Cartas por Che Guevara - Versão HTML

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Editor

Analdino Rodrigues Paulino

Capa e Projeto Gráfico

Altamir Tedeschi

Roberto Agune

Produção

Analdino Rodrigues Paulino

Revisão

Marly Arlete de Souza

Eurípedes Rodrigues Filho

Robison Luiz Bernardes

Composição

O Estado de São Paulo

Av. Eng. Caetano Álvares, 55

Fotolitos

Binhos Fotolito Ltda.

Rua Espírita, 97 - Fone: 278.7028

Impressão

Dag — CAgostino Artes Gráficas Ltda.

Rua Maria Cecília, 277 — Fone 266-3219

Direitos Reservados

Edições Populares

(Analdino Rodrigues Paulino Neto)

Rua Dr. Phidias de Barros Monteiro, 7 — Fone 853-5732

05404-São Paulo — Capital

Abril de 1980 — 1* Edição, 5 mil exemplares

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CARTA AOS PAIS

TRIUNFO COM CUBA OU MORRO LÁ

México, 6 de julho de 1956

Cárcere dé Gobernacion*

Queridos velhos:

Recebi sua carta, papai, aqui, na minha nova e delicada

mansão de Miguel Schultz, junto com a visita dé Petit**, que

me fez saber dos temores de vocês. Para vocês fazerem idéia,

contarei o caso:

Fazia algum tempo, bastante tempo já, um jovem líder

cubano me convidou para ingressar em seu movimento, que

era de libertação armada da sua terra, e eu, lógico, aceitei.

Dedicado à ocupação de preparar fisicamente a rapazeada

que um dia deverá pôr os pés em Cuba, enganei vocês nos

dois últimos meses com a mentira de meu cargo de profes-

sor. A 21 de junho (quando fazia um mês que estava fora de

casa, pois fiquei num barraco no subúrbio) caiu preso Fidel

com um grupo de companheiros, e na casa havia o endereço

onde nós estávamos, de maneira que caímos todos na rede.

Eu tinha meus documentos, que me creditavam como estu-

(*) Cárcere do Governo do México: Miguel Schultz

(**) Petit: Ulises Petit de Murat.

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dante de russo no Instituto do Intercâmbio Cultural Mexi-

cano, o que foi suficiente para que fosse considerado um elo

importante na organização, e as agências de notícias amigas

do papai*** começaram a gritar pelo mundo afora.

Isto é uma síntese dos acontecimentos passados, os fu-

turos dividem-se em dois, os mediatos e os imediatos. Dos

imediatos, lhes direi que meu futuro está ligado à libertação

cubana, ou triunfo com ela ou morro lá (essa é a explicação

de uma carta um tanto enigmática que mandei à velha faz

algum tempo). Do futuro mediato tenho pouco a dizer pois

não sei o que vai ser de mim. Estou à disposição do juiz e não

será difícil que seja deportado para a Argentina, a não ser

que eu consiga asilo num país intermediário, coisa que acho

seria conveniente para a minha saúde política.

De qualquer maneira, tendo que sair para o novo des-

terro ou ficando preso neste cárcere, Hilda retornará ao Peru,

que já tem novo governo e concedeu anistia política.

Por motivos óbvios, diminuirei muito a minha corres-

pondência; aliás, a polícia mexicana tem o agradável hábito

de seqüestrar as cartas, é bom que você escreva sobre as

coisas da casa e banalidades. Ninguém acha graça no fato de

um filho da puta inteirar-se dos problemas íntimos da gen-

te, por insignificantes que sejam. Um beijo para Beatriz****,

expliquem por que não escrevo e digam-lhe que não se preo-

cupe em mandar jornais por enquanto.

Estamos às vésperas de declarar uma greve de fome

indefinida, como protesto contra as detenções injustificadas

e as torturas a que foram submetidos alguns dos meus com-

panheiros. O moral de todo o grupo é alto.

Por enquanto continuem escrevendo para a casa.

Se por qualquer causa, que não acredito, não puder

escrever mais e chegar a minha vez de perder, considerem

estas linhas como uma despedida, não muito grandiloqüente

mas sincera. Passei pela vida procurando a minha verdade

(***) Agências noticiosas amigas do papai: refere-se à United Press,

Associated Press etc, em tom de blague, consideradas como amigas.

(****) Beatriz: tia de “Che”, que o amou como uma mãe.

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aos solavancos, e já no caminho e com uma filha que me tor-

na perpétuo, fechei o ciclo. A partir de agora não consideraria

a minha morte uma frustração, apenas como Hikmet:

“só levarei ao túmulo

a tristeza do meu canto inacabado”.

Beijos para todos do

Ernesto

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AOS FILHOS

Meus queridos Hildita, Aleidita, Camilo, Célia e Ernes-

to:

Se algum dia vocês lerem esta carta, vai ser porque eu

já não estarei mais com vocês.

Quase não lembrarão de mim, e os mais pequenos não

lembrarão nada.

Seu pai foi um homem que age como pensa e, certa-

mente, foi leal às suas convicções.

Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito,

para poder dominar a técnica que permite dominar a natu-

reza. Lembrem que a Revolução é o mais importante, e que

cada um de nós, sozinho, não vale nada.

Sobretudo, sejam capazes sempre de sentir profunda-

mente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa

em qualquer lugar do mundo. É a qualidade mais bela de um

revolucionário.

Até sempre, filhinhos, espero vê-los ainda. Um beijo

grande e um abraço do

Papai

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À FILHA HILDA