Cartas D'Amor por Eça de Queirós - Versão HTML

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Universidade da Amazônia

Cartas D’Amor

de Eça

ç de Queirós

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Cartas D’amor

de Eça de Queirós

Primeira Carta a Madame de Jouarre

Minha querida madrinha.

Ontem, em casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a

ceia Libuska, estava sentada, conversando consigo, por debaixo do atroz retrato da

marechala de Mouy, uma mulher loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo,

talvez por lhe pressentir, apesar de tão indolentemente enterrada num divã, uma

rara graça no andar, graça altiva e ligeira de deusa e de ave. Bem diferente da

nossa sapiente Libuska, que se move com o esplêndido peso de uma estátua! E do

interesse por esse outro passo, possivelmente alado e diânico (de Diana), provém

estas gratujas.

Quem era? Suponho que nos chegou do fundo da província, de algum velho

castelo do Anjou com erva nos fossos, porque me não lembro de Ter encontrado em

Paris aqueles cabelos fabulosamente louros como o sol de Londres em Dezembro –

nem aqueles ombros decaídos, dolentes, angélicos, imitados de uma madona de

Mantegna, e inteiramente desusados em França desde o reinado de Carlos X, do

“Lírio no Vale” e dos corações incompreendidos. Não admirei com igual fervor o

vestido preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarelas. Mas os braços

eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance

triste. Deu-me assim a impressão, ao começo, de ser uma elegíaca do tempo de

Chateaubriand. Nos olhos porém surpreendi-lhe depois uma faísca de vivacidade

sensível – que a datava do século XVIII. Dirá minha madrinha: “Como pude eu

abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado fiscalizando?” É que voltei. Voltei, e

da ombreira da porta readmirei os ombros de velas por trás, entre as orquídeas,

nimbava de ouro; e sobretudo o sutil encanto dos olhos – dos olhos finos e

lânguidos... Olhos finos e lânguidos. É a primeira expressão em que hoje apanho

decentemente a realidade.

Por que é que não me adiantei, e não pedi uma “ apresentação?” Nem sei.

Talvez o requinte em retardar, que fazia com que La Fontaine, dirigindo-se mesmo

para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo. Sabe o que dava tanta

sedução ao Palácio das Fadas, nos tempos do rei Artur? Não sabe. Resultados de

não ler Tennyson... Pois era a imensidade de anos que levava a chegar lá, através

de jardins encantados, onde cada recanto de bosque oferecia a emoção inesperada

de um flirt, de uma batalha, ou de um banquete... (Com que mórbida propensão

acordei hoje para o estilo asiático!) O fato é que, depois da contemplação junto à

ombreira, voltei a cear ao pé da minha radiante tirana. Mas por entre a banal

sandwich de foie-gras, e um copo de Tokay que Voltaire, já velho, se recordava de

ter bebido em casa de Madame de Etioles (os vinhos dos Tressans descendem em

linha varonil dos venenos de Brinvilliers), vi, constantemente vi, os olhos finos e

lânguidos. Não há senão o homem, entre os animais, para misturar a languidez de

um olhar fino a fatias de foie-gras. Não o faria decerto um cão de boa raça. Mas

seríamos nós desejados pelo “efêmero feminino” se não fosse esta providencial

brutalidade? Só a porção da matéria que há no homem faz com que as mulheres se

resignem à incorrigível porção de ideal, que nele há também – para eterna

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perturbação do mundo. O que mais prejudicou Petrarca aos olhos de Laura – foram

os “Sonetos”. E quando Romeu, já com um pé na escada de seda, se demorava,

exalando o seu êxtase em invocações à noite e à Lua – Julieta batia os dedos

impacientes no rebordo do balcão, e pensava: “Ai, que palrador que és, filho dos

Montaigus!” Este detalhe não vem em Shakespeare – mas é comprovado por toda a

Renascença. Não me amaldiçoe por esta sinceridade de meridional céptico, e

mande-me dizer que nome tem, na paróquia, a loura castelã do Anjou. A propósito

de castelos: cartas de Portugal anunciam-me que o quiosque por mim mandado

erguer em Sintra, na minha quintarola, e que lhe destinava como “seu pensadoiro e

retiro nas horas de sesta” – abateu. Três mil e oitocentos francos achatados em

entulho. Tudo tende à ruína num país de ruínas. O arquiteto que o construiu é

deputado, e escreve no “Jornal da Tarde” estudos melancólicos sobre as Finanças!

O meu procurador em Sintra aconselha agora, para reedificar o quiosque, um

estimável rapaz, de boa família, que entende de construções e que é empregado na

procuradoria Geral da Coroa! Talvez se eu necessitasse um jurisconsulto, me

propusessem um trolha. É com estes elementos alegres, que nós procuramos

restaurar o nosso império de África! Servo humilde e devoto.

Fradique

Primeira Carta a Clara

Não, não foi na Exposição dos Aguarelistas, em Março, que eu tive consigo

o meu primeiro encontro, por mandado dos Fados. Foi no inverno, minha adorada

amiga, no baile dos Tressans. Foi aí que a vi, conversando com Madame de

Jouarre, diante de um console, cujas luzes, entre os molhos de orquídeas, punham

nos seus cabelos aquele nimbo de ouro que tão justamente lhe pertence como

“rainha de graça entre as mulheres”. Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir

cansado, o vestido preto com relevos cor de botão de ouro, o leque antigo que tinha

fechado no regaço; mas logo tudo em redor me pareceu irreparavelmente enfadonho

e feio; e voltei a readmirar, a meditar em silêncio a sua beleza, que me prendia pelo

esplendor patente e compreensível, e ainda por não sei quê de fino, de espiritual,

de dolente e de meigo que brilhava através e vinha da alma. E tão intensamente me

embebi nessa contemplação, que levei comigo a sua imagem, decorada e inteira,

sem esquecer um fio dos seus cabelos ou uma ondulação da seda que a cobria, e

corri a encerrar-me com ela, alvoroçado, como um artista que nalgum escuro

armazém, entre poeira e cacos, descobrisse a obra sublime de um mestre perfeito.

E, por que o não confessarei? Essa imagem foi para mim, ao princípio,

meramente um quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada doce

momento olhava – mas para lhe louvar apenas, com crescente surpresa, os

encantos diversos de linha e de cor. Era somente uma rara tela, posta em sacrário,

imóvel e muda no seu brilho, sem outra influência mais sobre mim que a de uma

forma muito bela que cativa um gosto muito educado. O meu ser continuava livre,

atento às curiosidades que até aí o seduziam, aberto aos sentimentos que até aí o

solicitavam; — e só quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo

de uma ocupação mais pura, regressava à imagem que em mim guardava, como um

Fra Angélico, no seu claustro, pousando os pincéis ao fim do dia, e ajoelhando ante

a Madona a implorar dela repouso e inspiração superior.

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Pouco a pouco, porém, tudo o que não foi esta contemplação, perdeu para

mim o valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da minha

alma, perdido na admiração da imagem que lá rebrilhava — até que só essa

ocupação me pareceu digna da vida, no mundo todo não reconheci mais que uma

aparência inconstante, e fui como um monge na sua cela, alheio às coisas mais

reais, de joelhos e hirto no seu sonho, que é para ele a única realidade.

Mas não era, minha adorada amiga, um pálido e passivo êxtase diante da

sua imagem. Não! Era antes um ansioso e forte estudo dela, com que eu procurava

conhecer através da forma e essência, e (pois a Beleza é o esplendor da Verdade)

deduzir das perfeições do seu Corpo as superioridades da sua Alma. E foi assim que

lentamente surpreendi o segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabelo

descobre, tão clara e lisa, logo me contou a retidão do seu pensar: o seu sorriso, de

uma nobreza tão intelectual, facilmente me revelou o seu desdém do mundanal e do

efêmero, a sua incansável aspiração para um viver de verdade: cada graça de seus

movimentos me traiu uma delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos diferenciei o

que neles tão adoravelmente se confunde, luz de razão, calor que melhor alumia...

Já a certeza de tantas perfeições bastaria a fazer dobrar, numa adoração perpétua,

os joelhos mais rebeldes. Mas sucedeu ainda que, ao passo que a compreendia e

que a sua Essência se me manifestava, assim visível e quase tangível, uma

influência descia dela sobre mim – uma influência estranha, diferente de todas as

influências humanas, e que me dominava com transcendente onipotência. Como lhe

poderei dizer? Monge, fechado na minha cela, comecei a aspirar à santidade, para

me harmonizar e merecer a convivência com a Santa a que me votara. Fiz então

sobre mim um áspero exame de consciência. Investiguei com inquietação se o meu

pensar era condigno da pureza do seu pensar; se no meu gosto não haveria

desconcertos que pudessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha idéia da vida

era tão alta e séria como aquela que eu pressentira na espiritualidade do seu olhar,

do seu sorrir; e se meu coração não se dispersara e enfraquecera de mais para

poder palpitar com paralelo vigor junto do seu coração. E tem sido em mim agora um

arquejante esforço para subir a uma perfeição idêntica àquela que em si tão

submissamente adoro.

De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha

educadora. E tão dependente fiquei logo desta direção, que já não posso conceber

os movimentos do meu ser senão governados por ela e por ela enobrecidos.

Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de algum valor, idéia ou

sentimento, é obra dessa educação que a sua alma dá à minha, de longe, só com

existir e ser compreendida. Se hoje me abandonasse a sua influência — devia

antes dizer, como um asceta, a sua Graça – todo eu rolaria para uma inferioridade

sem remição. Veja pois como se me tornou necessária e preciosa... E considere

que, para exercer esta supremacia salvadora, as suas mãos não tiveram de se

impor sobre as minhas – bastou que eu a avistasse de longe, numa festa,

resplandecendo. Assim um arbusto silvestre floresce à borda de um fosso, porque lá

em cima nos remotos céus fulge um grande sol, que não o vê, não o conhece, e

magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma... Por isso o

meu amor tinge esse sentimento indescrito e sem nome que a Planta, se tivesse

consciência, sentiria pela luz.

E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo,

nenhum bem imploro de quem tanto pode e é para mim dona de todo bem. Só

desejo que me deixe viver sob essa influência, que, emanando do simples brilho das

suas perfeições, tão fácil e docemente opera o meu aperfeiçoamento. Só peco esta

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permissão caridosa. Veja pois quanto me conservo distante e vago, na esbatida

humildade de uma adoração que até receia que o seu murmúrio, um murmúrio de

prece, roce o vestido da imagem divina...

Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a

toda a recompensa terrestre, me permitisse desenrolar junto de si, num dia de

solidão, a agitada confidência do meu peito, decerto faria um ato de inefável

misericórdia – como outrora a Virgem Maria quando animava os seus adoradores,

ermitas e santos, descendo numa nuvem e concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou

deixando-lhes cair entre as mãos erguidas uma rosa do paraíso. Assim, amanhã,

vou passar a tarde com Madame de Jouarre. Não há aí a santidade de uma cela ou

de uma ermida, mas quase o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse,

em pleno resplendor, e eu recebesse de si, não direi uma rosa, mas um sorriso,

ficaria então radiosamente seguro de que este amor, ou este meu sentimento

indescrito e sem nome que vai além do amor, encontra ante seus olhos piedade e

permissão para esperar.

Fradique

Segunda Carta a Clara

Meu amor,

Ainda há poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei num

desolador desde a nossa Torre de Marfim), eu sentia o rumor do teu coração junto

ao meu, sem que nada os separasse senão uma pouca de argila mortal, em ti tão

bela, em mim tão rude – e já estou tentando reconfigura ansiosamente, por meio

deste papel inerte, esse inefável estar contigo que é hoje todo o fim da minha vida, a

minha suprema e única vida. É que , longe da tua presença, cesso de viver, as

coisas para mim cessam de ser – e fico como um morto jazendo no meio de um

mundo morto, Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida que me

dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu nome – recomeço a aspirar

desesperadamente para ti, como uma ressurreição!

Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu deus a minha Eva –

que era eu, na verdade? Uma sombra flutuando entre sombras. Mas tu vieste, doce

adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permitir que eu bradasse

também triunfalmente o meu – “Amo, logo existo!” E não foi só a minha realidade

que me desvendaste – mas ainda a realidade de todo este universo, que me

envolvia como um ininteligível e cinzento montão de aparências. Quando há dias, no

terraço de Savran, ao anoitecer, te queixavas que eu contemplasse as estrelas

estando tão perto dos teus olhos, e espreitasse o adormecer das colinas junto ao

calor dos teus ombros – não sabias, nem eu te soube então explicar, que essa

contemplação era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava

admirando, nas coisas, a beleza inesperada que tu sobre elas derramas por uma

emanação que te é própria, e que antes de viver ao teu lado, nunca eu lhes

percebera, como se não percebe a vermelhidão das rosas ou o verde tenro das

relvas antes de nascer o Sol! Foste tu, minha bem-amada, que alumiaste o mundo.

No teu amor recebi a minha iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo

iniciado, posso afirmar: “Também fui a Elêusis; pela larga estrada pendurei muita flor

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que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a Elêusis

cheguei, em Elêusis penetrei – e vi e senti a verdade!...”

E acresce ainda, para meu martírio e glória, que tu és tão suntuosamente

bela e tão etereamente bela, de uma beleza feita de Céu e de Terra, beleza

completa e só tua, que eu já concebera – que nunca julgara realizável. Quantas

vezes, ante aquela sempre admirada e toda perfeita Vênus de Milo, pensei que, se

debaixo da sua testa de Deusa, pudessem tumultuar os cuidados humanos; se os

seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lágrimas; se os seus lábios,

só talhados para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmúrio de

uma prece submissa; se sob esses seios, que foram o apetite sublime dos Deuses e

Heróis, um dia palpitasse o amor e com ele a Bondade; se o seu mármore sofresse,

e pelo sofrimento se espiritualizasse, juntando ao esplendor da Harmonia a graça da

Fragilidade; se ela fosse do nosso tempo e sentisse os nossos males, e

permanecendo Deusa do Prazer se tornasse Senhora da Dor – então não estaria

colocada num museu, mas consagrada num santuário, porque os homens, ao

reconhecer nela a aliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal,

decerto a teriam aclamado in aeternum, como a definitiva Divindade. Mas quê! A

pobre Vênus só oferecia a serena magnificência da carne. De todo lhe faltava a

chama que arde na lama e a consome. E a criatura incomparável do meu cismar, a

Vênus Espiritual, Citeréia e Dolorosa, não existia, nunca existiria!... E quando eu

assim pensava, eis que tu surges, e eu te compreendo! Eras a encarnação do meu

sonho, ou antes de um sonho que deve ser universal – mas só eu te descobri, ou,

tão feliz fui, que só por mim quiseste ser descoberta!

Vê, pois, se jamais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo

és a minha Divindade – para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da

minha adoração. Os sacerdotes de Cartago acorrentavam às lajes dos Templos,

com cadeias de bronze, as imagens de seus Baals. Assim te quero também,

acorrentada dentro do templo Avaro que te construí, só Divindade minha, sempre no

eu altar – e eu sempre diante dele rojado, recebendo constantemente na alma a tua

visitação, abismando-me sem cessar na tua essência, de modo que nem por um

momento se descontinue essa fusão inefável, que é para ti um ato de Misericórdia e

para mim de Salvação. O que eu desejaria na verdade é que fosses invisível para

todos e como não existente – que perpetuamente um estofo informe escondesse o

teu corpo, uma rígida mudez ocultasse a tua inteligência. Assim passarias no mundo

como uma aparência incompreendida. E só para mim, de dentro do invólucro escuro,

se revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo – que e queria entrouxada

num rude, vago vestido de merino, com um ar quedo, inanimado... Perderia assim o

triunfal contentamento de ver resplandecer entre a multidão maravilhada aquela que

em segredo nos ama. Todos murmurariam compassivamente: “Pobre criatura!” E só

eu saberia, da “pobre criatura”, o corpo e a alma adoráveis!

Quanto adoráveis! Nem compreendo que, tendo consciência do teu

encanto, não estejas de ti namorada como aquele Narciso que reme de frio, coberto

de musgo, à beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo, e por mim e por

ti! A tua beleza, na verdade, atinge a altura de uma virtude – e foram decerto os

modos tão puros da tua alma que fixaram as linhas tão formosas do teu corpo. Por

isso há em mim um incessante desespero de não e saber amar condignamente – ou

antes (pois desceste de um Céu superior) de não saber tratar, como ela merece, a

hóspede divina do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda numa

felicidade imaterial, seráfica, calma infinitamente como deve ser a Bem-Aventurança

– e assim deslizarmos enlaçados através do silêncio e da luz, muito brandamente,

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num sonho cheio de certeza, saindo da vida à mesma hora e indo continuar no Além

o mesmo sonho extático. E outras vezes desejaria arrebatar-te numa felicidade

veemente, tumultuosa, fulgurante, toda de chama, de tal sorte que nela nos

destruíssemos sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem

memória e sem nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanás, ainda em toda

a refulgência da beleza arcangélica, arrastando nos braços para o Abismo uma

freira, uma Santa, cujos derradeiros véus de penitência se vão esgaçando pelas

pontas das rochas negras. E na face da santa, através do horror, brilha, irreprimida e

mais forte que o horror, uma tal alegria e paixão, tão intensas – que eu as apeteceria

para ti, oh minha santa roubada! Mas de nenhum destes modos te sei amar, tão

fraco ou inábil é o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito,

tenho de me contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente desta Eternidade.

Ainda ontem me perguntavas: “No calendário do seu coração, quantos dias dura a

Eternidade? “ Mas considera que eu era um morto – e que tu me ressuscitaste. O

sangue novo que me circula nas veias, o espírito novo que em mim sente e

compreende, são o meu amor por ti – e se ele me fugisse, eu teria outra vez,

regelado e mudo, de reentrar no meu sepulcro. Só posso deixar de te amar –

quando deixar de ser. E a vida contigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bela! É a

vida de um deus. Melhor talvez: — se eu fosse esse pagão que tu afirmas que sou,

mas um pagão do Lácio, pastor de gados, crente ainda em Júpiter e Apolo, a cada

instante temeria que um desses deuses invejosos te raptasse, te elevasse ao

Olimpo para completar a sua ventura divina. Assim não receio – toda minha te sei

para todo o sempre, olho o mundo em torno de nós como um paraíso para nós

criado, e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da glória, oh minha três vezes

bendita, Rainha da minha graça.

Não penses que estou compondo cânticos em teu louvor. É em plena

simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao contrário!

Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na sua majestade, seria

impotente para exprimir o meu êxtase. Balbucio, como posso, a minha infinita

oração. E nesta desoladora insuficiência do verbo humano, é como o mais inculto e

o mais iletrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a única

verdade, melhor que todas as verdades – que te amo, e te amo, e te amo, e te

amo!...

Fradique

Terceira Carta a Clara

Toda em queixumes, quase rabugenta, e mentalmente trajada de luto, me

apareceu hoje a tua carta com os primeiros frios de Outubro. E por quê, minha doce

descontente? Porque, mais fero de coração que um Trastamara ou um Bórgia,

estive cinco dias (cinco curtos dias de Outono) sem te mandar uma linha, afirmando

essa verdade tão patente e de ti conhecida como o disco do Sol – “que só em ti

penso, e só em ti vivo!...” Mas não sabes tu, oh super amada, que a tua lembrança

me palpita na alma tão natural e perenemente como o sangue no coração? Que

outro princípio governa e mantém a minha vida senão o teu amor? Realmente

necessitas ainda, cada manha, um certificado, em letra bem firme, de que minha

paixão está viva e viçosa e te envia os bons-dias? Para quê? Para sossego da tua

incerteza? Meu Deus! Não será antes par regalo do teu orgulho? Sabes que és

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deusa, e reclamas incessantemente o incenso e os cânticos do teu devoto. Mas

Santa Clara, tua padroeira, era uma grande santa, de alta linhagem, de triunfal

beleza, amiga de São Francisco de Assis, confidente de Gregório IX, fundadora de

mosteiros, suave fonte de piedade e milagres – e todavia só é festejada uma vez,

cada ano, a 27 de Agosto!

Sabes bem que estou gracejando, Santa Clara da minha fé! Não! Não

mandei linha supérflua, porque todos os males bruscamente se abateram sobre

mim: um defluxo burlesco, com melancolia, obtusidade e espirros: um confuso duelo,

de que fui o enfastiado padrinho, e em que apenas um ramo seco de olaia sofreu,

cortado por uma bala; e, enfim, um amigo que regressou da Abissínia, cruelmente

abissinizante, e a quem tive de escutar com resignado pasmo as caravanas, os

perigos, os amores, as façanhas e os leões!... E aí está a minha pobre Clara,

solitária nas suas florestas, ficou sem essa folha, cheia das minhas letras, e tão inútil par a segurança do seu coração como as folhas que a cerca, já murchas decerto e

dançando no vento.

Porque não sei como se comportam os teus bosques; — mas aqui as folhas

do meu pobre jardim amarelam e rolam na erva úmida. Para me consolar da verdura

perdida, acendi o meu lume: — e toda a noite de ontem mergulhei na muito velha

crônica de um cronista medieval da minha terra, que se chama Fernão Lopes. Aí se

conta de um rei que recebeu o débil nome de “Formoso”, e que, por causa de um

grande amor, desdenhou princesas de Castela e de Ararão, dissipou tesouros,

afrontou sedições, sofreu a desafeição dos povos, perdeu a vassalagem de castelos

e terras, e quase estragou o reino! Eu já conhecia a crônica – mas só agora

compreendo o rei. E grandemente o invejo, minha linda Clara! Quando se ama como

ele (ou como eu), deve ser um contentamento esplêndido o ter princesas da

cristandade, e tesouros, e um povo, e um reino forte para sacrificar a dois olhos,

finos e lânguidos, sorrindo pelo que esperam e mais pelo que prometem... Na

verdade só se deve amar quando se é rei – porque só então se pode comprovar a

altura do sentimento com a magnificência do sacrifício. Mas um mero vassalo como

eu (sem hoste ou castelo), que possui ele de rico, ou de nobre, ou de belo para

sacrificar? Tempo, fortuna, vida? Mesquinhos valores. É como ofertar na mão

aberta um pouco de pó. E depois a bem-amada nem sequer fica na história.

E por história – muito aprovo, minha estudiosa Clara, que andes lendo a do

divino Buda. Dizes, desconsoladamente, que ele te parece apenas “um Jesus muito

complicado”. Mas, meu amor, é necessário desentulhar esse pobre Buda da densa

aluvião de Lendas e Maravilhas que sobre ele tem acarretado, durante séculos, a

imaginação da Ásia. Tal como ela foi, desprendida da sua mitologia, e na sua nudez

histórica – nunca alma melhor visitou a Terra, e nada iguala, como virtude heróica, a

“Noite do Renunciamento”. Jesus foi um proletário, um mendigo sem vinha ou leira,

sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos da Galiléia, aconselhando

aos homens a que abandonassem como ele os seus lares e bens, descessem à

solidão e à mendicidade, para penetrarem um dia num Reino venturoso, abstrato,

que está nos Céus. Nada sacrificava em si e instigava os outros ao sacrifício –

chamando todas as grandezas ao nível da sua humildade. O Buda, pelo contrário,

era um Príncipe, e como eles costumam ser na Ásia, de ilimitado poder, de ilimitada

riqueza: casara por um imenso amor, e daí lhe viera um filho, em quem esse amor

mais se sublimara: — e este príncipe, este esposo, este pai, um dia, por dedicação

aos homens, deixa o seu palácio, o seu reino, a esposada do seu coração, o filhinho

adormecido no berço de nácar, e, sob a rude estamenha de um mendicante, vai

através do mundo esmolando e pregando a renúncia aos deleites, o aniquilamento

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de todo o desejo, o ilimitado amor pelos seres, o incessante aperfeiçoamento na

caridade, o desdém forte do ascetismo que se tortura, a cultura perene da

misericórdia que resgata, e a confiança na morte...

Incontestavelmente, a meu ver (tanto quanto estas excelsas coisas se

podem discernir de uma casa de Paris, no século XIX e com defluxo) a vida do Buda

é mais meritória. E depois considera a diferença do ensino dos dois divinos Mestres.

Um, Jesus, diz: “Eu sou filho de Deus, e insto com cada um de vós, homens mortais,

em que pratiqueis o bem durante os poucos anos que passais na Terra, para que eu

depois, em prêmio, vos dê a cada um, individualmente, uma existência superior,

infinita em anos e infinita em delícias, num palácio que está além das nuvens e que

é de meu Pai!” O Buda, esse, diz simplesmente: “Eu sou um pobre frade

mendicante, e peco-vos que sejais bons durante a vida, porque de vós, em

recompensa, nascerão outros melhores, e desses outros ainda mais perfeitos, e

assim, pela prática crescente da virtude em cada geração, se estabelecerá pouco a

pouco na Terra a virtude universal!” A justiça do justo, portanto, segundo Jesus, só

aproveita egoisticamente ao justo. E a justiça do justo, segundo Buda, aproveira ao

ser que o substituir na existência, e depois ao outro que deve nascer, sempre

durante a passagem na Terra, para lucro eterno da Terra. Jesus cria uma

aristocracia de santos, que arrebata para o Céu onde ele é Rei, e que constituem a

corte do Céu para deleite da sua divindade: — e não vem dela proveito direto para o

Mundo, que continua a sofrer da sua porção de Mal, sempre indiminuída. O Buda,

esse, cria, pela soma das virtudes individuais, santamente acumuladas, uma

humanidade que em cada ciclo nasce progressivamente melhor, que por fim se

torna perfeita, e que se estende a toda Terra donde o Mal desaparece, e onde o

Buda é sempre, à beira do caminho rude, o mesmo frade mendicante. Eu, minha

flor, sou pelo Buda. Em todo o caso, esses dois Mestres possuíram, para bem dos

homens, a maior Porção de divindade que até hoje tem sido dado à alma humana

conter. De resto, tudo isto é muito complicado; e tu sabiamente procederias em

deixar o Buda no seu budismo, e, uma vez que esses teus bosques são tão

admiráveis, em te retemperar na sua forca e nos seus aromas salutares. O Buda

pertence à cidade e ao colégio de Franca: no campo a verdadeira Ciência deve cair

das árvores, como nos tempos de Eva. Qualquer folha de olmo te ensina mais que

todas as folhas dos livros. Sobretudo do que eu — que aqui estou pontificando, e

fazendo pedantemente, ante os teus lindos olhos, tão finos e meigos, um curso

escandaloso de Religiões Comparadas.

Só me restam três polegadas de papel – e ainda te não contei, oh doce

exilada, as novas de Paris, acta Urbis. (Bom, agora latim!) São raras, e pálidas.

Chove; continuamos em república; Madame de Jouarre, que chegou da Rocha com

menos cabelos brancos, mas mais cruel, convidou alguns desventurados (dos quais

eu o maior) para escutarem três capítulos dum novo atentado do barão de Fernay

sobre a Grécia; os jornais publicam outro prefácio do sr. Renan, todo cheio do sr.

Renan, e em que ele se mostra, como sempre, o enternecido e erudito vigário de

Nossa Senhora da razão; e temos, enfim, um casamento de paixão e de luxo, o do

nosso escultural visconde de Fonblant com mademoiselle Degrave, aquela nariguda,

magrinha e de maus dentes, que herdou, milagrosamente, os dois milhões do

cervejeiro e que tem tão lindamente engordado e ri com dentes tão lindos. Eis tudo,

minha adorada... E é tempo que te mande, em montão, nesta linha, as saudades, os

desejos e as coisas ardentes e suaves e sem nome de que meu coração está cheio,

sem que se esgote por mais que plenamente as arremesse aos teus pés adoráveis,

que beijo com submissão e com fé.

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Fradique

Quarta Carta a Clara

Minha amiga,

É verdade que eu parto, e para uma viagem muito longa e remota, que será

como um desaparecimento. E é verdade ainda que a empreendo assim

bruscamente, não por curiosidade de um espírito que já não tem curiosidades – mas

para findar do modo mais condigno e mais belo uma ligação, que, como a nossa,

não deveria nunca ser maculada por uma agonia tormentosa e lenta.

Decerto, agora que eu dolorosamente reconheço que sobre o nosso tão

viçoso e forte amor se vai em breve exercer a lei universal de perecimento e fim das

coisas – eu poderia, poderíamos ambos, tentar, por um esforço destro e delicado do

coração e da inteligência, o seu prolongamento fictício. Mas seria essa tentativa

digna de si, de mim, da nossa lealdade – e da nossa paixão? Não! Só nos

prepararíamos assim um arrastado tormento, sem a beleza dos tormentos que a

alma apetece e aceita, nos puros momentos de fé e todo deslustrado e desfeado por

impaciências, recriminações, inconfessados arrependimentos, falsa ressurreições do

desejo, e de todos os enervamentos as saciedade. Não conseguiríamos deter a

marcha da lei inexorável – e um dia nos encontraríamos, um diante do outro, como

vazios, irreparavelmente tristes, e cheios do amargor da luta inútil. E de uma cousa

tão pura e sã e luminosa, como foi o nosso amor, só nos ficaria, presente e

pungente, a recordação de destroços e farrapos feitos por nossas mãos, e por elas

rojados com desespero no pó derradeiro de tudo.

Não! Tal acabar seria intolerável. E depois como toda a luta é ruidosa, e se

ano pode nunca disciplinar e enclausurar no segredo do coração, nós deixaríamos

decerto entrever enfim ao mundo um sentimento que dele escondemos por altivez,

não por cautela – e o mundo conheceria o nosso amor justamente quando ele já

perdera a elevação e a grandeza que quase o santificam... De resto, que importa o

mundo? Só para nós, que fomos um para o outro e amplamente o mundo todo, é

que devemos evitar ao nosso amor a lenta decomposição que degrada.

Para perpétuo orgulho do nosso coração é necessário que desse amor, que

tem de perecer como tudo o que vive, mesmo o Sol – nos fique uma memória tão

límpida e perfeita que ela só por si nos possa dar, durante o porvir melancólico, um

pouco dessa felicidade e encanto que o próprio amor nos deu quando era em nós

uma sublime realidade governando o nosso ser.

A morte, na plenitude da beleza e da força, era considerada pelos antigos

como o melhor benefício dos deuses – sobretudo para os que sobreviviam, porque

sempre a face amada que passara lhes permanecia na memória com o seu natural

viço e sã formosura, e não mirrada e deteriorada pela fadiga, pelas lágrimas, pela

desesperança, pelo amor. Assim deve ser também com o nosso amor.

Por isso mal lhe surpreendi os primeiros desfalecimentos, e, desolado,

verifiquei que o tempo o roçara com a frialdade da sua foice – decidi partir,

desaparecer. O nosso amor, minha amiga, será assim como uma flor milagrosa que

cresceu, desabrochou, deu todo o seu aroma – e, nunca cortada, nem sacudida dos

ventos ou das chuvas, nem de leve emurchecida, fica na sua haste solitária,

encantando ainda com as suas cores os nossos olhos quando para ela de longe se

volvem, e para sempre, através da idade, e perfumando a nossa vida.

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Da minha vida sei, pelo menos, que ela perpetuamente será iluminada e

perfumada pela sua lembrança. Eu sou na verdade como um desses pastores que

outrora, caminhando pensativamente por uma colina da Grécia, viam de repente,

ante os seus olhos extáticos, Vênus magnífica e amorosa que lhes abria os braços

brancos. Durante um momento o pastor mortal repousava sobre o seio divino, e

sentia o murmúrio do divino suspirar. Depois havia um leve frêmito – e ele só

encontrava ante si uma nuvem recendente que se levantavam se sumia nos ares por

entre o vôo claro das pombas. Apanhava seu cajado, descia a colina... Mas para

sempre, através da vida, conservava um deslumbramento inefável. Os anos

poderiam rolar, e o seu gado morrer, e a ventania levar o colmo da sua choupana, e

todas as misérias da velhice sobre ele caírem – que sem cessar sua alma

resplandecia, e um sentimento de glória ultra-humano o elevava acima do transitório

e do perecível, porque na fresca manha de Maio, além, sobre o cimo da colina, ele

tivera o seu momento de divinização entre o mirto e o tomilho!

Adeus, minha amiga. Pela felicidade incomparável que me deu – seja

perpetuamente bendita.

Fradique

Fim

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