantes

Com lembrar-se das penas veementes

Que sofreu Deus na cruz, nele fiados,

Pediam-lhe o perdão dos seus pecados.

LXXXV

Fernando ali, que em discrição precede,

Com voz sonora a companhia anima,

Cheio de viva fé socorro pede;

E, quando a dor permite que se exprima:

«Grão-Senhor (diz) de quem tudo procede,

A glória, a pena, a confusão e a estima,

Que justo dás as graças e os castigos,

Na dor alívio, amparo nos perigos;

LXXXVI

Vida não peço aqui, morte não temo,

Nem menos choro o caso desgraçado;

O que me dói, que sinto, o quo só gemo

É, piedoso Deus, o meu pecado;

Feliz serei, Grão-Padre, se no extremo

For da tua bondade perdoado,

Pelo cálix amargo que aqui bebo,

Pela morte cruel que hoje recebo.

LXXXVII

Mas, grande Deus, que vês nossa fraqueza

No duro transe desta cruel hora,

Não sofras que essas feras com crueza

Hajam de devorar a quem te adora;

Purque estremece a frágil natureza,

Vendo a gula brutal, que emprende agora

Sacrifício fazer ao torpe abismo

Destas carnes tingidas no batismo.»

LXXXVIII

Ouviu o céu piedoso a infeliz gente;

E, quando o fero a maça já levanta,

Que esmaga a fronte ao mísero paciente,

Trovão se ouve fatal, que tudo espanta:

Treme a montanha e cai a roca ingente,

E na ruína as árvores quebranta;

Mas o que mais os brutos confundia

Era o rumor marcial que se então ouvia.

22

www.nead.unama.com.br

LXXXIX

Pedras, frechas e dardos de arremesso

Cobriam tudo o ar; porque o inimigo,

Que atrás se pôs de um próximo cabeço,

Aguarda expressamente aquele artigo:

De um lado e outro deste um mato espesso

Ameaça o furor, cerca o perigo;

E a gente crua, transformada a sorte,

Quanto cuidou matar, padece a morte.

XC

Era Sergipe, o príncipe valente,

Na esquadra valorosa, que atacava;

Verão entre os seus bom, manso e prudente,

Que com justiça os povos comandava.

Armava o forte chefe de presente

Contra Gupeva, que cruel reinava

Sobre as aldeias, que em tal tempo havia

No recôncavo ameno, da Bahia.

XCI

Por toda a parte o baiense é preso,

É trucidado o bruto nigromante,

Muitos lançados são no fogo aceso,

Rendem-se os mais ao vencedor possante.

Ficara em vida, todavia ileso

O mísero europeu, que ali em flagrante

Fez desatar o bom Sergipe e manda

À escravidão no seu país mais branda.

XCII

Mas a gente infeliz, no sertão vasto

por matos e montanhas dividida.

É fama que uns de tigres foram pasto,

Outra parte dos bárbaros comida.

Nem mais houve notícia ou leve rasto

Como houvessem perdido a amada vida;

Que evadiram o infame sacrifício.

(1) Povo convulso. — Epíteto que dá Isaías aos Americanos, como conjeturam os melhores intérpretes.

(2) Serra dos órgãos. — Ramo da célebre cordilheira que discorre pelo Brasil, saindo das suas cabernas névoas tempestuosas.

(3) Jacaré. — Uma espécie de crocodilo brasílico.

(4) Saturno. — Os antigos italianos foram, como se colige de Homero, antropófagos; tais eram os Lestrigiões e os Liparitanos. Os Fenícios e os Cartagineses usaram de 23

www.nead.unama.com.br

vítimas humanas, e Roma própria nos seus maiores apertos. São espécies vulgares na história.

(5) Embiras. — Espécie de cordão feito da casca interior de algumas árvores.

(6) Tatu. — Espécie de animal coberto de uma concha duríssima e impenetrável. Os selvagens tingem-se com várias resinas, senão com o fim, ao menos com o efeito de os livrar das mordeduras dos insetos, ainda que alguns se tinjam com ervas inúteis para esse uso.